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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

A VISÃO DO MESTRE SERGIO LEONE SOBRE AS REVOLUÇÕES INAUGURA O FESTIVAL DO WESTERN ITALIANO NO BLOG DO NÁUFRAGO

Perdi a conta de quantas vezes assisti a Quando Explode a Vingança desde o seu lançamento em 1971, mas seguramente não terão sido menos de 15. Na primeira, saí emocionado do saudoso cine Marrocos, no centro velho de São Paulo: acabara de conhecer a visão que um dos meus diretores favoritos tinha dos movimentos revolucionários... e era, em muitos aspectos, semelhante à minha!

Concluí que Leone também se desencantara com a postura repulsiva do Partido Comunista Italiano em 1968 (que se agravaria nos anos seguintes, até chegar ao pacto faustiano com a putrefata democracia-cristã): quando os ventos da mudança sacudiam a Europa, o PCI optara pela omissão, que logo mais viraria cumplicidade com as forças da ordem.

O desencanto de Leone se expressou num filme em que ele, fervorosamente, toma o partido do homem simples que se engaja em revoluções; mas, mostra os dirigentes desses movimentos como sempre propensos a traírem a causa.
James Coburn e Rod Steiger: atuações inesquecíveis! 
Assim, o irlandês John Mallory (James Coburn) é convencido pelo seu melhor amigo, o intelectual revolucionário Nolan (David Warbeck), a ingressar no IRA. E seria Nolan, preso e torturado, quem pessoalmente o apontaria aos policiais britânicos.

Mallory escapa atirando e foge para o México, onde aproveita a experiência que adquirira com a dinamite para garimpar prata. 

Lá acaba conhecendo Juan Miranda (Rod Steiger), pequeno bandido mexicano cuja quadrilha é constituída principalmente por sua filharada e cujo sonho dourado é assaltar o banco mais tentador da região. 

Meio sem querer, ambos vão se envolvendo cada vez mais com a revolução mexicana. E a história se repete: abnegação e heroísmo das pessoas simples, traição do líder Dr. Villega (Romolo Valli). Percebe-se claramente que Nolan e Villega sintetizam a imagem que Leone tinha dos dirigentes do PCI.

Mesmo desencantado ("Quando comecei a usar a dinamite, acreditava nos grandes ideais. Acreditava em tudo! Agora só acredito na dinamite"), Mallory permanecerá até o fim no campo ao qual pertence.  
Este extermínio de prisioneiros numa vala alude a episódios ocorridos sob o fascismo na Itália 
Mas, sem ilusões. Quando alguém pede sua opinião sobre dirigentes que ele sabe não terem honrado seu compromisso com a causa, ele ironicamente se refere a eles como "grandes e gloriosos heróis da revolução".


Ou seja, não tendo sequer a esperança de que a história venha a retratar o que realmente aconteceu, ele antecipa a forma distorcida como serão vistos: os líderes oportunistas, manipuladores e vacilões, endeusados; e os idealistas sinceros,  perseguidos em vida e denegridos depois de mortos.  

Mas, claro, é um filme e não um panfleto. Tem uma ação tão envolvente que só os iniciados captam tal subtexto. Dá para se ver e gostar muito do filme sem perceber/entender nada disso.

Em alguns mercados foi lançado com um título equivalente a Por um punhado de dinamite, para relacioná-lo a Por um punhado de dólares e Por uns dólares a maisLeone, contudo, o concebeu como o segundo filme de outra trilogia: Era uma vez no OesteEra uma vez a revolução e Era uma vez na América.

Coburn e Steiger têm atuações magistrais. O roteiro escrito a dez mãos (inclusive as do Leone e do ótimo Sergio Donati) é simplesmente perfeito. E a trilha musical de Ennio Morricone, um arraso!

Também gostei muito do enfoque que Leone dá à repressão, personificada no comandante Gutierez (Anthony Saint-John): despreza-o tanto que lhe nega até a dignidade da fala. 

Gutierez aparece escovando repulsivamente os dentes, chupando um ovo, ordenando fuzilamentos com simples gestos de cabeça. Um desumanizado visto em toda sua desumanização, sem os habituais discursos redundantes. Só gênios como Leone criam soluções tão simples e eficazes. (por Celso Lungaretti)

sábado, 22 de dezembro de 2018

IMPERDÍVEL: O BLOG AFINAL DISPONIBILIZA A OBRA-PRIMA DE SERGIO LEONE SOBRE MOVIMENTOS REVOLUCIONÁRIOS!

Perdi a conta de quantas vezes assisti a Quando Explode a Vingança desde o seu lançamento em 1971, mas seguramente não terão sido menos de 15. Na primeira, saí emocionado do saudoso cine Marrocos, no centro velho de São Paulo: acabara de conhecer a visão que um dos meus diretores favoritos tinha dos movimentos revolucionários... e era, em muitos aspectos, semelhante à minha!

Concluí que Leone também se desencantara com a postura repulsiva do Partido Comunista Italiano em 1968 (que se agravaria nos anos seguintes, até chegar ao pacto faustiano com a putrefata democracia-cristã): quando os ventos da mudança sacudiam a Europa, o PCI optara pela omissão, que logo mais viraria cumplicidade com as forças da ordem.

O desencanto de Leone se expressou num filme em que ele, fervorosamente, toma o partido do homem simples que se engaja em revoluções; mas, mostra os dirigentes desses movimentos como sempre propensos a traírem a causa.
James Coburn e Rod Steiger: atuações inesquecíveis! 
Assim, o irlandês John Mallory (James Coburn) é convencido pelo seu melhor amigo, o intelectual revolucionário Nolan (David Warbeck), a ingressar no IRA. E seria Nolan, preso e torturado, quem pessoalmente o apontaria aos policiais britânicos.

Mallory escapa atirando e foge para o México, onde aproveita a experiência que adquirira com a dinamite para garimpar prata. Lá acaba conhecendo Juan Miranda (Rod Steiger), pequeno bandido mexicano cuja quadrilha é constituída principalmente por sua filharada e cujo sonho dourado é assaltar o banco mais tentador da região. 

Meio sem querer, ambos vão se envolvendo cada vez mais com a revolução mexicana. E a história se repete: abnegação e heroísmo das pessoas simples, traição do líder Dr. Villega (Romolo Valli). Percebe-se claramente que Nolan e Villega sintetizam a imagem que Leone tinha dos dirigentes do PCI.

Mesmo desencantado ("Quando comecei a usar a dinamite, acreditava nos grandes ideais. Acreditava em tudo! Agora só acredito na dinamite"), Mallory permanecerá até o fim no campo ao qual pertence.  
O extermínio em massa dos rebeldes evoca matanças ocorridas nos estertores do regime de Mussolini
Mas, sem ilusões. Quando alguém pede sua opinião sobre dirigentes que ele sabe não terem honrado seu compromisso com a causa, ele ironicamente se refere a eles como "grandes e gloriosos heróis da revolução".

Ou seja, não tendo sequer a esperança de que a história venha a retratar o que realmente aconteceu, ele antecipa a forma distorcida como serão vistos: os líderes oportunistas, manipuladores e vacilões, endeusados; e os idealistas sinceros (como Battisti) perseguidos em vida e denegridos depois de mortos.  

Mas, claro, é um filme e não um panfleto. Tem uma ação tão envolvente que só os iniciados captam tal subtexto. Dá para se ver e gostar muito do filme sem perceber/entender nada disso.

Em alguns mercados foi lançado com um título equivalente a Por um punhado de dinamite, para relacioná-lo a Por um punhado de dólares e Por uns dólares a maisLeone, contudo, o concebeu como o segundo filme de outra trilogia: Era uma vez no Oeste, Era uma vez a revolução e Era uma vez na América.

Coburn e Steiger têm atuações magistrais. O roteiro escrito a dez mãos (inclusive as do Leone e do ótimo Sergio Donati) é simplesmente perfeito. E a trilha musical de Ennio Morricone, um arraso!

Também gostei muito do enfoque que Leone dá à repressão, personificada no comandante Gutierez (Anthony Saint-John): despreza-o tanto que lhe nega até a dignidade da fala. 

Gutierez aparece escovando repulsivamente os dentes, chupando um ovo, ordenando fuzilamentos com simples gestos de cabeça. Um desumanizado visto em toda sua desumanização, sem os habituais discursos redundantes. Só gênios como Leone criam soluções tão simples e eficazes. (por Celso Lungaretti)

domingo, 21 de janeiro de 2018

UMA OBRA-PRIMA DO MESTRE SERGIO LEONE: "ERA UMA VEZ A REVOLUÇÃO"

Se você estranhou o título deste post, tem toda razão: não existe no Brasil um filme intitulado Era uma vez a revolução.

Mas, se dependesse do magistral diretor italiano Sergio Leone, esta seria, em todos os países, a denominação da segunda obra da trilogia iniciada por Era uma vez no Oeste (1968) e encerrada com Era uma vez na América (1984).

Por razões que a própria razão desconhece –mas a indústria cultural conhece muito bem!–, o Once upon a time the revolution virou Duck You Sucker ou A Fistful of Dynamite nos EUA, Giù la testa na Itália e Quando explode a vingança no Brasil. Só os franceses respeitaram a vontade do criador: Il était une fois la révolution.

O que fez certo sentido, se levarmos em conta a intenção de Leone, de sempre atingir o grande público (oferecendo-lhe, contudo, algo além do mero entretenimento). Mas, para que lograsse o intento de atingir todo e qualquer público, era imprescindível evitar que o filme fosse proibido pelas ditaduras do 3º mundo e boicotado pelas empresas distribuidoras no 1º mundo.  Revolução  no título certamente atrairia atenções indesejáveis. Vai daí que...

Além do artesanato impecável de imagens e de músicas que se completavam às mil maravilhas, dos enquadramentos inovadores (com closes tão extremos que evidenciavam até as menores rugas de um Charles Bronson) e das atuações soberbas de atores que não tinham ainda recebido o merecido reconhecimento (foi ele quem projetou Clint Eastwood, p. ex.), Leone se destacava por embutir nos seus filmes mensagens e discussões as mais importantes e necessárias, mas que dificilmente tinham guarida no cinema dito comercial.

Era como um bolo em camadas: os espectadores medianos tinham ação de sobra para satisfazerem-se, enquanto os mais sofisticados captavam conteúdos como o antibelicismo de Três homens em conflito, o repúdio ao capitalismo monopolista em Era uma vez na América, etc.

Em Quando explode a vingança, o fio condutor é a amizade improvável entre um bandido mexicano que, ajudado por sua filharada, quer realizar um um grande assalto a banco (Rod Steiger) e um ex-militante do IRA que, foragido do seu país, ganha a vida como dinamitador a serviço da mineração (James Coburn).
Leone saúda os anônimos homens do povo como os verdadeiros heróis das revoluções, contrapondo-os aos líderes que acabam sempre traindo a causa –tanto no México (o médico interpretado por Romolo Valli) quanto na Irlanda (o dirigente do IRA, papel confiado ao ator neozelandês David Warbeck).

É uma produção de 1971, quando os dois maiores partidos comunistas do ocidente vinham de decepcionar terrivelmente os esquerdistas autênticos, seja voltando as costas aos movimentos de 1968 (o PC italiano), seja somando forças com o governo burguês para salvá-lo dos jovens rebeldes, ajudando a abortar uma revolução que já estava nas ruas (o PC francês).

O desencanto com tais traições impregna o filme, que parece também lançar um alerta de que as Brigadas Vermelhas e congêneres marchavam para um destino trágico.

Um detalhe significativo  é Leone ter mostrado de forma totalmente desumanizada o comandante das forças contra-revolucionárias (Antoine Saint-John), a ponto de ele não proferir uma única palavra.

É visto escovando repulsivamente os dentes, chupando um ovo, olhando pelo binóculo. Leone não lhe concede sequer a dignidade da fala para, de sua forma sutil, expressar o desprezo absoluto que sentia pela direita troglodita e seus jagunços fardados.

Outra grande sacada do mestre italiano é ressaltar que a História nunca fixa a versão correta dos fatos. A frase que o irlandês sempre repete, sobre "os grandes e gloriosos heróis da revolução" (aludindo a quem, na verdade, não o era), constitui-se num primor de sarcasmo.

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