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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

QUE DEMOCRACIA, CARA PÁLIDA?!

Ninguém é santo nesse arranca-rabo
Data venia, o editorial da Folha de S. Paulo (acesse-o aqui) é mais um exemplar da hipocrisia da mídia financista do Brasil. 

Por óbvio, expôs o que até os granitos da Avenida Paulista já sabem. Bolsonaro é um aspirante a ditador, truculento e avesso à imprensa independente. Mais de trinta anos de vida pública apoiando o que de mais retrógrado existe no Brasil não deixa a mínima dúvida quanto a isto.

No entanto, a Folha não é um exemplo de respeito à democracia. E não falo aqui apenas de seu vexaminoso apoio à ditadura (além de a relativizar depois, como se tivesse sido uma inofensiva ditabranda), mas também de seu corriqueiro ataque a movimentos sociais, sindicatos e personalidades populares. 

Não esqueçamos, p. ex., que em junho de 2013 foi um editorial seu, juntamente com outro do coirmão O Estado de S. Paulo, que pediu o endurecimento da repressão policial aos manifestantes do Passe Livre

Na noite daquele editorial, a PM desembestou barbara violência contra os jovens que ousaram ir às ruas, causando indignação nacional e impulsionando as gigantescas manifestações hoje já históricas. Jamais houve pedido de desculpas ou reparação por parte da Folha de S. Paulo por ter atiçado a violência policial. 

Durante os anos seguintes não seriam poucas as vezes em que o jornalão sairia em público criminalizando manifestantes, não apenas na linha editorial, mas também na cobertura enviesada e, muitas vezes, francamente mentirosa. 

O jornal se lamuria pelo autoritarismo de Bolsonaro, mas deposita firme apoio à política econômica reacionária de Paulo Guedes, tendo, mesmo, feito um editorial elogiando as propostas austericídas do ministro, classificando-as como estando no “caminho certo”. 
2009: protesto diante da Folha contra editoral da ditabranda

Ora, Guedes é Bolsonaro e vice-versa. O neoliberalismo de Guedes só é possível de ser implantado e mantido em ambiente autocrático e o DNA do ministro é francamente pinochetista. 

O veículo dos Frias também parece não ver nada de antidemocrático na aprovação das tais reformas a toque de caixa no Congresso. Quando Rodrigo Maia e sua turma decidem o futuro de mais de 150 milhões de pessoas sem ao menos um debate com elas, a Folha não enxerga falta de democracia. Ao contrário, aí se trata da modernidade avançando, são os luminares da civilização

A Folha teve participação intensa no processo de impeachment contra Dilma e ajudou não apenas a induzir, mas também a aumentar o número de manifestantes, usando politicamente seu DataFolha. Enquanto em 2013 pedia repressão, em 2015 e 2016 dizia apologeticamente que estávamos diante das maiores manifestações da história do Brasil, quiçá da humanidade.

Acreditava, junto com Globo e Estadão, que a deposição de Dilma facilitaria a imposição das medidas pró-baronato financeiro, mas também abririam caminho para a vitória da centro-direita, capitaneada pelo PSDB de Alckimin. 

Por uma ironia da História, está agora sofrendo as consequências do seu maquiavelismo trapalhão, 
"usando politicamente seu DataFolha"

O impeachment acabou servindo não para aplacar a crise política, mas para piora-la, levando o péssimo governo Temer ao buraco e, conduzindo, por fim, à eleição de Jair Bolsonaro. 

A Folha de S. Paulo, os demais órgãos da mídia financista e a burguesia brasileira em geral tiveram de engolir a seco a eleição do ignóbil. Porém, para se garantirem, começaram a desencavar os podres de um político notoriamente corrupto e ligado a tudo de ruim no Rio de Janeiro. Deste modo, pensaram que conseguiriam domá-lo pela chantagem.

Bolsonaro, contudo, é iletrado, mas não idiota. Com um forte instinto de sobrevivência, deu uma dupla cartada: deixou Guedes fazer o que queria e dobrou a aposta contra a mídia. 

Com o primeiro movimento, imobilizou a parasitária burguesia brasileira e colocou a sua imprensa numa armadilha. Ela teria de apoiar a política econômica do governo e não poderia radicalizar contra ele. 

Garantido isto, o próximo passo seria dobrar a aposta e ir na jugular da mídia, cortando seu financiamento e ameaçando não renovar concessões.

Enredada pelo apoio à política econômica neoliberal, temerosa de ferir o avanço das pautas austericidas, a mídia financista simplesmente entrou em pane e agora só pode balbuciar invectivas inúteis sobre a democracia ou tentar distinguir Bolsonaro de sua política econômica. Ou seja, apoiar o governo sem apoia-lo.  
"Guedes é Bolsonaro, e vice-versa"
Na realidade, a Folha parece ignorar que o novo regime socioeconômico nascente pelas mãos de Bolsonaro e Guedes não necessita mais de jornais ou de canais de televisão. 

O mundo paralelo das fake news e da mídia oficialista é tudo de que tal regime necessita numa sociedade cuja riqueza será dada por especulações financistas e cuja força de trabalho será formada por entregadores de comida e motoristas de aplicativos. O rigoroso ponto de chegada de uma sociedade radicalmente neoliberal é o irracionalismo puro.

O ideal de democracia da Folha já caducou e ela não percebeu. O antigo regime oligárquico de falsificação da realidade, com os jornais e a mídia em geral servindo como instrumentos de distorção da verdade, já não existe mais. Hoje, a verdade já pode ser inteiramente manufaturada sem o mínimo uso da verossimilhança. 

A mamadeira de piroca triunfa, o articulista definha. Mas, e isto a Folha precisa entender, a mamadeira de piroca é o caminho necessário para reformas como a da Previdência. (por David Emanuel de Souza Coelho)

sábado, 9 de junho de 2018

LULA MANDA O PT POUPAR CIRO GOMES. FAZ SENTIDO: JÁ O ESCOLHEU PARA SER SEU SUBSTITUTO EM OUTUBRO.

Neste sábado (9) a Folha de S. Paulo noticia que, em conversas com auxiliares, Lula "autorizou que seja costurado um pacto de não-agressão com o candidato do PDT à Presidência da República, Ciro Gomes, com vistas ao 2º turno".

E mais: "Segundo petistas, a orientação é que o pedetista seja tratado como alguém do mesmo campo político. Emissários do ex-presidente vão procurar Ciro já na semana que vem".

Numa coisa concordo com Ciro Gomes, que acusou Lula de "insultar a inteligência do povo brasileiro" (daquela vez, era por "insistir em sua narrativa de perseguição política"). É igualmente insultuosa a suposição de Lula de que consiga enganar todo mundo e de que a verdade por trás dos seus despistes não transpareça para os menos ingênuos

Para quem não se deixa iludir, a nova orientação equivale a um noivado. Quando Lula for obrigado a reconhecer que sua candidatura presidencial em 2018 virou cinzas há muito tempo, o casamento se consumará.

Ponto para o Demétrio Magnoli. Há duas semanas ele decifrou o enigma da esfinge de Curitiba:
"O nome do candidato de Lula é Ciro. A duplicidade não passa de uma operação tática... 
 ...Lula nunca se moveu por convicções políticas ou ideológicas: seu norte obsessivo, hoje como ontem, é conservar o poder pessoal. Nas amargas circunstâncias atuais, o poder de Lula circunscreve-se ao PT –e sofreria rápida erosão caso o partido tivesse candidato presidencial próprio. 
Daí a insistência de Lula na fantasia de sua candidatura, que funciona como um ferrolho, impedindo o surgimento de alternativas dentro do PT. O ex-presidente anunciará sua desistência apenas na hora derradeira, quando só restar aberta a trilha de adesão a Ciro. Mas, claro, Jaques Wagner, um dos seus mais fiéis escudeiros, negocia desde já o pacto de aliança".
Por último, creio que seja um bom momento para recordar o post que escrevi no final de março de 2017, sobre uma das muitas declarações ridículas de que Ciro Gomes já se utilizou para aparecer no noticiário à base do falem mal, mas falem de mim

Ele e o Jair Bolsonaro são craques nisso. É mais um motivo pelo qual eu não votaria em nenhum deles, mesmo se acreditasse que as eleições presidenciais, sob a democracia burguesa, sejam de alguma valia para os explorados.

REI DO GATILHO OU REI DOS SUCRILHOS?
Ciro Gomes, que já foi governador do Ceará e ministro da Fazenda, está indeciso quanto ao seu futuro: não sabe se concorre à presidência do Brasil ou ao cognome de rei do gatilho, que está vago desde a morte do comentarista esportivo Mário Sérgio Pontes de Paiva, uma das vítimas do voo da Chapecoense.

Para os mais jovens, esclareço: em 1981, quando ainda era jogador de futebol e atuava pelo São Paulo, o ônibus da delegação tricolor foi apedrejado após a partida contra o São José e Mário Sérgio afugentou os torcedores adversários com disparos para o chão, o que lhe valeu tal alcunha.

Foi uma insensatez, pois poderia ter feito aumentar a indignação, com péssimas consequências: torcedor(es) baleado(s), jogador(es) ferido(s) pelas pedras, ônibus incendiado, etc. Mas, pelo menos, ele realmente deu os tiros e se responsabilizou por seu ato – embora, face à reprovação unânime que sua atitude recebeu, tenha depois espalhado a lorota de que as balas eram de festim...

Já Ciro Gomes assume total responsabilidade pelos tiros que não deu nos agentes Polícia Federal, salvo em sonhos ou nos seus devaneios após tomar algumas biritas. 

Em vídeo que circula nas redes sociais, aparece afirmando o seguinte sobre o episódio do Eduardo Guimarães:
"Hoje esse Moro resolveu prender um blogueiro. Ele que mande me prender. Eu recebo a turma dele na bala".
É óbvio que o Ciro Gomes não jogará sua carreira política no lixo nem vai arriscar a vida contra atiradores treinados apenas para cometer uma bravata.

Sua frase, portanto, é de uma infantilidade constrangedora, ainda mais por ter partido de um quase sexagenário [completaria 60 anos em novembro, ou seja, agora já completou].

Lamento, Ciro, mas você não merece ser o novo rei do gatilho. Uma criancice dessas só lhe dá direito ao apelido de rei dos sucrilhos.

terça-feira, 28 de março de 2017

CIRO GOMES: REI DO GATILHO OU REI DOS SUCRILHOS?

Ciro Gomes, que já foi governador do Ceará e ministro da Fazenda, está indeciso quanto ao seu futuro: não sabe se concorre à presidência do Brasil ou ao cognome de rei do gatilho, que está vago desde a morte do comentarista esportivo Mário Sérgio Pontes de Paiva, uma das vítimas do voo da Chapecoense.

Para os mais jovens, esclareço: em 1981, quando ainda era jogador de futebol e atuava pelo São Paulo, o ônibus da delegação tricolor foi apedrejado após a partida contra o São José e Mário Sérgio afugentou os torcedores adversários com disparos para o chão, o que lhe valeu tal alcunha.

Foi uma insensatez, pois poderia ter feito aumentar a indignação, com péssimas consequências: torcedor(es) baleado(s), jogador(es) ferido(s) pelas pedras, ônibus incendiado, etc. Mas, pelo menos, ele realmente deu os tiros e se responsabilizou por seu ato – pelo menos em parte, pois espalhou a lorota de que as balas eram de festim...
Já Ciro Gomes assume total responsabilidade pelos tiros que não deu nos agentes Polícia Federal, salvo em sonhos ou nos seus devaneios após tomar algumas biritas. 

Em vídeo que circula nas redes sociais, aparece afirmando o seguinte sobre o episódio do Eduardo Guimarães:
"Hoje esse Moro resolveu prender um blogueiro. Ele que mande me prender. Eu recebo a turma dele na bala".
É óbvio que o Ciro Gomes não jogará sua carreira política no lixo nem vai arriscar a vida contra atiradores treinados apenas para cometer uma bravata.

Sua frase, portanto, é de uma infantilidade constrangedora, ainda mais por ter partido de um quase sexagenário (completará 60 anos em novembro).

Lamento, Ciro, mas você não merece ser o novo rei do gatilho. Uma criancice dessas só lhe dá direito ao apelido de rei dos sucrilhos.

sábado, 25 de março de 2017

GUIMARÃES CONTA COMO A POLÍCIA FEDERAL INVADIU SEU APÊ E O CONDUZIU COERCITIVAMENTE PARA DEPOR

Celso Lungaretti
Um assunto em evidência é a condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães para prestar depoimento à Polícia Federal. 

Do seu longo relato de tal episódio, publicado no Blog da Cidadania, reproduzo abaixo o que considero mais relevante para os leitores do náufrago. Pode-se discutir muita coisa, menos que houve várias condutas ilegais, irregulares ou impróprias na operação policial. Quanto a isto, sou inteiramente solidário ao Guimarães.

Neste sábado, Demétrio Magnoli utilizou seu espaço semanal na Folha de S. Paulo para questionar a forma como a PF atuou, qualificando-a de "um ato de arbítrio", ao mesmo tempo em que tecia comentários os mais depreciativos sobre a atuação corriqueira do Guimarães. 

É um texto polêmico, ao contrário dos (quase todos) monocórdios que circulam por aí; levanta algumas questões que merecem ser discutidas. Espero que o Guimarães o faça, pleiteando direito de resposta à Folha (mais do que justificado neste caso) ou utilizando os espaços de que dispõe. 

Aí eu me sentiria à vontade para reproduzir as argumentações de ambos e dar minha visão pessoal. Por enquanto, por ignorar quais as ameaças legais que talvez ainda rondem o Guimarães, prefiro não o fazer.

Eis o que Guimarães contou:
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Eduardo Guimarães (centro) saindo do prédio da Polícia Federal
"Às 6 horas do dia 21 de março deste ano, eu e minha esposa dormíamos quando escutamos um barulho semelhante a arrombamento da porta da frente do nosso apartamento.

Achei que era algum vizinho começando alguma obra antes da hora e, como fora dormir poucas horas antes, virei-me para o lado e voltei a dormir. Segundos depois, ouço minha esposa dizer, desesperada, que tinham vindo me prender.

Minha filha Victoria, 18 anos, 26 quilos, portadora de paralisia cerebral, que dormia no quarto ao lado, assustou-se com os golpes desferidos pelos policiais na porta e começou a reclamar, como faz quando está nervosa.

Levanto-me assustado, corro para a sala e encontro minha mulher à porta, entreaberta. Termino de abrir a porta, vejo quatro policiais federais. E o porteiro do prédio com expressão assustada no rosto

Detalhe: minha mulher vestia roupas sumárias de dormir. Pediu para se trocar. Não obteve permissão dos policiais.

Enquanto isso, Victoria assistia a tudo com olhos arregalados.

Os policiais comunicaram que tinham uma ordem de busca e apreensão e começaram a vasculhar o apartamento. Obrigaram o porteiro a entrar no meu quarto de dormir, que começaram a vasculhar, abrindo gavetas, portas de armário e qualquer outro lugar possível.

Acharam meu computador (notebook), exigiram a senha para ligá-lo e, assim, poderem mudar essa senha para terem acesso quando quisessem. Pedi para copiar alguns dados pessoais, mas não me foi permitido. Pediram para desbloquear meu celular com a mesma finalidade.

Após a busca, nada tendo sido encontrado, os policiais anunciaram minha condução coercitiva.

Tentei ligar para meu advogado, doutor Fernando Hideo, mas não consegui. Passava um pouco das 6 horas. Minha esposa pediu para esperarem que eu conseguisse falar com o advogado, mas não permitiram. Exigiram que eu me vestisse e os acompanhasse.

Eu e minha esposa entramos no quarto de Victoria, onde respeitaram mais, para nos abraçarmos. Ela chorava, minha filha fazia seus sons característicos, pois não fala.

Imaginei se voltaria a vê-las.

Tentei, porém, aparentar calma. Até então, achava que estava sendo conduzido por conta da denúncia de ameaça contra Moro, feita por ele.

No meio do caminho, fui informado pelos policiais de que estava sendo detido por conta do post que publiquei em 26 de fevereiro do ano passado divulgando a quebra de sigilo de Lula...

...Chegamos à sala do delegado que me interrogou. Eu já não tinha mais telefone, já não tinha mais como me comunicar. O delegado iniciou o interrogatório sem a presença de qualquer advogado.

O delegado me comunicou que já sabia quem fora a minha fonte, mostrou-me o nome da fonte, contou-me que ela obtivera a informação que me passara de uma 'auditora da Receita' (fonte da minha fonte), mas não quis me dizer a profissão da pessoa que entrou em contato comigo.

Mostrou-me a foto da 'auditora da Receita' que vazou a informação. Perguntou se eu a conhecia e me disse que estava tentando determinar se nós três agíamos juntos.

Fiquei surpreso, pois a fonte, o tal jornalista, dissera-me que obtivera as informações com a imprensa. Disse-me que toda a imprensa de São Paulo já tinha aquelas informações que me estava passando. Então, descubro que uma servidora da Receita subtraiu de lá as informações ilegalmente.

O delegado deixou claro que eu era suspeito de ser 'cúmplice' daquelas pessoas. Eu disse que isso não era verdade e me perguntei, em voz alta, por que o tal jornalista me dera informação inverídica.

O delegado respondeu minha pergunta retórica. Disse que, provavelmente, fora para me 'induzir' a divulgar os dados sem medo de estar cometendo um crime. Repito: o delegado me disse  que minha  fonte me enganou.

Enquanto isso, minha esposa tentava falar com o doutor Fernando, mas não conseguia. Então, no desespero, recorreu a uma parente que é advogada da área de Direito da Família e não tem maiores conhecimentos sobre a área criminal.

A  nossa familiar chegou à sede da PF em São Paulo, à sala em que eu era interrogado, lá pela metade do depoimento. Porém, não teve condição técnica de me passar qualquer orientação enquanto eu respondia. Apenas assistiu à oitiva.

O meu interrogador deu a entender que eu teria que provar não ser cúmplice do tal jornalista e da auditora da Receita Federal, ambos de Curitiba... [segue-se longa explicação sobre a impossibilidade de Eduardo Guimarães provar que só recebera ligação da jornalista e não da auditora porque seu celular fora depois reformatado para corrigir mau funcionamento]. 

...Só o que posso afirmar é que não havia fonte a preservar porque as autoridades me disseram mais sobre elas do que eu sabia. Antes de começar a depor, fui informado de que meus interrogadores sabiam quem era a fonte.

Ora, vamos repassar os fatos.

Fui ouvido sem um advogado com condições de me orientar sobre o que eu precisava ou não responder. Tudo isso após o trauma pelo qual eu, minha esposa e minha filha doente passamos ao raiar do dia.
Avisei ao delegado que me interrogou que a familiar de minha esposa não tinha conhecimentos da área criminal e que estava lá mais para eu não ficar sozinho em um depoimento, mas ela nem sequer se manifestou durante a oitiva...

...Fui informado de que, se não provasse que não tinha relações com as pessoas de Curitiba que conseguiram os dados que recebi, eu seria considerado parte de um grupo, ou uma quadrilha.

Meu advogado que atua nessa área, doutor Fernando Hideo Lacerda, chegou bem depois do fim do depoimento, no exato momento em que eu iria firmá-lo. Doutor Fernando descobriu vários pontos que haviam sido inseridos indevidamente no depoimento e pediu retificação, após eu informar que não havia dito certas coisas que lá constavam.

O delegado aceitou os pedidos de retificação e reconheceu que eram justificados. Se meu advogado não tivesse  chegado a tempo, meus direitos civis teriam sido violados de forma  ainda mais séria".

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

AGORA É A DIREITA QUE LANÇA UM ALERTA ESTRIDENTE SOBRE LULA

Depois de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não ter sido incomodado pela Polícia Federal no último fim de semana, ao contrário do previsto pelo jornalista e blogueiro Eduardo Guimarães, agora é a vez de um notório direitista da imprensa lançar um alerta estridente (vide aqui): Reinaldo Azevedo acredita que Lula esteja preparando sua fuga para o exterior.

Negando haver recebido alguma informação de bastidores, ele alega tratar-se apenas de uma dedução lógica: 
"O discurso no qual os petistas insistem não é compatível com o de um réu que está disposto a provar sua inocência. Ele se parece mais com o de um fugitivo tentando convencer a opinião pública mundial de que estava sendo vítima de um regime de exceção".
É também sob este prisma que RA avalia a campanha internacional em defesa do Lula que sindicalistas brasileiros lançarão nos próximos dias (pois seu efeito, segundo ele, será "contraproducente" em termos de Brasil e Justiça brasileira, daí sua dedução de que já faria parte do plano de fuga).
Bem, elucubrações há para todos os gostos. Baseando-me igualmente na lógica, eu poderia supor que:
  • os comunicadores de direita estejam tentando influenciar Sérgio Moro e outras autoridades, no sentido de que coloquem logo Lula atrás das grades; ou
  • que tal decisão já tenha sido tomada e se trate, agora, de preparar a opinião pública para receber a notícia.
Afinal, RA faz carreira satanizando Lula, a quem atribui sempre a pior das intenções. Se eu adotar a mesma postura com relação a ele, RA, fará sentido imaginar que esteja querendo entregar à veja o troféu por ela mais ambicionado há décadas: a cabeça do Lula (simbolicamente) empalhada, para pendurar na parede ao lado da do Zé Dirceu.

Lula tem debochado quando repórteres tocam no assunto ("Vou pedir asilo em Garanhuns!"). Seja como for, não sou eu quem dirá a um marmanjo prestes a completar 71 anos como ele deva proceder. Apenas aconselho-o a pensar bem no assunto, refletindo sobre se terá estrutura emocional para aguentar a barra do isolamento entre estrangeiros indiferentes.

Geraldo Vandré não suportou o exílio, entrou em parafuso e tomou a péssima decisão de negociar sua volta com a ditadura militar, que o transformou num zumbi. 

Manuel Zelaya enfiou-se na embaixada brasileira em Honduras pensando que as massas se levantariam para recolocá-lo no poder, tendo quatro meses depois de sair com o rabo entre as pernas, garantido por um salvo-conduto para a Nicarágua. 

Edward Snowden pediu asilo para duas dezenas de países antes de aceitar o oferecido pela Rússia, onde hiberna há três anos, dando uma entrevista de vez em quando. E por aí vai.

Então, a opção para Lula seria entre uma prisão brasileira e o semi-anonimato no exterior, pois a narrativa do golpe não lhe garantirá muitos holofotes no exílio.  Os gringos estão se lixando.

Talvez Bolívia (*), Equador ou Venezuela lhe concedam honras de herói, desde que se disponham a incorrer no desagrado do governo brasileiro. Suponho que, num destes países, é onde Lula iria sentir-se melhor. Mas, é também onde mais facilmente será esquecido pelo resto do mundo.

* Aí a História se repetiria mesmo como farsa, pois foi o país onde o rouba-mas-faz Adhemar de Barros se refugiou em 1956 para escapar de uma condenação a dois anos de reclusão...   

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

LULA CONTINUA LIVRE COMO UM PASSARINHO. A SUA PRISÃO IMINENTE NÃO PASSAVA DE BOATO.

Causou surpresa entre os leitores assíduos deste blogue a minha decisão de reproduzir, na 6ª feira passada (14), o alerta do jornalista e blogueiro Eduardo Guimarães sobre a prisão iminente do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

O David Emanuel de Souza Coelho, que faz doutorado em Filosofia na UFMG, expressou no Facebook sua estupefação: "Eduardo Guimarães não é fonte confiável para nada".

Lembrei-lhe de que eu deixara bem claro inexistir qualquer elemento de comprovação, que nos permitisse fazer uma avaliação própria do que tinha sido exposto de forma tão dramática; o Guimarães apenas alegava terem chegado ao seu conhecimento "informações fidedignas e verossímeis de que Lula pode ser preso a qualquer momento", que "toda grande imprensa já tem os detalhes da operação" e que "os acertos todos já foram feitos". 

Na impossibilidade de perguntar aos barões da mídia se confirmavam isso (eles me bateriam com a porta na cara!), só me restava publicar o alerta, acrescentando uma ressalva logo no 1º parágrafo. Pois:
"Muita gente que diz saber muita coisa passa a vida relatando-as a jornalistas. Se você descartar tudo que lhe chega dessa maneira, jogará fora algumas pepitas junto com o montão de cascalho. Se você acreditar em tudo, será manipulado por esses caras. É no contato com eles que você pode avaliar se são confiáveis ou não. 
Como o alerta do Guimarães diz respeito a algo muito sério, pelo sim, pelo não, eu achei importante o meu público tomar conhecimento. Por outro lado, eu não falei com os informantes do Guimarães, então não tenho como afiançar que eles sejam confiáveis e que o Guimarães haja tido razão em confiar neles (...). Levando tudo isto em conta, coloquei seu alerta no ar, mas não me responsabilizei por ele, pois, no meu caso, seria como assinar um cheque em branco".
No dia seguinte, a Folha de S. Paulo noticiou que, por causa de tal informação ou boato, "movimentos de esquerda estão a postos para protestar contra uma eventual prisão do ex-presidente". Como continuassem ausentes quaisquer elementos de comprovação, isto reforçou minha suspeita de que "tal onda" não passasse, afinal, "de mera suposição e um tanto de teoria da conspiração". 

Por um motivo muito simples: as autoridades que podem ordenar a prisão do Lula já deram mostras cabais de não serem imbecis. Então, por que o encarcerariam nas proximidades do Natal, fornecendo um forte trunfo de ordem emocional para o proselitismo petista? 

Bem vistas as coisas, se decidirem mesmo prendê-lo, a ocasião mais propícia será após ele sofrer alguma condenação; neste exato momento o Lula não está fazendo nada que justifique uma prisão provisória. 

E mesmo que, por algum motivo nebuloso, quisessem precipitar as coisas, ainda assim lhes conviria agir no período morno entre o Natal e o carnaval, aproveitando a desmobilização geral. Como estão com a faca e o queijo na mão, não têm necessidade nenhuma de serem açodados.

Como Lula continuasse livre como um passarinho, o Guimarães  publicou na 2ª feira (17) um estranho post. Por um lado, o título (Mobilização pró Lula no fim de semana surpreendeu Lava Jatodá a entender que foi graças ao seu alerta que as intenções malignas não se consumaram.

Por outro, tenta convencer os leitores que fazia sentido, sim, lançar aquele alerta, mesmo sabendo que "haveria reações negativas à minha iniciativa porque (...) eu só tinha a minha palavra, sem provas ou documentos".

O mais significativo, contudo, está neste parágrafo:
"Não foi fácil a decisão de divulgar informação confiável que obtive, de que o núcleo duro da Operação Lava Jato já se decidiu pela prisão do ex-presidente Lula por conta simplesmente de timing – ou seja: se não prenderem Lula agora que ele e o PT estariam 'muito fracos', depois não iria dar porque, devido ao espancamento de pobres que Temer está promovendo, o ex-presidente deve se fortalecer politicamente em 2017".
Um dos meus princípios é nunca duvidar da boa fé de ninguém, a menos que tenha fortes razões para tanto. Não é o caso.

Então, acredito que os boatos acerca da prisão imediata do Lula tenham surgido em função de ele haver se tornado réu num terceiro processo. E, como quem conta um conto, acrescenta um ponto, a coisa cresceu como uma bola de neve, virando um roteiro completo de supostas ações inimigas futuras. 

O prato já deveria estar feito quando o Guimarães o recebeu, tendo ele se convencido de que era tudo verdade até por uma questão de afinidade com a narrativa: ela vinha exatamente ao encontro de suas convicções e crenças.

Então, não lhe ocorreu que se atribuía ao outro lado uma inverossímil obtusidade, como se não tivesse nada melhor para fazer do que levantar a bola para o PT marcar o ponto. E, exageros propagandísticos à parte, a hipótese de que Lula se fortaleça politicamente em 2017, alegado motivo da urgência em prendê-lo, está mais para sonho de uma noite de verão... 

Pelo contrário, indícios de recuperação econômica já surgem e tendem a avolumar-se daqui para a frente. Se o povo (com uma ajudazinha da grande mídia...) tiver a sensação de que começamos a sair da pindaíba, Temer estará, isto sim, mais forte no ano que vem. E o Lula, coitado, soterrado sob uma montanha de processos, não despertará nenhuma grande comoção popular em caso de infortúnio. 

A realidade é cruel, mas eu sempre preferi encará-la de frente e confrontá-la em toda sua extensão do que me consolar com ilusões ingênuas. A decepção que eu tinha para sofrer, já sofri quando vi o carrasco Médici sendo ovacionado pelos torcedores no Maracanã lotado de um domingo de Fla-Flu, quando fazia encenação demagógica com um radiozinho de pilha colado ao ouvido. 

Como diria o velho barbudo, os trabalhadores por enquanto constituem uma classe em si e pensam com a  carteira; em algum momento do seu processo de libertação, vão se tornar uma classe para si; e depois, as classes serão afinal abolidas, juntamente com a desigualdade econômica e social.

Devemos, sim, ter compaixão pelo Lula, fazendo o que estiver ao nosso alcance para que ele não sofra, septuagenário, os rigores e a humilhação do cárcere (sem esquecermos que o mesmo se aplica ao Zé Dirceu, outro septuagenário que deveria ser afastado da vida pública, mas não do lar e da família).

O que não faz mais sentido é utilizá-lo como bandeira política, fazendo de sua vitimização um trunfo para dar sobrevida à hegemonia do PT sobre a esquerda brasileira. 

Sebastianismo é coisa do século XVI. E, se preferir as bravatas à discrição e às tratativas de bastidores, buscando um confronto que não tem a mínima possibilidade de ganhar neste momento, Lula terminará mofando longamente atrás das grades. Trata-se de um preço alto demais para ele pagar, até porque seu sacrifício acabará sendo inútil: o PT não tem mais como dar a volta por cima, já está rolando ladeira abaixo.

A esquerda precisa aprender a viver sem o Lula, sem o populismo, sem o reformismo, sem a estatolatria, sem os mandatos eletivos nos podres Poderes, sem os palácios do governo,  sem as maracutaias, sem as mordomias e boquinhas

Precisa voltar a ser revolucionária, lutando para reconquistar as ruas e sendo encabeçada por personagens que não tenham nada a ver com os escândalos e descaminhos recentes.

sábado, 15 de outubro de 2016

LULA, O POLÍTICO, NÃO TEM MAIS FUTURO. POR QUE IMOLAREM O HOMEM?

A resposta à prisão de Lula já está preparada...
Não é só o jornalista e blogueiro Eduardo Guimarães que acredita na iminência da prisão de Lula. Muitos dos apoiadores do dito cujo também, a julgar por esta notícia de sábado (15) da Folha de S. Paulo
"Movimentos de esquerda estão a postos para protestar contra uma eventual prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Integrantes da CUT preparam uma vigília em defesa do ex-presidente.
Já o MST está de prontidão para realização de um protesto que reuniria seus militantes da Região Sul. Os integrantes do movimento fariam uma caminhada rumo a Curitiba em caso de detenção de Lula.
Coordenador nacional do MST, João Paulo Rodrigues diz que os movimentos planejam uma 'resistência' à eventual prisão do ex-presidente.
'Em caso de prisão, deflagraremos uma marcha até Curitiba. Não vamos permitir esse clima de fato consumado.'
A mobilização cresceu na última 5ª feira (13), após o juiz da 10ª Vara Federal de Brasília, Vallisney de Souza Oliveira, acolher denúncia feita pelo Ministério Público Federal e abrir ação penal contra Lula e o empresário Marcelo Odebrecht..."
...mas um pequeno detalhe pode atrapalhar os planos...
Como escrevi na noite passada, não se pode descartar a possibilidade de estarmos diante de um mero boato, pois o fato de Lula ter-se tornado réu pela terceira vez poderia ensejar sua prisão.

Ou não. Afinal, ex-presidente da República por dois mandatos, prestes a completar 71 anos e aparentemente não tendo, desde que se consumou o impeachment de Dilma Rousseff, tentado atrapalhar as investigações da Operação Lava-Jato (ou tomado alguma iniciativa para evadir-se do País), sua prisão parece desnecessária e, portanto, difícil de justificar para a opinião pública.

A notícia da Folha reforçou minha suspeita de que tal onda não passe, afinal, de mera suposição (e um tanto de teoria da conspiração). 

Então, suposição por suposição, apresento as minhas: 
  • se as autoridades deixaram Lula em liberdade durante as eleições, por que o prenderem agora, nas proximidades do Natal, levantando a bola para seus defensores apelarem ao sentimentalismo popular?
...como Anderson Silva aprendeu.
  • se o quisessem mesmo prender, por que não esperarem o período morno entre Natal e carnaval, quando tanta gente está desmobilizada, em férias?
  • e por que, afinal, prenderem-no antes de sentenciado, a menos que surja algum fato novo?  
Algo que aprendi durante a resistência à ditadura militar foi a nunca subestimar o inimigo. Se as ações jurídicas contra Lula fossem mesmo uma abrangente articulação para impedi-lo de candidatar-se à Presidência da República em 2018 (como alegam os petistas), hoje seria facílimo impugnarem sua candidatura, independentemente de permanecer fora das grades.

Então, caso tal articulação existisse, o mais inteligente para ela seria ir tocando adiante os processos, condenando Lula, permitindo que ele apelasse em liberdade para as instâncias superiores, etc., de forma que permanecesse durante anos a fio com uma espada erguida sobre sua cabeça, mas fora da prisão, para não dar motivo a indignação, aqui e no exterior.

Apostar na burrice do inimigo não tem dado muito certo para os petistas ultimamente...

De resto, torço para que Lula continue em liberdade, desfrutando da melhor maneira possível os anos que lhe restam, ao lado da família.  
A prioridade agora deveria ser preservar o homem
Sempre fui opositor ferrenho da utilização da Justiça para fins de vingança social. Na minha opinião, em septuagenário só deve ser recolhido à prisão em circunstâncias extremas, ou por haver cometido crimes muito mais graves do que os atribuídos a Lula.

E, haja o que houver, não acredito que ele volte a eleger-se presidente. Pesquisas feitas com dois anos de antecedência são uma coisa, a realidade da disputa eleitoral, com os adversários martelando o tempo todo na cabeça do eleitor tudo que foi noticiado nos últimos anos, é outra bem diferente. Afora o fato de que seu partido está em frangalhos.

Lula, o político, não tem mais futuro. Por que imolarem o homem?
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