quarta-feira, 30 de novembro de 2016

ENCALACRADOS E DESESPERADOS, AGINDO NA CALADA DA NOITE, ELES SE ARRISCAM A PROVOCAR UM CONFRONTO DE PODERES!!!

Antigamente eram os ladrões que agiam na calada da noite. Agora são os deputados federais.

Na calada da noite eles mutilaram e desfiguraram o pacote anticorrupção que haviam acabado de aprovar, não só subtraindo o que continha de mais necessário para o atingimento de seus objetivos, como também enxertando-lhe uma clara tentativa de intimidar promotores e juízes da Operação Lava-Jato.

Já o presidente do Senado, Renan Calheiros, não agiu na calada da noite e se deu mal.
Carmen Lúcia = exemplarmente digna

Assim que recebeu o mostrengo da Câmara, ele tentou colocá-lo imediatamente em votação, mas seu requerimento de urgência foi derrotado por 44x14 na votação em plenário. 

O desfecho foi influenciado: 
  • pelo receio que a maioria dos senadores teve, de ficar com o nome associado a manobra tão vergonhosa; 
  • pela firme reação dos procuradores da Lava-Jato, que ameaçaram afastar-se da operação caso os mãos-sujas ganhassem a parada; e 
  • por um posicionamento exemplar da presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, ministra Cármen Lúcia. 
Ela divulgou nota lamentando que, "em oportunidade de avanço legislativo para a defesa da ética pública, inclua-se, em proposta legislativa de iniciativa popular, texto que pode contrariar a independência do Poder Judiciário".
Renan Calheiros = o que sempre foi

E foi além, batendo pesado: 
"O Judiciário é, por imposição constitucional, guarda da Constituição e garantidor da democracia. O Judiciário brasileiro vem cumprindo o seu papel. Já se cassaram magistrados em tempos mais tristes. Pode-se tentar calar o juiz, mas nunca se conseguiu, nem se conseguirá, calar a Justiça".
Só restou a Renan Calheiros enfiar o rabo entre as pernas e conformar-se em cumprir à risca as várias etapas da tramitação desta matéria, começando por submetê-la a uma comissão especial.

Os encalacrados unidos têm tamanha paúra da megadelação da Odebrecht que tentam ganhar no grito, avançando ostensivamente o sinal. Por tal caminho não se salvarão, mas podem gerar um confronto de Poderes perigosíssimo para nossa frágil democracia. 

Estão brincando com fogo e podem queimar a todos nós, brasileiros. Têm de ser contidos! 

MÁRIO SÉRGIO CONTI: "A TOUPEIRA DA REVOLUÇÃO DESCEU AO INFERNO" QUANDO CUBA PASSOU A APOIAR-SE NA URSS.

Dentre os muitos artigos publicados desde o anúncio da morte de Fidel Castro,  destaco os principais trechos de Louvado seja o mercado (o título é irônico), do bom Mário Sérgio Conti, que traduz admiravelmente os sentimentos da minha geração, a de 1968: o entusiasmo inicial com a mais romântica das revoluções, seguido pelo desencanto depois que, morto Che Guevara, Cuba abdicou de sua independência política em troca da proteção militar e ajuda econômica da URSS, aceitando tornar-se apenas outro dos peões soviéticos no tabuleiro da guerra fria:
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" ...O improviso e a teatralidade latina do Líder Máximo eram uma revolução retórica dentro da revolução real. A União Soviética se mantivera fiel a suas origens livrescas, racionalistas e filosofantes. Cuba contrapunha juventude e aventura à escolástica decrépita do socialismo à la Stalin. A revolução ficou pop.

[O filósofo, jornalista, escritor e professor francês Regis] Debray diz que Castro tinha 'mentalidade narrativa, localista e anedótica'. Não se ocupava de teoria, fugia do debate de ideias e não ouvia os adversários. Lia muito, mas só sobre história, pois era 'obcecado com os historiadores do futuro e com sua imagem póstuma'.
Com Che Guevara, "a revolução ficou pop".

O homem do Livro era Che, que lera Conrad, Lorca e Cervantes na adolescência. Era médico e estudara economia; buscava embasar a política na ciência. Espírito aberto, chamou a Cuba o trotskista Mandel e o maoísta Bettelheim, além de Sartre e de Beauvoir. Discutiu com eles os rumos do socialismo.

Concluiu que, para salvá-lo da burocratização, era preciso internacionalizá-lo. Escorou-se no Debray de Revolução Dentro da Revolução, teorização da experiência cubana que apostava em focos guerrilheiros rurais e escanteava os trabalhadores urbanos. Toda uma geração de revolucionários latino-americanos foi derrotada junto com Che.

Castro passou a apoiar mais e mais, e a se apoiar, na URSS, que morreu antes dele. Ironicamente, o seu internacionalismo, de vertente estatal e geopolítica [Ou seja, não o internacionalismo revolucionário dos marxistas, mas sim o internacionalismo anticolonial de libertadores como Bolivar], vingou: Angola, Namíbia e a África do Sul não teriam se libertado, nem o apartheid seria vencido, sem a intervenção cubana. Mandela repetiu até morrer que Castro era um grande herói africano. 
Já Fidel a levou de volta ao decrépito realismo socialista
A toupeira da revolução desceu ao inferno. O socialismo sumiu de vista. A política se tornou o ofício preferencial de patifes. A oralidade rebelde foi suplantada pelo marketing do conformismo. A juventude pop virou item de consumo. 

Submeteram-se todos ao verdadeiro Líder Máximo desse mundo maravilhoso, o mercado."

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O 'PRESIDENTE TEMERÁRIO' DIZ A QUE VEIO (E DE PÁRA-QUEDAS!)

"Quando o jornal exibia que o PMDB desembarcou
do governo e pessoas erguiam as mãos, eu disse:
 meu Deus do Céu! Essa é a alternativa de poder." 
(Luís Roberto Barroso, ministro do STF)
A frase “diga-me com quem andas e te direi quem és”, atribuída à Bíblia por analogia com passagens bíblicas de idêntico teor e adotada pelo vulgo como provérbio que encerra inquestionável verdade, tem lá os seus méritos como análise comportamental. 

Quem são os antigos amigos de Michel Temer? De quem ele foi assessor? De qual casa legislativa ele foi sempre um membro destacado e da qual foi presidente por vários mandatos? Qual a natureza ideológica da maioria dos membros do parlamento? 

A simples resposta a essa pergunta pode nos dar um perfil do quem seja o Presidente Temerário. Aceito como candidato a vice-presidente, não porque tivesse prestígio popular reconhecido, mas por representar um partido que (graças a seu  número de prefeitos e parlamentares, a maioria eleita nos grotões do Brasil profundo, onde o voto de cabresto impera) garantiria não apenas a elegibilidade, mas principalmente a governabilidade política. 
Belo salto! Mas... compensou?

Na hora em que os índices de popularidade da presidente Dilma despencaram com a crise econômica, quem lhe deveria das sustentação política foi tentado pelo canto de sereia que se ouvia amiúde na grande mídia e perguntou a si mesmo: “Por que não eu?”. Assim, a suposta sustentação política virou o seu contrário e, acossado pelo conjunto da sua obra, o Governo Dilma caiu e o Temerário assumiu. 

Em pouco mais de um semestre, seis dos seus ministros foram para a rua da amargura, acusados de corrupção. Alguns deles (e o próprio Presidente Temerário) até ontem participavam de decisões administrativas, indicações de ministros, aprovação de projetos de interesse do governo deposto, transformando-se depois em críticos implacáveis da presidente impedida e sua equipe, tão logo tomaram posse na administração seguinte. 

Agora, acompanham apreensivos os boatos sobre o teor das delações de empresários com os quais conviveram nos governos FHC, Lula, Dilma também no atual; com práticas dos próprios membros do Ministério atual, que insistem em manter tudo como dantes do quartel de Abrantes (vide incidente com Geddel Vieira Lima, um articulador político do Presidente Temerário e que foi por este endossado).
Dá pra reaproveitar: basta mudar nome e foto.
Não é de se admirar, portanto, que um governo com tal perfil, mesmo sendo apoiado pela grande mídia, tenha baixa popularidade no seu nascedouro e que os seus índices de aceitação se reduzam a cada dia.
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OS HUMORES DA ECONOMIA COMO
 TERMÔMETRO DA POPULARIDADE
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Sabemos que a opinião pública nacional se rege pelos humores da economia. O povo se conforma com pouco, pois está historicamente aculturado a se contentar com pão e circo, então qualquer coisa além disto é festa.

Os governos militares editaram o AI-5 no final de 1968, porque a insatisfação popular com a economia estava solapando sua popularidade. Aí veio o falso milagre brasileiro proporcionado pela entrada de recursos externos do capital internacional como forma de distensão da impopularidade e os brasileiros acreditaram “no ame-o ou deixe-o”.

Tudo durou até que o milagre se evidenciou como uma mera bolha de consumo, com a economia mundial começando a patinar por conta da terceira revolução industrial (da microeletrônica). Não sabendo mais o que fazer, os fardados resolveram devolver a batata quente para os civis. 
Presidente à beira de um ataque de nervos

O governo FHC, na esteira do sucesso da contenção da inflação absurda dos governos Sarney e Collor, passou 8 anos vendendo tudo que podia. Salvou o sistema bancário brasileiro da bancarrota por meio do Proer ( que estagnou a economia) e bateu às portas do FMI várias vezes. 

FHC durou até a insatisfação popular atingir níveis elevados e oportunizar a chegada ao poder de um governo com bandeiras vermelhas e estrela do socialismo. Repetiu, contudo, práticas de convivência com nossa tradicional corrupção e adotou medidas capitalistas liberais capazes de serem elogiadas pelos governos estadunidenses. 

Governou por mais de 13 anos, acabando tão desgastado que hoje até os conservadores brasileiros mais recalcitrantes ousam mostrar as suas unhas.

Foi assim que chegamos ao governo do Presidente Temerário, que, nos seus seis primeiros meses, apresenta os seguintes resultados econômicos:
A retomada do crescimento econômico parece distante
1) promessa ao empresariado de que o limite dos gastos públicos indexados à inflação traria de volta a confiança dos investidores, retomada do crescimento econômico e queda do desemprego. Mas o que se vê é um renitente déficit no Produto Interno Bruto, de 3,4% ao ano e uma taxa de desemprego crescente, que foi de 11,8% em setembro, com tendência a aumentar; 
2) taxa de juros Selic na casa de 14% ao ano, para uma inflação de 7,9%, que produz um ganho real de investimentos parasitários de 6,1 ao ano, estagnando a economia e provocando uma fuga de capitais do setor produtivo para o setor financeiro, via aumento do endividamento do Estado; 
3) perspectivas de retração nas vendas natalinas no comércio de 6% projetando uma redução da previsão do crescimento do PIB em 2017, cuja projeção agora é de apenas 1,1%; 
4) queda continuada na arrecadação de impostos (com exceção deste mês de outubro, por conta da entrada do dinheiro da sonegação fiscal vindo do exterior) e falência de estados e municípios, que mal conseguem pagar os salários do funcionalismo público e pensionistas.
A palavra de ordem é austeridade, conforme o receituário que os países ricos impõem aos países periféricos, enquanto eles próprios emitem moeda sem lastro e tentam alavancar a retomada do recrescimento, sem, entretanto, obter sucesso. 

O Presidente Temerário, que é um governante fragilizado politicamente, tende a se tornar ainda mais impopular. No fundo, não passa do obediente representante dos interesses de sobrevivência do capital em meio à mais grave crise desde 1929/1930, mas os poderosos da economia pouco fazem para lhe dar sustentação, daí estar sentindo o chão fugir dos seus pés.  

Como a ânsia de poder nunca cessa, já se fala em sua deposição, o que não seria difícil tendo em vista o processo de crime eleitoral em trâmite no Tribunal Superior Eleitoral. Os candidatos a presidente já se alvoroçam e tal fato deve conturbar a base de apoio ao presidente cuja ascensão ao governo foi sempre temerária.

Por Dalton Rosado
O problema é que, diferentemente de antes, o capitalismo internacional tem muitas feridas para curar ao mesmo tempo e talvez já não lhe seja possível salvar o governo desse paciente cuja economia está entre as 10 mais importantes do mundo, mas requer um montante de recursos (valor válido, advindo da produção de mercadorias) cada vez mais escassos na atual conjuntura. 

PARAFRASEANDO MANUEL BANDEIRA, TENTANDO RIR PRA NÃO CHORAR!

Os cavalinhos correndo
e nós, cavalões, comendo...
os chapecoenses partindo
e tanta gente ficando!

SUBSTITUIÇÃO NO PALÁCIO DO PLANALTO: SAI TEMER, ENTRA CARDOSO.

Está em curso uma óbvia campanha de desgaste do governo de Michel Temer. Como há veículos da grande imprensa envolvidos, isto só pode significar uma coisa: a preparação da opinião pública para aceitar o descarte do dito cujo como coisa natural.

Quem fará o serviço sujo? Como a instabilidade política agrava a crise econômica, ninguém quer uma repetição do trâmite interminável de um impeachment. Mas, por coincidência, o Tribunal Superior Eleitoral está prontinho para julgar a chapa vencedora da eleição presidencial de 2014, por abuso de poder econômico e político.  

Então, caberá ao TSE dar o tiro de misericórdia naquele que decerto será lembrado como Temer, o breve. E que, por ser tudo muito previsível, não ficará surpreso como Júlio Cesar nem desabafará com um lastimoso "até tu, Gilmar?!".

Se fosse uma corrida de cavalos, eu aconselharia os apostadores cravarem estas três barbadas:
  • Gilmar Mendes marcará o julgamento para o começo de 2017, de forma que, consumada a impugnação também de Temer, a eleição de um(a) novo(a) presidente, para governar até o último dia de 2018, se dê pela via indireta, com os 594 senadores e deputados federais decidindo em lugar dos 141,8 milhões de eleitores do País;
  • o eleito será um tucano, com enorme possibilidade de atender pelo nome de Fernando Henrique Cardoso;
  • a ex-presidente Dilma Rousseff, desta vez, não escapará de ter seus direitos políticos cassados.
Só não entendo por que, cargas d'água, partidos de esquerda estão se esforçando tanto para colocarem azeitona na empada alheia. Afinal, suas chances eleitorais seriam muito maiores em 2018 com um presidente fraco do que com um presidente forte. 

FHC tem tudo para servir aos donos do Brasil como o homem certo na hora certa, defendendo seus interesses maiores e colocando-se acima das disputas rasteiras dos ladrões de galinha da política. Se lhe derem uns 20 meses no poder, é praticamente certo que assegurará sua reeleição ou o triunfo de outro tucano na eleição de 2018.

Parece-me que o PT, depois dos erros primários cometidos no segundo governo da Dilma, vai novamente levantar a bola para os inimigos marcarem o ponto.

E que o Psol, cada vez mais caudatário do PT, o ajudará a fazer papel de tolo. 

Quem é burro, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

TRUMP: AMEAÇA À HUMANIDADE OU BUFÃO QUE SE FINGIRÁ DE REI?

Por Ferreira Gullar
O CAPITALISMO TRUMPARIANO SE APROXIMA DO NACIONALISMO NAZISTA
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Se a vitória de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos, sob certos aspectos, foi uma surpresa, sob outros resulta coerente com determinadas mudanças verificadas nas últimas décadas na realidade contemporânea a partir do fim do sistema soviético.

O término da Guerra Fria, que dividia o mundo em duas facções hostis, provocou uma série de mudanças políticas, econômicas e ideológicas.

Elas geraram desde o radicalismo islâmico no Oriente Médio até o populismo latino-americano, que vive seus últimos momentos. Mas não só: provocou também reações diversas tanto no capitalismo europeu quanto no capitalismo norte-americano, de que a eleição de Trump é, sem dúvida, uma das consequências mais graves.

É claro que o fim do sistema soviético fortaleceu o capitalismo tanto econômica como ideologicamente, mas também provocou divisões no próprio capitalismo, de um lado favorecendo a tendência mais moderna –que aprendera com o socialismo a lição da igualdade social– mas, de outro, estimulando ideologicamente o capitalismo atrasado, que se valeu do sectarismo comunista para justificar a exploração sem limites e o lucro máximo.

Não é novidade dizer que o sonho da sociedade justa que o comunismo inspirava estimulou o surgimento de partidos e movimentos políticos que, durante quase um século, puseram em questão o regime capitalista, cujo caráter explorador do trabalho humano é indiscutível.

Esses movimentos e partidos, por sua vez, provocaram da parte dos setores mais conservadores reações –nazismo e fascismo foram exemplos extremos, mas não os únicos. Em muitos momentos e países, estabeleceu-se uma divisão insuperável, que se define até hoje como esquerda e direita.

Se é verdade que os erros do regime comunista –mesmo antes de sua derrocada final– impediram uma pretendida hegemonia mundial, o fim dele como realidade política e econômica teria consequências diferentes nos diferentes países capitalistas, indo desde certa socialização do capitalismo em alguns países até, contraditoriamente, a exacerbação da exploração capitalista, já que –segundo estes– ficara demonstrado pela história como a tese de que o capitalismo seria um mal a ser extirpado era resultado de um preconceito e de um erro da esquerda.

E essa tese não foi aceita apenas pelos militantes anticomunistas, mas também pelos setores mais diversos de alguns países europeus que optaram recentemente por governos de direita, não radicais como o de Donald Trump, mas igualmente dispostos a apagar, de uma vez por todas, o pesadelo do anticapitalismo que os assustou por décadas e décadas.

Esse anticomunismo é, portanto, bem mais radical que o europeu, porque a ele se soma a necessidade de erradicar do capitalismo todo e qualquer preconceito socializante, o que o opõe não apenas ao falecido comunismo como também ao chamado capitalismo moderno, minado de intenções progressistas.

Esse caráter do capitalismo trumpariano caracteriza-o como uma opção abertamente reacionária que, não por acaso, o aproxima do nacionalismo nazista, do qual estão excluídos quaisquer sentimentos de solidariedade com o sofrimento humano. Tudo isso é encarado como hipocrisia.

O capitalismo, assim entendido, é o regime dos mais capazes e dos vitoriosos, como Donald Trump.

O que importa é o lucro, ou seja, o aumento do capital e da riqueza, não importando que consequências tenham. Azar daqueles que a natureza criou incapazes.

Por isso mesmo, Trump nega que o desenvolvimento industrial gere o aquecimento do planeta e ameace a sobrevivência da humanidade. Ou seja, après moi, le déluge (depois de mim, o dilúvio).

Gostaria de concluir esta crônica tranquilizando o leitor com a seguinte lembrança: todas as tentativas semelhantes a essas, que ignoraram a realidade do processo econômico, político e científico, fracassaram.

Puderam até por algum tempo ganhar o apoio dos menos lúcidos e ressentidos, mas não sobrevivem porque são fruto do sectarismo, de ilusões e de ressentimentos, sem base na realidade. 
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Pitaco do editor
O APRESENTADOR DO "BIG BROTHER" NÃO PODE DEMITIR OS PATROCINADORES DO PROGRAMA
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Dentre os analistas que levam o Pato Donald Trump a sério, o veteraníssimo Ferreira Gullar foi o que melhor discorreu sobre o pesadelo que nos aguardaria. 

Não é o meu caso, mas considerei interessante apresentar suas divagações aos leitores deste blogue. Muitos, decerto, concordarão. E a discussão civilizada de pontos de vista discordantes é sempre proveitosa.

O que estamos assistindo,  no meu entender, é a repetição da História como farsa. Adolf Hitler detinha realmente o poder e podia realmente ordenar sandices como a invasão da URSS, que acabou quebrando a espinha da Wehrmacht.

A retórica e o passado macartista de Richard Nixon nos levavam a crer que acabaria desencadeando a 3ª Guerra Mundial. Ao invés disto, estabeleceu um modus vivendi com a URSS e a China, assegurando a paz entre as maiores potências militares do planeta.

O canastrão Ronald Reagan, surpreendendo quem tomava ao pé da letra seus discursos, combateu o império do mal com armas econômicas, deixado de lado as bélicas, salvo para sovar pigmeus como a Líbia.

George Bush, o pior dos últimos presidentes republicanos, jogou a civilização no lixo com sua guerra ao terror, restabelecendo, ele sim, práticas nazistas. Mas, nem de longe, provocou furacão equiparável ao que Gullar antevê a partir da posse de Trump.

Por que? Porque, no capitalismo globalizado, o poder político se tornou mero fantoche do econômico, o palco em que os bufões se fingem de reis, enquanto as verdadeiras majestades permanecem na sombra, tomando as decisões verdadeiramente importantes.

Talvez Hitler, tendo a bomba atômica, conseguisse efetivamente lançá-la sobre os EUA e a Inglaterra. Duvido que deixem Trump fazê-lo, caso queira. Isto rende boas novelas de ficção e filmes de sci-fi, nada mais.

Uma ou outra de suas promessas Trump precisará cumprir, para manter as aparências. A deportação de imigrantes sem documentos, p. ex. Mas que vá erguer barreiras nacionalistas a torto e a direito, afetando os interesses das maiores empresas do planeta, lá isto eu duvido. 

Estamos na sociedade do espetáculo e o apresentador do Big Brother estadunidense não tem poder suficiente para demitir os patrocinadores do programa. (por Celso Lungaretti)

domingo, 27 de novembro de 2016

A ERA FIDEL

"Condenem-me. Não importa. 
A história me absolverá."
(Fidel Castro, ao ser julgado  
pelo assalto ao quartel 
de Moncada).
No mundo todo, os inconformados com a tirania do capitalismo (que mantém cerca de 80% da população mundial em situação de pobreza crônica) viram com esperança a primeira experiência marxista tradicional ser vitoriosa nas Américas, a partir da deposição revolucionária do corrupto e submisso títere dos Estados Unidos, Fulgêncio Batista, pelos guerrilheiros do Movimento 26 de Julho (1), comandados por Fidel Castro, em janeiro de 1959.

Após a definição ideológica do governo de Fidel, houve uma tentativa de invasão estadunidense da Baía das Porcos, por meio dos contrarrevolucionários cubanos e mercenários latinos que financiou e armou; foi bravamente rechaçada pelo povo cubano, que conseguiu vencer a farsa. 

Os Estados Unidos não queriam passar recibo ao mundo de seu tradicional belicismo intervencionista, em ação num país que se revoltara contra o corrupto de carteirinha que lhes servia de aliado. Cuba era a ilha do turismo e da jogatina nos cassinos onde tudo terminava em corrupção, embalada pela maravilhosa salsa cubana, regada ao rum nacional e aos famosos charutos de fabricação local.

Tal ousadia às portas da Meca do capitalismo mundial quase desencadeou uma guerra nuclear, esquentando a guerra fria cujo contraponto era a União Soviética. A instalação de misseis soviéticos na ilha caribenha era uma resposta à instalação de mísseis estadunidenses na Turquia.

A tensão chegou a tal ponto que John Kennedy e Nikita Kruschev tiveram enorme dificuldade para evitar que os falcões de seus respectivos países iniciassem uma guerra nuclear cujos resultados seriam catastróficos para a humanidade.  
13 dias que abalaram o mundo

Tudo terminou com um acordo de retirada dos mísseis de Cuba e da Turquia (2), mais o compromisso de não invasão da ilha, o que significou um enorme constrangimento para o poder imperialista, que daí em diante passou a utilizar embargos financeiros, atentados e medidas diplomáticas para o combate a Fidel e seu governo.

O que os marxistas tradicionais não sabiam (por desconhecerem o Marx crítico dele mesmo) é que o regime de Fidel era tão capitalista quanto o imperialismo dos EUA, que tanto julgavam combater. 

Divergências havia apenas na forma política de organização do governo e na forma de extração de mais-valia, que, ao invés de ser feita por empresas privadas cubanas e estrangeiras, seria agora patrocinada (de patrão, mesmo!) pelo Estado dito comunista. Ignorava-se e ainda se ignora a mecânica autotélica da forma-valor que não permite distribuição equânime da riqueza abstrata.  

O heroísmo do povo cubano é uma lição deixada para a posteridade sobre o que um povo imbuído de sentimentos superiores de emancipação é capaz de fazer. Este é o maior legado deixado por Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Raul Castro e tantos outros que lutaram e viram o sangue guerrilheiro jorrar em Sierra Maestra e nas ruas cubanas, enfrentando as barbaridades do exército regular para, ao final, derrotá-lo.   

Não se podem negar os ganhos de povo cubano, que tem os melhores índices de IDH quando comparados com os demais países caribenhos, com os centro-americanos, os americanos do sul e o México. Não se podem negar a vitalidade e capacidade dos atletas (majoritariamente) negros de Cuba, a conquistarem tantas medalhas olímpicas; nem os ganhos de sua etnia completamente alfabetizada, num país em que seus ancestrais foram alvo da escravização direta.  Não há como se deixar de aclamar Cuba como o país do preto Doutor, entre outros ganhos sociais. 
Aonde vai a Cuba de Raul Castro?

Mas há que se reconhecer o fato de ser uma economia de mercado, na qual todas as categorias capitalistas estão presentes (trabalho abstrato, dinheiro, mercadoria, mercado, capital, Estado, política, riqueza abstrata, enfim, tudo que se traduz na forma-valor), daí necessitar de uma inserção mercadológica; daí padecer também quando ocorre a debacle do capitalismo globalizado. 

Aliás, suas agruras aumentam em função da maior vulnerabilidade, pois é apenas uma pequena ilha que sofre com os embargos econômicos que lhe são oficialmente impostos pelos Estados Unidos e é alvo do preconceito capitalista de muitos outros países.       

As restrições à liberdade de opinião e de locomoção bem demonstram a fragilidade de um pequeno sistema capitalista de Estado que nunca abdicou da força e do arbítrio como formas de sustentação política contra o capitalismo liberal e que, em tempos de crise globalizada, tende a passar pelas dificuldades inerentes ao estágio do limite da capacidade de expansão aumentada da forma-valor, principalmente na periferia capitalista. Cuba socialista, que é uma das versões políticas do capitalismo, sofre as consequências da crise deste mesmo capitalismo do qual faz parte.    

A superação das relações sociais capitalistas não pode ter sucesso num único país, ainda que tenha extensão continental, como é o caso do Brasil, da China, da Rússia, dos Estados Unidos, da Austrália, etc.; e muito menos numa pequena ilha, uma vez que a produção de bens e serviços indispensáveis a uma cômoda e sustentável vida social mundial depende da interação transnacional de produção a partir das riquezas naturais existentes de formas diferenciadas em cada país. 

Muito do que temos aqui, certamente não haverá noutro lugar e vice-versa; somente com um sistema de trocas sem mensuração econômica poderemos satisfazer nossas necessidades de modo sustentável. Isto não significa, entretanto, que devamos abdicar das tentativas localizadas de vida fora do mercado como embrião do que virá.  
"Resultados" de hoje não são aqueles com que Che sonhava...

Uma produção de bens e serviços que não se baseie em mercado, mas num sistema de cooperação transnacional para a satisfação de necessidades, implica um novo conceito de vida e, consequentemente, a existência de uma estatura humana superior, solidária, contributiva, que em tudo difere daquilo que a lógica capitalista nos impõe. 

Conseguiremos alcançar tal estágio? Creio que sim, desde que amparados por conceitos teóricos que demonstrem o equívoco no que estamos incidindo; e que confronte a cruel realidade social (que cada vez mais se torna bárbara, por conta do anacronismo de uma forma de relação social que chegou ao seu ponto limite de saturação). A realidade se aproximando da teoria poderá gerar saídas antes inimagináveis (as tais janelas revolucionárias de que fala Celso Lungaretti). 

Tenho divergências conceituais profundas com o marxismo-leninismo cultuado por Fidel, ainda que consiga identificar nele boas intenções, o que não me impede de constatar seus equívocos fundamentais. Daí divergir de muitos dos conceitos de Fidel expressos em sucessivas frases e discursos, dentre as quais pinçamos as que abaixo citamos sucintamente e comentamos:
a) “Pátria ou morte, venceremos!”, com a qual passou a terminar os seus discursos, repetindo uma antiga frase da luta de independência cubana à colonização espanhola, capitaneada por José Marti. O conceito de pátria diverge do universalismo marxista do qual Fidel se dizia defensor;
O slogan caducou; é da etapa das revoluções burguesas.
b) “Socialismo ou morte! Marxismo-leninismo ou morte!”, sem compreender que o politicismo e o socialismo marxista-leninista jamais romperam com as categorias capitalistas. Portanto, talvez sem o saber, Fidel fazia a apologia do capitalismo, ainda que sob a forma de capitalismo de Estado; 
c) “Jamais me aposentarei da política, da revolução e das ideias que tenho. O poder é uma escravidão e eu sou seu escravo”. Esta frase é a que melhor explica as contradições conceituais e os equívocos de Fidel. Primeiramente a política enfeixa uma ideia conceitual sistêmica e de Estado que é contrarrevolucionária; em segundo lugar, quem pensa deve estar aberto às mudanças que o pensar proporciona, pois a inflexibilidade do pensar é a antítese do próprio pensar e, portanto, contrarrevolucionária; e por último, considero que todo poder é escravista e a escravidão é contrarrevolucionária. O despotismo escravista é a marca mais característica do poder.        
Fidel Castro é história pessoal e conceitual relevante, como personagem icônica do século XX, pelo exemplo que encerra. Estou convencido de que seus erros e acertos servirão para a compreensão do que se apresenta hoje em termos de futuro, principalmente quanto à natureza capitalista do regime socialista cubano e, consequentemente, sobre a necessidade de superarmos todas as categorias capitalistas que hoje, mais do que nunca, corroem a vida social. 

Requiescat in pace, Fidel, pois, apesar de tudo, como dizia Rui Barbosa, “maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado.” (por Dalton Rosado)
  1. nome alusivo ao fracassado assalto ao quartel de Moncada, em 26 de julho de 1953, primeira ação guerrilheira de Fidel Castro.
  2. a dos mísseis soviéticos de Cuba, ostensiva; a dos misseis estadunidenses da Turquia, discreta. Os EUA faziam questão de posar de vitoriosos para fins propagandísticos, enquanto os soviéticos não se importavam com as aparências.

sábado, 26 de novembro de 2016

O OUTONO DO PATRIARCA CHEGA AO FIM: FIDEL CASTRO ESTÁ MORTO.

A entrada vitoriosa em Havana, no início de 1959.
Fidel Castro, comandante da revolução cubana e principal dirigente do país durante 47 anos, faleceu na noite de 6ª feira, 25.

Foi personagem marcante da segunda metade do século 20, mas sua estrela vinha se apagando desde o fim da União Soviética e do bloco socialista por ela encabeçado.

Em seguida foram suas forças físicas que declinaram, a partir da primeira hemorragia que sofreu em 2006, como consequência de uma doença nos intestinos.

Foi então que, sabendo-se impossibilitado de “assumir uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total”, ele, dignamente, trocou a farda pelo pijama. 

Havia liderado uma heroica revolução em 1959 e depois tentou romper o isolamento a que os Estados Unidos submeteram Cuba incentivando guerrilhas similares noutros países do continente americano (enquanto Che Guevara tentava a sorte no Congo, igualmente em vão).

O resultado acabou sendo o mais indesejado possível: a ocorrência de banhos de sangue e a proliferação de ditaduras direitistas, pois os EUA cuidaram ciosamente de evitar a propagação do mau exemplo no seu quintal. [Êxitos verdadeiros, Cuba só colheu em lutas de libertação nacional, ao ajudar, com tropas, munições e outros recursos, países africanos que confrontavam o colonialismo português.]
Fidel e o Che, no melhor momento de ambos.
Curvando-se à evidência dos fatos, Castro foi obrigado a domesticar sua revolução para garantir-lhe a sobrevivência, ainda que desfigurada.

Desistiu de exportá-la e a institucionalizou, repetindo os mesmos desvios autoritários e burocráticos que engessaram a congênere soviética (a qual, com seu ímpeto transformador estancado, acabou sendo retirada de cena em 1989).

Aposentado compulsoriamente, Fidel durou até os 90 anos, mas os últimos dez não contam: tornara-se um inativo político.

Foi grande um dia, mas decerto não se interessava pelo rock, daí ter passado batido pelos conselhos de Pete Townshend ("Prefiro morrer antes de envelhecer") e Neil Young ("É melhor consumir-se em chamas/ do que definhar aos poucos").

O Che escutou: morreu na hora certa.

SEU PERFIL ERA DE LIBERTADOR – Castro nunca pretendeu revolucionar o mundo, como Marx, Lênin ou Trotsky. Aspirava apenas a ser o libertador de Cuba, livrando-a da ditadura corrupta de Fulgêncio Batista, que fizera da ilha um centro de entretenimentos para turistas ricos interessados em prostituição, jogatina, canciones calientes, drogas... e discrição.
Cuba: humilhada na crise dos mísseis.

Os tão alardeados paredóns (as execuções de inimigos, durante a guerra de guerrilhas e depois da tomada do poder) inserem-se perfeitamente na tradição sanguinária das rebeliões latino-americanas.

Até então, Fidel pouco mais era do que um caudilho típico da região, o filho de latifundiários que abraça a causa dos pobres e se torna seu general. Chegou a declarar enfaticamente que não havia “comunismo nem marxismo em nossas idéias, só democracia representativa e justiça social".

A hostilidade exacerbada dos EUA ao novo governo acabou jogando-o nos braços da URSS, pois só a outra potência mundial poderia dar-lhe alguma chance de sobrevivência face ao poderoso vizinho que lhe impunha um embargo comercial, apoiava invasões armadas e promovia atentados terroristas (vários planos mirabolantes da CIA para matar ou desmoralizar Castro fracassaram).

A contrapartida ao guarda-chuva protetor foi a completa submissão da ilha às imposições soviéticas, com a adoção do modelo stalinista de socialismo num só país: economia totalmente estatizada, autoritarismo político e submissão da classe trabalhadora à burocracia que a deveria, isto sim, representar.

Aparentemente, Castro ainda tentou escapar dessa armadilha, ao concordar com os planos de Che Guevara para levar a revolução à África e, principalmente, levantar a América do Sul.

Com a execução a sangue-frio do Che e o extermínio dos principais movimentos revolucionários latino-americanos, Fidel teve de se conformar com o isolamento em relação a seus vizinhos e a dependência de um aliado distante e arrogante.
Um sucesso incontestável: o sistema de saúde cubano.
Ao monumental sapo engolido em 1962, quando Nikita Kruschev nem se deu ao trabalho de consultar Cuba antes de acertar com os EUA a desmontagem das bases de mísseis instaladas na ilha, seguiram-se outros, sempre indigestos e, ainda assim, digeridos.

Para compensar, Castro obtinha ajuda econômica que lhe permitiu oferecer condições de existência minimamente dignas para o conjunto da população, com destaque para as realizações marcantes em educação e saúde.

Se pessoas mais capazes e empreendedoras se ressentiam por estarem sendo impedidas de obter a condição diferenciada que seu potencial lhes asseguraria alhures, acabando por emigrar de um jeito ou de outro, é certo também que a grande maioria considerava sua situação melhor do que era antes.

Daí a gratidão e carinho que tributava a Fidel, apesar da falta de liberdade e da gestação de uma odiosa nomenklatura, reproduzindo a distorção soviética: onde todos deveriam ser iguais, a burocracia partidária e governamental concedia privilégios indevidos aos seus membros, tornando-os mais iguais.

APÓS O FIM DA URSS, A AGONIA LENTA – A situação, que começara a mudar com a Perestroika, tornou-se crítica após a derrubada do muro de Berlim e o fim do socialismo real no Leste europeu.
Cubanos fugindo de bote: a mídia ocidental adorava.

Ao deixar de ser sustentada pela União Soviética, que lhe injetava recursos e a utilizava como um cartão postal do (que ela pretendia ser o) comunismo, Cuba atravessou uma gravíssima crise econômica, até reaprender a andar por suas próprias pernas. 

Daí as fugas da ilha com barcos improvisados terem chegado ao auge na década de 1980, para júbilo da mídia ocidental. Até o remake de Scarface (d. Brian De Palma, 1983) a incluiu, fazendo uma marota atualização do filme original (d. Howard Hawks, 1932). 

O pior acabou passando, mas os tempos heroicos também. O povo cubano não era o mesmo que se orgulhava de haver reconquistado sua dignidade, com a ilha deixando de ser bordel dos estadunidenses. Tais lembranças haviam se tornado muito distantes. E a penúria, muito presente.

Então, o debilitamento da saúde de Fidel veio a calhar para que Raul Castro, governante menos carismático mas também menos identificado com excessos do passado, lançasse e fosse implementando sua abertura lenta, gradual e segura (o paralelo com a flexibilização do regime militar brasileiro sob Ernesto Geisel tem tudo a ver...), visando ir normalizando pouco a pouco suas relações econômicas com os países capitalistas. 

Quanto a Fidel, acabou tendo seu destino atrelado à bipolarização do poder mundial, que, enquanto durou, permitiu-lhe inflar demais o balãozinho cubano. Mas os ventos mudaram e, no fim da linha, o esperava a agonia lenta.
2013: sua última aparição em público.
Em circunstâncias quase sempre dificílimas, Castro fez o melhor que pôde por seu povo e seu país – não pelo marxismo ou pela revolução mundial, que nunca foram suas verdadeiras devoções.

Quando se puder avaliar seu papel sem exageros propagandísticos e tiroteios ideológicos, deverá ser reconhecida, sobretudo, sua vontade inquebrantável, que o fez ser reconhecido como um titã, apesar da ínfima importância geopolítica da nação que representava.

O século 20 finalmente terminou. E o atual, em termos de grandes personagens históricos, é um deserto.
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