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domingo, 6 de junho de 2021

ISOLADO NUMA ALA DE SEGURANÇA MÁXIMA QUE DIZ SER "UM TÚMULO", CESARE BATTISTI INICIOU GREVE DE FOME NA ÚLTIMA 4ª FEIRA

A
IstoÉ informa que o escritor Cesare Battisti, arbitrariamente submetido a prisão perpétua na Itália embora suas condenações há muito tenham prescrevido, iniciou na última 4ª feira (02/06) uma "greve de fome e médica". 

Queixa-se de que a ala de segurança máxima da prisão da Calábria na qual se encontra ao lado de condenados por terrorismo islâmico é "um túmulo".

Sua filha Valentine ressaltou que todas as tentativas de obter transferência e, assim, romper um isolamento "que já dura 28 meses", foram sistematicamente rejeitadas. Cesare está com 66 anos e vários problemas de saúde.
Battisti e as filhas em 2009

"Passei 40 anos no exílio levando uma vida de contribuinte totalmente integrado à sociedade civil à custa de uma atividade profissional incessante, com um envolvimento pacífico em iniciativas culturais e beneficentes em todos lugares onde recebi refúgio", desabafou Cesare numa carta à filha. 
(por Celso Lungaretti) 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

BATTISTI INICIA GREVE DE FOME; DEFESA DENUNCIA "VINGATIVO SEPULTAMENTO DE UM INDIVIDUO 40 ANOS APÓS OS FATOS"

Segundo noticia a agência Ansa, o escritor e perseguido político Cesare Battisti iniciou uma greve de fome na cadeia para protestar contra o regime de isolamento diurno ao qual está submetido desde o início de 2019. 

Condenado por quatro homicídios que foi coagido a admitir sob ameaça de receber tratamento extremamente desumano como o que se constata na foto abaixo, de uma cela de prisão de segurança máxima italiana, ele inclusive assumiu a autoria de um assassinato no qual havia impossibilidade material de estar presente na cena do crime! 

E foi enganado, pois não vem recebendo os direitos que negociou com os promotores italianos. 

"Exauridos todos os meios para fazer valerem os meus direitos, me encontro obrigado a recorrer à greve de fome total e à rejeição de tratamentos", afirma o escritor, que continua sendo retaliado até hoje por episódios ocorridos em 1978/1979 e, acima de tudo, por ter adquirido fama como escritor, o que fez dele um troféu cobiçado pela propaganda neofascista, quando Silvio Berlusconi era o premiê. 

Em qualquer país minimamente democrático, uma anistia já teria sepultado esse passado doloroso, no qual os maiores atentados, de longe, foram os cometidos pela extrema-direita (o massacre de Bolonha, que deixou 85 mortos e mais de 200 feridos; e o atentado da Piazza Fontana, no qual morreram 17 e foram feridos 88).
Cela de prisão de segurança máxima italiana

Numa carta divulgada por seu advogado, Davide Steccanella, Battisti alega que o isolamento diurno estava previsto para durar apenas de seis meses. 

Desde que voltou à cadeia depois de cerca de 40 anos de fuga, ele já entrou na Justiça para tentar diminuir sua pena, pediu prisão domiciliar por causa da pandemia do novo coronavírus e reclamou da comida no cárcere, inadequada para um idoso com 65 anos.

Todas as suas solicitações foram sempre, constata ele, "obstinadamente negadas". E denuncia: 
"A Cesare Battisti, não é sequer permitido se surpreender se, no seu caso, algumas leis forem suspensas. É o que me foi passado, sem meios-termos, por diferentes autoridades".
Além do isolamento forçado, o escritor também reclama de atendimento médico insuficiente e da "retenção arbitrária de textos literários". 

Battisti cobra sua transferência para um centro de detenção que "facilite suas relações com a família" e as "conexões profissionais voltadas à sua reinserção" na sociedade. E conclui:
"Peço também que seja revista minha classificação no regime de alta segurança para terroristas, já que não existem mais as condições de risco que a justifiquem"
Já o advogado Steccanella afirma, num pedido enviado recentemente às autoridades penitenciárias, que os "mínimos direitos humanos do detento" devem ser garantidos "até para Cesare Battisti", para que a "legítima execução de uma pena não assuma os contornos de um vingativo sepultamento tardio de um indivíduo 40 anos após os fatos cometidos". 

Finalmente, a defesa queixa-se de que as condições carcerárias que estão sendo impostas a Battisti impedem os contatos por meios eletrônicos com seu filho brasileiro de quase seis anos de idade. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

VEJAM O QUE RESTOU DE UMA GRANDE MARACUTAIA CONTRA A QUAL NOS POSICIONAMOS EM 2007 – 1

Por Celso Lungaretti
Durante o segundo mandato de Lula, eu não enxergava qualquer possibilidade de uma Presidência da República sob o capitalismo servir verdadeiramente aos explorados, pois o Poder que decide, numa democracia burguesa, é o econômico. 

Então, apesar da repulsa que sentia pelo reformismo e o assistencialismo praticados pelo governo federal, eu considerava ocioso criticar as administrações petistas, já que meu foco não era o de melhorar o gerenciamento do capitalismo, mas sim o de fazer avançarem as lutas pela sua superação. 

Não transigia, contudo, no tocante à defesa dos valores mais caros aos revolucionários. Quando tais valores eram atingidos por aquele governo de esquerda que tão pouca afinidade mostrava ter com eles (vinha desprezando-os desde os expurgos que o PT efetuou em suas fileiras na década de 1980), aí sim eu ia à luta. E com toda contundência de que era capaz. 

Foi o que aconteceu durante a greve de fome de D. Luiz Flávio Cappio contra o projeto da transposição das águas do rio São Francisco, porque, sendo as mesmas um recurso que revolucionários sempre utilizaram em situações extremas, eu temia que ficassem definitivamente desmoralizadas. 
Protagonistas de greves de fome fracassadas

Já bastavam os vexames do Lula e do Garotinho para dar-lhes má fama! 

Isto porque em 1980, no vigor de seus 34 anos, Lula desistira após os míseros 6 dias durante os quais recusou alimentação no Dops/SP.

E o robusto Anthony Garotinho em 2006, aos 46 anos, aguentara 11 dias. Ou seja, exatamente um sexto da duração daquela em que morreu o mártir Bobby Sands, do IRA.

Já uma greve de fome vitoriosa que teve lugar no Brasil, a dos quatro de Salvador em 1986 (vide aqui), tanto a imprensa burguesa quanto a esquerda domesticada optaram por ignorar olimpicamente, pois tal êxito não lhes convinha...   

Naquela de 2007, o bispo acabaria entregando os pontos no 23º dia, mas era um sexagenário e sua vontade só fraquejou ao sofrer um desmaio e ser hospitalizado. Aproveitando que ele estava fragilizado, médicos e sacerdotes fizeram sua cabeça.

Antes desse desfecho pífio, eu escrevi o libelo abaixo, postando-o no meu blog principal de então (Celso Lungaretti – O Rebate). E estou trazendo-o para cá porque uma reportagem desta 2ª feira (2) sobre a realidade atual do projeto de transposição lança novas luzes sobre a questão, conforme os leitores verão adiante. 
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LULA VAI MIRAR-SE EM CRISTO OU PILATOS?
Qualquer semelhança entre as frases abaixo NÃO é mera coincidência:
"Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso." (Mateus 27:24)  
"Eu tenho de escolher entre ele, que está fazendo uma greve de fome premeditada, e 12 milhões de nordestinos (...) que precisam da água para sobreviver. E não tenha dúvida que eu ficarei com os pobres." (presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lavando as mãos diante do novo protesto de D. Luiz Flávio Cappio contra o projeto da transposição das águas do rio São Francisco, iniciado no último dia 27)
Resta sempre a esperança de que Lula ponha a mão na consciência e faça a opção correta: não a de repetir Pilatos, que, mesmo não vendo culpa nenhuma em Cristo, foi responsável por seu açoitamento e crucificação; mas sim a de repetir Cristo, que expulsou os vendilhões do templo para evitar que continuasse servindo de covil a ladrões.

O bravo bispo de Barra (BA), que já ficara 11 dias sem alimentar-se em 2005, sustenta que “essa água não é para 12 milhões de pessoas, é para pequenos grupos do capital”, acusando o Governo Federal de difundir “propaganda falsa” e Lula, de desrespeitar o acordo que pôs fim à greve de fome anterior: 
D. Flávio Cappio sendo levado para o hospital

— Nós só suspendemos o jejum lá em Cabrobó porque houve um compromisso para que fossem paralisadas as obras e houvesse negociações. Nós confiamos na palavra do governo. O diálogo teve início, mas logo se acabou. Nós acreditávamos que fosse devido ao ano eleitoral. Quando Lula foi reeleito, nós o procuramos, pedindo a reabertura do diálogo. A resposta do presidente foi o início das obras de transposição, usando o Exército. O governo manteve-se surdo. As coisas ficaram piores. Este é o motivo pelo qual retomei o jejum.

Segundo os opositores, a transposição vai ter impacto extremamente negativo sobre o rio São Francisco (que já está fragilizado e necessitando de urgente revitalização) ao levar suas águas para os grandes açudes do Nordeste, com a principal finalidade de favorecer empreendimentos privados. 

Alegam que, pela metade do custo, poderia ser implementados projetos como o da Agência Nacional de Águas, para beneficiar os 32 milhões de habitantes de mais de mil municípios; e as obras da Articulação do Semi-árido Brasileiro, voltadas para outros 10 milhões. 

Então, tanto em termos ambientais quanto econômicos, seria uma péssima destinação dos recursos públicos. "O governo se tornou a voz de um pequeno grupo da elite e, infelizmente, o presidente Lula se tornou refém do capital internacional", afirma D. Cappio, que desta vez se diz disposto a levar seu protesto até a morte, se não for retirado o Exército e arquivado o projeto. “O rio e o povo merecem.”
Não deveriam envolver Antônio Conselheiro com mamatas!
Ele também rebateu as críticas dos que o acusam de suicida, como o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, para quem “essa postura fundamentalista do bispo vai contra ensinamentos da igreja, como saber que é pecado atentar contra a vida”:

— Eu recomendaria que conhecessem um pouquinho mais a pessoa de Jesus Cristo e a sua doutrina. Que lessem o Evangelho de João 10:10, onde Jesus diz que ele é o bom pastor, que veio pra doar a vida às suas ovelhas. A história da Igreja é uma história de mártires, de homens e mulheres que deram a vida por amor à sua fé, por amor a seus irmãos. 

Finalmente, vale lembrar que personagens históricos da grandeza do Mahatma Gandhi também consideraram válida uma “greve de fome premeditada”, como recurso extremo para tentarem fazer com que a justiça prevalecesse, quando todos os outros caminhos estavam bloqueados. (por Celso Lungaretti, em 05/12/2007)
(continua neste post)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

INTRIGAS EXPLÍCITAS DO JORNAL DA 'DITABRANDA'

Está na Folha de S. Paulo desta 6ª feira: Ex-prisioneiros cubanos criticam Lula.

Numa entrevista coletiva dos dissidentes recém libertados, a colaboradora da Folha em Madri recebeu a tarefa de indagar qual a sua opinião sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O jornal apostou em que ainda estariam indignados com a posição de Lula face à greve de fome que culminou na morte de Orlando Zapata. Não deu outra.

"O Lula se aliou ao crime e não à justiça", declarou Omar Rodríguez.

Outros o secundaram, afirmando que Lula poderia ter salvado a vida de Zapata.

Exageraram: não há como, honestamente, responsabilizá-lo por uma morte ocorrida no próprio dia de sua visita.

Ele e todos os outros presidentes e premiês do mundo, além do Papa, deixaram de intervir em tempo hábil, apelando por Zapata enquanto sua salvação ainda era possível; na enésima hora não adiantaria fazer mais nada.

Também não é Lula o único governante estrangeiro capaz de influenciar decisões dos irmãos Castro.

Na verdade, a greve de fome de Zapata não chamava atenção até o desfecho fatal, mesmo porque vem sendo um recurso utilizado em demasia pelos opositores de consciência cubanos. Deveriam preservá-lo para situações extremas.

Então, o mais provável é que Lula nem sequer soubesse de sua existência.

O grande pecado do nosso presidente foi, ao ser surpreendido por um acontecimento imprevisto, deitar falação sobre o que não lhe dizia respeito:
"A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para libertar pessoas. Imagina se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade!"
Deveria, simplesmente, alegar que se tratava de assunto interno cubano, sobre o qual não lhe cabia se manifestar.


"Pessoalmente, admiro Lula e sua trajetória. Mas foi infeliz na comparação com os detentos de São Paulo e nos deve desculpas", disse outro dissidente, Pablo Pacheco. Corretíssimo.

A Folha também foi à caça, por telefone, de um desabafo do Guilherme Fariñas, que deve ser o recordista mundial em quantidade e duração de greves de fome (nunca imaginei que cubanos se igualassem em determinação aos militantes do IRA...).

Com todo respeito que sua luta merece, ele também deu exemplo de incontinência verbal:
"O Lula é um mal-agradecido. Esqueceu-se de sua essência humana. Sorte para o povo brasileiro que já não pode mais ser eleito".
São palavras ofensivas para o "povo brasileiro", pois dão a entender que este faria a escolha errada se não tivesse a "sorte" de Lula não poder mais ser reeleito.

É outro que deitou falação sobre o que não lhe diz respeito.

O OUTRO LADO

Por último, os leitores certamente estranharão o parágrafo final:
"Ouvido pela Folha, o Palácio do Planalto afirmou que não irá se manifestar sobre as declarações dos ex-presos".
Dá impressão de falta, ou de profissionalismo, ou de argumentos para responder às acusações. Mas, omitiu-se um detalhe importante: o Planalto foi "ouvido" quando e como?

No tempo em que eu trabalhava na Coordenadoria de Imprensa do Governo paulista, o serviço propriamente dito acabava por volta das 21h, mas sempre um de nós ficava de plantão até mais tarde, para qualquer eventualidade.

Acontecia de jornalistas ligarem no fim da noite, querendo saber a posição do governador face a qualquer notícia ou declaração adversa, para publicação na edição que estava fechando.

Era pura má fé: sabiam que não havia a menor chance de obtermos um retorno do governador em tempo hábil.

Meus colegas de trabalho respondiam que era impossível atender a essa solicitação e o repórter, satisfeito, colocava na matéria que o Palácio dos Bandeirantes não tinha se manifestado.

Eu era mais ousado: de tanto processar entrevistas do governador, estava careca de saber qual seria sua reação face ao que estava sendo perguntado.

Então, não só transmitia ao repórter a posição "do Palácio dos Bandeirantes", como o fazia, vingativamente, da forma mais vagarosa possível, saboreando a aflição do jornalista do outro lado da linha, ansioso por entregar o quanto antes sua matéria...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

DESINFORMAÇÃO PROGRAMADA OU PASTELÃO DESAVERGONHADO?

As aparências enganam: esta NÃO é a redação da Folha de S. Paulo.

Em seu lobby repulsivo e ininterrupto para tornar os brasileiros dóceis às imposições italianas, a Folha de S. Paulo martela dia após dia que a esquerda de lá estaria também apoiando o pedido de extradição de Cesare Battisti.

Só que, como esquerda, cita os membros do Partido Comunista Italiano que, acumpliciando-se com os inimigos de classe da democracia-cristã, assumiram o compromisso histórico de garantir sobrevida ao capitalismo até onde a vista alcançasse, tangendo os verdadeiros revolucionários para as ações desesperadas dos anos de chumbo.

Houvessem eles se comportado como verdadeiros homens de esquerda e muitos acontecimentos nefatos teriam sido evitados na Itália!

Depois de trair politicamente o ideário marxista, o PCI ainda fez, como denunciou Battisti, o serviço sujo de liderar a repressão contra a ultraesquerda nas províncias, aproveitando a experiência adquirida na resistência contra o nazismo para desempenhar papel semelhante ao dos nazistas. Hoje mocinho, amanhã bandido...

A se crer na desinformação programada da Folha, a Itália inteira estaria exigindo que o Brasil lhe entregasse como criminoso comum aquele a quem condenou em 1988 como criminoso político, enquadrado e sentenciado em lei instituída para coibir a subversão contra o Estado.

Em nenhum momento o jornal se defronta com a argumentação irrefutável do ministro Marco Aurélio de Mello, que em seu voto no STF leu longamente os trechos da sentença italiana, comprovando existirem nada menos do que 34 citações caracterizando os crimes em questão como subversivos.

A Folha me fez lembrar uma saborosa crônica de uns 40 anos atrás, sobre um estrangeiro que visitou Londres, ansioso por conhecer o flower power trombeteado em prosa e verso pela imprensa.

Chegou, viu... e nenhuma psicodélia encontrou! A cidade era a mesmíssima de sempre.

Aí, resolveu visitar um grande jornal, para perguntar aonde estavam, afinal, aqueles ambientes hippies que suas matérias tão minuciosamente descreviam.

Ao entrar na redação, olhou as paredes carregadas de pôsteres, viu os trajes coloridos e as vastas cabeleiras da equipe, sentiu o inconfundível cheiro de maconha. E aí lhe caiu a ficha: era lá, e só lá, que existia a tal swimming London!

Da mesma forma, a Itália que clama em uníssono pela extradição de Battisti só existe nas redações da Folha e dos demais veículos tendenciosos de nossa velha imprensa indigna.

É de um ridículo atroz tentarem fazer-nos crer que uma questiúncula dessas tenha se tornado uma questão de vida ou morte para o homem das ruas italiano.

A desinformação programada, neste caso, está mais para pastelão desavergonhado...

Tão desavergonhado, aliás, que a Folha admite: "tem ouvido nos últimos dias" o "promotor que obteve a condenação do terrorista, Armando Spataro".

Para quem não sabe, trata-se de um personagem sinistro, alvo de um rosário de denúncias das instituições de defesa dos direitos humanos, envolvido com torturas e até assassinatos de membros da ultraesquerda.

O que o jornal fez foi equivalente a invocar o fidedigno testemunho de Brilhante Ustra para denegrir Vladimir Herzog...

FIM DA GREVE DE FOME - Atendendo ao apelo dos apoiadores de sua causa, Cesare Battisti decidiu, no 10º dia, interromper seu protesto contra a perseguição rancorosa e injusta que a Itália lhe move em dois continentes.

Como a perspectiva é de que o acórdão da sentença do Supremo Tribunal Federal só seja publicado daqui a mais de três meses -- quando então, e só então, o caso passará à alçada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para a decisão final --, a posição unânime dos cidadãos que prestam solidariedade ativa a Battisti foi a de recomendar-lhe o encerramento do jejum.

sábado, 14 de novembro de 2009

BATTISTI ANUNCIA GREVE DE FOME E ENTREGA SUA VIDA NAS MÃOS DE LULA

Detido em março de 2007 e mantido em prisão ilegal e arbitrária nos últimos dez meses, com o Supremo Tribunal Federal abusivamente ignorando que o Governo brasileiro já lhe concedeu o direito de viver em liberdade no nosso país, o escritor e perseguido político italiano Cesare Battisti não aguentou mais: entrou nesta sexta-feira (13) em greve de fome, na penitenciária da Papuda (DF).

Por meio do senador José Nery (PSOL/PA), Battisti encaminhou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva carta em que explica a sua decisão:
"Espero com isso impedir, num último ato de desespero, esta extradição, que para mim equivale a uma pena de morte. Sempre lutei pela vida, mas se é para morrer, eu estou pronto, mas, nunca pela mão dos meus carrascos. Aqui neste país, no Brasil, continuarei a minha luta até o fim, e, embora cansado, jamais vou desistir de lutar pela verdade. A verdade que alguns insistem em não querer ver, e este é o pior dos cegos, aquele que não quer ver".
A mensagem, que já se encontra em mãos do secretário geral da Presidência Luiz Dulci, faz menção ao passado militante de "muitos companheiros que hoje são responsáveis pelos destinos do povo brasileiro". Pois, sendo comprovadamente inocente dos crimes que lhe imputam, Battisti atribui a perseguição encarniçada que a Itália lhe move à tentativa de criminalização dos movimentos sociais que tiveram origem nas primaveras de 1968.

E faz um apelo dramático a Lula:
"Entrego minha vida nas mãos de Vossa Excelência e do Povo Brasileiro".
Chega-se, assim, à etapa que os movimentos de apoio a Battisti tanto temiam e tentaram evitar: a da colocação de sua vida em grave risco.

Pois, não só como partidário de sua causa, mas como jornalista com credibilidade a preservar, afirmo: Cesare irá até o fim.

CRISES DE DEPRESSÃO TÊM
SIDO FREQUENTES EM 2009


Mesmo após a terrível decepção sofrida na França, quando, sob pressões de todo tipo da Itália (incluindo uma campanha midiática quase idêntica à ora desenvolvida no Brasil), aquela nação desonrou o solene compromisso assumido pelo presidente Mitterrand com os asilados da ultraesquerda italiana, Battisti queria acreditar que desta vez seria diferente.

Ao mesmo tempo, ele era sempre o primeiro a advertir que a Itália repetia passo a passo a estratégia que deu certo na França. Este fantasma o assombra há tempo.

A gota d'água foi a inacreditável e inqualificável decisão do STF, de mantê-lo preso após já ter conquistado, para todos os efeitos, seu direito à liberdade, em janeiro último.

Desde então, vem sofrendo crises de depressão, mitigadas por medicamentos.

Supondo que a tendenciosidade no Supremo se limitasse ao presidente Gilmar Mendes e ao relator Cesar Peluso, Battisti cobrou insistentemente de seus apoiadores que exigissem a marcação do julgamento.

Mendes a vinha postergando indefinidamente e só cumpriu com seu dever quando questionado pelo maior jurista brasileiro da atualidade, Dalmo de Abreu Dallari, que o acusou de estar retaliando Battisti com uma prisão sem condenação.

Mas, evidenciou-se no julgamento que Mendes e Peluso não estavam sozinhos na faina de utilizar o Supremo como ponta de lança de uma escalada reacionária para minar a autoridade do Governo Lula e criminalizar os movimentos sociais.

O relatório de Peluso -- caso praticamente único em que, num episódio tão controverso, o relator acompanhou os acusadores em TODAS as questões, ignorando completamente os argumentos da defesa e tratando com arrogância ultrajante o arrazoado de um ministro de Estado -- abalou ainda mais a confiança de Cesare numa sentença justa.

Passou a afirmar que só se podia confiar nos movimentos sociais, pois a eles a Itália não conseguiria comprar nem intimidar.

AS PROVAS SURGEM...
E DE NADA ADIANTAM!


A entrada de um membro da Anistia Internacional dos Estados Unidos na luta -- Carlos Lungarzo, professor aposentado da Unicamp -- trouxe novas esperanças a Cesare: finalmente, havia fartura de provas documentais das torturas e das distorções jurídicas em que a Itália incorreu durante a repressão aos grupos de ultraesquerda nos anos de chumbo.

Até por respeito ao grande esforço que estava sendo desenvolvido por seus advogados e defensores voluntários para municiar os ministros do Supremo com as provas da verdade até então escamoteada, Battisti não se declarou em greve de fome antes do reinício do julgamento, na última quinta-feira (12).

Em seu voto, o ministro Marco Aurélio de Mello incorporou algumas das informações contidas nos relatórios da Anistia Internacional disponibilizados por Lungarzo.

Ademais, praticamente desconstruiu o relatório de Pelluso:
  • provando ser totalmente descabida (para não dizer falaciosa) a argumentação que este utilizara para justificar a usurpação da prerrogativa do Executivo de conceder refúgio;
  • revelando que a sentença italiana contra Battisti contém nada menos do que 34 menções ao fato de que os delitos praticados pelos Proletários Armados para o Comunismo eram políticos ("subversão contra o poder do Estado");
  • demonstrando irrefutavelmente que Battisti estaria sujeito a retaliações e correria sérios riscos na Itália; e
  • também irrefutavelmente, estabelecendo que os delitos a ele imputados já estão prescritos.
Exatamente por ser tecnicamente perfeito e haver refutado de forma tão cabal os principais pontos do relatório de Peluso, o voto de Marco Aurélio convenceu Battisti de que está sendo submetido a um julgamento político no STF: autênticos juristas, comprometidos unicamente com a verdade e a Justiça, teriam mudado seu voto.

Ele dava como casos perdidos Mendes e Peluso, mas tinha esperança de que a moeda caísse para os demais e eles recusassem o papel de linchadores. Nova decepção.

ENTRA COMBALIDO NI JEJUM:
JÁ HAVIA PERDIDO 5 QUILOS

E, ao ficar sabendo das declarações do porta-voz da Presidência, Marcelo Baumbach, segundo quem seu caso não estava excluído da pauta do encontro entre o presidente Lula e o premiê italiano Silvio Berlusconi na próxima 2ª feira (16), Battisti temeu que, como no episódio francês, as razões de estado (inclusive acordos comerciais) prevalecessem sobre o imperativo da Justiça.

Daí a decisão de se declarar em greve de fome.

O próprio nervosismo e ansiedade já vinham impedindo que se alimentasse direito. Vomitava o que ingeria e perdeu cinco quilos neste mês. Entra muito fragilizado no jejum, além de ser naturalmente magro.

Ou seja, não demorará muito para correr perigo de vida.

Que cada autoridade envolvida reflita se é esse mesmo o final que deseja para o caso; se quer passar à História como quem poderia evitar e não evitou a morte de Cesare Battisti.

A mim me parece simplesmente monstruoso que um homem morra em função de crimes ocorridos há mais de trinta anos, pelos quais foi condenado em processo sem testemunhas isentas, sem provas, sem perícias que se impunham e sem exercício real do direito de defesa.

E, ademais, que morra após ter demonstrado à sociedade que não oferece risco nenhum para ela, pois leva vida pacata e produtiva há nada menos do que três décadas.
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