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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

COM BOLSONARO A BORDO, O TITANIC DA NOVA ULTRADIREITA LOGO DEVERÁ SER TRAGADO PELAS ONDAS DO BREXIT

mathias alencastro
BORIS PROPORCIONARÁ AOS POPULISTAS O
 SEU TÃO ESPERADO MOMENTO CATÁRTICO
A operação topete foi um sucesso. A imagem de Bolsonaro cortando o cabelo após cancelar uma agenda com um superministro francês correu o mundo. [Nota do editor: o chanceler francês Jean-Yves Le Drian respondeu com fina ironia à tosqueira de Bolsonaro, que cancelou na última hora a reunião entre ambos, indo cortar o cabelo no mesmo horário: “Todo mundo conhece as restrições próprias das agendas dos chefes de Estado. Ao que parece, houve uma emergência capilar..."]

Os europeus entenderam a mensagem e se preparam para engavetar o acordo com o Mercosul, de modo a preservá-lo da tempestade populista.

A reunião com o secretário de Comércio americano dias depois deixou aparente o objetivo da sabotagem presidencial: colocar o Brasil a postos para o brexit.

Aplicando a receita do confronto permanente com o parlamento, constituindo um gabinete de guerra e armando uma sensacional campanha midiática, Boris Johnson colocou os fanáticos do brexit em ordem de batalha.
"Posso sugerir-lhe um paraquedas?" / "Grato, a bandeira basta"

Os europeus já avisaram que não aceitarão a renegociação dos termos de saída. O impasse parece definitivo, e a saída radical do Reino Unido em 31 de outubro, inevitável.

Pouco importa se as previsões, que vão de uma década de recessão a uma pura e simples implosão do Estado, são calamitosas. Boris Johnson quer mudar o sentido da história e, ao contrário dos seus homólogos americano e brasileiro, ele tem os meios intelectuais para levar a cabo esse objetivo.

Prova disso, pouco mais de uma semana depois da sua chegada ao poder, o mundo entrou em TPB: tensão pré-brexit.

Bolsonaro e os seus geniais conselheiros acreditam piamente que a aventura do brexit é mais aliciante do que o mercado da União Europeia, com 500 milhões de pessoas.

Para tanto, invocam a boa palavra do vendedor de carros usados Steve Bannon, que sempre apresentou o brexit como o Big Bang de uma nova era comercial.

Na sua realidade paralela, no futuro a cooperação internacional será livre de restrições ambientais, sanitárias, e desprovida de qualquer resquício de ambição humanista.

Infelizmente a grande união comercial não passa de uma fantasia, por uma simples razão: a aliança americana seria o prego no caixão do Reino Unido.
Escoceses, que sonham em se tornar uma Escandinávia baratinha, preferem a independência ao desmantelamento do que resta do Estado social.

Para os norte-irlandeses, a perspectiva de vassalagem a Donald Trump é tão assustadora que a reunificação da ilha, dividida desde 1920, voltou a ser uma possibilidade.

O risco de embarcar num Titanic não assusta Bolsonaro, que continua investindo todo o seu capital político no alinhamento com os charlatões anglo-saxônicos, na esperança de que as recentes oferendas de Trump, como o acesso aos bastidores da OCDE e da Otan, não sejam migalhas, mas petiscos do que vem pela frente.

Obcecados com fronteiras e as suas ameaças imaginárias, os populistas chegaram ao poder demonizando o outro, seja ele latino, árabe ou africano.

Trump, porém, fracassou em construir um muro na fronteira com o México, Bolsonaro pouco mais do que arranhou a ditadura de Maduro, e Salvini tem sido impedido por corajosos juízes de deixar os refugiados se afogarem no Mediterrâneo.

Com o brexit, Boris proporcionará aos populistas globais o seu tão esperado primeiro momento catártico. Só isso basta para conquistar a adesão cega de todos eles. 
(por Mathias Alencastro)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

PORQUE NÃO DEVEMOS GOVERNAR, NEM ALMEJAR O PODER (4ª parte)

(continuação deste post)
c) a queda do PIB mundial, da massa global de mais-valia e de valor válido – Organismos mundiais insuspeitos de vinculação com a ordem capitalista anunciam a desaceleração da economia mundial. O Fundo Monetário Internacional, em informação dada pela sua presidente Christine Lagarde, anuncia (obviamente contra a sua vontade) a redução do PIB mundial em 2019 e 2020. 

China e Estados Unidos, locomotivas do crescimento econômico mundial por terem sido vitoriosos na guerra concorrencial de mercado, dão claros sinais de emperramento. 

A China acaba de divulgar uma queda no seu PIB em 2018, fixado em 6,3%, que é a menor taxa de crescimento econômico desde 1990. Este fenômeno vem se repetindo ano a ano na China, sendo tal desaceleração econômica atribuída à queda do consumo interno e às restrições tarifárias à importação de produtos chineses pela via de medida protecionistas dos países importadores (dentre eles, principalmente, os EUA).

Entretanto, faz-se mister afirmar uma obviedade. Embora crescer de um valor de 1 para 2,represente uma taxa de 100%, em termos de importância econômica global não significa muito. Mas, quando se chega a números altos e se quer manter a taxa de crescimento numa mesma proporção matemática por anos a fio, isto passa a ser impossível. 

Como a disputa concorrencial de mercado se dá dentro de um espetro de capacidade de consumo que não cresce na mesma proporção do desejo de expansão comercial dos produtores de mercadorias, a resultante óbvia é que em algum momento haja um redução da média anual de taxa de crescimento econômico de quem passou a abocanhar grande parte do mercado.

É o que está acontecendo com a China. De um PIB anual de US$ de 361 bilhões em 1990, a China passou a cerca de US$ 15 trilhões em 2017, ou seja, um aumento de cerca 4.300% em 27 anos. Agora, as taxas de crescimento vêm, exatamente, se reduzindo. 

Isto porque crescer permanentemente com as mesmas taxas registradas nos primeiros anos é algo impossível de ocorrer, seja porque o consumo de mercadorias é previamente estabelecido (ainda que se estimule o consumismo desenfreado), seja porque os países importadores se veem atingidos pela queda de suas produções industriais internas de mercadorias e passam a adotar medidas protecionistas.

O liberalismo econômico somente se mantém como doutrina econômica aceitável para quem está ganhando a guerra mercantil concorrencial, mas isso só vai até o limite em que a raposa do liberalismo deixa de comer as galinhas alheias e passa a enfrentar a fome. 

É o que está a acontecer com os Estados Unidos, que sempre pregaram o liberalismo de mercado e agora estão adotando medidas protecionistas contra importações, justamente porque a dinâmica do lógica do capital virou a chave contra seus próprios interesses, graças aos seus altos custos sociais de produção.

A desaceleração do crescimento econômico da China não é coisa de pequena monta para o sistema de crédito mundial, na medida em que sua colossal dívida pública e privada está num curva ascendente. O FMI afirma que atingirá 290% do PIB do país até o final de década e pode acarretar a insolvência até mesmo do spread financeiro incidente sobre ela.

Os EUA estão sendo obrigados a tomar medidas protecionistas para tentarem conter os prejuízos advindos da antiga feitiçaria que agora se voltou contra eles próprios, os feiticeiros.

O FED, o Banco Central Americano, aumentou a taxa de juros de 0,5% ao ano para 2,0% a.a. O que poderia parecer sintoma de recuperação econômica que visa frear o consumo, na verdade é o seu oposto, pois o que está na base desse comportamento é a necessidade de contenção da pressão inflacionária pela discrepância entre consumo de importados e capacidade de produção interna competitiva. 
Os títulos do tesouro estadunidense subiram de 2,0% ao ano para 3,1% a.a. em razão da necessidade de suprimento da crescente e estratosférica dívida pública daquele país, além de estarem pagando mais para títulos com vencimento em prazo menor. Isso é sintoma de desaceleração à vista.

A redução de impostos feita pelo presidente destrumpelhado causou um substancial aumento da dívida pública; isto representa maior endividamento por emissão de títulos públicos e moeda sem lastro, podendo gerar pressão inflacionária, principalmente se o dólar estadunidense deixar de ter receptividade no mercado internacional de câmbio. 

Todos esses fatores, somados à briga política para a obsessiva construção do muro na fronteira com o México que paralisou o pagamento das despesas públicas orçamentários do governo (o shutdown), estão contribuindo para uma previsão de queda do crescimento do PIB estadunidense para 2019.

Mesmo incluindo-se nesta análise a União Europeia, que abrange os países mais ricos da Europa, com significativa produção industrial, os prognósticos recentes são de redução gradual do crescimento do PIB: 2,1%, no fechamento de 2018, 1,9% em 2019 e 1,7% em 2020.

O PIB japonês, por sua vez, deverá crescer apenas 1,3% em 2019, o que será insuficiente para fazer face à sua colossal dívida pública e privada, que já equivale a mais de 200% do PIB.   

Argumentam os defensores do capitalismo que tais perspectivas de desaceleração econômica se devem aos riscos crescentes e interconectados, tanto no cenário doméstico quanto no externo. 

Mas, até aqui citamos apenas ameaças que pesam sobre as grandes locomotivas da economia planetária. Quando a questão se transfere para a periferia mundial, o quadro é bem mais grave, tendo em vista a pobreza reinante e renitente. 

Segundo a Cepal – Comissão Econômica para a América Latina, nosso continente deverá registrar, em 2018, um pífio crescimento de 1,3% no seu PIB, abaixo do 1,6% do ano anterior. As projeções são também decepcionantes para a grande Ásia (com exceção da Índia) e a África. 

As equivocadas análises superficiais das causas dos números negativos do crescimento da economia mundial atêm-se sempre a fatores políticos incidentes sobre a realidade, como se se pudesse manter a lógica capitalista viabilizada a partir de administradores públicos e executivos competentes, probos e sensíveis.

É que os analistas dos organismos econômicos internacionais, todos eles ligados à defesa da dinâmica do capital, jamais podem dizer o que agora afirmamos: 

A queda dos indicadores econômicos mundiais se deve a fatores econômicos inerentes às contradições irremovíveis da dinâmica da reprodução do capital (e não a fatores meramente políticos), os quais provocam a queda da massa global de extração da mais-valia e da massa global de valor válido produzido, problema que somente poderá ser resolvido com a sua superação e consequente substituição por outro modo de produção social.

Essa queda da economia mundial encontra explicação naquilo que Karl Marx vaticinou a partir dos seus estudos sobre a crítica da economia política, concluindo que o capitalismo já vivia à sua época a promoção da miséria social de grandes segmentos populacionais em contraponto à riqueza concentrada em bolsões de capitalização.

E que as viveria ainda mais no curso do seu desenvolvimento, graças às contradições básicas irremediáveis que se explicitariam com maior evidência, dentre as quais destacamos as seguintes: 
.
— ao mesmo tempo em que desenvolve a produtividade das forças de produção com o uso tecnológico cada vez mais avançado da tecnologia aplicada à produção de mercadorias (hoje com o uso da microeletrônica, então inexistente), reduz a um mínimo o valor das mercadorias, o que implica a redução da massa global de valor e de extração de mais-valia;
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— dispensa, em sua maior parte, o trabalho abstrato, único produtor de valor, o que provoca o desemprego estrutural e a eliminação completa da capacidade de compra de mercadorias por segmentos populacionais excluídos do processo de produção e redução da capacidade aquisitiva de outros pelos baixos salários (a escravidão direta, dos negros africanos e servos europeus, foi abolida para proporcionar salários e a existência de mais compradores de mercadorias), daí resultando uma redução da produção e venda de mercadorias ao nível global.

Basta uma análise superficial da composição do PIB dos países desenvolvidos, relativamente aos setores primário (agricultura e agronegócio, de baixíssima importância para a economia mundial) e secundário (indústria), únicos que contabilizam valor novo válido para a economia, para se inferir a inconsistência dos números fictícios, baseados em moeda sem valor, que compõem e flutuam nas suas economias artificiais.

[Quanto ao setor terciário, de serviços, ele apenas troca de mãos valor já existente, e que representa maior parte do PIB.]

É evidente que estamos todos vivendo sob a égide de um modo de relação social que se alicerça em fundamentos inconsistentes; então, tal qual um castelo de cartas quando submetido ao vento forte, o capitalismo está prestes a ruir. 

A nós cabe evitarmos as graves consequências bélicas para a humanidade e toda a vida planetária que podem advir da transição necessária para um novo modo de produção social.  (por Dalton Rosado) 
(continua neste post)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

QUAL UM FUTEBOLISTA QUE SE ARRASTA EM CAMPO NO FIM DA PARTIDA, O CAPITALISMO OUVE O GRITO DAS GERAIS: "PEDE PRA SAIR!'

dalton rosado
TRUMP E THERESA MAY SOFREM DURAS
DERROTAS; NACIONALISMO CONSERVADOR BALANÇA.
O líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, propõe um voto de desconfiança à primeira-ministra Theresa May.

A líder da Câmara dos Representantes no Congresso dos EUA, Nancy Pelosi, declara enfaticamente: "Não vamos construir o muro na fronteira com o México”. 

Renan Calheiros, campeão brasileiro de sobrevivência a processos por corrupção política, está sendo cotado para assumir a presidência do Senado, como representante da nova ordem moral prometida por Jair Bolsonaro

Rodrigo Maia, outra figurinha carimbada dos mesmos processos, tende a ser reeleito para o comando da Câmara dos Deputados, dentro da mesma perspectiva redentora.

Estes e outros recortes do noticiário atestam: está mais do que na hora de o pêndulo da ineficácia entre direita e esquerda parar de se mexer para não sair do lugar, desimpedindo o caminho para a afirmação de um novo modo de produção social.
O que podemos esperar destes expoentes da nova ordem moral?

Tal qual um futebolista que se arrasta em campo no fim da partida, o capitalismo ouve soar o grito das gerais: "Pede pra sair!". 

Atesta-o o sufoco por que passam os dois ícones da direita nacionalista mundial, Theresa May e Donald Trump, que chegaram ao poder incensados pelo pensamento conservador. Ambos acabam de sofrer derrotas acachapantes.

O Partido Democrata venceu as eleições parlamentares, em oposição ao Partido Republicano de Donald Trump, e deu um sonoro não à liberação de verbas para a construção do muro na fronteira com o México.

Theresa May, ao tentar obter a aprovação do acordo para ela proposto para a saída da Inglaterra da União Européia, amargou a maior derrota (432 x 202 votos) de um primeiro-ministro britânico desde 1920.

A questão que está colocada é a seguinte: diante da crescente insatisfação popular planetária em razão da perda de direitos e de capacidade aquisitiva das populações mundo afora, acirram-se os movimentos pendulares entre governantes de esquerda e de direita, sem que se altere o que está na base do problema: a insustentabilidade do moderno sistema produtor de mercadorias.

O capitalismo do século XXI expõe, de maneira dramática, e pela primeira vez com tal intensidade, o atingimento daquele limite histórico previsto por Marx ao estudar com profundidade a dinâmica da lógica de produção do valor: o momento no qual, a partir de suas contradições internas, se tornaria inviável como forma de relação social minimamente sustentável.

Podemos incluir no rol das decepções populares com governos conservadores de países expressivos a França de Emmanuel Macron e a Argentina de Maurício Macri. Que o digam os coletes amarelos em Paris e os movimentos de rua em Buenos Aires.  

O governo do Boçalnaro, o ignaro, pelo seu primarismo e confusão conceitual num país já devastado pela sua condição de periferia de um capitalismo cada vez mais circunscrito a ilhas de propriedades artificiais, caminha para uma situação ainda pior do que aquela que vimos amargando nos últimos anos.
       
Há uma conexão entre todos esses pendulares, qual seja a inconsistência de medidas políticas dentro da imanência capitalista que não têm o condão de superar as dificuldades, justamente porque elas advêm da lógica que embasa essas mesmas medidas e proposições.

Os conservadores se aferram às suas ideias envelhecidas por apego ao poder e aos seus encantos; o povo vota a cada eleição em candidatos de oposição na crença ingênua de que o problema se restringe à boa ou má governabilidade. 
Satanizar socialistas acaba com a crise

O problema maior da ultradireita nacionalista, xenófoba, racista, misógina, fundamentalista religiosa, e o diabo que a parta, é que, por mais que tente transferir para os ombros dos comunistas a culpa da debacle capitalista e queira prender e calar as vozes conscientes (tudo isso democraticamente e dentro da lei), ela não pode conter a força da avalanche que está prestes a romper o dique e inundar de esperança a humanidade. 

O problema maior da esquerda está no fato que se acostumou às benesses das migalhas de poder político-estatal que o chamado estado democrático de direito (burguês, é claro) lhe oferece, perdendo assim a conexão com os verdadeiros anseios de liberdade emancipacionista e se prestando ao infame papel de tentar administrar o que é inadministrável (até por eles mesmo!s) passando de força anticapitalista a serviçal menor desse mesmo capitalismo.

A nós cabe o papel de denunciarmos os insolúveis problemas de base que decorrem de um modo de produção que se tornou anacrônico, e demonstrarmos que foi vã toda a nossa luta, com a sapiência da teoria marxiana da crítica do valor e com as muitas batalhas travadas na briosa perspectiva (apesar dos repetidos insucessos) de fazer subir a pedra até o topo da montanha, como no mito de Sísifo. Temos de honrar o exemplo de tantos mártires tombados ao dedicarem seus melhores esforços à emancipação humana. 

É chegada a hora de demonstrarmos ao povo que ele precisa de um novo modo de produção social cujo conceito básico é produzir socialmente sem valor de troca, e apenas para satisfazer necessidades de consumo. Simplesmente. (por Dalton Rosado)
Observação: o Dalton recomenda aos leitores, no espírito do artigo acima,
que ouçam esta música por ele composta, na interpretação do Gomes Brasil.

O PRESIDENTE BUFÃO E O MURO DA INSENSATEZ

Trump teve de servir fast-food a campeões universitários
O filósofo Jean Paul Sartre escreveu um conto chamado O muro, no qual narra angústias de militantes presos na revolução espanhola. A trama centra-se na consciência, por parte de um dos prisioneiros, de que está próxima sua morte – mediante fuzilamento, atado a um muro. 

Assim, o muro se torna uma obsessão para o personagem, que a partir dele reflete sobre o que resta de sentido em sua vida. Diante do muro, tudo perde validade, até mesmo sua preciosa causa revolucionária, pela qual tanto lutara. 

Lembrei-me disto quando o shutdown do governo dos EUA entra em sua terceira semana. Para quem não sabe o que isto é, explico sucintamente.

Como no Brasil, o orçamento público dos EUA precisa ser aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente a fim de ser efetivo durante o ano fiscal. Na terra do Tio Sam, quando não ocorre a aprovação do orçamento, o governo é obrigado a conter seus gastos, pois não houve a liberação de recursos para serem usados. Neste momento, o governo literalmente fecha, ou seja, entra em shutdown 

O fechamento do governo significa o não pagamento de funcionários e de fornecedores, além do cancelamento de investimentos, compras ou qualquer outra atividade em que haja movimentação financeira. Afeta desde o cafezinho das repartições até o funcionamento da Suprema Corte. Trata-se de algo para lá de sério: é o Império paralisado! 

Pois bem, algo tão grave só poderia ocorrer em caso de extrema gravidade, convulsão social ou guerra. No entanto, Donald Trump, o presidente neofascista dos EUA, resolveu impor um shutdown porque o congresso, agora dominado por democratas, não quer liberar verbas para a construção do muro na fronteira com o México. 

O tal muro foi promessa de campanha do presidente bufão, o qual, na época, dizia que a conta seria enviada aos mexicanos. Cansado de esperar pelos hermanos, resolveu transferir o ônus aos próprios compatriotas e agora jura que não vai aprovar o orçamento enquanto não for dado o dinheiro para o seu muro. 

Chega a ser cômico o país mais poderoso do mundo estar paralisado por conta de um motivo tão ridículo, mas parece este ser o estúpido fim do auge da civilização burguesa na história. 

Para além das motivações específicas de Trump – média com seu eleitorado, fanatismo com promessa de campanha, apego em demasia ao personagem, etc. – há a situação de um país hoje tão fóbico a ponto de infligir um dano a si mesmo para conseguir isolar-se do resto do mundo. 

O muro de Trump, assim, parece muito com o muro do conto de Sartre: é o horizonte último, diante do qual todo o resto perde o sentido. 

A racionalidade burguesa, propugnada na filosofia pragmatista dos estadunidenses William James e Charles Peirce, cai por terra e dá lugar ao existencialismo decadentista de Trump: o muro ou nada. (por David Emanuel de Souza Coelho)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A ESCALADA DA BARBÁRIE E DO CAOS VAI INTENSIFICAR-SE CADA VEZ MAIS DURANTE ESTA FASE AGÔNICA DO CAPITALISMO

dalton rosado
A BARBÁRIE NO CEARÁ E SUA
CONEXÃO COM O BRASIL E O MUNDO
.
"O fetiche do capital é feito pelos homens e também
pode ser por eles eliminado. A barbárie não
é inevitável" (Claus Peter Ortlieb)
O estado do Ceará, principalmente a periferia de Fortaleza, está parcialmente paralisado(a). Há cerca de sete dias vêm se avolumando os ataques ao comércio, às empresas de serviços, às indústrias, aos órgãos públicos, delegacias, bancas de revistas, terminais de ônibus, agências bancárias, etc.

Espalha-se o lixo na cidade por conta do temor dos carros de coleta de serem incendiados e os motoristas agredidos, como já houve casos; e o transporte urbano entrou em paralisia parcial. 

Os moradores dos bairros periféricos são os mais atingidos, enquanto que na parte rica da cidade observa-se uma relativa tranquilidade, pois o trânsito é congestionado e bem mais policiado por empresas privadas de segurança e filmagens, o que intimida os bandidos. A barbárie é seletiva, atingindo com intensidade bem maior os de sempre.

O Ceará é hoje a explicitação mais evidente de um fenômeno nacional: a metástase do crime como realidade social bárbara diante de uma economia segregacionista, parasitária e de um Estado impotente. É o capital se subsumindo à impraticabilidade de sua normal funcionalidade social.

Por sua, vez, lá nos Estados Unidos do presidente destrumpelhado também se observa uma significativa paralisia, principalmente em Washington, mas também em todos os serviços públicos federais existentes no país, por conta da não aprovação do orçamento público e da relutância do Congresso em aprovar verbas para a construção do infame muro entre a riqueza e a pobreza.
Faces da mesma moeda: a violência nas ruas de Fortaleza...

O que há em comum nestas duas situações é a miséria social interna ou dos vizinhos.

No Ceará, como acontece de maneira generaliza no Brasil, formou-se um contingente de bandidos integrantes do chamado crime organizado, com armas potentes, dinheiro, estrutura hierárquica, recursos de comunicação e capacitação para práticas criminosas como jamais havia ocorrido. 

Os criminosos dão ordens a uma população amedrontada que fecha estabelecimentos comerciais, industriais e se tranca, em pânico, nas suas residências.  

Isto ocorre num país que tem 12% de sua mão-de-obra economicamente ativa desempregada e 50% subempregada; cujo Estado Federal é concentrador de impostos e está falido; que paga duas Petrobrás por ano de juros e quase outra Petrobrás de déficit na Previdência Social.    

Os Estados Unidos, que têm alto nível de empregabilidade e padrão salarial bem acima da média mundial, quer se fechar na sua redoma de prosperidade artificial: seu presidente pretende construir muros nas suas fronteiras terrestres do sul como forma de evitar a entrada dos coitadezas da América Latina.

O imbróglio do veto parlamentar aos gastos com a construção da muralha do México, orçada em U$$ 5 bilhões, é o pomo da discórdia que paralisa a aprovação do orçamento público estadunidense.
...e o lixo se amontoando nas ruas de Nova York.
O impasse continua mesmo após a fala do presidente Trump em cadeia de televisão nacional, tornando a população estadunidense refém de uma política de exclusão social fronteiriça. A política demonstra toda a sua incapacidade sobre a economia. 

O ponto comum da paralisia que ocorre no Ceará e nos Estados Unidos, além da impotência da política em resolver problemas, é a pressão ora exercida por grandes contingentes populacionais marginalizados pela lógica de exclusão do capital.

Vivemos a fase de incompatibilidade absoluta entre forma (o modo de produção) e conteúdo (a necessidade de provimento das necessidades de consumo da sociedade como um todo).   

A barbárie, em qualquer ligar do mundo, é inconsciente da natureza e das soluções para o mal social que lhe é subjacente. Trata-se de um modo de agir sem objetivo teleológico social definido, senão a satisfação de necessidades primárias não atendidas socialmente. 

Quem tem fome quer, antes de mais nada, comer, além de estimular outros comportamentos menos justificáveis. 

O crime, como regra social, busca no próprio crime a sua gênese constitutiva; é uma forma de ação tresloucada que extrai da sua prática o alimento vital da própria sobrevivência. Não tem objetivo de mudança social, mas apenas da intensificação da preservação da própria prática criminosa como meio de perpetuação do seu modus operandi.
A última esperança do capitalismo já se dissipou...

Não é articulação de pensamentos políticos conservadores ou progressistas, mas apenas a explicitação violenta da falência de um modo de relação social que se exauriu por seus próprios fundamentos e está a reclamar com urgência uma alternativa alternativa que somente pode ocorrer a partir de modo de produção capaz de satisfazer necessidades de consumo e estabelecer regras de convivências equânimes, até mesmo aos agentes inconscientes.

Engana-se o ministro Paulo Guedes quando afirma reiteradamente que o capitalismo redimiu metade da população mundial da miséria. É justamente o contrário que está a ocorrer.

É certo que o saber adquirido pela humanidade foi benéfico em muitos aspectos, possibilitando, p. ex., uma maior longevidade humana. Mas ainda que se queira atribuir ao capitalismo uma alavancagem desse saber como resultante da melhora de vida e da busca da melhora da produção de mercadorias, isto apenas corresponde à resultante boa (e contraditória) de um modo de relação social ruim. 

Tal como na guerra (que é um atestado eloquente da subalternidade da racionalidade humana ao que de pior o ser humano pode produzir e atingir, e na qual se impulsionam descobertas premidas pela necessidade), o capitalismo também contribuiu para a aquisição do saber, mas ambas as ocorrências são a expressão da negatividade social, e é justamente tal contribuição ao saber por vias oblíquas que prenuncia o seu fim histórico.  
...condenando a um fracasso anunciado a faina de Guedes
A redenção da ignorância exige a superação da forma de relação social capitalista e não a sua intensificação liberal ortodoxa, como quer a equipe econômica do novo governo.

Se o Brasil praticou um capitalismo burro, corrupto, burocrata, até ingênuo do que diz respeito às regras leoninas de mercado mundial, isto não significa que um capitalismo liberal, esperto, competitivo, vá nos redimir da barbárie que se intensifica em escala mundial (vergastando mais duramente os países periféricos do capitalismo, como o nosso).   

Tanto o capitalismo burro da burocracia estatal quanto o capitalismo pretensamente inteligente do laissez-faire são igualmente danosos para a humanidade, e isto a história já provou. (por Dalton Rosado)
Observação: o Dalton recomenda aos leitores, no espírito do artigo acima,
que ouçam esta música por ele composta, na interpretação do Gomes Brasil.
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