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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

DESABAFO DO RUI MARTINS: "O NOSSO POVO NÃO DERRUBA DITADURA NENHUMA"

O nosso bom Rui Martins, que cobre anualmente o festival cinematográfico de Locarno, na Suíça, desta vez teve de contentar-se com o que ele qualificou de um mini-festival, pois a pandemia o reduziu a uma mera mostra de reprises. 

Pelo menos os organizadores helvéticos entendem do riscado, pois programaram simplesmente o melhor filme brasileiro de todos os tempos: Terra em Transe (1967), do Glauber Rocha. 

Segue o trecho de seu balanço do festival que Rui dedicou à obra-prima glauberiana, cuja íntegra pode ser vista na janelinha que encerra este post. (o editor)
SOMOS A MESMA TERRA EM TRANSE

Terra em transe nos mergulha num mundo político de corrupção, traições, infiltração estrangeira, desejo de revolução e luta contra a pobreza, populismo, personalismo e violências. É o Brasil de todos nós, visto por Glauber Rocha. 

E uma incômoda constatação: tanto tempo depois da realização do filme, o Brasil de hoje não é muito diferente do Brasil de Terra em transe, feito três anos depois do golpe militar.

Houve alguns reajustes.  Em lugar do catolicismo, como apoio político-religioso ao poder dominante, temos hoje o evangelismo, mas o pvo, com algumas exceções,  é o mesmo:  servil, carola, fanático e crédulo, pronto a seguir quem melhor o saiba enganar. 

Quando os populistas se defrontam com o povo e os representantes do dito cujo pedem água potável encanada ou títulos de propriedade de suas moradas, a reação é violenta e mortal. Isto nos lembra a atualidade de hoje em Minas Gerais com os sem-terra.

Por que o povo cede às ladainhas ou aos salmos e hinos dos religiosos? Glauber Rocha é inclemente no seu filme –o povo segue como cordeiro (agora se diz gado) a espada ou a cruz, não percebendo as mentiras e enganações dos líderes populistas. 
O Mino Carta em entrevista que fez com o Ciro Gomes, acaba de reforçar essa visão. 

E nós todos nos deprimimos ao vê-la confirmada  pelo chocante resultado da última sondagem de opinião do instituto Datafolha. Bate em mim, que eu gosto, parecem dizer os entrevistados.

Lembro-me de um velho refrão repetido tantas vezes pelos estudantes durante o governo militar: o povo unido derruba a ditadura! Que povo? O nosso povo não derruba ditadura nenhuma; pelo contrário, é até capaz de nos conduzir a uma ditadura evangélica neofascista. 

Na refundação da nossa esquerda, ou das nossas esquerdas, será preciso rediscutir a semântica e valor das palavras usadas nas palavras-de-ordem.

Povo sem instrução e sem boas escolas não derruba coisa nenhuma. Assim como o conceito de homem bom, de Rousseau, é moralista e não realista. 

O povo pobre, sofrido, explorado, não é também o bonzinho dos cristãos católicos ou evangélicos, à espera de redenção.

Povo com escolas laicas primária e secundária, com salários decentes, com moradias dignas, com assistência médica e social, cujos filhos podem ter acesso às universidades públicas, um povo desses, sim, não seria seduzido por histórias religiosas, nem por nacionalismos nazifascistas. 

E nem precisaria derrubar ditaduras, porque não as teria eleito. Quando nossa esquerda entenderá isso?

Numa análise que li, do colega Paulo Moreira Leite, sobre as últimas pesquisas da Folha de S. Paulo, notei uma ausência – a da influência, cada vez maior, do gado evangélico no conformismo do povo brasileiro diante do governo Bolsonaro. 

Hoje, os pastores evangélicos, que se investiram de um poder divino, aceito cegamente por um povo sem instrução, são mais poderosos numa eleição que os militares. E, no caso de um golpe de Estado, quem nos garante que terão um discurso pacífico, se ora já são coniventes com a ideologia da violência do poder?

Mais alguns anos, o Brasil se transformará num Polônia carola evangélica, conservadora e retrógrada. (por Rui Martins)

sexta-feira, 24 de abril de 2020

O PAPEL DE SERVIS ADMINISTRADORES DO CAOS CAPITALISTA CONDIZ CONOSCO? – 1

dalton rosado
A ESQUERDA E O PODER VERTICAL
Assim como não há meia gravidez, inexiste anticapitalismo pela metade. Tal afirmação pode parecer sectária mas, no atual estágio da ingovernabilidade capitalista, não podemos contemporizar com o poder político estatal vertical mundialmente existente. 

Até mesmo os serviçais políticos do capital não conseguem mais administrar a contento a função política de sua sustentação, pois o Estado faliu e somente pode existir como ponta de lança da opressão.

Os partidos de esquerda estão viciados nas migalhas de poder que a ordem capitalista lhes concede: cargos nos podres poderes Executivo e Legislativo (e alguns no Judiciário, quando a indicação política se mostra decisiva para alguns altos cargos na magistratura). 

Comportam-se, então, como servir administradores do caos capitalista, uma vez que somente conseguem enxergar as próximas eleições, sem considerarem o desgaste inevitável do período pós-eleitoral caso sejam eleitos (ficando sempre em minoria no parlamento e demais aparelhos de Estado).

Assim procedendo, ao invés de passar para o povo a referência correta do que se deve propor, a esquerda tem dado azo aos descréditos seculares como administradores das categorias e da ordem capitalista, as quais vêm se perpetuando no tempo.
A crítica corrosiva de Glauber Rocha a uma esquerda acomodada ao capitalismo continua atual até hoje 
A esquerda fez isso até mesmo nos países onde ocorreram as revoluções marxistas-leninistas que, contudo, não negaram as categorias capitalistas, seja por oportunismo do exercício do poder vertical ou por medo da ingovernabilidade decorrente de uma demorada e turbulenta transição do modelo mercantil social para o modelo (a ser implantado) imune às categorias capitalistas. 

Os que se dizem marxistas tradicionais têm medo da crítica do valor marxiana; negam Marx muito mais vezes do que Pedro negou Cristo.

O poder governamental marxista-leninista, conservando as categorias capitalistas vivas, já se manifestava como socialmente inviável no longo prazo, mesmo sob o dístico falacioso da Estado proletário. Deu no que deu, em todos os lugares. 
"o que estávamos mesmo fazendo ali?"

Quando assumi em 1986 o cargo de secretário de Finanças da prefeitura de Fortaleza pelo PT (que depois nos expulsou, à prefeita Maria Luíza e a mim, por não compactuarmos com o jugo da conciliação de classes e do financiamento do processo eleitoral em moldes que desembocavam na corrupção), para cumprir um mandato-tampão de três anos e me deparei com a situação falimentar desse aparelho de Estado burguês, indaguei-me: o que estávamos mesmo fazendo ali? 

Permaneci no cargo até o final porque ainda acreditava (equivocadamente) que o nosso desempenho sem corrupção e tentando ajudar os movimentos populares a partir do governo municipal poderia dar bons resultados. Só mais tarde me dei conta do equívoco. Hoje teria renunciado.

É que tínhamos um déficit de mensal de 20% entre receita e despesas ordinárias, o que nos obrigava ao ajuste orçamentário sob pena de nos tornarmos insolventes até com a folha de pagamento dos servidores. 

Tínhamos defendido, durante a campanha eleitoral que nos levou à primeira vitória numa capital pelo PT, bandeiras como a fixação de um piso salarial das categorias profissionais (professores, médicos e demais profissionais da área da saúde, engenheiros, assistentes sociais, procuradores jurídicos, etc.), e víamo-nos impedidos, objetivamente, como administradores públicos, de pagar até mesmo os rebaixados salários de tais categorias. 
Escassez de recursos inviabilizava ideais

A mesma contradição acontecia em muitas outras áreas da administração pública municipal. 

Diante da inflação galopante após o fracasso do Plano Cruzado, éramos obrigados a aumentar quase diariamente o valor das passagens da empresa de ônibus municipal, como forma de compatibilizá-lo com a elevação de custos de transporte. 

Como não queríamos elevar tal preço, em solidariedade aos trabalhadores que viam ser corroídos os seus salários mensalmente, éramos obrigados a cobrir o déficit entre receita e despesa da empresa pública em questão, sem dispormos de recursos orçamentários para tanto. 

São apenas dois exemplos municipais que servem para ilustrar bem a contradição que representa ser governo de um aparelho de estado burguês e ter um norte anticapitalista autêntico. 

Quando a coisa se transfere para o plano federal, os problemas se multiplicam, principalmente nos períodos cada vez mais constantes de crises cíclicas e maiores. 

 Fico a imaginar como estariam as coisas caso o Fernando Haddad houvesse sido eleito presidente em 2018 e tivesse de administrar, dentro de uma referência de receitas públicas e despesas, o quadro caótico decorrente da debacle capitalista — que já era grave antes do coronavírus e agora se intensificou de modo avassalador.  (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O CARNAVAL BRASILEIRO EM 5 FILMES INESQUECÍVEIS

ALÔ, ALÔ, CARNAVAL (1936)
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Como falar de Carnaval e não mencionar a nossa pequena notável Carmen Miranda? Se a atriz e cantora nascida em Portugal e ícone de Hollywood foi responsável por criar um imaginário internacional da baiana requebrante cheia de frutas na cabeça, muito disso se deve a sua presença em diversos filmes que estrelou na tela grande. 

E destes, o único que contou com sua participação no início da carreira – ou seja, ainda no Brasil e antes de sua ida para os Estados Unidos – é esta divertida comédia musical dirigida pelo veterano Adhemar Gonzaga (fundador da Cinédia, o primeiro estúdio de cinema brasileiro). 

Neste verdadeiro clássico, Carmen e sua irmã, Aurora Miranda, aparecem como vedetes da Rádio Nacional – a canção “Cantoras do Rádio” foi interpretada aqui, pela primeira vez, com as duas juntas – cantando populares marchinhas que iam além dos estúdios e faziam a festa de foliões por todo o país em pleno carnaval. 

Contando ainda com nomes como Oscarito e Lamartine Babo, o filme teve tamanho impacto nas bilheterias que três anos depois estrearia a continuação Banana da Terra (1939), desta vez com a brazilian bombshell como estrela absoluta! (por Robledo Milani, no site Papo de Cinema)
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CARNAVAL ATLÂNTIDA (1952)
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A Atlântida dominou a produção cinematográfica brasileira por mais de duas décadas, realizando um grande número de chanchadas e musicais muitas vezes ligados ao universo carnavalesco. 

Um dos mais populares exemplos da fórmula de sucesso do estúdio foi esta comédia dirigida por José Carlos Burle e Carlos Manga, cuja trama acompanha o renomado produtor de cinema Cecílio B. de Milho (Renato Restier), que deseja realizar uma suntuosa adaptação do clássico Helena de Troia e para isto contrata o professor Xenofontes (Oscarito), especialista em mitologia grega, como consultor da produção. 

Enquanto tenta dar início ao projeto, o produtor se vê às voltas com diversos personagens peculiares, como sua sobrinha cubana Lolita (Maria Antonieta Pons), o Conde Verdura (José Lewgoy) e a dupla de malandros Miro (Grande Otelo) e Piro (Colé), que querem transformar o filme num musical de carnaval. 

Satirizando os épicos de Cecil B. DeMille, o filme apresenta cenas hilárias – o diálogo romântico entre Oscarito, como Helena de Troia, e Lewgoy, como o galã Paris, se tornou clássico – intercaladas com ótimos números musicais que utilizam famosas marchinhas (“Cachaça”, “Ninguém Me Ama”, “Quem Dá aos Pobres”) interpretadas por grandes artistas da época, como Dick Farney e Nora Ney. (por Leonardo Ribeiro, no site Papo de Cinema)
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ORFEU DO CARNAVAL (1959)
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vencedor da Palma de Ouro em Cannes, do Globo de Ouro e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, este longa do francês Marcel Camus tornou-se um ícone da imagem idealizada da cultura brasileira exportada para o mundo através do cinema. 

Baseado na peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, por sua vez inspirada na mitologia grega, o longa é ambientado no Rio de Janeiro durante a época do carnaval, onde Orfeu (o ex-jogador de futebol Breno Mello), condutor de bonde e músico adorado por todos na favela em que vive, se apaixona pela inocente Eurídice (Marpessa Dawn), que deixou seu lar no interior para fugir da Morte (papel do bicampeão olímpico do salto triplo Adhemar Ferreira da Silva). 

Mesmo premiado, recebeu críticas dentro e fora do país por seu retrato caricatural do Brasil como um lugar onde as pessoas vivem dançando em um eterno desfile carnavalesco. Apesar disto, é difícil negar a beleza estética da trágica história de amor apresentada por Camus, que concebe momentos verdadeiramente poéticos e que também ajudou a propagar a Bossa Nova, presente na magistral trilha de Tom Jobim e Luís Bonfá. (por Leonardo Ribeiro, no site Papo de Cinema)
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QUANDO O CARNAVAL CHEGAR (1972)
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Quando o Carnaval Chegar é um encontro com alguns dos grandes cantores de sua época e um presente do diretor Cacá Diegues para sua mulher, Nara Leão, que o acompanhara no exílio. 

Mas o filme será eternamente identificado a Chico Buarque de Hollanda, que compôs as canções da trilha sonora, incluindo a célebre faixa-título, que se sobrepõe à própria película no imaginário do público (também se encontram no filme grandes composições de Lamartine Babo, Braguinha, Joubert de Carvalho, Assis Valente, Nássara, Tom e Vinícius, etc.). 

Nara, Chico e Maria Bethânia são Mimi, Paulo e Rosa, um trio com todos com menos de trinta anos, que fazem parte de uma trupe de cantores de rádio que se apresentam pelo Brasil afora num ônibus multicolorido e fazendo a festa onde quer que estejam.

Mas há paixões, intrigas, dúvidas, discussões, incertezas e ciúmes. Os personagens refletem os artistas que os interpretam. Paulo é o ídolo popular e estrela do grupo, a principal referência pela qual a trupe é conhecida. Rosa é a mais brincalhona e a que se diverte com tudo e todos. Mimi representa o contraponto à alegria expressa pelo filme, que joga toda sensação de desamparo para cima da personagem de Nara Leão.

Completam o grupo o empresário Lourival (Hugo Carvana), e o motorista Cuíca (Antonio Pitanga), tocador do instrumento nas rodas de samba no morro de origem, sempre a espera de uma oportunidade no show. 

Destaque ainda para a parte do elenco que compõem o que seria os vilões de Quando o Carnaval Chegar: Elke Maravilha, como uma espectadora francesa que se envolve e ilude o personagem de Antonio Pitanga, além de José Lewgoy, de grande poder no mundo dos espetáculos, e seu capanga interpretado por Wilson Grey ─ os dois últimos citados, monstros sagrados da chanchada, o que remete ainda mais aos áureos tempos das produções da Atlântida.

Trata-se de uma turma que batalha e sonha, sofre e se decepciona, sempre no aguardo de alguma grande chance (tanto no trabalho quanto no dia-a-dia e no amor), em meio as suas alegrias e canções, e à expectativa de quando o carnaval chegar. (trechos da crítica de Vlademir Lazo no site Revista Zingu)
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Ó, PAI, Ó (2007)
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Baseado na peça musical homônima levada aos palcos em 1992 pelo Bando Olodum, este filme dirigido por Monique Gardenberg oferece um curioso painel sobre o fervor carnavalesco em Salvador, cidade que é sinônimo de folia em todo o país. 

A trama não é única e formada por tipos diversos, representantes das diversas facções envolvidas na festa. Lázaro Ramos (talvez o mais à vontade) divide suas preocupações entre conquistar uma namorada e o desfile do bloco do Araketu. 

Stênio Garcia é o comerciante em busca de turistas, enquanto que Wagner Moura empresta seu talento a um tipo repugnante, o playboy racista e preconceituoso. Há ainda a beata dona de um cortiço, a mãe-de-santo, o taxista e a mulher especializada em abortos. 

Os conflitos entre estes tantos personagens vão se sucedendo, e o mais interessante não é o desenlace individual de cada um, mas o pulsante e colorido cenário que oferecem no todo. 

E no meio de tanta confusão, reflete com precisão o retrato de um Brasil que, mesmo diante das situações mais adversas, sempre encontra fôlego para jogar tudo para cima e dançar até cair. Ou ao menos até a 4ª feira de cinzas. (por Robledo Milani, no site Papo de Cinema)

sexta-feira, 9 de junho de 2017

FAZ 50 ANOS QUE GLAUBER MOSTROU AS AGRURAS BRASILEIRAS COMO TRAGÉDIA. HOJE, NO TSE, AS VEMOS COMO CHANCHADA.

Foi  em 2 de maio de 1967 que, liberado após personagens terem o nome trocado por imposição da censura ditatorial, estreou a maior obra-prima do cinema brasileiro e um dos melhores filmes políticos de todos os tempos e países. 

Antes, nossas agruras eram mostradas com a dramaticidade das tragédias, hoje são encenadas, como estamos vendo no julgamento do Superior Tribunal Eleitoral, de forma tão canhestra e patética que até lembram as chanchadas da Atlântida. Eu, particularmente, gostava mais de assistir às trapalhadas do Oscarito e Grande Otelo do que às do Herman Benjamin e Gilmar Mendes.

Terra em Transe (1967) foi uma parábola perfeita sobre a quartelada de 1964, mas nem por isto válida somente para o Brasil. Flagrou uma realidade comum à maioria das nações do 3º mundo –ao qual, dizem, deixamos de pertencer em termos de pujança econômica, mas no qual permanecemos atolados até o pescoço quanto à distribuição de renda, à qualidade de vida e, mais do que tudo, em espírito, pois a alma brasileira continua pateticamente colonizada e submissa ao autoritarismo.

Glauber Rocha repetiu a fórmula de enfeixar nos seus personagens principais os atributos e posturas de classes e grupos de interesses. Assim, o poeta Paulo Martins (Jardel Filho) personifica a classe média intelectualizada, contraditória e vacilante, mas que acaba fazendo a opção revolucionária quando a crise política chega à fervura máxima.

Felipe Vieira (José Lewgoy) é o político populista a quem a esquerda se atrela, como se atrelou, p. ex., ao nacionalista Getúlio Vargas, ao trabalhista João Goulart e ao sindicalista Lula. Como na vida real, a opção oportunista de colocar-se a reboque de personagens que nada têm de marxistas ou anarquistas é punida com o fracasso: na hora da verdade, Vieira prefere não resistir ao golpe de estado, para evitar, alega, o derramamento do sangue dos inocentes. Ou seja, age exatamente como o poltrão Jango.

Felipe Vieira (José Lewgoy) é o político populista a quem a esquerda se atrela, como se atrelou, p. ex., ao nacionalista Getúlio Vargas, ao trabalhista João Goulart e ao sindicalista Lula. 

Tanto quanto na vida real, a opção oportunista de colocar-se a reboque de personagens que nada têm de marxistas ou anarquistas é punida com o fracasso: na hora da verdade, Vieira prefere não resistir ao golpe de estado, para evitar, alega, o derramamento do sangue dos inocentes. Ou seja, age exatamente como o poltrão Jango

Porfírio Diaz (Paulo Autran), claramente inspirado em Carlos Lacerda, é o direitista obcecado em conquistar o poder a qualquer preço. Mas, Glauber teve o bom gosto de não fazer dele uma mera caricatura, embora bata pesado em seus desvarios megalomaníacos e em sua amoralidade entreguista ("As nossas carnes, as vidas, tudo, vocês venderam tudo, as nossas esperanças, o nosso coração, o nosso amor, tudo! Vocês venderam tudo!", atira-lhe na cara o poeta).

Don Julio Fuentes (Paulo Gracindo) é o grande capitalista nacional a quem os comunistas convencem de que será tragado pelo imperialismo se não confrontar a multinacional que domina Eldorado. Mas, volta atrás quando recebe uma oferta vantajosa da vilã, conformando-se com a condição de subalterno bem recompensado.

Finalmente, Sara (Glauce Rocha) é a militante devotada mas impotente para mudar o destino de seu povo. Vai continuar lutando após a terrível derrota... mas, nada indica que será vitoriosa da próxima vez. 

E, se os comunistas de 1964 refugaram na hora da decisão (o que Glauber sarcasticamente ressaltou no filme, ao mostrá-los exibindo armas o tempo todo, sem contudo, jamais dispará-las...), coube à minha geração resgatar a moral da esquerda, provando ao cidadão comum que também éramos capazes de sangrar pela nossa causa. 
Ao preço de tantas vidas perdidas e de tantos sofrimentos dantescos, reconquistamos o respeito das ruas. 

Mas ele seria novamente perdido adiante, quando os nossos que chegaram ao poder nominal desonraram as pregações de décadas, prostrando-se à burguesia na ilusão de que esta lhes permitiria desempenhar indefinidamente o papel de gerenciadores do capitalismo brasileiro.

Acabaram sendo espremidos e jogados fora, sem que sequer os tanques tivessem de sair às ruas para os expelir; bastou um piparote do Congresso Nacional. 

Ou seja, o que em 1964 nos pareceu o opróbrio extremo foi amplamente superado pelo episódio de 2016, em que o governo do PT simplesmente caiu de podre, sem sequer esboçar resistência significativa, embora desta vez se pudesse tentá-la sem risco de vida. 

E a nós, os eternamente traídos, só restou desabafar, como o Paulo Martins das telas:
"Não é mais possível esta festa de medalhas, este feliz aparato de glórias, esta esperança dourada nos planaltos! Não é mais possível esta festa de bandeiras com guerra e Cristo na mesma posição! Assim não é possível, a impotência da fé, a ingenuidade da fé! 
Somos infinita, eternamente filhos das trevas, da inquisição e da conversão! E somos infinita e eternamente filhos do medo, da sangria no corpo do nosso irmão!
E não assumimos a nossa violência, não assumimos as nossas idéias, como o ódio dos bárbaros adormecidos que somos. Não assumimos o nosso passado, tolo, raquítico passado, de preguiças e de preces. Uma paisagem, um som sobre almas indolentes. Essas indolentes raças da servidão a Deus e aos senhores. Uma passiva fraqueza típica dos indolentes.
Não é possível acreditar que tudo isso seja verdade! Até quando suportaremos? Até quando, além da fé e da esperança, suportaremos? Até quando, além da paciência, do amor, suportaremos? Até quando além da inconsciência do medo, além da nossa infância e da nossa adolescência suportaremos?"
Recheado de belíssimas citações poéticas, dramático e tempestuoso como a realidade que escancara, com algumas atuações portentosas (Lewgoy, copiando trejeitos de Vargas, Jânio Quadros e Adhemar de Barros, está simplesmente magnífico!), é um filme obrigatório para qualquer esquerdista que ainda seja capaz de refletir sobre a História e sobre o papel que nela lhe cabe, ao invés de apenas seguir obedientemente a linha justa.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

VEJA A TRAGÉDIA DE 1964 EM "TERRA EM TRANSE", ENQUANTO ESPERA FAZEREM O FILME SOBRE A FARSA DE 2016.

Um dos melhores filmes políticos de todos os tempos e países, Terra em Transe (1967) é uma parábola perfeita sobre a quartelada de 1964, mas nem por isto válida somente para o Brasil.

Flagra uma realidade comum à maioria das nações do 3º mundo –ao qual, dizem, deixamos de pertencer em termos de pujança econômica, mas no qual permanecemos atolados até o pescoço quanto à distribuição de renda, à qualidade de vida e, mais do que tudo, em espírito, pois a alma brasileira continua pateticamente colonizada e submissa ao autoritarismo.

Glauber Rocha repetiu a fórmula de enfeixar nos seus personagens principais os atributos e posturas de classes e grupos de interesses. Assim, o poeta Paulo Martins (Jardel Filho) personifica a classe média intelectualizada, contraditória e vacilante, mas que acaba fazendo a opção revolucionária quando a crise política chega à fervura máxima.

Felipe Vieira (José Lewgoy) é o político populista a quem a esquerda se atrela, como se atrelou, p. ex., ao nacionalista Getúlio Vargas, ao trabalhista João Goulart e ao sindicalista Lula. Como na vida real, a opção oportunista de colocar-se a reboque de personagens que nada têm de marxistas ou anarquistas é punida com o fracasso: na hora da verdade, Vieira prefere não resistir ao golpe de estado, para evitar, alega, o derramamento do sangue dos inocentes. Ou seja, age exatamente como o poltrão Jango.

Porfírio Diaz (Paulo Autran), claramente inspirado em Carlos Lacerda, é o direitista obcecado em conquistar o poder a qualquer preço. Mas, Glauber teve o bom gosto de não fazer dele uma mera caricatura, embora bata pesado em seus desvarios megalomaníacos e em sua amoralidade entreguista ("As nossas carnes, as vidas, tudo, vocês venderam tudo, as nossas esperanças, o nosso coração, o nosso amor, tudo! Vocês venderam tudo!", atira-lhe na cara o poeta).

Don Julio Fuentes (Paulo Gracindo) é o grande capitalista nacional a quem os comunistas convencem de que será tragado pelo imperialismo se não confrontar a multinacional que domina Eldorado. Mas, volta atrás quando recebe uma oferta vantajosa da vilã, conformando-se com a condição de subalterno bem recompensado.

Finalmente, Sara (Glauce Rocha) é a militante devotada mas impotente para mudar o destino de seu povo. Vai continuar lutando após a terrível derrota... mas, nada indica que será vitoriosa da próxima vez. 

E, se os comunistas de 1964 refugaram na hora da decisão (o que Glauber sarcasticamente ressaltou no filme, ao mostrá-los exibindo armas o tempo todo, sem contudo, jamais dispará-las...), coube à minha geração resgatar a moral da esquerda, provando ao cidadão comum que também éramos capazes de sangrar pela nossa causa. 
Ao preço de tantas vidas perdidas e de tantos sofrimentos dantescos, reconquistamos o respeito das ruas. Mas ele seria novamente perdido adiante, quando os nossos que chegaram ao poder nominal desonraram as pregações de décadas, prostrando-se à burguesia na ilusão de que esta lhes permitiria desempenhar indefinidamente o papel de gerenciadores do capitalismo brasileiro.

Acabaram sendo usados e jogados fora, sem que sequer os tanques tivessem de sair às ruas para os expelir; bastou um piparote do Congresso Nacional. 

Ou seja, o que em 1964 nos pareceu o opróbrio extremo foi amplamente superado pelo episódio de 2016, em que o governo do PT simplesmente caiu de podre, sem sequer esboçar resistência significativa, embora desta vez se pudesse tentá-la sem risco de vida. 

E a nós, os eternamente traídos, só restou desabafar, como o Paulo Martins das telas:
"Não é mais possível esta festa de medalhas, este feliz aparato de glórias, esta esperança dourada nos planaltos! Não é mais possível esta festa de bandeiras com guerra e Cristo na mesma posição! Assim não é possível, a impotência da fé, a ingenuidade da fé!
Somos infinita, eternamente filhos das trevas, da inquisição e da conversão! E somos infinita e eternamente filhos do medo, da sangria no corpo do nosso irmão!
E não assumimos a nossa violência, não assumimos as nossas idéias, como o ódio dos bárbaros adormecidos que somos. Não assumimos o nosso passado, tolo, raquítico passado, de preguiças e de preces. Uma paisagem, um som sobre almas indolentes. Essas indolentes raças da servidão a Deus e aos senhores. Uma passiva fraqueza típica dos indolentes.
Não é possível acreditar que tudo isso seja verdade! Até quando suportaremos? Até quando, além da fé e da esperança, suportaremos? Até quando, além da paciência, do amor, suportaremos? Até quando além da inconsciência do medo, além da nossa infância e da nossa adolescência suportaremos?"
Recheado de belíssimas citações poéticas, dramático e tempestuoso como a realidade que flagra, com algumas atuações portentosas (Lewgoy, copiando trejeitos de Vargas, Jânio Quadros e Adhemar de Barros, está simplesmente magnífico!), é um filme obrigatório para qualquer esquerdista que ainda seja capaz de refletir sobre a História e sobre o papel que nela lhe cabe, ao invés de apenas seguir obedientemente a linha justa.
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terça-feira, 26 de novembro de 2013

EXPLOSIVO, DESMEDIDO, SUPERLATIVO: "TERRA EM TRANSE"

Um dos melhores filmes políticos de todos os tempos e países, Terra em Transe (1967) é uma parábola perfeita sobre a quartelada de 1964, mas nem por isto válida somente para o Brasil.

Flagra uma realidade comum à maioria das nações do 3º mundo -ao qual, dizem, deixamos de pertencer em termos de pujança econômica, mas no qual continuamos mergulhados até o pescoço quanto à distribuição de renda, à qualidade de vida e, mais do que tudo, em espírito, pois a alma brasileira continua pateticamente colonizada e submissa ao autoritarismo.

Glauber Rocha repetiu a fórmula de enfeixar nos seus personagens principais os atributos e posturas de classes e grupos de interesses. Assim, o poeta Paulo Martins (Jardel Filho) personifica a classe média intelectualizada, contraditória e vacilante, mas que acaba fazendo a opção revolucionária quando a crise política chega à fervura máxima.

Felipe Vieira (José Lewgoy) é o político populista a quem a esquerda se atrela, como se atrelou, p. ex., ao nacionalista Getúlio Vargas, ao trabalhista João Goulart e ao sindicalista Lula. Como na vida real, a opção oportunista de colocar-se a reboque de personagens que nada têm de marxistas ou anarquistas é punida com o fracasso: na hora da verdade, Vieira prefere não resistir ao golpe de estado, para evitar, alega, o derramamento do sangue dos inocentes. Ou seja, age exatamente como o poltrão Jango.

Porfírio Diaz (Paulo Autran), claramente inspirado em Carlos Lacerda, é o direitista obcecado em conquistar o poder a qualquer preço. Mas, Glauber teve o bom gosto de não fazer dele uma mera caricatura, embora bata pesado em seus desvarios megalomaníacos e em sua amoralidade entreguista ("As nossas carnes, as vidas, tudo, vocês venderam tudo, as nossas esperanças, o nosso coração, o nosso amor, tudo! Vocês venderam tudo!", atira-lhe na cara o poeta).

Don Julio Fuentes (Paulo Gracindo) é o grande capitalista nacional a quem os comunistas convencem de que será tragado pelo imperialismo se não confrontar a multinacional que domina Eldorado. Mas, volta atrás quando recebe uma oferta vantajosa da vilã, conformando-se com a condição de subalterno bem recompensado.

Finalmente, Sara (Glauce Rocha) é a militante devotada mas impotente para mudar o destino de seu povo. Vai continuar lutando após a terrível derrota... mas, nada indica que será vitoriosa da próxima vez. 

E, se os comunistas de 1964 exibiam armas o tempo todo mas acabaram não disparando um único tiro (como enfatiza Glauber, num primor de sarcasmo), coube à minha geração resgatar a moral da esquerda, provando ao cidadão comum que também éramos capazes de sangrar pela nossa causa. 

Ao preço de vidas e de sofrimentos dantescos, reconquistamos o respeito das ruas. Mas ele seria novamente perdido adiante, quando os nossos que chegaram ao poder desonraram as pregações de décadas. 

Recheado de belíssimas citações poéticas, dramático e tempestuoso como a realidade que flagra, com algumas atuações portentosas (Lewgoy, copiando trejeitos de Vargas, Jânio Quadros e Adhemar de Barros, está simplesmente magnífico!), é um filme obrigatório para qualquer esquerdista que ainda seja capaz de refletir sobre a História e sobre o papel que nela lhe cabe, ao invés de apenas seguir obedientemente a linha justa.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

30 ANOS SEM GLAUBER ROCHA, GLADIADOR DEFUNTO MAS INTACTO

Hoje (22/08) se completam 30 anos da morte do baiano Glauber Rocha, o maior cineasta brasileiro de todos os tempos.

Tudo nele era trepidante, tempestuoso. Depois de realizar um filme apenas promissor sobre misticismo e consciência social (Barravento, 1962), deu um salto incrível de qualidade em apenas um ano, obtendo consagração instantânea com Deus e o Diabo na Terra do Sol, parábola delirante sobre cangaceiros e fanáticos.

O espanto e a admiração foram tão intensos que poucos críticos perceberam se tratar de um filme um tanto desequilibrado: a primeira parte, em que o casal de camponeses  Manoel  (Geraldo Del Rey) e  Rosa  (Yoná Magalhães) ingressa no rebanho do   Santo Sebastião (ersatz de Antônio Conselheiro) é muito inferior à segunda, a da passagem de ambos pelo cangaço. E não só porque o ótimo Othon Bastos deu um banho de interpretação como  Corisco, enquanto Lídio Santos (Sebastião) era amadoresco e tinha carisma zero.

Aliás, o  Corisco  glauberiano foi o melhor cangaceiro que o cinema brasileiro criou, em mais de uma dezena de filmes. Um personagem contraditório e explosivo, ora se vendo como um instrumento de São Jorge ("o santo do povo"), ora barbarizando o sertão qual endemoniado, para vingar a morte de Lampião.  

Outro grande acerto de Glauber foi o contraponto de  Corisco: o jagunço  Antônio das Mortes  (o papel da vida do grandalhão Maurício do Valle).

Antônio  mata cangaceiros e beatos a soldo do latifúndio, mas acredita estar desimpedindo o caminho para a libertação do povo, pois este deverá travar sua grande cruzada "sem a cegueira de Deus [Sebastião] e do diabo [Corisco]" - motivo pelo qual ele liquida os dois.

É o conceito que encerra o filme: a morte de  Corisco  tira  Manoel  da órbita messiânica do Bem e do Mal. Em fuga, ele corre e o oceano parece vir ao seu encontro, realizando a profecia de  Sebastião: "o sertão vai virar mar e o mar virar sertão". É claro que Glauber tinha em mente os altos mares da revolução.

O que veio, entretanto, foi o golpe militar. E a imensa depressão causada pela derrota foi expressa/purgada na obra-prima seguinte de Glauber, Terra em Transe (1967), sobre o confronto entre o político populista  Felipe Vieira  (José Lewgoy) e o direitista  Porfirio Diaz  (Paulo Autran) num país fictício com todo o jeitão de Brasil, culminando numa quartelada que tem total apoio da empresa estrangeira dominante.

Entre os dois está colocado o poeta  Paulo Martins (Jardel Filho), representando uma intelectualidade oscilante e confusa, mas que, no momento da decisão, lança-se à luta contra o golpismo (o maquiavélico  Diaz,  evidentemente, foi inspirado no  corvo  Carlos Lacerda).

É uma contundente autocrítica da esquerda brasileira transposta para as telas. O que se discute, basicamente, são os erros cometidos pelo Partido Comunista e o apoio oportunista a um político que não era verdadeiramente revolucionário nem estava à altura do momento histórico. Quando  Vieira  evita resistir para que não seja derramado "o sangue das massas", é João Goulart que está falando pela boca dele.

E, de certa forma, trata-se de um filme premonitório: o poeta não aceita a perspectiva de viver debaixo das botas e provoca a própria morte, em nome do "triunfo da beleza e da justiça". Foi mais ou menos o que fizemos nos anos seguintes, ao lançarmo-nos numa luta impossível de ser vencida -- embora, claro, não nos movesse nenhuma propensão ao suicídio, mas sim a esperança de libertar nosso povo. Tínhamos  fé cega na justeza de nossos ideais, mas a faca amolada, quem a possuía era o inimigo...

O ciclo se fechou com O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1968), um filme feito com a consciência de que era iminente o confronto armado entre a esquerda e a ditadura.

Foi uma profissão de fé na revanche histórica dos humilhados e ofendidos.   

Antônio das Mortes  entra em parafuso, repensa o papel que vinha cumprindo e acaba se reposicionando na trincheira correta, ao lado de um professor ligeiramente inspirado no médico Che Guevara (Othon Bastos) e dos fantasmas do cangaço, de Canudos e de Palmares, todos numa santa união contra o coronelismo personificado por Jofre Soares.  Finalmente, São Jorge crava sua lança no dragão.

Fora das telas, entretanto, quem acabou vencendo foi a besta-fera. E Glauber, como o  Paulo Martins  de Terra em Transe, não reencontrou seu caminho, nem inspiração, em meio à pasmaceira e ao medo.

Fez filmes repetitivos e dispensáveis, até chegar ao fundo do poço: o caótico, no mau sentido, A idade da Terra (1980), tão sem rumo no espaço que o Glauber passou quase um ano tentando montá-lo, até que, por imposição da Embrafilme, entregou qualquer coisa para exibição num festival. Comentei, então, que podíamos entrar e sair no trecho que quiséssemos, dava no mesmo...

Chegou até a levar seu estilo nervoso, com câmara na mão, à TV, fazendo intervenções  criativas  num programa dominical do SBT. Só que, estando aquelas  ousadias  meio gastas, ele foi encarado mais como atração bizarra.

No Festival de Brasília de 1978, o curta-metragem estava começando quando alguém começou a gritar no escuro:
 - Aqui é o Glauber Rocha, falando em nome das aberturas democráticas [a "distensão lenta, gradual e progressiva" do ditador Geisel]. Vim para denunciar o maior dedo-duro da História do  Brasil, que é fulano [nominou o então presidente da Fundação Cultural do Distrito Federal].
Os espectadores o calaram com apupos e berros de "respeita o trabalho dos outros!". Foi embora furibundo.

No dia seguinte, ouvi o acusado. Ele disse que o problema do Glauber era apenas não ter recebido uma subvenção com a qual contava.

Telefonei também ao Glauber, pedindo-lhe uma entrevista. Ele marcou para o começo da tarde, no seu hotel... e decolou para o RJ na hora do almoço.

Mas, todos os que curtimos intensamente o sonho de 1968 ficamos fora do eixo naquela terrível década subsequente - uns mais, outros menos.

Prefiro recordar o Glauber que lavou a minha alma com os três filmes que, até hoje, melhor expressaram o transe brasileiro.

Cai como uma luva, para ele próprio, a estrofe de Mário Faustino que Glauber encaixou em Terra em transe, como um tributo ao seu personagem que também termina como poeta suicida:
"Não conseguiu firmar o nobre pacto
entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o facto
da vitória do caos sobre a vontade
augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura)"




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