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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A ESQUERDA ZUMBI E SEUS MANIFESTOS

Por David Emanuel Coelho
Em 1990, o marxista brasileiro José Chasin vaticinava a morte da esquerda. Apontava a falência de sua teoria e de sua prática. Para ele, no entanto, ainda restava uma certa esquerda burguesa, isto é, circunscrita aos limites do regime capitalista, não revolucionária, mas ansiosa por imprimir mudanças na estrutura social do capitalismo.  Chasin não viveu o suficiente para ver a morte até mesmo desta esquerda. 

Estamos numa época em que não parece ser espantoso mortos voltarem à vida. Porém, para infortúnio destes, costumam voltar na forma de zumbis: criaturas nem vivas, nem mortas. Ademais, conforme George Romero ensinou no filme que reergueu o gênero em 1968, A Noite dos Mortos-Vivos, o perigo maior não é o apocalipse zumbi, mas o que vem depois dele. 

Lembrei-me disto ao ler o Manifesto para reconstruir o Brasil, documento lançado recentemente por fundações de quatro partidos brasileiros, autointitulados de esquerda

Para resumir o mote geral do manifesto, poderíamos dizer que seus signatários defendem uma espécie de capitalismo nacionalista, pressupondo uma burguesia nacional trabalhando conjugadamente com a classe trabalhadora brasileira em prol do desenvolvimento do país. Deste modo, dizem, seria possível, ao mesmo tempo, diminuir as desigualdades sociais e fazer o Brasil crescer. Ou melhor, falando no jargão pomposo do manifesto, as desigualdades sociais seriam diminuídas através do crescimento da economia nacional. Praticamente um projeto nacional-desenvolvimentista recauchutado.
O filme de 1968 do Romero é mais moderno do que o tal manifesto...

Ao que parece, os signatários do manifesto ignoram a história e a dinâmica do capitalismo. Desconhecem o fracasso histórico da política de conciliação de classes enquanto mecanismo de emancipação dos trabalhadores. 

O Brasil nunca chegou a desenvolver-se de modo autônomo e nunca o fez porque sua burguesia jamais aspirou a ser mais do que sócia minoritária das burguesias centrais. Isto perdurou durante todo o período em que uma transformação verdadeiramente nacional poderia ser possível e foi solidificado após o último processo de globalização, iniciado na década de 90 do século passado. 

Após tal globalização, os mercados se unificaram ao redor do mundo, barreiras protecionistas foram derrubadas e o capital passou a se mover livremente, indo onde seria mais vantajoso para ele. 

Neste quadro ocorre a desindustrialização brasileira, conjugada a uma financeirização generalizada e a um recuo da economia sobre bases primárias. 

É preciso levar em conta que a industrialização brasileira foi um processo feito pelo capital internacional, não pelo capital nativo. Isto vale não apenas para a industrialização do pós-guerra, operada diretamente por empresas multinacionais, mas também para a industrialização da era Vargas, a qual ocorreu com financiamento externo – estadunidense e alemão.
Não só a industrialização dos Anos JK...

Ocorre que o capitalismo internacional migrou sua base industrial do Brasil para outros países onde a produção poderia se consolidar de modo mais barato. Em troca, transformou o Brasil em produtor das commodities usadas pelas indústrias e em barriga de aluguel do sistema financeiro internacional, gerando riqueza abstrata mediante o pagamento de altas taxas de juros. 

Os geniais signatários do manifesto defendem que seria necessário romper com a lógica financeira em prol da lógica produtiva. Porém, não percebem que não há contradição entre estes dois âmbitos. Eles apenas foram redivididos pelo capitalismo internacional. 

Para perceber isto, seria necessário analisar a dinâmica do capitalismo enquanto um sistema mundialmente interligado e não enquanto uma série de sistemas nacionais em competição, como fazem os signatários do manifesto. 

Não atentam também para o fato de justamente a financeirização ter sido a responsável pela relativa melhora do quadro social da população brasileira, pois propiciou o acesso de largos contingentes populacionais a bens de consumo mediante o crédito abundante. Bens de consumo largamente fabricados fora do país, nos lugares para onde as indústrias foram movidas pelo capitalismo internacional.
...como também a da Era Vargas teve financiamento externo.

O quadro de pobreza do povo brasileiro, porém, não se modificou. Houve apenas um golpe de vista, resultado do brilho permitido pelo acesso aos bens de consumo. 

A solução para mudar o estado de pobreza, dizem os signatários, seria promover uma distribuição da riqueza mediante coparticipação do Estado. 

Ora, conforme Marx já ensinava, a distribuição de riqueza está diretamente relacionada à participação produtiva. Como seria possível, portanto, distribuir riqueza sem tocar na questão da propriedade privada dos meios de produção? E como tocar nesta questão sem levar em conta a dinâmica mundial do capitalismo?

Tal esquerda zumbificada parece acreditar piamente na possibilidade de domar o capital e fazê-lo criar por mágica o que não se pode fazer por meios realistas. É assim que deposita sua fé na ação, ao mesmo tempo, construtiva e reguladora do Estado, como se tal entidade não fosse profundamente ligada ao próprio capital, funcionando em prol de seus interesses e não em prol de um suposto interesse geral. 

A existência do Estado é fundamentalmente para garantir a propriedade privada, do ponto de vista jurídico; e a reprodução continuada do capital, do ponto de vista econômico. Sua relação com os trabalhadores é, antes de tudo, coercitiva. Se ele concede benefícios, o faz apenas no interesse da pacificação social e sempre de modo temporário. Permanente, para ele, é apenas o lucro privado. 
A própria democracia, elevada a totem no manifesto, é limitada, pois não consegue ser exercida no terreno interno da propriedade privada. Ali reina, perdoem-me o trocadilho, a ditadura do proprietariado

Na verdade, a tão idolatrada democracia nada mais é do que as várias frações da burguesia em disputa, se orientando na via política para resolver suas disputas. Com a monopolização da economia, no entanto, a via política tende a se tornar cada vez mais restrita, com sistemas representativos que pouquíssimo divergem entre si, altamente cooptadas pelo grande capital. 

Daí ser profundamente ingênuo acreditar no Estado enquanto condutor de transformação. Num momento que as instituições políticas foram liquidificadas pelo poder titânico do capitalismo monopolista internacional, acreditar numa transformação pelo sistema institucional é como acreditar que um leão abandonará seu instinto carnívoro se orarmos muito. 
Rasteira do capital: Fiesp apoiando a derrubada de Dilma

O mais espantoso é perceber que tal proposta vem justamente após uma rasteira dada pelo capital a esta mesma esquerda. Afinal, não foram eles expulsos do condomínio do poder em 2016 justamente quando acreditavam que a burguesia nacional teria encampado o desenvolvimentismo?

Porém, incapazes de digerir o que aconteceu, preferem acreditar numa fábula: teriam sido vítimas de um golpe perpetrado pelo judiciário e por setores da elite, articulados pelo imperialismo invejoso dos avanços nacionais. Neste quadro, claro, a burguesia brasileira também seria vítima. 

Na verdade, tal esquerda é incapaz de visualizar a estrutura fundamental do regime capitalista, particularmente o brasileiro; e é incapaz porque se mantém nos limites burgueses. Se visualizasse, el teria de se tornar revolucionária, mas a revolução é algo que abomina. Para ela, fora do capitalismo existe apenas utopia desvairada. Só lhe resta, então, aplanar as cruezas de uma sociedade desumana. 

Aí reside toda sua tragédia, pois o único caminho para seus objetivos é contar com o apoio de uma burguesia nacional, coisa inexistente, pois não há contradição entre o capitalismo nacional e o internacional (ambos operam de forma articulada). Nossa burguesia participa como sócia, embora minoritária, de um grande grupo mundial de investimentos e sair deste negócio seria o mesmo que se suicidar enquanto classe.
Esquerda zumbi acompanha a música do capital internacional

O que resta, então, à esquerda zumbi? Repetir ideias que pairam no ar e, uma vez no poder, seguir exatamente o ritmo da música tocada pelo capital internacional. 

Assim, o desenvolvimentismo – que já teve seus dias de possibilidade real nos idos de 60 – torna-se, nos manifestos de saudosos do poder, um cadáver insepulto. 

Uma verdadeira posição de esquerda, no entanto, ainda espera para renascer, não enquanto um zumbi, mas enquanto uma espécie de Lázaro retornando à vida plena. 

terça-feira, 2 de maio de 2017

OS FILMES DE TERROR ATRAVÉS DOS TEMPOS... E O QUE ESTÁ POR TRÁS DELES!

Invocado pelas novas gerações, o sobrenatural se alastrou por vídeos e telas. Que 
sortilégios o rejuvenesceram? Por que os possuídos e assombrados passaram
a ser os jovens? Trata-se de enigmas que só desvendaremos 
se reconstituirmos sua trajetória maligna...
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Tão imensa quanto o King Kong...
O sobrenatural, através dos tempos, sempre deu expressão a facetas da índole humana que não são admitidas pela sociedade e pela própria personalidade consciente do indivíduo.

Possessões demoníacas, p. ex., eram a reação extrema contra a repressão sexual vigente à época em que as energias corporais tinham de ser, tanto quanto possível, poupadas para o árduo e exaustivo trabalho braçal.

As proibições inculcadas desde cedo constituíam obstáculos de tal forma intransponível que, para ceder aos instintos, as mulheres precisavam criar fantasias em que se supunham vítimas de íncubos (demônios tentadores).

A lenda do vampiro, que forneceu a Bram Stocker a matéria-prima para o clássico Drácula, é uma variante dessas crenças. O canino que cresce para invadir jugulares tem óbvias características fálicas, tanto que, inclusive, perpetua a espécie, ao contaminar outras pessoas com o vírus do vampirismo.
...seria a volúpia de Fay Wray.
Nos clássicos do gênero, por sinal, a simbologia é riquíssima.

A dualidade instintiva, os conflitos entre o eu aparente e os impulsos inconscientes (entre o ego e o id, na terminologia freudiana) constituem o motivo secreto do fascínio de O Médico e o Monstro e O Retrato de Dorian Gray, novelas em que eventos fortuitos acabam por revelar a personalidade real dos personagens, até então inibidas pelas convenções sociais.

E o sentimento difuso de que a ciência estivesse causando danos irreparáveis à natureza e à humanidade explica o fascínio de Frankenstein, em que os cientistas são mostrados como fabricantes de monstros.

Na transição para o cinema, a carga erótica implícita em várias novelas de terror foi atenuada. Afinal, dificilmente o rançoso moralismo dominante em Hollywood permitiria, p. ex., uma expressão mais ousada do lesbianismo latente no clássico Carmilla, de Sheridan Le Fannu.

E a própria penetração dos caninos de Drácula nos alvos pescocinhos das heroínas era convenientemente encoberta pela do vampiro, que neste momento estratégico erguia o braço para ocultar a cena dos espectadores.
Sensualidade latente no Drácula de 1931

Apesar disto, a imagem filmada conseguia sugerir muito e o clássico Drácula (1932), de Ted Browing, deveu grande parte do seu impacto à perturbadora aura sensual do personagem interpretado por Bela Lugosi.

E uma das principais criações do próprio cinema (não da literatura) – King Kong (1933), de Ernest B. Schoedaksack e Merian C. Cooper – foi por alguns analistas decifrado como uma gigantesca idealização da volúpia que fervia no corpo daquela mocinha tão pura e ingênua protagonizada por Fay Wray.
GRANDE DEPRESSÃO x ESCAPISMO
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O apogeu do terror na década de 1930, obviamente, tem tudo a ver com a grande depressão estadunidense. O cinema assume nessa época características eminentemente escapistas, levando os espectadores, em voos de imaginação, para longe de uma realidade insuportável, ao mesmo tempo que fornece fantasias compensatórias.
Frankenstein fazia esquecer a penúria
Assim, o homem comum na platéia se identificava com o herói que derrotava lobisomens, vampiros e múmias, e isto servia de alento para a batalha que ele próprio travava contra o desemprego e a miséria.

Ademais, segundo a dialética dos instintos proposta por Freud, a repressão de Eros leva a balança a pender para Thanatos. As dificuldades materiais e consequente prostração acarretam quase sempre esfriamento da libido e, como decorrência disto, o indivíduo se vê impregnado de morte, que se volta contra ele na forma de melancolia ou é descarregada para o exterior por meio da agressividade.

Assim, durante a depressão, as fitas de terror cumpriam exatamente o papel de permitir a projeção (para a tela) e catarse do instinto de morte que as pessoas carregavam dentro de si.

A morte aparecia como ameaça aterrorizante, colhia vítimas aqui e ali, mas acabava derrotada. Aos espectadores restava a sensação de terem estado (magicamente) próximos do perigo, mas escapado.
HORRORES NUCLEARES x CATARSE
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O surto de fitas de monstros dos anos 50, quando dezenas de criaturas disformes e ameaçadores povoaram os pesadelos dos espectadores, é uma consequência do impacto que teve sobre a humanidade a barbárie e violência da 2ª Guerra Mundial.
Godzila: menos aterrorizante que a bomba de Hiroshima.

Um mundo que supostamente caminharia a passos largos para o progresso e a civilização, foi surpreendido pela regressão à selvageria em sua forma mais brutal.

O espanto e a perplexidade das pessoas precisavam ser expressos e expurgados de alguma manteira, daí o surgimento desses filmes em que os terrores primitivos irrompiam inopinadamente diante dos homens, corporificando-se nas figuras de seres pré-históricos e de animais que nos são temíveis ou repugnantes (insetos, polvos, aranhas, etc.), tornados gigantescos devido a qualquer incidente.

Na sua trajetória destrutiva, os monstros realizavam tudo aquilo que os espectadores mais temiam – e, morbidamente, desejavam – , para, afinal, serem exterminados e a ameaça, afastada.

Por meio da morte de cada criatura dessas, exorcizavam-se simbolicamente os receios de uma nova guerra.
Postêres ingênuos, mas muito impactantes.
Isto fica ainda mais claro nas películas japonesas, em que os monstros eram engendrados ou despertavam de uma milenar hibernação a partir, quase sempre, de explosões atômicas.

Os horrores reais de Hiroshima e Nagasaki, demasiadamente latentes na lembrança dos nipônicos, encontravam aí uma expressão atenuada –  pois, afinal, nenhum Godzilla imaginário poderia causar terror remotamente equiparável ao dos artefatos nucleares.

Outra característica significativa é a apresentação dos monstros como descomunais, evocação óbvia da idade em que o mundo nos parece ameaçador e povoado de seres gigantescos e muito mais poderosos do que nós: a infância.

Indo ao encontro dos temores primitivos e inconscientes dos homens, as fitas de monstros reconstituíram a situação de dependência das crianças –  tão impotentes face aos adultos, animais e ao meio ambiente quanto as multidões mesmerizadas desses filmes o eram em relação às tarântulas escorpiões gigantes que atacavam cidades.
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A ÚLTIMA CENTELHA DO TERROR CLÁSSICO
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Christopher Lee, o melhor de todos os Dráculas.
A partir de 1957, estendendo-se pelos anos 60, o terror clássico tem novo e derradeiro apogeu, com os estúdios britânicos Hammer e Amicus revivendo os velhos mitos das telas (Drácula, Frankenstein, o lobisomem, a múmia, Dr. Jeckill/Mr. Hide, o fantasma da ópera, etc.), sob a direção competente dos artesãos Terence Fisher, Freddie Francis, Roy Ward Baker e Jimmy Sangster, dentre outros.

Foi, também, a revelação dos dois últimos grandes atores referenciais do gênero: Peter Cushing e Christopher Lee.

Enquanto isto, nos EUA, o genial fabricante em série de filmes B, Roger Corman, transpunha em ritmo frenético para as telas os contos de Edgar Allan Poe, com elencos de veteranos ilustres (Vincent Price, Boris Karloff, Peter Lorre, Basil Rathbone, John Carradine, Ray Milland) e uma jovem promessa (Jack Nicholson).

Este  revival  terrorístico foi por alguns avaliado como uma reação à vida insípida e sedentárias das metrópoles modernas e ao cipoal burocrático no qual o cidadão comum sente-se enredado e tolhido.

A complexidade das relações sociais em nossa época é tamanha que desperta no homem a nostalgia por desafios simples, inimigos concretos que se pudesse vencer numa luta corpo-a-corpo.
Um clássico absoluto: O corvo.

No cotidiano, trabalhamos em companhias das quais só conhecemos os escalões intermediários, enquanto a cúpula está longe, inatingível, como o senhor do castelo kafkiano. Somos obrigados a cumprir decisões de que não participamos, nem sabemos como foram tomadas.

E tratamos com outras organizações impessoais, como bancos, imobiliárias, repartições públicas, universidades, das quais só conhecemos funcionários, mas jamais atingimos o  todo, o  cérebro.

Quando temos queixar a fazer, acabamos perdidos no labirinto das várias burocracias arrogantes. Se nos sentimos oprimidos ou logrados, dificilmente conseguimos identificar o que vai mal em nossas vidas.

Não seria mais fácil lidar com alguma corporificação do Mal, um ente definido, tangível, poderoso, mas também vulnerável? Não seria preferível combater Drácula do que o demônio do vestibular, os ogros dos testes de admissão, o fantasma do desemprego, a esfinge das dificuldades de ascensão econômica e social?

Não seria mais simples queimar o laboratório do barão Frankenstein do que livrarmo-nos dos cientistas loucos do governo que nos impõem políticas econômicas monstruosas?.

O SANGUINOLENTO TERROR ZOOLÓGICO
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Na década seguinte, veio a voga do terror zoológico, desencadeada em 1975 por Tubarão, de Steven Spielberg. Desta vez, o homem se via confrontado por animais de dimensões comuns (cobras, abelhas, aranhas, cães, polvos, baleias, piranhas). Mas que, por conta dos desvarios ecológicos ou de experiências científicas malogradas, voltavam-se contra ele.
Roy Scheider e sua pescaria complicada

São filmes em que se percebe certo complexo de culpa pelos danos causados à natureza e às espécies animais, mas, ao mesmo tempo, aprofunda-se o fosso entre o homem e a vida selvagem. Ou seja, parecem reforçar o condicionamento dos urbanoides que subsistiam em oposição ao habitat natural, reconfigurando-o ao invés de harmonizar-se com ele.

Além disto, a crueza com que são mostrados os ataques de animais contra seres humanos denunciam uma enorme carga de agressividade reprimida nas plateias, que vibravam ao verem gente sendo estraçalhada..
A FÚRIA DAS CRIANÇAS MIMADAS
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A morbidez se manteve nos anos 80, com dilacerações explícitas salpicando de sangue os espectadores. O psiquiatra Thomas Radecki disse certa vez que existiam mais de mil estudos científicos e reportagens sobre a violência desmedida nos filmes, sendo que 75% deles concluíram que havia um sensível aumento de atitudes anti-sociais e violentas depois de as pessoas assistirem a tais fitas.

O público-alvo desse terror de base sadomasoquista era o juvenil e adolescente. Praticamente desde o início da década de 1980, nas salas de exibição a predominância passou a ser dos menores de 18 anos, daí a produção ter sido cada vez mais direcionadas para estas faixas etárias. E, com a disseminação do VHS e do DVD, o terror para jovens virou verdadeira mania.
6ª feira 13: Jason Voorhees punindo o sexo adolescente.

Tratava-se de um filão em que o sobrenatural tinha como adversários não mais os amadurecidos mestres em ocultismo, mas sim garotos e rapazes; as carnificinas alternavam-se com alívios cômicos; e a trilha sonora era de  heavy metal.

A extrema agressividade implícita nos jovens consumidores dessas fitas advinha do narcisismo exacerbado que as crianças desenvolvem na sociedade de consumo. Mimadas e paparicadas à exaustão, sentem como um crime de lesa-majestade os golpes que a realidade vai desferindo contra suas ilusões de onipotência, daí a agressividade que acumulam e para qual esses filmes ofereciam projeção e catarse.

Além disto, após o período dourado da juventude vem o ingresso na sociedade extremamente competitiva dos dias atuais, a começar pela guilhotina do vestibular. Os filmes em que jovens derrotam vampiros e monstros são simbolizações dos ritos de passagem, servindo magicamente para revigorar a confiança dos adolescentes quanto a enfrentar com êxito os desafios que marcarão sua transição para o mundo dos adultos.

E a liberação sexual que vinha num crescendo desde a os anos 60 não era isenta de castigos (simbólicos). Grande parte desses filmes, e a série Sexta-feira 13 em especial, insistia em mostrar, ad nauseam, jovens namorados sendo trucidados por entes malignos logo após terem mantido relações sexuais...
Jovens ameaçados por Freddy Krueger o enfrentam na dimensão onírica em A hora do pesadelo 3
O outro personagem emblemático do final do século passado foi Freddy Krueger, um fantasma que assombrava os sonhos da moçada da rua em que ele havia sido linchado, podendo até causar a morte de quem não acordasse depressa. 

O ponto de partida – um embaralhamento dos limites entre sonho e realidade – foi ótimo, mas a série se estendeu até a saturação. Vale pelos dois filmes que o criativo Wes Craven  dirigiu: o inicial A hora do pesadelo (1984) e  O novo pesadelo: o retorno de Freddy Krueger (1994), no qual a entidade, aproveitando as filmagens de um novo título da franquia, consegue sair da dimensão onírica e interagir com realizadores e atores (estes assumindo dois papéis, o de seus personagens e o deles próprios).
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CANIBALISMO, EPIDEMIAS E APOCALIPSE ZUMBI.
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Hannibal Lecter, o canibal carismático...
Finalmente, no século 21 está havendo um verdadeiro boom de filmes de terror de baixo orçamento, com pouco rock e pouco humor, tendo como elenco meros catados de ilustres desconhecidos em busca da fama, com argumentos sempre centrados em grupos de adolescentes e seus hormônios, interesses e tecnologias (por mais indigesta que seja a mistura da modernidade de celulares e internet com o primitivismo do sobrenatural).

Podem ser, de forma meio esquemática, divididos em quatro grupos.

Há os filhotes de A bruxa de Blair (d. Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, 1999), os falsos documentários, com suas imagens tremidas que chegam a desaparecer por momentos, como se se tratasse de algo verdadeiro filmado pelos envolvidos na ação com seus telefones celulares. Os enredos costumam ser mais toscos ainda do que o visual.

Os filhotes de O massacre da serra elétrica (d. Tobe Hopper, 1974), A montanha dos canibais (d. Sergio Martino, 1978), Holocausto canibal (d. Ruggero Deodato, 1980) e O silêncio dos inocentes (d. Jonathan Demme, 1991),  explorando de forma doentia a repulsa que a antropofagia desperta nas pessoas comuns.

Os filhotes da novela I'm the legend, do genial escritor de sci-fi Richard Matheson, que deu origem aos filmes Mortos que matam (1964), A última esperança da Terra (1971, disparado o melhor dos três) e Eu sou a lenda (2007), além de todo o mundaréu de títulos sobre epidemias que dizimam a espécie humana.
Apocalipse zumbi: o ápice do besteirol cinematográfico.
E os filhotes de A noite dos mortos-vivos, com que George A. Romero atualizou e revitalizou em 1968 o tema dos zumbis, já não mais mostrados como vítimas individuais dos feiticeiros do vudu haitiano, mas sim como cadáveres que algum tipo de contaminação no cemitério (química, radiativa, etc.) faz saírem em massa das tumbas para trucidarem e/ou devorarem os vivos.

Os dois últimos conjuntos, o do contágio e o do apocalipse zumbi, denotam um paradoxal medo da morte por parte dos jovens, que não deveriam estar nem aí para isto. Por trás de sua aparente insensibilidade, eles se mostram atraídos por produções que giram em torno dos últimos dias de (nossa) Pompéia

É difícil identificarmos o motivo inconsciente de tal fascínio, até porque nem sequer catarse tais filmes fornecem: são distopias que acabam muito mal, com os raros sobreviventes geralmente condenados ou sem grandes esperanças. 

Será apenas porque as fatalidades deixam de nos aterrorizar tanto quando nos acostumamos à ideia?

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ZUMBIS DO CRACK: O HORROR, O HORROR!

Mãe de 38 anos foi presa em Goiânia sob a acusação de haver tentado trocar a filha de 2 meses por pedras de crack. Policiais militares a encontraram num terreno baldio, depois de receberem denúncia anônima.

Testemunhas afirmaram que ela ofereceu a criança a várias pessoas num bar por 20 reais, além de haver proposto a barganha a um traficante.

Uns 15 anos atrás, morei próximo a um local onde uma instituição católica distribuía alimentos, roupas e cobertores aos viciados. Muitos acabavam ficando por lá mesmo.

Era deprimente ao extremo: fumavam seus cachimbos com a maior naturalidade, tinham acessos de agressividade contra transeuntes e motoristas, berravam frases desconexas, faziam sexo e defecavam em público.

Episódio grotesco. Certa vez, uma dessas  moradoras de rua  (como são ridículos tais eufemismos!) entrou no prédio e roubou uma colcha do varal do zelador. 

Este alcançou a dita cuja na rua, mas ficou com vergonha de usar violência. Puxava a colcha e a fulana resistia. Os bêbados do boteco se deliciaram, zoando o Reginaldo com gracejos tipo "aposto na mendiga"...

Na sexta-feira passada, a caminho da rua Santa Ifigênia (centro velho de São Paulo), cruzei com uns 20 seres que pareciam tudo, menos humanos. Provavelmente, estavam procurando novo local para instalar-se, afugentados pela operação policial na Cracolândia.

Incrivelmente, seu aspecto era pior, bem pior que o de meus vizinhos indesejáveis do passado. Pareciam os zumbis dos filmes do George Romero: mortos se arrastando em câmera lenta, sem forças para mais nada. Duvido que algum deles veja o ano de 2013.

Por mais que me repugne a colocação de qualquer ser humano, contra a sua vontade, sob a tutela do Estado, os viciados em crack estão além de qualquer possibilidade de salvarem-se por si mesmos. Ou são recolhidos na marra e submetidos a tratamento na marra, ou morrem. É simples assim. É doloroso assim.

O horror, o horror!

P.S.: notícia de hoje do Agora, nos revela o que acontece com os que ainda querem salvar-se e aceitam ajuda médica. "Levados em vans da Secretaria Municipal da Assistência Social para a Assistência Médica Ambulatorial Boracea, usuários de crack esperaram ontem por oito horas para serem transferidos para clínicas de tratamento. Como não conseguiram vaga, voltaram para a cracolândia". Sem comentários.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

OS DEFUNTOS DE PAPEL PASSADO E OS MORTOS SEM SEPULTURA


"Um poeta desfolha a bandeira
E a manhã tropical se inicia
Resplendente, cadente, fagueira
Num calor girassol com alegria
Na geléia geral brasileira
Que o Jornal do Brasil anuncia"
(Gilberto Gil)

Só que, desde ontem (31/08), o Jornal do Brasil nada mais anuncia -- pelo menos da forma como anunciou durante 119 anos.

Vou ser sincero: nunca tive grande apreço pelo JB, que me parecia o Estadão carioca. O jornal da elite que levava a sério o seu papel de elite.

[O Globo, por sua vez, estaria mais próximo da cupidez amoral da Folha de S. Paulo que, com exceção dos poucos anos em que teve um diretor de redação de verdade -- Claudio Abramo --, foi sempre um jornal feito por comerciantes com critérios de comerciantes, como candidamente reconheceu certa vez Carlos Caldeira, sócio do Frias pai.]

Lamentei mesmo foi o fim do Correio da Manhã, sufocado pela ditadura militar -- a mesma que o JB saudara como instalação da "verdadeira legalidade".

E do Pasquim, com o qual aprendi pra sempre a ser desafinado.

E da Tribuna da Imprensa, que preenchia sua capa inteira com os mais caudalosos e veementes desabafos contra o regime dos  gorilas (os editoriais assinados por Hélio Fernandes), quando, jovem, eu tentava manter viva a resistência à tirania na Cidade Maravilhosa.

E do Jornal da Tarde, que rejuvenescia e sofisticava o jornalismo paulistano durante a primavera de 1968, mas feneceu irremediavelmente nas décadas seguintes, até chegar à existência vegetativa de hoje em dia. Para quem o conheceu no apogeu, o JT atual mais parece zumbi de filme do George Romero...

Os grande jornais em papel, aliás, estão todos na mesma situação: já morreram e estão à espera de quem os enterre.

Abdicaram das boas práticas jornalísticas, passando a subjugar notícia, interpretação e opinião, indistintamente, aos interesses, valores e jogadas sujas do capitalismo, passando como motoniveladoras sobre o  outro lado, o direito de resposta, a isenção, o equilíbrio, etc.

Hoje estão mais para  house organs  do sistema, com editoriais explícitos no espaço de Opinião e implícitos no restante das páginas.

Na geléia geral brasileira, neste país que já não sonha com uma existência humanizada e só quer maquilar o pesadelo capitalista com cosméticos reformistas, os afetos vão se encerrando um a um, até que nada mais sobre exceto a necessidade de redimirmos e reconstruírmos tudo.
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