sábado, 28 de fevereiro de 2015

DILMA-2 ESTÁ SENDO "CENÁRIO DE TERRA ARRASADA", AVALIA RICARDO KOTSCHO.

Um dos maiores jornalistas brasileiros das últimas décadas, quatro vezes vencedor do Prêmio Esso, Ricardo Kotscho sempre foi identificadíssimo com o PT e com Lula, a quem serviu como secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República.

Então, só um quadro político de extrema gravidade o levaria a escrever um artigo tão contundente como o que postou no seu blogue neste sábado, 28, vindo ao encontro dos meus alertas no mesmo sentido: desde a redemocratização, o Brasil nunca esteve tão ameaçado de uma volta ao totalitarismo. Leiam e reflitam.

Kotscho e Lula: amigos há décadas.
PARA ONDE VAMOS, DILMA: 
FUNDO DO POÇO OU POÇO SEM FUNDO? 
Um clima de fim de feira varre o país de ponta a ponta apenas dois meses após a posse da presidente Dilma Rousseff para o seu segundo mandato. Feirantes e fregueses estão igualmente insatisfeitos e cabisbaixos, alternando sentimentos de revolta e desesperança.

Esta é a realidade. Não adianta desligar a televisão e deixar de ler jornais nem ficar blasfemando pelas redes sociais. Estamos todos no mesmo barco e temos que continuar remando para pagar nossas contas e botar comida na mesa.

Nunca antes na história da humanidade um governo se desmanchou tão rápido antes mesmo de ter começado. Para onde vamos, Dilma? Cada vez mais gente acha que já chegamos ao fundo do poço, mas tenho minhas dúvidas se este poço tem fundo.

"O que já está ruim sempre pode piorar", escrevi aqui mesmo no dia 5 de fevereiro, uma quinta-feira, às 10 horas da manhã, na abertura do texto "Governo Dilma-2 caminha para a autodestruição".
Dilma "não tem mais nada para dizer", segundo Kotscho.

"Pelo ranger da carruagem desgovernada, a oposição nem precisa perder muito tempo com CPIs e pareceres para detonar o impeachment da presidente da República, que continua recolhida e calada em seus palácios, sem mostrar qualquer reação. O governo Dilma-2 está se acabando sozinho num inimaginável processo de autodestruição".

Pelas bobagens que tem falado nas suas raras aparições públicas, completamente sem noção do que se passa no país, melhor faria a presidente se continuasse em silêncio, já que não tem mais nada para dizer.

Três semanas somente se passaram e os fatos, infelizmente, confirmaram minhas piores previsões. Profetas de boteco ou sabichões acadêmicos, qualquer um poderia prever que a tendência era tudo só piorar ainda mais. 

Basta ver algumas manchetes deste último dia de fevereiro para constatar o descalabro econômico em que nos metemos. Cada uma delas já seria preocupante, mas o conjunto da obra chega a ser assustador:

"Dilma sobe tributo em 150% e empresas preveem demissões".

"País elimina 82 mil empregos em janeiro, pior resultado desde 2009".

"Conta da Eletropaulo sobe 40% em março".

"Bloqueio de caminheiros deixa animais sem ração -- Na região sul, aves são sacrificadas em granjas, porcos ficam sem alimento e preço do leite deve subir".

"Indicadores do ano apontam todos para a recessão".
"Um clima de fim de feira varre o País"

"Estudo da indústria calcula impacto de racionamento no PIB -- Queda de 10% no abastecimento de gás, energia e água levaria à perda de R$ 28,8 bi".

As imagens mostram estradas que continuam bloqueadas por caminheiros, depois de mais de uma semana de protestos, agentes da Força Nacional armados até os dentes avançando sobre os manifestantes, produtores despejando nas ruas toneladas de latões de leite que ficaram sem transporte. O que ainda falta?

Enquanto isso, parece que as principais lideranças políticas do país ainda não se deram conta da gravidade do momento que vivemos, com a ameaça de uma ruptura institucional.

De um lado, o ex-presidente Lula, convoca o "exército do Stédile" e é atacado pelo Clube Militar por "incitar o confronto"; de outro, os principais caciques tucanos, FHC à frente, fazem gracinhas e se divertem no Facebook. Estão todos brincando com fogo sentados sobre um barril de pólvora. É difícil saber o que é pior: o governo ou a oposição. Não temos para onde correr.

A esta altura, só os mais celerados oposicionistas defendem o impeachment de Dilma e pregam abertamente o golpe paraguaio, ainda defendido por alguns dos seus aliados na mídia, que teria um final imprevisível.

O governo Dilma-2 está cavando a sua própria cova desde que resolveu esnobar o PMDB, e não adianta Lula ficar pensando em 2018 porque, do jeito que vamos, o país não aguenta até 2018.

Nem Dilma, em seus piores pesadelos, poderia imaginar este cenário de terra arrasada -- ou não teria se candidatado à reeleição, da qual já deve estar profundamente arrependida.

Vida que segue. (Ricardo Kotscho)

REPTO PARA DILMA: COMPOR GOVERNO DE UNIÃO NACIONAL OU RENUNCIAR.

Muito perdem os internautas ditos de esquerda ao desqualificarem, com intolerância extrema, personagens como o jornalista e sociólogo Demétrio Magnoli, que está longe de ser "um dos novos trombones da direita" (como o qualificou a revista IstoÉ), embora defenda posições questionáveis sobre o movimento estudantil e sobre as cotas raciais, p. ex.

Exigir que todos se verguem a um pensamento único é coisa dos tempos de Stalin e de Hitler. Magnoli também dá estocadas contra a direita, e algumas delas são certeiras. Por que, simplesmente, não refletirmos sobre cada uma de suas posições, aceitando algumas e divergindo das outras?

Neste sábado (28), p. ex., seu artigo A hora e a história (vide íntegra aqui) é um interessante meio-termo entre a pregação direitista do impeachment de Dilma Rousseff e a defesa incondicional de um governo que, salta aos olhos, perdeu o controle da situação e está condenado (condenando-nos) a uma lenta agonia, ou coisa pior.

Ele rechaça o impedimento ("para não transformar o Brasil num imenso Paraguai", retrocedendo "do estatuto de moderna democracia de massas ao de uma democracia oligárquica latino-americana", e também porque "na nossa democracia, a hipótese de impeachment só se aplica quando há culpa e dolo"), mas, assim como eu, percebe os perigos que corremos, sendo golpe de estado o maior deles, caso continuemos submetidos ao "dilmismo, essa mistura exótica de arrogância ideológica, incompetência e inoperância", que "o país não suportará mais quatro anos".

Como alternativa, Magnoli propõe que, ao invés de pregarem o impeachment, os descontentes lancem a Dilma o repto "Governe para todos -- ou renuncie":
"No atual estágio de deterioração de seu governo, a saída realista para Dilma é extrair as consequências do fracasso, desligando-se do lulopetismo e convidando a parcela responsável do Congresso a compor um governo transitório de união nacional. O Brasil precisa enfrentar a crise econômica, definir a moldura de regras para um novo ciclo de investimentos, restaurar a credibilidade da Petrobras, resgatar a administração pública das quadrilhas político-empresariais que a sequestraram. É um programa e tanto, mas também a plataforma de um consenso possível...
"...Se a presidente, cega e surda, prefere persistir no erro, resta apontar-lhe, e a seu vice, a alternativa da renúncia, o que abriria as portas à antecipação das eleições".
Os sectários, evidentemente, rejeitarão de imediato e no todo a proposta de Magnoli, carimbando golpismo em cima dela e tudo fazendo para que o Titanic brasileiro continue navegando a todo vapor na direção do iceberg.

Eu a vejo como uma saída civilizada para a crise, que merece reflexão. Apostas na base do tudo ou nada! quase sempre levam os jogadores à penúria. Há situações nas quais não convém flertarmos com o desastre.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

MALDADES DE DILMA MERKEL / MARGARET ROUSSEFF PODEM SER BARRADAS PELO PT

Dilma seguindo as pegadas de Angela Merkel...
Segundo depreendo de notícia publicada na edição desta 6ª feira (27) d'O Estado de São Paulo, os brasileiros ainda poderão escapar das rigorosas medidas de austeridade decididas por Margaret Rousseff (ou será Dilma Merkel?), a nova cara do neoliberalismo tupiniquim: o PT não está disposto a embarcar nessa canoa furada.

A garfada nos contribuintes, com o reajuste da tabela do Imposto de Renda abaixo da inflação, não passa pela goela do partido, pois será, na melhor das hipóteses, veneno eleitoral; na pior, um forte trunfo para os pregadores do impeachment presidencial, já que causará forte decepção nos assalariados, podendo deixá-los indiferentes à sorte da presidenta.

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, defendeu implicitamente a derrubada do veto de Dilma à decisão do Congresso Nacional, que aprovou um reajuste de 6,5%, ao invés dos 4,5% pretendidos pelo Chicago boy Joaquim Levy. 
...e de Margaret Thatcher...

Noblesse oblige, Falcão utilizou um eufemismo (disse que o veto precisa ser "reconsiderado"), mas sua verdadeira intenção é facilmente perceptível nas entrelinhas: 
"Estamos orientando a nossa bancada para ampliar o debate na discussão do veto à correção de 6,5% do Imposto de Renda. Nós votamos a favor e foi objeto de veto. Achamos que tem de ser reconsiderado, tem que ser debatido. Eu, pessoalmente, acho que tinha de ser importante esse diálogo em torno do 6,5%".
Vale destacar que não se trata de uma posição pessoal, pois ele acabava de participar de uma reunião da Comissão Executiva Nacional do PT. 
...não deixa Rui Falcão feliz.

Neste encontro, aliás, a cúpula do partido também defendeu que as propostas de redução de benefícios trabalhistas e previdenciários sejam (outro eufemismo...) "aperfeiçoadas". 

Parlamentares petistas já protocolaram, segundo o Estadão, cerca de 60 emendas alterando o texto original das medidas provisórias 664 e 665, a elas referentes. Isto dá uma boa medida da sua rejeição dentro do partido.

A MULHER ERRADA, NO LUGAR ERRADO, NA HORA ERRADA.

O filósofo Hélio Schwartsman tenta entender por que Dilma Rousseff se voluntariou para capitanear o Titanic brasileiro na viagem de 2015 a 2018:
"A presidente Dilma Rousseff, do PT, e o governador do Paraná, o tucano Beto Richa, disputaram e venceram sua própria sucessão. Até aí, tudo normal. Políticos costumam mesmo concorrer em eleições com a meta de ganhar. Não hesitam muito em mentir, adotar plataformas populistas, apelar ao caixa 2 etc. para lograr esse objetivo.
O problema é que, nestes casos em particular, como ambos estavam no poder, tinham pleno conhecimento da encrenca que os aguardava. Por que, então, se engajaram numa missão quase suicida, com reduzidíssimas chances de fazerem uma boa gestão e com o sério risco de ver suas biografias apequenadas?
A melhor explicação que vislumbro está na noção de autoengano, que alimentou neles a ilusão de que poderiam se sair bem".
Cansei de alertar que seria a maior roubada para Dilma estar à frente de um governo coagido pelo grande capital a colocar o País em recessão, a menos que ela tivesse coragem política para confrontar os realmente poderosos (o que, claro, não passava de sonho de uma noite de verão, estão aí o Joaquim Levy e a Kátia Abreu que não me deixam mentir...). 

Não é à toa que vaidade e vacuidade derivam da mesma palavra em latim: vanitas.

Certo está o Eclesiastes: "Vanitas vanitatum et omnia Vanitas" ("Vaidade das vaidades, tudo é vaidade").

O ruim é quando falta de autocrítica e uma vaidade desmedida ameaçam colocar o país em crise institucional, com grande possibilidade de impeachment presidencial ou, pior ainda, de golpe de estado.

O DR. LULENSTEIN NÃO CONSEGUE MAIS CONTROLAR A CRIATURA

Está no Painel da Folha de S. Paulo desta 6º feira, 27:
"Em conversa na manhã desta quinta-feira com senadores do PMDB, Lula disse que Dilma Rousseff deveria vir a público para reconhecer que cometeu erros na condução do governo nos últimos anos e apresentar propostas para corrigi-los.
O ex-presidente disse, segundo dois aliados, que essa seria a forma de escapar da crise de popularidade da presidente, amenizar a rejeição que enfrenta principalmente na classe média e evitar que manifestações pelo impeachment ganhem corpo.
Lula também reclamou do atraso no lançamento da terceira etapa do PAC. Disse não entender por que o programa não foi apresentado, apesar de estar pronto desde a campanha".
Dilma, entretanto, ignorou seu conselho e foi na direção contrária, fixando no mesmo dia, por decreto, limites para os gastos dos ministérios com custeio e investimentos no primeiro quadrimestre. O Programa de Aceleração do Crescimento, normalmente poupado dos cortes, também entrou na dança.

O dr. Frankenstein explica. Ele também perdeu o controle de sua criatura...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

VENEZUELA EM TRANSE

O tiroteio ideológico contamina de tal forma as notícias que recebemos sobre a Venezuela que evitei publicar um quadro da situação atual até dispor de informações e/ou avaliações que considerasse 100% acima de qualquer suspeita. É como encaro o capítulo venezuelano do relatório anual da Anistia Internacional sobre O estado dos direitos humanos no mundo.

Eis a síntese das conclusões da AI, lembrando que desde então a crise venezuelana tem se agravado (e muito!):
  • "As forças de segurança usaram força excessiva para dispersar manifestações".
  • "Dezenas de pessoas foram detidas de modo arbitrário e privadas de acesso a médicos e advogados".
  • "Houve denúncias de tortura e outros maus-tratos de manifestantes e transeuntes".
  • "O Judiciário continuou a ser usado para silenciar os críticos do governo".
  • "Pessoas que defendiam os direitos humanos foram intimidadas e atacadas". 
  • "As condições prisionais permaneceram severas".
E eis os trechos mais marcantes do relatório: 
"Pelo menos 43 pessoas foram mortas e mais de 870 ficaram feridas – incluindo manifestantes, transeuntes, policiais e agentes de segurança – durante os extensos protestos contra e a favor do governo entre os meses de fevereiro e julho. Houve relatos de violações de direitos humanos e de confrontos violentos entre manifestantes, forças de segurança e grupos armados favoráveis ao governo."
"As forças de segurança usaram força excessiva para dispersar manifestações. Entre as medidas utilizadas estavam o uso de munições reais a curta distância contra pessoas desarmadas; o uso de armas de fogo impróprias e de equipamentos antidistúrbio que foram adulterados; e o uso de gás lacrimogêneo e balas de borracha em áreas fechadas."
"Dezenas de pessoas detidas durante as manifestações de fevereiro e julho foram vítimas de detenções arbitrárias. Muitas foram privadas de acesso a um advogado de sua escolha e de assistência médica nas primeiras 48 horas de detenção, antes de serem levadas à presença de um juiz."
"Pelo menos 23 pessoas foram detidas durante uma operação conjunta do Exército e da Guarda Nacional em Rubio, estado de Táchira, no dia 19 de março. Enquanto detidas, elas foram chutadas, espancadas e ameaçadas de morte e violência sexual. Todos os detidos, homens e mulheres, ficaram encarcerados no mesmo recinto e passaram várias horas com os olhos vendados. Eles podiam ouvir as pessoas mais próximas sendo espancadas. Pelo menos uma pessoa foi forçada a assistir o espancamento de outra. Gloria Tobón foi encharcada com água e recebeu choques elétricos nos braços, seios e genitais. Ela foi ameaçada de ser morta e ter o corpo esquartejado antes de ser enterrada."
"O sistema de justiça estava sujeito à interferência governamental, principalmente em casos que envolvessem críticos do governo ou pessoas que se suspeitasse estarem agindo de modo contrário aos interesses das autoridades."

SABESP, O MASSACRE.

Por Apollo Natali, 
jornalista e cronista.

Criados há 20 anos, os juizados especiais cíveis, conhecidos popularmente como de pequenas causas, não fazem justiça para o lado fraco da disputa, o consumidor. Nem para consumidores de empresas operadoras de telefonia, financeiras e fornecedoras de serviços; e muiiiiito menos para aqueles compradores de água e luz das empresas públicas, das quais são fregueses cativos.  

Milhares já não procuram tais tribunais e os procons da vida. Sabem que a maratona se arrasta, é desgastante, sempre saem perdendo. Toda uma admirável infraestrutura jurídico-burocrática com punhados de funcionários, consumidores faltando ao trabalho em busca do seus direitos, idosos de pernas fracas se arrastando nos corredores dos procons, e nada de boa justiça. 

Não chamo ninguém de incompetente. Não é isto. Os juizados, diz a lei, têm competência para conciliação, processo e julgamento das causas cíveis de menor complexidade e buscam, sempre que possível, a conciliação.

Ai, a conciliação! Nesses casos não se admite qualquer forma de intervenção de terceiro nem de assistência.  Sozinhos numa sala para a conciliação, em um canto do ringue está você, lesado. No outro canto, o representante da empresa que o lesou. Frente à frente, o lobo e o cordeiro.

O lobo, a empresa, impõe sua proposta do tipo pegar-ou-largar. Covardia. Carência total de feeling de Justiça colocar frente a frente, a sós, o lobo e o cordeiro, para disputarem seus direitos. É uma fábula de enganação.

E, pior: não havendo conciliação, o juiz togado -pode até ser juiz leigo, segundo a lei- esclarecerá as partes presentes sobre as vantagens da conciliação, mostrando-lhes os riscos e as conseqüências do litígio. 

Ai, o litígio! As consequências são que poderosas empresas lesa-consumidores, e as não poderosas também, recorrem da decisões que lhes forem desfavoráveis. O lado fraco precisa contratar advogado se quiser prosseguir na reivindicação dos seus direitos. Sem dinheiro, o assalariado, e bem menos o aposentado, não têm como enfrentar o lobo no campo da Justiça. 

Humilhante sensação, de ter sido assaltado, permanece para sempre em quem já esteve lá. Ao pobre do cordeiro nem migalhas sobram dos seus direitos. Para o lobo, o crime compensa.

As gavetas dos procons transbordam de provas de ações lesivas contra legiões de consumidores. Montanhas de queixas atestam: nunca antes neste país seus cidadãos foram tão espezinhados nos balcões e cativeiros de marketing de megaempresas, bancos, operadoras de telecomunicações, empresas públicas e um sem número de ramos, grandes e pequenos.

Hipnotizado pela propaganda, o povo se converte à religião do consumismo e obedece à sugestão de sua insignificância, de que nada pode contra os crimes econômicos dos quais é vítima. Estudiosos da ganância alertavam, faz mais de um século, que chegaríamos a este abominável mundo novo.

Depois de uma extenuante, prolongada e perdida batalha de um consumidor –eu- por direitos desrespeitados durante anos na área de telecomunicações –ora, a Anatel!- um advogado do Procon em São Paulo lamentou que as empresas zombem das queixas porque os procons não têm poder de tribunal. Os atendentes dos procons dão murro em ponta de faca no quesito solução das queixas dos consumidores, disse o advogado. O cidadão é um lixo.

Tenho sido cuidador de vítimas de empresas e de lesados pelo Estado. Até xinguei megaempresas com palavrões, tanto ao vivo quanto por escritos enviados pelo correio, para: 
  • evitar o cancelamento de linhas residenciais, celulares, entrega de móveis; 
  • obter silêncio em bares, serralherias e oficinas, com seus ruídos que provocam loucura;
  • deter  cobradores de quantias indevidas, contas abusivas; 
  • garantir o cumprimento de obrigação de empresa de fazer sepultamento segundo as regras de quitação dos chamados planos de morte.
Até de um sapateiro remendão em cadeira de rodas recebi pedido de proteção contra um fiscal do trabalho que o extorquia. Me procuram. A maioria idosos e cidadãos sem recursos, sem visão de mundo, a pedir socorro.

Pois tenho sido cuidador de vítimas da Sabesp. Crimes econômicos contra seus clientes são uma constante na atuação da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo. 

Entre os idosos que socorri, uma mulher recebeu conta de água com medição suficiente para encher duas piscinas. Sou encanador, entre outras coisas. Comecei aos 16 anos a construir, sozinho, a casa onde moro. Tenho 79. Conheço a casa da idosa há 60 anos. Atestei e confirmo, não houve esse vazamento. 

Estranho, as contas seguintes vieram normais. Cadê as duas piscinas? Sumiram num estalar de dedos. Foram inventadas pelo medidor de água. Na ocasião, o povo comentava que ex-presos faziam esse trabalho de medição. Nada contra ex-presos, mas sim contra a inexperiência.

Na conciliação, a Sabesp impôs o pagamento do consumo das duas piscinas fantasmas em sete vezes. A pobre da idosa, acometida do pânico provocado pelo clima atemorizante de um tribunal, assumiu o papel de ré e pagou pela água das duas piscinas que não consumiu. 

Nesse processo, a Sabesp se recusara anteriormente a receber do emissário do correio a intimação do tribunal. Seu representante foi forçado a comparecer à audiência porque a convocação foi feita pelo próprio governador, a quem eu já denunciara a sacanagem. 

Alckmin tem em seus arquivos o nome dessa idosa. Eu estive no tribunal. Lá, invadi terra proibida, reclamei, boca seca de raiva, contra essa conciliação. O enviado da Sabesp, sorria, vencedor. Ele chegara ao tribunal com o seu acordo de sete parcelas já digitado.

De outra família foram cobrados 3.500 reais por conserto em vazamento na calçada, por onde chega a água. Portanto, é da Sabesp a responsabilidade pelo serviço, não do morador. A família, já a caminho do Procon, desviou os passos e foi primeiro à Sabesp na Mooca. Lá, o acordo já estava pronto, devidamente digitado: parcelamento em sete vezes do desperdício de responsabilidade da Sabesp. 

Repetem-se casos semelhantes. Na Sabesp, a moda é a seguinte: sete parcelas para pagamento de obrigações que você não deve.

Minha família economiza água mesmo. A conta de fevereiro de 2015:  25,08 reais. No entanto, há algum tempo, um funcionário da Sabesp nem pediu licença para se pôr de cócoras ao lado do meu relógio perto do portão da rua e, impacientemente, o substituiu. Rangia os dentes, agitado, falando em furto de água. Rosnei contra a acusação de ladrão embutida em seu ranger. 

E torno a rosnar aqui, governador Geraldo Alckmin, fui eu o primeiro jornalista a pautar, faz tempo, para o Jornal da Tarde (SP), o furto de água e de eletricidade em São Paulo.  O JT publicou duas páginas. Aliás, nos tempos de vacas gordas, quer dizer, águas gordas, a Sabesp trocava milhares de relógios e as justificativas dos trocadores era que estavam velhos e marcavam pouco.

Ninguém neste planeta azul aceitará um dia que os consumidores da Sabesp estejam todos errados. O grosso das reclamações contra ela é sobre contas de água discutíveis e serviços cobrados indevidamente. Criminosamente, acuso eu. 

Em carta de 2014, pedi a Alckmin para fazer um levantamento das principais reclamações tanto contra a Sabesp como a AES Eletropaulo, também ela alvo de miríades de queixas nos procons.  O costumeiro massacre da Sabesp aos direitos dos seus consumidores tem como resposta o silêncio do Palácio dos Bandeirantes. 

Massacre que os juizados de pequenas causas deixam correr solto, em geral, por acreditarem que estão a fazer boa justiça com as conciliações do tipo lobo e cordeiro.  Não estão. Com a palavra, os luminares do Direito e da Justiça. 

O PETRÓLEO NÃO É NOSSO

Artigos em que eu faço críticas geralmente civilizadas ao PT ou desanco merecidamente o Reinaldo Azevedo costumam suscitar, em espaços virtuais, o mesmíssimo comentário dos prosélitos, de que eu teria prevenção exagerada contra um e outro.

Na verdade, sou apenas fiel a mim mesmo: quase tudo que provém de ambos contraria minhas convicções de uma vida inteira.

P. ex., o RA costuma escrever que denunciou tais ou quais internautas à Polícia por lhe terem mandado mensagens intimidatórias. Cansei de receber ameaças de morte durante o Caso Battisti e não tomei providência nenhuma, pois dava para perceber claramente que era molecagem de reaças adolescentes. 

Quem pretende mesmo matar, não manda aviso. E minha geração acreditava que homem tem de resolver tais situações por si próprio, ao invés de ir choramingar no colo do delegado, como criança se queixando à professora de que o coleguinha aprontou...

Já a defesa estridente da Petrobrás por parte do PT & intelectuais afins me irrita profundamente porque jamais considerei que revolucionários devessem apoiar companhias estatais em particular e o capitalismo de estado em geral. 

O objetivo final de comunistas e anarquistas é uma sociedade sem patrões, sem classes, sem Estado e sem fronteiras. Os primeiros admitiram, depois do esmagamento da Comuna de Paris, que durante algum tempo se mantivessem algumas estruturas do Estado, para defender a revolução dos seus inimigos internos e externos. Os anarquistas advertiram que seria um passo em falso, e a História lhes daria inteira razão.

Vale ainda lembrar que, conforme teorizou Lênin em O Estado e a revolução, o fortalecimento e a perpetuação do Estado não eram nem um pouco desejáveis para os comunistas. 

Durante tal fase, caber-lhes-ia irem transferindo o poder real, paulatinamente, ao povo; o aparato estatal deveria ser desmontado pouco a pouco, até extinguir-se completamente por desusoDa administração das pessoas, passaríamos, tão depressa quanto possível, à administração das coisas.

Salta aos olhos que, em todos os países nos quais se estabeleceu a famigerada ditadura do proletariado, o estado não foi definhando; muito pelo contrário, cresceu desmesuradamente, engendrou castas burocráticas de privilegiados (as chamadas nomenklaturas), travou a economia e intimidou ou aterrorizou a cidadania. O colapso do socialismo real se deu, principalmente, por causa deste desvirtuamento das concepções marxistas.

Antes mesmo de minha geração (a de 1968), já houvera revolucionários repudiando o envolvimento da esquerda na campanha do petróleo é nosso e subsequente criação da gigante petroleira, por terem bem claro que o estatismo e o nacionalismo jamais conduzirão à sociedade sem classes e à revolução mundial. 

Empresas em mãos do estado nada significam para revolucionários; o que conta, num primeiro momento, são empresas sob o controle dos trabalhadores, e isto a Petrobrás nunca foi. Num segundo momento, as empresas, tal como as conhecemos (entidades lucrativas), têm de ser extintas, pois todas as atividades econômicas se voltarão para o atendimento das necessidades humanas.

Mais: o pesadelo stalinista, principal responsável (ao tornar execrável a própria ideia de revolução) pela sobrevida parasitária que o capitalismo está tendo depois de haver mais do que esgotado sua função histórica, nos mostrou quão nociva pode ser a estatização da economia, quando desacompanhada da transferência do poder aos explorados. 

Ela fornece sustentação econômica ao autoritarismo, que tende a desembocar no totalitarismo, como aconteceu na URSS, na China, no Camboja, etc. É outro motivo para mantermos máxima distância da estatização sem revolução. 

Assim, nunca vi relevância nenhuma na defesa das estatais brasileiras e repúdio às privatizações, do ponto de vista revolucionário. Trata-se apenas de mais um conflito de interesses que se trava dentro do capitalismo, envolvendo grupos que nada mais almejam além de auferirem vantagens sob o capitalismo. A Petrobrás jamais pertenceu ao povo brasileiro (nem a ele beneficiou), mas sim ao Estado brasileiro, às curriolas vorazes que o saqueiam e aos gananciosos acionistas. O resto não passa de conversa pra boi dormir.

Por último, é patético que esquerdistas se proponham a defender com unhas e dentes a energia suja que está minando as possibilidades de sobrevivência da humanidade. A era do petróleo tem de acabar, ou somos nós que acabaremos. 

Esse PT que quase nada conserva de suas bandeiras originais de esquerda, marcha atualmente na contramão de uma infinidade de valores que sempre cultivei. Deles não abro mão. Sou dos poucos que têm coragem de desafinar o coro dos contentes, nestes tristes tempos em que a esquerda regrediu ao monolitismo e ao pensamento único que pareciam ter sido definitivamente extirpados em 1968. 

Enquanto tiver vida, lucidez e forças, não deixarei de continuar apresentando o contraponto a visões dominantes dos quais divirjo, até porque a experiência histórica tem demonstrado que a unanimidade pode mesmo ser burra, como dizia o Nelson Rodrigues...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

GERAÇÃO MALDITA


"O anel que tu me deste,
eu guardei pra me ajudar,
construi numa viola
de madeira o teu altar

O amor que tu me tinhas,
eu roubei pra me salvar,
toda hora em que a danada
da saudade me pegar

Joema dos olho claros,
bem verdes da cor do mar,
me dava tanta alegria
que eu não preciso sonhar

Basta me lembrar agora
das coisas que deixei lá,
Joema, sempre esperando
na praia do grande mar

Valdomiro das estrelas
não podia se encurvar,
tinha tudo que queria,
dizia tudo a pintar

Olhando pro céu de frente,
perdido sempre em chegar,
Valdomiro das estrelas
pedia para voltar

Que faço agora, Maria?
Que faço agora, diz já!
Se longe, eu ouço hoje
as coisas que vão voltar 

Me diz, quem vem comigo
agora, ao Deus dará,
nas coisas de todo mundo,
na vida do benvirá?"

Teledrama inspirado no clima
personagens da música "Das 
Terras de Benvirá", de Geraldo 
Vandré; foi exibido em 
outubro/1978 na ECA/USP.

Exilados latino-americanos vivendo na Europa. Carlos entra com estardalhaço.

CARLOS: Todo mundo preso! (sobressalto geral; Valdomiro erra pincelada no quadro)

GERALDO: Porra, eu já te disse pra não fazer esse tipo de brincadeira! Vai ficar toda hora lembrando as coisas pra gente, vai?

CARLOS: Que é isso, Geraldo, calminha! Não vamos fazer nenhuma tragédia por isso, né? O que passou, passou, ficou pra trás, então temos de encarar tudo com naturalidade. É a única maneira de sair dessa e partir pra outra, né? Então vamos lá, companheiro, abre um sorriso pra gente ver, vá!

GERALDO: E eu vou achar graça do que, da condição da gente aqui, das últimas notícias do nosso país?

VALDOMIRO: Do meu quadro, que você estragou?

CARLOS: Olha, Geraldo, nós aqui não poderíamos estar melhor, afinal não fomos expulsos até hoje. Nosso país (tom irônico), dizem que está virando uma grande potência, a gente deveria até festejar. E (para Valdomiro) esse teu quadro é a milésima versão da Lúcia nas praças e ruas da patriamada. Então, ainda sobram umas 999 pra você ficar aí todo embasbaco e macambúzio, sabe?, olhando a tela como se fosse a Virgem no altar. Só falta você se ajoelhar e beijar o cavalete.

VALDOMIRO: Tá, vai à merda! O que é que um liderzinho estudantil de subúrbio entende de arte? É só pintar um monte de proletas dando com as ferramentas na cabeça de uns burguesões...

CARLOS: É isso mesmo, companheiro! De preferência, uns burguesões de fraque e cartola, alisando a ponta dos bigodes, assim (imita o gesto).

VALDOMIRO: Então, bastaria eu partir prum realismo socialista desbragado pra você logo dizer que sou o maior pintor revolucionário do 3º Mundo?

GERALDO (abrupto): Como é, dá pra você me dizer se trouxe o jornal?

CARLOS: Olha, na edição da tarde tem uma notinha parecida com a da manhã. Diz que oito foram presos e dois feridos, mas não traz o nome de ninguém.

ANA: Mas não deve ser nada não, Geraldo, afinal existem tantos grupos atuando lá na Capital, por que teria de ser logo o do Otávio?

GERALDO: É, mas é uma merda estar aqui, longe de tudo, a gente fica o tempo todo se preocupando. Quando menos espera, abre o jornal e vê que pegaram um companheiro, um amigo...

VALDOMIRO: O que a gente podia fazer, já fez. Se ficássemos lá, com todo aquele clima de luta armada, nuncia iriam deixar que nós continuássemos com os movimentos de cultura popular. Iríamos ser vigiados o tempo todo, perseguidos, presos, poderíamos até virar presuntos e a culpa ser jogada em cima de um Sabado Dinotos qualquer. E nem pra clandestinidade iríamos poder passar, todo mundo já viu nossa cara no jornal, na TV. Iria ser pior pra nós e pros companheiros, que teriam de ficar tomando conta da gente.

CARLOS: Não é nada disso, Valdo, que nada! Vamos voltar agora mesmo que eu atiro livros na cabeça dos reaças, você joga a coleção de Lúcias, o Geraldo atira os discos, num instante a gente faz a primeira revolução tropicalista da História!

ANA: E eu, o que é que eu faço?

CARLOS: Ah, você atira as canetas dos teus alunos. Nunca te contaram que a pena é mais afiada que a espada?

VALDOMIRO: E pra você isso vai ser uma revolução ou uma comédia de pastelão?

CARLOS: As duas coisas juntas, afinal estamos falando de um país latino-americano, né?

* * *


Geraldo recordando a sua saída do país.

JOEMA: É a tua oportunidade, você tem de partir, amor!

GERALDO: Mas, eu posso me esconder na casa da tua irmã, eles não vão me procurar lá...

JOEMA: Ela não concorda com nossas idéias, como é que eu vou pedir que ela se arrisque por nós?! E tem também os vizinhos, tem aquele capitão que mora na esquina, tem os parentes que falam demais, você acabaria preso e complicando minha família!

GERALDO: Tem de haver um jeito de eu poder ficar!

JOEMA: Vai ser sempre um risco inútil, benzinho. Você mesmo me ensinou que o importante é a causa, não as pessoas. Agora é a hora de você se sacrificar, se preservar para o futuro. Afinal, você é um símbolo, teus versos vão continuar inspirando o pessoal daqui. E um dia você ainda vai voltar para cantar nossa vitória, junto com o povo na rua. Você precisa viver para esse dia, amor!

GERALDO: Mas, como eu posso partir e deixar você e o Otávio correndo perigo aqui?

JOEMA: Você me deu os primeiros livros e me convidou para aquelas palestras, quando você quis que eu participasse da tua vida e da tua luta. Você já deveria saber que um dia a gente poderia ter de se separar. Mas não se preocupa, não, Geraldo! Olha, eu tomo conta do Otávio porque ele é teu irmão, ele toma conta de mim porque sou tua companheira, então, no fim, não acontece nada pra nenhum de nós dois, tá, benzinho?! Isso, dá um sorriso, eu não quero me lembrar de você tão sério e carrancudo!

GERALDO: Se fosse tudo tão simples...

* * *

O chamado de Carlos desperta Geraldo de seus devaneios.

CARLOS: Geraldo! Geraldo! Acorda, pô! 'Tava querendo saber se você concorda que um companheiro que você não conhece, o Roberto, venha passar uns tempos aqui com a gente. Ele fez umas ações, caiu em fevereiro e foi pra Argélia no último sequestro. Agora ele se desligou da Organização e está com as idéias meio embananadas; quer parar pra pensar antes de decidir alguma coisa. A gente pode dar uma força pra ele, né, que ele está quase sem grana e precisando mudar do apartamento do Osvaldo. Sabem, tem uns dez caras amontoados lá e vão chegar mais na semana que vem.

GERALDO: Por mim, pode trazer quem precisar, a gente sempre se ajeita.

VALDOMIRO: É, tudo bem.

ANA: Mas, pra mim não está nada bem! Solidariedade, solidariedade, é somente nisso que vocês pensam, não? Que importam as leis de exceção, as torturas, a destruição das entidades de massa? Vocês esquecem num instante que estão aqui por causa dos porralocas dos militaristas! Só querem saber de exibir sua solidariedade revolucionária, seu paternalismo pequeno-burguês, ajudar o coitadinho, pobrezinho, que até ontem estava botando fogo no mundo!

VALDOMIRO: Calma, Ana, calma, o que é que há? Estamos caindo no emocionalismjo, assim não dá pra discutir. Se você acha que o pessoal da luta armada provocou uma radicalização de direita, é um juízo político, a gente pode até concordar com você. Agora, você não pode negar que os companheiros que fizeram essa opção agiram por um ideal. Eles arriscaram a vida...

ANA: É, a deles e a nossa também!

VALDOMIRO: ...arriscaram a vida pra fazer a revolução do modo deles. A História provou que não tinham razão, mas...

ANA: Você está sempre botando panos quentes, sempre conciliando! É por causa de gente como você que esses aventureiros se colocaram à testa do processo, provocando uma ditadura que vai durar uma porrada de anos. E nós estamos aqui, fugindo que nem judeus errantes!

CARLOS: Aninha, Aninha, esse negócio de linhas, tendências, partidos, isso tudo é pra quem está lá no meio da luta. Aqui nós não passamos de uma meia dúzia de subdesenvolvidos, somos que nem um bando de índios na terra dos brancos. Se a gente não ajudar uns aos outros, vem a cavalaria e acaba com todo mundo. Uga, uga, mim, grande chefe Pena Desbotada, decreta a paz entre todos os peles-vermelhas...

ANA: Não brinca, Carlos, vamos discutir a sério. A gente está aqui, longe dos companheiros, dos amigos, não conhecemos quase ninguém aí fora; os gringos não querem nem ver cucarachas perto. A única coisa que sobra é nossa amizade, nossa união. Então, vem um guevarista fanático, com toda aquela carga de violência, e estraga nosso ambiente. Aí nem nesta casa vamos ficar em paz.

CARLOS: Mas Ana, isso é uma imagem que você criou, uma fantasia de sua cabeça. O Roberto não é nada disso. Pelo contrário, é calmo, intelectualizado, entende tanto de marxismo como qualquer um de nós aqui.

VALDOMIRO: Eu acho que você deveria fazer uma autocrítica, Ana, analisar até que ponto teu problema pessoal está influenciando teu posicionamento.

ANA: Eu não tenho nenhum problema pessoal. Eu só queria que vocês pensassem um pouco antes de trazer aqui pra dentro um militarista desses, que vai ficar o tempo todo defendendo o seu aventureirismo e quebrando o pau com a gente!

* * *


Ana relembra a noite de sua prisão, a morte do marido, as torturas.

ANA: Acorda, Ju, acorda!

JÚLIO: Hã, hã, o quê?

ANA: Tocaram a campaínha!

JÚLIO: Mas agora, porra! E que horas... mas são quase quatro horas!

ANA: Meu amor, meu amor, e se for a repressão? Eu disse pra você não ficar dando abrigo pra esse pessoal da guerrilha!

JÚLIO: Mas, que é isso, meu bem? Eu tinha de ajudar, a solidariedade revolucionária... (novo e longe toque de campaínha). Mas, não deve ser nada, não. Fica aqui que eu volto já.

VOZ: Onde é que ele está? Diz logo, filho da puta!

VOZ: Aqui! (fuzilaria)

JÚLIO: Não! Não!

VOZ: Algema ela! Bota o capuz!

VOZ: Quem contatava seu marido? Quando ele ia ter o próximo ponto? Você também conhece os aparelhos? Fala, sua vaca, fala! (Ana grita, ofega)

* * *

Ana e Valdomiro conversando, na calmaria subsequente ao ato sexual.

ANA: Você tinha razão. Era por causa do Júlio. Nem sei se por causa dele mesmo ou da minha vida com ele. Era o que vocês chamariam de uma vidinha pequeno-burguesa, mas eu gostava. Gostava de viver sem susto, cuidando da casa, das crianças, do meu jardinzinho. Toda a rotina de uma dona-de-casa alienada. E daí? Não nasci pra grandes aventuras, nunca pensei em mim transformando o mundo. Acho que casei com o Júlio porque ele era seguro, tranquilo, tomava todas as decisões. Sabia o que era melhor pra nós dois.

VALDOMIRO: E mesmo assim vocês entraram pro partido?

ANA: Bom, até o golpe militar a gente não se interessava pela política. Aí foram todas aquelas prisões, perseguições... o Júlio viajando a serviço e conhecendo aqueles cafundós... tanta miséria, tanta injustiça... No fundo, no fundo, nem ele nem eu seríamos revolucionários se vivêssemos numa democracia de 1º Mundo. Quanto muito entraríamos num partido de centro-esquerda, sei lá... Mas, é que no nosso país a gente não tinha opção. Ou ficava quietinha engolindo tudo que o governo fazia ou entrava pra esquerda. Então, o Júlio acabou entrando e me levando junto.

VALDOMIRO: E acabamos todos no mesmo barco, lambendo as feridas e esperando a hora de voltar...

ANA: Depois de tudo isso eu já nem sei se vale a pena voltar. Se não fossem as crianças...

VALDOMIRO: Nem pense nisso, Aninha. A ditadura não é eterna. A gente ainda vai ver todo mundo feliz, todo mundo rindo, todo mundo se amando. Você precisa voltar pra ensinar a seus filhos, a seus alunos. Explicar pras novas gerações o quanto vale a liberdade. Tudo o que passamos não vai valer nada se a gente não fizer com que essa seja a última ditadura. Se a gente não despertar o povo pra defesa dos seus direitos, pra que o povo nunca mais aceite um regime como esse.

ANA: Do jeito como você fala, parece que a gente vai voltar e encontrar o país do jeitinho que era. Mas, será que com todos esses anos de lavagem cerebral eles não vão conseguir mudar as pessoas? Será que quando a gente voltar o povo ainda vai se lembrar de nós, vai querer ouvir o que a gente tem pra dizer?

VALDOMIRO: Não sei, francamente não sei. Até agora eu vivi para minha obra, e fiz da minha obra o instrumento para despertar as pessoas para a vida, para a harmonia, para a felicidade. Eu entrei na política para aprender mais sobre a vida, para ter coisas mais importantes para transmitir. Se tudo isso não serviu para nada, se quando eu voltar ninguém mais estiver interessado num futuro melhor, em ver na arte o que o mundo deveria ser e depois transformar o mundo... aí, não sei, acho que minha vida terá sido completamente inútil (revê sua dedicação à arte, seus esforços para expressar uma verdade maior nas telas).

* * *

A festa e a batucada com que festejam a chegada de Roberto fazem Carlos relembrar suas alegrias passadas, os discursos que fazia quando o povo ainda tinha lugar na praça.

CARLOS: Eles estão sozinhos, trancados nos gabinetes, escondidos atrás das tropas, prisioneiros do próprio poder. Nós estamos livre no seio das massas, são eles que nos dão esperanças, são elas que nos dão força, são elas que nos apontam o rumo, são elas que nos conduzirão até a revolução. Quando estamos ao lado do povo estamos sempre certos, somos tão fortes que ninguém pode nos derrotar. Quando estamos separados das massas não somos nada, somos a poeira varrida pela História!

* * *


Discussão política, com a participação de todos os membros da comunidade.

ROBERTO: Nós não romantizamos a guerrilha, nem endeusamos as armas. Nosso objetivo sempre foi político. Quando a repressão estourou as entidades de massa, quando eles ocuparam cidades operárias com as tropas para prender grevistas e aterrorizar a população, quando as passeatas estudantis já não tinham o que fazer se não andar de um lado para outro no centro da cidade, então nós nos organizamos para oferecer uma opção, um caminho para o qual pudesse ser canalizado todo esse movimento de massas, criando uma alternativa de poder.

ANA: E isso tudo isolados do povo, escondidos nos aparelhos, querendo fazer a revolução só com estudantes e intelectuais?

ROBERTO: Junto com as massas a repressão acabaria localizando a gente. Prende um operário, ele entrega a base da fábrica, daí é aberto o coordenador do movimento de massas e logo acabam caindo todos os elos da corrente. Para sobrevivermos na luta era necessário nos organizarmos como revolucionários profissionais, vivendo unicamente para a causa.

CARLOS: Mas que adiantava sobreviver se o povo não participava da sua luta nem se interessava por suas ações?

ROBERTO: Numa outra fase do processo executaríamos ações de propaganda armada, como expropriarmos gêneros de primeira necessidade para distribui-los nas favelas, tomarmos supermercados para o povo saquear, ações desse tipo. Além disso, não esperávamos vencer o imperialismo só no nosso país, sabíamos que era impossível. Nossa idéia era desencadear a luta em larga escala, coordenada com os grupos guerrilheiros de outros países, como os tupamaros e o ERP.

ANA: E por que deu tudo errado?

ROBERTO: Foi uma corrida contra o tempo. Nós demoramos tanto para priorizar a luta armada que, quando começamos pra valer, já era tarde, o imperialismo estava bem preparado. Veja o caso do nosso país: eles investiram rios de dinheiro, criaram o milagre econômico, a classe média passou a apoiar o regime, nós acabamos sozinhos e agora a repressão está liquidando nossas Organizações, uma por uma.

GERALDO: Você não acha que foi uma tentativa desesperada?

ROBERTO: Até certo ponto, sim. Nós sabíamos que os militares utilizariam o estado totalitário para conduzir nosso país a um estágio capitalista mais avançado, com o predomínio absoluto das grandes empresas na economia, a colocação do ensino a serviço do capital, a propaganda fascistóide, tudo isso. Então, tínhamos de evitar que eles reestruturassem a sociedade dessa forma, caso contrário as possibilidades de uma revolução ficariam afastadas por um longo período. Foi por isso que arriscamos tudo, nenhum de nós queria esperar mais 20 ou 30 anos por outra situação potencialmente revolucionária.

ANA: Só que, com esse imediatismo pequeno-burguês, vocês acabaram quase todos dizimados e a ditadura ficou ainda mais forte...

ROBERTO: Putz, a companheira pega pesado! Olha, pelo menos uma coisa temos certeza que fizemos: nós lavamos a honra da esquerda, depois daquela rendição sem luta quando os militares tomaram o poder. Quem sabe se nós não pagamos as contas do passado, deixando o terreno limpo para que a juventude entre na luta sem traumas, sem nossa necessidade obsessiva de provar que também tínhamos coragem de sangrar por uma causa?

CARLOS: Mas, a repressão está liquidando as lideranças forjadas em décadas de luta. Assim a juventude ficará sem memória, sem referencial, vai ter de recomeçar tudo da estaca zéro.

VALDOMIRO: Não sei, eu às vezes sinto como se nós fôssemos uma geração maldita, que sentiu como nenhuma outra a necessidade de lutar mas não tinha opção correta para fazer. Parece que a História só nos conduziu a ruas sem saída, e mesmo assim brigamos, polemizamos, discutimos, fizemos o impossível para convencer uns aos outros, trazê-los para a posição que achávamos correta, sem perceber que todas elas acabariam num mesmo fracasso. Num enorme fracasso.

CARLOS: Pelo menos cada um de nós seguiu até o fim suas opções, sacrificou tudo por elas, se entregou à luta como nenhuma outra geração. Esse exemplo a gente deixa pro futuro.

VALDOMIRO: O futuro só fixará nossa derrota. Perdemos, logo estávamos errados. Para eles, esse vai ser o veredito da História.

* * *

Roberto se despede de cada um dos companheiros, pois decidiu voltar ao seu país. Todos estão emocionados. Até Ana o abraça, chorando. Depois que sai, comentam sua opção.

GERALDO: Ele sabe que a luta está perdida, não tem mais nenhuma esperança, então por que é que resolveu voltar? Está indo direto pro matadouro.

VALDOMIRO: O problema do Roberto é que ele perdeu os amigos, os irmãos, a companheira. Todos de quem gostava acabaram presos ou mortos. Ainda por cima, ele não vê a menor possibilidade das coisas melhorarem em nosso país nos próximos anos. Então, o Roberto chegou até a pensar num recuo, mas não viu nada do outro lado. Não havia mais lugar onde quisesse ficar, nem pessoa que o prendesse à vida. Acabou se solidarizando com os últimos da sua Organização. Vão lutar até o fim...

GERALDO: E acabar presos ou mortos.

VALDOMIRO: Ou mortos. O Roberto, pelo menos, acho que nunca vai cair vivo. Ele sabe muito bem o que encontrará nos porões.

GERALDO: É, estamos no tempo dos mártires.

VALDOMIRO: E muita gente ainda vai morrer à toa. Mas, para o Roberto, talvez seja mesmo a melhor opção. Gente como ele aguenta qualquer sacrifício no presente porque vive sonhando com o futuro, com o dia em que nosso país for libertado. Mas, quando descobre que a revolução não é mais pra amanhã nem pros próximos anos, já não consegue voltar pra rotina. A vidinha normal não significa mais nada para ele. O Roberto viveu com tanta intensidade seu sonho que tinha de morrer junto com esse sonho.

GERALDO: E você, ainda tem esperanças?

VALDOMIRO: Tenho pensado muito nisso e acredito que ainda valha a pena viver. Mesmo que as novas gerações não se interessem por nossas histórias, temos de insistir, procurar os meios para transmitir tudo que aprendemos. Afinal, poucos dos que participaram das últimas fases da política revolucionária sobreviveram. Temos de tornar conhecidas as lições que aprendemos com tanto sacrifício, para evitar que a juventude pague o mesmo preço por seu aprendizado. Para isso faz sentido voltar, faz sentido esperarmos o dia certo para voltar.


Obs.: trabalho em grupo feito para a cadeira de Linguística. Tínhamos de escolher uma obra artística, dela derivar 
uma história que permitisse destacar o jargão utilizado por determinado grupo social e apresentá-la por meio 
de audiovisual, programa radiofônico, filme, teleteatro, etc. Sugeri a canção do Vandré sobre exilados 
porque era um assunto na ordem do dia e porque seria fácil trabalharmos em cima do jargão
 da esquerda. Fiquei com a tarefa de criar o script. E acabei me envolvendo muito com 
as situações enfocadas, por estarem próximas da minha vivência. O vídeo 
despertou interesse, causando polêmicas.

"NÃO SOU ALEGRE, NEM SOU TRISTE. SOU POETA."

O companheiro Humberto Pereira me critica por, ultimamente, "só estar pensando naquilo", a política; pede mais posts "sobre cultura, cinema, poesia". Por que não? 

Infelizmente, um pau no computador tragou o livro de poesias que eu montara com as composições de uma vida inteira, deixando-me num desânimo só. Nunca mais brotaram versos na minha cabeça, como antes amiúde ocorria.

Salvaram-se do incêndio estas aqui, de um post antigo em que aproveitei só minhas poesias engajadasQuiçá sejam melhores do que nada...
FRENESI                                                                 

No centro de um redemoinho,
girando à deriva,
buscando um amigo
e uma ilusão repartida,
abrindo caminho certo
na incerteza da sorte,
misturando amor e morte
na confusão dos sentidos,
correndo o mundo à procura
de abismo ou abrigo,
sem medo da fria aurora
nem do sol a pino,
diluindo as certezas
num insensato rodopiar,
girando a minha vida
até a morte.
[Versos adolescentes, mas que me trazem à 
lembrança a cela do 2º andar do DOI-Codi/RJ:
eu os declamei para meus companheiros de 
infortúnio, assim como o bom Joaquim Cerveira 
cantava seus sambas, pois tudo fazíamos para 
driblar o desespero, mantendo elevado o ânimo]
HADES

Terrores primitivos,
marcados a ferro e fogo
em nossas mentes febris,
nos porões de uma pirâmide de plástico,
nos labirintos da sanidade e loucura,
nas encruzilhadas entre a vida e a morte,
truncando nossos pensamentos,
tragando nossa identidade,
distorcendo nosso ser.

O passado de tocaia, mirando a presa – um sonhador.
O passado de tocaia, mirando a presa – um lutador.
O passado de tocaia, mirando a presa – um mártir.
[a ditadura refletida no espelho da mente - 1]
DESAFIO

Eu tenho uma faca encostada na barriga,
um grito de guerra sufocado na garganta,
meu canto desafina a ordem unida nas ruas,
evocando feitos de uma gente banida, escondida.

Recordo um abraço trocado no calor da luta,
sorrisos, promessas, lampejos de amor e alegria,
o sol refletido no ardor de um povo acordando,
os corpos transbordando esperança e paixões.

Trago comigo o legado de heróis esquecidos,
anseios de vidas apostadas no futuro da vida,
e vejo a apoteose da morte no paraíso tropical,
esperança traída, esmagada com torturas e tiros.
[a ditadura refletida no espelho da mente - 2]

Poesia de Cecília Meirelles da qual extraí o título deste post
MOSAICO

Graça a sacra, a engraçada,
a mui gangrenada família,
a sábia pomposa latrina,
a velha meretriz assassina,
a Graça sangrando chacina.

Peço espaço pra espalhar sopapos,
solapar o supra-sumo saber palhaço,
expectorar o pus mofado das patriapatices,
empalhar o solene símio embandeirado
e morder a vagina da divina musa.

Falo no embalo dos claros de tudo que calo,
mas o embalo clareia os fatos que calo
e só calo aquilo que todos já têm claro,
mas falarei um dia a corpos límpidos claros,
que jamais calarão o embalo dos fatos que falo.

corre escorre o homem que morre,
corre escorrendo e chega morrendo,
correndo para o córrego vai tudo que morre
e o homem escorre como lágrimas que correm,
o homem lavado-secado-passado-escorrido-morrido.

A musa muda na mesa como uma mula
e a velha sangra em pomposa chacina,
o supremo lambe a vagina mofada
e nenhum homem escorre corrido-morrido.

No embalo dos fatos falarão todos que calam
e os libertos sonhos de terra, sol, eros, mar e ar
implodirão a mula sagrada família.
[poesia-desabafo que fiz em 1971, mal saído da 
prisão e tendo de adotar uma linguagem cifrada, 
a menos arriscada naquele momento]
FÊNIX

Levanto minha tenda nos limites
desta terra devastada.
Com os sonhos da gente derrotada
alimento minha vontade.
Finco-me no solo como a bandeira
da terra da liberdade
que ainda não se consumou.

Trago em mim os pesos e as medidas.
Só meço as migalhas de hoje
pelas esperanças de ontem.
Desminto esse paraíso de marionetes.
Jogo a verdade bruta, como uma fera,
no meio do banquete.

Falo para todos
que não querem ouvir,
relembro tudo
que tentam esquecer.
Digo verdade,
quando falam em publicidade.
Digo liberdade,
quando falam em progresso.
Digo amor,
quando falam em ordem.
Digo humanidade,
quando falam em país.

Jamais omito
que a plenitude
está a um passo.
Jamais perdoo
os que não ousam
dar esse passo.

Monto guarda aos túmulos
dos verdadeiros heróis,
guardando na lembrança
a história dos meus tempos.
Tristes, violentos, confusos,
amargurados tempos!

Um dia apontarei
quais as estátuas a derrubar
e nos feitos de quem,
para o povo, falar.

Nos limites desta terra devastada,
assisto ao pesadelo
que colocaram no lugar do sonho.
Espero a centelha da vida brilhar,
tímida, em alguns olhares,
as dúvidas, aos poucos,
se transformarem em certezas
e uma nova onda brotar,
crescer e se desencadear,
para extirpar toda covardia,
toda mentira que nos fizeram engolir
e ir mais longe, muito mais longe
do que fomos capazes de ir!
[profissão-de-fé e declaração de intenções 
que escrevi lá por 1973, era a poesia que 
eu sempre apresentava para os pequenos 
públicos reunidos pelo Grupo Cacimba]

Meu tributo aos jovens companheiros
JOE

Eu posso suportar uma tempestade!
Que ninguém me creia vencido
pois estou consciente de tudo:
com as cinzas do meu passado,
vou erguendo a montanha
que soterrará esta calmaria.

Falo palavras dos outros
em território hostil e alheio
– estranho numa terra
estranha, sim, Heinlein!
Mas ainda sei distinguir
os timbres falsos dos verdadeiros
e espero minha hora.

Do centro deste redemoinho,
quando todos se calam,
nada sentem e só consentem,
lanço meu desafio:
não passarão cinco anos
sem que eu esteja de volta!

Tudo que acumulei entre os lobos
ajudará a forjar minhas armas.
Se hoje suporto uma tempestade,
estejam certos de que, ao voltar,
trarei comigo um dilúvio!
[inspirada pela canção "I Can Stand a Little 
Rain", do repertório de Joe Cocker, é outra 
profissão-de-fé e declaração de intenções de 
meados da década de 1970, que se revelou 
otimista em excesso: a minha volta à 
plenitude da luta demorou muitos anos mais]
FORMATURA

Era uma vez
jovens amigos
na luta perdida.

Era uma vez
primícias de vida,
arrojo e perigo.

Era uma vez
passeatas na rua,
estilhaços de vidro.

Era uma vez
tiros faiscando,
vagalumes na noite.

(Foi tão rápido,
dos sonhos grandiosos
ao pesadelo escondido!)

Diego
Hombre de España,
existencialista e
meia-armador.
Bisou o pai,
lutou uma guerra.

Eremias
Era mau aluno,
treinava judô.
Sorriso moleque,
morreu em pedaços,
35 balaços.

Edmauro
Sonhava o amor,
matraqueava demais.
Tanta inocência
levou aos porões,
acabou no exílio.

Gerson
Nem no inferno
perdeu a coragem.
Nem na trégua
repensou a viagem.
Seu olhar brilhava.

Teresa
Só ela sabia
se era por Gerson
ou pela causa.
Companheira igual
nunca vi.

Mané
Cantava sua fé,
imitava Vandré.
Quando o épico
resultou trágico,
se desencontrou.

Gilson
O que fazia
um bancário
na revolução?
Terno e gravata,
pólvora e graxa.

* * *

Hoje ninguém lembra
destes e tantos mais –
assassinados uns,
amargurados outros.
Era uma vez meus amigos,
era uma vez 68.
[tributo aos companheiros secundaristas que, 
em abril/1969, ingressaram comigo na Vanguarda 
Popular Revolucionária; vale dizer que o Gilson 
Theodoro de Oliveira não era bancário e sim 
funcionário da Companhia Siderúrgica Nacional, 
do que só fiquei sabendo bem depois (todos nós 
dávamos então pistas falsas acerca de nossos
dados pessoais, por motivos de segurança]

Castro Alves é evocado em "Terra em Transe"
INVISÍVEIS
A tempestade passou,
o marasmo nos afogou.
Nem o inimigo era tão formidável
nem conseguimos fazê-lo desabar
com o estrondo prenunciador
de um novo amanhecer.

Restamos nós,
invisíveis,
em meio à ganância e desamor,
aos afazeres mesquinhos
da grande estagnação.

Olhamos o companheiro
querendo saber
que fim levou nossa festa,
como explicar tanto sofrimento,
a esperança traída,
a vida mal vivida,
a noite que nunca acaba?

Nem a compreensão tivemos
dos que nos fizeram heróis de quadrinhos,
dos que nos fizeram vilãos de quadrinhos.

Os ratos bem souberam
a hora de voltar para o navio,
ocupando os melhores ângulos
sob os holofotes,
flashes e closes,
entrevistas e livros.

A História como tragédia,
a História como farsa,
como sórdida mentira.

Restamos nós,
invisíveis,
os únicos a não comer
as migalhas
do monumental banquete.

Arregaçamos as mangas,
conscientes da derrota,
começando novamente
a empurrar a pedra
para o topo da montanha.
[poesia do começo da redemocratização, 
quando  alguns que pouco fizeram recebiam 
 louros excessivos e alguns que muito 
fizeram eram relegados ao esquecimento]
INVENTÁRIO

Em cada encontro
me perco,

em cada palavra
me calo.

Sou eu, ainda?
Sou outro, já?

É o mesmo sangue
na veia
ou borra vermelha?

É a mesma raiva
altaneira
ou pálido esgar?

É o mesmo amor
guerrilheiro
ou tesão outonal?

As ruas não levaram
às praças,
os rios não chegaram
aos mares.

Restamos nós
com a lucidez,
restamos sós
com a altivez,
restamos pós
com a aridez.
[o mal-estar que sentia, às vésperas do
50º aniversário, sem ter conseguido 
concretizar os grandes objetivos da minha 
vida; logo cairia de novo na estrada]


A poesia revolucionária de José Martí não poderia faltar neste post
TESTAMENTO

Do que somos,
nada restará.

Os sonhos se desvanecerão,
agonizando em descrença.

O Destino, deus cruel,
selará nosso esquecimento.

Saibam: éramos solidários
no melhor e no pior.

Lutamos, sofremos, tentamos
reavivar o fogo de Prometeu.

Em meio à insensibilidade
nos mantivemos íntegros.

Ninguém nos fará justiça,
a História é traiçoeira.

Que importa?
Teremos vivido
com força e coragem,
com amor e liberdade.
[na linha da anterior, 
acumulação de forças 
para uma nova ruptura]
POESIA

Era menino inquieto,
inteligente e tímido,
projetando mais que fazendo,
sonhando mais que vivendo,
buscando nos versos
o que faltava em atos.

Conheci o amor
junto com a revolução:
era o espírito da época.
Mergulhei nos livros,
descobri os profetas,
me encontrei na luta.

Vencer ou morrer
era nosso lema.
Ter sobrevivido
aos companheiros
e ao sonho –
que fardo terrível!

Reconstruir-me durante
a grande prostração.
Inventar motivos
para continuar vivendo.
Loucos sonhos dourados.
Liberdade em microcosmo.

Depois das tempestades,
a insossa rotina.
Depois do amor maior,
o mero prazer.
Depois da redenção do homem,
a ascensão profissional.

Meio século escorreu
entre os dedos,
mas não aceitei
envelhecer e definhar.
Comecei tudo de novo,
outras páginas escrevendo.

Não plantei árvore,
livros, sim, muitos!
A criança vem chegando
(há tanto aguardada!).
Amor tive e tenho de sobra.
Que mais poderia querer?
[balanço que fiz da minha trajetória, 
quando construía uma nova vida; a criança 
aguardada, minha doce Luana, já está com 
treze anos, e agora tem a companhia da 
Laura, prestes a completar sete anos]
IDENTIDADE

De tantos sonhos desfeitos,
de tantas batalhas agônicas,
de tantas revoluções traídas:
guerreiro.

Titã surgido do Caos,
lutando para espalhar
o fogo da revolta
entre os mortais abúlicos.
[o ponto de chegada, um pouco pretensioso, mas 
é próprio dos revolucionários se compararem a 
Prometeu e, eventualmente, também a Trotsky]
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