Dos sacerdotes católicos mais respeitados pela esquerda, não conheci D. Elder Câmara, fiz uma entrevista inesquecível com D. Paulo Evaristo Arns (videaqui) e admiro o trabalho do padre Júlio Lancellotti, de uma paróquia da Mooca, meu bairro de origem.
Ele acaba de receber de um herdeiro do Torquemada chamado Odílio Scherer, dito arcebispo apesar de nem de longe fazer jus à investidura, uma ordem absolutamente medieval: a de suspender de imediato todas as suas atividades nas redes sociais e interromper as transmissões ao vivo de missas.
Os conservadores e bolsonaristas cuja perseguição ao padre Júlio está por trás de tal medida aberrante também estão tramando sua transferência da paróquia de São Miguel Arcanjo, na qual atua há mais de quatro décadas como defensor incansável dos moradores de rua.
A perseguição dos reaças ao padre Júlio vem de longe e agora chegou ao ápice. Ele protagonizou um episódio emblemático em 2021: a prefeitura colocou obstáculos embaixo de um viaduto para os sem-teto não poderem dormir. Ele foi lá com uma marreta e arrebentou os obstáculos. Fez o que o PT deveria estar fazendo, mas não faz mais.
Minha total solidariedade ao padre Júlio. Meu total repúdio a esses inquisidores que não têm lugar em pleno século 21. (por Celso Lungaretti)
Nem católico, nem espírita, nem islamita, nem budista.
Menos ainda adepto de qualquer dos cultos ao bezerro de ouro que hoje proliferam, arrancando com engodos as últimas moedas dos miseráveis.
Com os religiosos sinceros convivo. Aos mercantilizadores da fé desprezo profundamente.
Minha mãe era kardecista e eu a acompanhava às sessões quando criança. Lá pelos 11 ou 12 anos, numa semana estava doente e não fui. Noutra, chovia forte e não fomos. Na terceira percebi que, bem lá no fundo, eu realmente não queria ir, então nunca mais fui.
As religiões de matriz africana me agradam esteticamente, pela alegria, pelas cores, pelas danças, pela musicalidade e porque as histórias de orixás me lembram a mitologia grega, que eu adoro.
Se tivesse de escolher culto para assistir, dentre todas as religiões que conheço, seria um da umbanda. Certamente não ficaria entediado nem contando os minutos para dar o fora dali. Mas, e a fé? Continuaria ausente.
Quando não passam de engana-trouxas, as religiões são exatamente o que Karl Marx disse no arrazoado célebre, tantas vezes e tão sordidamente deturpado:
"A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo.
A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a auréola".
O ópio, como todos deveriam saber, era uma droga utilizada no século retrasado para mitigar a dor. Cumpria bem tal papel, evitando que doentes graves sofressem terrivelmente. Mas, como não atacava a causa da moléstia, proporcionava apenas um alívio momentâneo. Foi neste sentido que Marx a ele se referiu, como se constata indiscutivelmente na frase completa.
Sou revolucionário e dediquei a minha vida a substituir as felicidades ilusórias dos homens pela satisfação das necessidades humanas, numa sociedade regida pela priorização do bem comum e pela fraternidade plena.
Mas, até chegarmos ao reino da liberdade, para além da necessidade, os revolucionários não podemos jamais nos omitir da defesa dos injustiçados e perseguidos neste vale de lágrimas.
É o que estão sendo hoje e agora os devotos das religiões africanas. Impiedosamente.
Que ninguém se iluda: a cruzada encabeçada pela Micheque não é espiritual, mas racista. Apela aos piores instintos das piores pessoas, aquelas para quem um repulsivo consolo é existir alguém em situação mais desgraçada ainda.
Nem me lembro mais de que personagem de filme ouvi a frase que melhor explica a atitude e a visão de mundo de um branco pobre e racista: "Se eu não sou melhor do que um negro, melhor do que quem eu vou ser?".
Quem não tem coragem para queimar os negros nas cruzes, como os carrascos da Ku Klux Khan, inventa lorotas para disfarçar o sonho monstruoso que carrega na alma.
Como revolucionários, nosso lugar é sempre ao lado dos negros barbarizados e que têm seus templos vandalizados, além de serem expostos à estigmatização pelos farsantes da política crapulosa.
Se houvéssemos todos sido mais firmes na solidariedade às vítimas desse racismo travestido de religiosidade, tão ignóbil preconceito não estaria sendo usado nas fake news contra o candidato Lula, nem na cínica retórica das ovelhas desgarradas que Cristo, se aqui estivesse, expulsaria das marchas a si dedicadas como fez com os vendilhões do templo. (por Celso Lungaretti)
Primeiro presidente da República a prestigiar a Marcha para Jesus, Bolsonaro foi mais adorado que o próprio Jesus.
Num palanque, usando uma camisa promocional do evento (uma versão VIP da camisa, com a marca do jacaré), ele pareceu mais gordinho. Colete à prova de balas?
Diante da multidão concentrada na zona norte de São Paulo, fez com as mãos o conhecido gesto de atirar e voltou a defender o decreto inconstitucional de liberar porte e posse de armas. Foi aclamado, aos gritos de Mito e Messias.
Fiquei na dúvida. Será que aqueles cristãos defendem fuzilamentos em vez de paz e amor?
Ou estavam dando sua concordância à declaração do presidente de que a população precisa se armar para impedir que governantes assumam “o poder de forma absoluta”? [Não, ele não falava da situação da Venezuela, mas do Brasil mesmo.]
Bolsonaro retribuiu a força que recebeu das igrejas durante a eleição. Embora colecionando desmandos e trapalhadas, ele já pensa em 2022.
Hoje os evangélicos são 30% da população e devem crescer ainda mais em importância e estratégia política. A festa de comunhão foi um vale-tudo: bandeiras de Israel, camisas da seleção, figurinos militares, orações para policiais, rejeição à Nossa Senhora Aparecida.
Enquanto um segmento religioso prospera a ponto de tornar seus líderes milionários, outro é perseguido. Bolsonaro —como era aquela história de governar para todos os brasileiros?— até agora não deu um pio sobre o crescimento dos casos de intolerância e violência envolvendo religiões de matriz africana.
Em todo o país, terreiros de candomblé têm sofrido invasões. Homens armados com foices, facões e fuzis agridem os macumbeiros e destroem objetos sagrados. Perseguição desse tipo, antes, só nas primeiras décadas do século passado.
Quem leu Tenda dos Milagres, o romance de Jorge Amado, sabe o quanto estamos regredindo no tempo. (por Álvaro Costa e Silva)
...e quem não leu o romance, pode conhecer a obra clicando acima para
assistir à versão cinematográfica que Nelson Pereira dos Santos dirigiu
em 1977, com Hugo Carvana, Sônia Dias, Anecy Rocha e Jards Macalé.
É melancólico vermos o intragável Reinaldo Azevedo (clique aqui) deitando e rolando em cima das concessões ideológicas feitas pela Dilma durante a temporada de caça aos votos, atirando-lhe na cara vários exemplos de incoerência com posições anteriormente assumidas por ela e por seu governo.
É deprimente constatarmos que, desta vez, ele tem inteira razão, ao acusá-la de trair e mascarar suas convicções para torná-las palatáveis a (na minha opinião, não na do RA) eleitores zumbificados, perdidos nas trevas medievais e criminosamente tosquiados por falsos pastores, dos quais teriam de ser protegidos pelos Poderes da nação.
Os compromissos ora assumidos são os que a impedirão de, reeleita, estimular e/ou apoiar as iniciativas policiais e judiciais no sentido de que estelionato, lavagem cerebral, exploração da fé, charlatanismo, curandeirismo, lavagem de dinheiro e perseguição religiosa (contra os cultos afro-brasileiros) passem a ser efetivamente punidos nestes tristes trópicos.
Posso estar clamando no deserto, mas continuarei insistindo que esquerda no poder é aquela que, após fazer campanha eleitoral com discurso de esquerda, governa segundo o ideário da esquerda. Caso contrário, será incapaz de encabeçar as transformações agudas de que nossa sociedade desesperadamente carece e só vai estar dando ensejo a que os inimigos a desmoralizem aos olhos dos cidadãos comuns, qualificando-a de farinha do mesmo saco.