domingo, 23 de julho de 2017

LEIA A ANÁLISE, VEJA O FILME: O CULT "JONAS, QUE TERÁ 25 ANOS NO ANO 2000" PROFETIZOU UM NOVO 1968.

A revolução renascerá das cinzas, como a fênix?
“O anseio meu nunca mais vai ser só
Procura ser da forma mais precisa
O que preciso for
Pra convencer a toda gente
Que no amor e só no amor
Há de nascer o homem de amanhã”
(
Geraldo Vandré, Bonita
)

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O ideário político dos contestadores de 1968 é pouco lembrado e menos ainda reverenciado, já que não convém aos que hoje confrontam, a partir de posições ortodoxas, o capitalismo e suas inúmeras mazelas (desigualdade social, ganância e competição exacerbadas, parasitismo, mau aproveitamento do potencial produtivo que hoje seria suficiente para proporcionar-se uma existência digna a cada habitante do planeta, danos ecológicos, etc.).

Nas barricadas parisienses, gritando slogans como a imaginação no poder e é proibido proibir, muitos estudantes erguiam as bandeiras negras do anarquismo, que marcara forte presença nos movimentos revolucionários do século 19, mas havia perdido terreno desde a vitória do bolchevismo em 1917.

A tentativa de construção do socialismo em países isolados e economicamente atrasados já se evidenciava desastrosa, por degenerar em totalitarismo. A URSS e seus satélites, bem como a China e Cuba, sacrificavam uma das principais bandeiras históricas das esquerdas, a liberdade, para priorizarem a outra, a igualdade.
 Revolução traída: o poder usurpado por uma nomenklatura.

E nem a esta última conseguiam ser totalmente fiéis. Propiciavam, sim, melhoras materiais significativas para os trabalhadores, mas nem de longe extinguiram os privilégios, tornando-os até mais afrontosos ao substituírem as antigas classes dominantes por odiosas nomenklaturas (as camadas dirigentes do partido único e as burocracias governamentais, que se interpenetravam e coincidiam na justificativa/imposição de seu status de mais iguais).

O desencanto dos jovens europeus com o socialismo real  se somou à constatação de que o proletariado industrial das nações prósperas se tornara baluarte, e não inimigo, do capitalismo. Seduzido pelos avanços econômicos que vinha obtendo, preferia tentar ampliá-los do que apostar suas fichas numa transformação radical da sociedade. Ou seja, face à célebre alternativa de Rosa Luxemburgo –reforma ou revolução?– os aristocratizados operários do 1º mundo optaram pela primeira, como Edouard Bernstein previra.

Em termos teóricos, o filósofo Herbert Marcuse já dissecara tanto o desvirtuamento do marxismo soviético quanto a transformação do capitalismo avançado num sistema impermeável à mudança, a partir da sedução do consumo, da eficiência tecnológica e da influência atordoante da indústria cultural, que estava engendrando um homem unidimensional (incapaz de exercer o pensamento crítico).
68 francês: primeiro ensaio de uma revolução de novo tipo.
Foi ele a grande inspiração dos jovens contestadores de 1968, mesmo porque praticamente augurara sua entrada em cena, assumindo o papel de vanguarda que o proletariado deixara vago.

Para Marcuse, somente os descontentes com a sociedade (pós) industrial –intelectuais, estudantes, boêmios, poetas, beatniks e demais outsiders– perceberiam seu totalitarismo intrínseco e seriam capazes de revoltar-se contra ela. Os demais, partícipes do sistema como produtores e consumidores, seguiriam mesmerizados por sua racionalidade perversa.

O diagnóstico de Marcuse acabaria sendo melancolicamente confirmado quando esses descontentes colocaram a revolução nas ruas de Paris e o proletariado lhes voltou as costas, preferindo arrancar pequenas concessões de De Gaulle do que apeá-lo do poder. O Partido Comunista Francês, comprando uma passagem de ida sem volta para a irrelevância, desempenhou papel decisivo na manutenção do status quo e consequente salvação do capitalismo na França.

Mas, o esmagamento das primaveras de Paris e de Praga não conteve o impulso dessa nova maré revolucionária, que continuou pipocando nos vários continentes, com especial destaque para a contracultura e o repúdio à Guerra do Vietnã por parte da juventude estadunidense.
Contestando a Guerra do Vietnã: as flores venceram o canhão.

Foi, principalmente, nos EUA que os novos anarquistas se lançaram à criação de comunidades urbanas e rurais para praticarem um novo estilo de vida, solidário e livre. Substituíam os antigos laços familiares pela comunhão grupal – ou, como diziam, tribal – e dividiam fraternalmente as tarefas relativas à sua sobrevivência, tal como sucedia nas colônias cecílias de outrora.

A ideia era a de irem expandindo a rede de territórios livres até que engolfassem toda a sociedade. Então, em vez de colocarem a tomada do poder como ponto-de-partida para as transformações sociais, deflagradas de cima para baixo, eles pretendiam expandir horizontalmente seu modelo, pelo exemplo e adesão voluntária (nunca pela coerção!), até que se tornasse dominante.

Acreditavam que, descaracterizando seus ideais para conquistarem os podres poderes, os revolucionários acabavam sendo mudados pelo mundo antes de conseguirem mudar o mundo. Então, era preciso que ambos os processos ocorressem simultaneamente: deveriam construir-se como homens novos à medida que fossem construindo a sociedade nova.
Veremos concretizada a profecia do filme Jonas?

Esse anarquismo renascido das cinzas e atualizado foi o último grande referencial revolucionário do nosso tempo, daí despertar até hoje a simpatia dos jovens que buscam a saída do inferno pamonha do capitalismo (uma definição antológica do Paulo Francis!) e a ojeriza daquela esquerda que ainda se restringe aos projetos de conquista do poder político.

A questão é se, como em outras circunstâncias históricas, a maré revolucionária será novamente retomada a partir do último ápice atingido (mesmo que com intervalo de décadas entre os dois ascensos).

Os artistas, antenas da raça, creem que sim. Desde o genial cineasta suíço Alain Tanner (Jonas, Que Terá 25 Anos no Ano 2000), para quem as vertentes e tendências de 1968 voltarão a confluir, reatando-se os fios da História; até nosso saudoso Raul Seixas, que nos aconselhava a tentarmos outra vez e tantas vezes quantas fossem necessárias, não dando ouvidos às pregações tendenciosas da mídia contra a geração das flores e das barricadas.
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NOS DEPRESSIVOS ANOS 70, ESTE FILME MANTEVE 
A ESPERANÇA DE QUE O SONHO NÃO HAVIA ACABADO
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Assista aqui, na íntegra e com legendas em português, ao
obrigatório filme Jonas, que terá 25 anos no ano 2000.
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Um dos filmes com intenções políticas mais poéticos da história do cinema, Jonas que terá 25 anos no ano 2000 (lançado em 1976) mostra uma Suíça que, em meados da década de 1970, está em plena normalidade capitalista, nada restando dos ventos de mudança que sopraram em 1968 afora indivíduos isolados que representam facetas das utopias cultuadas pela geração anterior. 

Já não existe um projeto coletivo a imantar tais vertentes, mas os pequenos profetas (como o ótimo diretor Alain Tanner  os qualificou em entrevistas) continuam tentando levar adiante, isoladamente, aquilo no que creem. São oito, todos com os nomes iniciados por M (de maio, o mês das barricadas francesas).

Uma teia de circunstâncias inesperadas os vai colocando em contato, até que os oito se reúnem numa única ocasião, congraçando-se na fazenda do personagem que se dedica ao cultivo de vegetais sem contaminação química. É quando almoçam exultantes, numa sequência, belíssima, que simboliza a Santa Ceia. 
O personagem Mathieu, seguindo as pegadas de Rousseau.

Bem naquela fase e sob tais auspícios, o casal de fazendeiros gera um filho, que será Jonas, evocando o profeta que foi engolido pela baleia mas sobreviveu, assim como o filme acena com a esperança de que a criança sobreviverá à gordura capitalista para, no ano 2000, corporificar uma nova e definitiva síntese dos ideais dos pequenos profetas.

Embora o filme não esclareça como isto se dará, parece destacar sobretudo a via representada pelo personagem Mathieu (São Mateus?), que Rufus interpreta. Ele quer educar as crianças de forma que não percam sua bondade natural, escapando ilesas aos condicionamentos ideológicos que uma sociedade corrupta lhes tenta impor, mais ou menos como Jean-Jacques Rousseau preconizou em Emílio, ou Da Educação

Quando nos aproximamos da comemoração do cinquentenário das jornadas de 1968, Jonas... é um filme simplesmente obrigatório. Até por colocar em discussão o que realmente vale a pena discutirmos: se 1968 foi uma primavera que passou em nossas vidas ou o ensaio geral de uma revolução que ainda chegará?
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Esta digressão, que começou citando uma pungente canção de Vandré, merece ser encerrada com um desabafo, que talvez venha a se revelar profético, do bravo guerreiro Raulzito: “Todo jornal que eu leio/ Me diz que a gente já era/ Que já não é mais primavera/ Oh baby, oh baby,/ A gente ainda nem começou”.

7 comentários:

Unknown disse...

Celso, creio que os ideais de 68 são realmente uma projeção de uma humanidade futura ( datar é impossível,mas muitas coisas defendidas por aquela geração já é realidade hoje).

celsolungaretti disse...

Uma visão de esquerdistas da minha geração era de que, quando uma revolução não se concretizava e havia um refluxo, a retomada revolucionária se daria exatamente a partir dos marcos atingidos pela onda anterior. O exemplo mais emblemático seria a revolução russa de 1905, da qual a de 1917 pareceu exatamente um prosseguimento, continuando onde a anterior havia parado.

Eu sempre tive esperança de que a nova onda revolucionária se iniciará onde a de 1968. Uma coisa é certa: tudo que veio depois foram passos atrás, volta a estágios já superados, novas tentativas de concretizar o que já havia dado errado. E nada disso vingou.

Eu acredito que o que pode dar certo é exatamente algo na linha de 1968, com uma forte ênfase libertária. Até porque. na era da internet, o autoritarismo é puro atraso. Necrosou.

celsolungaretti disse...

Õps, faltou palavra na 5ª linha: é "onde a de 1968 PAROU".

Unknown disse...

"Uma coisa é certa: tudo que veio depois foram passos atrás, volta a estágios já superados, novas tentativas de concretizar o que já havia dado errado. E nada disso vingou."

Homem de pouca fé ,hehehe ( aproveitando a postagem do filme ).

Creio que vc pode considerar que a preocupação com a ecologia,a defesa dos direitos das mulheres, do movimento LGBA,dos negros e índios é uma conquista oriunda daquela geração generosa.O movimento retrógrado é a demonstração de uma polaridade ( tese-antítese) do velho e do novo,as dores do parto de uma novo amanha (síntese).
Nesse movimento contraditório ( dialético) o zig e zag ( subir e descer) está incluído.Lembre-se que a própria geração de 68 é resultado da barbárie da segunda grande Guerra Mundial.

celsolungaretti disse...

Ora, companheiro, estou falando de projetos de reconstrução da sociedade como um todo e não de aspectos dela. O fato é que essas pequenas melhoras não são suficientes. Houve alguns avanços em termos ecológicos, mas marchamos para a destruição da espécie humana por força das alterações climáticas. A crise econômica se tornou permanente (apenas se transfere de país a país, sem acabar nunca) e acabará desembocando numa depressão mais generalizada e mais aguda do que a da década de 1930. Então, ainda falando na linguagem do filme, é preciso, mais do que nunca, uma onda contestatória como a de 1968 varrer o planeta, juntando todas essas bandeiras isoladas e, desta vez, obtendo a vitória. Se há uma coisa que aprendemos nesses 49 anos é, exatamente, que não bastam avanços isolados quando o todo é irracional e extremamente nefasto.

Unknown disse...

"Celso, creio que os ideais de 68 são realmente uma projeção de uma humanidade futura ( datar é impossível,mas muitas coisas defendidas por aquela geração já é realidade hoje)."

Só estou repetindo meu primeiro comentário feito mais acima para lembrar que quando vc se refere a"projetos de reconstrução da sociedade como um todo e não de aspectos dela" eu estou relacionando isso com uma humanidade futura.Para acontecer uma mudança estrutural do sistema atual todos os combates devem se orientar pelas experiencias do legado histórico.E 68 é uma referência.

celsolungaretti disse...

Companheiro, se sua foto do perfil é autêntica, você não viveu 1968. Foi um momento em que muita gente boa tentou levar a vida de uma forma diferente: solidária ao invés de competitiva. E a pior lembrança que tenho é de que, por não haver uma alternativa em termos gerais, o momento mágico passou, as pessoas foram se dispersando (ou sendo destruídas de diversas maneiras) e a grande maioria teve de voltar à luta inglória pela sobrevivência.

Assim como no filme, houve os que continuaram desenvolvendo atividades e adotando comportamentos inspirados por algumas facetas de 1968. Eles, geralmente, davam-se por satisfeitos com seus orientalismos, suas bandeiras ecológicas, suas drogas, sua liberação sexual, seu politicamente correto.

Eu já era um revolucionário em potencial desde antes de conhecer o marxismo: nunca considerei que a vida que o capitalismo me proporcionava fosse digna de ser vivida. Lá pelos 15 anos já queria algo mais do que ganhar dinheiro, fazer uma boa carreira e constituir uma família certinha. Andava procurando um caminho no existencialismo ateu de Sartre e Camus. Quando conheci Marx, encontrei o meu caminho: o de transformador da sociedade.

E 1968 me mostrou como isso poderia ser feito na segunda metade do século 20, bem diferente da primeira. E me deu a possibilidade de conviver com companheiros de ideais, fazer finalmente parte de um grupo sintonizado com meus ideais e que tentava sinceramente concretizá-los na vida real.

De certa forma, foi o sonho de ver e participar de um novo 1968 que me manteve vivo até hoje.

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