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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

QUEM SIMBOLIZA O CAPITALISMO NÃO É O ROBIN HOOD E SIM O EBENEZER SCROOGE

leonardo sakamoto
TAXAR SUPER-RICO PARA BANCAR RENDA BRASIL RESOLVERIA PROBLEMA DE BOLSONARO
Tirar dos ricos para dar aos pobres...
Jair Bolsonaro reclamou, nesta quarta (26), da forma que o ministro da Economia, Paulo Guedes, encontrou para bancar o Renda Brasil, o Bolsa Família do bolsonarismo (imagino que seja tão estranho para vocês lerem isso quanto é para nós escrever). 

Para respeitar o teto de gastos, o dinheiro viria do abono salarial, do salário-família, do seguro defeso, do Farmácia Popular. O presidente disse que isso seria tirar do pobre para dar ao paupérrimo, o que venho afirmando desde que a ideia sem pé nem cabeça veio a público. 

Para ser mais exato, é tungar do pobre CLT para remediar o pobre da informalidade. 

Ele, contudo, ignorou um elemento da equação social: os multimilionários e bilionários. Outras democracias vêm discutindo aprofundar a cobrança de impostos sobre os abastados para bancar os mais pobres na crise e depois dela. 

No Brasil, há uma série de iniciativas nesse sentido tramitando no Congresso. Ele já se mostrou contra a ideia no passado. Mas, até aí, ele também já havia xingado o Bolsa Família e hoje o abraça como se fosse fã desde pequeno. 

Com o aumento em sua aprovação segundo o Datafolha, principalmente entre quem ganha até três salários mínimos, Bolsonaro já entendeu os efeitos terapêuticos da transferência de renda entre uma população historicamente deixada para trás nas prioridades do poder público. 

Percebe que não pode simplesmente acabar com o auxílio emergencial de R$ 600/R$ 1200 (aliás, ele deveria tratar deputados e senadores, os verdadeiros pais e mães disso, a pão de ló por esse presente) se quer se reeleger. E decidiu anabolizar o Bolsa, em valor e beneficiários. Só está com um problema para saber de onde sairia o dinheiro. 

Tributar os super-ricos pode arrecadar cerca de R$ 292 bilhões anuais para serem usados contra a crise. É o que defendem a Federação Nacional do Fisco, a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal, os Auditores Fiscais pela Democracia e o Instituto Justiça Fiscal, entre outras instituições. 

...contraria a lógica e o espírito do capitalismo...
[Super-rico não é você que vai para a Disney de vez em quando e abraça o Pateta, apesar de o ministro da Economia achar que sim.] 

Eles apresentaram 11 propostas legislativas que estão em consonância com o plano de Reforma Tributária defendido pelos partidos de oposição. "A maior parte dessas medidas podem tramitar por projeto de lei. Precisam ser aprovadas ainda em 2020 para passarem a valer em 2021", afirma Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Unicamp, que participou da elaboração da proposta. 

A tributação sobre patrimônio é criticada entre determinados economistas, que juram que os bilionários brasileiros iriam tirar o dinheiro do país. Contudo, apenas o Imposto sobre Grandes Fortunas arrecadaria R$ 40 bilhões nos cálculos desse grupo de entidades. 

O resto viria de uma maior progressividade do Imposto de Renda de Pessoa Física (R$ 160 bilhões, incluindo a taxação de dividendos), do aumento temporário da alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido de setores econômicos com alta rentabilidade (R$ 30 bilhões) e da criação da Contribuição Social Sobre Altas Rendas (R$ 25 bilhões), entre outros. 

O Imposto sobre Grandes Fortunas taxaria patrimônios superiores a R$ 10 milhões, abraçando 60 mil pessoas. E o Imposto de Renda aumentaria paulatinamente para quem ganha mais de R$ 23,8 mil por mês – que, segundo eles, perfazem 1,1 milhão de pessoas, 3,6% dos contribuintes. A alíquota mais elevada (45%) incidiria sobre 211 mil contribuintes (0,1% da população) que ganham mais de R$ 60 mil por mês. 

Hoje, a classe média paga mais impostos em relação à sua renda do que multimilionários e bilionários devido à não taxação de dividendos, à baixa taxação de Imposto de Renda de Pessoa Física, entre outras manobras. 
...daí não passar do sonho de uma noite de verão...
A oposição quer aproveitar a Reforma Tributária para, além de garantir progressividade real na cobrança de impostos, reduzir a taxação na produção e comercialização e aumentar na renda e na riqueza. 

O então deputado Jair Bolsonaro disse, em entrevista ao documentarista Carlos Juliano Barros, em 2015, que quem recebe o Bolsa Família não faz nada da vida, só produz filhos para o Estado custear: 
"Uma política de planejamento familiar, acho que só eu falo aqui nessa casa [Câmara dos Deputados]. O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado, cara. Ele já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bem, nem serviço. Não produz nada. Não colabora com o PIB, não faz nada. Fez oito filhos, aqueles oito filhos vão ter que creche, escola, depois cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Para não ser nada".
Em 17 de outubro de 2018, entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial, ele criticou a taxação dos mais mais ricos em entrevista ao SBT:
"Eu acho que, no Brasil, você não pode falar em mais ricos, está todo mundo sufocado. A carga tributária é enorme. Quase tudo é progressivo no Brasil"
Na verdade, o país está longe de uma progressividade decente na cobrança sobre a renda, ou seja, cobrar bem mais de quem tem muito. 
...que não sobrevive à vontade férrea dos Putins e das Merkels.  

Tendo visto que sua sobrevivência política e eleitoral depende disso, Jair não só mudou de opinião sobre o Bolsa Família (hoje com 14,2 milhões de famílias), como quer algo maior (de 20 a 30 milhões de famílias), passando de uma média de R$ 190 para algo em torno de R$ 300, na forma do Renda Brasil, a fim de herdar parte da base lulista. 

Se ele "mudou de opinião" sobre o Bolsa Família, não por uma questão ideológica, mas pragmática, talvez não seja impossível mudar também sobre a taxação de super-ricos. 

Para tanto, teria de fazer um cálculo: 
— ou beneficia dezenas de milhões de brasileiros e pavimenta sua reeleição;
— ou mantém boa relação com mercado e mantém acesa a chama do bolsonarismo-raiz (que acha que taxar bilionário é pecado e Bolsa Família é voto de cabresto).
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TOQUE DO EDITOR  Nunca deixo de trazer para o blog estas soluções racionais e exequíveis para amenizarmos o infortúnio dos pobres e dos paupérrimos do Brasil, pois cumprem um papel educativo, qual seja o de provarem de maneira cabal que haveria, sim, como socorrer os coitadezas sob o capitalismo... caso a insensibilidade social não fosse intrínseca à exploração do homem pelo homem.
Governo do PT tirou a escada e Suplicy ficou pendurado na brocha
Basta lembrarmos a rapidez com Angela Merkel colocou um ponto final na disposição humanitária daqueles outros líderes europeus que, tocados pela aflição dos empobrecidos pela covid-19, eram favoráveis à emissão de euros para minorar as agruras dos coitadezas do velho continente. 

Essas propostas vêm, vão e nada acontece, tanto que a Renda Básica da Cidadania, sonho de uma noite de verão do nosso bom Suplicy, foi aprovada em pleno governo petista, que, contudo, não moveu uma palha para transformá-la em realidade. 

Na prática a teoria é outra, dizia o Joelmir Beting. Nunca devemos esquecer que o objetivo do capitalismo é L-U-C-R-O, como martelava o economista liberal Eugenio Gudin. (por Celso Lungaretti) 
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Observação — o título do post faz referência ao herói mítico inglês do século 12 e ao personagem de Charles Dickens em sua conhecidíssima História de Natal, um empedernido agiota que inspiraria o Walt Disney na criação do Tio Patinhas. 

domingo, 23 de agosto de 2020

A NOVA PALHAÇADA SINISTRA DO BOZO É CELEBRAR O GENOCÍDIO QUE PERPETROU

ricardo kotscho
NO BRASIL DAS MIL MORTES POR DIA, GOVERNO COMEMORA VITÓRIA
Atenção, essa não é uma fake news, nem intriga dos antifascistas: o presidente Jair Bolsonaro participa nesta 2ª feira (24) do evento Encontro Brasil vencendo a Covid-19, que será realizado no Palácio do Planalto. 

Dá para acreditar que no país onde continuamos perdendo mil vidas por dia, em que a tragédia da pandemia está longe de acabar, as escolas continuam fechadas e famílias ainda choram seus mortos, o governo tenha a coragem de comemorar vitória? Contra quem? 

Nem a Alemanha e a Nova Zelândia, países onde o vírus foi controlado, graças à ação competente de seus governos, tiveram coragem de fazer festa, e continuam tomando todos os cuidados para evitar a volta da doença. 

A cerimônia macabra no Planalto está marcada para as 11 horas da manhã e será aberta à imprensa, com transmissão ao vivo pela TV Brasil, a emissora oficial do governo. 

O general da Saúde, interino há mais de três meses, não deverá participar porque já tinha outro compromisso, mas o capitão estará lá para colher as glórias de ter conduzido o país à maior crise sanitária da sua história, com 113.482 mortes e mais de 3.5 milhões de infectados, superado apenas pelos Estados Unidos, de Donald Trump.

Será que o fracasso subiu à cabeça do presidente, que deixou de governar para fazer campanha pela reeleição, inebriado com a popularidade dos R$ 600 e embalado pelo Centrão velho de guerra, que finalmente chegou ao poder e vai abrilhantar a festa? 

Ainda não está confirmada a presença do presidente da Embratur, o sanfoneiro oficial do bolsonarismo triunfante. 

Para completar as comemorações, no dia seguinte será a vez de Paulo Guedes anunciar novas bondades e planos miraculosos para criar empregos e tirar a economia do buraco, sem explicar de onde vai tirar o dinheirinho reclamado por Flávio Bolsonaro, o 01, que é um especialista no assunto em sua fantástica loja de chocolates. 

Vai sobrar pra nós. Vem mais imposto por aí 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)

sábado, 22 de agosto de 2020

RECURSOS PARA SOCORRER OS CARENTES DEVERIAM PROVIR DAS GRANDES FORTUNAS E LUCROS ESTRATOSFÉRICOS DOS BANCOS

Em seu editorial deste sábado (22), intitulado Jair Rousseff, a Folha de S. Paulo adverte sobre as consequências do descontrole das contas públicas caso Jair Bolsonaro leve adiante sua intenção populista de comprar o apoio dos coitadezas com esmolas para a população carente e investimentos em infraestrutura, sem ter como bancar essas novas despesas:
"Gastar mais, a esta altura, significa elevar uma dívida pública que ruma a mais de 90% do PIB, criar desconfiança no mercado sobre a solvência nacional, pressionar inflação e juros e solapar o tão almejado crescimento sustentável...
Ao final, os mais prejudicados serão, como de hábito, os pobres e miseráveis..."
Nós, da esquerda, precisamos ter uma visão clara  do que está em jogo, pois:
— sob o capitalismo, tal gastança demagógica realmente agravará a depressão econômica para a qual já nos encaminhamos a passos largos;
 se a inflação disparar, atingindo patamares como os do final do Governo Sarney, os mais prejudicados serão mesmo os pobres e miseráveis;
 evidentemente, os jornalões e revistonas que promovem tamanho alarmismo acerca de tal risco não estão nem aí para os pobres e miseráveis, tentando apenas salvar o capitalismo agonizante;
 noves fora, será insensato colocarmos lenha na fogueira, estimulando um crescimento desmesurado e insustentável de programas assistenciais como o Renda Brasil (com o qual Bolsonaro conta para apagar a memória do Bolsa Família e conquistar o eleitorado petista no Norte e Nordeste); e
 vai ser também um tiro no pé levantarmos a questão de que o combate rigoroso à corrupção política poderá liberar recursos para programas sociais, pois isto daria novo alento ao lavajatismo que já está indo tarde (trata-se de um projeto autoritário bem mais perigoso do que o neofascismo trapalhão de Steve Bannon, Olavo de Carvalho e clã Bolsonaro).

Então, a postura mais coerente para a esquerda será a de simplesmente dizer a verdade ao povo, explicando-lhe que medida nenhuma sob o capitalismo solucionará permanentemente os problemas sociais do Brasil, podendo apenas atenuá-los por prazo limitado (sendo que, esticado demais, o elástico necessariamente arrebentará e aí sobrevirá uma penúria dantesca, como nunca antes enfrentamos).

Então, temos de, aos poucos, ir despertando a consciência popular para o imperativo de superarmos o capitalismo, pois só assim deixaremos de alternar fases um pouco menos aflitivas (como a década passada) com períodos terríveis (como a década que ora está chegando ao fim).

E mostrarmos claramente que a taxação de grandes fortunas e dos lucros estratosféricos que as grandes empresas obtêm no Brasil (com destaque para os bancos, os maiores parasitas do capitalismo) seria a medida imediata e indolor mais propícia nas atuais circunstâncias, pois só perderiam os que já têm demais – e bota demais nisso!.

É óbvio que se trata da melhor bandeira a empunharmos e igualmente óbvio que os poderosos resistirão encarniçadamente a ela. Mas, se o que queremos é abrir os olhos do povo para as verdadeiras raízes de suas aflições, esta será a luta ideal. 

Com a vantagem de que servirá como um divisor de águas para a esquerda, permitindo-nos diferenciar bem quem quer restituir a dignidade ao povo brasileiro e quem quer apenas se dar bem numa sociedade injusta e putrefata. (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O PROJETO DE UMA RENDA BÁSICA PARA TODOS FINALMENTE VAI DECOLAR?

rui martins
DA UTOPIA PARA A REALIDADE: UMA PROPOSTA QUE PODERÁ VINGAR NO MUNDO PÓS-PANDEMIA
Faz três anos, enviei ao editor os originais de um livro provavelmente ainda muito prematuro, na época, para o Brasil. Tanto que até hoje continua inédito.

Porém, a crise social e econômica provocada pelo coronavírus, agravando ainda mais a pobreza e ameaçando tornar irreversível a situação de miséria para milhões de famílias em todo o mundo, trouxe à atualidade uma antiga ideia: a de todos os países garantirem a todos seus cidadãos uma renda básica mínima para poderem viver dignamente. 

Honra a quem de direito: foi Thomas More, o primeiro a imaginar essa solução, ainda no século 16, no seu livro Utopia.

O tema vem sendo abordado pelas organizações internacionais como um principal recurso capaz de evitar uma depressão econômica internacional. Ainda é recente um texto do professor Guy Standing, da Universidade de Londres, publicado pelo Fórum Econômico de Davos, mostrando não ser uma solução de inspiração exclusiva de esquerda.

A fragilidade do atual sistema econômico mundial decorre da sua transformação num capitalismo de renda, argumenta Standing, do qual se beneficiam exageradamente os que vivem de rendas de propriedades ou de investimentos financeiros. 

A mundialização desenfreada criou, assim, oito gigantes modernos: a desigualdade, a insegurança, a dívida, o estresse, a precariedade, a automatização, a extinção e o populismo neo-fascista. Essa situação chegou ao seu clímax com a crise decorrente do coronavírus.

Após o auê, o PT praticamente ignorou a proposta de Suplicy
A Espanha decidiu, desde maio, criar algo semelhante para 22% da população em situação de precariedade. O Brasil também criou uma ajuda temporária, chamada emergencial. Entretanto, tais iniciativas não correspondem à essência da renda básica, por serem mínimas e transitórias.

É o caso também do programa Bolsa Família, uma ajuda irrisória distribuída a 20% das famílias brasileiras, e que poderá ser aumentada, não se sabe quanto, com o anunciado programa Renda Brasil, pelo ministro Paulo Guedes. 

O novo programa incluiria os trabalhadores autônomos, informais e desempregados. Em contrapartida, outros benefícios já concedidos aos trabalhadores de renda mínima seriam suprimidos.

O Partido dos Trabalhadores perdeu sua grande chance de fazer história, em termos de política econômica, ao praticamente ignorar o projeto de renda básica universal, proposto pelo ex-senador Eduardo Suplicy, criado há mais de 30 anos e constante em três de seus livros.

Transformada em projeto, tal proposta, apresentada ao Senado em 1994, chegou a ser aprovada em 2004 pelo Congresso, mas não foi aplicada concretamente pelo governo petista. 

Hoje, o governo Bolsonaro pretende utilizar essa mesma ideia básica, com as deturpações que lhe são costumeiras, dando-lhe um formato paternalista a fim de garantir sua reeleição.

Seguem alguns trechos originais do meu livro A revolução do salário sem trabalho, ainda sem a atualização necessária face ao coronavírus, à espera de publicação.
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O Capitão Bozo se apropriando do tesouro do PT: o bolsa-família
UM SALÁRIO-MÍNIMO PARA TODOS  O projeto de se criar uma renda fixa para todos não é mais um sonho utópico. O desenvolvimento da automatização aplicável não só nas indústrias de produção como nas atividades humanas cotidianas, com a utilização crescente de robôs, cada vez mais perfeitos graças ao avanço da inteligência artificial acoplada com a nova linguagem numerotizada dos computadores, vai provocar o fim de numerosas carreiras profissionais.

Em termos práticos, isso significará um aumento incontrolável do desemprego, gerando desestabilização social e política nos países desenvolvidos.

O mundo mudou, a esquerda e a direita até aqui não conseguiram lançar bases duradouras para uma sociedade com menos desigualdades e surge a iminência do aumento do desemprego, incontrolável com o desenvolvimento das novas tecnologias, automatização, robotização e inteligência artificial, que, na verdade, são transformações e modernizações positivas para todos nós.

Assim como a internet revolucionou as comunicações e os contatos sociais, chegou a hora de se repensar a solução para os problemas que se arrastam pelos séculos, utilizando os instrumentos e experiências sociais e econômicas hoje existentes.

Mesmo tendo o próprio Cristo declarado a perenidade da miséria com sua frase os pobres, sempre os tereis convosco, nossa maturidade social, neste começo do 3º milênio, pode permitir o lançamento das bases para se colocar um fim definitivo na fome e na miséria em termos locais, regionais, nacionais e mesmo em todo o planeta.
Uma comunidade hippie estadunidense dos anos 60

Não se trata de uma ação política, plano religioso assistencial ou de filantropia, mas de um projeto econômico e social, vindo de tempos remotos, materializado, pela primeira vez, no livro visionário de Thomas More, publicado há tempos, no século 16, Utopia.

Esse livro conta a existência de uma ilha ideal, onde as riquezas eram partilhadas por todos, antecipando os sonhos e o surgimento de tantas comunidades, geralmente religiosas, muitas vivendo em autarcia, bastando a si próprias, e sem contato maior com o mundo exterior.

Na década de 1960, o inconformismo com os padrões legados de geração a geração levou os jovens, principalmente nos EUA, à ruptura e à criação de comunidades hippies, nas quais viviam partilhando tudo quanto possuíam, de uma maneira intuitiva, improvisada e um tanto precária, em torno de seus ideais, que eram basicamente de ruptura e de busca de realização individual, desvinculadas de projetos de reformas políticas.

Poucas comunidades sobreviveram ao avanço da idade de seus participantes, que acabaram por se integrar no sistema de classes e concorrência econômica e social do qual haviam saído.

Foi, entretanto, a Revolução de 1917, na Rússia, que deu origem à principal tentativa e experiência de sociedade igualitária e sem classes sociais, com oportunidades iguais para todos e sem os bolsões de miséria, existentes nas periferias e favelas de todos os outros países.

A experiência durou 70 anos e, embora pretendesse acabar com a desigualdade social, reforçou o aparelho do Estado, reduziu as liberdades, criou uma burocracia e se desviou para o totalitarismo com suas repressões e o culto da personalidade.
Verne chegou lá 104 anos antes

Não sendo, portanto, uma opção religiosa, nem dos jovens em ruptura social e nem um projeto político interessado em colocar na prática o marxismo, qual a novidade que, nos dias de hoje, sem recorrer à força ou necessidade de uma revolução, poderia acabar com os segmentos de miséria, aceitos como fatalidades normais nas sociedades humanas?

Trata-se de uma utopia capaz de se tornar realidade, como as histórias de ficção-científica de Jules Verne, H. G. Wells ou Asimov anteciparam importantes invenções e descobertas tecnológicas que hoje fazer parte do nosso cotidiano.

Alguma coisa palpável, concreta, como o dinheiro: criar-se uma renda, um pagamento, um tipo de pensão ou bolsa, como um salário mas sem a obrigação do trabalho, que seria paga a toda a população mas destinada a beneficiar as pessoas de baixa renda.

Por que se pagar essa renda para todas as pessoas? Para se evitar a humilhação aos mais pobres de se inscreverem como necessitados, ato aos quais muitos se negam, preferindo arcar com as restrições da miséria. Esse pagamento seria logo devolvido pelos não-necessitados, junto com o imposto de renda.

Esst solução prática na luta contra a miséria, aparentemente dispendiosa demais para o Estado, mas na verdade nem tanto, é conhecida, com pequenas variantes, pelos nomes de renda garantida, renda básica para todos ou renda mínima incondicional e universal.

Economistas de direita e de esquerda, com algumas modificações, consideram ser essa renda a maneira de se transformar as atuais relações sociais, suplantando-se as perspectivas sombrias do desemprego.

Na contracorrente, os países com crescentes problemas estruturais de desemprego crônico ainda tentam recorrer aos seguros-desemprego e ajudas assistenciais sempre insuficientes e degradantes, enquanto outros simplesmente abandonam essa parcela da população.

Ao mesmo tempo, aumentam a idade para a aposentadoria, quando as empresas não contratam maiores de 50 anos e muito menos idosos de 60, criando novos bolsões sociais de desempregados, condenados a um fim de vida na miséria. (por Rui Martins)

sexta-feira, 31 de julho de 2020

VARGAS, DE INSPIRAÇÃO FASCISTA, FAZIA-SE PASSAR POR "PAI DOS POBRES". SERÁ ESTE O EXEMPLO QUE O BOZO DECIDIU IMITAR?

vinícius torres freire
BOLSONARO, O COMUNISTA
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Jair Bolsonaro fez caravana pelo Nordeste. 

Fez um minicomício em São Raimundo Nonato, sul do Piauí, cidade que está no quinto daquelas de menor desenvolvimento humano do país, segundo o ranking da Firjan, mas que muito progrediu nos anos lulistas. 

Inaugurou uma obra de abastecimento de água em Campo Alegre de Lourdes, na Bahia, ainda mais pobrinha que sua vizinha piauiense.

De dezembro de 2019 a junho de 2020, o Nordeste foi a única região em que Bolsonaro ganhou algum prestígio, segundo o Datafolha. Quando se trata de renda, apenas entre as famílias que ganham menos de dois salários mínimos o presidente ganhou pontos.

Os economistas de Bolsonaro querem tributar o 1% mais rico do país, embora também desejem uma CPMF, que não pega só a elite, pega 1%, pega geral, imposto especialmente detestado por banqueiros.

Paulo Guedes propôs um tributo que deve aumentar o custo de serviços consumidos pelos mais ricos (escola e saúde privadas, advogados etc.), a Contribuição Social sobre Bens e Serviços. Seus economistas dizem pelos jornais que querem diminuir as deduções de saúde e educação no Imposto de Renda (em geral, coisa de ricos).

Querem tributar lucros e dividendos, o que vai mexer com profissionais que são empresas de si mesmo no Simples, entre outros, além de pegar parte do dinheiro que rendem aquelas ações da Bolsa. 

Querem uma alíquota de IR maior do que 27,5% para pegar quem ganha mais de R$ 36 mil (que está no 1%), como disse a esta Folha Guilherme Afif Domingos, assessor de Guedes, como se fora um líder do Occupy Faria Lima.

Guedes quer criar um Bolsa Família ampliado. É verdade que o dinheiro extra do seu Renda Brasil é por ora apenas um catadão de recursos de outros programas sociais. Mas já poderia discutir o assunto com sociólogos de esquerda.

Como todos os governos da esquerda que domina o Brasil faz 30 anos (de acordo com Guedes), Bolsonaro se alia ao PP e suas variantes de ontem, hoje e sempre. 

Pelo menos desde abril, corre o boato de que alguns de seus generais querem mais obras públicas, intervenção do Estado. O presidente aceitou a contragosto a reforma da Previdência, coitado.

O presidente agora ataca não apenas Sergio Moro, ex-cruzado e trânsfuga do bolsonarismo, mas também a Lava Jato e o lava-jatismo, tal como petistas. Por isso ganhou um Fora, Bolsonaro do Vem pra Rua, parte marchadeira da frente que depôs Dilma Rousseff.

Com essa ficha, um Jair qualquer passaria por comunista ou esquerda lixo nas redes insociáveis da extrema-direita. Não é bem o caso, né, mas os planos de gastos e impostos do governo têm interesse político.

A CPMF não vai passar, repete Rodrigo Maia, mas Bolsonaro (e o próprio Maia) vão levar adiante a tributação dos mais ricos? 

A fim de abrir espaço para um programa de renda básica mais gordo e não mexer no teto, vão confiscar parte dos salários dos servidores federais (além de juízes e procuradores. Militares inclusive?)?

O protesto do 1% (ou dos 10%) vai derrubar parte relevante da reforma tributária? Ou vai ter reforma na marra e o Congresso vai pagar o preço de aumentar os impostos da classe média (como quase todos os ricos se chamam)?

Como não se trata de um governo normal ou racional, é difícil discutir direito tais assuntos. Mas as realidades da penúria e da sobrevivência político-eleitoral vão fazer Bolsonaro trombar com essas questões. 

Como dizia a propaganda do Exército, chega um momento em que o jovem tem de escolher a sua carreira. (Vinicius Torres Freire)
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