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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

DESCONFIEM DAS CRIPTOMOEDAS: ELAS SÃO UM GIGANTESCO COLAPSO ANUNCIADO! – 2

(continuação deste post)
N
a forma atual está claro que o valor monetário, fiduciário, é artificial, de vez que não provém da constituição de valor válido advindo da produção de mercadorias e tem o seu custo de produção como critério definidor do valor (tempo de trabalho abstrato coagulado na mercadoria).  

É aí que entram na pauta social as moedas criptografadas, as quais nada mais são do que a representação convencional de uma outra moeda ou moedas, mais artificial ainda do que as ditas cujas. Trata-se da abstração da abstração. 

Não há valor substancial no dinheiro enquanto padrão monetário nacional; muito menos nas moedas eletrônicas, que apenas pretendem representar as primeiras. 

Como se explica que o bitcoin, moda eletrônica inventada por alguns espertalhões do fantástico mundo do mercado financeiro decrépito, mesmo sem nada produzir, tenha se valorizado em 700% durante determinado período e em 200% no último ano da pandemia que paralisou a produção, gerando, com isto, lucros estratosféricos aos seus compradores??? 

Agora mesmo, determinado grupo financeiro resolveu comprar bitcoins e, com isto, duplicou a valor do seu investimento como num passe de mágica. É claro que, a exemplo das bolhas financeiras (como a do subprime), esta é a mais moderna forma de pirâmide financeira, sem base de substância e com data marcada para sua implosão.

Evidentemente, por serem livres do controle tirânico dos bancos e do fisco, as criptomoedas ganham popularidade como meio eficaz e célere de pagamento e investimento, daí a sua valorização artificial. 
Sem falar na conveniência de não permitirem a descoberta do detentor da conta (como nos bancos suíços, que abrigavam dinheiro sujo do mundo inteiro). Sendo ele identificado por um código criptografado pessoal, as criptomoedas se tornam um paraíso para a lavagem de dinheiro. 

Imaginem se o ex-deputado baiano Geddel Vieira Lima tivesse comprado bitcoin, ao invés de esconder o dinheiro em malas! Estaria por aí lampeiro, posando de digno representante do povo.

Mas, como as criptomoedas apenas representam moedas reais e se valorizam por um mecanismo da lei da oferta e da procura, tende a chegar um momento no qual o objeto de sua representação, as moedas oficiais, evidenciem as suas insubsistências; em tal momento, a queda das criptomoedas será maior do que a dos seus ativos financeiros fiduciários oficiais. Trata-se, portanto, de um gigantesco colapso anunciado.

O mundo hoje está gerido pelo controle monetário das nações emissoras de moedas fortes (dólar e euro), daí querer-se tanto a autonomia dos Bancos Centrais, justamente porque, com ela, o poder político cede lugar ao poder do controle monetário. 

Se os governos são ruins, opressores, subservientes ao poder econômico que os sustenta, os Bancos Centrais e seus controles monetários são absolutamente impessoais e insensíveis aos dramas humanos. As criptomoedas fazem parte desse universo de artificialismo insubsistente e tenebroso.

Já é hora, ou estamos passando da hora, de darmos um fim na riqueza abstrata como
condottieri das nossas vidas.

Ora, como não dá mais para segregar os indivíduos sociais transformados em cidadãos, socialmente, pelo trabalho abstrato, há que os segregar mediante a distribuição de dinheiro sem valor (caso do auxílio emergencial), como forma de:
— a eles, manter miseravelmente vivos; e, 
— àqueles que fazem o controle monetário, preservar-lhes a condição de senhores da dominação econômica e política, eternizando seus privilégios. 

Os dominadores fundamentais não são mais os patrões (ainda que permaneçam como parte desse processo), mas sim  os detentores do controle monetário e do mundo financeiro, que ditam qual a quantidade de ração a ser ministrada aos escravos da pós-modernidade, por intermédio de dinheiro sem valor, seja um padrão monetário nacional ou uma criptomoeda internacional. 

O Estado falido e seus políticos (estes últimos fora de foco e distantes da realidade funcional social, sendo a cada dia denunciados por seus atos absurdos e sua corrupção escancarada, além de terem as suas carantonhas repulsivas expostas numa pantomima que só não se evidencia mais grotesca ainda os olhos do povo porque a mídia está impedida de colocar o dedo na verdadeira problemática) são responsáveis pela perpetuação da miséria social quando a humanidade já adquiriu suficiente domínio do saber científico para erradicá-la em definitivo.

Não são os jornalistas, presos a uma camisa de força artificialmente sustentada que os obriga a focar naquilo que é fora de foco e, com isto, a manterem a população desinformada, os verdadeiros culpados pela inconsciência social sobre o que está em curso. 

A culpa cabe a uma forma de dominação que insiste em manter a todos cegos e conduzidos ao abismo pela flauta mágica e impositiva do valor sem valor.

Daí a importância de um veículo (como este blog) permanecer sem amarras comerciais patronais mercadológicas, nem envolvimento com governos e/ou partidos políticos, de forma a poder sempre fazer uma abordagem como a que ora realizamos – e isto quando a própria internet não nos proíbe! 

Vivemos a dor de um parto de alto risco, mas ainda há tempo de salvar o bebê. Precisamos, contudo, estar conscientes de como vem sendo conduzido este pré-parto, para que possamos conduzir bem o próprio parto. (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

DESCONFIEM DAS CRIPTOMOEDAS: ELAS SÃO UM GIGANTESCO COLAPSO ANUNCIADO! – 1

 dalton rosado
SOBRE O ENTRECHOQUE DE
MODELOS SOCIAIS EM MUTAÇÃO
.
"Bitcoin é uma fraude", "não vai sobreviver", "não vai a lugar nenhum" (afirmações feitas por  Jamie Dimon,
CEO do JP Morgan, em diferentes ocasiões) 
Começo agradecendo ao nosso leitor assíduo SF por seus interessantes comentários, uma estimulante inspiração para o tema da mutação social que se opera celeremente no mundo financeiro nos dias atuais. 

O artigo que se segue começou a ser escrito como resposta sintética às observações que ele fez a respeito do artigo sobre depressão e barbárie, mas acabou exigindo um maior aprofundamento. Aqui vai...

É interessante o SF ter citado o blockchain, um registro eletrônico centralizado por entes que fazem a coordenação de transações entre bens de algum valor econômico ou do próprio valor econômico (pretensamente sob sigilo dos demais participantes) e a moderna dominação de classes. 

As criptomoedas são espécies do gênero  blockchain.

Desde a entronização da microeletrônica na vida social, com transformações profundas no seu modo de ser, entramos na era da comunicação eletrônica, instantânea e sem volta, por celulares e computadores.

Contudo, as transformações provocadas pelo fenômeno da comunicação eletrônica imediata 
com a palavra escrita, áudio e imagens instantâneas aliadas ao armazenamento de dados computadorizados e cálculos infinitesimais, além da robotização mecanicista vivem uma fase muito peculiar. 

Trata-se do estágio próprio ao entrechoque de um modelo de relação social pretensamente moderno com o modelo de relação social pretensamente pós-moderno que vem substituir.

Foi assim na transição do feudalismo com seus valores econômicos fisiocratas, morais e éticos estabelecidos por uma moral rígida nos costumes e religiosidade dominadora para a vida mercantil. É que então surgiu a forma-sujeito da mercadoria, estabelecendo o novo padrão de relação social que vigoraria no capitalismo.

Nele, uma abstração (a mercadoria) ganhava vida no mundo real e passava a comandar as pessoas impessoalmente, estabelecendo uma nova forma de escravismo: o escravismo indireto do trabalho abstrato, ele próprio expresso como valor e produtor de valor. Com isto, foram substancialmente anuladas as virtudes que pudessem existir no homem feudal e pré-capitalista.

Para o homem dito moderno, o que interessa é sua conta bancária e se o que ele faz gera a mercadoria dinheiro.

Tornou-se, assim, depressivo (de vez que só uma minoria obtém a acumulação do capital e/ou alguns privilégios da nomenklatura institucional e aristocrática burguesa) e bárbaro, pois as virtudes humanas já não contam para o objetivo teleológico de ganhar dinheiro

Não há muita diferença entre o bandido latrocida e o banqueiro agiota ou político corrupto que matam no atacado, estes últimos criminosos em escala bem maior.  

A microeletrônica passou a ter, também, função primordial para os meios de produção capitalistas, uma vez que possibilitou a robotização e racionalização de procedimentos e cálculos que culminam na redução de custos da produção de mercadorias próprias à corrida concorrencial mercadológica, ao tornar prescindíveis alguns desempenhos do mesmo trabalho abstrato produtor de valor. 

Assim, o critério de dominação pelo uso do trabalho abstrato produtor de valor e da acumulação do capital deixou de ser o critério fundamental mantenedor da relação social mediada por valor válido (advindo do trabalho abstrato na produção). 

Da mesma forma que o trabalho escravo direto cedeu lugar ao trabalho escravo indireto abstrato, salarial, agora é o trabalho das máquinas robotizadas e da programação pela computação aplicada à produção de mercadorias que passam a vigorar socialmente.

Entretanto, o buraco é mais embaixo. 

O entrechoque entre uma forma de relação social antiquada com a atualizada que se aperfeiçoa a olhos vistos (sendo a primeira fundada essencial e predominantemente no trabalho abstrato, e a segunda num novo modo de produção, no qual o papel do trabalhador é apenas ser programador ou vigia das máquinas) provoca mudanças profundas na sociedade. 

É que ela ainda tem um pé no modelo social que está caducando e coloca o outro pé naquele que se apresenta como seu sucessor. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

RECUPERAÇÃO CONSISTENTE OU "MILAGREZINHO ECONÔMICO DE UM CAPITALISMO EM FIM DE FEIRA"?

dalton rosado
O CRESCIMENTO
 INSUSTENTÁVEL E
 HETEROGÊNEO DA
ECONOMIA MUNDIAL
O capitalismo vem sofrendo crises cíclicas cada vez mais profundas no processo histórico existencial destes últimos cinco séculos, quando saiu da etapa pré-capitalista para a sua fase adulta, desenvolvida. 

Nos últimos 150 anos processaram-se três revoluções industriais que causaram profundas disputas hegemônicas entre as nações, em razão do nível de produtividade heterogêneo das ditas cujas. Dessas viragens nos modos de produção de mercadorias derivam as duas grandes guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945) que ceifaram a vida de 60 a 70 milhões de pessoas, configurando um genocídio como nunca antes se vira no itinerário da humanidade sobre o planeta.  

Agora as crises são mais próximas umas das outras e com um fator adicional: os países periféricos se desintegram por absoluta falta de competitividade na produção de mercadorias num mercado mundial cada vez mais marcado por um controle monetário que manipula a emissão de moedas fortes como modo de indução ao crescimento econômico e salvação do sistema financeiro credor dos estados (ricos e pobres) endividados e sem capacidade de solvência. 
Segundo o FMI, a economia mundial cresce pouco, enquanto a brasileira caiu dois anos e depois estagnou. 
Após dez anos de queda, com exceção de 2010 (quando se observou um suspiro, graças a instrumentos do capitalismo moribundo), eis que o ano findo, 2017, está sendo alardeado como o início de um novo ciclo de crescimento da economia.

O principal argumento para justificar tal retomada é o crescimento das taxas de empregabilidade da mão-de-obra economicamente ativa nos Estados Unidos desde 2010, quando o desemprego atingiu 9,7%; já no ano passado tinha caído para 4,4%, ainda que com redução dos níveis salariais médios, como imposição da concorrência de mercado internacional na produção de mercadorias. 

Mas, esquecem-se os apressados analistas que os números da economia estadunidense continuam a apresentar fissuras que somente são contornadas porque o mundo continua ingenuamente acreditando na solidez dos títulos da dívida pública e da própria moeda dos EUA.
"Bolhas financeiras têm fôlego curto"

Os países ricos, que têm dívidas colossais relativamente aos seus PIBs (como é o caso dos próprios Estados Unidos, da União Europeia, do Japão e mesmo da China, que, apesar de seu PIB já ser o segundo do mundo e caminhar para o primeiro lugar, não possui renda per capita compatível com os padrões do G7), têm suas dívidas públicas financiadas a baixíssimos custos como resultado das altas somas de dinheiro sem possibilidade de aplicação na produção de mercadorias de modo rentável.

Enquanto os países ricos têm juros baixíssimos (o que obriga os bancos a captar recursos a juros negativos para financiá-los), os países periféricos, onde mora a grande maioria da população mundial, mesmo com suas taxas de endividamentos públicos percentualmente menores em relação às dívidas/PIB dos países ricos, pagam juros escorchantes. 

O Brasil, p. ex., no ano de 2016 desembolsou R$ 407 bilhões em juros, equivalendo a mais de 8% do PIB, o que sacrifica sobremodo as finanças públicas em detrimento da satisfação das demandas sociais. Em 2017 os números tendem a ser ainda mais elevados.

Isso tudo é capitalismo.   

O capital está desempregado justamente porque o desemprego estrutural impõe essa condição e o sistema financeiro fundado em dividas impagáveis num futuro próximo tende ao colapso. Quem viver, verá. 
Míseros +0,2% e o Governo Temer exagerando no auê...

As análises da economia mundial feitas pelos economistas burgueses e pelo grande empresariado nacional e mundial ávidos em manter suas absurdas concentrações de riquezas, se parecem com o entusiasmo daqueles doentes crônicos que, face a uma fugaz melhora do seu quadro geral, passam a acreditar na pronta e sustentável recuperação.   

Costumo dizer que, se um extraterrestre incumbido de relatar sobre a vida no nosso planeta descesse em qualquer grande cidade brasileira e ficasse apenas nos bairros ricos, alheio ao que se passa nos extensos bairros miseráveis como resultante da cisão social citadina, faria um relato totalmente distorcido da realidade.  

Assim, a análise econômica, sem levar em conta o desequilíbrio da macroeconomia global, faz sempre uma avaliação otimista e parcial dos surtos cada vez menores de recuperação econômica, pois, afinal, quando se tem (como no caso brasileiro e da culta União Europeia) percentagens aviltantes de desemprego social, qualquer melhora nos indicativos estatísticos, é celebrada como prenúncio de tempos melhores consistentes e duradouros, ainda que a miséria e a barbárie social continuem grassando soltas.

Além da dívida pública impagável, há a questão dos déficits das previdências sociais mundiais em face do desemprego estrutural que atinge principalmente os jovens que chegam ao mercado. É uma bomba-relógio prestes a explodir graças à impossibilidade de montar-se uma equação contábil plausível da matemática financeira previdenciária.  

Sob o capitalismo, os bairros são como as cidades, as cidades são como os países e os países são como o mundo: ilhas de prosperidades decadentes, rodeadas de misérias por todo lado.  

Tudo se torna tão ilusório e irracional como, p. ex., a até ontem florescente moeda virtual bitcoin: ela deveria apenas representar o valor médio das moedas que compõem a sua carteira, mas, impulsionada pela lei da oferta e da procura, atingiu valores desmedidos, até ter um choque de realidade e causar enormes prejuízos aos que aderiram de última hora à corrida do ouro... de tolo!. Estes agora são obrigados a venderem seus ativos financeiros, sob pena de prejuízos ainda maiores. 
Euforia com a bitcoin = "corrida do ouro... de tolo!"
Ainda se vê pela internet, sem que seja considerado crime, o chamamento aos pretensos lucros fáceis na aquisição da moeda virtual (a abstração da abstração, como a qualificamos aqui). 

O crescimento econômico mundial de 2017 (o qual só pode assim ser considerado em comparação com os 10 anos anteriores, que marcam o grande choque depressivo do sistema financeiro provocado pelo bolha financeira do sub-prime imobiliário estadunidense, cujas consequências não foram ainda mais danosas porque o Estado interveio emitindo títulos da dívida pública e moeda oficial falsa), não tem consistência duradoura, mais se assemelhando a um milagrezinho econômico de um capitalismo em fim de feira.

Bolhas financeiras induzidas pelo excesso de capitais sem capacidade de aplicação no sistema produtor de mercadorias (aplicação dentro das regras da lógica de um capitalismo embasado economicamente na produção de valor dito válido, ainda que seja sempre segregacionista) têm fôlego curto. (por Dalton Rosado)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

BITCOIN: UM FALSO MILAGRE.

"O bitcoin fará com os bancos o que
e-mail fez com o correio postal"
(Rick Falkvinge, empresário de TI)

De repente, como mais um pretenso milagre virtual cibernético, aparece uma forma de dinheiro que afirma não estar vinculado à emissão de moedas pelos Bancos Centrais dos Estados nacionais. Uma meia verdade, e como toda meia verdade, termina por ser uma mentira inteira. 

Trata-se do bitcoin, que viralizou (para usar uma expressão da internet) como moeda capaz de facilitar a vida mercantil e, ao mesmo tempo, proporcionar ganhos fáceis aos que aderirem à sua compra. Eu disse compra, porque o principal modo de se obter bitcoin é adquirindo-o com moeda oficial vigente que, teoricamente, lhe empresta lastro existencial.  

Daí podermos afirmar, logo de início, que o bitcoin é uma representação virtual de moedas oficiais que representam a abstração valor (esta última, teoricamente, com lastro na produção de mercadorias, que são por sua vez, ao mesmo tempo, concretas e abstratas). 

bitcoin é, portanto, uma abstração virtual representativa de outra abstração. 

Sendo o próprio dinheiro uma abstração meramente virtual, ainda que tornada real nas mercadorias sensíveis e serviços, o bitcoin é o suprassumo da abstração, ainda mais virtual, porque só existe eletronicamente (não há papel-moeda bitcoin).
"Uma abstração virtual representativa de outra abstração"

Passemos pois à análise, com lupa de aumento e sob o critério da isenção científica, da substância constitutiva e significado da moeda bitcoin

Qualquer moeda é (ou deveria ser) a representação do valor. Tanto a moeda que representa o valor como o próprio valor são, ambos, abstrações numéricas que representam (ou deveriam representar) trabalho objetivado, cristalizado nas mercadorias sensíveis ou serviços; estes, por se tratarem de uma forma de relação social aceita e que interfere materialmente na vida das pessoas, transformam-se em abstrações reais, materializadas.

As moedas e o valor são abstrações porque meramente numéricas e resultantes da contabilização mental que lhes emprestam uma forma específica de relação social; são reais porque terminam por se consubstanciar numa relação social materializada nas mercadorias e serviços que servem ao consumo humano concreto, independentemente do seu caráter abstrato. 

Nesse sentido o bitcoin nada mais é do que uma convenção de síntese de valor numérico contido em todas as moedas que são socialmente aceitas e que integram a sua cesta de valores, podendo facilitar as relações mercantis internacionais e nacionais reduzindo custos de operações na circulação. 

Trata-se de um serviço eletrônico (de risco), pura e simplesmente.
Anúncio de uma concessionária de veículos

É falacioso se dizer que a emissão de bitcoin tem vida própria como valor, independentemente da emissão de moedas pelos Bancos Centrais nacionais unificadas; afinal, não passa de um grande fundo de moedas nacionais e até mesmo do dólar estadunidense, a moeda internacional, como se tivesse o poder de emissão monetária. 

A emissão de bitcoin não tem nenhuma relação com emissão de dinheiro novo, mas é uma emissão de título de crédito extraoficial que, uma vez aceito, passa a circular no mercado, tal qual uma nota promissória ou outro título de crédito qualquer, ainda que tenha a aparência de moeda com poder de compra (passando, assim, a tê-lo efetivamente).  

bitcoin está sujeito às intempéries próprias às emissões de moedas de cada país, que mais dia menos dia evidenciar-se-ão como títulos de créditos insolváveis. 

Em muitas comunidades são adotadas moedas que circulam em âmbito restrito, mas todas elas, tal como o bitcoin (que é muito mais abrangente, complexo e sigiloso), têm lastro em moedas oficiais. 

Como sabemos, já hoje as moedas nacionais são emitidas sem a correspondência na produção de mercadorias, posto que, na composição do PIB dos países, os setores primário (agronegócio) e secundário (industrial) da economia são únicos produtores de valores novos que autorizam a emissão de moeda devidamente lastreada, representando parcela bem menor nesse indicador do que o setor terciário (serviços), que não produz valor novo.
Dinheiro de fantasia conhecemos desde a meninice...

Não é nenhuma novidade a afirmação de que impera a emissão de moeda sem lastro no sistema produtor de mercadorias, causando inflação (mais dinheiro sem mercadorias produzidas), principalmente para os países periféricos do capitalismo, cujas moedas emitidas sem lastro não são acreditadas no mercado internacional. 

Há, contudo, uma diferença: a moeda bitcoin, ao invés de ser inflacionária como o são todas as outras que compõem a sua cesta monetária, é deflacionária, ou seja, ela se valoriza a cada dia, mas de modo artificial, não passando de um mecanismo de mercado sujeita às oscilações que lhe são próprias.  

Tal fenômeno, aparentemente mágico, decorre do simples fato de que, como sua aquisição é limitada ao volume de bitcoins programado para circulação, e sendo eles cada vez mais procurados, incide sobre tal moeda a chamada lei da oferta e da procura, que provoca a oscilação de aumento de suas capacidades de compra (aumento de preços, não de valor, que é coisa diferente), ensejando uma ilusão aos desavisados.        

A cada vez maior procura do bitcoin faz aumentar o seu preço relativamente às moedas que compõem a sua cesta de lastro monetário, numa evidência da artificialidade do processo, que deverá evidenciar-se inconsistente e causar mais uma fissura no já artificial sistema financeiro internacional quando as moedas que representa perderem a capacidade de compra.  

Como o bitcoin compõe-se, além das moedas fortes, também, com moedas fracas, ou seja, dos países periféricos do capitalismo, a perda de capacidade de compra dos bitcoins tende a ocorrer antes mesmo da queda das chamadas moedas fortes (o dólar estadunidense e o euro, p. ex.).

Mais dia, menos dia, bitcoins cairão na mira dos governos
VIRTUDES E RISCOS DA MOEDA VIRTUAL

A microeletrônica não produz estragos apenas na lógica do sistema produtor de mercadorias a partir da prescindência do trabalho abstrato, único produtor de valor válido e novo no universo da vida mercantil.

Há efeitos colaterais de grande significado que estão a demonstrar as contradições e irracionalidade do capitalismo desenvolvido como modo de mediação social dito moderno. Um deles é exatamente o surgimento da moeda bitcoin e sua magia ilusória e insubsistente.

Mas há benefícios por ela proporcionados que servem como chamarizes aparentemente convincentes para o seu uso, ainda que conspirem contra o próprio sistema no qual ela está inserida. 

É evidente que a vida social mercantil, a partir de um sistema virtual comandado por computadores e celulares computadorizados em conexão com a comunicação via satélite (internet), facilita-lhe a operacionalização, dada a sua agilidade. 

O comércio virtual de mercadorias, no que diz respeito à sua contratação (compra e venda), é um mercado abstrato por excelência, ainda que possa se materializar nas mercadorias e serviços, pois os valores de uso de ambos permanecem inalterados. 
Uso do bitcoin dificulta fiscalização da cobrança de impostos

A agilidade dos procedimentos mercantis num mundo em que time is money é outro fator contributivo para o uso dos serviços via moeda bitcoin.   

Tal forma de mercantilização se passa em boa parte fora do controle do Estado, que, assim, não pode fiscalizar a cobrança de impostos advindos dessas atividades. A sonegação de impostos, que tanto mal faz à estrutura estatal de sustentação da ordem capitalista, é um dos motivos do sucesso da moeda bitcoin, mas, paradoxalmente, é uma das ameaças a sua aceitação legal e tende a ser criminalizada como atividade marginal pelas razões que passamos a expor.

Além de propiciar a sonegação de tributos, a moeda bitcoin tem a possibilidade de proporcionar aos seus detentores o anonimato quanto à titularidade da propriedade, tal como as contas dos bancos suíços nos quais o depositante é identificado por um código secreto.

O setor mais gravemente atingido é o financeiro, na medida em que os bitcoins não circulam dentro das contas bancárias, e isto deverá acarretar um problema a mais para um sistema já combalido.

É evidente que os detentores de capitais advindos de atividades ilícitas (corrupção com o dinheiro público, tráfico de armas e entorpecentes, jogos de azar, etc.) têm na moeda bitcoin um porto seguro para a guarda dos seus valores. 
Geddel Vieira deveria é ter comprado bitcoins
Fico a imaginar o que faria o ex-ministro Geddel Vieira Lima com a possibilidade de comprar, incógnito, bitcoins com o dinheiro ilícito que possuía guardado em malas num apartamento.

Não vai tardar muito para que os Estados nacionais capitalistas regulamentem a emissão, aquisição e propriedade dos bitcoins, o que representará uma grave ameaça ao seu funcionamento e circulação. 

O sistema capitalista (economia real e o sistema financeiro) e suas instituições estatais fazem água por todos os lados e a moeda bitcoin é mais uma das muitas invencionices fadadas ao malogro: os pulos do gato propiciados pelas novas possibilidades eletrônicas não bastam para salvar do naufrágio um mundo mercantil em fase de dessubstancialização irreversível da própria forma-valor.
(por Dalton Rosado)
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