Esta é uma foto histórica: trata-se do registro perfeito do dia em que uma das maiores lendas do futebol mundial desfez-se em pó e foi varrida pelo vento.
Mesmo atuando como mandante, o Santos sofreu neste domingo, 17 de agosto de 2025, uma vexatória goleada: 6x0.
E o pior é que tal humilhação não lhe adveio de uma das equipes líderes da tabela, mas sim da fraquíssima representação do Vasco da Gama, 16ª colocada da série A do campeonato brasileiro e uma das quatro recordistas de quedas para a série B (quatro vezes cada!), com grande chance de terminar a atual temporada isolada como a pior das piores.
É o melancólico final da trajetória de glórias iniciada pelo Santos em 1955, quando conquistou o segundo campeonato paulista de sua história e, na sequência, passou a ganhar quase tudo que disputava no Brasil.
Depois, em 1962, foi a vez do planeta bola inteiro prostrar-se aos pés de Pelé e seus companheiros, principalmente por terem conquistado o Mundial de clubes destruindo o poderoso Benfica em pleno estádio da Luz, Lisboa, por sonoros 5x2!
Foram três gols do Pelé, um do Coutinho e um do Pepe, depois de já terem vencido o jogo de ida por 3x2 no Maracanã.
E veio o bi mundial no ano seguinte, mesmo perdendo a partida inicial para o Milan (por 4x2, na Itália).
Devolveu o placar no Maracanã, em jornada heroica, pois terminou a primeira etapa sendo derrotado por 2x0, com a ausência do contundido Pelé. Aí desabou um temporal no intervalo e o campo encharcado foi um convite para os petardos de Pepe, que marcou dois tentos cobrando faltas.
O substituto do Pelé, Almir, fez o jogo de sua vida. Estava, contudo, visivelmente alterado (naquele tempo não se controlava o doping), a ponto de, embora baixinho, atemorizar os zagueiros grandalhões italianos.
No desempate marcado para dois dias depois, novamente no Maracanã, o Santos venceu por 1x0.
Décadas adiante seu bi mundial foi anulado pelos cartolas da Fifa, porque se tratara apenas de uma disputa do campeão da Europa contra o campeão das Américas.
Só que as equipes dos outros continentes não passavam de sacos de pancadas. Então, eu e muitos comentaristas esportivos nos recusamos a aceitar tal revisionismo ridículo. Copa Intercontinental? Uma ova!
O apogeu do Santos durou durou até o final da década de 1960 e foi suficiente para a Fifa considerá-lo o melhor time do mundo no século passado.
Sua decadência se daria paralelamente ao próprio declínio econômico dos municípios do litoral sul paulista, que deixou de ser o destino preferido pelos turistas mais endinheirados à medida que o acesso ao litoral Norte por via rodoviária melhorou. Ubatuba tomou, então, o lugar do Guarujá.
De quebra, a corrupção corroeu o Santos por dentro, principalmente a partir da construção de um questionadíssimo balneário.
Agora, pouco mais de meio século após ter deixado de pertencer à elite do futebol brasileiro, consolida-se a queda do Santos para uma prateleira mais baixa ainda: a dos times que disputam o Brasileirão para escaparem do descenso e não para serem campeões.
E, depois de sofrer em 2005, pelo placar de 7x1, a revanche do Corinthians (que tantas vezes goleara outrora e ao qual impusera um tabu de 11 anos sem ceder uma única vitória), chegou a vez de ser feito de gato e sapato por um clube tão decadente quanto ele próprio. O fundo do poço.
E não poderia ser outro que não Neymar o símbolo choramingas do novo vexame --, pois, mesmo semi-aposentado, ele conseguiu arrancar do Santos um contrato de valor estratosférico.
Seu clube formador está sendo por ele sangrado sem a mínima compaixão, devido à ingenuidade de haver acreditado que resgataria a grandeza passada rendendo-se aos caprichos de uma única estrela... ainda por cima cadente.
O choro desse marmanjo mimado de 33 anos confirma ainda não lhe ter caído a ficha de que há muito não é mais o Menino Ney. Agora não passa de um adulto mal resolvido, cuja carreira agoniza porque o desleixo em relação a ela o deixou com canela de vidro.
Por ter-se recusado a amadurecer, Neymar desperdiçou o maior talento futebolístico revelado pelo Brasil depois da era Pelé. (por Celso Lungaretti)
Dallagnol e Moro entendiam-se tão bem, mas tão bem, que suas tabelinhas...
tales faria
TROCA DE MENSAGENS PODE ANULAR DECISÕES DE MORO
Ministros do Supremo Tribunal Federal ficaram alarmados com a publicação pela The Intercept Brasil das mensagens trocadas entre o então juiz Sérgio Moro –hoje ministro da Justiça– e a força-tarefa da Lava Jato.
As mensagens (para acessar as quatro partes da série, clique aqui: 1, 2, 3, 4) revelam que Moro orientou investigações e poderia até ter antecipado informações para o procurador Deltan Dallagnol sobre os casos da Lava Jato.
Nas primeiras conversas durante o dia de hoje, alguns dos ministros acharam que já está claro que não se aplica um dos argumentos usados pela força-tarefa da Lava Jato em sua defesa.
...chegariam até a lembrar as de Coutinho com Pelé...
Os procuradores afirmam que as mensagens foram obtidas de forma criminosa e, por isso, invocam a teoria da arvore dos frutos envenenados: uma prova ilícita não pode ser usada para condenação.
No caso das mensagens divulgadas pelo The Intercept Brasil, provavelmente as mensagens foram mesmo obtidas por algum hacker, portanto de maneira ilícita.
Segundo alguns dos magistrados do Supremo, talvez não possam ser usadas para condenar Moro ou os procuradores em algum processo. Mas mesmo isso é duvidoso.
No entanto, a revelação das mensagens pode, sim, servir para anular alguns dos processos ali tratados.
É o caso, p. ex., do processo sobre o tríplex no Guarujá, em que a Lava Jato acusa o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ter recebido o imóvel como propina.
Está sendo citado nas conversas entre os membros do STF o livro Direito constitucional, obra de referência escrita pelo ministro Alexandre de Moraes.
...se não fosse este pequeno detalhe...
Especialmente no trecho em que, ao tratar de casos de corrupção passiva de servidores, Moraes diz explicitamente o seguinte:
"As condutas dos agentes públicos devem pautar-se pela transparência e publicidade, não podendo a invocação de inviolabilidade constitucional constituir instrumento de salvaguardas de práticas ilícitas, que permitam a utilização de seus cargos e funções ou empregos públicos como verdadeira cláusula de irresponsabilidade por seus atos ilícitos…"
Ou seja, o princípio da inviolabilidade da intimidade não pode ser usado pelo servidor público para esconder atos ilícitos.
O vazamento, no entanto, deve suscitar uma nova disputa dentro do STF.
A heterodoxia de Moro no caso da Lava Jato não agrada parte da Corte já há algum tempo. Mas os defensores da operação Lava Jato têm formado maioria até agora, o que serviu para blindar Moro e os procuradores.
...que pode tornar inúteis todos os sapos engolidos.
A expectativa agora é de que a divulgação das mensagens mexa com as posições de alguns dos ministros. Especialmente Rosa Weber, Celso de Mello e Cármen Lúcia.
Se isto ocorrer, Moro e os procuradores estarão em apuros. E Lula e demais acusados da Lavo Jato passam a ter novas esperanças.
Perdemos Coutinho. Para quem tem 68 anos, como eu e Celso Lungaretti, é inevitável a constatação de que os heróis da nossa mocidade, jovens como nós éramos àquela época, estão se indo.
Em 1958, ainda um garoto de oito anos, assisti à euforia incontida do Brasil, redimido pelas chuteiras de um escrete de ouro na conquista da Copa do Mundo na Suécia. O ataque da seleção era Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo.
As transmissões radiofônicas dos jogos do Brasil, entremeadas de interrupções pelas deficiências da comunicação de seis décadas atrás, faziam a nossa imaginação fantasiosa delirar com os maravilhosos exageros dos locutores que exaltavam os nossos feitos nos campos da Europa.
Foi quando me apaixonei pelo futebol, desejando ser um jogador e vestir a camisa amarelinha. Dormia abraçado a uma bola de futebol; o melhor presente que recebi naquele tempo foi uma bola de couro novinha em folha.
Não via a hora de me livrar dos encargos escolares para disputar um racha, como se diz aqui no Nordeste.
De tanto praticar cheguei a compor as categorias de base do time da minha cidade, até que a vida adulta me obrigou a seguir por outros caminhos.
O ataque que todos conheciam de cor (da esq. p/ a dir.): Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.
Mas o amor ao futebol permaneceu em mim, como mais um dos milhões de técnicos que se põem a explicar taticamente os motivos de uma derrota ou vitória do seu time.
Depois de 1958, quando despontou para o mundo o Pelé, rei do futebol, veio a era do Santos Futebol Clube, cujo ataque viria a ser Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, que rivalizava com outro gigante da época: o Botafogo de Futebol e Regatas, meu time predileto.
O Botafogo tinha um ataque quase tão poderoso quanto o do Santos, formado por Garrincha, Didi, Quarentinha, Pelé e Zagallo. Ambos eram a base do ataque da seleção brasileira.
O Santos tornou-se um referência internacional, mesmo num tempo em que as comunicações entre os continentes eram ainda incipientes. Não só conquistou o mundo, como o seu ataque passou a ser considerado o melhor da história do futebol.
Coutinho em ação, enfrentando o Botafogo em 1962
O clube é o segundo maior campeão brasileiro, com 8 títulos; e, ao lado do São Paulo e Grêmio, encabeça a relação dos times de nosso país com mais Copa Libertadores conquistadas (3 cada). Mas, claro, seus troféus mais valiosos são os dos gloriosos Mundiais de 1962 e 1963 (hoje não mais considerados como tais pela Fifa porque eram disputados apenas entre o campeão das Américas e o campeão da Europa, daí terem sido rebatizados de Copa Intercontinental).
Lembro-me bem de como era prazeroso ver no cinejornal Canal 100 os gols do Santos, geralmente em partidas do torneio Rio-São Paulo e do campeonato paulista, muitos deles frutos de tabelinhas Pelé/Coutinho, tudo acompanhado pelo gostoso samba do Luís Bandeira que dizia:
"Que bonito é, as bandeiras tremulando, a torcida delirando, vendo a rede balançar..."
Como era bom ver o time do Santos jogar para o ataque numa conjunção de técnica esmerada, velocidade do pensar e do agir, entrosamento e qualidades individuais díspares, mas complementares.
Dorval (198 gols) era um crioulinho veloz e serelepe, que ia com facilidade até a linha de fundo.
Mengálvio era o meio de campo protetor que, junto com a incrível capacidade de movimentação de Zito, alimentava o ataque com lançamentos precisos.
Com 2 gols de Pelé e 1 de Coutinho, Santos vence Benfica em 62
Coutinho (370 gols) e Pelé (1.091 gols) tinham uma capacidade de tabelar, no pequeno espaço da entrada da área e adentrando pela mesma, que deixava loucos os defensores.
Pepe era o canhão da Vila [Belmiro, bairro onde se localizava o estádio santista], com chutes de 125 km por hora. O homem das cobranças de bolas paradas, que, com seus 450 gols marcados, se dizia o maior artilheiro do Santos, explicando em seguida que Pelé não era deste mundo, daí a impropriedade de compará-lo com os meros mortais...
As conquistas regionais, nacionais, sul-americanas e internacionais do Santos foram as maiores de um clube brasileiro no século passado. Números impressionantes, com a equipe praiana chegando a jogar em mais de 60 países e sendo responsável pela interrupção de guerras na África. Os passaportes do jogadores dos Santos tinham que ser renovados antes mesmo do seu término por fala de espaço para os carimbos alfandegários. O mundo se curvou ao talento futebolístico daqueles brasileirinhos vindos dos guetos maltrapilhos para serem recebidos como reis nos salões pomposos da Europa.
63: vitória heroica sobre o Milan no bi mundial
Infelizmente agora vivemos um momento de baixa, a ponto de o selecionado principal do Brasil estar há anos sem marcar sequer um gol de falta, o que nos dá saudades não apenas do Pepe, mas também de Didi, Gerson, Rivellino, Nelinho, Éder, Neto, Marcelinho Carioca e Zico, exímios cobradores do de infrações.
Acresce-se aos infortúnios dos dias atuais o momento de dor pela perda de Coutinho, o mais simples coadjuvante do esplendor de Pelé, e que, justamente por isto, deve ser reconhecido pela importância que têm todos aqueles que iluminam o palco para que outros apareçam.
Coutinho era assim. De pouca fala, sempre cumpriu de forma impecável seu papel de apoiar a genialidade do rei. Mas, não são os brasileiros anônimos que, com seus esforços, fazem a grandeza do País?
Coutinho é a representação do abnegado que ajuda a carregar o piano, sem ter inveja dos que recebem os holofotes da fama maior.
Adeus, Coutinho! Os milhões de indispensáveis brasileiros coadjuvantes reverenciam a sua glória. (por Dalton Rosado)
Coutinho marcou 2 gols nesta partida do campeonato paulista de 1965
Meu post antecipando o heptacampeonato surpreendeu um comentarista: ele não me supunha corinthiano. Isto me levou a pensar um pouco sobre os 63 anos em que o sou – sem jamais tê-lo ocultado, aliás.
Acabei redigindo estas mal digitadas linhas, sobre os recuerdos de uma relação que ora foi de amor, ora de indiferença (nas fases em que praticou futebol horroroso, como quando Mário Sérgio era o técnico), mas nunca de desprezo pela paixão ingênua de um povo que tanto carece de gratificações.
Meu pai perdeu o dele aos 10 anos. Era um italiano imponente, que só vi numa foto mofada, com traje de caçador. Viera ao Brasil para comandar uma tecelagem no Rio de Janeiro, de forma que Papai só veio conhecer o futebol paulista depois que minha avó, ao enviuvar, teve de mudar-se com a filharada para São Paulo, onde tinha parentes que a ajudariam.
Daí ter sido bem tênue sua ligação afetiva com a Itália. Nem sequer se tornou torcedor do time da colônia italiana, o Palmeiras. Talvez por trabalhar em fábrica desde os 11 anos, escolheu o que representava os operários, os baianos e toda a gente humilde: o mosqueteiro Corinthians, que, como os de Dumas, travava duelos desiguais com os poderosos e muitas vezes os vencia.
Quando eu acabava de completar quatro anos, a molecada da rua me perguntou para qual time torcia. Nunca pensara nisto, mas achei que ficaria diminuído se não apontasse algum. Disse Corinthians, talvez por influência do meu pai, talvez por causa do título recente, de campeão paulista de 1954. Meio por acaso, fiz a escolha mais apropriada para o homem que eu me tornaria: um defensor das causas do povo.
O jogo que pôs fim a 11 anos de humilhações
Minhas lembranças corinthianas seguintes são do ano de 1960. Em março, num sábado à noite em que os avós maternos estavam viajando, Papai me levou para assistir na TV deles, casa vazia, um Corinthians e Portuguesa de Desportos sem grande importância. O baiano Zague, que seria lembrado como artilheiro dos gols espíritas, marcaria um aos 15 segundos (!) de jogo e outro, mais prosaico, no 2º tempo. 2x1.
No último dia de julho, um domingo, acompanhei-o no seu bico de fim-de-semana: recolher apostas nas corridas de cavalo, também na casa do meu avô. Os apostadores eram vizinhos e amigos, passavam a tarde lá, bebendo, jogando cartas, assistindo aos páreos que passavam na TV Paulista, canal 5. No resto do tempo, futebol na TV Record, canal 7.
Rivelino comandou uma virada inesquecível sobre o Palmeiras em 1971
Jogavam o poderoso Santos e o frágil Corinthians na Vila Belmiro. Pelé marcara para o Santos. Aí, aos 20' do 2º tempo, um escanteio foi cobrado na direção da meia-lua da área santista e o veterano Luizinho empatou, acertando belíssimo sem-pulo. Eu, que nunca vira um deles, fiquei maravilhado.
Nenhum dos que estavam entretidos com as novidades do hipódromo e com o baralho percebeu. Contei e não acreditaram. Aí, quando anunciaram o placar na transmissão, alguém comentou: "É não é que o garoto estava certo?!". Fiquei inchado de orgulho.
O castigo veio na partida seguinte, que eu escutei pelo rádio: numa tarde de 4ª feira, no estádio corinthiano (a fazendinha), o Jabaquara ganhou de 3x2, selando a sorte do inesquecível goleiro Gylmar dos Santos Neves.
Guerreiros de Osvaldo Brandão tiram o Corinthians da fila, enfim!
O time praiano tinha um cobrador de faltas especialista, Hélio, que no 1º tempo fez 2x0 encobrindo a barreira corinthiana. Os donos da casa suaram sangue e empataram. Aí, aos 39' do 2º tempo, nova falta. Gylmar, para não ser atrapalhado pela barreira, mandou abrir. Só que o Hélio, ao invés de um chute colocado, desferiu um petardo indefensável.
Como Gylmar tinha proposta do Santos, a torcida concluiu que ele jogara desinteressado e o hostilizou. Tal injustiça foi a pá de cal para ele tomar a decisão de mudar de ares.
O primeiro jogo do Corinthians a que eu assisti no estádio foi um dérbi no Pacaembu, pouco antes de completar 14 anos. Fui com um colega do ginásio, palmeirense, pegando um ônibus da Mooca até o centro velho, depois a linha especial para torcedores no vale do Anhangabaú. Chegamos tarde e só conseguimos um lugar na geral, atrás de um dos gols, sendo obrigados a ficar na ponta dos pés o tempo todo. Para piorar, desabava a maior chuvarada.
Flamengo goleado: foi o canto do cisne do time da democracia.
O Corinthians, com uma equipe bem inferior à do Palmeiras, marcou um gol de pênalti no comecinho da partida e sustentou o bombardeio adversário pelos 83 minutos restantes. A dificuldade para voltar foi maior ainda, tivemos de caminhar pela avenida Pacaembu até conseguirmos pegar um ônibus que não estivesse transbordando de passageiros. Mesmo assim, valeu a pena.
Foi também no ano maldito de 1964 que tive grande esperança de ver o Corinthians sair da fila que já durava uma década. Faltando quatro rodadas para o encerramento do Campeonato Paulista, estava em 1º lugar, dois pontos à frente do Santos (vitória naquele tempo só valia dois), mas com três clássicos pela frente.
A promessa solene de um jogador maior do que o futebol
Fui assistir ao primeiro e saí com a cabeça inchada: derrota por 4x2 diante da Portuguesa de Desportos. De positiva, só a recordação de que choveu e muitos torcedores sentaram sobre jornais para não molhar o traseiro. A chuva acabou e os que estavam em cima começaram a atirar as folhas molhadas, que grudavam nas costas dos que estavam em baixo. Estes devolviam para cima, como nas guerras de torta dos filmes de pastelão.
Torcedores dos dois clubes misturando-se nos mesmos espaços, rindo e brincando como crianças, sem altercações. Disto para as torcidas únicas nos clássicos de hoje, que terrível retrocesso! Parece que recuamos um milênio.
1990: 1x0 no São Paulo garantiu o 1º dos 7 títulos do Brasileirão.
No fim de semana seguinte, desconfiei que perderíamos do Palmeiras e tomei a sábia decisão de ficar em casa: aproveitando o desfalque do lateral-esquerdo Oreco, o ponta Gildo deitou e rolou, abrindo caminho para três gols do Servílio: 4x1.
Finalmente, o clássico decisivo com o Santos, num sábado à tarde no Pacaembu. Fui com um grande amigo corinthiano, chegamos cedinho e ele tinha grana para bancar ingressos de arquibancada.
A preliminar foi fantástica, decisão do campeonato de aspirantes, com o Corinthians enfiando 6x3 no Palmeiras. O melhor jogador logo em seguida ascenderia à equipe principal, era um tal de Roberto Rivelino...
No Mundial de 2000, um jogo inesquecível contra o Real Madrid.
Até aí, tudo ia bem demais. Depois, o caldo entornou. Mesmo lutando como leões, os titulares perderam do Santos por 7x4, com Pelé (fez quatro gols) e Coutinho (três) em tarde infernal. Só aguentamos ficar até o 5x2. Saímos chutando latas de lixo.
Outros interesses foram então me absorvendo. Em março de 1968, p. ex., como eu estava todo voltado para o movimento estudantil, foi só pela TV que eu vi o Corinthians quebrar um tabu de 11 anos e 22 partidas pelo Campeonato Paulista, derrotando o Santos por 2x0, numa partida disputada com portões abertos no estádio do Pacaembu (em razão de não terem sido reembolsados os pagantes do jogo na Vila Belmiro, interrompido no 1º tempo por causa do desabamento de uma arquibancada).
Goleada histórica sobre o Santos em 2005 foi o troco pelo tabu
Vieram a luta armada, a prisão, o tempo que passei numa comunidade alternativa recuperando-me dos traumas e descarregando as frustrações. Só voltei a me interessar pelo futebol em 1977, quando um Corinthians mais guerreiro do que brilhante afinal voltou a ser campeão paulista, depois de uma agonia de 23 anos. Valeu pelo desafogo.
A contratação do Sócrates me chamou de volta para os estádios. Eu já passara da fase de obcecado por vitórias a qualquer preço, queria é ver meu time dando show de bola. A técnica refinada e a inteligência do doutor na leitura das jogadas se evidenciavam muito mais com a visão do todo do que com os focos limitados das tevês antigas.
Volta à divisão de elite em 2008 iniciou o atual circulo virtuoso
Foram gloriosas as duplas por ele formadas com o Palhinha e depois com o Casagrande. E que cracaço era o Zenon! Um jogador sutil e cerebral como o Jadson, mas muito superior nas cobranças de faltas, cheias de veneno.
Foi quando assisti no Morumbi um partida de sonhos, pelas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 1984. Depois de perder do grande time do Flamengo por 2x0 no Maracanã e apesar da descrença generalizada de que pudesse tirar tal desvantagem, o Corinthians, que tinha a vantagem do emparte, cumpriu a tarefa já no 1º tempo, depois fechou a fatura em 4x1. Eu não sabia, mas estava vendo um canto do cisne.
Dois anos após seu centenário, o Corinthians conquistou a América...
Com a democracia corinthiana, uma alternativa ao mandonismo da repulsiva cartolagem (e afinada com a luta política pela redemocratização do País!), duas das minhas grandes paixões se encontraram. Vibrei quando, numa manifestação pelas diretas-já no Vale do Anhangabaú, situado a uns 20 metros do palco, vi e ouvi Sócrates prometer que, se a Emenda Dante de Oliveira fosse aprovada pelo Congresso Nacional, ele recusaria a oferta milionária da Fiorentina e ficaria aqui para ajudar-nos a reconstruir o Brasil.
Os canalhas que fizeram o País sair da ditadura pela porta dos fundos, contribuíram também para decretar o fim de um dos períodos mais belos da história corinthiana.
...e o mundo (num dia em que o Cássio pegou até pensamento!).
Vieram os reinados de Neto e de Marcelinho Carioca, a supremacia que o Corinthians assumiu no Campeonato Brasileiro das duas últimas décadas, as maiores conquistas em sua trajetória secular (a Libertadores e o Mundial de 2012)...
Mas, o Corinthians passou a se caracterizar principalmente pela força coletiva, processo que acaba de chegar ao auge na conquista de 2017: nunca houve uma disparidade tão acentuada entre a excelência da maioria dos resultados alcançados e o que se poderia esperar de um elenco pouco mais do que mediano. O conjunto ultrapassa em muito a soma das partes.
Tanto que, mais do que o artilheiro renascido das cinzas Jô, a maioria da imprensa encara acertadamente o técnico Fábio Carile como o principal responsável pelo título.
A apoteose da esnobada quarta força do futebol paulista
A DEMOCRACIA CORINTHIANA ME FEZ CRER QUE, APÓS A TEMPESTADE DITATORIAL, VIRIA A BONANÇA DE UM NOVO BRASIL.
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Por Celso Lungaretti
Sou da mesma geração do Juca Kfouri, só uns poucos meses mais novo. Então, conheço muito bem os sentimentos que inspiraram seuartigo dominical. Mas, discordo da conclusão: para mim, não são os brasileiros que têm de retomar o Brasil, mas sim a humanidade que tem de retomar o mundo.
Também cheguei a assistir nos estádios às desconcertantes tabelinhas Pelé/Coutinho e às geniais molecagens do Mané. E gostaria de ter filhos ou sobrinhos para contar ("Meninos, eu vi!") que, no maldito ano de 1964, pelo menos o futebol era de primeiríssima qualidade, a ponto de eu ter presenciado 20 gols numa mesma tarde, em partidas decisivas travadas no velho Pacaembu:
na final do campeonato de aspirantes, o Corinthians, liderado por um Rivellino prestes a ser promovido para a equipe principal, enfiou 6 a 3 no Santos;
o troco veio no jogo principal, 7x4 para o Santos, impondo mais um ano de fila para o Corinthians independentemente do que acontecesse na rodada seguinte, a última.
E o time da democracia corinthiana dos anos 70 enchia-me os olhos, era o futebol-arte da minha devoção carregando a bandeira dos melhores ideais daquela época na qual, eterno otimista, cheguei a crer que, depois da tempestade ditatorial, viria a bonança de um novo Brasil.
Meninos, eu vi... a consagração do Rivellino nos aspirantes.
O que veio foi a integração plena do nosso país no capitalismo globalizado e a entronização de uma sociedade de consumo que a tudo e a todos transformou em mercadorias. Então, sendo mercadorias de grande valor de mercado, nossos craques foram deslumbrar os europeus, enquanto, como a Madalena da música do Chico, ficávamos a ver navios... abarrotados de jogadores medianos que não despertavam interesse lá fora, além de algumas jovens promessas que passaram a bater asas em prazo cada vez mais curto e de uns tantos retornados que já não serviam para os grandes centros mas conseguiam enganar bem por aqui durante um tempinho, até pendurarem definitivamente as chuteiras.
Para não ficarmos no mero saudosismo, temos, contudo, de considerar outros aspectos. P. ex., quantos assistiam àqueles jogos maravilhosos? Boa parte não passava na TV, ou era mostrada somente em teipe, lá pelo final da noite. Trabalhadores que pegavam cedo no batente nem sempre podiam esperar até tão tarde, mesmo querendo.
Futebol deve ser tido como espetáculo, não como guerra!
Agora, pelo contrário, as transmissões são quase todas ao vivo e a oferta, das mais vastas, abrangendo não só as melhores partidas do respectivo Estado, como as do resto do Brasil e também dos maiores centros do velho continente. Se o Neymar ainda estivesse no Santos, dificilmente teríamos visto tantas atuações suas como as que vimos com ele no Barcelona.
Os jogadores se tornaram gananciosos que alugam seu talento a quem pagar mais? Sem dúvida! Mas. há o aspecto positivo de que, assim, eles começam a ser vistos como aquilo que realmente são: artistas que nos proporcionam belos espetáculos, e não combatentes que devam jogar com garra, colocar o coração no bico das chuteiras e outros chavões belicosos. Já temos muito mais guerras do que deveríamos ter, precisamos é de encantamento e beleza nas nossas vidas!
E, quanto a retomarmos o Brasil, lamento, Juca mas isto também ficou para trás. O que nos infelicita se repete no mundo inteiro, com diferenças apenas quantitativas. A crise econômica é maior aqui, mas pipoca também na América do Norte, Europa e Ásia (enquanto a África já se tornou a própria antessala do inferno!).
"Não existe mais período de prosperidade em ampla escala"
Não existe mais período de prosperidade em ampla escala: para que algumas nações estejam relativamente bem é necessário que outras estejam acentuadamente mal. Até um leigo em economia percebe que está se delineando, no horizonte, uma depressão que fará a da década de 1930 parecer brincadeira de criança. O que vimos em 2008/2009 foi apenas um trailer... assustador.
Paradoxalmente, também deste quadro agourento podemos extrair algo positivo: o fato de que, a cada dia, vai caindo para mais e mais pessoas a ficha de que a salvação não vai ser encontrada por um ou outro país isoladamente, mas tem, isto sim, de ser buscada pela humanidade como um todo.
Não há como equacionarmos apenas em nível nacional o problema da absurda desigualdade econômica que condena bilhões à miséria em benefício de ínfimas minorias de parasitas. Nem o da crescente destruição dos recursos naturais que possibilitam a sobrevivência da espécie humana, mas estão sendo sacrificados no altar do lucro.
Será mais fácil adquirirmos tal percepção neste novo mundo –ora admirável, ora detestável– entrelaçado pelas comunicações. Abrimos janelas para o resto do planeta; devemos não só olhar através delas, mas extrair as conclusões que se impõem. Afinal temos chance de transcender as barreiras artificiais que separam os homens desde os primórdios. Hordas primitivas, tribos, impérios, feudos, estados-nações, blocos ideológicos, o que isso nos tem trazido através dos tempos além de morticínios inúteis e sofrimento desmedido? Agora, premidos pela necessidade, teremos de inventar uma forma de conviver com os demais seres humanos e unirmo-nos a eles nas tarefas essenciais para garantir que todos tenhamos um amanhã
E é aconselhável que o façamos logo, pois, enquanto não retomarmos a posse dos nossos destinos, estaremos nos aproximando cada vez mais do ponto de não-retorno.