Mostrando postagens com marcador José Carlos Barreto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Carlos Barreto. Mostrar todas as postagens

sábado, 11 de julho de 2020

CURIOSIDADE: UM ARTIGO QUE ESCREVI PARA CIRCULAÇÃO INTERNA NA VPR VOLTA ÀS MINHAS MÃOS MEIO SÉCULO DEPOIS – 3

(continuação deste post)
Bento manchado de sangue, após prisão 
O artigo que redigi em janeiro de 1970 e voltou agora às minhas mãos (acessem-no aqui) era o capítulo final de uma série criada para vender aos nossos quadros e a outros militantes de esquerda a ideia de que as Teses do Jamil, depois incorporadas ao programa da nova VPR, seriam a culminância da trajetória evolutiva do pensamento revolucionário no Brasil. Mas, não me culpem por tal exagero, também as outras organizações se promoviam assim, enfeitando demais o pavão.

O que o Jamil fez foi, isto sim, um primor de pragmatismo, varrendo as teias de aranha teóricas que atrapalhavam a união da esquerda contra o inimigo principal.

O PCB passara décadas pregando que, não tendo o Brasil passado por uma revolução burguesa típica, sobravam resquícios feudais no campo e existiria uma burguesia nacional tão indisposta com o imperialismo a ponto de o enfrentar.

Duas bobagens. Se o trabalhador rural brasileiro aspirava a ter sua terrinha, isto não implicava que, tão logo a possuísse, se tornaria inimigo figadal dos socialistas; ele estaria ocupado demais, tentando sobreviver à concorrência desigual com os grandes proprietários e com os grandes empreendimentos rurais. 

Nada indicava que, proclamando-nos socialistas e dispondo-nos a contribuir para que ele obtivesse a sonhada terra, ele dissesse não, com vocês não quero papo...     

Quanto aos resmungos de industriais e comerciantes genuinamente brasileiros contra o maior poder de fogo das multinacionais, eram superestimados pelo PCB que, por sinal, sempre se deu bem demais com os ditos cujos e foi por eles financiado... 
A burguesia nacional, na visão de Glauber Rocha

Na verdade, tal nacionalismo de araque ia até receberem oferta melhor do imperialismo, como Glauber Rocha magnificamente exemplificou em sua obra-prima Terra em Transe: o magnata das comunicações Julio Fuentes (Paulo Gracindo) confronta a multinacional que domina o país até que esta o seduz propondo-se a anunciar maciçamente nos seus veículos. 

Aí Fuentes retira a escada do esquerdista Paulo Martins (Jardel Filho), que ditava a linha editorial, deixando-o pendurado na brocha.

Mas, para não assustar os camponeses (que nem ligariam) e a burguesia nacional (que, no frigir dos ovos, optaria pelo lado inimigo), o PCB adotava a linha cautelosa que explodiu na sua cara em 1964, evitando falar em revolução e em darmos um fim à exploração capitalista. Falava em povo e nos dias que o Brasilino passava consumindo produtos e serviços estrangeiros a cada momento...

No processo de crítica e autocrítica subsequente ao golpe de 1964 (sim, naquele tempo não nos conformávamos passivamente com as grandes derrotas que sofríamos e as discutíamos aprofundada e apaixonadamente, para detectar nossos erros e aperfeiçoar nossa atuação), os contingentes da esquerda mais dispostos à luta contra a ditadura foram substituindo os manuais de Nelson Werneck Sodré, Josué de Castro e que tais pelo A revolução brasileira, de Caio Prado Jr., que proclamava enfaticamente o caráter socialista da revolução.

Jamil foi além:
Greve de Osasco, 1968; seus 2 líderes ingressariam na VPR
— se era impossível afirmar-se por aqui um capitalismo nacional, independente do imperialismo, por que temê-lo? 
— se os pequenos proprietários rurais não conseguiriam competir com os grandes empreendimentos capitalistas no campo, por que vê-los como adversários em potencial, caso conseguissem o que queriam?
— se uma revolução democrático-burguesa já deixara de ser possível no Brasil (se é que algum dia o fora...), por que deveriam os defensores do estágio socialista perder tempo e dispersar esforços combatendo os contingentes de esquerda que a defendiam, pregando a revolução popular ao invés da revolução socialista?

Enfim, o melhor era acreditarmos que, uma vez desencadeada a revolução, sua dinâmica necessariamente conduziria ao socialismo, daí ser desnecessário e desgastante batalharmos por isso. Travando uma luta contra inimigo mais poderoso, teríamos de unir todos que pudéssemos mobilizar contra ele, ao invés de afastar os que não rezassem por cartilha idêntica à nossa nos mínimos detalhes.

A derrubada da ditadura não seria fruto de uma guerrilha nos moldes cubanos, da guerra popular maoísta nem da greve geral leninista, mas sim da conjugação de uma miríade de ações revolucionárias no campo e nas cidades. Assim como Guevara recomendava que se criassem no mundo um, dois, três, mil Vietnãs, deveríamos estimular o afloramento de focos de resistência por todo o Brasil.  
Livro que foi muito influente

E se perdêssemos o controle desse processo e outra tendência acabasse se tornando a dominante após a vitória da revolução? Era um risco a corrermos. Não poderíamos nem deveríamos tentar controlar todo o processo, mas sim deixar que as iniciativas dos outros brotarem, apoiando-as na medida do possível. E confiar que a nossa coerência nos colocaria em posição destacada depois.

E qual o papel que nos caberia nessa luta pulverizada? Como a organização militarmente mais capacitada, as de:
— lançarmos uma coluna móvel estratégica (que não se fixaria em determinada região, mas se movimentaria sempre, atacando o inimigo para desgastá-lo e para exemplificar que era possível derrotar as Forças Armadas e, com isto,  alimentar a chama da resistência em todo o país); e
— a de fazer propaganda armada nas cidades (tomando supermercados para que o povo pudesse saqueá-los, sequestrando ricaços para obrigar suas famílias a distribuírem mantimentos nas favelas, etc,).

Enfim, a partir da modernidade revolucionária que presenciara na Europa; de influências como os livros A revolução na revolução, de Regis Debray e O desenvolvimento do subdesenvolvimento, de Gunder Frank; e da proposta da coluna móvel estratégica do Cesar, o Jamil criou o melhor programa possível para o estágio da luta que atravessávamos naquele momento. 

Realmente, perdíamos cada vez mais a iniciativa e mal conseguíamos realizar ações de grande porte sem a participação conjunta duas ou mais organizações, daí ser tão oportuna tal conclamação à união da esquerda, para que ninguém tentasse ocupar posição hegemônica como a do PCB até 1964, as organizações cooperassem umas com as outras ao invés de competirem estupidamente, as iniciativas isoladas surgissem em todo lugar e, numa etapa mais avançada do processo, se desse a união de todas essas forças para a derrubada da ditadura.

Infelizmente, já era tarde demais. 
Moraes desmentiu a versão de suicídio da irmã, Iara Iavelberg 
O Moisés e eu não fomos páreo para o Max e o Bento que, com os poderes de comandantes nacionais, conseguiram fazer com que fosse anulada nossa auto-indicação como delegados para o congresso nacional da VAR-Palmares que teve lugar em Teresópolis (RJ), setembro/1970, enquanto transcorria o sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick pela ALN.

É que, com o caos pelo qual passava a Organização em SP devido à queda e morte do Elias, os três comandantes remanescentes decidimos ser temerária a realização de uma conferência nacional e optarmos por indicarmos nós mesmos os dois delegados. O Moraes, adepto da posição massista, insistiu que fôssemos ele e um de nós, o Moisés ou eu. 

O Moisés ficou tentado a ceder-lhe a vez, mas argumentei que duas vozes num congresso de umas 40 já teriam enorme dificuldade para prevalecerem; uma, menos ainda. Inconformado, o Moraes recorreu depois ao Max e ao Bento, que contra-atacaram com seu maior poder de fogo. 

Resultado: nossa auto-delegação foi cassada e acabamos permanecendo em Teresópolis apenas como seguranças, com direito a assistirmos aos debates com o bico calado quando não estivéssemos vigiando durante horas e horas os caminhos pelos quais a repressão eventualmente chegaria, para darmos o alarme e sermos os primeiros a morrer...   
O Mário Japa depois casou com a viúva do Juvenal

E os massistas iam vencendo ponto por ponto até que, ao perceber que a guerrilha rural deixaria mesmo de ser, na prática, a prioridade suprema, reduzindo-o a uma rainha da Inglaterra, o Cesar se decidiu a romper com a VAR, encabeçando aquele que seria chamado de racha dos sete: ele, o Alberto (José Araújo da Nóbrega), o Léo (Darcy Rodrigues), o Mário Japa (Shizuo Ozawa), o Matos (Cláudio de Souza Ribeiro),  o Moisés e eu.   

Ambos tivemos, então, reconhecido nosso papel: o Cesar se desculpou por não ter percebido antes que, ao invés de sermos os golpistas alegados pelo Bento e pelo Max, nós é que estávamos com a posição correta. 

O nosso novo programa teve realmente como espinha dorsal as Teses do Jamil, a organização passou realmente a ocupar-se apenas das tarefas armadas e a VPR foi realmente restaurada. Só erramos ao supor que o Colina fosse inteiramente massista e devêssemos nos separar in totum da metade VAR; parte viria, em seguida, para o nosso lado, como o Juvenal (Juarez Guimarães de Brito), a Lia (sua esposa Maria do Carmo) e o Virgulino (Wellington Moreira Diniz). 

A VAR tinha cerca de 300 quadros e acabou conservando uns 200. Mas os nossos 100 abrangiam  os mais aptos para as ações armadas, daí termos certeza de que desempenharíamos papel mais relevante no prosseguimento da luta. E a previsão se confirmou.
*  *  * 
Augusto foi homenageado na escola que cursou
Em termos pessoais, esse reencontro com um passado tão distante me fez perceber que formara retrospectivamente uma visão amarga demais do que fora aquele período para mim. A agressividade dos nossos adversários na luta interna, esmagando-nos com o peso de seus cargos e os meios de que dispunham para espalhar versões deturpadas a respeito de nossos objetivos, me chocou.

Depois, à medida que os massistas iam prevalecendo no desenrolar do congresso, refleti que, com a vitória deles, necessariamente exigiriam de mim uma autocrítica que eu jamais faria, inconformado com o jogo sujo que sofrera. 

Mas, procurado em todo o país, com a minha cara nos cartazes (por nós apelidados de galeria dos imortais da Oban), para onde iria? O que faria? Ainda assim, mesmo que tivesse de deixar Teresópolis por minha própria conta, com a grana que tinha no bolso, eu estava decidido a me desligar de imediato.

O Moisés, com sua mania de conservar sempre um trunfo guardado na manga, deveria ter-me contado que já acertara o ingresso de nós dois na Rede Democrática do Bacuri (Eduardo Leite). Só o fez depois de, na enésima hora, a maré ter virado em nosso favor... 

E a maior decepção de todas ocorreu na volta a SP. Recebi a tarefa de explicar a posição VPR aos companheiros, em reuniões conjuntas com o Bento, que defenderia a posição VAR. Nesse ínterim, ficaria abrigado num aparelho da VAR, para o qual fui conduzido, como era nossa norma, de carro e com os olhos fechados.
Sobrevivi para travar outras lutas, como a do Battisti em 2008/11

Depois de uma ou duas dessas reuniões (só me lembro que estava sendo convincente, mas não tenho certeza de quantas foram), o companheiro que deveria me apanhar no pontofurou; e não compareceu nem nas alternativas de meia hora depois e de várias horas depois. 

Abandonado, desnorteado e muito procurado, um incrível acaso me tirou da enrascada, pois, em pleno centro velho de SP, dei de cara com o Henrique (Devanir de Carvalho, do MRT), também procuradíssimo, e ele me prestou ajuda solidária, abrigando-me e me recolocando em contato com a VPR.

Constato agora que, no finzinho de janeiro, eu já havia assimilado todos esses maus momentos (inclusive a participação insatisfatória na equipe precursora da área 1 de Registro e o assassinato do Augusto (Eremias Delizoicov, meu colega desde o curso primário, depois amigo, companheiro de movimento estudantil  e um dos sete que ingressaram comigo na VPR).

No documento, vejo que defendia (o melhor que pude) nosso racha e tentava transmitir otimismo. Por que lembrava dessa série como fora da realidade da VPR, intelectual demais e descabida? Provavelmente porque, depois do Congresso de Teresópolis da VAR, do racha e do novo Congresso que recriou a VPR, baixara na Organização um clima de ojeriza por textos programáticos/teóricos e por congressos, a ponto de eu mesmo ter optado por não participar desse último.  

Aí, quando o Moisés me disse que alguns veteranos estavam considerando minha série um desperdício de papel, acabei ficando com essa imagem na cabeça. Hoje percebo que estava longe de ser tão ruim assim, embora hoje a fizesse menos triunfalista e mais realista.

Mas os jovens são mesmo mais entusiasmados que os idosos e meio século não transcorre sem nos modificar, para melhor ou para pior...  
.
(por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A FOTO QUE CONFIRMOU A EXECUÇÃO DE LAMARCA E A DIGNIDADE DE UM LEGISTA

Em 2012, uma novo foto do comandante Carlos Lamarca veio à tona e a Folha de S. Paulo a publicou (vide reportagem aqui). Era a confirmação irrefutável de que ele havia sido executado pelos agentes da repressão.

Escrevi um artigo relatando esta e outra farsa que acabava de ser desmascarada e, no site Consciência Net (vide aqui), um leitor chamado Wanderley Almeida de Macedo postou um comentário interessantíssimo:
"A verdade é única. O  prof. dr. Aníbal Silvany Filho, legista do Instituto de Medicina Legal Nina Rodrigues (BA), encarregado de realizar a autopsia de Lamarca, foi sumariamente afastado de realizar o ato pelos militares que presenciaram o minucioso exame cadavérico no corpo do guerrilheiro, por não concordarem com que fosse registrado o número dos ferimentos perfuro-contusos, bem como a direção dos projeteis de arma de fogo que atingiram o corpo de Lamarca (de trás pra frente, da frente pra trás, de cima para baixo, de baixo para cima, etc.). 
O dr. Silvany discursa ao ser homenageado
O emérito prof. não se encontra mais entre nós, mas, felizmente, seus discípulos souberam aprender a lição do mestre". 
Cheguei logo à conclusão de que o comentarista era um dos discípulos do dr. Silvany Filho.

Este episódio, de cinco anos e meio atrás, me veio à lembrança ao ler a descrição da morte do Lamarca no relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que foi bem ao encontro do que o leitor relatou. 

Só lamento que a CNV não tenha incluído uma menção ao legista baiano que tentou cumprir seu dever, fazendo uma autópsia honesta, mas foi impedido pelos militares.

Eis como a CNV contou o final da perseguição:

"Na tarde do dia 17 de setembro, enquanto descansavam à sombra de uma baraúna, árvore típica da região, Lamarca e Zequinha foram surpreendidos pela tropa comandada pelo major Nilton de Albuquerque Cerqueira.
Escracho no endereço do oficial que comandou a caçada

O relatório da Operação Pajuçara, elaborado pela 2ª  Seção do Quartel-General da 6ª Região Militar do IV Exército, sugere que Lamarca e Zequinha, ao serem finalmente localizados, não ofereceram resistência:
'O segundo [Lamarca] levantou-se, tentando também correr, carregando um saco. Esse foi abatido 15 metros à frente, caindo no solo, enquanto o que dera o alarme [Zequinha Barreto], apesar de ferido, prosseguiu na fuga.
...Pouco adiante, Jessé [Zequinha Barreto] virou-se para o elemento que o perseguia, atirando-lhe uma pedra, recebendo então a última rajada. 
...A condição física [dos militares perseguidores] é também base para o sucesso da operação. [...] Esta afirmativa é baseada também no estado físico em que se apresentavam os dois terroristas ao final da ação, totalmente esgotados'.
Lamarca foi executado por agentes do Estado brasileiro com sete tiros, disparados de diversas direções, inclusive por trás, o que atesta que foi cercado.
Yara Iavelberg fora executada 4 semanas antes em Salvador 
Segundo moradores, seu corpo e o de Zequinha Barreto foram colocados à exposição pública na praça de Brotas de Macaúbas, onde foram chutados por militares e policiais, que se gabavam de tê-los executado. Depois, foram colocados em um helicóptero e levados para a capital, Salvador, onde foram sepultados, no Cemitério do Campo Santo. 

Diligência da CNV a Salvador, entre os dias 4 e 5 de agosto de 2014, localizou funcionários do cemitério responsáveis pelo sepultamento de Lamarca. Passadas décadas, eles lembravam com precisão do enterro de Lamarca, tamanho o aparato repressivo que cercou o episódio. Um deles, que colocou uma lápide na sepultura de Lamarca, foi repreendido por isso. 

Eles contaram que por dois anos, até a exumação de seus restos mortais, em setembro de 1973, quando foram trasladados para o Rio de Janeiro, agentes se revezavam, vigiando o túmulo, para evitar que ali virasse um local de reverência. 

...Em 1996, foi feita nova exumação, para que fosse feita perícia, por solicitação da família (...). Segundo os peritos [Celso Nenevê e Nelson Massini], Lamarca, cercado, recebeu tiros de ambos os lados, inclusive por trás, sendo que o tiro fatal foi de cima para baixo. O que nos leva à presunção de que, provavelmente abatido pelas costas, caído, foi mortalmente atingido".
Nem mesmo o filme Lamarca reconstituiu toda a covardia da execução

sábado, 11 de janeiro de 2014

VEJA ESTA CINEBIOGRAFIA DO LAMARCA (ENQUANTO NÃO FAZEM OUTRA MELHOR!)

Lamarca: jeitão grave, austero.
Nada como um guerrilheiro depois do outro: em seguida ao documentário Marighella, o blogue disponibiliza a dramatização cinematográfica do período final da vida de Lamarca, lançada em 1994.

Os dois filmes entraram aqui não por sua qualidade artística, mas pela importância dos personagens históricos focalizados: foram os expoentes máximos da luta armada brasileira (sendo que o Carlos Marighella já era um dirigente revolucionário de primeira grandeza desde a década de 1930). 

No caso de Lamarca, evidentemente, meu conhecimento dos episódios e das pessoas retratadas é bem maior. Consequente, o meu desagrado também.

Trata-se, sobretudo, um filme superficial, com a estética característica das telenovelas e minisséries da Rede Globo. P. ex., só há dois sotaques no filme, o nordestino e o carioca. Quem não é nordestino, fala como carioca. Mas, o Lamarca e a Yara Iavelberg falavam como paulistas. 

Além de dialogarem entre si de forma tão sentimentaloide  e piegas que ficam parecendo tudo, menos militantes revolucionários. Comparando-os com minhas lembranças, fiquei com a forte impressão de que foram banalizados.

Pior ainda foi a escolha dos atores. Paulo Betti jamais aparenta ser um militar e Lamarca nunca deixou de parecer um.

Betti: aparência de garotão.
A impressão que ele causava era a de ser um homem mais velho do que sua idade real; Betti, exatamente o contrário.

Outro que parece muito mais jovem (e menos sinistro) do que o original: Ernani Moraes, como o delegado Sérgio Fleury.

Quanto à Yara, não era encorpada como a Carla Camurati, mas sim uma mulher frágil, graciosa. Está simplesmente irreconhecível.

É uma bronca que sempre tive do cinema estadunidense: a escolha de atores não segundo as características dos personagens (históricos ou literários), mas sim para poder contar com bons chamarizes de bilheteria. As produções brasileiras, depois daquela fase áurea dos anos 60 e começo dos '70, foram pelo mesmo caminho, o do cinemão.

Os acontecimentos são tratados com idêntica superficialidade. A expropriação de banco em que o Lamarca se viu obrigado a matar um vigia para salvar a vida de um companheiro, numa rua entre o Brás e a Mooca, na verdade foi expropriação simultânea de dois bancos que ficavam um ao lado do outro. 

O disparo do Lamarca não foi simples como parece no filme, mas dificílimo, pois estava a uma distância de uns 40 ou 50 metros (tanto que a repressão de imediato adivinhou o autor, pois só havia um atirador de elite na esquerda). 

E ele, por não ter certeza de que acertara, deu um segundo tiro, o que também não é mostrado. Só pelos jornais ficou sabendo que ambos haviam sido perfeitos. Foi o que contou a vários de nós certa vez.

Mas, se neste caso cabe a desculpa de que são apenas detalhes, é indesculpável o filme de Sergio Rezende ter mostrado a morte do Lamarca como a repressão relatou e todos duvidamos desde o primeiro momento, até que no ano retrasado surgiu a prova cabal (vide aqui) de que ele tivera o mesmo destino do Che Guevara: estava incapacitado de se defender e foi covardemente executado.

Assim como o Zequinha (José Carlos Barreto), aliás. Foi o que concluiu a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Enfim, o filme vale como uma primeira abordagem do tema, desde que o assistamos com a consciência de que nem tudo é fiel, nem tudo é verdade. Tomara que, adiante, algum  Steven Soderbergh brasileiro lhe faça justiça, pois é um dos poucos heróis autênticos de nosso sofrido povo.

Related Posts with Thumbnails