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sábado, 27 de maio de 2023

O DESAGRAVO ESPANHOL A VINI JR. MUDARÁ ALGO NOS ESTÁDIOS? XAVI HERNÁNDEZ CRÊ NUMA MELHORA. PEP GUARDIOLA DUVIDA

"La Liga deveria aprender com a Premier League. Aqui [na Inglaterra] eles são muitos rígidos com isso, sabem o que precisa ser feito. 

O racismo é um problema do mundo inteiro, não de um lugar específico. Esta pode ser uma grande oportunidade para a Espanha dar um passo à frente. 

Mas, conhecendo como as coisas funcionam lá [na Espanha], não estou otimista. Vamos torcer para que a Justiça faça o que é certo [...] Mas, permita-me, isso não vai mudar nada na Espanha..." (Joseph Pep Guardiola, o melhor técnico do mundo neste século, tendo treinado o Barcelona entre 2007 e 2012, se transferido para o Bayern de Munique em 2013 e para o Manchester City em 2016)

"
Eu discordo [de Pep Guardiola]. Acho que é uma questão educacional. Você tem que educar as pessoas. O insulto não é normal e você tem que mudar as coisas" (Xavi Hernández, que foi meio-campista titular do Barcelona entre 1998 e 2015, jogador e depois treinador do All-Sadd do Catar de 2015 e 2021, tendo então voltado para a Espanha como técnico do Barcelona)  

Duas opiniões pra lá de respeitáveis no planeta bola
— a do técnico que revolucionou o futebol mundial e 
— a de um integrante daquele fantástico meio-de-campo com Messi e Iniesta, chamado para reconstruir o Barcelona depois de uma terrível crise financeira que arrastou consigo o time de futebol. 

Nesta sua nova fase, agora no banco de técnico, Xavi acaba de conquistar o primeiro título realmente importante do Barça desde sua debacle, o campeonato espanhol de 2022/2023.

Minha opinião? É a de que cada um tem um tanto de razão. 

O fator esquecido por quase todos os comentaristas esportivos é o de que não são  necessariamente racistas os torcedores que vaiam Vinícius Jr. quando seus times recebem a visita do Real Madrid.
Uma parte deles  decerto quer apenas desestabilizar emocionalmente o principal adversário, ao berrar ou gesticulando o insulto que mais possa servir para tirar o craque do sério. Com este tipo de torcedor, um incremento da educação pode, sim, funcionar.

Mas está certo o Guardiola quanto a existirem racistas/fascistas empedernidos na Espanha, que não vão mudar de jeito nenhum. Afinal, o sanguinário ditador Francisco Franco não permaneceu no poder de 1936 a 1975 apenas à custa do temor que suas forças repressivas inspiravam. Uma parte da população, reacionária e extremadamente católica, concordava com ele.

E são essas viúvas do Franco devem estar puxando as vaias e gritaria contra o Vini. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

VIROU MODA NA OPUS DEI USAR MEIAS PRETAS COM BOLINHAS BRANCAS?

Estas são as do Alckmin, mas...
rui martins
UM VICE DE MEIAS MEDIDAS
Seria falta de assunto ou atração pelo supérfluo?

Refiro-me à publicação pela imprensa de fotos (que viralizaram nas redes sociais, seguidas de comentários anódinos e reflexões diversas sobre tendências da moda masculina na televisão) mostrando as inusitadas meias usadas pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, logo depois das eleições?

Todo mundo sabia o significado do L feito com os dedos das mãos durante a campanha eleitoral. Mas, muitos se perguntavam, o que queriam dizer os pés de Alckmin, vestidos com meias pretas mostrando estampas de bolinhas ou poás brancas? 

Ninguém se interessou pelos sapatos mocassim de couro preto, imagina-se de luxo. O enfoque era o par de meias, como se elas tivessem uma linguagem muda cifrada, exigindo interpretação.

Teria sido mais um sinal da volubilidade de nossa imprensa, acusada de ter sempre incentivado o surgimento de mitos, como foi no passado Jânio, o homem da vassoura e suas forças ocultas; e, nos nossos dias, Bolsonaro, o homem-mito do palavreado chulo e da fraude nas urnas, empunhando um simulacro de metralhadora? 

Ou existe em nós mesmos, leitores e eleitores, tal tendência para correr atrás da novidade, do que sai do comum, mesmo que seja por um tempo fugaz? Se não houvesse um conteúdo político, o culto a Neymar substituído pelo de Richarlison, talvez efêmero, seria um exemplo.
...chargistas sugerem para o
Sr. Opus Dei este outro visual.



Mas voltemos às extremidades inferiores do vice-presidente. Teriam sido essas meias alckmistas as primeiras a despertarem o interesse da imprensa? 

Não, uma rápida busca nos mostra haver mesmo livros sobre a importância das meias, esses acessórios guardados discretamente nas gavetas do guarda-roupas, dentro dos sapatos após uso ou espalhadas pelo quarto de gente desordenada. 

O mais recente é em francês e tem um título importante, Pequena Filosofia sobre as Meias, escrito por um sociólogo Jean Claude Kaufmann, bom presente de Natal que as esposas orgulhosas dos pés de seus maridos poderiam lhes oferecer (junto com um par de meias, é claro!)...

Bem antes das fotos das meias de Alckmin, há quatro anos os jornais estrangeiros, a começar pelos canadenses, publicaram os pés do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, com meias azuis nas quais nadavam discretos patinhos amarelos. 

A foto dos pés de Trudeau dentro de sapatos pretos de laços tinha como fundo um cartaz azul do Fórum Econômico de Davos, na Suíça, no qual se lia o tema Construir um futuro comum num mundo dividido. Haveria uma mensagem subliminar nas meias do dirigente canadense? Neste caso, quem seriam os patos?

Outro político cujas meias chamavam atenção, foi o francês de origem armênia, Édouard Balladur, nomeado primeiro-ministro (de 1993 até 1995) por François Mitterrand, numa espécie de coabitação da esquerda com a direita, depois da vitória da direita nas legislativas francesas. Aqui uma coincidência: Balladur era um homem de direita no governo socialista de Mitterrand, assim como Geraldo Alckmin no de Lula .
Édouard Balladur até
que ficou elegante

Porém, mesmo sendo de direita, Balladur usava meias vermelhas, símbolo gritante de uma esquerda mais radical. Ora, os comunistas e socialistas não têm a exclusividade do vermelho. Nisto o gado bolsonarista também se engana ao clamar
nossa pátria nunca será vermelha!, porque a cor dos republicanos norte-americanos, apoiadores do detestável Donald Trump, é vermelha.

Allan dos Santos, refugiado ilegal nos Estados Unidos agora sem passaporte brasileiro, famoso entre os evangélicos bolsonaristas e execrado pelos antigolpistas por ter xingado ou incitado xingamentos contra ministros do STF nos EUA, terá de adotar o vermelho republicano, se conseguir a nacionalidade de Trump. 

Bom, isso não implicará o uso de meias vermelhas. Quem usa obrigatórias meias longas vermelhas dos pés ao alto das pernas são os cardeais do Vaticano (as meias deles são consideradas aristocráticas).

E o povo, que meias usa?  Durante muito tempo, usavam-se meias brancas, hoje consideradas o suprassumo do mau gosto. 

Porém, nestes últimos anos, usar meias nos pés, sejam brancas, pretas com bolinhas brancas, azuis com patinhos ou vermelhas virou coisa de rico, mesmo porque havaianas dispensam meias. (por Rui Martins)
TOQUE DO EDITOR Nunca deixarei de estarrecer-me com a seletividade da memória da imprensa e das redes sociais ditas progressistas! Agora que o Alckmin virou escudeiro do Lula, recebe tratamento afável, inclusive com a levantada de bola que foi este súbito interesse pelas meias do direitista outrora ridicularizado como picolé de chuchu.
De que cor seria a meia dele em 2012?

Tudo bem que, residindo na distante Suíça, o nosso bom Rui não perceba o quanto chocou nossa esquerda autêntica (aquela que não desbota nem se verga a conveniências eleitoreiras) a atual comunhão de interesses entre petistas e tucanos, após décadas de hostilização mútua. 

Ou como nos envergonha ver o responsável pelo massacre do Pinheirinho alçado a vice-presidente, podendo aproveitar qualquer oportunidade para substituir Lula e colocar o Brasil à mercê do ideário da Opus Dei, como esteve a Espanha durante a ditadura de Francisco Franco.

De resto, pegando carona no ótimo parágrafo final do artigo do Rui, faço questão de ressaltar: os expulsos do Pinheirinho eram exatamente coitadezas que nem meias usavam, obrigados pela penúria a limitarem-se às sandálias havaianas. (por Celso Lungaretti)    

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

NOVA DIVISÃO DE FUNÇÕES: AO CENTRÃO COUBE A FAIXA PRESIDENCIAL E O BOZO USARÁ OS GUIZOS DE BOBO DA CORTE

ricardo kotscho
PODERES DISCUTEM O QUE FAZER COM O
PRESIDENTE: JAIR BOLSONARO É UM ESTORVO
A
situação que estamos vivendo faz lembrar aquelas reuniões familiares de domingo, quando se discute o que fazer com um parente problemático  se é o caso de interditá-lo, interná-lo num asilo ou num hospital, levá-lo para uma fazenda distante, qualquer coisa para que o estorvo pare de incomodar e prejudicar os outros. 

Estorvo, segundo os dicionários, é aquilo que impede, embaraça a realização ou desenvolvimento de algo, um obstáculo. 

O caso é mais grave quando esse parente é o presidente da República, que pode prejudicar um país inteiro. 

Nos últimos dias, representantes dos três Poderes têm feito seguidas reuniões para discutir o que fazer com o presidente Bolsonaro. 

Pelos relatos publicados na imprensa, estuda-se uma solução sem tirá-lo do cargo, o que poderia ser traumático, mas limitando suas ações ao mínimo necessário. 

O presidente do Senado e o chefe da Casa Civil tentam convencer o presidente do STF a retomar a ideia de promover uma reunião com os chefes dos três Poderes para estabelecer um pacto de convivência e assim evitar novas crises. 

Enquanto isso, o presidente passa a maior parte do seu tempo visitando instalações militares e templos, onde pede orações, para enfrentar a inflação e o desemprego galopantes, com o dólar subindo e a Bolsa caindo. 
O temido mercado também já está tirando o time de campo.

Responsável por encontrar soluções menos místicas, não demorou para o ministro da Economia, o fracassado Paulo Guedes, responsabilizar o ex-presidente Lula pelo nervosismo do mercado e o temor dos investidores, porque o petista tem a ousadia de liderar todas as pesquisas presidenciais, cada vez aumentando mais a sua vantagem sobre Bolsonaro. 

Todos eles sabem que é impossível controlar o presidente, a começar pelos generais palacianos, que o estimulam a fazer mais viagens pelo país, e assim criar menos problemas em Brasília. 

Parece que conseguiram pelo menos demovê-lo da ideia de entregar pessoalmente ao presidente ao Senado o pedido de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. 

Só se espera que Bolsonaro não convoque um novo desfile de tanques para um oficial fardado fazer esta entrega a Rodrigo Pacheco, o passador de pano oficial da República. Mas até ele já está perdendo a paciência com o presidente que insiste em atacar o STF. 

Esta semana, Pacheco alertou Bolsonaro publicamente que a discussão do impeachment de ministros do Supremo "não é recomendável no momento". A interlocutores, segundo a Folha de S. Paulo, o senador disse que "ações incendiárias dificultarão ainda mais a vida do Planalto no Parlamento". 

O problema é que o presidente busca exatamente o contrário: provocar cada vez mais conflitos para agradar à sua base enfurecida,, que vem minguando, pesquisa a pesquisa. O novo levantamento do PoderData, divulgado hoje, mostra que a rejeição a Bolsonaro subiu para 64%. Só 28% ainda o apoiam. 

"Bolsonaro está perdidinho", constatou o sábio cacique Gilberto Kassab, dono do PSD, ao final de uma reunião da "terceira via", na quarta-feira. 

Quando se sentia nessa situação periclitante, o presidente João Figueiredo, último dos generais da ditadura militar, ameaçava "chamar o Pires" (Valdir Pires, então ministro do Exército). Figueiredo se arrastou até o final do mandato, não chegou a chamar o Pires, mas deixou o Palácio do Planalto pela porta dos fundos. 

Hoje, o capitão Bolsonaro não precisa nem chamar o general Braga, atual ministro da Defesa, que está sempre de prontidão para defender o presidente, em qualquer situação. 

Ninguém mais sabe o que fazer com o estorvo do presidente que, fora da realidade, só pensa na reeleição. 

Me fez lembrar o generalíssimo Franco, aquele da guerra civil espanhola. Quando já estava nas últimas, ao aparecer na sacada do palácio e ver a multidão acenando lenços brancos, perguntou: "Para onde estão indo todos?" 

Não quero ser pessimista, mas, pelo andar da carruagem, estamos todos indo para um buraco sem fundo. 

Vida que segue. 

Agora sem a bandeira do voto impresso, o presidente precisa inventar outra. (por Ricardo Kotscho)
O presidente pediu, o blog atende: "Antes que eu volte a ser do baixo
clero... ôps, quer dizer, "Antes que eu volte  a ser
nada", na voz de Leci Brandão

sábado, 24 de julho de 2021

QUAL A CANÇÃO MAIS CONDIZENTE COM UMA FOTO NA QUAL GENERAL E MINISTROS BATEM CONTINÊNCIA PARA CAPITÃO PINEL?

A
 Folha de S. Paulo ofereceu a seus leitores a possibilidade de sugerirem legendas para esta ridícula imagem do general Hamilton Mourão e ministros civis batendo continência para um capitão com miolo mole que o Exército expeliu de suas fileiras por vários atos de indisciplina e pelo planejamento de atentados terroristas (tanto que um dos generais ditadores o qualificou, com toda razão, de mau militar). E agora está convidando os leitores a votarem na preferida.

Como ex-crítico de música (no jornalismo fiz de tudo um pouco...),  pensei que ficaria melhor uma canção que fosse condizente com tal foto de puxa-saquismo explícito a um genocida. Talvez porque já tivesse uma predileta: Campanades a morts, do imprescindível compositor e cantor catalão Lluís Llach, sobre o assassinato pelas forças franquistas de cinco grevistas em 1976, no País Basco. Seus gritos de assassinos! no meio da música nos fazem estremecer até a alma.

Os leitores podem sugerir outras canções, que as publicaremos à medida do possível e dependendo de as encontrarmos disponibilizadas no Youtube. Mãos à obra! (por Celso Lungaretti)  

quarta-feira, 1 de julho de 2020

IMPERDÍVEL: O BRASIL ESTARÁ COMEÇANDO A COLOCAR JAIR BOLSONARO DE JOELHOS?

Às vezes, a luz chega antes do amanhecer. 

Com Bolsonaro o Brasil começou a entrar no túnel escuro das ameaças à democracia. De repente, quase num passe de mágica, o presidente que era como um novo ditador, esmurrando a cada instante os valores da democracia, zombando dela, parece ter se convertido num pacífico Francisco de Assis.

Cálculo? Medo? Cansado de ser encurralado dentro e fora do país? Não importa. A verdade é que os presságios que se adensavam sobre a morte da democracia parecem ter se dissipado por um momento. 

Bolsonaro, pela primeira vez, fala de diálogo, de reconciliação e defende, assustem-se, a democracia.

Ainda não sabemos se essa aparente conversão de Bolsonaro será apenas um parêntese para recuperar forças e voltar à carga com suas armas de morte. Uma coisa é certa. Bolsonaro, neste momento, se viu de repente posto duplamente de joelhos:
— pelos militares, que parecem ter conseguido refrear seus ímpetos golpistas ameaçando sair do governo e deixá-lo sozinho; e
 pela importante pesquisa do Datafolha, segundo a qual 75% dos brasileiros apostam hoje na democracia, enquanto esmagadores 91% consideram a política das fake news, tão queridas, usadas e abusadas pelas hostes de Bolsonaro, como contrárias e ofensivas à democracia.

Revelam também o desejo de derrotar o autoritarismo do presidente os diferentes e importantes movimentos a favor da democracia que, na linha das Diretas Já, estão aparecendo entre pessoas de todas as categorias culturais e sociais.

E a isso se une, ainda, o medo de Bolsonaro dos fantasmas que assombram e ameaçam toda a sua família, desde o assassinato de Marielle até a recente prisão de Queiroz, aquele que guarda tantos segredos que devem estar tirando o seu sono.

Ao que parece, Bolsonaro teria confidenciado recentemente a alguns amigos que estava começando a se cansar de tantas brigas. Não sabemos se se trata de cansaço ou de medo. Dá na mesma. 

Não acredito realmente numa conversão de um presidente incapaz de arrependimentos, pois seus delírios de autoritarismo e suas nostalgias de velhas ditaduras e práticas abomináveis de tortura ainda estão vivos nele. 

O importante é que parece que os astros estão se unindo para deter o braço suicida de suas loucuras de rupturas democráticas e que está pedindo diálogo até mesmo a seu inimigo mortal, o Supremo Tribunal Federal.

Os movimentos de resistência à barbárie e a união de todas as forças democráticas contra obscurantismos políticos, culturais e sociais foram muitas vezes vitoriosos na conturbada história da humanidade. E com todos os horrores e ameaças de hoje à democracia, o mundo está melhor do que ontem. 
É mentira o dito de que os tempos passados eram melhores. Pelo contrário, sempre foram piores do que hoje, embora nos custe admitir isso. 

Se não, digam o que eram os direitos das mulheres apenas 100 anos atrás. O que era a defesa dos direitos humanos, as guerras que assolavam a Europa, a miséria da maior parte do mundo, a pobreza da medicina e as mortes por fome e desnutrição.

Se o mundo de hoje ainda nos horroriza, é porque perdemos a memória do que foi a história. Isso não justifica a pobreza, a violência nem as violações dos direitos humanos ainda vivos em tantos lugares do mundo. 

Mas, na sua totalidade, o mundo é hoje, como nos lembram cientistas e sociólogos, mil vezes mais habitável do que no passado.

É verdade que a humanidade sempre caminhou aos tropeções entre luzes e trevas, mas nunca houve uma consciência maior do que hoje em favor das liberdades e dos direitos humanos. Não estamos no céu, mas também não estamos no inferno que um dia foi a Humanidade.

Tomara que o novo pesadelo que vive o Brasil, de ser governado por um presidente com nostalgia de um passado de horrores que queremos esquecer, acabe logo, e que este país possa retomar o caminho de paz que havia conquistado e que era aplaudido pelos países mais avançados. 

Tomara que os jovens brasileiros que não conheceram a barbárie das ditaduras, que no Brasil são milhões e que hoje apostam na democracia, sejam o novo fermento de esperança contra o obscurantismo em que o país tinha começado a entrar.

Demasiado otimista? Talvez, mas minha idade [completará 88 anos neste mês] me permite sonhar que meus netos venham a desfrutar o Brasil que merecem e que ninguém tem o direito de lhes roubar. 

Deixem-me sonhar uma vez com as estrelas. Vivi quando criança uma terrível guerra civil [a espanhola, entre 1936 e 1939] depois uma cruel ditadura de 40 anos [a de Franco]

Deixem-me sonhar para as crianças e jovens brasileiros o que a vida me negou. (por Juan Arias, jornalista espanhol que desde 1999 mora e trabalha no Brasil, como correspondente do jornal El Pais)

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

PRIMEIROS ANÚNCIOS DO NOVO GOVERNO VÃO MUITO ALÉM DA CAPACIDADE DE UM BOLSONARO. QUEM ESTÁ POR TRÁS DELE?

Moro é a Lava-Jato no governo
vinícius torres freire
SUPERMINISTROS MAIORES
DO QUE O GOVERNO
Jair Bolsonaro fez grandes lances em seus poucos dias de presidente eleito. Considerem:

1) deu impulso e poder a dois movimentos maiores do que ele, o projeto de encolhimento do Estado e a revolta contra a corrupção, nomeando Paulo Guedes e Sergio Moro;

2) colocou militares em postos de guarda e alerta no governo;

3) até agora não negociou coalizão com o Congresso por meio de compartilhamento de poder no ministério.

Guedes e Moro terão extenso poder sobre a máquina pública, mas a influência dos dois no destino do governo vai além. São representantes de uma reivindicação maior de mudanças.

Um clichê da política diz que um governante não deve nomear ninguém que não possa demitir. Em caso de sucesso, Bolsonaro dificilmente terá motivo para demitir seus superministros, mas contaria com força política para fazê-lo. Em caso de fracasso, a demissão será irrelevante, pois seu governo terá ido para o fundo do vinagre ou coisa pior.

Guedes representa o projeto de desmanche do Estado que foi formalizado em 2015, no plano de deposição de Dilma Rousseff, e implementado a partir de 2016.

A estabilidade do governo em 2019 (volta de algum crescimento) depende do sucesso parlamentar e do sequenciamento preciso dessas reformas, que não são remendo. 
Guedes: desmanche do Estado

Trata-se de um plano histórico de mudança, que tem apoio de parte da elite econômica e de várias classes médias. 

Caso falhe o plano inicial de Guedes, haverá algum tumulto financeiro. 

Caso o Congresso barre a mudança ou Bolsonaro desista dela, o tumulto será enorme, e o presidente perderá o apoio de elites a quem se aliou, não faz muito mais que um ano.

Não seria apenas a derrota de ambições grandes, mas o fracasso de uma cirurgia de um país à beira do colapso.

Moro leva a Lava Jato para dentro do governo. Tem a tarefa de repetir na segurança pública os resultados do ataque à corrupção.

Além disso, o juiz-ministro é uma tentativa de sinalizar linha dura para o mundo político e compromisso constitucional–símbolo.

Tanto faz o que se pense da atuação de Moro como juiz; sim, o liberalismo de Guedes, o lava-jatismo e a lei podem vir a ser atropelados por Bolsonaro. Importa reter agora que o presidente eleito nomeou dois comandantes superpoderosos para dar satisfação a revoltas sociais significativas e isso é o núcleo do governo.

O futuro ministro da Defesa, o general Augusto Heleno, é o grande conselheiro de Bolsonaro, uma espécie de ministro-chefe da Casa Militar, um pilar político. Nos Transportes, centro habitual de corrupção, haverá outro general, outro alerta. O vice-presidente, general Hamilton Mourão, deve ter algum poder na infraestrutura e no relacionamento entre governo e empresas.
"Tudo pode afundar assim que sair do porto"

A ambição de mudança enfrentará muita resistência. Trata-se de revisar relações socioeconômicas essenciais: seguridade social e poupança (caso da Previdência), protecionismos vários para empresas, vinculações orçamentárias (pactos de distribuição de recursos que não se limitam a saúde e educação), privilégios tributários, acordos com servidores, apoio da banca estatal.

A relação com o Congresso e a superpasta da Justiça ameaçam o modo de lidar com a distribuição de recursos políticos e o business as usual na relação de Parlamento, empresas e governo.

Isto tudo é plano de navegação. Tudo pode afundar assim que sair do porto. Para analisar a travessia ou o naufrágio, convém prestar atenção.
.
Observações do editor: o artigo acima do Vinícius Torre Freire é, de todos que tenho lido desde o domingo maldito, o que mais ajuda a entendermos o governo que se esboça. Mas, não responde a uma dúvida que a nomeação de Sérgio Moro suscitou em mim: quem, afinal, bolou toda esse ambicioso projeto de arquitetura política?
Quem se oculta por trás da cortina?

Bolsonaro, o presidenciável que protagonizou uma vexatória fuga dos debates eleitorais por não estar à altura dos adversários e foi levantar em pleno Jornal Nacional o assunto de sua antiga funcionária-fantasma, insignificante e que necessariamente lhe seria adverso? Nem a pau, Juvenal! 

O Opus Dei, como no caso de Francisco Franco? Os Chicago Boys que pensavam por Augusto Pinochet? Um único estrategista hábil como Golbery do Couto Silva, que conduziu o ditador Ernesto Geisel à abertura? 

E se nota claramente que as campanhas eleitorais com novas ferramentas e procedimentos manipulatórios do Brexit, de Trump e de Bolsonaro são vasos comunicantes. Há uma coordenação ultradireitista em âmbito internacional que ainda não devassamos nem dimensionamos a contento. Precisamos fazê-lo o quanto antes! (por Celso Lungaretti) 

sábado, 18 de novembro de 2017

IVES GANDRA MARTINS TROMBETEIA QUE NÃO É NEGRO, GAY OU ÍNDIO. PERTENCERÁ ELE AO OPUS DEI OU À KU KLUX KLAN?

Quando não está ajudando os podres de ricos a pagarem menos impostos, o advogado tributarista Ives Gandra Martins preenche seu tempo negando ser isto ou aquilo. 

Esquisito, não? Eu, que nunca tive o menor interesse no que ele é, fico tentando imaginar quem se daria ao trabalho de ler suas mal tecladas linhas só para ficar sabendo... o que ele não é! Parece criança tentando chamar atenção.

O certo é que, no artigo que ele escreveu e foi publicado num blog da comunidade luso-brasileira (vide aqui), suas negações vieram trombeteadas até no quilométrico título: Não sou nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem guerrilheiro, nem invasor de terras... etc.

O que ele prefere destacar a seu respeito está no primeiro parágrafo: "branco, honesto, professor, advogado, contribuinte, eleitor, hétero". Só que o Gandra alinhavou características comuns a uma imensidão de brasileiros, o que pouco nos serve para formarmos uma imagem mais definida a seu respeito.

Como sou um homem caridoso, perguntei-me como o poderia ajudar. Aí uma busca virtual me revelou que ele pertence a um universo bem menor e muito mais revelador: Gandra é o principal porta-voz do Opus Dei, como se constata, p. ex., no documentário da Rede Viva que coloquei no pé deste texto.

Fazer parte de uma fechadíssima sociedade secreta (dizem até que ele seria o principal dirigente do Opus Dei no Brasil): eis um dado mais substancioso para ficarmos sabendo quem realmente é Ives Gandra Martins.

Temo, contudo, que não sejam muitos os leitores conhecedores do próprio Opus Dei. Vale a pena, para elucidá-los, reproduzir alguns trechos de um longo artigo (vide aqui) do competente jornalista Altamiro Borges:
"O Opus Dei (do latim, Obra de Deus) foi fundado em outubro de 1928, na Espanha, pelo padre Josemaría Escrivá. (...) Preocupado com o avanço das esquerdas no país, este excêntrico religioso, visto pelos amigos de batina como um 'fanático e doente mental', decidiu montar uma organização ultrassecreta para interferir nos rumos da Espanha... 
...Reconhecida oficialmente pelo Vaticano em 1947, esta seita logo se tornou um contraponto ao avanço das ideias progressistas na Igreja. Em 1962, o papa João 23 convocou o Concílio Vaticano II, que marca uma viragem na postura da Igreja, aproximando-a dos anseios populares. No seu fanatismo, Escrivá não acatou a mudança. Criticou o fim da missa rezada em latim, com os padres de costas para os fiéis, e a abolição do Index Librorum Prohibitorum, dogma obscurantista do século 16 que listava livros perigosos e proibia sua leitura pelos fiéis...  
...Josemaría Escrivá faleceu em 1975. Mas o Opus Dei se manteve e adquiriu maior projeção com a guinada direitista do Vaticano a partir da nomeação do papa polonês João Paulo II...
...Além do rigoroso fundamentalismo religioso, o Opus Dei sempre se alinhou aos setores mais direitistas e fascistas. 
Durante a Guerra Civil Espanhola, deflagrada em 1936, Escrivá deu ostensivo apoio ao general golpista Francisco Franco contra o governo republicano legitimamente eleito. Temendo represálias, ele se asilou na embaixada de Honduras (...), antes de fugir para a França. Só retornou à Espanha após a vitória dos golpistas, firmando então sólidos laços com o ditador sanguinário Francisco Franco... 
...Há também fortes indícios de que Josemaría Escrivá nutria simpatias por Adolf Hitler e pelo nazismo. De forma simulada, advogava as ideias racistas e defendia a violência. Na máxima 367 do livro Caminho, ele afirma que seus fiéis 'são belos e inteligentes' e devem olhar os demais como 'inferiores e animais'. Na máxima 643, ensina que a meta 'é ocupar cargos e ser um movimento de domínio mundial'...  
...Pouco antes de morrer, Josemaría Escrivá realizou uma 'peregrinação' pela América Latina. (...) Na região, o Opus Dei apoiou abertamente várias ditaduras.  No Chile, participou do regime terrorista de Augusto Pinochet. O principal ideólogo do ditador, Jaime Guzmá, era membro ativo da seita (...). 
Na Argentina, numerários foram nomeados ministros da ditadura. No Peru, a seita deu sustentação ao corrupto e autoritário Alberto Fujimori. 
Igreja Católica foi cúmplice ou omissa face ao nazismo 
No México, ajudou a eleger como presidente seu antigo aliado, Miguel de La Madri, que extinguiu a secular separação entre o Estado e a Igreja Católica"
Resumindo: não passam de herdeiros de Torquemada pregando um retrocesso ao catolicismo medieval e tudo fazendo para tanger governos ao fascismo, que priorizam a infiltração na grande imprensa e seu controle político-ideológico como meios para atingirem seus objetivos. Os quais, para aqueles (meu caso) a quem Deus foi apresentado como um Deus de amor e não do ódio, parecem muito mais ser obras do diabo

Que tipo de homem é capaz de bater no peito, orgulhando-se de não ser "negro, nem homossexual, nem índio"?! Quem é contemporâneo espiritual do século 21 e não um nostálgico empedernido da intolerância medieval, fica chocado ao constatar a forma rancorosa como Gandra alude ao fato de alguém ter nascido negro, índio ou preferir praticar o amor com pessoas do mesmo sexo (os héteros que não têm fixação por tais ninharias simplesmente concordam com o belo verso de Caetano Veloso, "qualquer maneira de amor vale a pena").

E o que têm a ver tais posturas repulsivamente preconceituosas com os ensinamentos do próprio catolicismo, afinal? Se negros e índios fossem mesmo o cocô do cavalo do bandido, por que Deus os teria criado? 
Opus Dei teve forte influência nos regimes de Franco e Pinochet
Os pretensos executantes da obra de Deus parecem, isto sim, estar querendo corrigi-la. Vale lembrar que São Tomás de Aquino considerava a soberba como o pior dos sete pecados capitais...

[É curioso que o racismo explícito, assinado e com firma reconhecida do chefão do Opus Dei tenha, nas redes sociais, provocado grita infinitamente inferior à desqualificação furibunda de William Waack sob o pretexto de haver feito um gracejo de mau gosto para os colegas no ambiente de trabalho, sem nenhuma intenção de torná-lo público. A que se deverá uma disparidade tão paradoxal nas reações aos dois episódios?]

Quanto às outras negações do Gandra, eu fui guerrilheiro e tenho muito orgulho de haver confrontado uma tirania odiosa e sanguinária; não hesitaria um segundo em ajudar a invadir latifúndios e terras improdutivas para que famílias pobres tivessem onde morar e trabalhar; e, mesmo não me agradando a ideia de ser um assaltante, ainda preferiria tal opção a ser um dirigente do Opus Dei.

Este documentário sobre o Opus Dei é meramente apologético, então nem me 
preocupei em postar suas outras 5 partes, que podem ser encontradas
com facilidade no Youtube. Meu  objetivo foi apenas o de mostrar 
o Gandra cumprindo seu papel de porta-voz do Opus Dei.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

UM DOMINGO QUE FEZ OS CATALÃES LEMBRAREM DA REPRESSÃO DE FRANCO

Eis um depoimento emocionante que o inesquecível dr. Sócrates deu sobre a cidade de Barcelona, em abril de 2010:

"O catalão é um povo sofrido que até hoje busca a plena independência. Barcelona, sua capital, é motivo de orgulho. Estando na costa do Mediterrâneo, soube crescer de forma ordenada a partir de um plano piloto concebido em meados do século XIX, cujo objetivo era aproximar as aldeias ao redor a partir da derrubada das barreiras medievais que ali existiam. 

Imaginação, criatividade, talento e loucura são alguns dos adjetivos que poderiam muito bem definir aquele que é um símbolo da cidade, o arquiteto Antonio Gaudí…

Por falar em imaginação e criatividade, aqui estão a alma e a essência do que deve ser o bom futebol. E estes são atributos que não faltam ao jovem Messi, que vem sendo nesta temporada a própria expressão do que chamamos beleza e alegria desse esporte. São qualidades extremamente valorizadas pelo povo catalão, que não mede esforços para demonstrar o quanto se sente feliz em ter entre sua gente talentos como o do argentino. 
E sempre foi assim. Muitos dos últimos agraciados como melhores do mundo vestiam a malha do Barcelona quando da escolha. Inclusive Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho. (…) E é essa energia contagiante do catalão que permite que gênios como esses citados possam exprimir totalmente a sua arte em uma região onde também nasceu ou cresceu a genialidade de Picasso, Joan Miró e muitos mais.

…o dia nacional [da Catalunha] celebrado em 11 de setembro é para lembrar mais uma derrota e onde a festa e a dança (La Sardanha) são intimistas ao extremo, contrastando com a euforia e a felicidade de outros povos e culturas. Uma história de dor, perdas e frustrações que, em vez de transformar o catalão em derrotista e cabisbaixo, o tornou mais forte e altaneiro.

No estádio,  per supuesto, o que mais vemos é a exaltação à arte dos mais qualificados. É o assombro coletivo empurrando o talento ladeira abaixo na velocidade necessária para que ele desabroche em toda a sua plenitude, para delírio da massa sedenta por essa beleza que o futebol nos oferece quando livre das amarras impostas por mentes menos arrojadas e reacionárias.

É o êxtase da liberdade e da criatividade. É o sorriso da ingenuidade de quem só quer acompanhar o desfilar da arte em sua mais profunda interpretação. São manifestações incontroláveis que denotam a total expressividade da emoção que toma conta de todos que entrelaçam as mãos em torno do clube do coração – que, mais que um time ou equipe, representa um povo e sua saga histórica.

…[e, sobre o Barcelona não vender espaços na sua camisa, mas pagar pelo uso do símbolo da Unicef] Um gigantesco exemplo de como é possível viver em um mundo essencialmente comercial, mantendo preservada a sensibilidade humana…"
Lluís Llach canta L'Estaca, canção-símbolo da resistência à ditadura de Franco

A Catalunha possui uma história diferenciada, uma identidade política e cultural que tradicionalmente a têm colocado na vanguarda das posturas idealistas e modernizantes na Espanha, que defende com muita combatividade e heroísmo. 

Foi duramente retaliada pelos fascistas após a derrota dos republicanos na guerra civil: perdeu a autonomia que havia anteriormente conquistado, todas as instituições de autogoverno foram banidas, sofreu intensa repressão e o uso do catalão foi abolido e proibido. São motivos de sobra, além dos mencionados pelo Sócrates, para eu simpatizar tanto com ela.

Ao mesmo tempo, incomoda-me o fato de ser uma espécie de ilha de prosperidade e algumas de suas lideranças atuais estarem sendo movidas pela ganância.
Querem que retenha as riquezas por si geradas, ao invés de repartir parte delas (via impostos) com regiões em situação bem pior. É pretensão semelhante à dos que gostariam de ver Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná emancipados do Brasil.

Neste domingo (01/10), a intransigência do governo central atingiu o ápice na brutal repressão por ele ordenada, cuja truculência e imbecilidade dificultará sobremaneira o equacionamento civilizado da questão.

Parece-me óbvio que a saída sensata é a realização de novo referendo, sem empecilhos de nenhuma espécie e com ambas as partes assumindo o compromisso de aceitarem o resultado, qualquer que seja. A Catalunha tem tanto direito de sair da Espanha quanto a Inglaterra de sair da Europa Unida. Boa ou má, a decisão precisa ser respeitada.

Caso contrário, mais sangue será derramado em vão.
Outra empolgante canção libertária do grande cantor e compositor catalão
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