sexta-feira, 23 de junho de 2017

OS REFORMISTAS E A PICADA DA MOSCA AZUL DO PODER

"Reformar o capitalismo é como
perfumar merda" (pichação de muro)
.
A pior crise mundial do capitalismo desde a grande depressão da década 1930, com reflexos substantivos no Brasil, tem o condão de tornar explícito o colaboracionismo da esquerda reformista: ela não tem pejo de voltar a propor medidas salvacionistas que não vão à raiz do problema, deixando intacta a dominação capitalista. 

Ou seja, cada vez que uma crise econômica mais aguda se abate sobre o Brasil, os reformistas correm a exumar o seu antigo e surrado discurso anti-imperialista, que jamais passou de um contraponto ao liberalismo burguês. Na verdade, o capitalismo liberal (ou neoliberal) e a esquerda keynesiana reformista são espécies políticas de um mesmo gênero: o capitalismo.

Estamos assistindo novamente ao desespero da esquerda colaboracionista, que tanto se desmoralizou no passado por praticar um populismo atrasado que acendia uma vela ao diabo (o empresariado nacional e estrangeiro financiador de campanhas eleitorais e enriquecimento ilícito de muita gente) e outra a Deus (a ajuda aos coitadezas dependentes dos programas sociais de combate à miséria absoluta). Ela quer ressurgir das cinzas, fazendo-se passar por alternativa aos seus igualmente desgastados adversários políticos neoliberais.

É incrível como os aparentemente diferentes se igualam na essência quando se trata de salvar o capitalismo, para que possam continuar alternando-se no controle do poder político estatal que lhes dá sustentação.

Noticia-se uma articulação parlamentar (não seria para lamentar?) visando à criação de uma pretensiosa Frente de defesa da soberania nacionalista sem xenofobia, que, encabeçada por Lula e Roberto Requião, concorreria à eleição presidencial de 2018 com um programa anti-imperialista.

Vale a pena analisar criticamente cada ponto desse programa reformista que está fadado a resultados nefastos para a vida do povo e ao amortecimento da luta revolucionária pela emancipação humana. Diz um documento dos organizadores:
Um cartaz de campanha já está pronto
"...está soando bem aos soldados de primeira hora da Frente – partidos, centrais sindicais, associações, movimentos sociais, estudantes, etc. etc.  o programa Brasil Nação, esboçado por intelectuais nacionalistas, de esquerda etc., coordenados pelo economista Bresser Pereira, dissidente tucano, no qual pontifica-se fundamentalmente três pontos: 1 – remoção urgente do congelamento neoliberal de gastos públicos; 2 – aumento dos salários; e 3 – política cambial competitiva".
O texto propõe um "cavalo de pau no neoliberalismo de Temer/Meirelles, imposto (...) pelo Consenso de Washington, para sucatear o Brasil de bandeja para as multinacionais". E argumenta que, com o "congelamento de gastos para vigorar durante 20 anos, como empurrado goela abaixo no Congresso, (...) abre-se mão (...) do poder do Estado, por meio do qual torna-se possível equalizar a luta de classes (!), mediante aposta em programas sociais – a força de Lula – que determinam pujança dos mercados internos (!!), sem os quais inexiste capitalismo nacional social democrata (!!!)". Todos os grifos são meus. De resto, será que esta ode ao Tio Patinhas não soaria melhor se acompanhada por plangentes violinos? 

Eis outras bobagens:
"A política social compreende (...) respeito total às conquistas sociais e econômicas inscritas na Constituição de 1988, como fator de estabilidade geral. Elas são responsáveis por estabelecer o estado do bem estar social, que Lula-Dilma perseguiram, até serem derrubados pela direita golpista, em 2016" [Esqueceram de dizer que o Estado do bem-estar social só funcionou a contento nos países escandinavos, hoje não passando de uma miragem que se dissipou com o agravamento da crise capitalista em escala mundial.] 
Ué, o ajuste fiscal não era execrado pela esquerda?
"Ao lado da promoção dos programas sociais, (...) aumento dos salários decorrerá do descongelamento dos gastos públicos, fator de impulso à demanda global. Indispensável será adoção de ajuste fiscal (!) como fator de fortalecimento e não de enfraquecimento do Estado, destacou Bresser. A esquerda, diz ele, não pode ter medo de ajuste fiscal (!!), desde que seja fator de fortalecimento dos agentes econômicos – Estado, trabalhadores e empresários. O lucro empresarial precisa ser estimulado pelo Estado (!!!), na exata proporção do fortalecimento dos setores sociais, geradores de renda disponível para assegurar a interatividade econômica, produção, distribuição, circulação e consumo, essência do capitalismo. Trata-se de equilíbrio dinâmico"
"Por fim, faz-se necessária (...) política cambial competitiva anti-populista. A moeda nacional ligeiramente desvalorizada para estimular exportações capazes de gerar superávits em contas correntes do balanço de pagamento ao lado de ajuste fiscal capaz de assegurar oferta e demanda com relativo controle de preços e juros no patamar internacional, mais uma margem de lucro para os investidores. Seria essa, diz Bresser, a alternativa capaz de recuperar sustentavelmente a indústria nacional, em bancarrota desde os anos 1990 (...). Com isso, destacou, será possível acumular, anos afora, superávits em contas correntes, como faz a China, faz mais de trinta anos, configurando o desenvolvimento capitalista de maior sucesso na história da humanidade, orientado pelo estado indutor desenvolvimentista (!)". 
Estes também sonham com a união cívico-militar
E, por último, esta pérola:
"Estado mínimo, como impõe os neoliberais, precisará ser removido com união cívico-militar, segundo o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ)"[Já não bastaram os 21 anos perdidos devido à união cívico-militar de 1964? O PSOL também vai fazer o papel de vivandeira de quartel?!]
DENTRO DA IMANÊNCIA CAPITALISTA NÃO HÁ SALVAÇÃO
.
Vamos destrinchar todo este besteirol cheirando a mofo e naftalina, começando por dizer que todo nacionalismo é xenófobo, ainda que envergonhado de tal condição. Historicamente, a defesa dos interesses nacionais, dentro da concorrência de mercado capitalista que criou o nacionalismo, significa que os nacionais devem ser protegidos contra o interesse econômico dos outros nacionais estrangeiros São, portanto, adversários e concorrentes implícitos, embora não o declarem.

O capitalismo não é imperialista apenas do ponto de vista da defesa dos interesses nacionais (que existem, obviamente), mas, principalmente, do interesse do capital. A globalização da economia nada mais é do que a migração do capital (sempre imperialista, seja ele privado ou estatal) em busca de horizontes de trabalho necessário (aquele remunerado) mais barato, para que possa obter um ganho com o trabalho excedente (trabalho não remunerado, que oportuniza a extração de mais-valia e acumulação do lucro).
Eis um nacionalismo que vingou no Brasil. Alguém o quer de volta?
A defesa de um nacionalismo sem xenofobia, além de representar contradição no seu objeto teleológico, representa também uma impossível tentativa de volta aos primórdios do capitalismo, quando os países que estatizaram as suas economias, orientados pela doxa socialista, fecharam-se nas suas fronteiras para se protegerem dos países capitalistas desenvolvidos (que tinham níveis de produtividade superiores). 

Tais nações obtiveram bons resultados iniciais, mas suas economias não conseguiram acompanhar as evoluções científicas e tecnológicas da segunda metade do século passado, acabando por abrirem-se ao mercado internacional . O capitalismo tem como senhor das ações a sua própria lógica vazia de sentido virtuoso, daí ser impossível domesticá-lo como querem os reformistas de esquerda.

Por outro lado a defesa do descongelamento dos gastos públicos (portanto, estatais) acarreta uma elevação de déficit público, que representa aumento da dívida pública (se não houver receitas estatais e continuarem os gastos públicos). Em resumo, o resultado final são mais juros da dívida a serem pagos pelo contribuinte. 
"O lucro empresarial precisa ser estimulado pelo Estado". Assim?
Ou seja, os reformistas keynesianos de esquerda querem manter os gastos públicos sem explicarem quem ou o que financia tais gastos. Aí, quando assumem o poder, cinicamente negam o seu discurso, mesmo porque no capitalismo, como dizia o economista burguês Milton Friedman, não há almoço grátis.

Mundialmente os salários decrescem por força da competitividade de mercado, que implica a busca da redução de gastos de produção, a qual somente é possível com a mecanização extrema da produção de mercadorias (que não produz valor) ou com a imposição de salários baixos (como ocorre atualmente na Índia, que é um dos poucos países a ter crescimento do PIB, 7,8% em 2016). 

Assim, como não se aumentam salários por decreto, a proposição da Frente Parlamentar de aumento de salários sem explicação consistente, ou apenas baseada num pretendido crescimento econômico (que ela espera obter com mais capitalismo), é uma falácia eleitoreira destinada a engambelar os agoniados trabalhadores nestes dias de penúria e desemprego estrutural.

As moedas representam (ou devem representar) um determinado quantitativo de valor oriundo do nível médio de remuneração do trabalho abstrato na produção de mercadorias. É graças a isto que os produtos chineses e indianos, fabricados com salários aviltados ao extremo, têm baixo valor (e, consequentemente, baixo preço), qualquer que seja o padrão monetário. Entretanto, a manipulação cambial, que contraria esta regra, é apenas mais um dos muitos engôdos da fratricida concorrência mundial de mercado, que visa ludibriar com fôlego curto as implacáveis regras da economia.
A política econômica dos frentistas dará certo... se eles dispuserem deste requisito fundamental.
Destarte, uma política cambial competitiva, como defende a Frente Parlamentar, é uma postura de capitalismo de cassino, na qual se quer usar artifícios econômicos que, ao invés de serem exaltados, deveriam é estar sendo denunciados como mais um dos muitos dos males do capitalismo. Os que pregam tal subterfúgio, certamente o recriminariam se adotado por seus concorrentes. A esperteza capitalista nunca leva a bons resultados...

O discurso contra o neoliberalismo e suas atrocidades não legitima o discurso keynesiano da tal Frente Parlamentar. Ambos são capitalistas e estão fadados ao fracasso (agora até no curto prazo). Ambos merecem ser rechaçados pelos revolucionários emancipacionistas, aqueles para quem é imperativo adotarmos um novo modo de produção (sem valor, dinheiro, mercadorias e trabalho abstrato) e uma organização social horizontalizada para superarmos as agruras hoje impostas à maioria da população brasileira e mundial.  

Somente o desconhecimento completo da economia política (ou, pior ainda, a desonestidade intelectual) é que pode admitir a equalização da luta de classes por meio do Estado (Roberto Requião), qualquer que seja o seu matiz ideológico e a partir da manutenção do capitalismo e da introdução de programas sociais pelo Estado que a ele serve (não a nós!). 
Ou nós acabamos com o capitalismo ou ele acaba conosco

Vale lembrar que as demandas sociais no Brasil (e no mundo) estão sendo sucateadas exatamente pela falência do capitalismo e do seu Estado nacional arrecadador de impostos. As políticas econômicas desenvolvimentistas da Frente Parlamentar não passam de uma variante recauchutada daquilo que até Donald Trump defende: o desenvolvimento econômico, ou seja, mais capitalismo para salvar o capitalismo.   

As parcas franquias sociais, algumas meramente falaciosas, contidas na Constituição Federal de 1988, capitalista da sua essência constitutiva (e, portanto, opressora, por força do objeto final por ela defendido) estão sendo negadas na prática justamente pela incapacidade do Estado e da própria mediação social capitalista em distribuir riqueza abstrata (e agora até de produzi-la). Nenhuma Carta Magna capitalista e governo idem será capaz de suprir essa hipossuficiência, justamente porque o Estado não produz valor, mas apenas o regulamenta por meio do controle monetário.

A Frente Parlamentar propor ajuste fiscal humanizado é um acinte à nossa inteligência. Ajustar as receitas públicas decadentes aos custos da pesada máquina estatal (funcionários públicos, poderes institucionais, forças militares, etc.); aos pesados e crescentes juros da dívida pública; ao déficit previdenciário e ao suprimento das demandas sociais, significa cortar gastos naquilo que é economicamente possível. Então, acabam sendo sacrificadas as demandas sociais, cuja precarização se acentua a olhos vistos.
A China é exemplo do quê mesmo?!
Com a maior cara de pau, os frentistas defendem explicitamente o lucro empresarial (que só pode existir a partir da exploração da mais-valia exacerbada dos trabalhadores), afirmando que o lucro empresarial precisa ser estimulado para a promoção do equilíbrio econômico. Diante de tal despropósito, caso a articulação siga adiante com a participação de Lula e do Partido dos Trabalhadores, sugiro atualizarem nome do segundo, alterando-o, p. ex., para Partido dos Livres Empreendedores...

O PSOL também parece viver a mesma crise de identidade, a julgar pela exortação melodramática do deputado Glauber Braga: Precisamos evitar o estado mínimo antes que sejamos engolfados pelo vendaval neoliberal!. Como se o fortalecimento do estado burguês ou keynesiano estatizante fosse saída para nossos sofrimentos coletivos...

As aberrações culminam com o elogio à China, apontada como exemplo de maior desenvolvimento capitalista de sucesso na história da humanidade, a ser, portanto, seguido. Os autores parecem ignorar que a dívida pública e privada chinesa é de 270% do PIB em curva decrescente; a recente redução de sua nota de crédito pela agência de rating Moody’s deverá acarretar o próximo grande abalo do sistema financeiro internacional, muito maior do que o causado pela crise do sub-prime de 2008/2009 (que obrigou os Tesouros dos EUA e da União Europeia a taparem o buraco com moeda sem lastro, adiando o crash vindouro.

Ou Lula, Roberto Requião, Gleise Hoffmann, Glauber Braga, Bresser Pereira e demais reformistas desconhecem a essência da crise econômica acima exposta en passant, estando, portanto, desautorizados a conduzir os destinos da vida social brasileira nesses tempos sombrios, ou assim procedem por terem sido picados pela mosca azul do poder e dele não aceitarem ser desapeados, o que configuraria pura e simples desonestidade intelectual.

Dentro da imanência capitalista não há solução. Ou nós acabamos com o capitalismo ou ele acaba conosco.
.
(por Dalton Rosado)

5 comentários:

marcosomag disse...

O artigo de Dalton Rosado tem uma miríade de erros de avaliação. Praticamente, desconhece o êxito do "Welfare State" não apenas nos países nórdicos, mas nos EUA (até 1980), no Japão e na França. Faz coro aos neoliberais ao considerar "pesada" a chamada "máquina" estatal brasileira desconsiderando os dados reais como porcentagem da PEA que trabalha para o Estado (11% no Brasil, 30% na França),e não levar em conta a baixa carga geral de impostos (28% no Brasil, 63% na Suécia) que pagaria perfeitamente o "Welfare State" brasileiro. É desatualizado em relação a condições de trabalho e salário do trabalhador chinês, que já ganha mais do que o brasileiro no setor industrial (e o descompasso vai se aprofundar com as "reformas" neoliberais em andamento). Desconsidera os gigantescos superávits chineses na balança de pagamentos e na balança comercial, além de sua formidável reserva em ouro e em títulos do Tesouro estadunidense sendo o gigante asiático o maior credor do mundo. Simplesmente não existe o cenário futuro por ele descrito de crise internacional por conta da China. O que existe é possibilidade de uma nova crise (lembrando que a de 2008 ainda não foi superada) devido a falta de regulamentação do sistema bancário estadunidense e da enorme quantidade de ativos "podres"
de bancos europeus (em especial, de bancos italianos e alemães). O capitalismo ainda tem um grande caminho a percorrer no Brasil pois ao contrário da Europa e Japão quase toda a infraestrutura ainda está por ser feita. Sem exagero, estamos em ponto similar a tal respeito como estava a Europa no final da Segunda Guerra Mundial. E o socialismo viria após o pleno desenvolvimento capitalista. O que está ainda muito longe de ser realidade no Brasil.

celsolungaretti disse...

RESPOSTA ENVIADA POR E-MAIL PELO DALTON:

Caro Marcosomag,

o chamado “wellfare state”, ou “estado do bem estar social” havido nos países ricos que representam pequena parcela da população mundial (Estados Unidos, França e Japão citados representam, pouco mais de 7% da população mundial) e que por muito tempo serviu como exemplo a ser seguido, agora se veem privados do financiamento pelo estado de benesses aos seus cidadãos graças aos problemas financeiros que se evidenciam. A exceção dos Estados Unidos (dívida pública de 100% do PIB) se deve ao fato de que é emissor de moeda internacional e venda de títulos que lhe garante estabilidade momentânea.

O déficit público no orçamento brasileiro bem demonstra que a nossa carga fiscal é incompatível com as despesas orçamentárias (pagamos juros altos por nossa dívida pública, diferentemente de países do G7 que obtêm financiamento a juros negativos). O povo brasileiro não aguentaria mais impostos, e se isso acontecesse a nossa economia travaria de vez. O interesse neoliberal no estado mínimo não legitima o estado máximo, pois ambos os pensamentos (neoliberais e keynesianos) se situam dentro da imanência capitalista em fim de feira.

A renda per capita chinesa, de USD 7.924,65 é inferior à brasileira, de USD 8.538,59, mesmo com dois anos de recessão braba. A queda no crescimento chinês aliada ao seu alto endividamento (270% do PIB) deve representar insolvência futura, fato que esta apavorando os credores dessa mesma dívida. O superávit chinês na balança de pagamentos, fruto da exportação one way, acumula títulos e dólares podres, tornando-a dependente do equilíbrio capitalista mundial, e é por isso que o mandatário “comunista” chinês defendeu em Davos, na Suíça, a expansão do livre comércio internacional. A China está presa numa armadilha capitalista que ela mesma engendrou. A miséria chinesa (que a estatística de renda per capita não pode captar) é aviltante (mais de 300 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, com renda de USD 1,00 diários). A China não é um bom exemplo a ser seguido. A Índia, sua vizinha, é ainda pior, e ambos os países representam cerca de 40% da população mundial.

O Brasil é um país rico em riquezas naturais, materiais, mas é pobre em riqueza abstrata. Com o capitalismo em fase de recessão mundial, a possibilidade de vir a representar um desenvolvimento econômico como aquele havido no pós-guerra na Europa e Japão é nulo. A nossa salvação está justamente na abolição do desenvolvimento econômico e numa aposta no desenvolvimento humano, que não passa pela ilogia da riqueza abstrata.

A análise que faço está baseada em números concretos que não pode ser refutada, a menos que se queira manipular tais números em benefício da defesa insustentável do capitalismo mundial nesses tempos de limite interno de sua expansão, e que aponta para a necessidade inadiável de sua superação, para desgosto de muitos. Miríade é tentar tapar o sol como uma peneira.

Grato pelo comentário que me oportuniza fazer a breve demonstração acima. Dalton Rosado.

marcosomag disse...

Não sou economista. Mas, acompanho com atenção a situação do Brasil e do mundo. Tenho a paciência de ler as opiniões desde neoliberais como Eduardo Gianneti da Fonseca e Gustavo Franco, um sociai-liberal como Paul Krugman e até os marxistas-leninistas do PCP e também, o atual secretário-geral do PCB, Edmilson Costa, que é economista.

Respeito a sua opinião. Mas, mantenho a defesa da minha teses da viabilidade do "Welfare State" no Brasil (e, em conseqüência, do programa Belluzo/Bresser Pereira/Singer), da iminência de uma nova crise financeira via bancos italianos e alemães (a precária situação do Deutsche Bank é sobejamente conhecida) e da relativa estabilidade chinesa devido ao "equilíbrio do terror econômico" entre a China e os EUA (embora reconheça os problemas de endividamento chinês que você aponta).

Embora existam problemas para a continuidade da política do "Welfare State" nos países que o adotaram, tais problemas são diferentes em cada país que adotou este modelo de capitalismo. O Japão tem o problema do envelhecimento da população, que causa estagnação econômica. Os EUA vêm desmontando o aparato social do "New Deal" desde a Era Reagan, e tem um sério problema de endividamento que tende a piorar com o binômio corte de impostos (dos mais ricos)/aumento nos gastos militares. Já a Noruega tem as receitas da exploração petrolífera e está em uma situação mais confortável. A Islândia caiu na armadilha neoliberal, viu seu endividamento "explodir" e a população reagir a tal estado de coisas revertendo a liberalização financeira através de eleições.

A defesa que faço da continuidade do capitalismo no Brasil e da possibilidade da implantação do "Welfare State" aqui é baseada na convicção de que, em um país com grandes possibilidade econômicas e muito a construir é possível um relativo isolacionismo. Curiosamente, a infraestrutura estadunidense vêm sendo sucateada desde a Era Reagan, e o Presidente Donald Trump enxerga no muito que há para consertar e construir uma saída para a estagnação que vem desde a Crise de 2008.

Como demonstrado acima, o capitalismo não é um entrave ao desenvolvimento das forças produtivas no Brasil. O capital financeiro, sim. Portanto, retirando o controle da economia dos banqueiros seria suficiente para o crescimento econômico. A tarefa de um governo democrático de esquerda seria garantir direitos trabalhistas, previdenciários, ambientais e assistência na velhice para a população. Já na Europa, Austrália e Japão, que têm a sua infraestrutura pronta, o capitalismo já é um entrave e deveria ser superado.

O caso chinês é de dependência mútua em relação aos EUA, que precisa financiar seu enorme endividamento que piora a cada dia pela assimetria entre receita e despesa que citei em parágrafo anterior. A China é vista pelos neoconservadores que dominam a formulação da política externa dos EUA como a maior ameaça ao "Novo Século Americano". Já os chineses vêem os EUA como maior competidor na geopolítica global. Mas, a China não pode "quebrar" os EUA pois levaria muitos Tomahawks "nas fuças" e veria exposta a sua situação de endividamento enquanto os EUA não podem parar de vender seus Títulos do Tesouro para os chineses para continuar a compra de armamentos. Portanto, ninguém vai "quebrar" ninguém pois é um jogo de soma zero.

(continua)

marcosomag disse...

(continuação)


Já a situação do trabalhador chinês tem melhorado como afirma o estudo da consultoria internacional Euromonitor (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/02/1862186-trabalhador-brasileiro-ja-ganha-menos-do-que-um-chines-aponta-estudo.shtml), e um trabalhador chinês já ganha mais que um brasileiro. Tal assimetria só tende a aumentar com as "reformas" neoliberais de Michel Temer.

Acredito que a saída socialista só vai ter o desejado "efeito dominó" com a superação do capitalismo a partir dos países centrais plenamente desenvolvidos. Estes países são apenas aqueles que adotaram e mantiveram o "Welfare State". A superação do capitalismo não ocorrerá em escala mundial caso ocorra em país atrasado como o Brasil. Creio que o exemplo russo foi clamorosamente evidente de quanto a "vitória" do socialismo em país não plenamente desenvolvido atrasa a superação mundial do capitalismo.

A desmoralização da democracia no Brasil por causa do Golpe contra a Presidente Dilma não deve levar a conclusão que a única saída seria uma Revolução. Existem interesses externos evidentes que despedaçariam o país caso houvesse o caos político com uma guerra civil.

É contra a possibilidade de implosão do Brasil que ocorre a movimentação de setores lúcidos da intelectualidade, da política institucional e até do empresariado. O programa "Brasil Nação" é expressão da necessidade de barrar a implosão do Brasil.

celsolungaretti disse...

RESPOSTA ENVIADA PELO DALTON ROSADO POR E-MAIL:

"Quero primeiramente, e novamente, agradecer a você por oportunizar o debate de ideias em nível elevado, ainda que tenhamos visões diferenciadas sobre o mesmo objeto da análise. Só o debate dialético sem que se queira ser dono da verdade pode levar a uma compreensão mais aproximada do que está a ocorrer.

Alguns pontos devem ser aprofundados sucintamente sob a nossa ótica:

1. O welfare state já não pode ser revivido justamente porque os países produtores de mercadorias, que outrora podiam distribuir riqueza abstrata pelo estado aos seus cidadãos, agora se veem privados desse tipo de riqueza quer seja pela globalização da produção; pela depressão econômica mundial; ou pelo desemprego estrutural, fatores que estão causando o endividamento público insuportável;

2. O sistema financeiro internacional vive uma situação explosiva. A dívida pública mundial insolvável, intermediada pelos bancos, deverá causar um terremoto quando se tornar evidente essa insolvabilidade, ou ainda, quando se tornar inviável o pagamento dos juros (é por isso que já se aplicam valores com juros negativos). É a depressão na chamada economia real (do segmento produtor de mercadorias) o que causa a insolvência do sistema financeiro, e não o contrário;

3. O sucateamento de setores da indústria americana se deve à impossibilidade de manutenção dos altos salários dos trabalhadores americanos que força as industriais a migrarem sua produção para outros países em face da globalização da produção. O capitalismo é uma contradição viva, e agora expõe a real ilogia de sua existência em fim de feira;

4. O Brasil somente fará valer a pujança de sua riqueza material (água abundante; riqueza mineral, inclusive agora com o petróleo do pré-sal; possibilidade de processamento industrial de matérias primas; imensas áreas agricultáveis e clima temperado) quando for superado o nefasto critério da riqueza abstrata que ora se sustenta por aparelhos;

5. Os Estados Unidos e a China por terem como base de sustentação a produção de mercadorias estão irremediavelmente enlaçados tal qual náufrago que se agarra sem que tenha tábua de salvação. Ambos estão fadados à implosão inerente à insustentabilidade do capitalismo que praticam e que certamente causará inquietações mundiais de resultados imprevisíveis;

6. Não se pode avaliar média salarial por setores da produção até porque um engenheiro qualificado que opere uma máquina sofisticada e ganhe salários altos, e ao mesmo tempo desempregue muitos trabalhadores, não deve servir de referência estatística, pois isso significa queda na extração global de mais valia e de valor. Quando afirmamos que a renda per capita chinesa é inferior à brasileira queremos evidenciar a análise macroeconômica. A Índia, por exemplo, que está em crescimento, tem renda per capita de USD 1.581,00, e que procura imitar a China, também não serve de exemplo salarial;

7. A tese do “Brasil nação” é nacionalista e ultrapassada, pois conspira contra o universalismo transnacional no qual a humanidade deve se ajudar de modo humanista e ecologicamente sustentável. O modelo capitalista desenvolvimentista não deve servir para o Brasil e nem para qualquer nação.

Um forte abraço, Dalton Rosado.

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