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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

QUEM SIMBOLIZA O CAPITALISMO NÃO É O ROBIN HOOD E SIM O EBENEZER SCROOGE

leonardo sakamoto
TAXAR SUPER-RICO PARA BANCAR RENDA BRASIL RESOLVERIA PROBLEMA DE BOLSONARO
Tirar dos ricos para dar aos pobres...
Jair Bolsonaro reclamou, nesta quarta (26), da forma que o ministro da Economia, Paulo Guedes, encontrou para bancar o Renda Brasil, o Bolsa Família do bolsonarismo (imagino que seja tão estranho para vocês lerem isso quanto é para nós escrever). 

Para respeitar o teto de gastos, o dinheiro viria do abono salarial, do salário-família, do seguro defeso, do Farmácia Popular. O presidente disse que isso seria tirar do pobre para dar ao paupérrimo, o que venho afirmando desde que a ideia sem pé nem cabeça veio a público. 

Para ser mais exato, é tungar do pobre CLT para remediar o pobre da informalidade. 

Ele, contudo, ignorou um elemento da equação social: os multimilionários e bilionários. Outras democracias vêm discutindo aprofundar a cobrança de impostos sobre os abastados para bancar os mais pobres na crise e depois dela. 

No Brasil, há uma série de iniciativas nesse sentido tramitando no Congresso. Ele já se mostrou contra a ideia no passado. Mas, até aí, ele também já havia xingado o Bolsa Família e hoje o abraça como se fosse fã desde pequeno. 

Com o aumento em sua aprovação segundo o Datafolha, principalmente entre quem ganha até três salários mínimos, Bolsonaro já entendeu os efeitos terapêuticos da transferência de renda entre uma população historicamente deixada para trás nas prioridades do poder público. 

Percebe que não pode simplesmente acabar com o auxílio emergencial de R$ 600/R$ 1200 (aliás, ele deveria tratar deputados e senadores, os verdadeiros pais e mães disso, a pão de ló por esse presente) se quer se reeleger. E decidiu anabolizar o Bolsa, em valor e beneficiários. Só está com um problema para saber de onde sairia o dinheiro. 

Tributar os super-ricos pode arrecadar cerca de R$ 292 bilhões anuais para serem usados contra a crise. É o que defendem a Federação Nacional do Fisco, a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal, os Auditores Fiscais pela Democracia e o Instituto Justiça Fiscal, entre outras instituições. 

...contraria a lógica e o espírito do capitalismo...
[Super-rico não é você que vai para a Disney de vez em quando e abraça o Pateta, apesar de o ministro da Economia achar que sim.] 

Eles apresentaram 11 propostas legislativas que estão em consonância com o plano de Reforma Tributária defendido pelos partidos de oposição. "A maior parte dessas medidas podem tramitar por projeto de lei. Precisam ser aprovadas ainda em 2020 para passarem a valer em 2021", afirma Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Unicamp, que participou da elaboração da proposta. 

A tributação sobre patrimônio é criticada entre determinados economistas, que juram que os bilionários brasileiros iriam tirar o dinheiro do país. Contudo, apenas o Imposto sobre Grandes Fortunas arrecadaria R$ 40 bilhões nos cálculos desse grupo de entidades. 

O resto viria de uma maior progressividade do Imposto de Renda de Pessoa Física (R$ 160 bilhões, incluindo a taxação de dividendos), do aumento temporário da alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido de setores econômicos com alta rentabilidade (R$ 30 bilhões) e da criação da Contribuição Social Sobre Altas Rendas (R$ 25 bilhões), entre outros. 

O Imposto sobre Grandes Fortunas taxaria patrimônios superiores a R$ 10 milhões, abraçando 60 mil pessoas. E o Imposto de Renda aumentaria paulatinamente para quem ganha mais de R$ 23,8 mil por mês – que, segundo eles, perfazem 1,1 milhão de pessoas, 3,6% dos contribuintes. A alíquota mais elevada (45%) incidiria sobre 211 mil contribuintes (0,1% da população) que ganham mais de R$ 60 mil por mês. 

Hoje, a classe média paga mais impostos em relação à sua renda do que multimilionários e bilionários devido à não taxação de dividendos, à baixa taxação de Imposto de Renda de Pessoa Física, entre outras manobras. 
...daí não passar do sonho de uma noite de verão...
A oposição quer aproveitar a Reforma Tributária para, além de garantir progressividade real na cobrança de impostos, reduzir a taxação na produção e comercialização e aumentar na renda e na riqueza. 

O então deputado Jair Bolsonaro disse, em entrevista ao documentarista Carlos Juliano Barros, em 2015, que quem recebe o Bolsa Família não faz nada da vida, só produz filhos para o Estado custear: 
"Uma política de planejamento familiar, acho que só eu falo aqui nessa casa [Câmara dos Deputados]. O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado, cara. Ele já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bem, nem serviço. Não produz nada. Não colabora com o PIB, não faz nada. Fez oito filhos, aqueles oito filhos vão ter que creche, escola, depois cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Para não ser nada".
Em 17 de outubro de 2018, entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial, ele criticou a taxação dos mais mais ricos em entrevista ao SBT:
"Eu acho que, no Brasil, você não pode falar em mais ricos, está todo mundo sufocado. A carga tributária é enorme. Quase tudo é progressivo no Brasil"
Na verdade, o país está longe de uma progressividade decente na cobrança sobre a renda, ou seja, cobrar bem mais de quem tem muito. 
...que não sobrevive à vontade férrea dos Putins e das Merkels.  

Tendo visto que sua sobrevivência política e eleitoral depende disso, Jair não só mudou de opinião sobre o Bolsa Família (hoje com 14,2 milhões de famílias), como quer algo maior (de 20 a 30 milhões de famílias), passando de uma média de R$ 190 para algo em torno de R$ 300, na forma do Renda Brasil, a fim de herdar parte da base lulista. 

Se ele "mudou de opinião" sobre o Bolsa Família, não por uma questão ideológica, mas pragmática, talvez não seja impossível mudar também sobre a taxação de super-ricos. 

Para tanto, teria de fazer um cálculo: 
— ou beneficia dezenas de milhões de brasileiros e pavimenta sua reeleição;
— ou mantém boa relação com mercado e mantém acesa a chama do bolsonarismo-raiz (que acha que taxar bilionário é pecado e Bolsa Família é voto de cabresto).
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TOQUE DO EDITOR  Nunca deixo de trazer para o blog estas soluções racionais e exequíveis para amenizarmos o infortúnio dos pobres e dos paupérrimos do Brasil, pois cumprem um papel educativo, qual seja o de provarem de maneira cabal que haveria, sim, como socorrer os coitadezas sob o capitalismo... caso a insensibilidade social não fosse intrínseca à exploração do homem pelo homem.
Governo do PT tirou a escada e Suplicy ficou pendurado na brocha
Basta lembrarmos a rapidez com Angela Merkel colocou um ponto final na disposição humanitária daqueles outros líderes europeus que, tocados pela aflição dos empobrecidos pela covid-19, eram favoráveis à emissão de euros para minorar as agruras dos coitadezas do velho continente. 

Essas propostas vêm, vão e nada acontece, tanto que a Renda Básica da Cidadania, sonho de uma noite de verão do nosso bom Suplicy, foi aprovada em pleno governo petista, que, contudo, não moveu uma palha para transformá-la em realidade. 

Na prática a teoria é outra, dizia o Joelmir Beting. Nunca devemos esquecer que o objetivo do capitalismo é L-U-C-R-O, como martelava o economista liberal Eugenio Gudin. (por Celso Lungaretti) 
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Observação — o título do post faz referência ao herói mítico inglês do século 12 e ao personagem de Charles Dickens em sua conhecidíssima História de Natal, um empedernido agiota que inspiraria o Walt Disney na criação do Tio Patinhas. 

sábado, 15 de agosto de 2020

INSTITUCIONALIZAR-SE UMA RENDA BÁSICA PARA CADA CIDADÃO? ALELUIA! MAS, NÃO É ASSIM QUE A BANDA TOCA NO CAPITALISMO

dalton rosado
A PREOCUPAÇÃO MUNDIAL COM A SUBSISTÊNCIA HUMANA
Antes mesmo da pandemia, a FAO, agência da ONU para a alimentação e agricultura, já alertava para o aumento do fome mundo afora. 

Com a recessão mundial anunciada para 2020 o prenúncio era de agravamento da situação; e, a partir do advento da crise sanitária que vem paralisando as relações de produção e consumo de mercadorias, a coisa ganhou contornos de dramaticidade global.

É na esteira desse quadro conjuntural que tanto a direita com a esquerda institucional se veem impelidas a socorrer, pelas mãos do Estado e dentro dos critérios mercantis de mediação social, as populações atônitas com as dificuldades de suas próprias subsistências.

Tais contingentes esperam do Estado, que sempre os oprimiu, a salvação da morte; por sua vez, os detentores do poder político desse Estado, independentemente de sua postura ideológica, sentem que tudo caminha para uma convulsão social caótica caso nada seja feito. 

Como a mediação social atual é feita pelo valor, representado pela mercadoria dinheiro, capaz de comprar minimamente as mercadorias objetos e serviços, a solução emergencial tem sido a distribuição, pelo Estado, de dinheiro sem lastro mercantil.

O mundo todo tem ido nessa direção, desde os EUA (que distribuíram US$ 1,2 mil para cada cidadão estadunidense sem levarem em conta seu nível de renda), até o governo brasileiro (com os R$ 600 para pessoas com baixa renda).  
Eduardo Suplicy é grande defensor do projeto de renda básica

Tal procedimento visa dar um mínimo de condições de sobrevivência às populações empobrecidas pelo desemprego estrutural de sempre, pelo fechamento de postos de trabalho decorrente da Covid-19 e pelo subemprego que agora se agrava, e, ao mesmo tempo manter algum fluxo da produção mercantil. 

Mas, tal auxílio emergencial e indução artificial esbarram numa equação insolúvel caso a pandemia se prolongue demasiadamente, uma vez que a emissão de dinheiro sem lastro pode ser tão catastrófica para o equilíbrio fiscal e monetário controlado pelo Estado quanto a própria ebulição social em fermentação originada pelo conjunto da obra capitalista.

Se a permanente distribuição de dinheiro sem lastro fosse mecanismo factível sem efeitos colaterais desastrosos para a própria lógica do capital e estabilidade política-estatal, servindo, portanto, como fonte de indução da regularidade da produção e consumo de mercadorias, as populações exploradas estariam satisfeitas e o capitalismo estaria salvo.

Mas, não é assim que a banda toca. Quando a moeda não tem correspondência com a produção mercantil e o Estado, via Banco Central, emite moeda sem esse lastro mercantil, é a própria moeda que entra em descrédito crescente pelo processo inflacionário (mais moeda do que mercadorias) até finalmente deixar de servir como expressão do valor das mercadorias e propriedades mensuradas por tal critério.

Quanto tal ocorre, quem mais sofre com a inflação são os trabalhadores assalariados, os explorados e sacrificados de sempre. 
Se fosse tão simples distribuir renda, o capitalismo se eternizaria
O capital é acúmulo de horas de trabalho abstrato mensuradas em valor médio e subtraídas indebitamente dos produtores de valor (os trabalhadores); se ele não representa as ditas cujas, perde substância e deixa de servir como critério de valor (riqueza abstrata) e correspondente mensuração.
   
Está, agora, o capital chegando ao ponto de inflexão de queda inexorável devido ao atingimento do seu limite interno de expansão por fatores endógenos (as suas contradições internas) e fatores exógenos (pandemia, crise ecológica, etc.). 

Daí ser simpática, mas ingênua, a intenção da esquerda reformista de institucionalizar uma renda básica para cada cidadão. Se fosse possível viabilizá-la, ainda assim o resultado seria na linha da célebre frase do príncipe Falconeri n'O Leopardo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: mudar alguma coisa para que tudo continue sob a mesma lógica social-democrata de convivência pretensamente humanizada, mantido o modo de relação social estabelecido pelo capital.

Por seu turno, é oportunista a aceitação pela direita dessa mesma renda básica em dinheiro para cada cidadão, de modo que que todos continuem comprando as mercadorias e que o capital possa continuar acumulando-se até o infinito.

Ambas as intenções estão equivocadas por que querem, por motivos diferenciados, institucionalizar uma solução dentro dos parâmetros, impossíveis de serem equacionados, de uma lógica de relação social que perdeu a sua funcionalidade escravista como consequência da obsolescência do trabalho abstrato em maior proporção e que é a causa primária da debacle capitalista. 
Ele ameaça sair se o descontrole voltar   

[Há, ademais, fatores adicionais com a questão ecológica, epidêmica, evolução sócio-comportamental, etc.]

Isso posto, a pergunta que não quer calar é: qual a saída para esse impasse que a roda da História colocou para a presente geração???

Somente poderemos suprir as atuais necessidades de consumo mundial se usarmos a imensa capacidade produtiva social atual sob um modo de produção voltado para a distribuição equilibrada e ecologicamente sustentável de bens de consumo e serviços (sem mensuração de valor), que garanta um acesso básico da população a esses mesmos bens e serviços.

Ressalte-se que, em cada produto e serviço, não existe um grama sequer de dinheiro, mercadoria que se incorpora aos objetos e serviços de modo oportunista e escravista.

Desse modo caminharemos, gradativamente, para nos acostumarmos com tal modo de produção e verificarmos que, com até menores esforços coletivos, poderemos obter a comodidade e satisfação do consumo de todos, sem as preocupações próprias do Estado com o déficit fiscal e controle monetário, bem como com a ganancia cumulativa e predatória do capital.

Estamos diante de uma oportunidade histórica de redenção da humanidade aos grilhões do escravismo indireto do capital, e tudo em nome do bem da humanidade. 

Tal possibilidade passa, inevitavelmente, por duas premissas básicas:
— o abandono paulatino dos critérios de socialização pela forma-valor (dinheiro e mercadorias), com o respectivo critério de posse e acesso de uso dos bens indispensáveis à vida, entronizando-se então cânones jurídicos voltados para a verdadeira realização do ideal de justiça;
— uma organização social horizontalizada, na qual a comunidade possa gerir os próprios destinos e definir o modus operandi de uma relação social verdadeiramente humanizada, na qual possamos identificar em nosso semelhante um artífice da solidariedade e não um adversário na competição autofágica e fratricida patrocinada pelo capital.

Aos emancipacionistas cabe a tarefa de elaboração de uma teoria e de uma prática convergente com estes ideais que se impõem de modo pragmático e ditado pela dialética do movimento histórico das relações sociais. 

Desempregados e subempregados, não clamem pelos empregos e melhoras salariais que jamais virão; recusem o papel de artífices da própria escravidão indireta, inerente ao trabalho produtor de valor e à acumulação opressora do capital.

Desempregados e subempregados de todo o mundo, uni-vos!!! (por Dalton Rosado).  

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O PROJETO DE UMA RENDA BÁSICA PARA TODOS FINALMENTE VAI DECOLAR?

rui martins
DA UTOPIA PARA A REALIDADE: UMA PROPOSTA QUE PODERÁ VINGAR NO MUNDO PÓS-PANDEMIA
Faz três anos, enviei ao editor os originais de um livro provavelmente ainda muito prematuro, na época, para o Brasil. Tanto que até hoje continua inédito.

Porém, a crise social e econômica provocada pelo coronavírus, agravando ainda mais a pobreza e ameaçando tornar irreversível a situação de miséria para milhões de famílias em todo o mundo, trouxe à atualidade uma antiga ideia: a de todos os países garantirem a todos seus cidadãos uma renda básica mínima para poderem viver dignamente. 

Honra a quem de direito: foi Thomas More, o primeiro a imaginar essa solução, ainda no século 16, no seu livro Utopia.

O tema vem sendo abordado pelas organizações internacionais como um principal recurso capaz de evitar uma depressão econômica internacional. Ainda é recente um texto do professor Guy Standing, da Universidade de Londres, publicado pelo Fórum Econômico de Davos, mostrando não ser uma solução de inspiração exclusiva de esquerda.

A fragilidade do atual sistema econômico mundial decorre da sua transformação num capitalismo de renda, argumenta Standing, do qual se beneficiam exageradamente os que vivem de rendas de propriedades ou de investimentos financeiros. 

A mundialização desenfreada criou, assim, oito gigantes modernos: a desigualdade, a insegurança, a dívida, o estresse, a precariedade, a automatização, a extinção e o populismo neo-fascista. Essa situação chegou ao seu clímax com a crise decorrente do coronavírus.

Após o auê, o PT praticamente ignorou a proposta de Suplicy
A Espanha decidiu, desde maio, criar algo semelhante para 22% da população em situação de precariedade. O Brasil também criou uma ajuda temporária, chamada emergencial. Entretanto, tais iniciativas não correspondem à essência da renda básica, por serem mínimas e transitórias.

É o caso também do programa Bolsa Família, uma ajuda irrisória distribuída a 20% das famílias brasileiras, e que poderá ser aumentada, não se sabe quanto, com o anunciado programa Renda Brasil, pelo ministro Paulo Guedes. 

O novo programa incluiria os trabalhadores autônomos, informais e desempregados. Em contrapartida, outros benefícios já concedidos aos trabalhadores de renda mínima seriam suprimidos.

O Partido dos Trabalhadores perdeu sua grande chance de fazer história, em termos de política econômica, ao praticamente ignorar o projeto de renda básica universal, proposto pelo ex-senador Eduardo Suplicy, criado há mais de 30 anos e constante em três de seus livros.

Transformada em projeto, tal proposta, apresentada ao Senado em 1994, chegou a ser aprovada em 2004 pelo Congresso, mas não foi aplicada concretamente pelo governo petista. 

Hoje, o governo Bolsonaro pretende utilizar essa mesma ideia básica, com as deturpações que lhe são costumeiras, dando-lhe um formato paternalista a fim de garantir sua reeleição.

Seguem alguns trechos originais do meu livro A revolução do salário sem trabalho, ainda sem a atualização necessária face ao coronavírus, à espera de publicação.
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O Capitão Bozo se apropriando do tesouro do PT: o bolsa-família
UM SALÁRIO-MÍNIMO PARA TODOS  O projeto de se criar uma renda fixa para todos não é mais um sonho utópico. O desenvolvimento da automatização aplicável não só nas indústrias de produção como nas atividades humanas cotidianas, com a utilização crescente de robôs, cada vez mais perfeitos graças ao avanço da inteligência artificial acoplada com a nova linguagem numerotizada dos computadores, vai provocar o fim de numerosas carreiras profissionais.

Em termos práticos, isso significará um aumento incontrolável do desemprego, gerando desestabilização social e política nos países desenvolvidos.

O mundo mudou, a esquerda e a direita até aqui não conseguiram lançar bases duradouras para uma sociedade com menos desigualdades e surge a iminência do aumento do desemprego, incontrolável com o desenvolvimento das novas tecnologias, automatização, robotização e inteligência artificial, que, na verdade, são transformações e modernizações positivas para todos nós.

Assim como a internet revolucionou as comunicações e os contatos sociais, chegou a hora de se repensar a solução para os problemas que se arrastam pelos séculos, utilizando os instrumentos e experiências sociais e econômicas hoje existentes.

Mesmo tendo o próprio Cristo declarado a perenidade da miséria com sua frase os pobres, sempre os tereis convosco, nossa maturidade social, neste começo do 3º milênio, pode permitir o lançamento das bases para se colocar um fim definitivo na fome e na miséria em termos locais, regionais, nacionais e mesmo em todo o planeta.
Uma comunidade hippie estadunidense dos anos 60

Não se trata de uma ação política, plano religioso assistencial ou de filantropia, mas de um projeto econômico e social, vindo de tempos remotos, materializado, pela primeira vez, no livro visionário de Thomas More, publicado há tempos, no século 16, Utopia.

Esse livro conta a existência de uma ilha ideal, onde as riquezas eram partilhadas por todos, antecipando os sonhos e o surgimento de tantas comunidades, geralmente religiosas, muitas vivendo em autarcia, bastando a si próprias, e sem contato maior com o mundo exterior.

Na década de 1960, o inconformismo com os padrões legados de geração a geração levou os jovens, principalmente nos EUA, à ruptura e à criação de comunidades hippies, nas quais viviam partilhando tudo quanto possuíam, de uma maneira intuitiva, improvisada e um tanto precária, em torno de seus ideais, que eram basicamente de ruptura e de busca de realização individual, desvinculadas de projetos de reformas políticas.

Poucas comunidades sobreviveram ao avanço da idade de seus participantes, que acabaram por se integrar no sistema de classes e concorrência econômica e social do qual haviam saído.

Foi, entretanto, a Revolução de 1917, na Rússia, que deu origem à principal tentativa e experiência de sociedade igualitária e sem classes sociais, com oportunidades iguais para todos e sem os bolsões de miséria, existentes nas periferias e favelas de todos os outros países.

A experiência durou 70 anos e, embora pretendesse acabar com a desigualdade social, reforçou o aparelho do Estado, reduziu as liberdades, criou uma burocracia e se desviou para o totalitarismo com suas repressões e o culto da personalidade.
Verne chegou lá 104 anos antes

Não sendo, portanto, uma opção religiosa, nem dos jovens em ruptura social e nem um projeto político interessado em colocar na prática o marxismo, qual a novidade que, nos dias de hoje, sem recorrer à força ou necessidade de uma revolução, poderia acabar com os segmentos de miséria, aceitos como fatalidades normais nas sociedades humanas?

Trata-se de uma utopia capaz de se tornar realidade, como as histórias de ficção-científica de Jules Verne, H. G. Wells ou Asimov anteciparam importantes invenções e descobertas tecnológicas que hoje fazer parte do nosso cotidiano.

Alguma coisa palpável, concreta, como o dinheiro: criar-se uma renda, um pagamento, um tipo de pensão ou bolsa, como um salário mas sem a obrigação do trabalho, que seria paga a toda a população mas destinada a beneficiar as pessoas de baixa renda.

Por que se pagar essa renda para todas as pessoas? Para se evitar a humilhação aos mais pobres de se inscreverem como necessitados, ato aos quais muitos se negam, preferindo arcar com as restrições da miséria. Esse pagamento seria logo devolvido pelos não-necessitados, junto com o imposto de renda.

Esst solução prática na luta contra a miséria, aparentemente dispendiosa demais para o Estado, mas na verdade nem tanto, é conhecida, com pequenas variantes, pelos nomes de renda garantida, renda básica para todos ou renda mínima incondicional e universal.

Economistas de direita e de esquerda, com algumas modificações, consideram ser essa renda a maneira de se transformar as atuais relações sociais, suplantando-se as perspectivas sombrias do desemprego.

Na contracorrente, os países com crescentes problemas estruturais de desemprego crônico ainda tentam recorrer aos seguros-desemprego e ajudas assistenciais sempre insuficientes e degradantes, enquanto outros simplesmente abandonam essa parcela da população.

Ao mesmo tempo, aumentam a idade para a aposentadoria, quando as empresas não contratam maiores de 50 anos e muito menos idosos de 60, criando novos bolsões sociais de desempregados, condenados a um fim de vida na miséria. (por Rui Martins)

segunda-feira, 1 de junho de 2020

PARA O CLÃ BOLSONARO, O GOLPE AGORA É UMA CHANCE DE FICAR A SALVO DA POLÍCIA

celso rocha de barros
DEMOCRATAS RESSENTIDOS VENCERÃO
 GOLPISTAS DESESPERADOS
Os bolsonaristas falaram mais de golpe de estado na semana passada do que esta coluna no último ano e meio, o que é um feito admirável. 

Do “Acabou, porra” de Bolsonaro ao “não é questão de se, é de quando” de Eduardo Bolsonaro, passando por Olavo de Carvalho pedindo a execução de Alexandre de Moraes, o jogo está cada vez mais aberto.

Bolsonaro nunca teve tantos motivos para dar um golpe. Seja pelos atentados à democracia, pela sabotagem à saúde pública ou pelo aparelhamento da Polícia Federal, é difícil imaginar um cenário em que o Brasil continue tendo lei e Bolsonaro não enfrente problemas. Ainda tem ideologia, ainda tem projeto de poder, mas agora o golpe é para fugir da polícia.

As chances de sucesso de um golpe bolsonarista já foram maiores: quando tinham Moro e o lavajatismo na mão, quando tinham o dobro de aprovação popular, quando a reeleição de Trump parecia certa, quando ainda havia quem acreditasse em Paulo Guedes, quando Bolsonaro ainda não havia sido o pior governante do mundo no combate à pandemia.

Mas mesmo um golpe fraco pode ser bem-sucedido se não encontrar resistência.

É preciso fazer uma frente contra o autoritarismo de Bolsonaro, e, se ela for feita, ela vai vencer. Ela será forte o suficiente para intimidar e converter os golpistas prudentes, será forte o suficiente para destruir os imprudentes.

​Não é fácil montá-la. Será uma frente de gente que já brigou no limite de suas forças para derrotar outros membros da frente, de gente que já perdeu cargos por causa de outros membros da frente, que já foi sacaneada por outros membros da frente, que acha (em mais de um caso, com razão) que outros membros da frente são responsáveis por estarmos na situação em que estamos.

O ideal é que essa seja, inclusive, uma oportunidade para conversar, para dar uma olhada no que os outros democratas estão pensando, quem sabe dali não sai algo que sirva para sua própria reflexão? Pode ser uma chance de curar ressentimentos e construir novas alianças. 

Essas polinizações cruzadas não são raras em momentos como esse. O debate sobre a renda básica, p. ex., parece estar cruzando fronteiras ideológicas.

A pandemia fortaleceu os governadores, e os governadores de esquerda vinham sendo mais moderados e abertos ao diálogo do que vários parlamentares progressistas (o que é normal, governadores precisam conquistar maiorias). 

Pode ser o momento de se construir um novo programa de centro, que ainda não existe. Quem não quiser dar palpites sobre os termos de sua reconstrução pode passar o resto da vida correndo atrás dele depois.

Mas se não der para fazer nada disso, não importa, vamos em frente, todo mundo com seus ressentimentos, todo mundo com as feridas abertas, cada um defendendo uma coisa diferente, unidos apenas na preservação da democracia constitucional brasileira. 

Ninguém precisa votar no mesmo candidato, levantar a mesma bandeira, falar com o mesmo vocabulário. Só é necessário que se esteja disposto a defender a liberdade do adversário mais do que o próprio programa.

A única certeza é que a república se lembrará de quem não a tiver defendido quando ela estava sob ataque, quando seus filhos morriam sem socorro. E nenhum trilhão que não veio vai servir de álibi. ​(por Celso Rocha de Barros)
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