segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ROUPA SUJA A DILMA LAVA NO CHILE

Como se previa, a presidente Dilma Rousseff não compareceu no sábado passado (27) à comemoração dos 36 anos do Partido dos Trabalhadores, livrando-se do mico de escutar pessoalmente críticas à direitização do seu governo (e eventuais vaias).

Mandou uma carta em seu lugar. Na qual, lá pelas tantas, afirma que tem "um compromisso inquebrantável com a estratégia de desenvolvimento pela qual tanto lutamos".

Faltou explicar por que, cargas d'água, trocou tal estratégia, nos últimos 14 meses, pelas medidas de austeridade características do neoliberalismo.

Também esqueceu que roupa suja se lava em casa. Não era o Chile o palco certo, nem a chegada para almoçar com a presidente Michelle Bachelet a ocasião apropriada para espinafrar o seu partido: "Eu não governo só para o PT, eu governo para 204 milhões de brasileiros", "Um partido é um partido, um governo é um governo", etc. 

Mesmo estando com isto entalado na garganta, deveria conter-se, mantendo a compostura, para depois dar o recado às pessoas certas, na cara delas. Certamente as encontraria na festa à qual esquivou-se de comparecer, mas preferiu desabafar para as lhamas, a mais de 3 mil quilômetros de distância.

Ao encaixar à última hora na sua agenda chilena um novo e nada urgente compromisso (ida à Cepal), desculpa esfarrapada para ausentar-se da festa do PT, ela parece ter acatado o conselho de inimigo dado na véspera pelo blogueiro mais reacionário da revista veja
"...se Dilma tem um mínimo de juízo, não tem de ir mesmo. Já está claro que o evento serve para cantar as glórias de Lula, que será tratado como o presidente eterno do Brasil, aquele que inventou o país. E ela entra como a bruxa da hora".
Enfim, depois de ter escolhido Luís Carlos Trabuco (presidente do Bradesco) como seu principal conselheiro econômico, não será de espantar se Dilma fizer do Reinaldo Azevedo seu guru político.

O certo é que ela está manobrando para emancipar-se do PT, na esperança de, com uma saída pela direita, escapar do impeachment ou da cassação do seu mandato pelo TSE. "A Dilma está querendo se distanciar do PT. É um movimento consciente", afirmou o senador Lindbergh Farias (PT-RJ),

O cientista político e jornalista André Singer, que foi secretário de Imprensa no Governo Lula, é outro que veio ao encontro da avaliação que eu fizera na 6ª feira:
"Na medida que o ex-presidente fica na berlinda, aumenta a tentação da atual mandatária salvar-se por conta própria. Há indícios de que o Planalto cedeu à ilusão de que se cumprir o programa liberal completo receberá salvo conduto para cumprir o resto do mandato, mesmo que Lula e o PT se estrepem".
Com isto, avalia Singer, ela queimará suas pontes com a esquerda, ficando na exclusiva dependência de ser acolhida pelos inimigos:
"Ao separar-se de Lula, Dilma serra o galho no qual está precariamente sentada. A ameaça de conter os aumentos do salário mínimo e de reduzir a participação da Petrobras no pré-sal alienam os últimos redutos de apoio à presidente reeleita. Consultado, o antigo mandatário não a deixaria bater de frente com os movimentos sociais".
Seria, claro, uma jogada desesperada. A esta altura do campeonato, PSDB e PMDB não precisam assumir o poder pelas mãos de Dilma (que ficaria reduzida a uma rainha da Inglaterra), pois estão a um passo de consegui-lo chutando Dilma. A menos que sua permanência, como presidente figurativa, seja útil para os dois partidos não se entredevorarem na disputa pela chefia do governo...

Quanto ao PT, talvez a última rodada de prisões e escândalos já o tenha convencido de que, ao lado de Dilma, não permanecerá no poder: ou ela será afastada ou cooptada. Então, com as reações estridentes demais à flexibilização do pré-sal (pois esta ainda poderá ser revertida adiante), talvez esteja preparando seus efetivos para uma saída pela esquerda.

Ou seja, como não teria futuro nenhum disputando espaço com centristas e direitistas, só lhe resta reassumir as bandeiras de outrora e tentar ser o principal partido de oposição à nova configuração do poder. 

Torcendo para serem rapidamente esquecidos estes 14 meses em que deu sustentação a um governo neoliberal.

RESUMO DA OPERETA

Como disse o escritor Giuseppe Lampedusa, "para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude". A situação calamitosa da economia brasileira tornou imperativa a alternância de poder, e ela inevitavelmente ocorrerá, explicita ou implicitamente. 

É provável que, de imediato, haja algum alívio para o povo, mas as contradições insolúveis do capitalismo permanecerão --e, com elas, a certeza de que outras recessões nos esperam adiante. 

Tomara que, pelo menos, tiremos as conclusões corretas da tragédia histórica que foi a ascensão e queda do PT: enquanto nos conformarmos com mudanças cosméticas, apenas estaremos nos iludindo. As conquistas sociais das quais o PT tanto se ufanou podem ser consentidas durante algum pelo poder econômico, mas este acaba anulando-as num momento seguinte, como faz agora. 

Temos de ir à raiz do problema: a exploração do homem pelo homem. Enquanto a ganância e a competição canibalesca regerem nossas vidas, as coisas permanecerão iguais. Para que tudo mude de verdade, temos de construir uma sociedade em que as prioridades supremas sejam o bem comum e a realização plena dos seres humanos.

Lamentavelmente, isto não foi sequer tentado durante os 36 anos de existência do PT. Faz-me lembrar os versos devastadores de uma composição do petista Chico Buarque:
"A vida inteira, diz que se guardou 
do carnaval, da brincadeira 
que ele não brincou. 
Me diga agora 
o que é que eu digo ao povo, 
o que é que tem de novo pra deixar? 
Nada, só a caminhada longa 
pra nenhum lugar"

sábado, 27 de fevereiro de 2016

DILMA SOLTA OS CACHORROS NO CHILE: "EU NÃO GOVERNO SÓ PARA O PT". E DÁ UM BICO NA FESTA DOS 36 ANOS DO PARTIDO.

Como se previa, a presidente Dilma Rousseff não compareceu à comemoração dos 36 anos do Partido dos Trabalhadores, livrando-se do mico de escutar pessoalmente críticas à direitização do seu governo (e eventuais vaias).

Mandou uma carta em seu lugar. Na qual, lá pelas tantas, afirma que tem "um compromisso inquebrantável com a estratégia de desenvolvimento pela qual tanto lutamos".

Esqueceu de explicar por que, cargas d'água, trocou tal estratégia, nos últimos 14 meses, pelas medidas de austeridade características do neoliberalismo.

Também esqueceu que roupa suja se lava em casa. Não era o Chile o palco certo, nem a chegada para almoçar com a presidente Michelle Bachelet a ocasião apropriada para espinafrar o seu partido: "Eu não governo só para o PT, eu governo para 204 milhões de brasileiros", "Um partido é um partido, um governo é um governo", etc. 

Mesmo estando com isto entalado na garganta, deveria manter a compostura e depois dar o recado para as pessoas certas, na cara delas. Certamente as encontraria na festa à qual esquivou-se de comparecer, preferindo desabafar a mais de 3 mil quilômetros de distância.
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"Vai! Vai! Vai! Vai! Não vou."

"PARA QUE AS COISAS PERMANEÇAM IGUAIS, É PRECISO QUE TUDO MUDE". A HORA DA MUDANÇA ESTÁ CHEGANDO.

Despacho da Agência Reuters informa que "a presidente Dilma Rousseff estendeu sua permanência no Chile até o final da tarde de sábado e aumentou as dúvidas sobre sua participação na comemoração dos 36 anos do PT", marcada para as 18 horas.

Ao encaixar na sua agenda um novo e nada urgente compromisso (ida à Cepal), com todo jeitão de ser apenas uma desculpa para ausentar-se da festa do PT, ela parece ter acatado o conselho de inimigo dado ontem (6ª feira, 26) pelo blogueiro mais reacionário da revista veja
"...se Dilma tem um mínimo de juízo, não tem de ir mesmo. Já está claro que o evento serve para cantar as glórias de Lula, que será tratado como o presidente eterno do Brasil, aquele que inventou o país. E ela entra como a bruxa da hora".
Enfim, depois de ter escolhido Luís Carlos Trabuco (presidente do Bradesco) como seu principal conselheiro econômico, não será de espantar se Dilma fizer do Reinaldo Azevedo seu guru político.

O certo é que ela dá mostras de estar mesmo manobrando para emancipar-se do PT, na esperança de, com uma saída pela direita, escapar do impeachment ou da cassação do seu mandato pelo TSE. "A Dilma está querendo se distanciar do PT. É um movimento consciente", afirmou o senador Lindbergh Farias (PT-RJ),

O cientista político e jornalista André Singer, que foi secretário de Imprensa no Governo Lula, é outro veio ao encontro da minha avaliação de ontem:
"Na medida que o ex-presidente fica na berlinda, aumenta a tentação da atual mandatária salvar-se por conta própria. Há indícios de que o Planalto cedeu à ilusão de que se cumprir o programa liberal completo receberá salvo conduto para cumprir o resto do mandato, mesmo que Lula e o PT se estrepem".
Com isto, avalia Singer, ela queimará suas pontes com a esquerda, ficando na exclusiva dependência de ser acolhida pelos inimigos:
"Ao separar-se de Lula, Dilma serra o galho no qual está precariamente sentada. A ameaça de conter os aumentos do salário mínimo e de reduzir a participação da Petrobras no pré-sal alienam os últimos redutos de apoio à presidente reeleita. Consultado, o antigo mandatário não a deixaria bater de frente com os movimentos sociais".
Seria, claro, uma jogada desesperada. A esta altura do campeonato, PSDB e PMDB não precisam assumir o poder pelas mãos de Dilma (que ficaria reduzida a uma rainha da Inglaterra), pois estão a um passo de consegui-lo chutando Dilma. A menos que sua permanência, como presidente figurativa, seja útil para os dois partidos não se entredevorarem na disputa pela chefia do governo...

Quanto ao PT, talvez a última rodada de prisões e escândalos já o tenha convencido de que, ao lado de Dilma, não permanecerá no poder: ou ela será afastada ou cooptada. Então, com as reações estridentes demais à flexibilização do pré-sal (pois esta ainda poderá ser revertida adiante), talvez esteja preparando seus efetivos para uma saída pela esquerda.

Ou seja, como não teria futuro nenhum disputando espaço com centristas e direitistas, só lhe resta reassumir as bandeiras de outrora e tentar ser o principal partido de oposição à nova configuração do poder. 

Torcendo para serem rapidamente esquecidos estes 14 meses em que deu sustentação a um governo neoliberal.

RESUMO DA OPERETA

Como disse o escritor Giuseppe Lampedusa, "para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude". A situação calamitosa da economia brasileira tornou imperativa a alternância de poder, e ela inevitavelmente ocorrerá, explicita ou implicitamente. 

É provável que, de imediato, haja algum alívio para o povo, mas as contradições insolúveis do capitalismo permanecerão --e, com elas, a certeza de que outras recessões nos esperam adiante. 

Tomara que, pelo menos, tiremos as conclusões corretas da tragédia histórica que foi a ascensão e queda do PT: enquanto nos conformarmos com mudanças cosméticas, apenas estaremos nos iludindo. As conquistas sociais das quais o PT tanto se ufanou podem ser consentidas durante algum pelo poder econômico, mas este acaba anulando-as num momento seguinte, como faz agora. 

Temos de ir à raiz do problema: a exploração do homem pelo homem. Enquanto a ganância e a competição canibalesca regerem nossas vidas, as coisas permanecerão iguais. Para que tudo mude de verdade, temos de construir uma sociedade em que as prioridades supremas sejam o bem comum e a realização plena dos seres humanos.

Lamentavelmente, isto não foi sequer tentado durante os 36 anos de existência do PT. Faz-me lembrar os versos devastadores de uma composição do petista Chico Buarque:
"A vida inteira, diz que se guardou 
do carnaval, da brincadeira 
que ele não brincou. 
Me diga agora 
o que é que eu digo ao povo, 
o que é que tem de novo pra deixar? 
Nada, só a caminhada longa 
pra nenhum lugar"
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

DILMA FLEXIBILIZA O PRÉ-SAL: É TIRO PELA CULATRA OU SAÍDA PELA DIREITA?

decisão de Dilma Rousseff, de fechar acordo com a oposição e permitir que fosse aprovado no Senado o projeto do tucano José Serra reduzindo a participação da Petrobrás no pré-sal, colocou o Partido dos Trabalhadores em pé de guerra contra a presidente. É o que informou o colunista Bernardo Mello Franco, da Folha de S. Paulo: 
"A revolta no PT foi generalizada. Nem o novo líder do governo, Humberto Costa, aceitou apoiar o combinado. 'Eu não poderia ficar contra o governo e não poderia ficar contra a minha bancada', disse, ao se abster de votar.
...O presidente do partido, Rui Falcão, classificou o texto avalizado por Dilma como um 'ataque à soberania nacional'. 
A CUT acusou o Planalto de traição. 'O governo renunciou à política de Estado no setor de petróleo e permitiu um dos maiores ataques que a Petrobras já sofreu em sua história', atacou a central.
Ontem (25) um ex-ministro da presidente definia o acordo como suicídio político. 'Se a Dilma quer se matar, problema dela. Mas não pode exigir que a gente se mate junto'."
Detesto o José Serra por ter, pateticamente, repetido a trajetória do Carlos Lacerda, que começou na esquerda e acabou direitista selvagem; e não perdoo a sucessão de iniquidades que o governo da Dilma vem cometendo contra o povo indefeso, com destaque para o ajuste recessivo de corte neoliberal e a tão desumana quanto injusta reforma da Previdência. 

Isto para não falar da sua arrogância e incompetência, que acarretaram a pior recessão da nossa História, fazendo o desemprego já beirar a casa de 10 milhões, sem que nem mesmo ao longe se vislumbre o fim da crise.

Mas, como revolucionário internacionalista, passei minha vida consciente inteira na contramão da xenofobia tacanha e patrioteira. Não serão os maus bofes do Serra e da Dilma que me farão mudar de ideia, embora eu geralmente me alinhe com a esquerda do PT nos seus embates contra as aves de rapina e os cristãos-novos da igreja de São Friedman... 

Monopólio estatal, no caso de uma empresa que não está nem jamais esteve sob o controle dos trabalhadores, não possui nenhum significado revolucionário. Tem a ver, isto sim, com capitalismo de estado. 

Sendo inimigo figadal do capitalismo em todas as suas manifestações, não tenho motivo nenhum para prezar e preservar a Petrobrás. Para mim, não passa de uma empresa capitalista como todas as outras.

Então, lanço um olhar pragmático para tal questão: depois de haver quebrado a Petrobrás e a tornado incapaz de bancar investimentos de monta sabe-se lá até quando (por pouco tempo certamente não será!), faz sentido que a Dilma flexibilize as regras para a participação estrangeira na exploração do pré-sal. 

É isto ou nada. Até porque a energia suja tem os dias contados e poderá tornar-se obsoleta antes de a Petrobrás conseguir se reerguer.

Mas, como são bem poucos os seres humanos que conseguem abdicar de suas ideias fixas ao se defrontarem com novas realidades, era previsível tal rejeição indignada nas fileiras do partido (*).

A pergunta que não quer calar é: foi apenas outro tiro pela culatra da Dilma, que teria subestimado o apego passadista dos petistas a suas vacas sagradas?


Ou, uma vez na vida, ela estaria mirando mais longe? Pois este pode também ser o primeiro movimento de uma saída pela direita: a deterioração do seu relacionamento com o PT justificaria o desligamento do partido, deixando-a com as mãos livres para, abrigada numa sigla como o PDT, formar um ministério de centro-direita.


Se Dilma entregar o poder de fato ao PSDB e ao PMDB, é bem possível que ambos desistam do seu defenestramento, deixando-a fazer figuração até o fim do mandato, como uma rainha da Inglaterra à moda dos trópicos.


Elucubrações à parte, o certo é que a posição da Dilma, como presidente da República eleita pelo PT e que deveria manter-se, tanto quanto possível, fiel aos princípios e valores do partido, torna-se cada dia mais insustentável. Os acontecimentos se precipitam e março promete ser um mês decisivo na política brasileira.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

GUILHERME BOULOS: "A DESIGUALDADE TEM AUMENTADO EM RITMO GALOPANTE".

Por Guilherme Boulos
O CAPITALISMO DO 1%
Uma economia para o 1%. Com esse título, a organização não governamental britânica Oxfam lançou no mês passado um estudo das desigualdades no mundo. Pela primeira vez na história o 1% mais rico superou em renda e patrimônio os 99% restantes. Os dados basearam-se no Relatório anual de 2015 do banco Credit Suisse.

O estudo mostrou que a metade mais pobre da humanidade (3,6 bilhões de pessoas) viu sua riqueza cair 38% nos últimos cinco anos, perda de US$1 trilhão. E se apropriou de apenas 1% do aumento da riqueza global desde 2000. Enquanto isso, o 1% mais rico abocanhou a maior parte deste incremento.

A riqueza da metade mais pobre equivalia em 2010 à dos 388 homens mais ricos do mundo. Nos últimos anos, essa indecência só se agravou: as 3,6 bilhões de pessoas mais pobres agora têm o mesmo que 62 membros do Clube dos bilionários.

Os resultados são alarmantes. Mostram que, desde o estouro da crise em 2008, a desigualdade tem aumentado em ritmo galopante. Enquanto as políticas de austeridade achatam a renda dos trabalhadores e atacam os sistemas de seguridade social, o lucro dos bancos bate recordes, assim como os ganhos de altos executivos.

Quem viu o lucro do Bradesco avançar 14% no ano passado, em plena recessão, não deveria estranhar os resultados apresentados pela Oxfam. No entanto, o relatório foi seguido de ruidosa chiadeira.

Os defensores da ordem foram a campo tentando desqualificar os dados do Credit Suisse por sua metodologia. Alegaram, principalmente, que o uso do conceito de riqueza líquida (renda e patrimônio, com subtração das dívidas) distorcia os resultados.

Vale pontuar que, semanas atrás, quando o mesmo Credit Suisse fez um duro prognóstico da recessão brasileira apontando-a como a pior da história, não vimos nenhum articulista da direita nacional fazer suas ponderações "metodológicas".

De toda forma, a própria Oxfam se encarregou de responder o questionamento sobre a riqueza líquida, afirmando que "os 50% mais pobres são, na maioria, pessoas lutando para sobreviver com pouca ou nenhuma riqueza para apoiá-los. Apesar desse número incluir aqueles em dívida –riqueza negativa, mas com algum patrimônio– é importante notar que esses são a exceção e não a regra".

Além disso, foi alegado que, se excluídas as dívidas do cálculo, haveria uma mudança na distribuição da riqueza global e os números não seriam tão chocantes. Isso não é verdade, diz a Oxfam, "já que excluindo a dívida dos 10% mais pobres, a fatia da riqueza do 1% mais rico se modifica pouco, passando de 50,1% para 49,8%". Ou seja, as desigualdades mundiais não se resolveriam com alteração metodológica.

Há quem prefira atacar os dados a deparar-se com a realidade. Compreensível. Afinal não deve ser fácil para os amantes da ordem reconhecer que seu sistema meritocrático da "oportunidade para todos" desandou numa plutocracia onde 1% tem mais que todos os 99% restantes.

O capitalismo fracassou em suas promessas. O mundo de hoje é muito mais desigual que o do século passado. Nem todos os perfumes da Arábia, nem o cinismo do discurso neoliberal conseguirão maquiar esta realidade.

Aí está Bernie Sanders, pré-candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos. Aí está o Podemos, na Europa. E o fortalecimento de diversos movimentos populares mundo afora. Será difícil silenciá-los ante a profundidade do abismo que separa o 1% da maioria trabalhadora. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O BRASIL VAI DE MAL A PIOR: DEPOIS DA ZIKA, A SÍFILIS!

Poucos têm tantos motivos como eu para suspeitar dos conteúdos da Folha de S. Paulo; já perdi a conta das batalhas que travei com tal jornal, acusando-o de tendenciosidade.

Mas, o exercício do jornalismo ensinou-me a distinguir os textos com deformação ideológica daqueles que cumprem apenas funções primordiais da imprensa, como as de informar, interpretar e alertar.

É o caso do editorial desta 3ª feira (23) da Folha, que precisa ser conhecido pelo máximo de brasileiros, pois trata de outro gravíssimo problema de saúde pública, a requerer as mais urgentes providências. Leiam, avaliem, difundam.
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ATÉ SÍFILIS
.
"Há certas notícias do Brasil que parecem nos transportar de volta ao século 19, ou antes. Não bastassem zika, chikungunya e dengue, viroses transmitidas pelo velho e conhecido mosquito da febre amarela, o país vê explodirem também os casos de sífilis congênita.

Em 2014, último dado disponível, foram 16.266 ocorrências de nascituros infectados. Entre gestantes, a incidência quase quadruplicou, indo de 7.920 casos, em 2008, para 28.226, seis anos depois.

Para comparação: há 508 casos confirmados de microcefalia desde outubro, que provocaram alarme nacional. Os números da sífilis são coisa muito mais séria.

A infecção pela bactéria Treponema pallidum, ao ser transmitida da mãe para o bebê, pode causar malformações ósseas no feto (inclusive microcefalia). Se não for tratada até um mês de vida, há risco de cegueira, surdez e retardo mental.

Neste caso, não há uma população de insetos fora de controle por incúria do poder público. Há, isso sim, uma coleção de falhas –passadas e presentes– das autoridades de saúde.

Atribui-se a explosão de sífilis, primeiro, a um aumento de notificações. O problema já existiria faz muito e não teria sido conhecido na sua real dimensão. Ora, isso só demonstra um fracasso do sistema de vigilância sanitária, mitigado por avanços mais que tardios.

Há fatores concorrentes e mais atuais. Tantas mulheres infectadas evidenciam uma frequência ainda alta de sexo desprotegido, a atestar a deficiência dos programas governamentais de educação e prevenção a respeito de doenças sexualmente transmissíveis (DST).

Outra explicação, ao que tudo indica ainda mais grave, é a falta de medicamentos para tratar as mães e sua prole –há carência das duas modalidades de penicilina (benzatina e cristalina). Levantamento do Ministério da Saúde em janeiro apontou desabastecimento em 16 Estados.

Se a sífilis é a mais conhecida DST, a penicilina é o pai de todos os antibióticos. A substância foi identificada em 1928 a partir do fungo Penicillium por Alexander Fleming e abriu uma nova era de combate a germes que afligem a humanidade desde o início da espécie.

Há algo de muito enfermo em um sistema de saúde que não consegue, em pleno século 21, manter e distribuir estoques adequados de um remédio tão básico."

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

JOÃO SANTANA NA BERLINDA. COMEÇO A ACREDITAR QUE DEUS SEJA BRASILEIRO...

Nunca Dilma e João Santana pareceram tanto... 
Não sou eu que vou meter o bedelho na questão da culpa ou inocência de João Santana, o artífice do estelionato eleitoral que reelegeu Dilma, quanto à suspeita de que ele teria recebido ilegalmente dinheiro de fora do País. Detesto o noticiário policial e, nos meus velhos tempos de repórter, sempre suspirei aliviado ao me safar das pautas com ele relacionadas. 

Mas, se fosse a julgamento por desapreço pela cidadania, desserviço à democracia e descaso com a verdade, o desempenho de Santana em 2014 justificaria uma pena de prisão perpétua em masmorra medieval.
...com o führer e o ministro da propaganda do Reich.

Em termos de Brasil, foi a campanha mais falaciosa e imunda que tive o desprazer de assistir ou da qual tenha ouvido falarem. Pior ainda que a de 1945, quando o brigadeiro Eduardo Gomes foi crucificado em função de uma afirmação que jamais fizera, a de que não precisava dos votos de marmiteiros.

Começo a rever minha posição: talvez Deus seja mesmo brasileiro. Pois, seja por linhas certas ou tortas, é indiscutível que ele está escrevendo certo agora. Santana pode até não ser culpado das ilegalidades a ele imputadas, mas o que ele fez foi muito mais danoso: tangeu uma campanha presidencial para o nível de esgoto.
Seria cômico se não fosse trágico

Desde que ele marcou seu gol impedido nos acréscimos, o Brasil parou e o desemprego disparou. Ninguém engole facilmente uma derrota decorrente do uso e abuso de meios tão crapulosos. 

Permito-me completar a frase imortal do grande José Celso Martinez Correa: "Os publicitários são filhos de Goebbels". E marqueteiros como o João Santana, Goebbels reencarnado... 

A DITADURA ACABOU NO BRASIL. MENOS PARA MAURICIO NORAMBUENA: ELE AINDA RECEBE TRATAMENTO DE PRESO POLÍTICO!

Ele vem sendo mantido em isolamento há 14 anos 
Reproduzo abaixo, na íntegra, a entrevista concedida por Laura Hernández Norambuena ao jornalista Andrés Figueroa Cornejo, denunciando as gritantes ilegalidades e terríveis abusos cometidos no Brasil contra o irmão Mauricio, cuja pena há muito deveria estar sendo cumprida em sua pátria, o Chile. 

Concordo inteiramente com a afirmação de que, hoje, sua condição em nosso país é de um extemporâneo preso político, merecedor da solidariedade de todos cidadãos avessos ao autoritarismo, bem como a de todos os defensores dos direitos humanos. 

A tradução foi efetuada pela equipe do site Adital, à qual agradeço. E os interessados em mais informações sobre o caso poderão obtê-las aqui.

FAMÍLIA DE PRESO CHILENO NO 
BRASIL LUTA POR SUA EXTRADIÇÃO 

Até fitar os olhos do carcereiro dá ensejo a punição!
Quase no limite que divide as cidades de Valparaíso e Viña del Mar, na V Região do Chile, há uma casa vertical e verde, suspensa no topo de um monte mordido pelo Oceano Pacífico. Ali, entrevistei a doutora em medicina Laura, uma das irmãs de Mauricio Hernández Norambuena, conhecido também como Comandante Ramiro, ex dirigente da Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR). 

Essa força comportou um dos principais destacamentos que combateu política e militarmente a tirania pinochetista e que, de acordo com diversos analistas, precipitou o pacto interburguês que terminou com o regime cívico-militar de 1973 a 1990, e abriu o período de administrações civis vigente até hoje no país andino. Ambos os sistemas políticos correspondem a formas distintas e funcionais moldadas pela mesma ditadura do capital, em sua atual fase.

Mauricio Hernández é prisioneiro na Penitenciária Federal de Porto Velho, em Rondônia, Brasil, próxima à fronteira com a Bolívia, acusado de ser parte do sequestro do empresário Washington Olivetto. A ação teve motivações políticas de caráter internacionalista e de emancipação social.

É verão no meio da tarde, no Chile, e pela janela o mar provoca lágrimas nos olhos.

Laura, como defines as condições nas quais mantêm cativo Mauricio no Brasil?
Encerrado em isolamento. No Brasil, é o único caso que existe com a duração de 14 anos em semelhantes condições. O sistema de isolamento extremo, no Brasil, é inconstitucional nesse país. De fato, é condenado por todos os organismos de Direitos Humanos existentes. O caso de Mauricio é denunciado por nossa família na Corte Interamericana de Direitos Humanos, e esta entende que é uma condição desumana se for prolongada.

Em que consiste o ‘encerramento em isolamento’?
Mauricio permanece 23 horas do dia sozinho em sua cela, o que atenta contra a essência social dos seres humanos e contra um direito também essencial: é proibido de interagir com seus pares. Conta apenas com uma hora para sair ao sol, ou seja, a um pátio do tamanho de meia quadra de futebol baby. Unicamente, é autorizado o contato com familiares diretos (os quatro irmãos/ãs que restamos). Sua prisão em isolamento brutal provocou, por exemplo, que do terremoto que sacudiu mortalmente grande parte do Chile, em 2010, tenha se inteirado três meses depois de ocorrido.
Há campanhas no Chile para que ele cumpra sua pena lá

E o que diz a Justiça brasileira?
Que ‘as coisas não são assim’, que ‘são as regras do jogo’. Isto é, as autoridades do país tratam de justificar o injustificável. Como família, nos reunimos com psiquiatras de lá, que nos asseguraram que as condições de isolamento de Mauricio são desumanas, sem justificativa alguma, e agridem a integridade psicológica e física de qualquer pessoa.

Mauricio é o único prisioneiro político no Brasil ou existem outras pessoas com essa qualificação?
No Brasil, Mauricio não é considerado um prisioneiro político, legalmente. No entanto, a primeira condenação que receberam os companheiros de Mauricio, juntamente com o próprio Mauricio, em 2002, foi de 15 anos porque diversos agrupamentos políticos latino-americanos fundamentaram as motivações políticas do sequestro do empresário Washington Olivetto (vide aqui), o que foi considerado na primeira decisão. 

Os recursos que resultaram do sequestro eram parte de um planejamento político de caráter internacionalista, uma tradição fundacional de todos os movimentos sérios e comprometidos com a emancipação social da humanidade. Mas, na segunda etapa do julgamento, a promotoria brasileira apelou e a condenação foi duplicada para 30 anos porque foi desestimada a razão política da sua ação, contrariando a deliberação anterior.

De todos os modos, para as e os chilenos, inclusive, independentemente da sua simpatia ou não pelas posições políticas históricas assumidas por Mauricio, ele, sim, tem uma vida militante que avaliza sua conduta eminentemente política. Foi membro da Juventude Comunista e, depois, um dirigente da Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR), uma força política e militar fundamental na resistência contra a ditadura encabeçada por Pinochet e imposta pela oligarquia chilena e o imperialismo norte-americano. 
Sua extradição nos livraria desta inútil exposição negativa 

Mauricio não foi nunca parte de um grupo de narcotraficantes, de delinquentes comuns ou de ladrões de colarinho branco; não foi nunca lobista entre os interesses das grandes firmas e dos parlamentares de ocasião; não foi nunca integrante da rede criminosa de colusões antissociais, que, atualmente, são a nata do Chile; não foi dono da AFP, banqueiro, nem privatizador de tudo o que existe no país. Foi um lutador antifascista, como tantos membros da resistência na Europa, que enfrentaram o nazismo e o fascismo durante a 2ª Guerra Mundial e em cujos países são reconhecidos como heróis.

O que pedem às autoridades chilenas como família Hernández Norambuena?
Que o governo gere as condições para que o nosso irmão deixe de sofrer um encarceramento desumano. E, no Brasil, solicitamos às organizações e às pessoas que perseguem o melhoramento da condição humana que exijam o respeito dos direitos de Mauricio.

Laura, você e seus irmãos/ãs levam anos visitando Mauricio. Você é doutora em Medicina. Como poderias avaliar o seu estado?
Tentando ser o mais objetiva possível, em geral, bem. Mauricio é professor de Educação Física e se impôs um regime próprio de exercícios diários em sua cela para manter-se em forma, o que impacta positivamente em seu estado de ânimo. Naturalmente, vive em meio a uma permanente ansiedade devido ao isolamento.

Pela distância espacial que existe entre cada uma das visitas que lhe fazemos (na maioria dos presídios nos que tem permanecido e, em particular, no último, a Penitenciária Federal de Porto Velho, em Rondônia, Brasil, próxima à fronteira com a Bolívia), a tramitação burocrática e as dificuldades para chegar até lá tornam mais complexa a possibilidade de vê-lo com a frequência que desejamos. 

Agora bem, ocorrem situações que multiplicam a iniquidade do seu cativeiro. Em uma ocasião, seu carcereiro o acusou de tê-lo olhado nos olhos (!), questão estritamente proibida no presídio. O prisioneiro, quando interage com o carcereiro deve olhar para o chão. Na disputa entre o guarda e Mauricio a respeito de se foi assim ou não, como é óbvio nesse tipo de relação de poder, primou a versão do carcereiro e meu irmão foi castigado com 10 dias de encerramento absoluto em um espaço especialmente desumano. Na seguinte visita, depois dessa punição, Mauricio se encontrava com o ânimo decomposto. 

Consome algum tipo de medicamento psicotrópico?
Mauricio, nem antes nem durante o seu encarceramento necessita de fármacos dessa classe. De fato, ele nunca os aceitou. Mauricio me comenta, isto sim, que os problemas que sofrem os presos, oriundos das condições de uma prisão de segurança máxima, o médico do recinto resolve com diazepam. A respeito, meu irmão me disse que não está disposto a tomar pílulas que bloqueiem seus sentidos nem sua equilibrada apreciação da realidade. Por algumas dificuldades, devido a lesões desportivas da juventude (Mauricio esteve prestes a tornar-se um jogador profissional de futebol), há dois meses, nós solicitamos poder levar um médico especialista da nossa confiança. Contudo, na penitenciária nos disseram que ‘não era necessário’ porque o presídio já conta com um médico.

Para muitas e muitos, não existe ato de liberdade mais radical do que despojar-se dos interesses individualistas e do egoísmo, e lutar pela liberdade e a igualdade do seu povo e de outros povos do mundo. Cabe este princípio no caso de Mauricio?
Perfeitamente. Alguns ex-companheiros e amigos do meu irmão têm nos confirmado o nível de convencimento e a capacidade de convencer de Mauricio em relação a que não existe outro caminho diferente ao da luta contra o capitalismo, para superar a sua natureza desumana. Esta maneira de transcender em outros que solidarizam com a sua presente situação, como família, nos fortalece diariamente. 

O que nos parece em especial potente é o episódio quando meu irmão e os demais que participaram resolveram integrar a equipe de pessoas que realizou o atentado contra Augusto Pinochet, em 1986. Rodrigo Pellegrin (fundador da FPMR e assassinado em 1988) aparece assinalando, em um documentário recente, que ‘não há alegria maior do que dar a vida pelo seu povo’. Pela vida que levou Raúl Pellegrin, eu entendo ‘povo’ como a humanidade oprimida.

Por que acredita que os sucessivos governos civis não conseguem que Mauricio seja extraditado do Brasil?
A esta altura, como família, temos distintas hipóteses. Uma delas é que nenhuma das administrações governamentais que passaram tem em seus parâmetros defender um revolucionário, um internacionalista, um lutador social, cuja história apenas já contradiz seus interesses. Por outro lado, está a fortaleza de Mauricio de propor, com franqueza, a realidade do que aconteceu e do que está acontecendo, assumindo, autocriticamente, tudo aquilo que lhe corresponda, claro. Sobretudo, quando tantas e tantos políticos dizem estarem exercendo seus cargos pelo serviço público, amor ao próximo e outros valores, que não têm nenhuma relação com a sua conduta, como todo o Chile sabe. 

Não há nada que una o meu irmão a nenhum dos governos tivemos depois da ditadura. Claro que alguns membros dos governos saúdam a nossa causa para trazer a Mauricio de volta e dizem que consideram injustas as condições do seu presídio, mas até agora essas declarações não tiveram nenhum efeito concreto. Eu creio que veem Mauricio como uma ameaça política. E não estou referindo-me à luta armada, nem nada deste tipo. Falo da ascendência que ele poderia ter no Chile a respeito das distintas lutas que, atualmente, estão ocorrendo (nos âmbitos da saúde, da água, do mar, das mineradoras, da educação, do povo mapuche; da juventude, das mulheres e dos trabalhadores empobrecidos, etc.). São hipóteses, por certamente.

Finalmente, entre as tantas preocupações das autoridades, nossa causa não deve estar nem em sua lista. Porque, para que Mauricio consiga purgar sua pena aqui e não no Brasil, o governo deve realizar diversas gestões que requerem vontade política, e essa vontade permanece ausente.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

NA INTERNET, A MENTIRA TEM PERNA LONGA!

O blogueiro Leonardo Sakamoto alerta para um dos piores defeitos da internet, a facilidade com que qualquer pilantra pode colocar em circulação as mentiras mais cabeludas sobre seus desafetos, contando com a voluntária colaboração dos trogloditas da web (que jamais se preocupam com a veracidade ou não de um ataque àqueles com quem antipatizam, correndo a repassá-lo em todas as direções).

É uma estigmatização que também sofro, e muito! Até hoje me desqualificam com versões já superadas de acontecimentos de 1970, fazendo-me perceber, com desalento, que de pouco adiantaram meus esforços titânicos para resgatar e restabelecer a verdade histórica, pois há cidadãos impermeáveis a quaisquer provas e argumentos.

E isto não incide somente sobre o passado distante: também é escamoteada minha condição atual de opositor de esquerda do PT. Não espero adesão ampla à minha posição de, como revolucionário, vituperar os governos petistas por terem se tornado meras expressões do reformismo e do populismo (para não dizer do neoliberalismo).  
Há sempre muitos para jogarem pedra na Geni

Mas, é extrema desonestidade intelectual e política tentarem embaralhar a questão, como o fez Antonio Roberto Espinosa ("Hoje ele dá uma de esquerda radical. Mas é pra pegar dinheiro da Anistia"). A rede chapa branca parece reconhecer que é incapaz de me combater pelo que sou, optando, então, por fustigar-me pelo que não sou. Duelar com espantalhos é sempre mais fácil.

Eis, abaixo, trechos do alerta e desabafo do Sakamoto, que tem toda a minha solidariedade, evidentemente!

O jornal "Edição do Brasil", de Minas Gerais, estampou em sua manchete do dia 30 de janeiro uma declaração atribuída a mim, mas que nunca dei –a de que aposentados são inúteis.

Nas páginas internas, uma entrevista, que também nunca concedi, trazia barbaridades contra os idosos. Ao que tudo indica, alguém pegou o conteúdo de meu blog no UOL, inverteu o sentido e o transformou em entrevista.

Isso desencadeou um show de horrores. Aposentados desejaram-me dor e sofrimento. Redes de ódio na internet apropriaram-se do material e afirmaram que eu havia sido pago para declarar aquilo. Ameaças de morte e agressão foram veiculadas, dizendo que eu deveria "ser caçado e morto por faca" ou que balas deveriam ser disparadas em minha testa.
"impacto negativo que nunca poderá ser corrigido"

Mesmo após o próprio jornal reconhecer e informar que a suposta entrevista nunca existira, o linchamento manteve-se. A essa altura, o conteúdo original não mais importava, nem o desmentido. Era apenas raiva, que fluía.

...esses casos têm cauda longa, duram anos, arrastando-se pela internet e sobrevivendo por meio de incautos que, no limite, resolvem fazer justiça com as próprias mãos.

Vi muita gente que cotidianamente discorda de meu ponto de vista sair em minha defesa, alertando para o perigo de utilizar informação falsa nas disputas de ideias. Um exemplo de que não importa a nossa matriz de interpretação do mundo, precisamos respeitar limites éticos, sob o risco de perdermos todos.

Talvez seja este um dos maiores desafios que teremos nos próximos anos: fomentar o sentimento de responsabilidade em um mundo no qual todos possuem acesso a ferramentas de comunicação em massa, mas nunca refletem se o conteúdo que curtem e compartilham foi coletado e produzido com um mínimo de cuidado.
Histeria e truculência que uma mentira causou

Se o debate público fosse mais qualificado, quem usa material falso como subsídio de argumentação nem seria ouvido. Contudo, hoje esse tipo de conteúdo faz sucesso.

Portanto, quem não gosta de manter-se informado para poder filtrar conteúdo e acha que senso crítico é uma bobagem, mas adora repassar tudo o que vê pela frente, deveria dedicar-se apenas a gifs com gatos, por favor. A divulgação de uma informação errada causa um impacto negativo que nunca poderá ser corrigido.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

ANDRÉ SINGER INDAGA: COMPETE A UM SUPOSTO GOVERNO DE TRABALHADORES CUMPRIR O PAPEL DE ARIETE DO CAPITAL?

Por André Singer
AGENDA CLASSISTA
Ao dar centralidade à reforma da Previdência, o governo força divisão que dificultará a formação do pacto pró-retomada do desenvolvimento. Sindicalistas e empresários produtivos, que haviam se reaproximado no final de 2015, tenderão a se dividir. Não é para menos: a seguridade social está no centro da luta de classes contemporânea.

Marx demonstrou que, no capitalismo, a mais-valia, parcela do trabalho não paga e que aparece sob a forma de lucro, contrapõe de modo inconciliável patrões e empregados. Onde há venda da força de trabalho, existe exploração. Poder-se-ia dizer, então, que o assalariamento, em si, seria o pomo da discórdia.

Ocorre que o desenvolvimento histórico real deslocou a peleja para mecanismos que, sem eliminar o salário, compensam parcialmente a exploração. Usa-se parte dos fundos públicos para devolver ao assalariado algo do que lhe foi sonegado no processo de produção. A disputa fica em torno de quanto do recurso comum será destinado a essa compensação.

O empresariado quer limitar a expansão do total disponível (corte de impostos) e carrear a maior parcela do mesmo para a remuneração do próprio capital, por exemplo, via juros (superavit primário). Os sindicatos buscam sempre aumentar a parcela destinada a proteger os que vivem apenas do próprio labor.

Analistas de diversas tendências advertem, sem prejuízo de alguns reconhecerem as premissas acima, que a parcela da riqueza destinada ao fundo público tem limitações físicas. Não adianta tentar distribuir o que não existe. Acentuam, também, que o aumento da expectativa de vida implica gastos crescentes pelo simples fato de as pensões terem que ser pagas por muito mais tempo. Somados os dois fatores –disponibilidade real e envelhecimento prolongado–, concluem pela necessidade de repactuar o tema previdenciário.

Do ponto de vista teórico, eles têm parcela de razão. O que não nega o caráter classista que o debate vai, inevitavelmente, adquirir. Constatado que o tamanho relativo do bolo diminuiu, fica mais acirrada a disputa pela parte que cada um vai receber.

Será que o melhor momento para deflagrar este embate de soma zero –os que uns ganham, outros perdem– é o de uma economia em profunda recessão?

Não seria melhor esperar período de expansão para, com maior margem, impor perdas menores a quem quer que seja? Ou será que o capital avalia que, em virtude do desemprego, a resistência do trabalho será agora menor? Neste caso, compete a um suposto governo de trabalhadores cumprir o papel de aríete?

ZÉ DIRCEU SÓ TEM AO SEU LADO A INGRATIDÃO, ESTA PANTERA!

Dentro de menos de um mês o Zé Dirceu se tornará septuagenário.

Lembro-me de 1968, quando o Zé nos tratava de forma respeitosa, sem a mistura de empáfia e paternalismo característica de outros líderes universitários, para os quais os secundaristas não passávamos da 2ª divisão do movimento estudantil.

Fico triste ao pensar que voltou ao cárcere depois de décadas (é um pesadelo que estraga o sono dos antigos presos políticos!).

Fico perplexo com o abandono a que o relegou o PT, como se fosse a erva daninha de um partido de vestais. Quanta hipocrisia!

Fico indignado ao ver tão pouca solidariedade dos antigos companheiros para com um personagem que, apesar de erros cometidos, escreveu páginas marcantes da história da esquerda brasileira.

E mais indignado ainda ao perceber que, para eles, até um reles Delcídio é mais merecedor dos seus préstimos do que o anjo caído Dirceu.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A PARALISIA DO BRASIL OFICIAL CONDUZ O BRASIL REAL À DEPRESSÃO ECONÔMICA

Enquanto prosseguem na Praça dos Três Poderes as degradantes escaramuças entre um governo que morreu mas resiste a ser enterrado e uma oposição que ainda não descobriu como cravar a estaca no coração do vampiro, no Brasil real a situação se deteriora cada vez mais.

Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, referentes ao período setembro/novembro de 2015, são simplesmente desoladores:
  • já são 9,13 milhões os desempregados, cujo número aumentou 41,5% no período de um ano;
  • a taxa de desemprego, que era de 6,5% em idêntico período de 2014, saltou para 9%, o pior resultado desde 2012, quando foi iniciada a série histórica do PNAD;
  • a sensível piora do quadro em 2015 se deve ao aumento do número de pessoas que, em função da recessão, passaram a procurar emprego mas não o estão encontrando;
  • no período de um ano, os trabalhadores com carteira assinada diminuíram em 1,1 milhão, ou seja, 3,1%;
  • no período de três meses, a queda da renda real foi de 0,7%.
Evolução positiva? Nenhuma. Os desempregados continuaram no patamar de 9,1 milhões, como estavam um mês antes, mas nem sequer se pode saudar a interrupção da tendência decrescente: o normal seria que, pelo contrário, a taxa de desocupação diminuísse um pouco em função do trabalho temporário no período natalino, mas tal não ocorreu desta vez. Ter ficado estacionária foi prejuízo, não lucro.

Os economistas garantem que, ao longo de 2016, será inevitavelmente atingido o patamar altamente simbólico de 10 milhões de desempregados. Não há medida que possa ser tomada agora, capaz de impedir que continuemos descendo a ladeira nos próximos meses.

Mesmo porque a saída de situação tão crítica não se dará apenas com iniciativas na área econômica. Será necessário o restabelecimento da confiança dos agentes econômicos no timoneiro da nau Brasil.

A presidente Dilma Rousseff perdeu a credibilidade ao prometer na eleição de 2014 o que não pretendia entregar e nem que a vaca tussa a recuperará em meio à recessão. Vai continuar sendo vista, pela grande maioria dos brasileiros, como a mãe do miserê atual e o primeiro obstáculo a ser removido para o País sair do fundo do poço.

E, enquanto não se desatar o nó político, os grandes capitalistas continuarão jogando na retranca, adiando investimentos e enxugando custos, pois lhes importa mais não sofrerem perdas mínimas do que muitos brasileiros estarem perdendo tudo que têm.

Já que a presidente Dilma Rousseff não admite deixar por suas próprias pernas o Palácio do Governo e nada indica que nele permanecendo conseguirá evitar que mergulhemos numa depressão econômica de efeitos devastadores, a melhor saída para os trabalhadores e excluídos será a cassação da chapa presidencial pelo TSE, com a consequente convocação de uma nova eleição.

Nem vou entrar na questão de se há ou não embasamento legal para tanto, pois sei que, em circunstâncias extremas, os países e os povos sempre encontram justificativas para a adoção de medidas de salvação nacional. E é disto que se trata neste momento!

Mas, seria um caso em que a Justiça Eleitoral escreveria certo por linhas tortas, pois o pior estelionato eleitoral brasileiro de todos os tempo é motivo imensamente mais grave para a anulação do resultado das urnas do que os alegados pelos oposicionistas.

As leis brasileiras são patéticas, atêm-se ao secundário e não punem quem faz campanha prometendo exatamente o contrário do que já decidira fazer, o que se constitui na própria negação da democracia!

Vale repetir: a campanha à moda do Goebbels da Dilma, agressiva e falaciosa ao extremo, tornou extremamente ilegítima sua reeleição, tendo sido a principal causa do ano político catastrófico de 2015, muito mais do que os efeitos da Operação Lava-Jato. O povo não é bobo, percebeu ter sido vítima de uma vigarice eleitoral e não se conforma. Quem será insensível a ponto de negar-lhe tal direito?   

E é porque o poder está suspenso no vácuo que temos de devolvê-lo à sua fonte, o povo. Dar-lhe a oportunidade de indicar uma saída, já que os poderosos se mostram impotentes para tanto: não se entendem e, com suas disputas mesquinhas e canibalescas, estão nos conduzindo para o imponderável.

Dez milhões de desempregados num país cujo povo é muito pobre (nunca deixou de sê-lo apesar da propagandaiada ufanista: está aí o IDH sofrível que não me deixa mentir), significarão miséria, desespero e morte nas periferias, grotões e quebradas do mundaréu. Quem será insensível a ponto de não se comover? 

Dilma significa um, um mandato a que se apega com unhas e dentes, sem jamais mostrar competência para exercê-lo nem humildade para reconhecer que cometeu erros crassos na gestão anterior e agora os está cometendo piores ainda, ao insistir em impor-nos o receituário econômico da direita apesar de ter sido eleita pela esquerda. Como ela se tornou tão insensível a ponto de não renunciar?

2,7 milhões de desempegados adicionais no espaço de um ano é um número bem maior do que um. Mexe muito mais com meus sentimentos e convicções. 

É pelos 2,7 milhões (e pelos que a eles se somarão) que choro.

São eles que, como homens de esquerda, deveríamos defender em todas e quaisquer circunstâncias, evitando que fossem levados à penúria e ao desespero por governos ineptos.

São eles que me inspiram a pregar, por enquanto no deserto, no sentido de que a esquerda recoloque a solidariedade para com os explorados no centro de suas preocupações.

Estar ao lado dos que vivem nas favelas, cortiços e casebres é muito mais importante para revolucionários do que desfrutar das mordomias dos palácios.

E gerenciar o capitalismo para os capitalistas não nos aproxima um milímetro sequer da revolução.
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