Mostrando postagens com marcador Tomzé. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tomzé. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de agosto de 2025

TUDO NELES NOS REVIRA O ESTÔMAGO! MAS COM GENTE É DIFERENTE...

Sei que parecerá oportunismo de minha parte, mas, mesmo assim, vou contar como o conflito de gerações se desenrolava entre civilizados no seu momento mais agudo. Pois as baixarias com as quais ele agora se trava entre os ratos de esgoto dão-me ganas de vomitar.

Depois de sair quase destruído dos porões da ditadura, fiquei pouquíssimo tempo com meus pais. Estava uma pilha de nervos. Queria de qualquer forma reagir ao achatamento de personalidade que sofrera. Precisava desabafar, mas como? Com quem? Nunca sentira tanto ódio me corroendo por dentro.

Aí, provavelmente por meu pai ter tentado me acalmar, reagi de uma maneira injusta: toquei várias vezes seguidas na vitrola a canção Sr. Cidadão, do TomZé.

Como se meu pai fosse um conservador; só que não era. 

E como se eu não tivesse um enorme dever de gratidão pelo ano que ele passara indo a cada duas semanas me visitar na PE da Vila Militar, com seu velho fusca caindo aos pedaços, só por milagre não quebrando na serra das Araras (Via Dutra).

Ele ouvira a música quieto, mas algumas horas depois pediu para eu tocá-la de novo. Percebi que me excedera e disse para não levar aquilo a sério, tinha sido só coisa de momento. 

Mas, adiante, até muito tempo depois, ele continuava pedindo para ouvir de novo o Tomzé. Deve ter-se tornado uma espécie de símbolo para ele. Da minha ingratidão? Provavelmente.

Também eu tirei uma conclusão do ocorrido: percebi que não me encontrava em condições de viver com a família, estava explosivo demais. Alguns dias depois fui com o pouco que consegui botar nua sacola para a comunidade alternativa que amigos haviam montado no Jardim Bonfiglioli, próxima à USP, para a qual haviam me convidado.

Decisão providencial. Eles sim sabiam o que eu estava passando e como me ajudar naquele momento. Todos, de uma ou outra forma, estávamos alterados pela necessidade de não
darmos bandeira fora das quatro paredes entre as quais, e só entre elas, podíamos ser nós mesmos naquele período nefando.

Mesmo assim, não passava as 24 horas do dia na comunidade, e foi a minha pior fase de loucuras. Como se procurasse o perigo, para sentir que ainda conseguia derrotá-lo. 

E vinha utilizando o LSD que eventualmente conseguia obter para aclarar a minha mente (tinha até dúvidas sobre lembranças do DOI-Codi que não sabia se eram reais ou meros pesadelos), então corri reais riscos de ser preso de novo, como dependente químico. 

Só que, de alguma forma, o inferno pelo qual passara me dotara de uma capacidade que antes não tinha de safar-me dos perigos. Era um kamikaze teimando em sobreviver. Até que numa viagem dessas, vi uma ponte à minha frente e sabia que, se a atravessasse, ficaria para sempre naquele limbo. Resolvi não o fazer. E nunca mais repeti esse tipo de viagem. 

Passei a juntar os cacos da minha existência, até porque nesse exato período a comunidade implodiu e tive de buscar meu caminho sem a família e sem os velhos companheiros. Acabei alugando uma pequena quitinete com minha última namorada e arrumando um emprego em assessoria de imprensa. Decidira sobreviver, com a esperança de um dia lutar de novo.

E o relacionamento com meus pais voltou ao normal. Toda noite de sábado eu e minha namorada os visitávamos levando pizza e passávamos horas jogando buraco. Mais tarde, quando chegou a onda do VHS, tive a satisfação de conseguir para o velho vários filmes dos mocinhos de bang-bang que ele curtira quando jovem. Era coisa rara, difícil de encontrar.

Na verdade, ele não era conservador. como também não era comunista. Era getulista, portanto nacionalista, de ficar mostrando aos conhecidos o célebre panfleto   Um dia na vida do BrasilinoChorou quando Vargas cometeu suicídio e amiúde falava cobras e lagartos contra o imperialismo.

Tinha o trauma de haver perdido o pai com 11 anos de idade, assassinado com um tiro nas costas por um subalterno a quem demitira (era mestre de uma tecelagem no RJ)  Assim, da noite para o dia passou a levar vida de adulto, obrigado a trabalhar em período integral para botar o pão na mesa familiar. Parentes ajudaram a conseguir-lhe emprego com a idade que tinha, embora o mínimo legal fosse 14 anos.

A tragédia o tornou cauteloso, tinha receio de ser também assassinado e me legar o mesmo sacrifício. Então admirei-o intensamente ao tomar conhecimento do que se passara quando o DOI-Codi foi finalmente me procurar, em vão porque eu já estava fora de casa havia alguns meses. 

Depois de revistarem tudo e não acharem nada (eu fizera uma limpeza em regra antes de sair), um oficial tentou convencê-lo a me recomendar a rendição, pois só assim eles poderiam me ajudar.

Ele, que passara a vida inteira mantendo-se longe de encrencas, daquela vez não se conteve: "E foi para ajudar o meu filho que vocês vieram aqui em plena madrugada e viraram minha casa de cabeça para baixo, exibindo toda essa artilharia?". 

Quase o levaram preso. (por Celso Lungaretti)
"Ah, senhor cidadão, eu quero saber com
quantos quilos de medo se faz uma tradição" 

sexta-feira, 24 de julho de 2020

NA ÉPOCA DOS FILMES DERIVADOS DAS ÓPERAS-ROCK, SÉRGIO RICARDO CRIOU UM DO TIPO "ÓPERA-CANTORIA NORDESTINA"...

Por coincidência, acabo de encontrar finalmente disponibilizado no Youtube o melhor dos três longa-metragens de Sérgio Ricardo, rodado em 1973 e lançado no ano seguinte: A noite do espantalho.

Serve de complemento ao post-tributo Sérgio Ricado (1932-2020): bom de música e com muito caráter (acesse aqui), no qual inclui cinco vídeos musicais para dar uma ideia da principal vertente do seu trabalho artístico. Mas, o cinema não poderia ficar de fora.

Naquele texto anterior comentei que sua obra como compositor e intérprete deveria ter obtido mais sucesso, mas também aí cabe uma complementação: SR tinha inegáveis talentos nos dois campos e deixou uma obra respeitável em ambos, mas não era o melhor de sua geração. 

Na visão marxista, o sucesso de um personagem, seja na História ou nas artes, premia o indivíduo capaz de preencher um espaço existente naquele momento e que se fecha quando alguém o ocupa.

Assim, p. ex., Taiguara tinha tudo para ser o Chico Buarque dos anos 60 se o próprio não houvesse desistido do curso de arquitetura e apostado todas suas fichas numa carreira artística; Tomzé decerto seria a expressão máxima do tropicalismo caso Gilberto Gil houvesse permanecido administrador de empresas e não tivesse existido o dia que eu vim-me embora na mocidade do Caetano Veloso; e assim por diante. 

Não me lembro de nenhum artista mais talhado para desempenhar o papel de Geraldo Vandré, se este não existisse, do que SR. 

Mas, GV existia e, embora a excelência dos dois como compositores não os diferenciasse muito, o paraibano era mais carismático e passava mais emoção. 

A interpretação de SR tendia a ser contida, enquanto GV era capaz de soltar um grito crescente, lancinante, no meio da música, como em Canção nordestina ("e essa dor no coração/ aaaaaaaaAAAAAAAAIIIIIIIII!!!!!!!!/ quando é que vai se acabar?/ quando é que vai se acabar?").

Lá pelos meus 14 anos, eu a escutava pelo rádio, sem prestar muita atenção, no programa Marcando bossa do Walter Franco, quando esse grito inesperado, desesperado, me arrepiou todo e me chamou para dentro da canção. Foi quando comecei a ter o Vandré como meu predileto na MPB.

Mas, como disse certa vez um bolchevique menos eminente acerca do Trotsky, nem todos podem ser gênios. SR foi ofuscado por GV, que corria na mesma faixa da MPB; e por Glauber Rocha no cinema, quando fez seu trabalho mais ambicioso, A noite do espantalho, evidentemente inspirado em O dragão da maldade contra o santo guerreiro. Não dava para comparar.
Mas, essa visão pueril da maioria dos brasileiros, imortalizada numa frase sarcástica do Nelson Piquet ("o segundo não passa do primeiro dos últimos"), sempre me fez lembrar guris medindo seus pênis para decidir qual o maior. 

Taiguara e SR foram grandes artistas, merecedores de todo nosso respeito; só não tiveram a sorte de Tomzé que, mesmo superado pelos concorrentes tropicalistas nos anos 60, recebeu uma segunda chance do destino em 1990, quando o roqueiro David Byrne se deslumbrou com seu trabalho e o apresentou aos estadunidenses e europeus... o que o fez ser redescoberto no Brasil (!).

A noite do espantalho – que tem, além da influência glauberiana, pontos de contato com as versões cinematográficas das óperas-rock de então – mostra a disputa que o vaqueiro Zé Tulão e o jagunço Zé do Cão travam pelo amor da bela Maria do Grotão (Rejane Medeiros), em meio às mudanças causadas pela chegada do imperialismo (um dragão andrógino) àquele povoado, a convite do horroroso coronel Fragoso (Emmanuel Cavalcanti).

O espantalho (Alceu Valença) comenta os acontecimentos com suas danças e músicas, a maioria composta especialmente para o filme; é linda e foi bem encaixada no contexto a anterior Tema da posse, uma das mais poéticas descrições do ato amoroso na MPB ("Em noite de luar no céu/ Maria do Grotão, ai, se deu/ Um cão latindo ao longe/ Zé Tulão derrubou sua fulô/ E os gemidos de Maria/ Só quem pôde ouvir/ Foi mandacaru"). Outra reaproveitada é Pena e penar, também de 1967.    

Por último: realizar um filme desses, mesmo tendo à disposição, gratuitamente, um majestoso cenário natural (o teatro ao ar livre de Nova Jerusalém, PE, onde artistas locais montam anualmente a Paixão de Cristo) era uma epopeia. SR, com imensas dificuldades financeiras, tirou leite de pedra. É mais um motivo para lhe sermos reconhecidos. (por Celso Lungaretti) 
Related Posts with Thumbnails