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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

PAPAI FAZ 100 ANOS (um tributo)

Por estes dias meu pai estaria completando um século de existência. 

Exatamente quando, nem mesmo ele sabia. Era costume dos antigos, se os filhos nasciam perto de feriados, colocarem a data festejada na certidão de nascimento. 

Então, mais tarde, a única coisa de que ele tinha certeza é de não haver vindo ao mundo no dia da proclamação da República, conforme constava dos seus documentos.

Meu pai era Reynaldo. Quando brigava com ele, minha mãe fazia blague com seu nome: "rei, nada!".

Eu tinha alguma admiração por ele, bastante amor e imensa compaixão.

Sua vida foi praticamente destruída aos 11 anos de idade; passou as sete décadas seguintes lamentando o paraíso perdido, sem nunca ser totalmente feliz.

Foi assim: meu avô Baptista, mestre de fiação e tecelagem que veio tentar a sorte no Brasil, trabalhou primeiramente em São Paulo, onde constituiu família. Depois, contrataram-no para comandar uma fábrica no Rio de Janeiro.

Foi o momento mágico da vida do Reynaldo. Gostava imensamente de Baptista, homem forte, altaneiro, mas carinhoso com os filhos, como costumavam ser os italianos. Numa foto amarelada, única que sobrou, ele aparece imponente, com a indumentária que usava em caçadas.

Além disto, havia todas aquelas brincadeiras da molecada de outrora e, principalmente, o campo de futebol ao lado de sua casa. Reynaldo chegava da escola, atirava seu material por cima do muro e caía na pelada. Levava a vida que todo garoto gostaria de ter.

Mas, um operário demitido por Baptista o tocaiou na feira de sábado, baleando-o pelas costas.

No Tiro de Guerra  
Minha avó teve de voltar para São Paulo, onde contaria com a ajuda de parentes. Um deles conseguiu colocar meu pai como empregado no Cotonifício Crespi, fraudando sua idade para burlar a fiscalização. Em 1930, ingressou pela primeira vez no prédio em que trabalharia até 1976.

Conheci essa indústria gigantesca, que ocupava um quarteirão inteiro, enorme, na Mooca. À saída, a multidão era tamanha que lembrava a debandada de uma torcida de futebol após a partida. A área de trabalho mal iluminada, com muita poeira de algodão flutuando. Local deprimente, sufocante.

Na década de 1960, era praticamente idêntica à mostrada no filme Os companheiros, de Mario Monicelli, sobre uma greve ocorrida em Turim... no final do século 19! Estávamos bem atrasados. [Temo que, sob o verniz modernoso, ainda estejamos.]

O menino que vivia feliz e despreocupado, jogando bola dia e noite, herdou, de um momento para outro, responsabilidades de homem da casa. Era este o dever de um primogênito, disse-lhe minha avó, ao encerrá-lo numa fábrica medonha.

Adulto, Reynaldo recitava com tristeza a poesia de Casimiro de Abreu: "Ah, que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais". E quando eu lhe conseguia fitas VHS dos mocinhos de outrora (Tom Mix, Hoot Gibson, Ken Maynard e que tais, dizia que "agora não têm a mesma graça").

Teve lá seus prazeres e distrações, dançava bem, foi razoável jogador de sinuca, ia no futebol, paquerava na rua da Mooca (o chamado footing, turminhas de homens e turminhas de mulheres passeando pela calçada, até que os mais ousados engatassem um papo, um flerte).

A grande greve de 1917 começou no Crespi
Só se empolgou uma vez com a política, na pessoa de Getúlio Vargas. Chorou no dia de sua morte e guardava um jornal que a noticiou, na mesma caixa de outros marcantes (o do fim da 2ª Guerra Mundial, o da conquista da Copa do Mundo de 1958, etc.). 

Era contra os patrões e o imperialismo, mas a antipatia por um dos irmãos impostos (minha avó acabou casando de novo, com um viúvo que tinha mais filhos ainda para criar, cinco), comunista dado a discursar aos brados durante as refeições familiares, afastou-o da esquerda. Era complicada a convivência dos oito. 

A síndrome de arrimo da família o tornou cauteloso demais para ter êxito na carreira. Não trocava o certo pelo incerto, então continuou no Crespi até que fechasse, em 1964. 

E, como todos os seus colegas, foi tungado. Naquele tempo, os patrões eram os (in)fiéis depositários da aposentadoria dos trabalhadores. Então, a família proprietária aproveitou o golpe militar para pedir falência e, com o sindicato receoso e impotente, coagir os operários a péssimos acordos.

Reynaldo resistiu durante bom tempo, mas acabou cedendo ao receber proposta de novo emprego. Conformou-se com uns 45% do que lhe era devido.

E, como móveis e utensílios da velha indústria, foi permanecendo lá, primeiramente a serviço do turco que alugou parte das instalações para montar uma tecelagem menor. Depois, do judeu que utilizou o mesmo espaço como loja de tecidos. 

Enquanto o negócio ainda ia bem, o Crespi submetia os empregados a um revezamento bizarro: numa semana seu turno era das 5h às 13h, na outra das 13h às 21h.

Quando tive de trabalhar alguns meses numa rádio, preparando o noticiário matutino, aquilatei melhor o sacrifício do meu pai, de marchar para o emprego na escuridão da madrugada, quando o corpo pedia mais repouso; afora a dificuldade que ele tinha para adequar-se à mudança do regime de sono, ora uma esticada só, ora dois períodos.

Três patrões, mas sempre o mesmo endereço, durante 46 anos! Eu, que trabalhei nuns vinte lugares diferentes, não consigo nem imaginar o que seja repetir o mesmo trajeto e labutar num ambiente sombrio por mais da metade da vida.

Houve um tempo em que moramos longe do Crespi e ele ia para o serviço de bicicleta. Às vezes era perseguido por cachorros. Às vezes chovia.

Eu era criança e escutava seus relatos com curiosidade, mas não me ocorria lamentar sua sorte, nem me sentiria bem fazendo isso. Agora fico me perguntando se ele esperava de mim elogio ou comiseração. Nunca saberei.

Casou mal, com quem queria mais do que ele poderia oferecer. Sempre comparado-o desfavoravelmente ao pai dela, meu avô Arthur Vannucci, que ergueu uma fabriqueta de móveis graças ao seu indiscutível talento, mas também à sorte: clientes que admiravam-lhe o trabalho cotizaram-se para emprestar o capital inicial de seu próprio negócio. 

Reynaldo trabalhava seis dias por semana e ainda fazia bicos para um parente, recolhendo apostas de corridas de cavalo aos sábados e domingos. Estoicamente, e arriscando-se até a ter problemas com a polícia, embora fosse uma contravenção menor. Ainda assim, era amiúde espinafrado como acomodado por minha mãe.

Lá pelos 35 anos, desistiu dos velhos amigos e passou a se dividir apenas entre a casa e o trabalho.

Já não tinha esperança de alçar voos maiores. Percebia que o ramo têxtil nunca mais recuperaria o antigo esplendor. De pouco valeriam os cursos que concluíra brilhantemente, para passar de operário a contra-mestre (depois mestre), face à decadência do segmento.

Ele, que via os apostadores de fim-de-semana como otários, também fez as apostas erradas no jogo da vida.

Gostaria que eu, o filho único, chegasse aonde ele não pôde: engenheiro. Mas, a vida me conduziu noutra direção. E, já com 50 anos e a resignação habitual, enfrentava a Via Dutra com seu fusquinha para me visitar, preso, na PE da Vila Militar, pegando a estrada de volta no mesmo domingo. 

Inesperada e melancólica maneira de reencontrar os cenários da infância, pois havia morado no vizinho bairro de Deodoro.

Já lá se vão 16 anos de sua morte. Os parentes me dizem que estou cada vez mais parecido com ele, exceto por ter conservado os cabelos que Reynaldo perdeu precocemente, devido à poeira da tecelagem.

Morreu aos 83 anos, depois de quatro derrames lhe tirarem, nos últimos tempos, qualquer prazer que pudesse ter em estar vivo. 

O seu enterro foi a única ocasião em toda a vida em que eu deveria dizer algo, porém as palavras não me vieram. Nada que eu pudesse dizer lhe faria justiça. Gente é para brilhar, disse o Caetano Veloso; mas, o que fazer quando a oportunidade de ouro nunca chega?!

Era um bom homem, que não concretizou seu potencial nem obteve o pouco com o qual sonhava. Merecia do destino muito mais do que recebeu.

Pensando nele, redobro meus esforços para que a vida não seja mais essa competição inútil e insana, na qual quase todos perdem e só uns poucos se realizam plenamente. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

MEU TIO PATINHAS MORREU

"A fortuna favorece os fortes"... condenando-os ao amargor?
Somente ontem (5ª feira, 23) fiquei sabendo que meu tio rico morreu no dia 13 de dezembro do ano passado. 

Isto porque ninguém se deu ao trabalho de informar a parte da família que ele excluiu de sua vida. Então, a ilustração ao lado é só uma ilustração. A coisa provavelmente terá sido mais melancólica ainda.

Meu avô paterno era técnico italiano de alto nível e foi contratado para comandar uma fábrica têxtil no Rio de Janeiro. Num sábado de 1930, quando caminhava numa feira livre, foi baleado pelas costas por um operário que demitira.

Minha avó e os três filhos vieram para São Paulo, onde havia parentes que a poderiam ajudar em sua viuvez. Um deles, bem colocado no Cotonifício Crespi, conseguiu empregar lá meu pai, burlando a lei que vedava a contratação de menores de 14 anos. 

Meu pai estava com 11 e teve de sacrificar-se por ser o primogênito. Meu tio, portanto, fez carreira sem a obrigação de botar comida na mesa familiar, até porque a minha avó casara de novo, também com um viúvo. Mesmo assim, meu pai não parou de trabalhar. 46 anos seguidos.

Dos meus primeiros anos lembro-me desse tio morando a três quarteirões de distância de nós, já bem de vida. Era na casa dele que festejávamos o Natal. Empanturrava-me de chantilly, que naquele tempo se comprava em docerias, um gasto que meus pais não podiam bancar.

Eu deveria ter uns sete ou oito anos quando o lado paterno da minha família se estilhaçou: meu tio se descobriu traído e expulsou a esposa de casa. A maioria considerou-o severo em demasia e ele cortou relações para sempre. Meu pai ficou ao lado dele, mas a efusividade deixou de existir. O tio rico decidiu que família não lhe fazia falta.

Quando eu participava do movimento estudantil de 1968, aos 17 anos, comecei a passar de vez em quando pela pequena joalheria do meu tio rico no centro financeiro de São Paulo. Por força de suas atividades, ele podia transmitir muita informação útil sobre como funcionava o capitalismo e já então eu queria conhecer bem o inimigo.

Eu ia lá para papear e também para fazer hora antes do início de passeatas marcadas para o centrão (não valia a pena ficar me expondo pela rua, com o visual inconfundível dos estudantes rebeldes, antes de soar o chamamento (O povo na passeata!, O povo na passeata!), quando todos nós parávamos de disfarçar nos arredores e íamos de peito aberto desafiar a repressão.

Foi nesta fase que passei a conhecê-lo melhor. Sua joalheria era um bom negócio, mas não o principal: por baixo do pano, fazia empréstimos. Como todo agiota, chegava a viajar atrás dos caloteiros. Não conseguia imaginá-lo naquele papel. Levaria um capanga consigo?

Seu grande sonho até então fora o de abrir um pequeno banco. Mas, a política econômica dos golpistas de 1964 foi na direção exatamente oposta, a de favorecer a monopolização do setor financeiro. Então, por motivos bem diferentes, tínhamos em comum o ódio à ditadura...

Mas, fiquei decepcionado ao ver um livro interessante exposto na estante da joalheria e, puxando papo sobre ele, ficar sabendo que meu tio tinha um acordo com a livraria do outro lado da rua, que lhe alugava os títulos em maior evidência, substituindo-os periodicamente. 
"A trajetória dele lembra bem a do Cidadão Kane...

Ele mesmo não lia nenhum. E eu, que naquele tempo lia tanto, fiquei chocado ao saber que livros, para meu tio, faziam parte da decoração.

Depois de minha passagem pela luta armada, pouco o vi. Mas, certamente era com os contatos e a grana dele que meu pai contava quando, tão logo meu nome e minha foto saíram nos cartazes de terroristas assassinos procurados, mandou-me recado de que poderia me fazer chegar são e salvo a outro país. 

[Os pais às vezes não conhecem os filhos que têm. Mesmo quando a luta tomava rumos cada vez mais adversos para nosso lado, eu não considerei a hipótese de salvar-me sozinho, preferindo afundar junto com o navio.]

Enquanto isto, meu tio descobriu afinal uma maneira de se dar bem durante a ditadura: foi ser corretor na Bolsa de Valores de São Paulo. Ganhou muita grana e quase morreu do coração. Lembro-me de ter ido no hospital mas ele não estar recebendo visitas. Era incerto se, safenado, sobreviveria. Acabou durando mais uns 45 anos e morrendo nonagenário.

Quem morreu de imediato foi o corretor. Alertado de que não seria mais capaz de suportar o estresse da Bovespa, meu tio mudou de atividade, investindo seu polpudo pé de meia na construção de edifícios residenciais para vender ou alugar os apartamentos. Até que se cansou e, já suficientemente rico, pendurou a carteira.
...que foi vitorioso nos embates econômicos, mas perdedor na busca da felicidade"
Mudou para o último prédio que construiu, ocupando-se, a partir de então, apenas das tarefas de síndico e administrador in loco

Teve um filho do primeiro casamento e um de um segundo (que aparentemente foi feliz até a esposa morrer jovem). Fez muito por ambos mas quis controlar a vida deles; quando discordavam, jogava-lhes na cara tudo que com eles gastara. Dignos, cada qual por sua vez se distanciou, pois não precisavam de esmolas. Os meio-irmãos se voltaram contra o pai e se dão bem até hoje.

Isolou-se de uma vez por todas. Chegou a ter uma ou outra mulher morando com ele e acompanhando-o nas viagens pelo mundo que gostava de fazer. 

Quando meu pai morreu, há 15 anos, sumiu definitivamente da minha vida. Nem minha mãe visitava mais. 

Agora, uma pesquisadora brasileira que mora na França e faz tese na Sorbonne me contatou por e-mail a respeito do Caso Longaretti (ela desenvolve um alentado trabalho sobre os sangrentos conflitos entre os fazendeiros brasileiros e os colonos italianos atraídos para nosso pais após o fim da escravidão).

Orientei-a a procurar o meu tio, que estaria bem mais a par do assunto. E foi assim que fiquei sabendo da sua morte.

A trajetória dele lembra bem a do Cidadão Kane: desumanizou-se pouco a pouco, até morrer na ilha na qual se refugiou, vitorioso nos embates econômicos, mas perdedor no que realmente importa: a busca da felicidade. 

Que dinheiro nenhum proporciona. Pelas trilhas da ganância, só conseguimos arrastar-nos pela vida confortavelmente... amargurados!  
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