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domingo, 27 de agosto de 2017

O QUE VEM POR AÍ: 'MILAGREZINHO BRASILEIRO' OU FIM DE FEIRA?

Toque do editor
Só não percebe quem não quer: o mandato presidencial em curso já está encerrado. Depois que Rodrigo Janot, com as Organizações Globo segurando o arco para ele, disparou sua flecha de bambu no próprio pé, começou a corrida presidencial de 2018. O provocador-geral da República promete renovar a tentativa antes de deixar pateticamente o cargo, mas é só para manter a pose, pois não vai dar em nada. 

Felizmente, aliás! Considerando-se os prazos de um processo de impeachment cujo pontapé inicial fosse dado em setembro, teríamos eventualmente um Rodrigo Maia como presidente-tampão do Brasil no primeiro trimestre de 2018 e uma eleição indireta no 2º trimestre. O feliz contemplado sentaria na cadeira durante uns poucos meses, fingindo governar enquanto todo o mundo político estivesse focado nas campanhas eleitorais. 

Muito barulho por nada, mais um ano jogado no lixo e outro pacote de bondades para os deputados federais é o presente de despedida que nos quer deixar Janot, antes de partir para o merecido esquecimento. [E, se tentar eleger-se governador de Minas Gerais, só vai acrescentar mais uma uma derrota vexatória à coleção. É melhor ele sair calado, na esperança de descolar um empreguinho na Globo.]

Bem, agora que o golpe dos Trapalhões fracassou, o que vem por aí?

Se São Marx iluminar a mente dos dirigentes esquerdistas, eles tirarão a única conclusão possível do ciclo petista na Presidência da República: a de que, enquanto perdurar o capitalismo no Brasil, quaisquer concessões temporárias dele extraídas serão revogadas quando o poder econômico bem entender. Ou mudamos a coisa por atacado e organizamos o povo para defender tais mudanças, ou continuaremos a cumprir o inglório papel de mercadores de ilusões, ajudando a classe dominante a ludibriar os explorados.
Depois do fracasso anterior, Janot mostra qual é a chance de a nova flechada resultar.
Caso a esquerda continuar fugindo da autocrítica como o diabo da cruz e trilhando caminhos que não levaram nem levarão a lugar nenhum, dois cenários relevantes se desenham:
  • ou teremos o milagrezinho brasileiro com o qual sonha Marcos Troyjo (vide aqui), que seria necessariamente tão efêmero quanto o primeiro, mas tendente a viabilizar a eleição de um presidente sorridente e light (o João Dória ou qualquer similar) e não de um senhor rancor (Lula ou Bolsonaro); ou
  • ou teremos um Temer  governando em clima de fim de feira, sem boom econômico nem euforia consumista, a arrastar-se melancolicamente até a entrega da faixa (e aí a eleição se tornará imprevisível, menos no aspecto de que Lula será alijado da disputa pelo Judiciário, a chamada caçapa cantada).
Depois de mostrar o cenário cor-de-rosa do milagrezinho, publico abaixo um artigo, de autoria do Vinícius Torres Freire, bem na linha do cenário acinzentado do fim de feira.

Se quisermos acertar nossos passos com a História, temos de levar em conta os possíveis cenários futuros, preparando-nos para reagir a eles no momento certo, não depois dos fatos consumados. 

Se continuarmos enxergando o presente com a nuca, outros fracassos virão. É simples assim. (CL)

Por Vinícius Torres Freire
OS ÚLTIMOS MESES DE TEMER
Muitas cabeças rolaram para que fosse paga a conta dos votos que evitaram a decapitação de Michel Temer, a abertura do processo que o afastaria do cargo. Desafetos perdem cargos às dezenas. Vão-se anéis e dedos que em tese poderiam votar em alguma reforma da Previdência, hoje quase uma memória desbotada.

No entanto, há gente no Congresso e no governo que acha possível aprovar alguma coisa da mudança previdenciária a partir de outubro. O que seria essa coisa pouca? Idade mínima de aposentadoria e um tapa em servidores públicos.

O aumento do tempo de contribuição para 25 anos e todo o resto relevante iriam para o vinagre. Se sobrarem 40% da poupança estimada originalmente pela reforma do governo, será um milagre.

A prioridade, porém, é aprovar o pacote de agosto, as medidas desesperadas para evitar um buraco ainda maior nas contas do governo, e o pacotão privatizador, que pretende tapar o buraco na imagem do governo que se jactava do ajuste fiscal, que não veio, e da reforma essencial, a previdenciária, que vai indo.

Vai dar pé? Há refregas de geometria variada no Congresso.

PMDB e centrão pedem os cargos de ministros e agregados do PSDB, como se sabe. Querem ver na ponta da estaca em especial a cabeça de Antônio Imbassahy (Secretaria de Governo), por vingança, e Bruno Araújo (Cidades), que administraria um fazendão de verbas restantes.

A mixórdia que se chama de reforma política causa mais disputas no governismo. PMDB e PP lideram o movimento pela aprovação do distritão, rechaçado por partidos pequenos e médios (em geral, o centrão), além da oposição.

Ao que parece, o PSDB pretende dar uma limpada na imagem fazendo campanha, ao menos da boca para fora, por uma reforma responsável e prudente. Ou seja, limitada ao fim das coligações em eleições proporcionais e a alguma cláusula de barreira, restrições igualmente rejeitadas pelos partidos menores.

O partido quer mudar de assunto, pois. Os tucanos concordaram que não vão rachar. Não oficialmente, claro, porque metade da bancada quer manter a boca no governo e a outra metade abomina Aécio Neves e Michel Temer quase tanto quanto o eleitorado brasileiro.

Apesar dessas e de outras refregas no Congresso, o governo está à beira de aprovar o fim paulatino dos juros subsidiados do BNDES (fim da TJLP) e, na prática, uma lipoaspiração duradoura do banco. Não é pouca coisa. O lobby da indústria nacional contra a medida era forte (que contava ainda com a oposição da capital de Patópolis, a Fiesp).

O governo então se animou com as perspectivas do pacote de remendão fiscal, que, no entanto, contém coisas intragáveis para o parlamentar padrão, como um bocadinho de impostos e um peteleco nos salários de servidores.

Até a penúltima semana de setembro, os parlamentares estarão cozinhando o angu de caroço da reforma política e sob pressão para aprovar os pacotes econômicos da liquidação de inverno de Temer. Ignora-se o novo tiro de flechas de Rodrigo Janot contra o presidente. Em outubro, a pauta estaria limpa para votar a Previdência.

O pessoal do governo acha que é uma ficção verossímil para os últimos meses úteis de Temer. Depois, é eleição. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

UM NOVO 'MILAGRE BRASILEIRO' ESTARÁ A CAMINHO?

Toque do editor
Uma lição que a História me ensinou foi a de nunca desprezar possibilidades aparentemente menos plausíveis de cenários futuros, se não quisermos ser surpreendidos por eles.

Aos 18 anos, escolhido pela VPR para criar algo que jamais existira na esquerda brasileira –um setor de Inteligência formalmente estruturado–, tive até algum sucesso em acompanhar as disputas na caserna, entre partidários da radicalização da ditadura e os que queriam manter a proposta original de devolução do poder aos civis. Tratava-se de algo que precisávamos monitorar bem, mesmo porque uma das consequências do fortalecimento dos segundos era a intensificação da repressão.

Mas, nem me passou pela cabeça que, além de um terrorismo de Estado desembestado, outro grave perigo nos ameaçasse: uma melhora da situação econômica capaz de alterar o humor da classe média, fazendo-a simpatizar com o regime. Acreditávamos que a impopularidade dos golpistas fardados permaneceria inalterada, aumentando as chances da guerrilha que nos preparávamos para deflagrar.

O milagre brasileiro nos retirou a escada e ficamos pendurados na brocha. Foi uma euforia consumista que que durou apenas até o primeiro choque do petróleo, em 1974. Mas, o suficiente para a classe média, deslumbrada com o aumento de poder aquisitivo e o ingresso no maravilhoso mundo das compras, sair cantando "eu te amo, meu Brasil, eu te amo", enquanto os próprios trabalhadores, no futebol dominical, ovacionavam o ditador Médici, que ia fazer encenações demagógicas no Maracanã, com um radinho de pilha colado no ouvido e um batalhão de seguranças ao lado...
A mão sangrenta aperta a mão do embasbacado

Um bom agente de Inteligência certamente perceberia os indícios do começo de um boom econômico, alertando seus superiores em tempo hábil. Mas, além da inexperiência, tenho outra atenuante: ninguém na VPR captou a direção dos ventos econômicos (nem mesmo o Ladislaw Dowbor, economista por formação). Fomos todos pegos de calça curta e, em pouco tempo, nos vimos isolados politicamente, o que facilitou nosso aniquilamento militar.

Gato escaldado, hoje me mantenho sempre atento aos rumos da economia, pois eles geralmente antecipam o que está para vir na política. No 3º trimestre de 2014, p. ex., eu já sabia que o mandato presidencial seguinte inevitavelmente transcorreria sob uma aguda recessão econômica. E, tendo a certeza de que a Dilma não estava nem de longe à altura do desafio que enfrentaria caso reeleita, favoreci tanto a candidatura de Marina Silva quanto a tendência interna do PT que pregava a volta do Lula, com a mudança de cabeça-de-chapa.

Infelizmente, Marina foi desconstruída pelo Goebbels do PT (João Santana, responsável direto pelo pior estelionato eleitoral de todos os tempos no Brasil) e Lula cometeu um dos maiores erros de sua vida, ao não insistir com a teimosa criatura para que se sujeitasse à vontade do seu criador. O resultado veio no ano passado com o impeachment, a derrota mais acachapante que sofremos desde 1964.
Bem melhor seria se Lula tivesse disputado esta eleição!
Desde então venho insistindo em que a esquerda precisa abandonar definitivamente as ilusões eleitoeiras e recolocar a superação do capitalismo como prioridade máxima de sua atuação, travando as lutas do povo ao lado do povo para organizá-lo e acumular forças, até se tornar capaz de oferecer uma verdadeira alternativa de poder.

Mas, há os que insistem em tapar o sol com a peneira, utilizando a miragem de uma vitória do Lula na eleição presidencial de 2018 como justificativa para não fazerem autocrítica nenhuma e manterem tudo que se revelou desastroso de 2002 para cá: a política de conciliação de classes, o reformismo, o populismo, o respeito religioso pelos valores republicanos, etc.

O Dalton Rosado e eu cansamos de provar que a via eleitoral, além de jamais ter sido uma autêntica opção estratégica para nós, hoje nem sequer serventia tática tem. Pelo contrário, participar dos podres Poderes nos diminui aos olhos do povo, fazendo-nos ser vistos como farinha do mesmo saco.

No fundo, tanto dá que seja Lula, Dória ou outro qualquer quem vá gerenciar o capitalismo para os capitalistas, pois o verdadeiro poder continuará sendo o econômico, a mão que maneja os cordéis por trás das cortinas. Presidentes hoje desempenham funções cerimoniais e cuidam das miudezas, enquanto as decisões macroeconômicas, aquelas que realmente importam, são ditadas pelo grande capital.
A classe média sonha com um bis

E, traçando um paralelo óbvio com o golpe de 1964, venho advertindo também que, mesmo estando globalmente muito mais fragilizado, o capitalismo continua tendo poder de fogo para dar uma levantada temporária na economia brasileira, suficiente para os eleitores estarem aliviados e otimistas quando forem às urnas em 2018.

Nesta 4ª feira (23) meu temor parece confirmado pelo economista Marcos Trojyo, que leciona na Universidade Columbia, em Nova York: poderemos mesmo vir a presenciar a um novo milagre brasileiro (que, não tenho dúvidas, seria tão efêmero quanto o anterior, mas com chance de consolidar a restauração burguesa ora em processo).

Sugiro que todos leiam suas previsões e passem a acompanhar atentamente o desenrolar dos acontecimentos, para ver se as confirmam. Caso o cenário que ele esboça venha a tornar-se realidade, todos os planos da esquerda terão de ser revistos, começando pelas perspectivas eleitorais do Lula, que evidentemente não subsistiriam em caso de um boom econômico.

E será uma boa hora para trocarmos o imediatismo por uma estratégia menos bombástica, porém mais efetiva, de paciente preparação dos explorados para a ruptura com o capitalismo, já pensando numa intensificação das nossas lutas dentro de alguns anos, depois de passado o boom. (CL)
BRASIL TEM CHANCE DE 
DIA DE SOL PERFEITO NA ECONOMIA

Por Marcos Troyjo
Se você estava buscando motivos para ficar menos desanimado com o Brasil, o anúncio da privatização da Eletrobras pode ser um bom sinal.

Por mais incrível (e imerecido) que venha a parecer, o país, em meio a seus escombros morais, políticos e fiscais, tem uma razoável oportunidade de engatar um ciclo positivo na economia –e na história.

No mundo, e dentro do Brasil, correntes de ventos contrários e a favor estão alcançando um equilíbrio interessante. Em lugar da certeza de que tudo está perdido, desponta a chance do país virar o jogo. Caso tenha competência, o Brasil aproveitará conjuntura a que se pode chamar de dia de sol perfeito.

Conhecemos bem sua plena antítese –a tempestade perfeita que acomete o país em anos recentes. Para ela concorreram fatores externos, como a retração do preço internacional das matérias-primas e a aumento do protecionismo comercial.

Influíram também as projeções de que a normalização das políticas monetárias nas economias mais maduras teria efeitos de estrangulamento de liquidez para emergentes como Brasil. Há exatos três anos, o banco de investimento Morgan Stanley listava o país ao lado de Turquia, Indonésia, África do Sul e Índia como pertencentes ao indesejável grupo dos Cinco Frágeis.

No entanto, eram os fatores internos a espalhar o rastro de devastação da tempestade perfeita. O impeachment que inescapavelmente se avizinhava. A impiedosidade da Lava Jato sobre o modelo de economia política vigente. A radioatividade da nova matriz econômica. O esgotamento da política de campeãs nacionais e do sacrossanto conteúdo local. O estouro, enfim, das comportas fiscais do estado brasileiro.
A tempestade perfeita de 2015...

Basta olhar o número de desempregados, a retração do PIB ou a falta de ânimo para investir e temos a dimensão do que continua a significar essa traumática tormenta.

Ainda assim, o momento está propício para a virada da sorte. Se quiser, como demonstram os primeiros lances nessa dinâmica de privatizar a Eletrobras, o país pode realizar no biênio 2018-19 um portentoso programa de desestatização. Nesse movimento, os bem-vindos influxos de caixa com a venda de ativos – grande refresco para o quadro fiscal –são os menores dos benefícios.

Os principais dividendos estarão no aumento da eficiência e na diminuição do papel do estado na economia e na sociedade. Aqui, os ganhos de mudança cultural, de constrangimento da mentalidade estatista, são de igual monta aos de natureza econômica.

Se de fato enveredar pelo rumo da desestatização, o Brasil desencadeará enorme potencial produtivo. E, antes mesmo que isso ocorra nos fundamentos, a formação de expectativas positivas desempenhará grande papel no desanuviar do horizonte econômico brasileiro.

Uma onda desestatizante se agregaria a outros pujantes ventos de cauda. O crescimento do Sudeste Asiático – que dobrará seu peso relativo na economia global nos próximos quinze anos – continuará a deslocar a curva da demanda mundial por alimentos, commodities agrícolas e minerais. São esferas em que o Brasil apresenta vastos diferenciais competitivos.

Do ponto de vista do investimento estrangeiro, seja na modalidade de portfólio, seja na planta produtiva, o tamanho específico do Brasil ainda importa. Sobretudo se considerarmos que há amplos estoques de capital no mundo disponíveis para projetos de infraestrutura – área em que o Brasil representa clara fronteira móvel.
...cede lugar a alguma melhora e a previsões otimistas...
Estão coincidindo também os frutos de uma boa gestão macroeconômica – inflação na meta e juros em queda – com a constatação de que as reformas estruturais moveram-se para o centro do palco. 

A trabalhista andou e, ainda que sob a tensão inerente às grandes mudanças de paradigmas, o Brasil provavelmente adotará um sequencial de reformas tributárias e reformas previdenciárias – ambas no plural. É isso ou o caos reformador do mercado.

E, ainda que se busque cotidianamente barrar a Lava Jato, seus efeitos colaterais benéficos no campo do compliance, transparência e melhores relações com investidores se farão sentir crescentemente.

Claro que existe um universo de coisas passiveis de dar errado no (e para o) Brasil nos próximos dezoito meses.

O cenário internacional, por algum evento fragmentário, por exemplo, com epicentro na Península Coreana, escureceria. O reality show trumpiano na Casa Branca pode sempre nos reservar alguma episódio mais dramático, com repercussão geoeconômica.

No plano interno, talvez a matemática fiscal em si venha a precipitar novo corte na nota de classificação de risco brasileiro antes da eleições do ano que vem. Quanto a reformas, o status quo político-fisiológico dispõe de couro grosso. Há muito o que pode desandar. O país conta com abundante coleção de mazelas a alimentar o desalento.
...mas a bonança, se vier, só durará até a tempestade seguinte.

Ainda assim, não reconhecer que a conjuntura está prestes a oferecer uma baita chance para o Brasil recuperar parte do prejuízo é mais do que ausência de otimismo. Não enxergar que o país pode iluminar-se com um dia de sol perfeito é falta de realismo.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

CAPITALISMO DE ESTADO x CAPITALISMO LIBERAL: UMA FALSA DICOTOMIA, FADADA AO FRACASSO.

"O mercado pode manter a sua irracionalidade por mais
tempo do que do que você pode permanecer
solvente" (John Maynard Keynes)
.
O capitalismo tem regras internas de funcionamento que obedecem à sua lógica de reprodução cumulativa autotélica (ou seja, quanto mais cresce, mais precisa crescer) e a pretendida distribuição da riqueza produzida sempre se torna impossível de ser realizada.

É evidente que nas ilhas de prosperidade capitalista, aqueles países que se tornam grandes produtores de mercadorias a custos competitivos no mercado (ou por produzirem mercadorias com alto teor tecnológico ou por possuírem riquezas naturais abundantes de alto consumo como o petróleo) os resultados periféricos dessa produção permitem ao Estado arrecadador de impostos ou produtor uma situação mais confortável, no sentido do provimento de demandas sociais. 

Mas o mundo não é só aquicomo bem disse o poeta Manduka na letra de Quem me levará sou eu. Qualquer análise macroeconômica mais séria demonstrará uma realidade inarredável: o mundo sob a égide do capitalismo é pobre e agora, atingido o limite interno de sua expansão graças à obsolescência crescente do trabalho abstrato na produção de mercadorias, agravam-se tanto tal pobreza quanto a falência do Estado. A turbulência é cada vez maior, notadamente nos países periféricos. O planeta se tornou um barril de pólvora. 

É dentro desse contexto que devemos analisar o crescimento chinês nas últimas duas décadas (ao qual aludi neste artigo recente e que foi também dissecado pelo Marcos Troyjo noutro post do blogue). O dito cujo não se constitui numa fórmula que fuja da lógica destrutiva capitalista e possa servir de exemplo a ser seguido, mas, pelo contrário, vem é confirmar que o capitalismo e suas contradições internas devem ser combatidos agora e sempre,  sem a ilusão de que modos alternativos venham a amenizar de modo localizado o sofrimento do povo. 

A China construiu o seu modelo de capitalismo baseado em premissas perigosas que, no longo prazo, demonstrarão ser catastróficas para o povo, inclusive servindo de estopim para um abalo sísmico no capitalismo mundial (sob tal prisma, acabará minando toda a lógica capitalista com muito mais eficácia do que com a revolução armada que no passado propunha). 

Fatores de base do tal fenômeno chinês são:
— a baixa taxa de remuneração do trabalho necessário (tempo de trabalho abstrato remunerado a valores baixíssimos, que oportuniza o tempo de trabalho excedente, não remunerado, gerador do lucro);
— a adoção de incentivos fiscais que reduziram a zero os impostos de exportação;
— o desrespeito à lei de patentes;
— a produção de mercadorias em níveis de qualidade diferenciados ao gosto do freguês;
— a manipulação cambial que tenta driblar a representação monetária do valor coagulado em cada mercadoria;
— o incentivo ao contrabando de suas mercadorias junto aos países importadores; e
— o alto índice de endividamento propiciado pelo capital financeiro desempregado e ávido por nichos de mercado nos quais pode reproduzir-se cumulativamente.
A exemplo do que ocorreu na Europa quando da primeira revolução industrial no século 19, um enorme contingente populacional de tradição rural foi urbanizado para a produção industrial e se tornou dependente de tal produção (e de todas as suas incertezas explosivas).

Agora, a produção industrial chinesa vive a impossibilidade material, matemática, de crescimento constante nos nível anteriores, pois esbarra no limite de consumo e capacidade de compra da população mundial; na adoção de barreiras alfandegárias por parte dos países importadores, que veem minguar as suas produções internas de mercadorias e o desemprego, consequentemente, aumentar; e no fato de que seus vizinhos populosos, tão ou mais pobres, estarem seguindo seus passos e se tornando renhidos concorrentes (caso da Índia, da indonésia, do Paquistão, do Vietnã, etc.). Os augúrios são péssimos: a perspectiva de um iminente desastre chinês aterroriza o mundo capitalista. 

O povo chinês já começa a sentir os reflexos da insustentabilidade de um modelo que começa a sofrer fissuras. Grandes conjuntos habitacionais fantasmas, desabitados, representam investimento sem retorno, apontando para a insolvência das dívidas que os financiaram; a migração de indústrias para países vizinhos já provoca desemprego (ainda que as estatísticas manipuladas não falem disso); e são centenas de milhões os chineses ora abaixo da linha de pobreza (com renda de 1 dólar estadunidense por dia), deslocados do campo para as cidades, sem qualificação, relegados ao desemprego e privados da produção agrícola. 

O pagamento à risca dos juros da dívida pública e privada chinesa exigiria níveis bem mais expressivos de crescimento econômico, que hoje estão fora de cogitação. Daí a perspectiva de que em breve haverá um abalo considerável na já combalida realidade do sistema financeiro mundial, mesmo porque o buraco não poderá ser tapado pela emissão de dinheiro sem valor por parte dos Bancos Centrais, como ocorreu durante a crise do sub-prime em 2008/2009 (uma pequena amostra da tempestade que está se formando agora).                       
.
OS SIMULTÂNEOS NEOLIBERALISMO E
NEO-KEYNESIANISMO BRASILEIROS
.
Nada mais neo-keynesiano do que o neoliberalismo nos períodos de crise intensa do capitalismo como agora ocorre; nada mais neoliberal do que o neo-keynesianismo quando a necessidade de expansão do capitalismo de Estado se impõe como forma de sobrevivência do Estado. 

O que foi a intervenção dos Bancos Centrais dos Estados Unidos e da União Europeia, países defensores do liberalismo econômico, na crise do sub-prime, se não uma necessária (para o capitalismo) intervenção estatal keynesiana para a salvação do sistema financeiro? 

O que está sendo praticado pela China, país dito comunista, governado com mão-de-ferro e repressão política a qualquer dissidente, se não a mais escrachada política neoliberal econômica? 

Cunhada nos albores do capitalismo, a expressão francesa laissez faire, laissez aller, laisser passer (deixai fazer, deixai ir, deixai passar) foi uma eloquente defesa do livre funcionamento do mercado sem interferência do Estado, constituindo-se na mais clara definição do liberalismo econômico. Esta filosofia econômica tornou-se dominante nos Estados Unidos e nos países ricos da Europa no final do século 19 e início do século 20. 

Já o Estado nacional capitalista foi criado para dar sustentação ao capitalismo intramuros e defendê-lo do capitalismo externo, estabelecendo-se, portanto, uma contradição entre a necessidade de expansão da capital (privado ou estatal) que busca nichos de mercado em que possa se desenvolver e as normas dos Estados nacionais, voltados para o interesse dos seus cidadãos, na contramão dos interesses dos cidadãos estrangeiros. 

O capitalismo é uma guerra de mercado na qual uns saem vencedores e outros perdedores, sem que haja possibilidade de equilíbrio de ganhos. É falaciosa a ideia de desenvolvimento equânime sob o capitalismo seja ele neoliberal ou keynesiano.       

O Brasil é, em termos de PIB, um país com números expressivos dentro da economia planetária, sem, contudo, ter uma participação expressiva no mercado mundial em termos de riqueza abstrata. Não passa de um exportador de matérias-primas minerais e de produtos agropecuários que têm baixo valor, daí os números de suas exportações serem relativamente baixos: o volume total das exportações brasileiras em 2016 foi de US$ 185 bilhões, enquanto a China exportou US$ 2,3 trilhões, ou seja, 11,4 vezes mais. 

É que a China, graças a atrativos como os seus baixos níveis salariais e os subsídios fiscais oferecidos, recepcionou a grande indústria multinacional sofisticada, passando, assim, a vender tecnologia. 

Nas exportações chinesas pontuam as vendas de unidades de disco digital (US$ 188 bilhões, quase o total das exportações brasileiras num único produto); equipamentos de transmissão (US$ 165 Bilhões); telefones (US$ 112 bilhões); circuitos integrados (US$ 65,7 Bilhões); e peças de reposição (US$ 45,4 bilhões). 

Ou seja, tornou-se fabricante de produtos sofisticados por obra e graça das indústrias que lá se instalaram para a exploração da mão de obra barata e outras vantagens. Tal modelo, vem se ampliando no continente asiático e até no africano (trazendo consigo um ameaçador aumento na emissão de gases poluentes na atmosfera e mesmo em Pequim, como se vê na foto abaixo).
O capitalismo, sob estas bases, assina a sua sentença de morte, pois reduz a massa global de produção de valor e de extração de mais-valia.  

O Brasil adota um modelo híbrido. É neoliberal e keynesiano simultaneamente. Esta dupla personalidade aumenta o tal do custo Brasil de produção, ao mesmo tempo que reduz sua competitividade no fratricida comércio internacional. Ademais, tem renda per capita e direitos superiores aos países asiáticos e africanos, não suportando, portanto, o achatamento acentuado dos salários, a perda de direitos e outras medidas lá adotadas (e aceitas até com naturalidade em função da pobreza histórica dessas nações e do desespero que grassa desde que a lógica capitalista mundial atingiu sua fase de fim de feira). 

Vale registrar também que, por estarmos parcialmente fora do processo de mercado internacional, somos menos susceptíveis às turbulências protecionistas que estão sendo articuladas pelos países ricos diante da globalização da produção de mercadorias. O Brasil é pobremente (sob o prisma da riqueza abstrata) autossuficiente. 

A conclusão a tirarmos disso tudo é que, qualquer que seja o modelo capitalista que venha a ser adotado no Brasil como forma de sobrevivência, estará destinado ao fracasso. 

Na verdade, por mais inatingível que possa parecer o ideal emancipacionista, o Brasil é um dos poucos países que graças às suas riquezas naturais, poderia com certa facilidade superar a vida mercantil sob a égide da forma-valor, adotando um modelo de produção diferente que dele faria um exemplo para o mundo. 

Padecemos sob um contato social regido por uma elite política historicamente conservadora e cada vez mais corrupta, subserviente a um empresariado acostumado às benesses estatais dirigidas. Trata-se do mais atrasado modelo de competição capitalista.  

A questão que se coloca, pois, não é buscarmos saídas dentro da imanência capitalista que não virão e nem amenizarão as nossas agruras momentâneas, mas fazermos um esforço de superação da lógica do capital que nos aprisiona e do modelo político que derrete a olhos vistos. Ainda que tal empreitada demande um esforço e consciência superiores. (por Dalton Rosado)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O CAPITALISMO DE ESTADO À BRASILEIRA ISOLOU NOSSO PAÍS DO MUNDO E NOS TORNOU UMA ATRASADA AUTARQUIA

Toque do editor
Não há quem aguente escrever dia após dia sobre a entropia brasileira — o atoleiro em que estamos nos debatendo desde 2015, com as forças políticas anulando-se mutuamente e o país não saindo do lugar, aparentemente condenado a aguardar a eleição presidencial de outubro de 2018 para que seja rompido o impasse, pois ora inexiste consenso para viabilizar qualquer opção melhor (o que há são emendas piores do que o soneto, como o estado policial que se vislumbra no ativismo justiceiro de certos jacobinos togados).

Então, buscando algo diferente, encontrei um interessante artigo do economista e cientista Marcos Troyjo, discorrendo sobre as diferenças entre o capitalismo de estado no Brasil e na China. 
Comida de tigre de papel em plena China?!

Como os leitores devem lembrar-se, a sugestão de seguirmos os passos chineses foi apresentada por uma articulação parlamentar de cunho nacionalista, que tenta fazer do senador Roberto Requião o vice de Lula na eleição de 2018. 

As propostas econômicas dessa tal frente foram imediatamente rechaçadas pelo Dalton Rosado, neste post. E eu creio que valha a pena aprofundarmos a discussão, até porque o Estado é um verdadeiro fetiche da esquerda brasileira desde o tempo em que o Partido Comunista era sua força hegemônica e seguia fielmente os ditames stalinistas. 

O texto de Troyjo, Notas sobre o capitalismo de estado, cujos trechos mais pertinentes reproduzo a seguir, é um adendo a tal discussão. E, certamente, o Dalton terá algo mais a dizer sobre o assunto, nos próximos dias.
.
Por Marcos Troyjo
"...tanto a própria noção de capitalismo como a ideia de capitalismo de Estado representam conceitos demasiado amplos. Comportam realidades tão diferentes como China ou Cingapura, Brasil ou Rússia...

É possível (...) vislumbrar dois submodelos majoritários de aplicação de ferramentas Estado-capitalistas, sobretudo em termos de estratégia econômica. Os dois países que ofereceram os elementos mais facilmente identificáveis em tempos recentes são justamente o Brasil e a China.

O Brasil, que buscou consolidar o modelo em diferentes momentos históricos, jamais porém o implementou com tanto afinco como nos anos Lula-Dilma. E o fez num contexto de pujante sociedade civil, imprensa vigilante e livre, pleno direito à crítica e sufrágio universal. O capitalismo de Estado brasileiro que disso resultou foi consumista, orientado para dentro e curto-prazista.

Na China, o capitalismo de Estado se deu sobre estruturas de imobilismo político e (forçada) coesão. O projeto nacional chinês de poder, prosperidade e prestígio é mais importante do que a livre movimentação e expressão política dos atores sociais. Disso resultaram ênfase em poupança e investimentos, economia voltada para fora e perspectiva de longo prazo.
Mao (com Nixon) em 1972: onde foi parar seu livro vermelho?

O capitalismo de Estado chinês foi marcado –por certo tempo– pela administração artificial do câmbio e da remuneração do fator trabalho, acesso favorecido aos principais mercados compradores do mundo, grande capacidade de acúmulo de poupança e investimento nas mãos do Estado, parcerias público-privadas voltadas à infraestrutura e logística de comércio exterior, e uma combativa diplomacia empresarial.

O capitalismo de Estado no Brasil desenhado no período Lula-Dilma foi erigido sobre protecionismo comercial, fortalecimento das megacorporações de economia mista que atuam em commodities agrícolas e minerais, política industrial defensiva e, por último, remuneração do capital financeiro em níveis bem superiores às taxas praticadas ao redor do mundo - de modo a compensar os esquálidos níveis de poupança e investimento internos, ambos inferiores a 20% do PIB.
Trabalhadores chineses já não são os mais explorados. Há piores!
Tanto o modelo chinês como o brasileiro conferiram caráter sacrossanto à noção de conteúdo local. No caso chinês, muito se especulou quanto ao conteúdo local como imperativo para manter-se empregada – a baixos níveis de remuneração –a imensa população de jovens que a cada ano chega ao mercado de trabalho.

Contudo, esse que foi o principal estereótipo da competitividade chinesa –mão de obra abundante a baixo custo– já está caduco. Economias como Índia, Paquistão, Vietnã ou mesmo países africanos já oferecem mais atrativos neste particular do que a China.

O que marca a ênfase que o capitalismo de Estado na China contemporânea atribui ao conteúdo local se manifesta na robusta capacidade de realizar compras governamentais ou celebrar contratos internacionais exigindo, como contrapartida do parceiro estrangeiro, a instalação de unidades produtivas em território chinês.

Neste sentido, aparentemente é grande a coincidência com o modelo brasileiro de busca de conteúdo local, que concentra o poder do Estado, suas autarquias e das grandes empresas de economia mista e em favor da atração de investimentos estrangeiros diretos.
No entanto, o capitalismo de Estado no Brasil e sua filosofia local-conteudista promoveram tão somente substituição de importações. Na China, tais ferramentas foram instrumentalizadas à promoção de exportações.

A vertente chinesa promoveu internacionalização e competitividade e, no limite, acabou por auxiliar na emergência do país como principal nação-comerciante. Em contraste, o modelo brasileiro tão somente serviu para isolar o país do mundo, reforçando suas feições de atrasada autarquia"
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