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quinta-feira, 21 de junho de 2018

TRUMP E O CHEIRO DE NAZISMO NO AR

Por Clóvis Rossi
A última coisa que poderia imaginar na vida é que, algum dia, um dirigente americano pudesse ser associado ao nazismo. Afinal, os Estados Unidos foram essenciais para a derrota do nazismo no século passado e gozavam de um certo status de campeões da liberdade.

É verdade que esse rótulo já foi arranhado um punhado de vezes, por terem apoiado ou até financiado a instalação de ditaduras nefandas, em especial na América Latina.

Mas, agora, Donald Trump atropelou todos os limites com a sua insistência em deportar imigrantes e, ainda por cima, separar crianças de seus pais. Voltar atrás agora, como anuncia, não apaga o já ocorrido.

Basta citar a avaliação de David Leonhardt, editor da newsletter de Opinião de The New York Times: ele menciona o fato de que Trump usou a palavra infestação para se referir à chegada em massa de imigrantes aos Estados Unidos.

E emenda que infestação "é uma palavra particularmente dura porque sugere que imigrantes são equivalentes a insetos ou ratos —uma analogia que os nazistas frequentemente usavam para descrever os judeus".

É bom esclarecer que Leonhardt não acha que Trump seja nazista, ainda que o ache bastante confortável com "muitas ideias de supremacia branca". Uma maneira sutil de dizer que o presidente é racista.
Aviya Kushner não é a única a pôr o nazismo na avaliação dos episódios que estão chocando o planeta.

Hadley Freeman, colunista de The Guardian, escreveu nesta 4ª feira (20): "Analogias com o nazismo podem não ajudar, mas é impossível para aqueles de nós que somos descendentes de sobreviventes do Holocausto ouvir as gravações de crianças chorando por seus pais e não pensarmos nas crianças judias de nossa família que foram forçadas a se separar de seus pais".

Sempre haverá quem diga que todo país tem o direito de impedir a entrada de imigrantes ilegais. É verdade, mas adotar uma política aberrante como a que está em curso nos Estados Unidos contraria até mesmo a pregação de Mike Pompeo, o secretário de Estado de Trump.

Em pronunciamento sobre o Dia Mundial do Refugiado, Pompeo escreveu:
"Quando deslocamentos globais alcançam níveis recordes, torna-se vital que novos atores —incluindo aí governos, instituições financeiras internacionais e o setor privado— venham à mesa a fim de colaborar na resposta global para enfrentá-los".
E acrescenta com uma frase que só pode ser tomada como cínica: "Os Estados Unidos continuarão a ser um líder mundial na provisão de assistência humanitária e no trabalho para forjar soluções políticas para os conflitos subjacentes que levam aos deslocamentos".

Se ser líder em assistência humanitária é separar crianças dos pais e prendê-las em jaulas, o conceito de humanidade está em seu nível mais baixo desde a Idade da Pedra.

Recordo o escritor argentino Ernesto Sábato, que disse no ato de lançamento das Avós da Praça de Maio, as que buscavam seus netos desaparecidos: "Nós, adultos, de algo sempre somos culpados. Mas as crianças, de que podem ser culpadas as crianças?".

Sorte sua, Sábato, que morreu antes de ver um presidente americano criminalizar também as crianças. Arrepender-se agora é confissão de culpa.

A DISTOPIA MUNDIAL E A VOLTA DAS PRÁTICAS NAZIFASCISTAS – 2

(continuação deste post)
Gueto de Varsóvia, 1943: modelo para Trump?
AFUNDANDO NUM OCEANO DE INIQUIDADES – Diante da distopia atual o capitalismo tira a sua máscara de respeito aos direitos humanos pelo chamado Estado democrático de direito. Tal como na Alemanha nazista, utiliza-se agora a própria lei e os argumentos de defesa da economia nacional como argumentos falaciosos para a repulsa aos não nacionais, como se fossem seres humanos diferentes dos demais.

Não são poucos os exemplos que podem ser citados, tudo praticado democraticamente por governantes eleitos em eleições nas quais vontade popular é manipulada pela via de um discurso xenófobo segundo o qual nós não podemos pagar pelos erros dos outros e precisamos de quem defenda os nossos interesses

Não se compreende que o mundo economicamente globalizado é uma grande nau que faz água por muitos dos seus lados e que nos levará a todos para o fundo de um mesmo oceano de iniquidades.

Não se compreende que, sob o capitalismo, a vitória de uns poucos implica a derrota da maioria; e que, diferentemente desse nefasto contrato social, deveríamos viver sob a égide de um modo de mediação social diferenciado, no qual sejam a solidariedade humana e a apropriação da capacidade da natureza de prover a subsistência global nas suas variações climáticas e territoriais, os pontos fundamentais da nossa existência social.
Cena que se torna corriqueira: refugiados lançando-se ao mar

Ao contrário disso, o que se observa mais recentemente é que:

— o ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, adepto do discurso xenófobo nacionalista, teve a insensibilidade de negar acolhida a 629 pessoas, dentre elas mulheres grávidas, crianças e velhos, que, em desespero, se lançaram ao mar;  

— o presidente dos Estados Unidos, maior país capitalista do mundo e que costuma ditar regras morais e éticas para as demais nações (como se o capitalismo fosse um modo de produção capaz de promover minimamente prosperidade geral e equilíbrio social!), é o primeiro a barrar os empobrecidos do planeta que tentam chegar à grande ilha de acumulação de riqueza capitalista. 

Que mundo é esse, que não nos cabe a todos?

Comparo a prisão de pessoas que imigram em desespero de sobrevivência e sua separação dos filhos, sob Trump, ao que fazia a Alemanha nazista: mandava as crianças judias para campos de concentração!    

Como se explicar a diáspora africana, americana central, asiática, árabe, e até mesmo dentro do continente europeu, sem que se coloque a culpa disso tudo num sistema que encontrou o seu limite interno absoluto de coexistência social graças à disfunção entre forma e conteúdo?
A lógica do capitalismo impõe a restrição dos direitos previdenciários 

Como aceitar que pessoas idosas sejam privadas de seu sustento após anos de trabalho em razão do déficit da previdência social, que ocorre até mesmo nos países economicamente desenvolvidos como a França (vale lembrar que o próximo presidente do Brasil e o parlamento a ser eleito em outubro herdarão a incumbência, imposta pela lógica capitalista, de restringirem direitos previdenciários)?

A concentração de valor (dinheiro e mercadorias) no organismo social capitalista sem capacidade de auto-reprodução está condenando ditos capitais a virarem pó; diante dessa iminência, os Estados cada vez mais recorrem à força militar para manutenção da ordem sistêmica capitalista decrépita e, assim, cada vez mais opressora (sob os auspícios da lei!).   

Entretanto, como tal problema de natureza econômica não se resolve pela força bruta, corremos o risco de assistirmos nas próximas décadas a lutas fratricidas, a guerras civis entre os que querem manter os seus privilégios por trás de muros e armas e aqueles que buscam a sobrevivência a qualquer custo.

Por Dalton Rosado
Sem que atentemos para as questões subjacentes à miséria social mundial que se amplia, nós corremos o risco de entrarmos definitivamente na barbárie, que nunca foi e nem será a solução para os problemas que nós mesmos criamos. 

Barbárie corporificada na eleição de Donald Trump e na sua política anti-imigratória que encarcera crianças.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A DISTOPIA MUNDIAL E A VOLTA DAS PRÁTICAS NAZIFASCISTAS – 1

"Agora temos
uma orquestra,
só falta um maestro"
(guarda estadunidense face ao choro uníssono de crianças
separadas dos pais e
presas em jaulas
de arame) 
O mundo experimenta hoje um fenômeno migratório das populações dos países periféricos do capitalismo para os grandes centros do chamado 1º mundo como nunca antes ocorreu.

Isto se deve ao fato de as condições de produtividade de mercadorias e o caro financiamento dessa produção e da dívida pública estatal dos países periféricos, em relação aos países que controlam a economia mundial, serem substancialmente diferenciadas para pior. A concorrência é desigual.   

A barbárie em curso nas nações periféricas de um mundo no qual a economia se tornou globalizada, causada pelo descompasso cada vez mais acentuado das condições financeiras e de concorrência de mercado, dá azo ao surgimento de governos tirânicos e grupos paramilitares que dominam pela força das armas as populações pauperizadas e desesperadas.

As populações de tais países só veem uma saída: o aeroporto, para os que podem pagar uma passagem de avião e conquistar a tal cidadania graças a comprovação de riqueza, ou a aventura da emigração, seja pelo mar em embarcações precárias, seja por terra frequentemente atravessando áreas conflagradas. E para quê? Para, no seu destino, serem recebidos como párias da humanidade. 
Secretário-geral da ONU repudiou tratamento desumano às famílias de refugiados e migrantes nos EUA 
A conclusão é igualmente simples: o capitalismo encontrou o seu limite interno de expansão e aquilo que outrora proporcionou a riqueza dos países que conduziram as duas primeiras revoluções industriais logo após o período da colonização escravista direta, agora esbarra na terceira revolução industrial (a da microeletrônica), na qual o trabalho abstrato produtor de valor se tornou mero acessório da produção de mercadorias. 

Com a terceira revolução industrial as massas globais de extração de mais-valia e de valor global diminuíram substancialmente; assim como um organismo vivo desfalece quando falta sangue, o capitalismo mundial ora agoniza, com os países tidos como ricos sobrevivendo por aparelhos (refinanciando suas impagáveis dívidas públicas, emitindo títulos públicos insolváveis e moedas sem lastro, recorrendo, enfim, a expedientes que apenas postergam o inevitável). 

Por sua vez os países periféricos do capitalismo, por não terem as mesmas condições de sustentação artificial das nações ricas, são largados à própria sorte. 
Desertificação avança no Ceará

Tomemos como exemplos alguns fenômenos do Brasil, país que se situa a meio caminho entre as nações empobrecidas e as grandes produtores de mercadorias. 

As terras nordestinas, em grande parte, se tornaram improdutivas, seja por falta de níveis de produtividade que lhes permitam concorrer em condições de igualdade no mercado brasileiro, seja por causa das secas cíclicas, cada vez mais frequentes e intensas com o avanço do aquecimento global.  

Assim, as terras que antes eram dominadas pelos antigos coronéis do sertão, hoje estão simplesmente abandonadas, sendo comum vermos casas em ruínas onde antes moravam grandes contingentes de trabalhadores rurais. 

A reforma agrária no Nordeste se tornou factível porque a substancial redução do valor econômico das terras leva os grandes fazendeiros a almejarem a desapropriação barata pelo governo, para com isto poderem comprar uma casa nos centros urbanos.

Entretanto, tais terras, ocupadas pelos assentamentos rurais, em pouco tempo são também abandonadas, pelos mesmos motivos, ou seja, no capitalismo, ou se produz em grande escala, com equipamentos modernos e pouca mão de obra, ou não se inviabiliza a produção por falta de capacidade concorrencial de mercado.  

No sertão do Nordeste do Brasil até a economia de subsistência já não funciona, pois produzir um quilo de queijo com o leite de poucos animais, torna-se mais caro do que comprá-lo numa venda ou supermercado.   

Evidência recente da disfunção econômica é o que está ocorrendo com o sistema de transporte rodoviário. O custo do transporte de mercadorias está incompatível com o preço dos fretes, pois a elevação do valor deste último não pode ser repassada para o preço das mercadorias em razão da concorrência de mercado e da falta de poder aquisitivo de grande parte da população.
Setor de transporte de carga pressiona pelo aumento do frete

O resultado é a paralisia de todo o sistema de transporte, que pressiona pelo reajuste dos preços dos fretes mas esbarra na depressão de toda a economia. O quadro é de uma septicemia generalizada de todo o organismo econômico.

Outro sintoma é o atual estágio de violência urbana no Brasil, uma verdadeira escalada da barbárie social e da anomia. O problema não pode ser equacionado pelos sábios estudiosos da questão de segurança pública sem analisarem as questões estruturais que lhe são subjacentes, sob pena de ditas discussões se tornarem evasivas e/ou hipócritas. 

Muitos outros exemplos da famigerada inviabilidade econômica que incide sobre grande parte das atividades econômicas poderiam ser aqui citadas. Todas elas mais não são do que sintomas de fenômenos econômicos que denunciam um processo de falência, prenunciando um futuro colapso irremediável. Ai do povo, que será, como sempre, a principal vítima das agruras provocadas por tal processo! (por Dalton Rosado)
(continua neste post)
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