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domingo, 4 de agosto de 2019

DE HORA EM HORA, BOLSONARO PIORA: O SEU GOVERNO DERRETE A OLHOS VISTOS E A ENTRADA NO PÂNTANO JÁ PRENUNCIA O FIM

jânio de freitas
BOLSONARO CONTRA O REGIME 
Jair Bolsonaro cruzou um limite que o regime vigente exige ser respeitado, para defender sua própria sobrevivência. Por inconsciência ou porque ainda não fosse hora de levar a tanto as provocações e agressões do seu projeto antidemocrático, Bolsonaro não investira contra a convivência e a independência dos Três Poderes. Foi o que fez agora.

O antecedente desse avanço já o prenunciava, consistindo, em palavras do ministro Celso de Mello no Supremo, na inaceitável transgressão à autoridade da Constituição. Apesar do veto constitucional à reedição de medida provisória no mesmo ano legislativo de sua recusa, Bolsonaro a fez para insistir na entrega, mais que suspeita, da demarcação de terras indígenas ao Ministério da Agricultura. 

Chamado a decidir, o Supremo devolveu a demarcação à entidade natural, a Funai. Por unanimidade. A questão, em si, nada teve de incomum no tribunal. Exaltou-o o ato abusivo da Presidência da República. Celso de Mello parece cansado, já, dos desaforos ao texto constitucional, de seu especial afeto. 

Mas Bolsonaro não parou no desafio. Pouco depois da decisão judicial, aproveitou uma fala sobre radares de estrada para investir contra o sistema. Não falou ao grupo habitual de repórteres. Falou pelas redes. E ao vivo, áspero:
“Está uma briga, porque a Justiça em cima da gente [...], é a Justiça lamentavelmente se metendo em tudo”. 
Nem é divergência, é briga. Nas redes, ao vivo, é claro o propósito de jogar seus milhões de seguidores, ou a opinião pública em geral, contra o Supremo. Por extensão, contra o Judiciário. 

É, no mínimo e por certo, tática de dupla pressão: para acionar seguidores e para retrair alguns ministros em assuntos do interesse de Bolsonaro.

Para além do mínimo, pode ser o início de nova escalada, como houve nos últimos meses. Não faria sentido que seu objetivo estivesse só no Supremo —cuja desfiguração, aliás, o então candidato prometeu aos furiosos na campanha.

A indicação formal de Eduardo Bolsonaro ao Senado, para embaixador nos Estados Unidos, é um desafio seguindo outro. Nepotismo ostensivo na falta de formação, de experiência e pelo aplauso de Eduardo a Trump e suas políticas. Também entre o pileque paternal e a incitação contra o Supremo os objetivos se confundem.

Bolsonaro empurrou para a frente outros limites, no caso, pessoais. É de um despudor vergonhoso para o país esta regurgitação sua: 
“Estou cada vez mais apaixonado pelo Trump”. 
Nem o Brasil atual merece ver-se sem resposta alguma de suas instituições, quando a função presidencial é sujeitada a tamanha falta de decoro. Se ao apaixonado falta compostura, espera-se que alguém a tenha para impô-la, como quer o que reste de dignidade ao país. Ou não resta?

Além de Bolsonaro, as revelações do The Intercept Brasil/Folha avançaram. Na temática, com Deltan Dallagnol e outros, inclusive da Receita Federal, agindo sem base legal contra ministros do Supremo.

O repúdio às mentiras de Bolsonaro sobre Fernando Santa Cruz, assassinado pela ditadura, fez avançar muito a adjetivação definidora de Bolsonaro como repugnante, nojento e outros achados. 

Mas Bolsonaro avançou contra o regime de Constituição democrática. Uma entrada no pântano. (por Jânio de Freitas)

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

ERA APENAS OUTRA SÓRDIDA MENTIRA DAS 'VIÚVAS DA DITADURA'. AGORA PASSOU A SER UMA INSINUAÇÃO PRESIDENCIAL

elio gaspari
A REALIDADE PARALELA DE BOLSONARO
Se Jair Bolsonaro conversasse com os septuagenários veteranos da tigrada da ditadura, não teria chamado o general da reserva Luiz Rocha Paiva de melancia (verde por fora, vermelho por dentro). Ele foi um dos principais colaboradores na manutenção do site Terrorismo Nunca Mais

Talvez também não tivesse sugerido que Fernando Santa Cruz, desaparecido desde 1974, quando tinha 26 anos, foi executado por militantes de esquerda. Fernando era o pai do atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, que tinha menos de dois anos quando ele desapareceu.

O caso de Fernando Santa Cruz exemplifica, como poucos outros, o assassinato de uma pessoa que tinha vida legal, família constituída e domicílio conhecido. Ele morreu no último mês do governo Médici. A política de extermínio das organizações armadas brasileiras que agiam nas cidades já tinha esfriado, pois elas haviam sido esmigalhadas. 

Em novembro, um comando do DOI de São Paulo matou Sonia Maria Lopes de Morais, da Ação Libertadora Nacional, e Antônio Carlos Bicalho Lana, que se escondiam no litoral paulista.
Atestado de óbito recente: morte causada pelo Estado brasileiro

Em dezembro, o Centro de Informações do Exército sequestrou em Buenos Aires e matou no Rio o ex-major Joaquim Pires Cerveira e João Batista Rita, que haviam militado na Vanguarda Popular Revolucionária. Depois disso, nada. 

[Do Natal de 1973 ao final de 1974, mataram cerca de 40 militantes do PC do B nas matas do Araguaia, inclusive os que se renderam. Ou, numa realidade paralela, foram todos resgatados por um disco voador albanês.] 

Nesse período deu-se a decapitação da liderança do Partido Comunista, que não pegou em armas.

Fernando Santa Cruz havia sido preso no Recife em 1966, quando era menor de idade. Desde 1968 tinha vida legal. Trabalhou no Ministério do Interior e mudou-se para São Paulo, onde trabalhava no Departamento de Águas e Energia Elétrica. 

Durante o Carnaval de 1974, Fernando estava no Rio e marcou um encontro com o amigo Eduardo Collier, militante da Ação Popular Marxista-Leninista (APML). Temia ser preso e falou disso com a família. 
Fernando: morto sem sepultura
Um policial de apelido Marechal disse que ele estava preso num quartel da guarnição de São Paulo. Daí em diante, nada.

A mãe de Fernando, Elzita Santa Cruz, morta há pouco, foi uma leoa e bateu em todas as portas. Os senadores Franco Montoro e Amaral Peixoto perguntaram pelo paradeiro de Fernando da tribuna da Casa. 

Elzita escreveu ao comandante da guarnição do Rio e ao marechal Juarez Távora. O velho tenente de 1930 enviou a carta ao general Golbery, chefe do Gabinete Civil do presidente Ernesto Geisel, que assumira em março. Meses depois, ela interpelou o próprio Golbery. 

Na busca por Fernando, teve a ajuda do marechal Cordeiro de Farias, comandante da Artilharia da Força Expedicionária Brasileira na Itália. Nada. O ministro da Justiça, Armando Falcão, informava que estava foragido, vivendo na clandestinidade. Mentira.

Nenhuma família de militante executado fingiu que ele desapareceu.

Bolsonaro pode ter sua realidade paralela, mas o general Rocha Paiva nunca foi melancia, nem Fernando Santa Cruz foi executado pela APML. 

Por falar nisso, Rubens Paiva não foi resgatado por comparsas. Quem diz isso são oficiais que estavam no quartel da Polícia do Exército no Rio em 1971. (por Elio Gaspari)
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