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segunda-feira, 10 de outubro de 2022

BATALHA DE URNARARÉ: MILITARES SE RETIRAM SEM RECONHECER A DERROTA

jânio de freitas
INVESTIDA CONTRA URNAS AGORA TEM SILÊNCIO SEM DEFESA

Em condições anormais, o percurso daqui ao dia 30 se encerrará com vitória do ex-presidente Lula. 

Contudo, não está extinto o risco de que se volte ao que é a normalidade destes tempos, sucessão impune de aberrações e crimes do governo, um tanto contidos desde o 1º turno eleitoral.

A combinação de derrota inapelável do golpismo na batalha inicial e condições mais promissoras para Lula nos dados preliminares, não garante sucessão tranquila com possível derrota de Bolsonaro.

O Tribunal Superior Eleitoral proclamou os 100% de aprovação às urnas e à contagem. Importa pouco ou nada o silêncio de Bolsonaro a respeito. Não é o caso do Ministério da Defesa e do general-ministro Paulo Sérgio Nogueira.
Foram a infantaria no ataque às urnas e à lisura eleitoral, dando realidade às circunstâncias golpistas em que Bolsonaro foi e é o instigador.

A investida da Defesa em nome dos militares, sem precedente algum que a justificasse, foi pública e documentada em questionamentos com óbvio propósito de induções na opinião geral.

Os experts informáticos e eleitorais das Forças Armadas perscrutaram os intestinos das urnas e os hipotéticos mistérios do processo. O próprio general pôde conhecer a iluminada e transparente sala secreta e escura denunciada pelo despudor de Bolsonaro.

Quantas fraudes ou indícios a operação militar detectou? E as urnas, que tal? Ou não era no processo eleitoral que estava o desvio alegado pela operação?

É razoável esperar que a Defesa e seu ministro cumpram o dever de informar o país sobre o assunto com que o inquietaram. E o diminuíram no mundo. 

Oposição à democracia não isenta de deveres. (por Jânio de Freitas)

sexta-feira, 22 de maio de 2020

SE NÃO QUISER FAZER O PAPEL DE 'ESCADA' PARA BUFÃO MAMBEMBE, CELSO DE MELLO DEVE IGNORAR A NOVA PIRUETA DO BOZO

Tal qual os zumbis, Jair Bolsonaro já morreu como presidente da República, mas, enquanto espera o rabecão institucional vir removê-lo do Palácio do Planalto, continua querendo comer o coração dos vivos, ao atacá-los com seus movimentos espasmódicos. 

Então, antes de ser sepultado sob uma montanha de crimes de responsabilidade, delitos comuns e cadáveres dos coitadezas cuja morte causou com sua conduta genocida durante a pandemia, ele ainda tenta escolher o tereno para sua última tentativa de continuar mais tempo envergonhando a faixa presidencial.

A oportunidade surgiu quando o ministro Celso de Mello, do Supremo, encaminhou ao procurador-geral da República Augusto Aras um pedido de parlamentares de oposição: eles relataram alguns dos indiscutíveis crimes cometidos por Bolsonaro no caso das pressões ilegais contra a Polícia Federal para tentar livrar a cara dos príncipes herdeiros envolvidos com as gangues de milicianos e requereram a apreensão dos celulares de Jair, Carlos e da deputada Carla Zambelli.

Celso de Mello nada mais fez do que seguir a praxe, pois, quando recebe uma notícia-crime, a primeira providência que um ministro do STF tem de tomar é remetê-la para análise do Ministério Público Federal, a quem cabe decidir se os fatos narrados devem ou não ser investigados. 

Foi o suficiente para Bolsonaro, por meio do seu assessor militar mais identificado com a ditadura de 1964-1985 –o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno–, antecipar que desobedecerá qualquer decisão do Supremo mandando entregar o celular.

Mas, se o procurador-geral da República tem evidenciado possuir uma sintonia mediúnica com Bolsonaro, norteando sua atuação pelos mais ínfimos desejos presidenciais, por que Bolsonaro desde já ameaçaria virar a mesa, antes mesmo de Augusto Aras emitir seu parecer e Celso de Mello bater o martelo?

Só existem duas hipóteses plausíveis:
1. sabendo que está em marcha desembestada para o abismo, Bolsonaro quer embaralhar os motivos de seu afastamento compulsório de um cargo que nunca foi capaz de desempenhar a contento, do ponto administrativo, político, constitucional, ético, de decoro presidencial y muchas otras cositas más, para se fazer passar por um injustiçado que caiu defendendo supostas prerrogativas presidenciais e não por haver se portado o tempo todo como um estuprador serial da Constituição; 
2. confiante de que Augusto Aras desencavará qualquer filigrana jurídica para evitar a entrega do celular comprometedor, quer travar uma batalha de Itararé, para depois poder trombetear aos quatro ventos que desafiou o Supremo e o botou pra correr.

Resumo da ópera: não passa de mais uma função amalucada e grotesca do Circo do Bozo. O melhor que Celso de Mello tem a fazer é ignorá-la, não servindo de escada para bufão mambembe.

Com a avalanche de provas já existentes para impichar Bolsonaro, que falta fazem as que possam estar contidas nesse nauseabundo celular? 

Um presidente tão desprezível não merece sequer chance para jus sperniandi, tem de ser metodica e serenamente submetido a processo, condenado e expelido com desonra, como já o foi em 1988. 

Isto se não tiver sequer a dignidade de renunciar logo, para que possamos começar a reconstruir o país. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

CHAMAM-NA DE REFORMA DA PREVIDÊNCIA; NOVES FORA, NÃO PASSA DA REPETIÇÃO DO BAILE DA ILHA FISCAL COMO FARSA.

Eis aqui o baile da Ilha Fiscal, às vésperas da derrubada da monarquia no Brasil...
simone bitar
BAILE DA ILHA FISCAL: O ÚLTIMO
SUSPIRO DA MONARQUIA NO BRASIL
O vaivém não parava. Eles desciam das barcas a vapor e moças em trajes de fadas e sereias os recepcionavam. O tilintar das taças se misturava aos risos e à música. Nunca se havia visto no Brasil tanto luxo. Tudo havia sido preparado para fazer do Baile da Ilha Fiscal, promovido por D. Pedro II no sábado, 9 de novembro de 1889, um evento inesquecível.

A ilha Fiscal contava com um gerador, instalado num barracão ao lado do palacete, que forneceu eletricidade para milhares de lâmpadas dentro e fora do edifício. Além das milhares de velas, balões e lanternas venezianas, os holofotes do couraçado Almirante Cochrane e de outros navios da Marinha ancorados ali perto faziam com que a ilha fosse o lugar mais iluminado do mundo, como escreveram os jornais da época.
...e aqui, a aprovação no Senado da reforma da Previdência, que já nasce superada pela crise capitalista
Na ocasião, ironicamente, houve um momento de descontração quase premonitório: o velho Pedro, ao andar pelos salões, teria tropeçado num tapete e quase levado um tombo bruto. 

Na situação, o imperador disse: "O monarca tropeçou, mas a monarquia não caiu". Por ironia do universo, em uma semana o Bragança não precisaria titubear para que a piada tivesse um plot twist.

Aquela foi a última festança do Império. Seis dias depois, o imperador seria deposto. Como toda balada que se preze, havia um motivo um tanto protocolar para a festa, por mais que as 2 mil pessoas presentes não dessem muita bola: homenagear o alto escalão do couraçado chileno Almirante Cochrane, ancorado no Rio de Janeiro havia duas semanas.

Mas, na verdade, era para celebrar as bodas de prata da princesa Isabel e do conde d’Eu e provar que a monarquia seguia viva e forte (pura balela!). No baile – um sucesso – o clima era calmo, mas Pedro II pouco se divertiu.
Agora, só resta aguardarmos a imensa felicidade que uma reforma idêntica trouxe aos chilenos
Na festança foram consumidos 188 caixas de vinho, 80 caixas de champanhe e 10 mil litros de cerveja, além de licores e destilados. O dinheiro gasto no baile, 100 contos de réis, foi retirado do Ministério da Viação e Obras Públicas.

No total, 48 cozinheiros trabalharam por três dias para alimentar os convidados, servidos por 150 copeiros. O cardápio tinha peças inteiras de caça e pesca e uma infinidade de aves exóticas, Mesas em forma de ferradura foram colocadas no pátio para servir o jantar. Entre as sobremesas, sorvete, novidade da época.

Chiques e famosos embarcavam em três vapores que saíam do cais Pharoux, na atual praça 15 de Novembro, centro do Rio. Lá, uma banda da polícia animava a noite do povo – com nada de valsa. Duas bandas militares tocaram quadrilhas, valsas, polcas e mazurcas para os convivas, que dançaram em seis salões do castelo – a princesa Isabel foi uma das pés-de-valsa. (por Simone Bitar, para a Aventuras na História).
TOQUE DO EDITOR — Será necessário repetir pela enésima vez que a reforma da Previdência parida pelo mercador de ilusões Paulo Guedes, além de ser mais um passo no sentido da desumanização do Brasil e da insensibilização dos brasileiros face à agonia dos desprotegidos, só produziria o almejado efeito de alavancar a retomada do crescimento econômico se ainda estivéssemos na década passada (mais precisamente, antes da crise do subprime, em 2008)?

Creio que não. Os leitores do blog, principalmente dos artigos do Dalton Rosado, estão carecas de o saber. O triunfo tão festejado pelo mercado, pelos reaças e pela mídia manipuladora não passou de uma batalha de Itararé. Não tirará o país do sufoco.

E nem mesmo vai ter as consequências alarmistas que a esquerda desvirtuada trombeteou, pois o estoque de paliativos com que o capitalismo tem driblado a depressão anunciada está chegando ao fim. 

Ou seja, o tsunami econômico deverá chegar para os trabalhadores antes do momento em que se aposentariam caso não tivesse havido a festa pobre que o sistema armou pra nos convencer. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 2 de outubro de 2018

O VALE-TUDO ELEITORAL TEM DEDO NO OLHO, CHUTE NA VIRILHA E DESFAÇATEZ ILIMITADA

Sempre combati a censura, primeiramente por princípio; e também por haver sido uma de suas vítimas menores.

É que a ditadura militar, afora os quatro processos que me moveu por subversão, também me fez perder tardes inteiras com um quinto, totalmente descabido, relativo à minha atuação jornalística (a acusação não tinha nem pé, nem cabeça, mas a lengalenga se arrastou por um tempão e só no julgamento o Ministério Público finalmente reconheceu o óbvio, recomendando minha absolvição). 

Então, tenho autoridade moral de sobra para dizer que a pendenga Folha de S. Paulo x STF não passa de uma Batalha de Itararé, aquela que não houve.

O ex-presidente Lula teve sua candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral porque a corte entendeu que sua condenação na Justiça Comum o privara desse direito, de acordo com a Lei da Ficha Limpa.

Ora, se não pode ser candidato, evidentemente também não pode influenciar em grande estilo o resultado do pleito.

Nem de longe ele está sendo censurado, pois recebe visitas aos montes e esses visitantes dão a público tudo que ele que divulgar. Afora as cartas escritas dentro da prisão e amplamente divulgadas fora dela.

Se, além dessa situação tão especial, nem de longe estendida a outros presos, autorizar-se a realização de uma entrevista alguns dias antes do 1º turno, com direito à entrada na prisão da entrevistadora e "respectiva equipe técnica, acompanhada dos equipamentos necessários à captação de áudio, vídeo e fotojornalismo", o que se criará é, obviamente, um fato eleitoral de primeira grandeza. 

Publicada na véspera ou no dia do pleito, com o previsível estardalhaço, inevitavelmente influenciará decisões de votos. E dará a um cidadão que a Justiça Eleitoral considerou não estar no gozo de seus direitos políticos peso decisivo numa eleição presidencial! 

Como todos sabemos que Lula nada terá a dizer que já não haja dito zilhões de vezes e seus pombos-correios não cansam de repetir para os brasileiros, o que se quer é apenas criar um tipo de showmício às vésperas da eleição. 

A Folha clama por liberdade de expressão, mas o que realmente almeja é a liberdade de espetacularização da política, o que tem mais a ver com business jornalístico do que com quaisquer convicções ideológicas.

Sendo o Jair Bolsonaro um presidenciável totalmente inaceitável para os civilizados, eu até poderia ver bons olhos algo que servisse para diminuir o risco de uma invasão bárbara. Mas, não com tanta desfaçatez e de forma tão oportunista!
Passemos para outra distorção: concordo em gênero, número e grau com a avaliação de que a impugnação de 3,6 milhões de eleitores por não terem cadastro biométrico é uma aberração e, mais do que qualquer urna eletrônica, coloca a eleição sob suspeita, pois até as pedras das ruas nordestinas sabem que a grande maioria votaria no Lula.

E mais uma: salta aos olhos e clama aos céus que o juiz Sérgio Moro decidiu quebrar neste exato instante o sigilo de trechos da delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci para causar consequências eleitorais. 

Desse jeito, vou acabar acreditando que os paladinos da Lava-Jato querem mesmo é que o candidato da suástica tupiniquim chegue ao Palácio do Governo, conforme afirmou um colunista do qual discordo em 99% das vezes (será esta a exceção que serve para confirmar a regra?).

A atual eleição está sendo muito educativa: põe a nu, elevadas à máxima potência, as mazelas da democracia burguesa.

É uma lástima que, pela desgraceira que a eleição de um nazista destrambelhado tenderia a causar, eu não possa, desta vez, recomendar a meus leitores o voto nulo. Sinto-me lesado...

terça-feira, 21 de novembro de 2017

TÃO RIDÍCULA QUANTO A 'BATALHA DE ITARARÉ' (QUE NÃO HOUVE) FOI A 'GUERRA DA LAGOSTA' (IDEM). VAMOS RELEMBRÁ-LA?

Graças ao genial jornalista e escritor Aparício Torelly, pioneiro no humorismo político em nosso país, é bem conhecido o episódio ridículo de 1930, quando as tropas insurgentes de Getúlio Vargas marcharam em direção aos contingentes leais a Washington Luiz e se criou a expectativa de que travassem uma grande batalha em Itararé, na divisa entre PR e SP.  

No entanto, o presidente desistiu de resistir, entregando o poder a uma junta governativa; assim, nem um único tiro acabou sendo disparado. Foi quando o mordaz Torelly, num artigo hilário, outorgou a si próprio o título de Barão de Itararé, como herói da batalha que não houve...

Mais ou menos na mesma linha é a guerra da lagosta, que também não houve, entre Brasil e França. Por causa dela, até hoje se atribui ao então presidente francês, o general Charles De Gaulle, uma frase que ele não disse mas resume magnificamente a índole nacional...

Eis uma ótima reconstituição do episódio que o jornalista gaúcho Chico Pereira publicou no seu blogue:

"...De Gaulle nunca disse que o Brasil não era um país sério. O autor da frase é o diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, embaixador do Brasil na França entre 1956 e 1964, genro do presidente Artur Bernardes.

Rolava o ano de 1962 e o contencioso entre o Brasil e França, conhecido como a guerra da lagosta... O casus belli girava em torno da captura de lagostas por parte de embarcações de pesca francesas, em águas territoriais brasileiras, mais precisamente no litoral de Pernambuco. 

Alertado por pescadores brasileiros, a notícia chegou até o terceiro andar do Palácio do Planalto. O presidente João Goulart após reunião do Conselho de Segurança Nacional, mandou despachar para a região um formidável – se considerado o tamanho da ameaça – contingente da Esquadra Nacional, apoiado pela Força Aérea Brasileira. 

De Gaulle, por sua vez, convocou o embaixador brasileiro para uma conversa no Palácio do Eliseu, sede do governo francês.

Detalhe: O episódio serviu para a imprensa francesa lançar um desses debates que embalam a França. A lagosta anda ou nada? Caso nadasse poder-se-ia considerar que estava em águas internacionais; caso andasse, estaria em território brasileiro, uma vez que se admitia à época que o fundo do mar pertencia ao Brasil. 

No debate diplomático, a tese francesa, naturalmente, sustentava que a lagosta nadava. Sem contato com o leito oceânico, poderia ser considerada como peixe. Portanto passível de ser pescada legalmente pelos franceses. 

O almirante Paulo Moreira da Silva, especialista da Marinha contrapôs os franceses com um argumento singelo: Se a lagosta fosse considerada peixe quando dá seus pulos se afastando do fundo submarino, então teria, da mesma maneira, que ser acatada a premissa do canguru ser uma ave, quando dá seus saltos.
O cruzador Tamandaré, escoltado por quatro contratorpedeiros.
Na noite que seguiu a conversa com De Gaulle, o embaixador Alves de Souza Filho foi convidado para uma festa na casa do presidente da Assembléia Nacional, Jacques Chaban-Delmas. Nota-se que a guerra não era tão séria assim. 

Na recepção, o embaixador foi interpelado por outro convidado brasileiro, o jornalista Luís Edgar de Andrade, correspondente do Jornal do Brasil em Paris. O correspondente assuntou o embaixador a respeito da conversa com De Gaulle em particular e sobre o quadro geral da crise. 

Alves de Souza Filho sempre achou o governo brasileiro inábil no trato da questão a nível diplomático... (então) arrematou a conversa informal, off the record no jargão jornalístico, com a famosa frase: 'O Brasil não é um pais sério'. 

O embaixador Carlos Alves de Souza relatou o caso em seu livro Um embaixador em tempos de crise (Livraria Francisco Alves Editora, 1979):
'Provavelmente o jornalista telegrafou ao Brasil não deixando claro se a frase era minha ou do general De Gaulle, com quem eu me avistara poucas horas antes desse nosso encontro casual. Luís Edgar é um homem correto, e estou certo de que o seu telex ao jornal não teve intuitos sensacionalistas. 
Mas a frase pegou. É evidente que, sendo hóspede do general De Gaulle, homem difícil, porém muito bem educado, ele, pela sua formação e temperamento, não pronunciaria frase tão francamente inamistosa em relação ao país do chefe da Missão que ele mandara chamar. Eu pronunciei essa frase numa conversa informal com uma pessoa das minhas relações. A história está cheia desses equívocos'".
Por último, uma curiosidade. Na época foi lançada em disco uma ótima paródia sobre o episódio, utilizando a música da marcha carnavalesca Cachaça não é água (de Carmen Costa e Colé), mas com a letra inteiramente alterada. 

Ficou assim: "Você pensa que lagosta é peixe? / Lagosta não é peixe, não! / Peixe é bicho que nada, / crustáceo não nada, não! /// Pode faltar tudo ao brasileiro: / arroz, feijão e pão. / Mas, a lagosta é nossa, / De Gaulle não bota a mão! /// Pode mandar vaso de guerra, / disto até acho graça: / por causa da lagosta, / até eu vou sentar praça!".

quinta-feira, 11 de maio de 2017

LULA x MORO: QUEM FOI O VENCEDOR?

Daquela vez um humorista deitou e rolou
Como diria Fiori Gigliotti, um conhecido locutor esportivo do passado, fecham-se as cortinas e termina o espetáculo

Os que torceram desbragadamente para o réu ou para o julgador, agora querem saber o placar final. Quem piscou primeiro? Quem foi mais rápido no gatilho? Quem mordeu o pó da derrota?

A resposta é simples: nenhum deles. Pois tudo não passou de mais uma Batalha de Itararé.

Para as novas gerações, tão desconhecedoras e indiferentes ao que ocorreu antes de gloriosamente chegarem ao mundo, rememoro. 

Corria o ano da graça de 1930. As tropas insurgentes de Getúlio Vargas vêm do Rio Grande do Sul para tentarem tomar a capital federal (Rio de Janeiro). Os efetivos leais ao presidente que elas querem depor, Washington Luiz, esperam-nas no município de Itararé, na divisa entre SP e PR. Canta-se em prosa e verso aquela que será a mais formidável e sangrenta das batalhas.

Mas, nem um único tiro chega a ser disparado; antes disso, o presidente bate em retirada, entregando o poder a uma junta governativa.

Ironizando, o grande humorista Aparício Torelly escreve que, como nada lhe reservaram no rateio de cargos governamentais entre os vencedores, ele próprio se outorgaria a recompensa:
"O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. 
Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve".
Desta vez a grande imprensa lucrou muito com o factoide 
Até agora, nem o juiz Sérgio Moro nem o acusado Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República do Brasil, reivindicou o título de Barão de Curitiba.

E nem era de esperar-se que a oitiva do réu terminasse com um deles detonando o outro. Só ingênuos pouco familiarizados com a Justiça sonhavam com Moro forçando Lula a confessar que comeu nas mãos das empreiteiras, ou Lula provando que o verdadeiro objetivo de Moro é impedir sua candidatura a presidente em 2018...

Deu para notar-se um insistente empenho de Moro em arrancar algo mais de Lula, embora o fizesse sempre de forma educada e respeitosa. Podemos conjeturar que ele não alongaria tanto o interrogatório no caso de um réu que não equivalesse a um troféu, mas a coisa para por aí: ninguém pode recriminar um juiz por ser zeloso.

Quanto a Lula, a derrapada mais marcante foram suas hesitações ao tentar explicar o encontro que manteve com o ex-diretor da Petrobrás Renato Duque e o sócio da OAS Léo Pinheiro, articulado pelo então tesoureiro do PT João Vaccari Neto. Pareceu estar pisando em ovos, o que pode ter algo a ver com as atuais negociações de Duque para fazer delação premiada. Dependendo do que vier pela frente, sua credibilidade poderá ficar bem arranhada.

Eu, particularmente, preferiria que ele não parecesse estar insinuando que Marisa Letícia teria alguma responsabilidade no imbróglio do triplex, mas sei que me atenho a valores morais do passado, hoje em desuso...

De resto, nada ocorreu com importância e/ou impacto suficientes para influir na sentença que Moro deverá anunciar lá pela metade do ano, nem para servir como um poderoso trunfo positivo ou negativo na próxima campanha eleitoral do Lula (caso ele não venha a estar impedido de disputar o pleito).

Vida que segue.

sábado, 24 de agosto de 2013

OS MÉDICOS CUBANOS, O BARÃO DE ITARARÉ E O GRANDE BARDO

ano é 1930. As tropas insurgentes de Getúlio Vargas vêm do RS para tentarem tomar a capital federal (Rio de Janeiro). Os efetivos leais ao presidente que elas querem depor, Washington Luiz, esperam-nas na cidade de Itararé, divisa entre SP e PR. Canta-se em prosa e verso aquela que será a mais formidável e sangrenta das batalhas.

Mas, nem um único tiro é disparado: antes, o presidente bate em retirada, entregando o poder a uma junta governativa.

Ironizando, o grande humorista Aparício Torelly escreve que, como nada lhe reservaram no rateio de cargos governamentais entre os vencedores, ele próprio se outorgaria a recompensa:
"O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve".
Uma  batalha que não houve  é o desfecho para o qual se encaminha a pendenga entre associações médicas e o Governo Federal, pois inexiste qualquer base legal para elas se queixarem à Justiça ou chamarem a polícia, numa retaliação corporativa à importação de profissionais cubanos. É tudo blefe, dos mais patéticos.

Se algum energúmeno tentar, vai perder e se desmoralizar. Ponto final.

Quanto ao  presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, João Batista Gomes Soares, que prometeu orientar os médicos do Estado a não corrigirem eventuais erros dos cubanos, está simplesmente aconselhando-os a incorrerem no crime de  omissão de socorro

Merece não só perder a  boquinha, como ser excluído da profissão e até processado criminalmente. Ao invés do juramento de Hipócrates, segue o juramento de hipócrita, colocando as suas pirraças acima da integridade física e até da vida dos pacientes. 

No que tange ao xis do problema, o Ministério da Saúde deveria ter encaminhado o assunto de uma forma mais perspicaz, exortando as entidades médicas a assumirem o compromisso de garantir o atendimento dos coitadezas dos grotões, dentro das disponibilidades orçamentárias da Pasta.

Se prometessem e cumprissem, maravilha.

Se alegassem ser-lhes impossível fornecer tal garantia, então não teriam moral para criar empecilhos à solução alternativa que as autoridades resolvessem adotar. Simples assim.

Sendo leigo em medicina, não me porei a discutir se os cubanos estão ou não suficientemente qualificados para cuidar de cidadãos brasileiros. 

Mas, pragmaticamente, as pessoas sem antolhos ideológicos decerto concluirão que a presença de quaisquer médicos nas comunidades carentes é melhor do que deixá-las em completo abandono. Se os doutores caribenhos se dispõem a trabalhar nas mesmas condições que os mercenários brasileiros recusam, então temos mais é de ser-lhes gratos. Simples assim... de novo!

Além da  batalha de Itararé, este vergonhoso episódio e o destaque desmesurado que lhe é dado pela imprensa canalha me fez lembrar Shakespeare: trata-se de muito barulho por nada elevado à enésima potência...

P.S.: depois de escrito este artigo, veio à tona o estranho esquema de pagamentos adotado no programa Mais Médicos. O dinheiro vai para as autoridades cubanas, que repassam só uma parte para os doutores, confiscando mais da metade. A colunista que aludiu a  condição análoga à escravidão  exagera, mas não deixa de ter certa razão. E, com isto, passaram a existir fundamentos legais para o questionamento do programa nos tribunais. Os responsáveis pela lambança deram, de mão beijada, a munição que faltava para os anticomunistas e/ou corporativistas extremados. Afora isto, o advogado geral da União, Luís Inácio Adams, declarou  parecer  a ele que os médicos caribenhos não têm direito a asilo político, se o solicitarem. Mas, como não cabe à AGU alterar a Constituição, tal direito continua existindo e o asilo tem de ser assegurado, não questionado, independentemente do que pareça ou deixe de parecer ao Adams.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

CÂMARA x STF = BATALHA DE ITARARÉ OU GUERRA DA LAGOSTA?

"Pode mandar vaso de guerra,
disto até acho graça:
por causa da lagosta
até eu vou sentar praça"
(autoria desconhecida)
Um atestado de nosso subdesenvolvimento político e mental, pior e mais duradouro do que o econômico (o qual, dizem, já superamos, embora eu não veja como nação desenvolvida uma que tem distribuição de renda tão desigual e IDH tão vexatório) é a absoluta incapacidade de colocarmos valores e princípios acima dos interesses imediatos.

O que conta são os beneficiários e prejudicados em cada episódio; racionálias (oportunistas) servem apenas como munição, daí a frequente incongruência com a posição adotada anteriormente, quando a mesma situação básica se reapresenta mas são outros os personagens envolvidos.

Refiro-me, claro, à batalha de Itararé (1) ou  guerra da lagosta (2) que ora torna anedótico e retrô nosso noticiário político. 

O mais comezinho bom senso e o espírito de justiça (do qual todos deveríamos estar imbuídos, segundo Platão) são mais do que suficientes para sabermos que É TOTALMENTE INCONCEBÍVEL O EXERCÍCIO DE MANDATO POPULAR POR PARTE DE UM PRESIDIÁRIO, DURANTE O CUMPRIMENTO DA PENA.

Fiquei pasmo ao ver quatro doutos ministros do Supremo Tribunal Federal admitindo implicitamente tal sandice, que avacalharia de vez a imagem do Judiciário aos olhos do cidadão comum.

Faz até sentido discutir-se se o mandato, em caso de condenação, deve ser definitivamente extinto ou temporariamente suspenso (ou seja, se o parlamentar teria de ser cassado ou poderia apenas licenciar-se).

Mas, a intransigência é insustentável: se a Câmara não aceita que o STF extinga mandatos arguindo a independência dos Poderes, o STF pode recorrer ao mesmíssimo argumento para não liberar os deputados presos quando houver sessões da Câmara.

Então, no braço de ferro que se esboça entre o STF e a Câmara Federal, alguém tem de ceder, em benefício de uma democracia penosamente reconquistada e que não deve ser colocada em risco em função de pendenga tão bizarra.

No fundo, trata-se de mera pirraça do presidente da Câmara, cuja verdadeira objeção é ao desfecho do julgamento do  mensalão.

Desfecho que previ antes mesmo do seu início: a partir da existência de algumas provas e confissões de delitos, o rolo compressor da imprensa burguesa faria o resto, tangendo os ministros do STF para a condenação, independentemente de quanto os petistas e seus aliados esperneassem. 

Também na ocasião sugeri aos companheiros do PT que, ao invés de tentarem convencer a opinião pública da inocência dos réus (tarefa impossível enquanto a indústria cultural continuar fazendo a bel prazer a cabeça da maioria bovinizada), batessem pesado no fato de que práticas como as do mensalão eram e são REGRA, não exceção, na política brasileira.

Ao invés de tentarem, em vão, desacreditar o julgamento do  mensalão, o que deveriam era exigir O MESMO RIGOR, tanto por parte das autoridades policiais quanto das judiciais, EM TODOS OS DEMAIS CASOS DE CORRUPÇÃO POLÍTICA.

Infelizmente, o PT hoje não pode dar-se ao luxo de chutar o pau da barraca, pois o  restaure-se a moralidade  sangraria também suas fileiras.

Fica, portanto, nesse meio termo de  fazer vaquinhas para pagar as multas dos seus condenados, mas evitar um confronto aberto com o STF, como o que o Zé Dirceu queria e o Rui Falcão abortou.

Mas, já que os partidos conservadores/direitistas e o PIG acabam de demonstrar cabalmente que o  locupletemo-nos todos  será sempre opção de risco para os petistas, eles bem que poderiam voltar às origens, cumprindo o que prometiam em 1979: serem os paladinos da restauração da moralidade.

Sem quaisquer ilusões de que bastariam políticos íntegros para redimir-se o Brasil, MISSÃO IMPOSSÍVEL SOB O CAPITALISMO.

Mas, OS HOMENS DE ESQUERDA TÊM OBRIGAÇÃO POLÍTICA E MORAL DE SEREM OS EXEMPLOS VIVOS  DE QUE OUTRO MUNDO SEJA POSSÍVEL, deixando a lama para os inimigos de classe nela charfurdarem.

1) 1930. As tropas insurgentes de Getúlio Vargas vêm do RS para tentarem tomar a capital federal (Rio de Janeiro). Os efetivos leais ao presidente que elas querem depor, Washington Luiz, esperam-nas na cidade de Itararé, divisa entre SP e PR. Canta-se em prosa e verso aquela que será a mais formidável e sangrenta das batalhas.

Mas, nem um único tiro é disparado: antes, o presidente bate em retirada, entregando o poder a uma junta governativa.

Ironizando, o grande humorista Aparício Torelly escreve que, como nada lhe reservaram no rateio de cargos governamentais entre os vencedores, ele próprio se outorgaria a recompensa:
"O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve".
2) Desavença entre o Brasil e a França, meio século atrás, sobre a pesca em larga escala de lagostas na plataforma continental brasileira (mais detalhes aqui). 

Um pesqueiro francês foi apresado por uma corveta brasileira e houve até mobilização militar: o presidente Charles De Gaulle enviou um navio de guerra para proteger os pesqueiros e o Brasil deslocou esquadrões de aeronaves para o litoral nordestino. Os dois lados escoravam-se em interpretações diferentes dos direitos de pesca de peixes e de crustáceos.

deixa disso! acabou prevalecendo, mas o patético da chamada  guerra da lagosta  municiou fartamente os humoristas. A melhor gozação foi a paródia citada no prólogo, de autoria desconhecida, da marchinha carnavalesca "Cachaça não é água":

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

CRISE MILITAR: NOVA BATALHA DE ITARARÉ?

1930. As tropas insurgentes de Getúlio Vargas vêm do RS para tentarem tomar a capital federal (Rio de Janeiro). Os efetivos leais ao presidente que elas querem depor, Washington Luiz, esperam-nas na cidade de Itararé, divisa entre SP e PR. Canta-se em prosa e verso aquela que será a mais formidável e sangrenta das batalhas.

Mas, nem um único tiro é disparado: antes, o presidente bate em retirada, entregando o poder a uma junta governativa.

Ironizando, o grande humorista Aparício Torelly escreve que, como nada lhe reservaram no rateio de cargos governamentais entre os vencedores, ele próprio se outorgaria a recompensa:
"O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve".
Uma batalha que não houve é o desfecho para o qual, a crermos na Folha de S. Paulo desta 2ª feira (11), os ministros Nelson Jobim (Defesa) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) estariam encaminhando a divergência sobre se a Comissão Nacional da Verdade investigará apenas as atrocidades cometidas pelos carrascos da ditadura militar ou vai oferecer um contrapeso propagandístico à direita militar, incluindo os atos de resistência praticados pelas vítimas:
"O governo articula uma solução de meio termo para a questão nevrálgica do terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos: em vez de acrescentar ao texto do programa a investigação da esquerda armada durante a ditadura militar (1964-1985), como querem as Forças Armadas, seria suprimida a referência à 'repressão política' na diretriz 23, que cria a Comissão da Verdade.

"Ou seja, a questão seria resolvida semanticamente, sem especificar a apuração de excessos de nenhum dos dois lados. O texto passaria a prever a apuração da violação aos direitos humanos durante a ditadura, genericamente, sem especificar de quem e de que lado.

"Essa proposta está sendo colocada pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, e poderá ser aceita pelo ministro de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, que aposta numa 'solução de meio termo'."
Como não sou humorista nem participo da política oficial, só me resta dizer que transformar tudo numa Batalha de Itararé será uma afronta à dor dos torturados e à memória dos assassinados; e lembrar ao companheiro Vannuchi que ambiguidade e ambivalência não salvarão sua honra.

O que Jobim propõe, em última análise, é uma fórmula que implicitamente repetirá o descalabro da anistia de 1979, colocando no mesmo plano as bestas-feras de um governo golpista e os cidadãos que arriscaram sua vida e sua sanidade física e mental para confrontar uma tirania atroz.

A redação imprecisa não evitará que se produza exatamente aquela situação que, na entrevista publicada no domingo (10), Vannuchi afirmou ser motivo suficiente para ele pedir exoneração do cargo: a transformação do PNDH-3 "num monstrengo político único no planeta, sem respaldo da ONU nem da OEA".

Torço para que o jornal da ditabranda esteja mentindo mais uma vez e que nem sequer passe pela cabeça de Vannuchi ceder à manobra de Jobim.

Pois a manchete da Folha quase me fez vomitar.
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