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sexta-feira, 5 de junho de 2020

NÃO NOS DETERÃO!

Nunca o pior presidente do Brasil em todos os tempos pareceu tão próximo de cair quanto no último domingo (31/05), quando:
— as apurações judiciais dos crimes de responsabilidade cometidos por Jair Bolsonaro e dos crimes comuns e eleitorais de seus filhos contraventores ganhavam velocidade;
— manifestos pluripartidários contra a fascistização em curso no país brotavam como cogumelos; e
— as torcidas do futebol iam para as avenidas substituir uma esquerda que ultimamente parece ser ligada na tomada apenas para fazer campanhas eleitorais e depois desligada para poupar energia. 

Aí entrou em cena a Brigada Anti-Esquerda Autêntica, sob o comando do seu principal porta-voz, que fez as mais veementes declarações no sentido de que os inimigos políticos podem unir-se à vontade nas maracutaias e na politicalha sórdida (a exemplo das alianças que ele sempre fez com reacionários empedernidos e corruptos com carteirinha assinada), mas nunca,  jamais,  para darem um fim ao sistema responsável pelas maracutaias, pela politicalha e por todos os privilégios e desigualdades atuais, abrindo caminho para uma sociedade emancipada, igualitária e livre.

Acredito, contudo, que tal chocante divisionismo esteja chegando tarde demais e as esperanças despertadas nos melhores brasileiros farão o Basta! continuar avolumando-se como bola de neve e levando de roldão tanto o governo que além de destruir o país agora se tornou explicitamente genocida, quanto a esquerda desvirtuada que hoje é muito mais um sustentáculo do status quo do que mobilizadora para as transformações sociais de que nosso país carece desesperadamente. 
Contra esses que desde 1968 reagem histericamente à simples visão dos protestos espontâneos dos explorados e oprimidos, satanizando tudo que não conseguem controlar, vamos continuar escrevendo uma nova página da História neste fim de semana, sem medo do bicho papão fardado que tanto bolsonaristas quanto lulistas utilizam como espantalho para insuflar conformismo e resignação nos que vimos sendo pisoteados há quase um ano e meio e finalmente nos colocamos de pé!

Desta vez o blefe não colará! Temos plena consciência de que, enquanto o combate à Covid-19 estiver sendo sabotado, privado dos recursos desviados para finalidades nem remotamente tão prioritárias quanto a salvação de vidas humanas e tornado um pandemônio pela dispersão dos esforços (já que o Ministério da Saúde, ao qual caberia centralizá-los, virou um puxadinho da caserna e não inspira mais confiança em ninguém bem informado), brasileiros morrerão aos milhares, semana após semana, de óbitos que poderiam ser evitados.  

Desta vez não tremeremos! Tomando as precauções possíveis contra o vírus e tendo em mente que a violência é trunfo dos desesperados e não de quem luta pelos objetivos mais nobres e necessários, iremos às avenidas mais uma vez, e tantas quantas se fizerem necessárias!
   
Desta vez não recuaremos!  Já andamos para trás demais, como caranguejos. É hora de o Brasil ir de novo ao encontro do futuro, ao invés de abdicar das conquistas da civilização, retrocedendo para nefandos períodos de obscurantismo, fanatismo e absolutismo. 

Não nos deterão! (por Celso Lungaretti)

sábado, 2 de maio de 2020

O MEDO DA MORTE NOS FAZ VALORIZAR A VIDA E O QUE ELA TEM DE MAIS NOBRE: A SOLIDARIEDADE HUMANA!

dalton rosado
O LADO LÚDICO
DA QUARENTENA
Termos de ficar reclusos em nossa residências fez com que lançássemos um olhar contemplativo sobre a nossa vida interior e nossa relação com a vida exterior, entre outras questões de sentido social profundo. 
Este é o lado lúdico da quarentena.

Nesta semana mesmo desengavetei (ou trouxe à terra das nuvens eletrônicas) um breve conto infantil que houvera escrito há quatro anos para o meu primeiro neto, que adora passarinhos: O canário que latia

Tal texto tratava da solidariedade entre um passarinho que havia caído do ninho, quebrado a asa esquerda e sido protegido por um cachorrinho contra a gula de um gato faminto. Com a convivência harmoniosa e solidária, o canarinho aprendera a latir para afugentar seus predadores. 

Tratava-se, portanto, de um conto infantil sobre a solidariedade entre seres diferentes na forma e iguais em sentimentos, cujo sentido moral era afirmar a possibilidade de se fazer o impossível diante de uma iminente tragédia.

Divulgado nas redes eletrônicas da família, despertou um sentimento de alegria entre as crianças, que agora estão mais próximas dos seus pais e adorando essa interação forçada. 
"a essência da grandeza do sentido humano da vida"
.
Da mesma forma, estamos vendo as pessoas irem para as janelas dos seus prédios e cantarem a plenos pulmões as melodias que mostram a todos a essência da grandeza do sentido humano da vida na superfície desse nosso planetinha tão sacrificado por sentimentos avessos aos que felizmente ora afloram.

A mobilização de pessoas nos mais diferentes lugares e no mesmo momento, arrecadando gêneros alimentícios e roupas para as comunidades que até ontem não eram alvo desse olhar solidário, representa o resgate e despertar do sentido humano que habita nas mentes adormecidas por um móvel de relação social individualista e exclusivista.

O medo da morte nos faz valorizar a vida e o que ela tem de mais nobre: a solidariedade humana! 

O ser humano somente sobreviveu às intempéries da sua evolução, à sanha de predadores e às muitas catástrofes sanitárias e climáticas graças ao sentido solidário de sua existência. 

Afinal, um grupo articulado de hominídeos, com habilidade manual e tendente a racionalizar os seus instintos, conseguiu ser mais forte do que um leão faminto por carne; um tigre dentes-de-sabre; uma peste aniquiladora ou a uma tempestade avassaladora. 
Heróis da luta pela vida sendo hostilizados pela mais abjeta escória
.
Que dizer dos abnegados profissionais da saúde que, em defesa da vida, vão para a linha de frente de hospitais nos quais a contaminação virótica é exponencial, mesmo sabendo que os colegas que até ontem estavam ao seu lado hoje estão sepultados em covas coletivas, sem nem mesmo poderem ser velados por seus familiares? Eles são os exemplos concretos de que o ser humano é intrinsecamente bom. 

Mas, principalmente, a crise sanitária nos faz perceber a irracionalidade da vida que levávamos antes dela. 

A diminuição da poluição aérea nas grandes cidades em razão da redução do uso indiscriminado da combustão fóssil nos veículos que congestionam o trânsito, redução provocada pela paralisia das nossa relações sociais mercantis, mostra que outro modo de viver não somente é possível como necessário.

Da mesma forma, com a paralisia, caiu a emissão de gás carbônico na atmosfera pela produção industrial irracional e queimadas florestais; comprovado efeito estufa, que provoca o aquecimento global, deu um tempo na sua escalada genocida. 
O homem que destrói o Brasil e nos faz motivo de chacota no mundo inteiro
.
Lamentável nisto tudo é que tais procedimentos não derivem da conscientização dos seres humanos sobre os seus atos genocidas, mas consequência da ação de um vírus microscópico irracional que confronta a nossa própria racionalidade. 

A crise sanitária está, também, a desnudar a hipocrisia da suposta preocupação com a vida, alegada por quantos desejam a volta ao staus quo da produção mercantil e de suas relações sociais. 

É que, diante do constatado aumento das infecções e das mortes provocadas pela pandemia virótica, muitos governantes propõem o abandono precoce da quarentena, sem levarem em conta o morticínio que isto provocará, presos que estão ao modelo que os jungiu ao topo do poder no atual sistema político-governamental.

O coronavírus, sem o saber e sem qualquer traço de inclinação ideológica, demonstrou que o pensar governamental sobre qualquer alternativa de relação social está proibido, não havendo melhor demonstração disto do que o pesadelo atual, a confirmar a existência de uma corrente de ferro que nos aprisiona socialmente: o fetichismo da mercadoria. 
É triste que o Walter Franco tenha morrido
e tantos canalhas continuem vivos e ativos
.
Para o capital produzir mercadoria está acima da proteção da vida.

A grandeza dos muitos gestos de humanidade que temos presenciado contrasta com a simbologia genocida de quem faz a apologia das armas, chegando com isto até a sensibilizar uma população desesperada pela miséria social causada pelo capitalismo (moral e material): esses falsos messias ainda conseguem passar-se por salvadores da pátria aos olhos de muitos incautos. 

Qual profetas da morte, eles tentam nos convencer de que a intensificação da causa do mal pode nos livrar do próprio mal. 

Não passarão! (por Dalton Rosado)

"Todo dia o balde vai pro poço/ Um dia o fundo
vai se soltar/ Um dia o fundo vai se soltar"

sexta-feira, 12 de abril de 2019

COM SEU HUMOR SOFISTICADO, JÔ SOARES DETONA OS PRIMARISMOS E O RANCOR ALUCINADO DE JAIR BOLSONARO

Aprenda: Rosa Luxemburgo não era uma...
jô soares
CARTA ABERTA AO ILMO. SR. PRESIDENTE JAIR BOLSONARO
"Caro presidente Jair Bolsonaro, 
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entendo a reação provocada quando o senhor afirmou que o nazismo era de esquerda. Isso se deve ao fato de que, depois da 1ª Guerra Mundial, vários pequenos grupos se formaram, à direita e à esquerda.

Um desses grupos foi o NSDAP (em alemão, sigla do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães). Entre seus fundadores originais havia dois irmãos: Otto e Gregor Strasser. 

Otto era um socialista convicto, queria orientar o movimento do partido à esquerda. Foi expulso e a cabeça posta a prêmio. Seu irmão Gregor preferiu unir-se ao grupo do camelô do Apocalipse

Quanto a Otto, que não concordava com essa vertente, nem com as teorias racistas, teve sua cabeça posta a prêmio por Joseph Goebbels pela quantia de US$ 500 mil. Foi obrigado a fugir para o exílio, só conseguindo voltar à Alemanha anos depois do final da guerra. 

Hitler apressou-se em tirar o social da sigla do partido. Mais tarde, Gregor foi eliminado junto com Ernst Röhm, chefe das S.A., na famigerada Noite das facas longas.

...vendedora de rosas vermelhas
Devo lhe confessar que também já fui alvo de chacota, mas por um motivo totalmente diferente: só peço que não deboche muito de mim.

Imagine o senhor que confundi o dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard, filósofo, teólogo, poeta, crítico social e autor religioso, e amplamente considerado o primeiro filósofo existencialista, com o filósofo Ludwig Wittgenstein, que, como o senhor está farto de saber, foi um filósofo austríaco, naturalizado britânico e um dos principais autores da virada linguística na filosofia do século 20.

Finalmente, um conselho: não se deixe influenciar por certas palavras. Seguem alguns exemplos:

1. Quando chegar a um prédio e o levarem para o elevador social, entre sem receio. Isso não fará do senhor um trotskista fanático;
...nem La Pasionaria tinha bronca das tarefas caseiras
2. A expressão no pasarán!, utilizada por Dolores Ibárruri Gómez, conhecida como La Pasionaria, não era uma convocação feminista para que as mulheres deixassem de passar as roupas dos seus maridos;

3. Social climber não se refere a uma alpinista de esquerda;

4. Rosa Luxemburgo não era assim chamada porque só vendia rosas vermelhas;

5. Picasso não usou o partido para divulgar seus gigantescos atributos físicos;

6. Quanto à palavra social, ela consta até no seu partido.

Finalmente, adoraria convidá-lo para assistir ao meu espetáculo.

Foi quando surgiu um dilema impossível de resolver. Claro que eu o colocaria na plateia à direita. Assim, o senhor, à direita, me veria no palco à direita. Só que, do meu lugar no palco, eu seria obrigado a vê-lo sempre à esquerda.

Espero que minha despretensiosa missiva lhe sirva de alguma utilidade.
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Convicto de ter feito o melhor possível, subscrevo-me."
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Jô Soares,
influenciador analógico

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

2015 PROMETE SER O ANO MAIS QUENTE NA POLÍTICA BRASILEIRA DESDE 1968

Até no visual esta parece à deriva...
Não trouxe esperança nenhuma a posse de Dilma Rousseff para o novo mandato conquistado aos trancos e barrancos, com a satanização dos adversários, o estelionato eleitoral e o abuso clamoroso da máquina governamental. 

Assumiu admitindo que fará mesmo um ajuste recessivo da economia, embora tenha sido este um dos principais espantalhos utilizados por sua campanha contra os adversários. 

Eles, os neoliberais empedernidos, estariam preparando medidas duras para tirarem o pão da mesa dos pobres. Ela, a heroína do bem, jamais abriria o saco das maldades. 

Agora, dá o dito por não dito e anuncia que vai aplicar fielmente tal receituário, fazendo-nos suspeitar que o vulto feminino com o qual acabará historicamente identificada vá ser o de Margaret Thatcher (já tinham em comum a rispidez e o mandonismo). Um péssimo ponto de chegada para quem um dia deve ter-se espelhado em Rosa Luxemburgo, La Pasionaria e Anita Garibaldi...

Para dourar a pílula, fez a ressalva meramente retórica de que submeterá o País ao "menor sacrifício possível".

O que isto refresca? Nada. Porque se trata de uma admissão de que as possibilidades ditarão a escala do ajuste. Se concluir que é imprescindível um ajuste dos mais rigorosos, Dilma não faltará com a palavra ao implementá-lo, portanto... me engana que eu gosto!

Quanto ao maior escândalo brasileiro de todos os tempos, o da Petrobrás, Dilma continua com a cabeça enfiada na areia, qual avestruz. Diz que é tudo culpa de funcionários subalternos e de um complô internacional. 

Não teria, portanto, nada a ver com o loteamento de cargos e a transformação do governo num balcão de negócios, marca registrada da política podre que nós, ingenuamente, supúnhamos que o PT extirparia do poder, se e quando a ele chegasse. Faz 12 anos que esperamos em vão.

...enquanto estes sabem o que querem e têm de fazer...
Declarações beirando o autismo e a posse de um Ministério super inflado e de quinta categoria só fizeram aumentar nossos receios de que o pior dos mundos possíveis nos espera ao longo de 2015: a certeza de recessão (que talvez evolua para depressão), a ser administrada por um governo fraco e com pouquíssima credibilidade, torpedeado pela direita e pela esquerda.

A primeira, obviamente, tentará o impedimento de Dilma, usando a munição fornecida pelas investigações do petrolão ou outras que surjam. Parece que a única dúvida restante é qual o motivo a ser alegado no pedido de impeachment.

Quanto à esquerda, vale notarmos uma notícia do Estadão do último dia 26, que passou meio despercebida em meio ao clima natalino (a íntegra está aqui):
"Cerca de 40 líderes de movimentos sociais, centrais sindicais e partidos como PT, PSOL, PC do B e PSTU começaram a articular a criação de uma frente nacional de esquerda e já preparam uma série de atos e manifestações para 2015. O objetivo dessa mobilização é o de se contrapor ao avanço de grupos conservadores e de direita não só nas ruas, mas no Congresso e no governo federal.
...A iniciativa partiu de Guilherme Boulos, do MTST, que (...) havia feito elogios ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na inauguração de um conjunto habitacional gerido pelo movimento, na Grande São Paulo.
Dias depois, Lula (...) divulgou vídeo no qual diz que é preciso 'reorganizar' a relação com os movimentos e partidos de esquerda se o PT quiser 'continuar governando o Brasil'".
...e estes devem ser incorporados à luta maior que se travará.
Ou seja, o quadro que se desenha é de enfrentamento entre direita e esquerda, com um governo débil no meio, tentando apaziguar ora a uma, ora à outra. 

Este filme eu já vi e acabou mal. Foi no governo de João Goulart, que, aliás, era muito mais competente do que Dilma e mesmo assim não segurou o rojão.

Para contrabalançar, desta vez quem estará comandando a esquerda é o Lula, político dos mais argutos, que certamente vai obter de volta, na marra, os nacos de poder que lhe foram retirados na reforma ministerial, mas não vacilará um segundo quando for hora de preservar o mandato de Dilma, com todos os seus defeitos, da escalada direitista.

E os valorosos manifestantes que foram às ruas a partir das jornadas de junho de 2013, tão vilipendiados pela esquerda palaciana, agora terão de ser vistos de forma bem diferente: conquistar o seu apoio e engajamento será fundamental para a Frente de Esquerda.

O ano de 2015 promete ser o mais quente na política brasileira desde 1968.

sábado, 24 de outubro de 2009

OS HOMENS UNIDIMENSIONAIS DITOS DE ESQUERDA

(reflexões inspiradas pela reação de leitores do site Vi o Mundo a meu artigo De Lula-lá a Pilatos)

Quando, na década de 1960, Marcuse comunicou o advento do homem unidimensional, deu-nos a impressão de estar apenas exagerando certas tendências dos países desenvolvidos.

Seu retrato impiedoso de um indivíduo em que foi anulada a capacidade crítica e cujas aparentemente livre escolhas são moldadas por forças exteriores parecia-nos apenas outra distopia, na linha do 1984 de George Orwell.

Aí, a partir de 1970, passamos a conviver com aqueles pré-yuppies ensandecidos, a vociferarem “Brasil, ame-o ou deixe-o!”, impermeáveis a qualquer crítica que se fizesse à ditadura militar. Só viam o que queriam ver: a conta bancária no azul, os ganhos na Bovespa, o carango na garagem. Direitos humanos? Ora, isso não enche a barriga de ninguém...

Nós nos consolávamos com o pensamento de que a censura férrea vedava aos cidadãos o conhecimento das mazelas do regime dos generais. Não queríamos acreditar que os eufóricos com o milagre brasileiro eram nossos primeiros homens unidimensionais, avestruzes que enterram a cabeça na areia quando confrontadas com realidades que desmentem suas ilusões.

Pior ainda aconteceria quando os vigaristas neopentecostais começaram a ser desmascarados pela imprensa. As provas de estelionato, curandeirismo, lavagem cerebral e outros crimes se multiplicavam, saltavam aos olhos, até formarem um quadro devastador.

Qualquer ser realmente pensante só poderia concluir que a Igreja Universal do Reino de Deus nada mais era (e é) do que uma arapuca para depenar otários. No entanto, o rebanho de fanáticos fechou os ouvidos, cobriu os olhos e tampou a boca, mantendo-se numa redoma mental até o assunto sair do noticiário. Para eles, tudo não passava de maquinações do Capeta.

O inimaginável seria o fenômeno se reproduzir na esquerda. Mesmo nos piores momentos do século passado, como quando do pacto de Stalin com Hitler, os comunistas se mantiveram disciplinados, mas tinham um mundo de dúvidas na cabeça. Calavam sua insatisfação por acreditarem que a salvação da pátria-mãe do socialismo justificava quaisquer sacrifícios.

Hoje, entretanto, o pesadelo se materializou. Passaram a existir pessoas que acreditam sinceramente ser de esquerda, e com igual sinceridade crêem que se pode possa ser de esquerda caluniando, difamando e injuriando quem quer que contrarie sua posição, mesmo que a partir de outros valores pertencentes ao campo da esquerda.

Na década de 1960, sepáravamos bem uns e outros: aos defensores do capitalismo e do totalitarismo, combatíamos como inimigos, implacavelmente; aos companheiros de outras tendências de esquerda, combatíamos como adversários, respeitando-os e buscando convencê-los, ao invés de tentar esmagá-los sob os rolos compressores do sectarismo.

Tínhamos claro que jamais deveríamos reincidir nas infamias do stalinismo (aquela caricatura grotesca do socialismo!), quando revolucionários exemplares, após uma vida inteira dedicada à causa do proletariado, eram levados a tribunais inquisitoriais sob acusações tão estapafúrdias quanto as de espionagem pró-EUA (ou pró-Alemanha, ou pró-Inglaterra, conforme o vilão do momento) ou complô para envenenar os reservatórios de água...

Parece que a internet adubou as patrulhas ideológicas, o monolitismo do quem-não-é-por-mim-é-contra-mim, o primarismo, a demagogia, a falsificação, a grosseria...

Mas, enquanto tiver vida e forças, continuarei fiel aos valores que norteiam minha atuação: os ideais revolucionários, a defesa dos direitos humanos e o exercício do pensamento crítico.

Como disse Dolores Ibárruri, no desafio que lançou a outra horda, "no pasarán!".
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