"Bolsonaro é um racista, um misógino e um violento que é a favor da tortura. Que alguém assim fale mal de mim é algo que eu celebro. Lula deveria estar livre para poder concorrer a uma eleição com ele." (Alberto Fernández, candidato oposicionista que recebeu ajuda involuntária de Bolsonaro para arrasar Macri na disputa primária)
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terça-feira, 13 de agosto de 2019
QUEM TEM TELHADO DE VIDRO, NÃO ATIRA PEDRAS NO TELHADO DO VIZINHO
domingo, 17 de fevereiro de 2019
AO INVÉS DE TENTARMOS CONCORRER COM O CAPITALISMO MUNDIAL EM FIM DE FEIRA, DEVEMOS ADOTAR OUTRO MODELO – 1
dalton rosado
O BRASIL E O DECRÉPITO CONCERTO CAPITALISTA MUNDIAL
O universo globalizado das relações capitalistas em fase de limite da capacidade de expansão do sistema produtor de mercadorias enfrenta impasses intransponíveis tanto na direção econômica quanto na ecológica.
Evidentemente, tais dificuldades têm reflexos graves na política, incapaz de contraditá-la e ser soberana em seus atos.
A esperança vem dos jovens e perplexos desempregados, principalmente dos países do chamado 1º mundo. Mesmo sem uma orientação teórica mais aprofundada (pois isto não lhes é ensinado na educação formal ou acadêmica), eles intuem a necessidade de uma nova forma de socialização e protestam nas ruas.
O que está acontecendo com os protestos ecológicos no Reino Unido, com os coletes amarelos na França e com o surgimento de jovens atores da cena política estadunidense (como a deputada socialista Alexandria Ocaso-Cortez), ainda que esteja enquadrado na camisa de força político-partidária, dá bem a dimensão dessa auspiciosa novidade.
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| "os países mais pobres se desintegram economica e politicamente" (êxodo de venezuelanos) |
O capitalismo já não capaz de gerar valor válido, advindo da produção e da circulação de mercadorias; e é isto que sinaliza a emissão de moeda sustentada pela dinâmica da reprodução aumentada do valor, sem a qual tudo fica artificial e aponta para um colapso de proporções gigantescas.
Ressalte-se que, no itinerário da debacle capitalista, os países mais pobres se desintegram economica e politicamente, com governos sustentados pela força das armas diante da insatisfação popular. Tal fenômeno se observa em países africanos, asiáticos e latino-americanos (Nicarágua e Venezuela inclusos).
Neste contexto, somente sobrevivem alguns modelos capitalistas, assim mesmo precariamente e com data de validade em contagem regressiva, pois, adiante, acabarão por também sucumbirem à falência geral. São eles:
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| À falta de um lastro como as reservas de ouro de outrora, o dólar hoje não passa de dinheiro sem valor |
— os países produtores de mercadorias tecnológicas de alto padrão, que incorporam alto valor agregado (trabalho excedente muito superior ao quantum de trabalho necessário para as suas fabricação e comercialização, como as mercadorias patenteadas e/ou com sigilo industrial guardado a sete chaves);
— os países cujas moedas têm credibilidade mundial, podendo, assim, ser emitidas e exportadas sem provocar inflação interna, além de receberem parte dos lucros de suas empresas sediadas noutros países e, principalmente, dos lucros do sistema financeiro internacional (embora tais lucros se fundem em dinheiro sem valor, apresentam balanços contábeis absurdamente positivos);
— os países populosos, com mão-de-obra barata e alto nível de endividamento, como a China e a Índia, que ganham competitividade na guerra concorrencial de mercado.
Tudo se processa de modo muito artificial e insustentável. Já são sentidos os sintomas de um colapso de todo o sistema proporcionado pela dívida pública e privada estratosférica e insolvável por valor válido ou dinheiro sem valor.
| "já são sentidos os sintomas de um colapso de todo o sistema" |
As potências inseridas no G7 são gigantes com pés de barro que ainda teimam em raciocinar como no pós-guerra quando o mundo se dividiu em dois blocos (Estados Unidos e União Soviética) que disputavam a hegemonia econômica capitalista liberal de um lado, e estatal capitalista do outro, tudo dentro de um espectro político que gerou a chamada guerra fria.
O Brasil não se insere em nenhuma dessas hipóteses. Estamos fora do protagonismo da cena mundial capitalista, ainda que sejamos um país com extrema fartura de riquezas materiais.
Temos um Estado burocrático que olha para o cidadão como um criminoso em potencial até que ele prove o contrário (se for um criminoso endinheirado, contudo, tem salvaguardas judiciais e outras).
Temos uma lei que faz exigências sociais de 1º mundo em todas as áreas sociais, mas uma economia que leva a falência os empreendedores, impedindo-os de a cumprir.
Temos um processo eleitoral desmedidamente influenciado pelo poder econômico, o qual elege bancadas corporativas representadas em grande parte pela escória da sociedade (não são pouco os parlamentares processados pelos mais variados tipos de crimes e que se se tornam temporariamente impunes graças à imunidade que adquirem).
Temos um processo eleitoral desmedidamente influenciado pelo poder econômico, o qual elege bancadas corporativas representadas em grande parte pela escória da sociedade (não são pouco os parlamentares processados pelos mais variados tipos de crimes e que se se tornam temporariamente impunes graças à imunidade que adquirem).
| "Temos um processo eleitoral desmedidamente influenciado pelo poder econômico" |
Temos uma abismal diferenciação salarial entre os privilegiados da sorte (membros do Poder Judiciário, Legislativo e Executivo) e o cidadão assalariado de baixa renda (um juiz ganha num mês o que o trabalhador de salário-mínimo recebe em vários anos).
Temos um carga tributária complexa e cara.
Temos uma dívida pública e privada que paga as mais altas taxas de juros do mundo e que faz a alegria do sistema financeiro instalado aqui e alhures.
Temos um país de analfabetos disfuncionais ou funcionais e uma educação primária que se transformou num grande negócio para as empresas da educação direcionadas para os que podem pagar – e numa lástima para quem é obrigado a estudar em escolas públicas! (por Dalton Rosado)
(continua)
domingo, 26 de agosto de 2018
"JAMAIS IMAGINEI, HÁ 16 ANOS, QUE OS POBRES VENEZUELANOS ABANDONARIAM A PÉ SUA TERRA PARA NÃO MORRER DE FOME"
clóvis rossi
VENEZUELA, OU COMO MORRE UM PAÍS
"...Janaina Figueiredo, a excelente jornalista que é correspondente de O Globo em Buenos Aires... [enfocou a crise venezuelana num texto que] demonstra sentimento, coração, coisas que o jornalista quase sempre tem que sufocar para cingir-se aos fatos secos e/ou à opinião baseada neles.
Ela escreveu sobre sua experiência de nove viagens à Venezuela, entre 2002 e 2018:
'Vi esse país desmoronar lentamente e jamais imaginei, há 16 anos, que os pobres venezuelanos, que foram a base do chavismo, abandonariam a pé sua terra para não morrer de fome. A Venezuela dói, cada vez mais'.
Tenho idêntico sentimento cada vez que vejo as fotos de venezuelanos marchando rumo ao Brasil, à Colômbia, ao Peru, ao Equador, até à Argentina e ao Uruguai, tão distantes. "A dimensão do êxodo rivaliza com aqueles de países devastados por guerras como Afeganistão e Sudão do Sul", escreve a revista The Economist no número que está nas bancas.
No total, a ONU calcula que 2,3 milhões de venezuelanos fugiram da ditadura fracassada. Posto como proporção das respectivas populações, corresponderia ao êxodo de uns 15 milhões de brasileiros, mais que toda a população da cidade de São Paulo.
Por isso e por todos os demais dados do colossal desastre econômico e social da Venezuela, atrevo-me a sugerir um complemento ao já clássico Como Morrem as Democracias, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.
O que está acontecendo na Venezuela vai muito além da morte da democracia, o que já seria desastroso. É a morte de um país.
Na coluna para a Folha de S. Paulo de 6ª feira (24), Levitsky escreve, tendo em mente a Venezuela, entre outros países: "Hoje, a maioria das democracias morre não por ação de generais, mas sim de líderes eleitos —presidentes ou primeiros-ministros que usam as instituições da democracia para subvertê-la".
De pleno acordo, mas é importante ir além e investigar como se torna possível que se elejam líderes que acabam apunhalando a democracia.
A Venezuela seria o perfeito estudo de caso para explicar como essa tragédia ocorre. Fez em meio século o percurso de saída de uma ditadura (de Marcos Pérez Jiménez, 1952-58) para acabar caindo nas mãos de Hugo Chávez, o líder eleito que usou as instituições da democracia para comê-las pelas bordas até que seu sucessor, Nicolás Maduro, completasse a obra de destruição —da democracia e do país.
Como isso aconteceu é tema que cientistas políticos ou historiadores explicariam melhor. Minha opinião: a democracia venezuelana nunca foi inclusiva o suficiente para apaixonar as massas marginalizadas e empobrecidas.
Quando surge alguém como Hugo Chávez disposto a ouvi-las, vão atrás. Pouco importa se é demagogia, se é populismo, se é insustentável. Sentem uma atenção que jamais tiveram.
Não é diferente em grande parte da América Latina. A democracia precisa atender às maiorias. A alternativa, se e quando algum Chávez se instalar, será dizer que dói, como Janaina disse sobre a Venezuela." (trechos de artigo do Clóvis Rossi publicado neste domingo, 26)
sábado, 25 de agosto de 2018
SURTO DE XENOFOBIA DESEMBESTADA NOS FAZ RETROCEDER À IDADE DA PEDRA
hélio schwartsman
PELO FIM DAS FRONTEIRAS
Imigração é um fenômeno estranho. Do ponto de vista puramente racional, ela é a solução para vários problemas globais. Mas, como o mundo é um lugar menos racional do que deveria, pessoas que buscam refúgio em outros países costumam ser recebidas com desconfiança quando não com violência, o que diminui o valor da imigração como remédio multiuso.
No plano econômico, a plena mobilidade da mão de obra seria muito bem-vinda. Segundo algumas estimativas, ela faria o PIB mundial aumentar em até 50%. Mesmo que esses cálculos estejam inflados, só uma fração de 10% já significaria um incremento da ordem de US$ 10 trilhões (uns cinco Brasis).
Uma das principais razões para o mundo ser mais pobre do que poderia é que enormes contingentes de humanos vivem sob sistemas que os impedem de ser produtivos.
Uma das principais razões para o mundo ser mais pobre do que poderia é que enormes contingentes de humanos vivem sob sistemas que os impedem de ser produtivos.
Um estudo de 2016 de Clemens, Montenegro e Pritchett estimou que só tirar um trabalhador macho sem qualificação de seu país pobre de origem e transportá-lo para os EUA elevaria sua renda anual em US$ 14 mil.
A imigração se torna ainda mais tentadora quando se considera que é a resposta perfeita para países desenvolvidos que enfrentam o problema do envelhecimento populacional.
Não obstante tantas virtudes, imigrantes podem ser maltratados e até perseguidos quando cruzam a fronteira, especialmente se vêm em grandes números. Isso está acontecendo até no Brasil, que não tinha histórico de xenofobia. Desconfio de que estão em operação aqui vieses da Idade da Pedra, tempo em que membros de outras tribos eram muito mais uma ameaça do que uma solução.
De todo modo, caberia às autoridades incentivar a imigração, tomando cuidado para evitar que a chegada dos estrangeiros dê pretexto para cenas de barbárie. Isso exigiria recebê-los com inteligência, minimizando choques culturais e distribuindo as famílias por regiões e cidades em que podem ser mais úteis. É tudo o que não estamos fazendo. (por Hélio Schwartsman)
OS ÚLTIMOS VÍNCULOS ELEMENTARES DE SOLIDARIEDADE FORAM DESTRUÍDOS NA FESTA MACABRA DE CAÇA A ESTRANGEIROS
vladimir safatle
REFUGIADOS E CIDADÃOS
Há de se retornar mais uma vez a Pacaraima, pois é nessa cidade no extremo norte do país que se define atualmente o Brasil.
Pode parecer que essa é apenas uma frase de efeito para dramatizar um pouco textos jornalísticos do final de semana. Mas a verdade é que a vila de pouco mais de 12 mil habitantes é o ponto privilegiado de contato do Brasil com as dinâmicas de reconfiguração da política mundial e da função do que podemos entender por Estado-nação.
A imagem aterradora de uma turba queimando pertences de refugiados, suas tendas, e expulsando-os enquanto entoavam o hino nacional com o orgulho dos criminosos que se julgam moralistas, dos bandidos que têm olhos duros contra o crime, não é um incidente isolado. Esse é um caso premeditado.
O descaso do governo federal com a sorte dos refugiados e sua incapacidade de organizar uma política mínima de acolhimento e distribuição no território nacional desses que procuram fugir de instabilidades econômicas e políticas não são apenas uma falta moral repugnante. São uma bomba-relógio política já montada em várias partes do mundo.
Melhor gerir um povo em luta contra refugiados e delirando sobre símbolos nacionais do que alguém que não cai nesse tipo de armadilha primária. Poderíamos lembrar da aberração de ver cenas dessa natureza num país como o Brasil, construído pela escravização dos negros, pelo extermínio de indígenas e pelo acolhimento de levas de refugiados armênios, sírios, libaneses, judeus, assim como de tantos outros imigrantes fugindo da miséria desde o século 19.
Essa aberração pode até ser loucura, já que ela expõe a mobilização de medos atávicos num país que se beneficiou há mais de um século do que os refugiados trouxeram. Mas essa loucura tem método.
Num momento no qual o Estado-nação já não existe mais, no qual as fronteiras econômicas são ficções, no qual a desestabilização da lira turca provoca efeitos imediatos na economia brasileira, cantar o hino nacional como expressão de um este é meu lugar, forasteiro só pode ser visto como um atestado de impotência travestido de força.
Ele é a prova maior de como o nacionalismo é o último refúgio da estupidez humana. Dele, as únicas coisas a derivar são paralisia e destruição.
Não tendo mais função econômica alguma, a nação se resume atualmente a seu núcleo originário. Natio, em latim, está ligado a nascimento, origem. Ou seja, trata-se da simples afirmação fantasmática do nascimento que pretensamente nos daria algo de comum e intransferível.
Mas nada nos une como brasileiros; nem sequer temos uma história em comum, nossos pactos entraram em colapso. Para se esquecer disso sempre haverá aqueles que procurarão criar unidades fictícias, construindo inimigos externos, mesmo que tais inimigos sejam refugiados lutando pela simples sobrevivência.
Mas é fato que nem sequer nisso o Brasil inova. A política mundial tem em um dos seus pilares a produção contínua de refugiados. Não há país minimamente desenvolvido que não se beneficie da pressão de desestabilização produzida pelo fato de existirem massas de não-cidadãos migrando pelo mundo. Não-cidadãos que estarão dispostos a suportar as piores privações para não retornarem à sua insegurança inicial.
Normalmente, o refugiado é contraposto ao cidadão, aquele que tem direitos e territorialidade garantidos pelo Estado. No entanto o cidadão sempre precisou do refugiado para se esquecer de sua contínua precarização e fragilidade.
Ele precisa disso para esquecer que será o próximo refugiado, o próximo a se encontrar em condição de vulnerabilidade extrema, o próximo a vagar sem rumo à procura de condições elementares de sobrevivência. Pois os vínculos elementares de solidariedade foram destruídos na última festa macabra de caça a estrangeiros.
Aí será tarde para descobrir que a solidariedade ou é irrestrita e incondicional ou é simplesmente inexistente. Será tarde para descobrir que nos tornaremos refugiados paradoxalmente cantando o hino nacional contra refugiados. (por Vladimir Safatle)
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