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quinta-feira, 1 de setembro de 2022

A INFORMALIDADE DÁ FÔLEGO PARA A SOCIEDADE DO CAPITAL SOBREVIVER/2

dalton rosado
Série AS DETURPAÇÕES CONCEITUAIS E SEMÂNTICAS / parte d
A
firma-se, ao invés de se perguntar: este critério de sociabilidade induz ao desvirtuamentos das virtudes humanas, posto que é escravizador, ganancioso, individualista, ilusório, arriscado, egoísta, vicioso, impotente, contraditório, defeituoso, neurotizante, etc. 

São adjetivos que se podem traduzir como fetiches negativos sob o manto da falsa liberdade de escolha de um modo de sociabilidade destrutivo e autodestrutivo de sua própria forma.
MERITOCRACIA E COMPETITIVIDADE – sob o capital todos são adversários de todos. Isto conspira contra a característica original dos seres humanos que, graças à solidariedade de grupos gregários, conseguiram sobressair-se dentre os animais que com eles competiam na seleção das espécies, conforme nos ensinou Charles Darwin.

O empresário, mesmo quando organizado em corporações capitalistas, é adversário do seu concorrente. As corporações capitalistas visam apenas defender os interesses básicos do capital, pactuando-se, tacitamente ou de modo explícito, que na guerra concorrencial de mercado vence o mais predador (as agressões ecológicas que o digam).

O trabalhador almeja subir de posto para obter mais dinheiro e poder de mando, tornando-se adversário do seu colega na competitividade fratricida da meritocracia, critério sob o qual pretende ser distinguido pelo seu patrão explorador e ganhar mais.

Quando inseridos na institucionalidade capitalista representando os interesses dos trabalhadores (mesmo que sejam 
honestos defensores do dito sindicalismo de resultados, não passam de fariseus trabalhistas advogando, implicitamente, em causa própria.

Isto porque a eles convém defender a melhora das condições de trabalho e renda, pois é o que lhes garante a sobrevivência política dentro do sistema que não pretendem superar.

Os políticos trabalhistas jamais almejam a superação da condição dos trabalhadores produtores de valor e propiciadores da alimentação do capital pelo trabalho abstrato como tais, porque isto representaria o desmoronamento da estrutura social sob a qual mantêm seus míseros nichos de poder institucional (sindical e político).

Um partido de trabalhadores é essencialmente capitalista, ainda que defensor do socialismo capitalista (ou social-democrata), sendo esta a razão pela qual eles fogem da doutrina marxiana da crítica do valor tal como os vampiros fogem da cruz.

O critério da meritocracia capitalista consiste no pressuposto segundo o qual quem produz mais e melhor num determinado espaço de tempo é merecedor de elogios e recompensas. É que, quanto mais ele ganha e reduz custos de produção de valor, mais ele oportuniza ganho ao seu empregador.

Nas se trata de um reconhecimento social de mérito, mas um reconhecimento individualista que premia sua contribuição para a realização do lucro. 

O meritório trabalhador é promovido e elogiado por operar com destreza uma máquina que suprime empregos e reduz os custos de produção, aumentando as chances de vitória na guerra concorrencial de mercado e aumentando o lucro patronal, ainda que isto reduza a produção global de valor de modo autodestrutivo de própria forma capitalista.

Numa sociedade na qual o mérito de cada indivíduo esteja diretamente relacionado ao benefício social coletivo, o critério de meritocracia será outro, ou seja, passaremos a admirar e considerar quem contribua para o crescimento social como um todo e não para o enriquecimento individual de alguém.

Na sociedade do capital quem não produz não come, ou deve ser descartado como um peso social não-contributivo. A eliminação, seja pelas guerras ou por epidemias, dos trabalhadores considerados supérfluos, é um genocídio que está sub-repticiamente inserido na lógica capitalista.

Sob o capital, o mérito está diretamente relacionado com a negativa ideia do lucro.

Um grande futebolista, no atual contexto do esporte transformado em mercadoria importante para o merchandising comercial, pode ganhar milhões de dólares em razão do que é capaz de fazer em campo durante os 90 minutos de uma partida televisionada para o mundo. A grande maioria dos jogadores se frustra na busca do ouro no fim do arco-íris.

O mais grave disso tudo é que nos acostumamos a aceitar a meritocracia mensurado pelo valor que cada cidadão possa produzir como critério correto de sociabilidade, sem atentarmos para que:.
— de nada adianta a poesia de um literato, por mais belas e inspiradoras que passam ser as suas poesias, quando elas não são vendidas;
 de nada adianta a música de qualidade se o público foi induzido (por ação ou omissão educacional) a gostar da música sem qualidade;
 para um laboratório de pesquisas, mais vale o lucro que advirá da venda patenteada de suas vacinas do que o mérito daquele pesquisador anônimo que a descobriu;
 mais vale o inventor de uma arma altamente letal e sofisticada que mata milhões de uma só vez, do que o discurso pacifista do Mahatma Gandhi;
 um excelente professor pode ganhar mal, mas um bicheiro mafioso que distribui migalhas a uma comunidade carente garante facilmente a eleição de seus representantes políticos e é tratado como benfeitor digno e respeitável.

Os conceitos, repito, terminam por se consolidar nas mentes aculturadas educacionalmente de modo invertido em relação às verdadeiras virtudes. Ser honesto ou solidário com o nosso semelhante é quase como tirar uma certidão de otário. É por isto que se diz, equivocadamente, que "quem tem pena do coitadinho, fica no lugar dele".

Mas podemos, sim, mudar estruturalmente tais conceitos!!! (por Dalton Rosado – continua)

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

A POLARIZAÇÃO É ENTRE DOIS MÍSEROS CANDIDATOS POPULISTAS. POR QUE?

william waack
OS INFLUENCERS LULA E BOLSONARO
Para Waack, "Lula e Bolsonaro...
H
enry Kissinger acabou de completar 99 anos e de publicar mais um livro: Leadership (Liderança). É quase um testamento de quem pessoalmente viu de tudo: de Hitler a Merkel, de Mao a Xi Jinping, de Kruchev a Putin, de Eisenhower a Biden. 

Goste-se ou não de Kissinger, esse hiper-realista tem algo a dizer sobre qualidades de líderes políticos.

No livro ele nem cita o Brasil, mas que lugar ocupariam Bolsonaro e Lula, os dois líderes brasileiros do momento, na grande separação universal que Kissinger faz entre estadistas e profetas? Nem um, nem outro. 

O estadista, diz o autor, teme a personalização da política, pois sabe como são frágeis as estruturas que dependem sobretudo do indivíduo. Lula e Bolsonaro são populistas por definição.

Na visão de Kissinger os dois brasileiros liderando a política teriam algo de profetas. Mas apenas num aspecto muito restrito: acham que, simplesmente por terem uma visão, isso lhes confere razão. 

Estão a galáxias de distância daqueles que superaram as circunstâncias que herdaram e conduziram suas sociedades para as fronteiras do possível (profetas na História, para Kissinger, foram Robespierre, Lenin, Joana D’Arc e Gandhi).

A capacidade de atuação do líder político, afirma o autor, depende de entender o passado e projetar o futuro. Nesse sentido, Bolsonaro e Lula são vítimas de dois fenômenos modernos que Kissinger considera extraordinariamente prejudiciais à formação de líderes de grande alcance.
...são populistas por definição".

O primeiro é a perda generalizada do que se chama
alfabetização profunda, isto é, a capacidade de aprimorar o senso analítico sobretudo pela leitura profunda. É famosa a aversão de Bolsonaro e Lula por textos longos. 

Esse fenômeno está associado a outro, considerado ainda mais prejudicial à formação de líderes: as tecnologias digitais. Trata-se da passagem da cultura da palavra impressa para a cultura da imagem, e sua preponderância nas redes sociais. 

Para a formação de líderes a era digital traz quatro tipos de vieses prejudiciais: o imediatismo, a intensidade, a polarização e a conformidade

É o resultado de uma atmosfera na qual lideranças são suplantadas por uma combinação de emoções pessoais e de massas inflamadas por imagens.

O Brasil é parte relevante do fenômeno, incentivado pelas redes sociais, da divisão da sociedade em tribos – do qual Bolsonaro e Lula são expressão fidedigna, embora venham de outros tempos. 

A polarização e o conformismo dependem um do outro e se reforçam: as pessoas passam a pertencer a uma tribo que, por sua vez, policia o que as pessoas pensam.

Está passando para a política, conclui o velho cínico Kissinger, aquilo que as plataformas digitais já estabeleceram. Usuários são divididos entre influencers e seguidores. Não há mais líderes. (por William Waack, n'O Estado de S. Paulo)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

DEUS DESCANSOU NO 7º DIA OU ESTÁ DESCANSANDO DESDE O 7º DIA?

hélio schwartsman
DEUS E A COVID
Em tempos de terraplanistas, olavistas e antivaxxers, os criacionistas andam surpreendentemente quietos. Dá para entender. Uma pandemia viral que já matou quase 6 milhões e que não para de produzir novas cepas, como a ômicron BA.2, não é uma ocasião muito propícia para negar a evolução darwiniana. Fazê-lo jogaria a responsabilidade por essa carnificina diretamente no colo de Deus.

O criacionismo se apresenta numa paleta variada de sabores. Há desde os criacionistas da Terra jovem, que afirmam que o planeta não tem mais do que 6 mil anos e que cada espécie que nele existe, incluindo as de vírus, foi desenhada por Deus, até os defensores da evolução teística, para os quais o Demiurgo projetou um Universo completo com todas as leis naturais e nunca mais precisou trabalhar.
Para os criacionistas do primeiro tipo e suas adjacências, o problema da teodiceia (justiça divina), cai como uma bomba. Se Deus é o responsável direto pelo surgimento desse vírus e das variantes que nos causam tanto sofrimento, como sustentar que Ele é um ser benevolente? 

Como já notara Epicuro em plena Antiguidade, onisciência, onipotência e benevolência não são compatíveis com um mundo no qual o mal se faz presente. (por Hélio Schwartsman)
TOQUE DO EDITOR – Curiosamente, alguns dias atrás pensei em iniciar um post lembrando o non sense do cineasta Jean-Luc Godard (num de seus filmes, o personagem pergunta aos céus "Deus, por que me abandonaste?" e dos céus recebe esta resposta: "Porque eu não existo!".

O Schwartsman fez, de forma erudita, algo na mesma linha que eu tinha em mente. E fez-me arrepender de não haver seguido minha inspiração.

Se eu tivesse escrito aquele post, iria diretamente ao ponto: "Como crer  num Deus que permite a fanáticos e/ou imbecis assassinarem Lennon, Gandhi, Luther King e tantas outras pessoas de valor inestimável para a humanidade e, ao mesmo tempo, não fulminou com seu raio os totalmente inúteis e nocivos Hitler, Trump e Bolsonaro antes que causassem todo o mal que causaram?". Xeque-mate. (CL)

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

CAPITALISMO FOI REVOLUCIONÁRIO COM RELAÇÃO AO FEUDALISMO, É RETRÓGRADO COM RELAÇÃO À EMANCIPAÇÃO HUMANA

dalton rosado
AS REVOLUÇÕES SOCIAIS, FORMAS E CONSEQUÊNCIAS

"A burguesia fez da dignidade humana um simples valor de troca; no lugar de inúmeras liberdades duramente conquistadas, colocou a liberdade do comércio
sem escrúpulo. Numa palavra, ela colocou no
lugar da exploração velada com ilusões
políticas e religiosas, a exploração
aberta, descarada, direta, seca"
(Marx e Engels)
As rupturas sistêmicas nunca são pacíficas, porque as ebulições a elas subjacentes são, em si, tempestuosas. Mas mesmo as que se operam pela via de mudanças aparentemente imperceptíveis, em longos períodos, implicam momentos traumáticos, representados pelas crise de saturação de um modelo social e a passagem a outro modelo.

As revoluções armadas, cirúrgicas, explicitamente violentas (guerras de movimento), principalmente, implicam necessariamente uma estrutura armada para fazer frente à contrarrevolução que inevitavelmente se forma (guerra de posição). Vide os exemplos históricos da revolução republicana francesa (1789), da Comuna de Paris (1871), das revoluções russa (1917), chinesa (1949) e cubana (1959), etc. 

A força militar das revoluções cirúrgicas são justamente a sua fraqueza, pois o aparentemente novo poder das armas não se desentranhou do velho. 

No caso das revoluções marxistas tradicionais, houve grandes rupturas políticas, mas apenas rupturas parciais no modo de produção, conservando-se critérios capitalistas de Estado, daí a consequente volta ao capitalismo de mercado sem nenhum tiro.
A verdadeira revolução é aquela que diz respeito à mudança na essência do modo de produção social, pois neste caso é gestada a partir de pressupostos irrevogáveis que se consolidarão mesmo que haja marchas e contramarchas no seu processo.

A revolução burguesa, p. ex., apesar de profundamente traumática (várias guerras localizadas e duas guerras mundiais nas quais morreram cerca de 60 a 70 milhões de pessoas num mundo bem menos habitado que hoje), terminou por se consolidar empiricamente modificando relações sociais feudais de produção que existiam há séculos; acarretou, consequentemente, profundas modificações na ordem jurídico-política e nas relações humanas.

No momento atual dá, contudo, sinais de sua obsolescência. Vivemos um momento de saturação de um modo de produção que se tornou anacrônico por seus próprios fundamentos e está ensejando um pensar fora da caixa que, cada vez mais, se coaduna com a realidade, por mais que tal prognóstico pareça estranho num primeiro momento. Os meus escritos tendem a demonstrar essa gestação do novo.    
Quanto à forma como se dará tal parto, não é uma receita de bolo, pois faremos o caminho ao caminhar, alicerçados numa teoria revolucionária que deve nos servir de bússola. Neste sentido, devemos subir nos ombros do Marx esotérico para vislumbrar novos horizontes.

Somos todos forçados diariamente a ganhar dinheiro; com isto alimentamos o capitalismo, queiramos ou não. Tal coerção tácita, segundo a qual você é livre para escolher a forma como vai servir ao capital (o Deus da modernidade!), implica mais uma camisa-de-força que nos impede de sair voluntariamente de suas amarras.

A correlação de forças da luta entre o domínio do capital e um novo pensar é altamente desigual em favor da primeira concepção, daí a dificuldade da sua superação. Tal superação será, certamente, ainda mais traumática do que foi a transição do feudalismo para o capitalismo. 

Mas, independentemente da nossa vontade, tal transição vem sendo imposta pelas próprias circunstâncias da falência de um modo de produção que está travando a satisfação das necessidades de consumo e, apesar de todos os instrumentos institucionais de controle (o voto é apenas um deles), a corrosão fermentada nos alicerces do capital escapa cada vez mais do controle dos agentes econômicos empresariais e políticos.
Sítio Brotando a Emancipação: produção não visando ao lucro

Entendo (apenas a título de sugestão, sem querer dar receitas comportamentais detalhadas) que o exército de desempregados e subempregados, cada dia mais volumoso e desesperado, possa ser aglutinado no sentido de uma produção de bens e serviços sem valor econômico crescente e que proporcione a satisfação de necessidades de consumo e viabilização da vida, contrapondo-se de modo tenaz aos prováveis impedimentos que a ordem burguesa procurará interpor.  

A própria conjuntura econômica deverá induzir a comportamentos sociais emancipatórios, porque é uma característica do ser humano o seu instinto de sobrevivência, que ora está ameaço sob várias formas graças à depressão capitalista.  

Sobre a possibilidade de uma postura sectária na crítica à democracia burguesa – A conquista do voto universal foi um pressuposto da democracia burguesa que, sem dúvida, representou um avanço com relação às formas políticas absolutistas anteriores. 

Entretanto, isso não significa que esse método se baste a si mesmo e ponha um fim indiscutível, imutável e definitivo à forma de organização social mundial. O capitalismo foi revolucionário com relação ao feudalismo; mas é retrógrado com relação à emancipação humana; e sua forma política se coaduna com o objeto segregacionista a que serve, devendo, justamente por isto, ser negada.

A democracia-burguesa apesar de representar uma evolução com relação ao pensamento escravocrata direto que vigorou até a Idade Média, está longe de representar uma forma política definitiva à qual se possa implementar, a partir de reformas procedimentais, uma adequação capaz de superar os males atuais representados pelo seu conteúdo.  

Não é uma questão de ajustes nas suas formas, mas de superação dos seus conteúdos. Os eventuais pontos fortes do processo eletivo democrático-burguês (como uma pretensa liberdade de escolha pelo voto igualitário de todos os cidadãos) representam uma dissimulação à falta de soberania de vontade da cidadão, que, a priori, está enquadrado numa camisa-de-força da qual ele dificilmente consegue sair, ainda que o segmento político seja alvo do escárnio popular.      

O processo eleitoral está circunscrito à dominação fetichista da forma-valor. Os eleitores, na sua grande maioria, antes de enxergarem o engodo eleitoral, vislumbram o seu interesse específico, que está sempre condicionado a uma vantagem pessoal direta ou indireta. 

Assim, há invariavelmente um interesse preponderante que impele a maioria dos cidadãos ao exercício do voto, até como forma de impedir um mal maior (caso do chamado voto útil, que, latu sensu, é sempre inútil).   
.
Sobre as dúvidas quanto à funcionalidade e consequências futuras de um novo modo de produção e organização social – Sou absolutamente contra o poder, que é sempre verticalizado. Neste sentido, podemos nos apoiar num aspecto do pensamento iluminista republicano burguês, que propôs a descentralização dos poderes (executivo, judiciário e legislativo) para que o capital pudesse submetê-los.   

Destarte, devemos descentralizar a organização social, mas não sob os pressupostos do capital, que é um poder abstrato ao qual os seres humanos se submetem, mas sob pressupostos de produção coletiva sem a intermediação da forma-valor (sistema de trocas de mercadorias) que possam destravar o atual impasse provocado pela impossibilidade de reprodução do lucro (única forma de manutenção da viabilidade monetária) nos níveis agora exigidos e por sua própria dinâmica existencial contraditória. 

Ao invés de propormos o impossível desenvolvimento econômico, como querem todos os candidatos mundo afora e quase todos os homines economici do Planeta, devemos superar a própria lógica econômica em seu momento de saturação irreversível. 

Esta proposição nem de longe se coaduna com a ideia de um soviete de burocratas, concepção ligada ao antigo socialismo real e somente concebível quando se pensa numa alternativa política sem superação das categorias capitalistas que se tornaram obsoletas no atual desenvolvimento tecnológico da produção.

O atual estágio da derrocada dos pressupostos burgueses causados por sua própria ilogia, está acarretando um retrocesso civilizacional que mais não é do que a perda de direitos antes possíveis para uma pequena parte da humanidade (os burgueses e pequenos burgueses), a qual, agora, deseja a manutenção de seus privilégios sob uma forma ditatorial, com ou sem a legitimação pelo voto (Bolsonaro, Trump, Erdogan, Maduro, Ortega, Putin, Abdul Fatah, etc.). 

Ser inocente ou ingênuo não é defeito moral ou condição decorrente de culpa pessoal, mas se trata de um fator estrutural contributivo para a manutenção da espoliação social. Acaso o povo soubesse o que está subjacente à exploração à qual é submetido (extração de mais-valia e cobrança de impostos para a manutenção de um Estado que o oprime) aceitaria a coerção tácita do capital? É evidente que não. 

A ignorância sempre foi um instrumento facilitador da imposição ditatorial; a queima de livros numa grande fogueira (como ocorreu na Alemanha nazista) é um exemplo histórico da percepção ditatorial sobre o poder da consciência, temida justamente porque o saber liberta. Aqui no Brasil já se prendeu, torturou e matou muita gente por ter e ler livros ditos subversivos.

A consciência é a única arma possível contra a submissão, pois o saber, antes de ser um bisturi social, é a régua e o compasso capaz de operar a liberdade e criar um modo de convivência social no qual os indivíduos sociais não sejam forçosamente adversários uns dos outros. como ocorre sob a lógica capitalista.

Por fim, foi o leitor Sadi Fernandes que, com seu comentário sobre este post, inspirou-me a dedicar um artigo inteiro ao aprofundamento  das questões por ele propostas. 

Agradeço-lhe por vir, com seus comentários sempre pertinentes, suscitando o debate escrito, o que considero uma forma excelente de discussão, graças à serenidade e força do significado que cada palavra dita e refletida contém, além de poder ser objeto de consulta e análise permanente e profunda. (por Dalton Rosado)

domingo, 17 de dezembro de 2017

DILMA ROUSSEFF, QUEM DIRIA, VAI ACABAR NO PIAUÍ...

O jornalista Josias de Souza informa em seu blog que Dilma Rousseff cogita a possibilidade de repetir o pulo do gato de outro ex-presidente cuja desastrosa passagem pelo poder só lhe permitiu eleger-se, em seguida, por um Estado longínquo, onde jamais verdadeiramente residira: José Sarney.

Só para lembrar, Sarney deixou o governo com índices de rejeição equivalentes às estratosféricas taxas de inflação registradas no final do seu mandato. Então, o PMDB do Maranhão lhe negou legenda para concorrer ao Senado por sua terra natal. 

Não se dando por vencido, ele resolveu fingir-se de amapaense desde criancinha, pois se tratava de um território recém-emancipado, onde sua condição de celebridade que estava sempre aparecendo na TV ainda deveria ser suficiente para o povo desinformado votar nele.

Eis o que Josias diz sobre uma eventual entrada de Dilma no Senado pela porta dos fundos:
"Numa conversa recente, admitiu candidatar-se ao Senado em 2018. Só não soube dizer por qual Estado. 
Mora no Rio Grande do Sul e nasceu em Minas Gerais. Mas discutiu a sério a hipótese de disputar a vaga de senadora pelo Piauí, Estado governado pelo petista Wellington Dias. 
Não foi a primeira vez que o Piauí entrou no radar de Dilma. A cogitação nascera há coisa de cinco meses. Causara certo desassossego no petismo piauiense, forçando o governador a negar que estivesse negociando com Dilma a transferência do domicílio eleitoral dela de Porto Alegre para Teresina. A novidade é que a ex-presidente voltou a falar sobre o assunto. 
No Rio Grande do Sul, Dilma foi ignorada pelo seu partido. Ali, o PT já escolheu o senador Paulo Paim como candidato à reeleição para o Senado.
Confirmando-se a intenção da presidente deposta de retornar às urnas, será uma pena se ela for pedir votos à clientela do Bolsa Família no Piauí.  
O país perderá a chance de assistir a um novo embate de madame com Aécio Neves, pois o senador tucano revela-se disposto a pleitear junto ao eleitorado mineiro a renovação do mandato".

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A NOSSA LUTA CONTRA A VITÓRIA DO RUIM

"A única revolução possível está dentro de nós" 
(Mahatma Gandhi, defensor do Satyagraha
princípio de não agressão e da forma 
não violenta de protesto)
.
É muito oportuno o alerta do Celso Lungaretti, sobre a inconveniência de se lançarem palavras de ordem de ódio e morte contra o Presidente Temerário

Por mais que ele represente o consenso das elites no sentido de que o capitalismo decadente deva ser salvo a qualquer custo, sacrificando ainda mais uma população exaurida, e seja por isto merecedor do nosso repúdio, nós devemos nos fixar em propostas de superação deste mesmo capitalismo a partir de soluções alternativas que apontem para a salvação da vida humana e não para o confronto belicista.

A opção por análises da crise estrutural do capitalismo, para delas tirarmos conclusões verdadeiramente emancipatórias, com ações consistentes e sem qualquer ação tresloucada (inclusive no sentido de não fornecer pretextos para uma escalada repressiva), são as tarefas mais importantes nesse momento de desespero para os desempregados e jovens sem perspectivas; para aposentados idosos que não recebem os seus salários (como está acontecendo no Rio de Janeiro); para pensionistas desfalcados; para os que sofrem com a seca por conta do aquecimento global provocado pela emissão irresponsável do CO² na atmosfera (EUA e China à frente); e até para os empresários falidos que veem seus credores batendo à porta.

A crise do capital só está começando e o que vem por aí deve merecer de nós o maior grau de lucidez e discernimento sobre as causas desta débâcle e sobre a possibilidade concreta de sua superação fora de sua lógica (do capital) que se tornou anacrônica.     

Os importantes protestos de ruas, que ao longo da história têm sido relevantes, devem considerar que o capitalismo desenvolvido e o seu estado nacional nasceram das guerras, e que as forças belicistas defensoras da sua manutenção não hesitarão em usar as armas que detêm, e que são agora efetivamente muito mais letais do que antes. A nossa luta deve se dar noutro campo, qual seja, o das consciências, capazes de mobilizar as forças incomensuráveis da participação coletiva, que, afinal, existem. 

Chico Buarque, em documentário sobre Vinicius de Morais (cujo centenário de nascimento se deu em 2013), afirmou que o poeta diplomata não teria um bom lugar no mundo de hoje, com o atual estado de coisas. Avaliou que ele não se sentiria bem com a atual vitória da ostentação; do pragmatismo (que, na minha visão, é a busca do poder e do vencer como fim que justificaria os meios); da falta de generosidade; da perda da pureza, etc. 

Concordo com Chico, até quando ele diz que desapareceu a saudável irreverência porra-louca. A contracultura underground questionava valores conservadores de um modo até certo ponto ingênuo, mas bem intencionado, que, infelizmente, deu lugar, hoje, à inconsciência agressiva e à violência destrutiva.

Há quem se rebele e são muitos os que potencialmente podem se rebelar. Falta, contudo, um suporte teórico mais profundo que possa ensejar uma maior consistência aos bem intencionados, mas ingênuos movimentos mundiais contra a crise econômica, do tipo Occupy Wall Street, Black Bloc  e outros, 
Neles, desempregados, ativistas e pessoas indignadas se aglomeram em protestos nas praças e diante de instituições representativos do sistema, clamando justamente por aquilo que lhes infelicita: melhores salários, menores taxas de juros, maior assistência do Estado e mais trabalho, trabalho, trabalho.

Não compreendem que justamente todos os construtos capitalistas (e principalmente o trabalho abstrato, mecanismo primário de produção do valor e modo de relação social exaurido) sejam aquilo que deve ser superado de modo transcendental para que se estabeleça um novo modelo. 

Reivindicam políticas públicas, o que significa mais Estado, mais impostos e mais atividade econômica impossível de ocorrer no atual estágio da vida mercantil; reivindicam o fim da corrupção pelos políticos, sem entender que são os políticos profissionais devem ser todos defenestrados, etc. E este é o lado bom da maçã...

Há o lado que se mobilizou para a vitória do ruim (sem desconfiar que o gigante tinha os pés de barro). Este: 
– pugna por maior desenvolvimento econômico; 
 – vê como exemplo positivo a economia chinesa, com seus novos e abundantes bilionários (sem entender o significado global numérico disso); 
– delicia-se e interage com a programação desqualificada da indústria do entretenimento (cuja influência mesmerizante e imbecilizante, segundo o jornalista Paulo Francis, estaria engendrando um inferno pamonha); 
– que coloca a culpa da miséria social e do aumento da fome no mundo nas vítimas, a quem atribui ignorância e preguiça; 
– que atribui a escalada da violência à falta de policiamento; 
– que minimiza a agressão ecológica e o aquecimento global, dizendo serem invencionices de ecoxiitas; e por aí vai...
Mas há os que refletem sobre a gênese desse estado de coisas sem atribui-lo apenas ao mau gerenciamento político, mas sim a uma forma de relação social que sempre foi ruim, genocida, mas que agora encontrou o ponto limite de saturação e clama por soluções alternativas.

Estamos convencidos (os que consideramos que a guerra nunca é solução inteligente para nada, mas a explicitação do estágio inferior de nossa racionalidade), que podemos superar o capitalismo e tornar a vida prazerosa e sustentável. E de que isto não depende de nenhuma vontade externa, mas apenas da nossa consciência e da nossa ação. 
Por Dalton Rosado

Não podemos ter ilusões sobre o caráter belicista do capitalismo, que não hesitará em nos submeter ao tacão de suas armas de fogo. A força da nossa resposta deverá estar assentada num caráter construtivo consciente, que negue a guerra pela guerra, ainda que tenhamos o direito à legítima defesa coletiva.

Parabéns, Celso. Você tem legitimidade para falar sobre o significado da hipossuficiência da correlação de forças no confronto com as armas de fogo do sistema, e dar conselhos aos bravos jovens voluntariosos, que precisam estar atentos às lições da História e à verdadeira gênese das nossas desgraças coletivas. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

MANDELA E GANDHI: LUMINOSAS EXCEÇÕES NUM SÉCULO SANGUINÁRIO


Mandela e Gandhi foram líderes admiráveis, com trajetórias muito parecidas, exceto no seu final. Mais afortunado, o primeiro terminou seus dias placidamente como merecia, enquanto o arauto da não violência deparou com a besta-fera que ninguém merece encontrar.  

Ambos enfrentaram inimigos odiosos, com os quais nenhuma pessoa decente poderia ser tolerante: o apartheid e o colonialismo.

Os dois chegaram a trilhar os caminhos da força, mas depois perceberam que a maior vulnerabilidade dos inimigos era a moral. E disto souberam tirar máximo proveito, para alcançarem seus objetivos com desperdício de vidas relativamente pequeno.

Tiveram sensibilidade para perceber o papel que uma grande liderança carismática pode desempenhar em luta deste tipo, granjeando simpatia para a causa no mundo inteiro. E, favorecidos por suas auras de martírio, incorporaram magnificamente tal figurino, Mandela com características laicas e Gandhi como um homem santo, segundo as tradições de seus respectivos povos. 

Vitoriosos, eles concluíram suas obras consolidando os novos governos sem os derramamentos de sangue que pareciam inevitáveis.

Com sua coragem e imensa autoridade moral, Gandhi evitou uma guerra entre Índia e Paquistão ao dispor-se a jejuar até a morte se os atos de hostilidade não cessassem. 

Com sua incrível intuição política, Mandela utilizou um campeonato de rúgbi para irmanar negros e brancos, estimulando o afloramento de uma consciência nacional em substituição aos rancores raciais.

Alguns companheiros gostariam mais deles se tivessem sido, explicitamente, revolucionários. Gandhi nunca o pretendeu ser e Mandela priorizou o fim da desigualdade decorrente dos preconceitos raciais, talvez por avaliar que assumir a bandeira maior do fim da exploração do homem pelo homem lhe fecharia demasiadas portas. De qualquer forma, é pouco provável que, em países tão atrasados como a África do Sul e a Índia, eles pudessem ter ido mais longe do que foram. 

Outros destacam que a volta por cima de ambos só se tornou possível porque britânicos e holandeses hesitavam em executar opositores na cadeia, já que suas tradições civilizadas ainda lhes impunham alguns limites. Os estadunidenses, com seu pragmatismo impiedoso e com a desumanidade característica dos fanáticos religiosos aos quais remontam, certamente teriam eliminado o problema no nascedouro.

Mas, dentro do quadro em que atuaram, é indiscutível o mérito de haverem mudado a face dos seus países com muito menos violência do que líderes de outro tipo utilizariam ou provocariam.  Num período tão brutal como o século passado, foram luminosas exceções.
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