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sábado, 16 de dezembro de 2023

...E SE O MUNDO ACABAR DE FORMA MENOS ÓBVIA? EM NOVA ERA GLACIAL, COMO NESTE FILME? OU AFUNDANDO, COMO O BRASIL?

Paul Newman: um vingador no fim do mundo.
O século 20 foi de um extremo a outro: começou com exageradas esperanças de que os avanços científicos nos conduziriam ao paraíso e terminou com uma quase certeza de que os dias da espécie humana estão contados, só variando os palpites de como será o grand finale.

Desde a bomba de Hiroshima, um dos piores pesadelos é o de petardos semelhantes, só que muito mais potentes, serem detonados em cadeia, varrendo-nos da face da Terra. Isto esteve bem próximo de acontecer na chamada crise dos mísseis cubanos (1962) e só poderá ser excluído das cogitações quando todos os detentores desses artefatos apocalípticos deles abrirem mão, hipótese das mais improváveis.

A escalada do aquecimento global faz temermos catástrofes de todo tipo: o mar invadindo o sertão (como previa Antônio Conselheiro), furacões, terremotos, maremotos, desertificação, sede, fome...

Os religiosos, mais fanáticos do que nunca, continuam acreditando em apocalipse (talvez porque os quatro cavaleiros já tenham dado as caras: Hitler, Trump, Bozo e Milei).

E o apocalipse zumbi? Se nele enxergarmos um sentido figurado, considerando como zumbificados os seguidores dos mitos ultradireitistas e os devotos das igrejas universais do Reino da Grana, a coisa até que se torna plausível...
Fernando Rey e Vittorio Gassman num jogo de vida ou morte
Contaminação é uma ameaça que parecia superada, mas voltou dramaticamente ao palco com a pandemia da covid. 

Idem a guerra dos mundos que H. G. Wells imaginou no finalzinho do século retrasado e se tornou quase um contraponto ao otimismo generalizado do início do século 20. Será que os extraterrestres são bonzinhos como Steven Spielberg os apresentou em E.T.

Ou os marcianos virão acabar com nossa raça, como o sarcástico Orson Welles fez os bobos estadunidenses acreditarem que já estava acontecendo em 1938?

Em meio a tantos augúrios sinistros, justificados ou fantasiosos, o fantasma de uma nova era glacial é um dos menos votados. Mas, foi o que rendeu o melhor dos filmes até hoje realizados sobre o fim do mundo: Quinteto (1979), do genial Robert Altman, o diretor mais talentoso da era da contracultura (M.A.S.H., Voar é com os pássaros, O perigoso adeus, Nashville, Oeste selvagem).

Mostra um caçador de focas (Paul Newman) que, quando já não encontra animais para servirem de alimento, volta à sua cidade de origem, trazendo consigo a única mulher grávida (Brigitte Fossey) naquela altura da progressiva glaciação. Encontra sobreviventes já sem esperanças, parte dos quais se dedica a um jogo de vida e morte enquanto espera o final inevitável.
Jogado a sério, o quinteto se torna
letal. Mas, o que eles têm a perder?

Quando sua companheira é vítima inocente de um atentado praticado por participante do tal jogo, ele vai em busca de vingança em meio à lenta agonia ao seu redor, assumindo falsamente a identidade de um dos jogadores para chegar aos outros. 

E que superlativos atores interpretam esses outros! O magistral Vittorio Gassman encarna  o mais carismático deles, mas Fernando Rey e Bibi Andersson não ficam muito atrás. Um filmaço!

Quanto à patriamada, ela poderá logo acrescentar outra forma de extermínio às muitas que o cinema já mostrou: a dos afundamentos localizados. 

Até agora muito se falou em ilhas e regiões costeiras afundando no mar, com destaque para as existentes na lagoa de Veneza. Mas o Brasil apresenta uma nova modalidade, a de terrenos em terra firme que afundam, como o da das minas da Braskem em Maceió.

Agora, chega a notícia de uma casa que o solo está tragando na região de M'Boi Mirim, zona sul de São Paulo, obrigando a remoção de 17 famílias que habitam ao redor.

Enfim, o Brasil que já vinha afundando metaforicamente há muito tempo, com o fenômeno se acentuando drasticamente a partir de 2019, agora será conhecido como o país que encontrou o caminho mais direto para o quinto dos infernos. Nóis sofre, mais nóis goza... (por Celso Lungaretti)    

sábado, 27 de agosto de 2022

BIBLIOTECAS PÚBLICAS SÃO INÚTEIS PARA PRIVILEGIADOS E HOMENS UNIDIMENSIONAIS

R
eportagem de Thaís Carrança na BBC News Brasil alerta que nosso país perdeu ao menos 764 bibliotecas públicas entre 2015 e 2020. 

Eram 6.057, passaram a 5.293. Ou menos ainda, pois o poder público as trata com tal descaso que nem sequer o número de bibliotecas fechadas é totalmente confiável, tal a fragilidade do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas após a extinção do Ministério da Cultura. 

falta de controle efetivo pelos sistemas estaduais, cujos dados alimentam o sistema nacional, constatou a repórter.

Nada menos que 70% dessas bibliotecas fechadas se localizavam em São Paulo, o que sugere uma migração dos usuários para os meios virtuais. E o quadro deve ter piorado mais ainda com a pandemia, quando a ida pessoal às bibliotecas foi fortemente desestimulada.

Sou cria das bibliotecas públicas: comecei a frequentá-las lá por 1962, aos 11 anos, quando ingressei no ginásio. 

Lembro-me de que, além de utilizá-las para trabalhos escolares, li antologias de contos de vários países para conhecer autores. Daqueles que me agradavam muito eu ia, em seguida, retirar romances e novelas.
Do que me serviu o hábito da leitura? Antes de mais nada, para perceber melhor as motivações das pessoas, por que elas agiam como agiam, aonde queriam chegar e por qual ou quais motivos. 

Como naquele tempo os livros eram escritos (ou traduzidos) com muito mais correção gramatical e elegância, aprendi a expressar-me corretamente antes mesmo de conhecer as regrinhas ensinadas nas aulas de português. Tocava as músicas de ouvido.

E, principalmente, me dei conta de que havia uma infinidade de enfoques e explicações possíveis para quase tudo, de forma que nunca me aferrava à primeira informação absorvida. 

Já naquela idade eu adquiri imunidade, por exemplo, contra as pregações falaciosas dos mercadores da fé mercantilizada, bem como com o besteirol alucinado que fanatiza os ultradireitistas em geral e cada bolsominion em particular...   

Tornei-me um autodidata, preferindo abrir meus caminhos do que seguir orientações de adultos (até porque Monteiro Lobato me predispuzera a ver os medalhões das ciências e das letras como pavões ridículos, amiúde a soldo dos poderosos). 

E me apaixonei pelos romances biográficos e pelas novelas fantásticas ou de ficção-científica. 

A História já me fascinara bem antes, quando li A História do Mundo Para as Crianças, também do Monteiro Lobato. Na biblioteca circulante da Mooca descobri, atraído pelos títulos e dando olhadelas básicas na orelha de seus livros, autores como Maurice Druon, cuja série de sete volumes sobre Os Reis Malditos é um prodigio da romantização dos acontecimentos e personagens verídicos, muito mais agradável do que os insossos livros didáticos.

E a sci-fi provavelmente me encantou porque a época em que passei a meninice me parecia uma poça de água parada; eu esgotava com rapidez o processo de absorção da realidade presente e ficava ansioso pelas mudanças previsíveis que sempre demoravam demais para acontecer. 

Com a História minha mente vagava pelo passado; com os visionários (Júlio Verne, H. G. Wells, etc.)  e os distópicos (Aldous Huxley, George Orwell, etc.) conjeturava sobre o porvir. 

Ao adquirir tanto conhecimento sobre como se articulavam e que tipo de consciências formavam as sociedades do passado e ler projeções sobre as sociedades do futuro, percebi claramente que a História não tem fim (apenas os Fukuyamas da vida creem nisto) e que tudo sempre poderia mudar para melhor ou para pior. A revolução só entrou na minha vida em 1967, mas tal encontro estava escrito nas estrelas. 
por Celso Lungaretti
Temo que os jovens formados pela sofreguidão e utilitarismo digitais, que condiciona as novas gerações a buscarem rapidamente algum conhecimento específico para uso imediato, venham mesmo a se tornarem cada vez mais unidimensionais, conforme advertiu Herbert Marcuse no seu clássico de quase seis décadas atrás (
One-Dimensional Man, aqui intitulado Ideologia da Sociedade Industrial). 

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

CADÊ O BOZO QUE DEVERIA ESTAR AQUI? FUGIU POR MEDO DE SER APEDREJADO? OU FOI APENAS VERGONHA DE SER IGNORADO?

rui martins
BOLSONARO,
O INVISÍVEL
Se não me engano, nem Jesus ficou invisível, uma vez que fosse, e me apoio nos testemunhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, todos os quatro, evangélicos dignos de fé. 

Nada a ver com o Silas Malafaia, cujo vídeo mais recente mostra o pastor vociferando e esbravejando na defesa do jogador homofobico Maurício Souza.

Me lembro, agora, do escritor peruano Manuel Scorza, que conheci em Paris, quando havia acabado de escrever e lançar na Europa seu livro Redoble por Rancas

Scorza, definido como um autor do realismo mágico, escreveu sobre o massacre dos indígenas pré-colombianos nas cordilheiras do Pasco, no Peru, uma versão andina do drama atual dos assassinatos dos nossos indígenas da região amazônica. 

E, num outro livro, contava como o líder das comunidades destruídas se transformou no seu libertador: Garabombo (assim passou a se chamar) podia se tornar invisível na luta contra a versão peruana e feudal do que são hoje nossos agropecuaristas. Nem os cachorros podiam sentir sua presença! Garabombo, o Invisível era o título do livro.

Ora, nós não temos o herói Garabombo, mas temos um presidente que consegue também se tornar invisível.
Todos podem confirmar terem visto, pela televisão ou redes sociais, Bolsonaro tomar o avião para Roma, a fim de participar de um encontro internacional reunindo os países com as economias mais desenvolvidas do mundo, o G20. 

No dia seguinte, as redes sociais bolsonaristas mostravam o presidente passeando com uma pequena comitiva pela praça Navona, ainda pouco movimentada.

Bolsonaro agia como um garoto propaganda do Brasil, abraçando turistas que por ali passavam, fazendo fotos com crianças e se deixando filmar com um músico e cantor ali instalado para ganhar uns trocados dos turistas. 

Como não havia imprensa por perto, só alguém filmando, as imagens o mostravam passeando tranquilamente, sem proteção, uma figura extremamente simpática, que se deixava mesmo abraçar pelos passantes. Que maravilha deve ser o Brasil, com um senhor tão simpático e amável, deveriam pensar. A Embratur, sem dúvida, poderia contratá-lo para animar excursões e passeios.

O problema surgiu logo depois. Quando chegou a hora das coisas sérias, Bolsonaro se tornou invisível. Era impressionante. Ninguém, nenhum dos presidentes conseguia vê-lo. Nenhum bonjour, nenhum good morning… 

Bolsonaro atravessava o salão, se metia mesmo no meio dos grupinhos formados, mas ninguém se dava conta de sua presença. Nem um olá, como estás? 

Nem o presidente português conseguiu vê-lo e, para Bolsonaro, com aquele seria mais fácil bater um papo, falar daquelas amenidades que ele gosta…bacalhoada…

Um tanto desesperado, não entendendo porque tinha virado invisível, Bolsonaro atravessou o salão e foi ao bufê tomar um copo d‘água para se acalmar. 

Na falta de assunto, perguntou aos garçons se eram italianos. A pergunta era meio idiota, um garçom lhe deu o copo d’água mas fez cara de quem não viu para quem, nem respondeu se era italiano. Não deixei de ser invisível, pensou Bolsonaro.

Foi quando teve a ideia de pisar no pé de alguém para ficar sabendo se tinha ou não ou virado um fantasma. Aie, disse a senhora vestida de amarelo, fazendo cara de brava. Era Angela Merkel, logo ela, a chanceler alemã! 

Ah, é você, disse ela já sorrindo! Foi tudo muito rápido; logo depois, Bolsonaro voltou a ser invisível. Nem tanto; de repente um de seus conselheiros lhe apresentou um senhor de nome bem complicado, Receb Tazzip Erdogan, presidente da Turquia.

Sujeito curioso, queria saber como ia o Brasil. Bolsonaro não ia fazer feio: disse estar indo tudo muito bem. Num momento de crise com o petróleo e sendo os derivados do petróleo os principais causadores do CO2? (Erdogan lembrou que o Brasil tem muito petróleo). 

E daí?, deve ter pensado Bolsonaro, mas decidiu responder falando da Petrobras, a pedra no seu sapato, que espera privatizar antes do término do mandato. Erdogan parece não ter entendido nada e foi conversar com gente mais interessante. 
Felizmente, Bolsonaro não teve um dos seus lampejos popularescos de mau gosto, adorados pelos bolsominions, então deixou passar tal oportunidade de tagarelar sobre os mascates turcos do seu bairro quando criança…

Ia ser difícil explicar para a imprensa por que não participou dos debates do G20 e nem de uma negociação bilateral com os Estados Unidos ou a China. Quem ia acreditar em sua súbita invisibilidade? Só mesmo evangélicos engolem essas coisas…

Domingo à noite, depois de não ter sido convidado para ir com os outros presidentes jogar uma moeda na Fontana de Trevi, Bolsonaro foi à janela da luxuosa embaixada brasileira e viu haver lá fora um grupo de brasileiros com bandeiras nacionais. Pelo visto, deviam ter marcado encontro entre eles por WhatsApp

Como o grupo lhe acenava, concluiu não ser mais invisível e decidiu descer para se juntar aos seus seguidores, imigrantes brasileiros. Durante o atual governo, o número de imigrantes brasileiros na Itália praticamente dobrou, de 85 mil para 161 mil. Nas eleições presidenciais de 2018, a maioria dos imigrantes eleitores brasileiros optou por Bolsonaro. Os que depois imigraram parecem ter-se desiludido com o mito

Nessa altura, o clima na Piazza Navona não era o mesmo do dia anterior, sábado, no qual Bolsonaro distribuía sorrisos e abraços. Já era noite e o grupo de jornalistas que acompanharam os trabalhos do G20 aguardava também a descida do presidente para fazer algumas perguntinhas indiscretas.

Eles queriam saber por que se tornara invisível e não participara efetivamente do G20, nem de um encontro bilateral. E porque não iria à conferência COP26 em Glasgow, na Escócia.

Bolsonaro, além de poder ser invisível deve ter também bom faro. Assim, os seguranças italianos e os seguranças privados da embaixada receberam ordem de não deixar os jornalistas se aproximarem dele. Isto acabou provocando atos de violência contra os profissionais da imprensa. 

As imagens do domingo à noite, de empurrões e agressões, filmadas pelos jornalistas, foram o contraponto às cenas pacíficas do sábado, mostrando a demagogia do contato direto do presidente populista com as pessoas.

Mas, não foi tudo. Um clima de confronto entre favoráveis e contrários a Bolsonaro, brasileiros e italianos, ocorreu na pequena localidade de Anguillara Veneta, antes de Bolsonaro receber o título de cidadão honorário, concedido pela prefeitura local, por ser o lugar onde nascera seu bisavô antes de emigrar para o Brasil. A cidade tem prefeito da Lega, partido da extrema-direita italiana, havendo, portanto, afinidade com Bolsonaro.

Ao que parece, já não havia jornalistas brasileiros na região, decerto tinham todos viajado para Glasgow, mas um vídeo feito pela imprensa italiana, distribuído na Europa, mostrou a polícia lançando jatos d’água nos manifestantes anti-Bolsonaro, que jogavam laranjas e limões contra o carro no qual ele estava, ao chegar à prefeitura. Uma dessas frutas atingiu de leve o presidente.

A pontaria certeira de um dos manifestantes mostrou que Bolsonaro não era mais invisível. Acostumado a não governar e viajar pelo Brasil em campanha eleitoral antecipada, parece que Bolsonaro só fica invisível nos compromissos internacionais. 

Outra versão é a de que, para a comunidade internacional, o Bolsonaro é um zero à esquerda, não possui mais credibilidade, razão pela qual os líderes fingem que não o estão vendo. 

Tanto uma como outra versão, a do Bolsonaro invisível ou invisibilizado, confirmam não ter o dito cujo nem formação e nem competência para o cargo, razão pela qual, para o Brasil e seus compromissos internacionais, a G20 foi um fiasco. (por Rui Martins)

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O PROJETO DE UMA RENDA BÁSICA PARA TODOS FINALMENTE VAI DECOLAR?

rui martins
DA UTOPIA PARA A REALIDADE: UMA PROPOSTA QUE PODERÁ VINGAR NO MUNDO PÓS-PANDEMIA
Faz três anos, enviei ao editor os originais de um livro provavelmente ainda muito prematuro, na época, para o Brasil. Tanto que até hoje continua inédito.

Porém, a crise social e econômica provocada pelo coronavírus, agravando ainda mais a pobreza e ameaçando tornar irreversível a situação de miséria para milhões de famílias em todo o mundo, trouxe à atualidade uma antiga ideia: a de todos os países garantirem a todos seus cidadãos uma renda básica mínima para poderem viver dignamente. 

Honra a quem de direito: foi Thomas More, o primeiro a imaginar essa solução, ainda no século 16, no seu livro Utopia.

O tema vem sendo abordado pelas organizações internacionais como um principal recurso capaz de evitar uma depressão econômica internacional. Ainda é recente um texto do professor Guy Standing, da Universidade de Londres, publicado pelo Fórum Econômico de Davos, mostrando não ser uma solução de inspiração exclusiva de esquerda.

A fragilidade do atual sistema econômico mundial decorre da sua transformação num capitalismo de renda, argumenta Standing, do qual se beneficiam exageradamente os que vivem de rendas de propriedades ou de investimentos financeiros. 

A mundialização desenfreada criou, assim, oito gigantes modernos: a desigualdade, a insegurança, a dívida, o estresse, a precariedade, a automatização, a extinção e o populismo neo-fascista. Essa situação chegou ao seu clímax com a crise decorrente do coronavírus.

Após o auê, o PT praticamente ignorou a proposta de Suplicy
A Espanha decidiu, desde maio, criar algo semelhante para 22% da população em situação de precariedade. O Brasil também criou uma ajuda temporária, chamada emergencial. Entretanto, tais iniciativas não correspondem à essência da renda básica, por serem mínimas e transitórias.

É o caso também do programa Bolsa Família, uma ajuda irrisória distribuída a 20% das famílias brasileiras, e que poderá ser aumentada, não se sabe quanto, com o anunciado programa Renda Brasil, pelo ministro Paulo Guedes. 

O novo programa incluiria os trabalhadores autônomos, informais e desempregados. Em contrapartida, outros benefícios já concedidos aos trabalhadores de renda mínima seriam suprimidos.

O Partido dos Trabalhadores perdeu sua grande chance de fazer história, em termos de política econômica, ao praticamente ignorar o projeto de renda básica universal, proposto pelo ex-senador Eduardo Suplicy, criado há mais de 30 anos e constante em três de seus livros.

Transformada em projeto, tal proposta, apresentada ao Senado em 1994, chegou a ser aprovada em 2004 pelo Congresso, mas não foi aplicada concretamente pelo governo petista. 

Hoje, o governo Bolsonaro pretende utilizar essa mesma ideia básica, com as deturpações que lhe são costumeiras, dando-lhe um formato paternalista a fim de garantir sua reeleição.

Seguem alguns trechos originais do meu livro A revolução do salário sem trabalho, ainda sem a atualização necessária face ao coronavírus, à espera de publicação.
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O Capitão Bozo se apropriando do tesouro do PT: o bolsa-família
UM SALÁRIO-MÍNIMO PARA TODOS  O projeto de se criar uma renda fixa para todos não é mais um sonho utópico. O desenvolvimento da automatização aplicável não só nas indústrias de produção como nas atividades humanas cotidianas, com a utilização crescente de robôs, cada vez mais perfeitos graças ao avanço da inteligência artificial acoplada com a nova linguagem numerotizada dos computadores, vai provocar o fim de numerosas carreiras profissionais.

Em termos práticos, isso significará um aumento incontrolável do desemprego, gerando desestabilização social e política nos países desenvolvidos.

O mundo mudou, a esquerda e a direita até aqui não conseguiram lançar bases duradouras para uma sociedade com menos desigualdades e surge a iminência do aumento do desemprego, incontrolável com o desenvolvimento das novas tecnologias, automatização, robotização e inteligência artificial, que, na verdade, são transformações e modernizações positivas para todos nós.

Assim como a internet revolucionou as comunicações e os contatos sociais, chegou a hora de se repensar a solução para os problemas que se arrastam pelos séculos, utilizando os instrumentos e experiências sociais e econômicas hoje existentes.

Mesmo tendo o próprio Cristo declarado a perenidade da miséria com sua frase os pobres, sempre os tereis convosco, nossa maturidade social, neste começo do 3º milênio, pode permitir o lançamento das bases para se colocar um fim definitivo na fome e na miséria em termos locais, regionais, nacionais e mesmo em todo o planeta.
Uma comunidade hippie estadunidense dos anos 60

Não se trata de uma ação política, plano religioso assistencial ou de filantropia, mas de um projeto econômico e social, vindo de tempos remotos, materializado, pela primeira vez, no livro visionário de Thomas More, publicado há tempos, no século 16, Utopia.

Esse livro conta a existência de uma ilha ideal, onde as riquezas eram partilhadas por todos, antecipando os sonhos e o surgimento de tantas comunidades, geralmente religiosas, muitas vivendo em autarcia, bastando a si próprias, e sem contato maior com o mundo exterior.

Na década de 1960, o inconformismo com os padrões legados de geração a geração levou os jovens, principalmente nos EUA, à ruptura e à criação de comunidades hippies, nas quais viviam partilhando tudo quanto possuíam, de uma maneira intuitiva, improvisada e um tanto precária, em torno de seus ideais, que eram basicamente de ruptura e de busca de realização individual, desvinculadas de projetos de reformas políticas.

Poucas comunidades sobreviveram ao avanço da idade de seus participantes, que acabaram por se integrar no sistema de classes e concorrência econômica e social do qual haviam saído.

Foi, entretanto, a Revolução de 1917, na Rússia, que deu origem à principal tentativa e experiência de sociedade igualitária e sem classes sociais, com oportunidades iguais para todos e sem os bolsões de miséria, existentes nas periferias e favelas de todos os outros países.

A experiência durou 70 anos e, embora pretendesse acabar com a desigualdade social, reforçou o aparelho do Estado, reduziu as liberdades, criou uma burocracia e se desviou para o totalitarismo com suas repressões e o culto da personalidade.
Verne chegou lá 104 anos antes

Não sendo, portanto, uma opção religiosa, nem dos jovens em ruptura social e nem um projeto político interessado em colocar na prática o marxismo, qual a novidade que, nos dias de hoje, sem recorrer à força ou necessidade de uma revolução, poderia acabar com os segmentos de miséria, aceitos como fatalidades normais nas sociedades humanas?

Trata-se de uma utopia capaz de se tornar realidade, como as histórias de ficção-científica de Jules Verne, H. G. Wells ou Asimov anteciparam importantes invenções e descobertas tecnológicas que hoje fazer parte do nosso cotidiano.

Alguma coisa palpável, concreta, como o dinheiro: criar-se uma renda, um pagamento, um tipo de pensão ou bolsa, como um salário mas sem a obrigação do trabalho, que seria paga a toda a população mas destinada a beneficiar as pessoas de baixa renda.

Por que se pagar essa renda para todas as pessoas? Para se evitar a humilhação aos mais pobres de se inscreverem como necessitados, ato aos quais muitos se negam, preferindo arcar com as restrições da miséria. Esse pagamento seria logo devolvido pelos não-necessitados, junto com o imposto de renda.

Esst solução prática na luta contra a miséria, aparentemente dispendiosa demais para o Estado, mas na verdade nem tanto, é conhecida, com pequenas variantes, pelos nomes de renda garantida, renda básica para todos ou renda mínima incondicional e universal.

Economistas de direita e de esquerda, com algumas modificações, consideram ser essa renda a maneira de se transformar as atuais relações sociais, suplantando-se as perspectivas sombrias do desemprego.

Na contracorrente, os países com crescentes problemas estruturais de desemprego crônico ainda tentam recorrer aos seguros-desemprego e ajudas assistenciais sempre insuficientes e degradantes, enquanto outros simplesmente abandonam essa parcela da população.

Ao mesmo tempo, aumentam a idade para a aposentadoria, quando as empresas não contratam maiores de 50 anos e muito menos idosos de 60, criando novos bolsões sociais de desempregados, condenados a um fim de vida na miséria. (por Rui Martins)

terça-feira, 16 de maio de 2017

NADA CONTRA O PUBLICITÁRIO QUE MORREU, TUDO CONTRA SEU OFÍCIO.

A morte do publicitário José Zaragoza, um dos fundadores da DPZ, motivou uma interessante troca de ideias no Facebook, da qual participei. Eis algumas intervenções. 

"Nunca gostei de publicitários. Meu primeiro estagio, de um dia, foi numa dessas agencias: me puseram fechada numa sala para endeusar um... trator. Saí dali correndo, certa de que jamais seria minha profissão. 

Ao longo da vida, acompanhando as escrotas propagandas brasileiras — contra mulheres, contra pobres, etc. —, meu conceito sobre esta que é a mais deslavada expressão do capitalismo só se solidificou." (Elizabeth Lorenzotti)

"Já trabalhei em agências e sei que é através delas que são feitos grandes desvios. Não existe uma forma de fazer concorrência através de anúncios e filmes publicitários e através de veiculação. Cada trabalho custa o preço que quiserem colocar." (Iuri Felix Nunes)
"O Zé Celso Martinez Correa disse tudo: 'Os publicitários são filhos de Goebbels'. Não passam de parasitas, impingindo-nos produtos, ideias e valores inúteis mediante as mais avançadas técnicas de manipulação dos instintos e das consciências." (CL)

"Observe que o termo certo para designá-los seria 'propagandistas'. Eles não gostam, é claro, porque isso trai seu DNA canalha." (Rogério Fernando Furtado)

"Jornalistas são piores..." (José Abílio Perez)

"Ambos podem matar." (Elizabeth Lorenzotti)

"Há uma diferença fundamental. A missão de um jornalista é tornar a verdade acessível ao cidadão comum; evidentemente, a maioria não o faz, mas há exceções que enobrecem a profissão. Já o publicitário tem a missão de impingir ao cidadão comum o lixo do seu contratante, da forma mais convincente e sedutora possível. Os primeiros se prostituem pelo caminho, os publicitários já dão a largada prostituídos." (CL)
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