O fim de semana foi agitado, mas as duas grandes notícias do feriado, os 500 mil mortos e as manifestações contra Bolsonaro, não me comovem muito.
Calma, eu explico. Cada uma das mortes é uma tragédia e ver as pessoas se mobilizando para depor o pior presidente da história é positivo. Receio, porém, que a forma como essas notícias se colocam obscurece a gravidade da situação.
Meu pendor racionalista faz com que eu não veja diferença de escala ou essência entre 500.000 e, digamos, 502.324, mas, mesmo que aquiesçamos ao fetiche humano por números redondos, a marca do meio milhão já foi ultrapassada um bom tempo atrás.
O fenômeno da subnotificação é quase universal. Até há países como a Bélgica em que o cômputo dos óbitos pelo Sars-CoV-2 é praticamente o mesmo que o do excesso de mortes em relação a anos não pandêmicos, só que isso é uma raridade.
Na maioria das nações, a contagem oficial fica sistematicamente abaixo da de óbitos não esperados. Em casos extremos, como o de alguns estados indianos, o número real de vítimas pode ser até dez vezes maior que o oficial.
Para o Brasil, estudos como o da infectologista Ana Luiza Bierrenbach estimam uma subnotificação da ordem de 30%. Isso significa que ultrapassamos os 500 mil lá pelo meio de abril e já nos aproximamos dos 700 mil.
Algo parecido ocorre com as manifestações. Como prefiro medidas objetivas a impressionismos, dou mais relevo a pesquisas que a fotos.
E o Datafolha nos diz que 49% dos brasileiros com mais de 16 anos defendem o impeachment. Estamos falando de um universo de descontentes da ordem de 75 milhões de pessoas, o que empalidece até as mais fantasiosas estimativas dos organizadores sobre o número de manifestantes no sábado.
A moral que extraio dessas considerações é que estamos atrasados. Com quase 700 mil mortos e maioria relativa a favor do afastamento, como Bolsonaro continua no poder? (por Hélio Schwartsman)
TOQUE DO EDITOR– Elementar, meu caro Schwartsman, embora tão vexatório que poucos ousam somar 2 mais 2 e anunciarem 4 como resultado.
Ocorre que os brasileiros somos historicamente dóceis ao autoritarismo e (não há maneira mais delicada de dizer) pusilânimes quando nos cabe enfrentar o tirano da vez, mesmo que ele não passe de um palhaço demente.
Para não alongar-me, lembrarei que, houvesse um mínimo de determinação e ousadia, o projeto dos inconfidentes teria sido assumido por toda a colônia e coroado de êxito, com a independência sendo conquistada pra valer, ao invés de se reduzir a uma mera troca, tardia ainda por cima, da dependência política a Portugal pela dependência econômica à Inglaterra.
"Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação", disse o Tiradentes, mas ele era exceção e quase todos tinham algo a perder, preferindo então permanecer em cima do muro.
Das maiores ditaduras do século passado, a de 15 e a de 21 anos, saímos pela porta dos fundos, com a redemocratização ocorrendo apenas ambas quando se tornaram insustentáveis e contraproducentes; os que ousaram resistir a elas antes disso se viram entregues às bestas-feras, exatamente como Tiradentes.
E por aí vai. O povo heroico, ao invés de fazer ecoarem seus brados retumbantes, é useiro e vezeiro em miar quando deveria rugir. (por Celso Lungaretti)
"Estas perdiendo el tiempo / Pensando, pensando /
Por lo que mas tu quieras / ¿Hasta cuándo? ¿Hasta cuándo?"
"Eu tenho alertado o PT para ter paciência, porque nós temos que esperar quatro anos. A não ser que ele cometa um ato de insanidade, cometa um crime de responsabilidade, a gente então possa fazer o impeachment dele, mas se não fizer isso, nós não podemos achar que nós podemos derrubar um presidente porque não gostamos dele. Não podemos"(Lula, em entrevista ao jornal suíço Le Temps no último domingo)
"Estás perdiendo el tiempo/ Pensando, pensando/ Por lo que más tú quieras/ Hasta cuándo? Hasta cuándo?/// Y así pasan los días/ Y
yo, desesperando/ Y tú, tú contestando/ Quizás, quizás, quizás"
Muita água passou debaixo da ponte desde aquele domingo em que, como quase sempre fazia, acompanhei meu pai ao seu bico de fim de semana.
Além do trabalho exaustivo numa fiação, ele sacrificava seu repouso para botar mais dinheiro em casa: recolhia apostas nas corridas de cavalo, em troca de uma comissão de 10%. Repassava-as por telefone a um tio-avô que vivia disto.
Este parente, que lembrava muito o personagem Amigo da Onça (grande Péricles!), descarregava os jogos pesados em outras bancas, segurando só os que teria como pagar.
Então, na ampla casa do meu avô, os apostadores iam fazer sua fezinha e alguns passavam a tarde lá, assistindo ao futebol, torcendo ruidosamente na hora dos páreos televisionados (Vai! Vai! Vai! VVVVVVAAAAAIIII!!!), jogando dominó de cartas.
Eu tinha uns cinco anos e brincava com um ou outro amigo da turminha da rua que não tivesse coisa melhor para fazer em pleno domingão.
Certa vez, o único que estava por lá me convidou a ir até o cine Patriarca olhar os cartazes, a cinco quarteirões de distância. Fomos.
Para minha surpresa, ele levou um papo de coitadeza e convenceu um bom velhinho a nos pagar um ingresso. Parece que fazia sempre isto, pois o porteiro, sem discutir, permitiu que eu também entrasse, dois pelo preço de um.
O filme era sobre Ali Babá. Adorei a canção tipo chiclete (gruda no ouvido...) que acompanhou os letreiros iniciais, mas... passados uns 10 minutos eu resolvi ir embora, pois não avisara o meu pai e sabia que ele se preocuparia se não me encontrasse por lá. O senso de responsabilidade falou mais alto; no entanto, fiquei tão frustrado que a tal musiquinha jamais me saiu da cabeça... Sessenta anos depois, deparei-me num blogue de downloads com o filmeAli Babá and the forty thieves, de 1944, dirigido por Arthur Lubin. Fiquei curioso: seria este?
Fui atrás do vídeo no Youtube e constatei que não. Mas, na busca apareceu também o menos conhecidoThe adventures of Hajji Baba, de 1954 (d. Don Weis). Bingo! Aquele tema que me deslumbrara tinha assinatura ilustre: Dimitri Tiomkin, de quem simplesmente adoro as composições paraSem Lei e Sem Alma. E o cantor era ninguém menos do que o Nat King Cole. Ouçam:
O filme já estava no Youtube, mas falado em inglês e sem legendas. Deixei pra lá.
Agora, contudo, apareceu legendado em vários blogs de cinema e até no Youtube. Por mero saudosismo, finalmente o vi inteiro... e me decepcionei, claro. Uma besteirinha sem nada a ver com as fascinantes fantasias das mil e uma noites.
Pelo menos a canção não me decepcionou, como costuma acontecer com as lembranças que o tempo e a imaginação colorem na nossa mente. A letra é bobinha, mas a gente ouve e fica com a música na cabeça, até se surpreende cantarolando
Caso dos gols guardados com tanto carinho na memória, mas que hoje, revistos nos vídeos que sobraram do saudoso Canal 100, mostram-se até banais, não resistindo à comparação com os de um Messi, p. ex.
No fundo, talvez gostemos mesmo é de evocar o que éramos... e nunca mais seremos. Vem-me à mente outro filme, este bem mais recente e muito melhor: Exótica, d. Atom Egoyan, 1994. A certa altura, ele traduziu cruelmente em palavras a sensação que quase todos temos ao olharmos para trás, já na no último terço ou último quarto da jornada:
"Por que uma colegial nos parece tão atraente? É que ela tem a vida toda pela frente, e nós já desperdiçamos a nossa"
(Rosa Parks, defensora dos direitos civis nos EUA)
Na grande depressão econômica de 1929/1933, a Alemanha, que vinha da derrota para a Tríplice Entente na 1ª Guerra Mundial (1914/1918), sofria particularmente com as restrições econômicas e territoriais que lhe haviam sido impostas. As empresas faliam aos milhares, deixando 6 milhões de trabalhadores (45% da mão-de-obra do país) na rua da amargura. A inflação disparava, embora sem atingir os patamares extremos da hiperinflação de 1923. A vida social se tornava quase impossível. Foi neste quadro dramático que surgiu o salvador da pátria Adolf Hitler e seu nacionalismo xenófobo e racista, mesmerizando a sofrida sociedade alemã com promessas de prosperidade e de afirmação da raça ariana. Os comunistas foram os primeiros a serem discriminados politicamente, os judeus e ciganos vieram na sequência.
O nazismo endeusava o trabalho abstrato como fonte de toda a riqueza e dignidade humanas (vide a frase O trabalho liberta, um humor negro involuntário no frontispício do campo de concentração de Auschwitz), em contraponto ao que alegavam ser um parasitismo usurário semita, numa demonstração da ignorância sobre a verdadeira gênese e natureza da formação e acumulação do valor (dinheiro e mercadorias.)
Na casa da morte, o cínico louvor ao trabalho libertador!
Mas, não foi apenas em meio à barbárie nazista que se manifestaram as intoleráveis posturas racistas e xenófobas. Elas também eram encontradas em 1948, quando os Estados Unidos já haviam obtido a condição de emissor do dólar como moeda internacional (Breton Woods, 1945) e, não tendo sofrido danos em seu próspero porque industrial, desfrutavam de prosperidade em pleno pós-guerra. Mesmo assim, os ricos de Los Angeles, Califórnia, não deixaram de demonstrar todo o sentimento racista supremacista branco.
Em 1948, o brilhante cantor e pianista negro estadunidense Nat King Cole, no auge da fama, comprou uma mansão no Hancock Park, um luxuoso condomínio em Beverly Hills, moravam os atores famosos de Hollywood e os milionários dos EUA.
A direção da associação de moradores do condomínio visitou a família e se queixou do inconveniente que representaria o ingresso de moradores indesejáveis. Nat King Cole, acostumado com a histórica segregação racial estadunidense, fingiu não ter compreendido quem era o alvo da insinuação; repondeu que concordava perfeitamente como aquela regra condominial, e que também não gostaria de conviver com pessoas indesejáveis.
O cantor e sua filha Natalie Cole: indesejáveis?!
Os intolerantes interlocutores, que, ao invés de darem as boas vindas aos novos moradores, haviam sido portadores de uma ignominiosa ofensa racista, engoliram seco a inteligente postura do cordato cantor estadunidense, posto que não puderam explicitar o conteúdo do que consideravam como sendo moradores indesejáveis, por absoluta falta de consistência argumentativa humana e moral.
De outra feita, Nat King Cole, que fora o primeiro negro a se tornar apresentador de um programa na televisão dos EUA, obtendo enorme sucesso, teve de deixar o programa por absoluta falta de patrocinadores; recusavam-se a financiá-lo pelo simples fato de não tolerarem um apresentador negro, numa prova de que o capital (valor acumulado), ainda que seja ele próprio o sujeito autômato social indiferente às castas sociais feudais e a tudo que não represente o seu interesse auto-reprodutivo irracional, é também predominante branco e racista.
Em 1955, em Montgomery, capital do Alabama, EUA, como de resto em vários outros estados, as primeiras filas dos assentos dos ônibus eram reservadas para os homens e mulheres brancos. Os assentos dos negros, designados com a expressão only coloreds, situavam-se nos bancos de trás, eram menos numerosos e separados com esses indicativos acintosos.
No dia 1º de dezembro de 1955, Rosa Parks tomou um dos assentos do meio do ônibus e, quando nele subiu um homem branco, o motorista exigiu que o lugar fosse a ele cedido. Diante da recusa de ceder o assento, Rosa Parks foi levada a uma delegacia, presa e processada por ato de desobediência legal.
Ônibus em que os lugares de trás eram para os negros
A partir deste incidente a população negra da cidade se recusou o usar os transportes de ônibus e se juntava em grupos para caminhar a pé cantando músicas anti-segregacionistas, postura que causou prejuízos financeiros às empresas, além de colocar em evidência aquelas ignominiosas restrições legais. A atitude contestatória de Rosa Parks foi o estopim para a mobilização da população negra estadunidense da cidade pela igualdade dos direitos civis, negada pela legislação, e se constituiu num marco da cruzada que, a partir daí, foi liderada pelo pastor Martin Luther King, cuja repercussão é uma das mais belas páginas da história emancipacionista estadunidense, ainda que persistissem as intolerantes ações dos supremacistas brancos (agora, infelizmente, retomadas em escala mais ampla).
Eis que, sem nenhum pejo, o presidente estadunidense Donald Trump, dando sequência a outras manobras flagrantemente xenófobas, segregacionistas e racistas, resolveu rever o status de proteção temporária aos imigrantes que estejam morando nos Estados Unidos em razão de catástrofes naturais ou conflitos bélicos.
Como sabemos, o Haiti, o país mais pobre das Américas, destruído em 2010 por um terremoto que devastou a sua população, se constitui no mais eloquente exemplo do que é capaz o capitalismo nos países periféricos ao seu excludente regime de produção de mercadorias.
Refugiados haitianos protestam contra infâmia de Trump
Não por acaso, os mais atingidos são os haitianos, cuja população, na quase totalidade, é formada pela bela etnia dos negros, representando a grande maioria dos imigrantes nessa condição existentes nos EUA. Eles terão de regressar ao seu país no período de 12 meses, por determinação do Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos, como resultado do fim do Programa de Proteção Temporária criado em 1990.
O governo Trump, ratificando o que prometera nos discursos nacionalistas xenófobos e racistas que são tidos como responsáveis por sua vitória eleitoral (ainda que sem maioria absoluta de votos), consegue se superar a cada momento, mostrando-nos do que é capaz a insensatez coletiva que coloca à frente do governo um narcisista e supremacista branco pretensamente salvador da pátria, capaz de piorar os males do capitalismo, que por natureza ontológica jamais poderá ser bom para todos.
O que dizer do Brasil, país que tem a maior população negra fora da África e é campeão mundial de assassinatos por armas de fogo de jovens, predominantemente negros, com população carcerária idem, e que trata qualquer cidadão negro e mal vestido como um criminoso em potencial?
Brasil: lugar de negro é nos boletins policiais...
Que todos os atos de racismo e xenofobia nacionalista nos sirvam de lições contra os outsiders que se aproveitam da insatisfação coletiva para fazer vingar os seus discursos políticos de exclusão, ódio e de falaciosa salvação da pátria.
Que se compreenda que o valor econômico como forma de mediação social é a gênese da segregação social racista, por essência constitutiva; e que não haverá emancipação social a persistirem as castas sociais raciais e a dissociação de gênero. A emancipação humana planetária somente será possível a partir da mobilização mundial coletiva consciente, e que prescinda de heróis. (por Dalton Rosado)
Muita água passou debaixo da ponte desde aquele domingo em que, como quase sempre fazia, acompanhei meu pai ao seu bico de fim de semana.
Além do trabalho exaustivo numa fiação, ele sacrificava seu repouso para botar mais dinheiro em casa: recolhia apostas nas corridas de cavalo, em troca de uma comissão de 10%. Repassava-as por telefone a um tio-avô que vivia disto.
Este parente, que lembrava muito o personagem Amigo da Onça (grande Péricles!), descarregava os jogos pesados em outras bancas, segurando só os que teria como pagar.
Então, na ampla casa do meu avô, os apostadores iam fazer sua fezinha e alguns passavam a tarde lá, assistindo ao futebol, torcendo ruidosamente na hora dos páreos televisionados (Vai! Vai! Vai! VVVVVVAAAAAIIII!!!), jogando cartas.
Eu tinha uns seis anos e brincava com um ou outro amigo da turminha da rua sem coisa melhor para fazer em pleno domingão.
Certa vez, o único que estava por lá me convidou a ir até o cine Patriarca olhar os cartazes, a cinco quarteirões de distância. Fomos.
Para minha surpresa, ele levou um papo de coitadeza e convenceu um bom velhinho a nos pagar um ingresso. Parece que fazia sempre isto, pois o porteiro, sem discutir, permitiu que eu também entrasse, dois pelo preço de um.
O filme era sobre Ali Babá. Adorei a canção tipo chiclete (gruda no ouvido...) que acompanhou os letreiros iniciais, mas... passados uns 10 minutos eu resolvi ir embora, pois não avisara o meu pai e sabia que ele se preocuparia se não me encontrasse. O senso de responsabilidade falou mais alto; no entanto, fiquei tão frustrado que a tal musiquinha jamais me saiu da cabeça... Quase 60 anos depois, deparei-me num blogue de downloads com o filmeAli Babá and the forty thieves, de 1944, dirigido por Arthur Lubin. Fiquei curioso: seria este?
Fui atrás do vídeo no Youtube e constatei que não. Mas, na busca apareceu também o menos conhecidoThe adventures of Hajji Baba, de 1954 (d. Don Weis). Bingo! Aquele tema que me deslumbrara tinha assinatura ilustre: Dimitri Tiomkin, de quem simplesmente adoro as composições paraSem Lei e Sem Alma. E o cantor era ninguém menos do que o Nat King Cole. Ouçam:
O filme, falado em inglês e sem legendas, podia ser assistido no Youtube, mas logo desisti. Não valia mesmo a pena vê-lo por completo.
Pelo menos a canção não me decepcionou, como costuma acontecer com as lembranças que o tempo e a imaginação colorem na nossa mente.
Caso dos gols guardados com tanto carinho na memória, mas que hoje, revistos no Canal 100, mostram-se até banais, não resistindo à comparação com os de Messi e Neymar.
No fundo, talvez gostemos mesmo é de evocar o que éramos... e nunca mais seremos.
Vem-me à mente outro filme, este bem mais recente e muito melhor: Exótica, d. Atom Egoyan, 1994.
A certa altura, ele traduziu cruelmente em palavras a sensação que quase todos temos ao olharmos para trás, já na segunda metade da jornada: "Por que uma colegial nos parece tão fascinante? É que ela tem a vida toda pela frente, e nós já desperdiçamos a nossa".
Bill Haley, Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Bob Dylan, Beatles e Rolling Stones, no pop; Tom Jobim, Vinícius de Morais, João Gilberto, Chico Buarque e Caetano Veloso, na família do samba; de reconhecidos talentos e mundialmente famosos, todos são continuadores da música visceral dos escravos negros.
Além de suas contribuições decisivas para a construção das Américas, regada a sangue, suor e lágrimas, os africanos aqui chegados deram outra contribuição tão significativa quanto esta primeira: o legado cultural, traduzido na culinária, no admirável desempenho esportivo, nas danças e nas artes em geral, com destaque para a criação de ritmos musicais que encantam o mundo.
Vindos sob grilhões como mercadorias e animais de carga, e tratados a chicotadas pelos civilizados senhores europeus, os negros africanos traziam em suas almas torturadas e dominadas uma riqueza imaterial de incomensurável valor mercantil: a capacidade de traduzir em melodias tristes ou alegres a crença na vida, confrontando com a força interior de suas resistências o contexto escravocrata feudal que se introduzia nas Américas (e que iria pouco tempo depois desembocar no escravismo capitalista, no qual todos são livres para se submeterem ao tacão do capital).
"traduzir em melodias tristes ou alegres a crença na vida"
Neste momento de homenagem a Bob Dylan, cuja música se fundamenta na fusão do country & western irlandês-estadunidense com a batida do blues africano em versão eletrificada (o chamado rhythm and blues da escola de Chicago), há que se perguntar por que o rei do rock foi Elvis Presley e Jerry Lee Lewis o vice-rei, ao invés de Chuck Berry ou Little Richard? É que o establishment americano somente podia aceitar o rock’n’roll que havia tomado conta da juventude se interpretado por artistas brancos.
Elvis, com sua maravilhosa voz, beleza física e trejeitos insinuantes, bebeu na fonte africana com a qual conviveu na infância e juventude de menino pertencente ao poor white trash, como os estadunidenses preconceituosos se referiam aos brancos pobres.
Era um branco que cantava como os negros (com quem aprendeu o jeito de dançar e cantar), e somente assim o rock’n’roll (derivado do blues sulista dos escravos negros nos EUA, com andamento musical apressado) pôde ser aceito pela grande maioria da sociedade estadunidense, explicitamente dividida em ambientes exclusivos para negros e para brancos.
Woodstock: Jimi Hendrix implodiu o hino nacional dos EUA!
O grande Chuck Berry (considerado pela revista Rolling Stone com o 5º melhor artista e o 7º melhor guitarrista dos EUA, compositor de melodias e solos inigualáveis como os de Johnny B. Goode, Maybellene, Roll Over Beethoven, Sweet Little Sixteen, Route’66, Memphis Tennessee e tantas outras preciosidades, dançarino virtuoso e cantor excepcional, teve de amargar alguns anos de prisão quando estava no auge do sucesso, como consequência de uma acusação inconvincente de corrupção de menores. A tendenciosa perseguição policial aos negros nos EUA ainda hoje é uma mazela abominável.
Ray Charles, o menino negro, pobre e cego do sul dos Estados Unidos, que compunha letras e melodias imortais, tocava piano e instrumentos de sopro, cantava com sentimento e voz inconfundíveis, tendo efetivamente sido um dos mais completos artistas que o mundo contemporâneo conheceu, nem por tudo isso é rei de seja lá o que for.
Os mais famosos ritmos americanos derivam do blues, raiz de uma gama variada de estilos que foram tecidos originalmente nos barracões mal acabados em que moravam os escravos negros africanos.
Resposta a quem o acusava derebolar como um negro
O rock’n’roll, o reggae, o funk, as baladas fundidas com o country folk, etc., são descendentes diretos do blues, a música negra lamentosa que embutia protesto em seus acordes dolentes, e que apareceu originalmente para o grande público sob a forma do gospel religioso (porque só assim era aceito publicamente) para somente depois, e lentamente, assumir o seu posto profano em comunidades, festas e emissoras de rádio exclusivas para negros.
A bela canção Like a Rolling Stone, um dos maiores sucessos de Bob Dylan, bem como a denominação da banda inglesa do Mick Jagger, devem ao negro Muddy Waters, um dos maiores compositores e instrumentistas de blues dos Estados Unidos, a expressão famosa, título de seu sucesso Rollin Stone ("He's gonna be, he's gonna be a rollin stone/ Sure 'nough, he's a rollin stone/ Sure 'nough, he's a rollin stone"). A inspiração de Waters, por sua vez, foi um velho provérbio latino, pedras que rolam não criam limo.
Foi necessário que os jovens ingleses dissessem sim à música negra americana para que os americanos a adotassem como sua. B. B. King e sua guitarra fazia o blues afirmar a qualidade instrumental dos negros americanos; e Nat King Cole, uma das mais belas vozes humanas, teve de certa vez usar maquiagem branca para diminuir a aparência de sua negritude, além de ser boicotado, ficando sem patrocínio comercial no seu programa de televisão, apesar do sucesso.
O mestre Muddy Waters e seus discípulos britânicos
Sobre a influência da música negra nos Estados Unidos se pode escrever um tratado, mas a nossa intenção aqui é somente fazer o registro da importância cultural afro-americana nem sempre reconhecida, e que é um dos mais importantes legados culturais aos EUA, sendo, contudo, muitas vezes confundida como uma criação branca (o primeiro grande sucesso de Elvis Presley, que catapultou a sua trajetória de inegável talento em 1955, foi That’s all right Mama, um blues então já antigo do negro Arthur big boy Crudup, cujo andamento musical foi apressado.
A outra vertente musical africana das Américas reconhecida mundialmente é o samba. No Brasil, país cujo contingente de negros (em termos absolutos) é um dos maiores do mundo, o legado africano em todas as áreas da vida social é marcante, sendo inegável que o samba se constitui hoje numa das maiores expressões da identidade nacional brasileira mundo afora.
O batuque musical dos tambores rústicos das senzalas brasileiras tomou forma gradual até ganhar a sonoridade bem acabada de um Pixinguinha, Donga, Sinhô, João da Baiana, Ismael Silva, Heitor dos Prazeres, Josué de Barros e tantos outros negros que no início do século XX conseguiram estabelecer no gosto popular um jeito de cantar e dançar únicos, genuinamente brasileiros, superando preconceitos de uma elite empedernida em seus salões de gala nos quais só se ouviam e dançavam minuetos, polcas, valsas e ritmos europeus (quanto muito aceitava o chorinho, que tem um pé na senzala, mas que tocado ao piano por um Ernesto Nazareth era confundido com ritmos europeus), e que fazia questão de afirmar o seu desprezo por aquela música por eles considerada de qualidade inferior.
Embora correndo o risco de ser traído pela memória e omitir nomes importantes, não é demais dizer muito obrigado a todos os músicos negros brasileiros, homens e mulheres, que nos deram um patrimônio cultural imaterial incomensurável.
"um patrimônio cultural imaterial incomensurável"
E o faço nas pessoas de alguns dos seus mais destacados expoentes, como os senhores Assis Valente, Wilson Batista, Cartola, Orlando Silva, Nelson Sargento, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Candeia, Zé Keti, Mansueto, Paulo da Portela, Bide (Alcebíades Barcelos), Brancura (Sílvio Fernandes), Marçal, Monarco, Elton Medeiros, Roberto Silva, Riachão, Jorge Ben Jor, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Dorival Caymmi, Grande Otelo, Ataulfo Alves, João do Vale, Martinho da Vila, Jackson do Pandeiro, Blecaute, Ciro Monteiro, Jamelão, Agepê, Bezerra da Silva, João Nogueira, Baden Powell, Bola Sete, maestro Erlon Chaves, maestro Cipó, Johnny Alf, Jair Rodrigues, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Tim Maia, Ed Motta, Zezé Mota, Luiz Airão, Roberto Ribeiro, Preto Jóia, Mussum, Emílio Santiago, Luiz Melodia, Djavan, Carlinhos Brown, Dudu Nobre, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Sombrinha, Mestre André, Paulinho Mocidade, Neguinho da Beija-Flor, Dicró, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Xande de Pilares, Péricles, Alexandre, Thiaguinho, Diogo Nogueira, Sérgio Loroza e Mumuzinho.
E mulheres maravilhosas como Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Jovelina Pérola Negra, Eliana Pittman, Marya Rosa Colin, Alcione, Carmen Costa, Elza Soares, Sandra de Sá, Negra Li, Margareth Menezes, Mart’nália, Leci Brandão, Preta Gil, Vanessa da Mata, Mariene de Castro e tantas outras (faltaria espaço neste artigo para todos eles e elas).
Se o blues e seus derivados representam a identidade cultural dos EUA, o samba é a identidade musical brasileira perante o mundo, e todos nós devemos isso aos negros, a quem concedo o meu particular e anônimo Prêmio Nobel da Música. SARAVÁ!
Por Dalton Rosado
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Bob Dylan no 1º álbum: influência marcante da música negra.