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segunda-feira, 30 de maio de 2022

A CONJUGAÇÃO DAS CRISES DE DEMANDA E DE OFERTA PODE MATAR O CAPITALISMO

dalton rosado
A ESTAGFLAÇÃO AQUI E ALHURES
"Essa discussão de trazer a inflação para mais perto da meta e, eventualmente, a meta um pouco mais para baixo, parece firula teórica, mas não é. É um ingrediente para baixar as taxas de juros reais" (Joaquim Levy, o neoliberal de estimação da ex-presidente Dilma Rousseff)
.
Vivemos, no Brasil, uma crise de demanda de mercadorias e serviços, e não uma crise de oferta destas destes, pois: 
— há, ainda, muita mercadoria nas prateleiras dos supermercados; 
 há mãos ociosas de gente apta ao trabalho, mas que não encontra emprego por causa do desemprego estrutural; 
 há cada vez mais lojas fechadas (até porque delivery, entregas a domicílio de pedidos por aplicativos, está na ordem do dia); 
 há residências fechadas e aumentou o número de moradores de rua;
 há terras abundantes neste país de baixa densidade demográfica, mas há quem more em palafitas e abundam as favelas na meca do capitalismo brasileiro (o frio hoje está matando sem-teto em pleno Sul Maravilha!);
 é estável a produção de energia, uma vez que as chuvas intensas fizeram aumentar a produção de energia hidráulica, mas a demanda caiu e a conta de luz encareceu; 
 os postos de gasolina têm os seus tanques cheios e esperam novas altas do preço para manterem seus lucros intactos apesar de as vendas estarem caindo;
 com a pandemia aumentaram as doenças psíquicas e sequelas físicas, mas falta dinheiro para muitos e muitos brasileiros comprarem os medicamentos disponíveis nas drogarias e farmácias;
 o capital está desempregado por falta de sua capacidade de reprodução na tradicional fórmula D-M-D+, ao mesmo tempo em que os juros estão altos, o que evidencia o emperramento da máquina capitalista e sua anemia orgânica (mais um exemplo flagrante da contradição irresolúvel entre forma e conteúdo, geradora de efeitos especulativos concentradores de renda), etc. 

Mas o ministro Paulo Guedes garante que já saímos do inferno, enquanto outros países somente estariam entrando agora no ecossistema do capeta. Acredite quem quiser...   

A estagflação é o pior dos mundos no capitalismo, pois representa a contradição entre produção de mercadorias e consumo destas, decorrente de incapacidade de aquisição por falta de renda, ao mesmo tempo em que sobem os preços (não os valores) apesar da abundância de ofertas invalidando a tese capitalista da lei da oferta e da procura como regulação do mercado. 

Os efeitos colaterais na estagflação são enormes. Quando tal fenômeno é estrutural (ou seja, quando ocorre generalizadamente numa economia globalizada, como agora acontece), os mecanismos de salvação são escassos e os meios artificiais, como a emissão de mais moeda sem lastro, causam ainda mais inflação. 

Já não há possibilidade e confiabilidade de investimentos a juros altos por parte dos países ditos ricos (como ocorriam no passado, quando do ilusório milagre brasileiro de fôlego curto). Nossa economia está claudicante e a inflação acumulada no IPCA alcançou a marca de 12,13% nos 12 últimos meses.

Vemos hoje que os Estados Unidos, país detentor e emissor da moeda padrão internacional, o dólar, amarga uma pesada inflação acumulada nos 12 últimos meses de 8%, algo que não sucedia desde 1981.

Na União Europeia ocorre o mesmo fenômeno, com inflação acumulada de 7,4% nos últimos 12 meses, o que denuncia que na casa do padeiro está faltando meios de equalização de preços e de consumo, o que delimita a produção do pão. 
Não se produz o que não se vende, daí a perigosa (para o capitalismo e sua ordem ditatorial) conjugação da crise de demanda com uma crise de oferta; caso seja prolongada, tal crise representará o fim da linha para o sistema de exploração do homem pelo homem. Isto, vale dizer, parece já estar acontecendo!) 

Os efeitos colaterais da estagflação se espraiam pelo corpo capitalista inteiro, começando pela redução real (descontada a inflação) da arrecadação de impostos, o que resulta numa priorização do direcionamento das receitas fiscais para aquilo que é a função principal do Estado: manter o capitalismo vivo. Só que, aí, as demandas sociais vão para as calendas gregas e o povo sofre ainda mais. 

Decorrente da paralisia da economia, ou da sua redução drástica, vem a necessidade de um endividamento público com a venda de títulos. Com isto, aumenta a dívida e os juros desta, prenunciando um calote nos rentistas mundo afora e a quebra do sistema financeiro (que se configurará como uma hecatombe monetária sem precedentes). 

Por seu turno, tão grave quanto o aumento da dívida e dos juros desta, é a necessária emissão de moeda sem lastro (como último recurso de um doente terminal que se sustenta por aparelhos), o que provoca ainda mais inflação, numa espiral de problemas econômico-financeiros próprios ao atingimento do limite interno de um modelo de relação social que encontrou o seu ocaso histórico, obrigando-nos a buscar soluções alternativas fora da sua lógica subtrativa e segregacionista. 

Mas, é à população que a estagflação mostra a sua mais cruel carantonha.

Sem alternativa de sobrevivência dentro dos parâmetros que lhe são oferecidos (acordar, trabalhar, ganhar dinheiro, pagar impostos, enriquecer os detentores e administradores do capital promovendo sua acumulação autotélica) por conta de lhe faltarem condições para seguir o script que lhe foi desenhado, o ser humano pode tender perigosamente para a barbárie.

Cabe a nós desatarmos este nó górdio, como fez Alexandre Magno ao cortá-lo com sua espada. 

Afinal, quando não se tem alternativa de solução da equação de um problema por falta de pressuposto lógico para a sua solução, a alternativa é denunciar a incorreção do enunciado e a impossibilidade de solução dentro dos parâmetros oferecidos. 

Há que se raciocinar fora da caixa e colocar o ovo de pé, mesmo quebrando a sua base, como fez Cristóvão Colombo. (por Dalton Rosado)
Dalton detona a lógica assassina do capitalismo em prosa e versos

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

A ECONOMIA DE PRIVILÉGIOS MANTÉM O BRASIL ESTAGNADO; NEM BOZO NEM LULA VÃO IMPOR LIMITES AOS PRIVILEGIADOS

william waack
FLAGELO CONVERGENTE
O
s seguidores de Lula e os de Bolsonaro detestam que seus respectivos chefes sejam comparados entre si. 

Sim, são gritantes as diferenças, mas ambos convergem em ponto crucial: os líderes das pesquisas não apresentaram até aqui um conjunto de ideias coordenado de como tirar o País da estagnação.

Cada um ajudou a aprofundar aquilo que o professor e economista da FGV Fernando de Holanda Barbosa intitulou, em recente publicação, de flagelo da economia de privilégios

Os privilegiados, segundo o autor, são:
— empresários obtendo subsídios;
— tratamento fiscal diferenciado; 
— conjuntos de trabalhadores com tratamentos especiais;
— funcionários dos três Poderes com salários acima do setor privado, além de aposentadorias e pensões também especiais.
O
conflito social entre enormes grupos de privilegiados e o resto produz as cíclicas crises fiscais das quais a atual está longe ainda de ter sido debelada. E ela precisa ser resolvida logo, sob o risco de tirar qualquer perspectiva de futuro para o País. 

A manutenção do sistema de privilégios é também o pano de fundo para se entender o embate político no Brasil que, no extremo, não passa de disputa cada vez mais acirrada (pois os cofres quebraram) por extrair renda do Estado. 

A esfera da política, em especial a do Legislativo, reflete essas escolhas pelo voto, e sustenta o cenário macro no qual falta investimento pois falta poupança e falta poupança pois não há uma escolha política nesse sentido.

A convergência entre os personagens políticos Lula e Bolsonaro se dá, portanto, no fato de representarem a manutenção do status quo – algo que enfurece as respectivas claques, especialmente a acadêmica, mas que todo dia encontra exemplos no noticiário sobre a facilidade com que os grupos de privilegiados pulam de um lado para o outro do espectro político.

A rigor, as próximas eleições deveriam ser vistas como o verdadeiro choque entre as forças empenhadas em mover o País para fora do flagelo dos privilégios e o
sistema, que dá sinais de estar confortável com Lula ou Bolsonaro (o centrão vai mandar, tanto faz com qual dos dois seja). 

Mas essas forças, chamadas de 3ª via, estão desarticuladas, ainda que tenham cabeças brilhantes, think tanks [uma tradução aproximada desta expressão é fábricas de ideias] excelentes e diagnósticos precisos.

É necessário reconhecer que não se trata apenas de sucesso eleitoral em prazo historicamente muito curto. O problema maior é enfrentar a situação de um país que dá preferência a consumo em vez de poupança, e está desprovido de uma noção geral de justiça social e combate à desigualdade. (por William Waack)
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