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quinta-feira, 19 de setembro de 2024

A ESQUERDA NO APARELHO DE ESTADO BURGUÊS?

 


Fizemos duas grandes revoluções marxista-leninistas e anticapitalistas - na Rússia em 1917 e na China em 1949 - em nome da busca - projeto de transição, grifamos - para uma sociedade comunista na qual não houvesse estado, partidos políticos, valor e extração de mais valia pelo trabalho abstrato, e nem trabalhador, e instituíssemos uma sociedade sem classes sociais.  

Tais revoluções ocorreram em dois países gigantescos territorialmente, que puderam se fechar intramuros e sobreviver isolados da economia mundial de mercado graças à potencialidade de seus recursos naturais.  

Se é verdade que tais revoluções, com seus isolamentos, conseguiram promover um resgate da miséria secular a que eram submetidos seus povos em regimes semifeudais, praticando um capitalismo de estado com mercado monopolista e propriedade estatal dos meios de produção, cumprida essa etapa, o uso do cachimbo entortou a boca, ou seja, desviaram-se dos objetivos iniciais para aprofundarem práticas capitalistas abrindo-se à economia de mercado agora pretendendo se constituir como bloco capitalista em disputa hegemônica com o ocidente, sob a forma política de regimes autocratas.   

Como se pretender que a Rússia de hoje, com pouca densidade demográfica e governada por autocratas que privatizaram as empresas estatais e criaram alguns bilionários como seus donos, pretendendo ser um império através de guerras de conquistas - caso da invasão da Ucrânia, entre outras inciativas belicosas - seja um bom exemplo a ser seguido?!

A China tem uma história parecida com a da Rússia - com o diferencial de uma população 10 vezes maior que essa última - vez que em 1949 fez a revolução em nome do marxismo-leninismo sob Mao Tse Tung que se alinhou com o modelo de Josef Stalin seguindo o mesmo caminho do fechamento intramuros e saindo da miséria secular dos mandarins chineses. 

Mas quem não rompe com as categorias capitalistas termina por se subordinar a elas. Depois da morte do seu condutor revolucionário, e pelo revisionismo de Deng Xiao Ping, seu sucessor em 1976, a China promoveu a grande virada para o capitalismo de mercado, tornando-se um país altamente industrializado e urbano, melhorando a renda per capita do seu povo - que ainda é baixa, pouco maior que a brasileira, num país que é o segundo maior PIB mundial  (USD 12,9 mil) e a nossa em USD 8,9 mil -, e agora, por conta dessa opção, tem que lidar com os problemas próprios do capitalismo decadente de hoje cujo desfecho será turbulento.  

A China se tornou um polo capitalista do qual tenta ser a locomotiva a partir dos BRICs e de uma moeda que desloque a centralidade do dólar estadunidense tentando cooptar países para seu eixo, a exemplo do Brasil de Lula, que a ela se alinha, tentando mudar de patrão. Com essa estratégia, ao invés de caminharmos para uma sociedade comunista, estamos a prenunciar um cataclisma econômico-financeiro mundial cuja antevéspera são os anúncios diários de terceira guerra mundial com potencial de aniquilamento da espécie humana. Uma lástima! 

Ora, se após uma vitoriosa revolução em nome do marxismo-leninismo, que empoderada adotou uma nova e estatizante formação política, pretensamente anticapitalista e operária, mas conservando nas suas práticas de produção todas as categorias capitalistas tivemos o resultado que conhecemos, o que podemos dizer da perspectiva de uma administração pela esquerda do aparelho de estado eleito e gerenciado sob regras constitucionais burguesas, republicanas, e num momento de depressão econômico-financeira mundial? 

Se a administração política do aparelho de estado sob o capitalismo fosse capaz de promover minimamente o bem-estar social do povo mundo afora, e não apenas nos países ilhas de hegemonia do capital, a direita, que conhece com experiência secular esse mister, jamais seria desapeada desse poder político serviçal do próprio capital; eles fracassam, apesar de todo o apoio nacional e internacional de mercado, porque a equação capitalista é irresolúvel.  

Quando a esquerda administra os aparelhos burgueses de estado, e dentro da ordem constitucional burguesa, sejam eles municipais, dos estados membros, ou da união, não apenas se prestam a administrar a crise do capital mas, também, terminam sempre por se desgastar perante o povo, que passa a descrer no seu discurso de emancipação e atendimento eficaz de suas carências básicas.

Os acomodados adeptos da participação política da esquerda sob regras constitucionais burguesas, haverão de argumentar que se assim não atuarmos, tudo ficaria muito pior. Assim tem sido o caso da esquerda que se obriga a conviver com as constantes ameaças da direita no Brasil e no mundo, que tem recebido apoio popular ouvindo as suas falácias retrogradas como se representasse o novo desconhecido. A orientação e dedução passadas é de que se não entrarmos no jogo vamos perder por WO para o inimigo. 

Ora, tal argumento conspira contra ele próprio porque como vamos poder superar o mal capitalista atuando sob seu modo de produção social e exploração humana e na administração política de sua crise, por pretendemos atuar de modo mais humanizado num regime desumano por natureza e por temermos uma administração política de direita sem a menor sensibilidade humanista? 

Tal opção representa uma bem-intencionada alternativa fadada ao fracasso, e isso se não for apenas a resultante de um acomodado faz-de-conta de oposição capitalista para a obtenção das migalhas financeiras e de cargos na administração pública como forma de sustentação de um projeto político que quer mudar alguma coisa para que tudo permaneça da mesma forma como está.  

odo governante, por mais autoritário que seja, se preocupa com o grau de sua aprovação e aceitação governamental, porque sabe, desde há muito, que há que se ter pão e circo numa quantidade mínima de sobrevivência dos súditos para a sua própria manutenção no poder, sem precisar da força das armas, que não hesitará em usar caso necessário.  

Não se trata, portanto, de uma questão de boa ou má-intenção das partes envolvidas no processo político-administrativo do aparelho de estado burguês, mas da submissão implícita à lógica autotélica do valor que se transforma em capital e que necessita de acumulação contínua para fazer valer a sua credibilidade enquanto forma abstrata de controle da riqueza material por ele apropriada - instituto jurídico da propriedade das mercadorias - de modo a subjugar os que a administram, seja de modo privado ou estatal.   

Para aqueles que querem transformar o status quo atual a pergunta que não quer calar é: como mudar esse jogo?  

A primeira coisa que se deve ter é consciência da causa do problema para se conjecturar a sua solução. Nenhum médico cura e erradica o mal do paciente sem analisar a doença e sua causa. Aqui a causa da doença social é o modo de produção capitalista que forma o modo político à sua semelhança e interesse. Não se desconstrói o segundo sem se desconstruir o primeiro. 

Nada mais revolucionário do que o saber. Bastaria que os trabalhadores fossem conscientes das suas condições de artífices do capital que os subjugam e parassem os seus braços, para que em pouco tempo ruísse o majestoso e presumivelmente indestrutível edifício do capital e de suas instituições.  

Que tal começar pela negação do voto enquanto canal de acesso às instituições burguesas, e a elas mesmas, que sustentam o capital?  (por Dalton Rosado) 

sábado, 15 de abril de 2023

CONSEGUIRÁ O PARTIDO "COMUNISTA" CHINÊS DOMAR O CAPITAL?

 


Sempre fico a me perguntar se Mao Tse Tung, que tinha Josef Stalin como exemplo de pragmatismo pretensamente comunista a ser seguido, diria ao constatar que sua revolução armada contra os nacionalistas de Chiang Kai-Shek, ao invés de superar as categorias capitalistas, iria aprofundá-las no capitalismo mais selvagem do planeta Terra e com isto solapar o próprio capitalismo sob o qual o país dos Mandarins e de Deng Xiaoping se desenvolveu desde 1976. 

A nova rota da seda chinesa, ou belt and road iniciative, na tradução em inglês, é uma tentativa do capitalismo chinês de sobreviver tentando alcançar uma hegemonia capitalista mundial para fazer face ao esperado e presente emperramento do crescimento do seu Produto Interno Bruto, causado pelo inevitável limite interno da expansão da forma valor, e com isto poder tornar solvável a sua proibitiva dívida pública e privada que ascende a quase 300% deste indicador econômico sobre o qual incidem juros de 2,75% a 3,00% ao ano em dólar dos Estados Unidos. 

Para pagar os juros de sua dívida colossal, calculada em 51,8 trilhões de dólares, que corresponde a cerca de US$ 1,5 trilhões, ou R$ 7,5 trilhões, ou seja, valor correspondente a pouco mais do PIB anual do Brasil, há que haver lucros empresariais capazes de aguentar a remuneração ao capital internacional globalizado.  

Mao Tsé-Tung

A economia chinesa - como de resto a economia no resto do mundo - que parece portentosa em termos econômico, na verdade é um grande Titanic indo ao encontro do iceberg capaz de furar o seu casco e fazê-la naufragar irremediavelmente. 

A China procura expandir os seus negócios capitalistas nas regiões a partir da Rússia, na Ásia Maior e Menor e na América latina - como agora com o Uruguai, Argentina e Brasil - como forma de criar laços capitalistas tão volumosos que possam causar uma relação de recíproca dependência capitalista mundial ao sistema financeiro internacional capaz de inverter a cara exigência de remuneração cobrada por este mesmo capital bancário globalizado à própria China - enquanto o Japão rola sua dívida com juros negativos, à China são cobrados juros extorsivos. 

Paradoxalmente, porque o capitalismo não sobreviverá ao avanço tecnológico aplicado à produção de mercadorias, a China vem desenvolvendo avanços técnicos nas áreas da comunicação eletrônica e robótica que ao mesmo tempo em que lhe oferece grandes oportunidades de negócios, cria a substituição acelerada e substancial do trabalho abstrato, único produtor de valor e base de sustentação da economia capitalista. 

Como dizia Karl Marx, o capitalismo cava a sua própria sepultura, e os chineses, na sua tentativa desesperada de sobrevivência dentro da lógica capitalista, ao invés de tentar superá-la, estão cada vez mais dentro do Titanic, e continuam a tocar a música antes do naufrágio, tal como fizeram os músicos naquela tragédia marítima do início de século 20.  

A velha China agrícola deu lugar a um país industrializado e urbano, com os ganhos e prejuízos inerentes ao processo de desenvolvimento do capital e de sua lógica autotélica. De um modo geral, a milenar miséria chinesa da época dos Mandarins deu lugar a uma nova configuração de classes sociais próprias ao capitalismo no qual se formam ilhas de riqueza rodeadas de pobreza.  

A renda per capita chinesa é hoje equivalente à renda per capital brasileira, situada em torno de US$ 12,500,00, com alguns milhares de bilionários empresariais em contrate com a vida de operários que trabalham num regime de produção de valor próprio à rígida disciplina e obediência cultural chinesa à hierarquia administrativa, com baixos salários que propiciam a competitividade dos seus produtos na guerra concorrencial da economia de mercado internacional.  

Para entrar no mercado mundial, a China desenvolveu o aprendizado do saber tecnológico destrinchando as estruturas de hardwares e softwares para somente depois, pelo uso reiterado da imitação, chegar a uma produção tecnológica mais esmerada a partir de sua própria criatividade. Ou seja, praticou a chamada engenharia reversa, se apropriando da produção tecnológica de países mais adiantados, como os EUA e as nações da Europa. 

O envio de chineses para universidades do exterior - Deng Xiaoping é fruto do início desse processo de apreensão do saber fora da China, já que estudou em Moscou em 1926, antes da revolução chinesa a qual se integrou - foi e ainda é parte deste processo cognitivo industrial que tem proporcionado o desenvolvimento em diversos campos do saber, como nas seguintes áreas: 

- da tecnologia da informação cibernética e de satélites - adaptadas à terceira revolução industrial microeletrônica, inclusive com a criação do LIFI, um novo tipo de comunicação superior ao WIFI; 

- da biotecnologia, com a indústria farmacêutica - a vacina contra a civid19 é bom exemplo desta última faceta industrial chinesa; 

- da produção de energias limpas - eólica e fotovoltaica - e mecânica - os carros elétricos chineses. 

Deng Xiaoping
Este processo de engenharia reversa já ficou para trás, dando lugar ao avanço da criatividade industrial chinesa no campo da telecomunicação, que em muitos casos supera aquela conhecida no mundo capitalista ocidental.  

A China investiu em pesquisa tecnológica cerca de US$ 344 bilhões e, para se ter uma ideia do que isto representa, basta considerarmos que a União Europeia e seus 28 países investiu cifra inferior à chinesa, segundo dados de 2014 da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicos).

Mas a China, em que pese os seus esforços ecológicos, ainda é um dos maiores emissores de CO2 na atmosfera, fato que se reflete na poluição atmosférica em várias das suas cidades industriais. Seu padrão salarial baixo em termos per capitas não permite à população média a aquisição da casa própria face aos juros altos, o que tem causado graves problemas no setor imobiliário, como ocorreu com a quebra da gigante Evergrande, segunda maior empresa imobiliária do país, e dos imensos conjuntos habitacionais desocupados e construídos com dívida imobiliária, e que estão à espera de compradores habilitados ao pagamento da aquisição que não aparecem.  

A China se expande economicamente com suas exportações não apenas nos setores antes referidos, mas também na construção de infraestrutura como estradas, usinas elétricas e grandes obras da construção civil, como se pode inferior dos seus investimentos em obras na África, seja a partir de empresas chinesas diretamente ou por empresas locais financiadas pelos chineses.  

Este é um espaço de exploração capitalista que vinha sendo modestamente perseguido pelos governos Lula e Dilma e que foram sobrestados pelos escândalos da Lava-jato envolvendo empresas e agentes públicos daqui e de lá.  

A guerra monetária capitalista está em curso, pois quem detém hegemonia de moeda fiduciária na economia capitalista dita as regras do jogo. Como sabermos, desde a cúpula internacional de Bretton Woods, em New Hampshire, realizada em 1944, com a segunda guerra mundial já definida em favor dos aliados e com os Estados Unidos com sua infraestrutura industrial incólume, o dólar estadunidense foi considerado como moeda internacional.  

 Até 1971 as moedas eram lastreadas em ouro, mas naquele ano passaram a se lastrear apenas no dólar estadunidense. Entretanto, como as moedas hoje são fiduciárias, a emissão desvinculada do valor que deveria representar é a causa de termos hoje uma grande e proibitiva soma de circulação de moeda sem valor mundo afora, que não causam inflação aos seus emissores, mas provocam uma anomalia de reservas cambiais sem substância de valor que mais cedo ou mais tarde provocará um colapso internacional financeiro na hora da verdade. 

Xi Jinping 

A dívida mundial crescente dos governos já atinge cerca de US$ 300 trilhões, conforme dados do IIF – Institute of International Finance -, e representa cerca de 225% do PIB mundial, tornando-se impagável se considerarmos os níveis de capacidade de geração de lucros dos países devedores.   

Tal fenômeno representa um impasse econômico sem precedentes e acarretará, num futuro próximo, um colapso monetário quando, tanto as reservas cambiais acumuladas pelos países, como as suas dívidas, representarem tão somente para os credores rentista um título de crédito de um devedor falido e insolvente.  

Esta bomba vai estourar no colo dos rentistas e do sistema financeiro internacional, que já demonstra fragilidade com a quebra de alguns bancos, vez ou outra,  os quais ainda estão sendo passíveis de socorro, mas que quando a avalanche ocorrer, isso não será mais possível.  

A China tem reservas monetárias em dólar estadunidense num montante de cerca de US$ 3 trilhões, para uma dívida de cerca de US$ 50 trilhões, o que significa que precisa gerar lucros para conservar a credibilidade de seu crescimento econômico e sua capacidade de solver o serviço da dívida que, como vimos, é equivalente a cerca de 50% de todas as suas reservas cambiais.  

Entretanto, tanto as reservas cambiais chinesas como sua dívida, nada significarão para a economia global no momento do colapso final claramente previsível, mas escamoteado pelo otimismo infundado dos analistas econômicos atrelados à ordem capitalista de onde tiram seu sustento.    

Assim, a investida chinesa de criar uma vida monetária paralela ao dólar estadunidense, a partir do yuan, ou  renminbi (RBM), nome oficial da moeda chinesa, é algo vital para sua sustentabilidade e independência financeira, bem como para o seu crescimento a partir de relações com países que adotem negociações sob tal critério financeiro.  

Registre-se que o crescimento do PIB chinês anda enfraquecido por conta de vários fatores conjunturais a pandemia foi um deles -, mas tem como principal fator a incapacidade de consumo que é delimitada pelo poder de compra da população mundial e pela própria necessidade de consumo desta: ninguém usa dois sapatos por vez.  

A necessidade de crescimento da produção de valor obedece a um critério ad infinitum, mas a capacidade de consumo é definida pelos fatores acima expostos, e isto se constitui como uma equação irresolúvel para o mundo capitalista e seu dilema existencial lógico.   

Não é por menos que a China tenta atrelar as suas relações financeiras ao China Interbank Payment System, alternativa chinesa ao ocidental Swift, que conecta milhares de instituições financeiras mundo afora, para assim livrar-se, pelo menos num primeiro momento, dos grilhões monetários do ocidente capitalista com o qual disputa hegemonia usando as mesmas armas.  

Comparado aos citados líderes, Lula é um anão
mas o Brasil possui sua importância.

O governo brasileiro acaba de assinar acordo para fazer parte deste sistema chinês e adotar a moeda chinesa como forma de pagamento de suas exportações e importações, o que deverá incomodar os Estados Unidos, apesar de que isto não representa muito financeiramente, se considerarmos que o dólar estadunidense corresponde a 88% das transações cambiais do mundo e o Brasil é peixe pequeno neste campo da riqueza abstrata, ainda que seja importante geopoliticamente.    

Lula, tal como a China, tenta desesperadamente encontrar alternativas para o crescimento econômico sem o qual sua popularidade desabará, possivelmente implicando no médio prazo um fortalecimento da elitista direita brasileira que demonstrou força no último pleito eleitoral.  

Mas o capitalismo é uma guerra concorrencial de mercado e nele não há parceiros generosos, mas sempre alguém que quer levar vantagens, se aproximando mais da famosa Lei do Gerson, da antiga propaganda, e num mundo em depressão a melhor alternativa seria uma nova relação social, sem a hipocrisia das relações internacionais capitalistas, mas com a solidez de relações sociais contributivas transnacionais e ecologicamente sustentáveis. 

Os líderes mundiais buscam no incremento da forma valor a solução dos seus problemas tal qual um viciado busca na droga o alívio do mal que o aflige.  Assim, querer uma virada de chave brasileira seria querer demais de um Lula, que tal qual Xi Jinping, acredita na possibilidade da prosperidade linear capitalista.  

O pior cego é o que não quer ver. (por Dalton Rosado

segunda-feira, 20 de março de 2023

152 ANOS APÓS A COMUNA DE PARIS, NOVAMENTE A FRANÇA E O MUNDO ESTÃO SUBLEVADOS CONTRA O CAPITALISMO

 


   Escrevo este artigo em homenagem aos revolucionários que tombaram no dia 18 de março de 1871 e dias seguintes sob as balas e sabres das forças militares regulares francesa e prussiana que, mesmo estando em guerra, juntaram forças contra a Comuna de Paris, há exatos 152 anos.

Aprendi, nas minhas leituras iniciais do Karl Marx da juventude, e corroborado pelos ensinamentos políticos revolucionários de Vladimir Ilyich Ulianov, cognominado Lenin, que a classe operária era o único e verdadeiro sujeito da revolução

A Comuna de Paris foi a primeira experiencia de revolução para derrubada do capitalismo e ocorreu quando Marx ainda estava vivo. Tratou-se de um levante popular das massas oprimidas pela fome da nova ordem capitalista, sem uma estrutura insurrecional capaz de dominar a emergente burguesia francesa e se afirmar enquanto poder instituído. 

A França vivia uma crise em face do declínio do poder bonapartista e da derrota na guerra franco-prussiana, pari passu à efervescência dos ideais socialistas - marxistas, anarquistas, socialistas utópicos, etc.-, com forte influência entre os insurretos do proletariado unido em torno da AIT – Associação Internacional dos Trabalhadores

O governo da Comuna de Paris durou apenas dois meses - de 18 de março a 28 de maio de 1971 - e foi sufocada pelo exército francês reagrupado e ajudado pelos prussianos, que então tinham domínio político-militar sobre os derrotados na guerra.   

A história nos mostra que o capitalismo de então ascendente já detinha forças político-militares e institucionais para conter um levante de orientação comunista. 

46 anos depois, em 1917, inspirado nos preceitos marxistas tradicionais e na vasta obra doutrinária de Lenin, os bolcheviques agrupados politicamente numa Rússia devastada pela primeira guerra mundial, onde imperava a fome no decrépito regime czarista, e sob uma tenacidade bélica proletária, instituiu o primeiro regime governamental marxista-leninista do Planeta. 

É inegável a contribuição russa na segunda guerra mundial para a contenção do regime ultraconservador e genocida nazifascista, na qual se calcula que morreram cerca de 27 milhões de russos e a humanidade deve ao estoicismo deste bravo povo eslavo. 

Mas a Rússia, desde antes, e sobretudo após a segunda guerra mundial, agora como União Soviética, com seu capitalismo de estado, ao invés de caminhar no sentido da própria superação enquanto relação capitalista de estado, foi contaminada pela lógica do capital preservada e involuiu.

      Ao invés de superar uma a uma as categorias  capitalistas então vigentes - forma valor expressa no dinheiro e produção de mercadorias, e até com concessão privatista como a NEP (Nova Política Econômica)  adotada como medida emergencial e preservada após a morte de Lenin em 1924, mercado, partido político, trabalho produtor de valor com extração de mais-valia estatal, etc., -, preservou-as e fortaleceu um poder central estatal dissociado das bases que provocou a degeneração dos primados comunistas até  se quedar ao expansionismo de economia de mercado. 

Vladimir Putin é o resultado mais eloquente desta degeneração começada por Josef Stalin.   

A China e sua revolução de 1949, sob Mao Tse Tung, com sua adesão ao stalinismo, trilhou o mesmo caminho que se acentuou com Deng Xiao Ping, o qual abriu o país à economia de mercado e transformou este o gigante asiático numa potência capitalista em números nominais, mas não em termos relativos, vez que a maior parte da sua população chinesa padece sob baixos salários e condições degradantes de trabalho.

Tanto a Rússia como a China, além do mundo capitalista ocidental, se veem hoje às voltas com a falência do capitalismo por conta dos seus próprios fundamentos, e a população mundial está atônita com a perda de poder aquisitivo causado por um processo inflacionário decorrente da emissão de dinheiro sem valor e desemprego estrutural que apavora a juventude que está a dizer como nos versos de Belchior: o sinal está fechado pra nós, que somos jovens

Toda esta tragédia se soma concomitantemente a um processo de aquecimento global responsável por desastres ecológicos extremos mundo afora e desertificador de terras antes agricultáveis.

Diante disso se colocam duas perguntas: por quem e como se dará a ruptura, revolucionária ou gradual, para uma sociedade verdadeiramente humana e emancipada? 

Marx disse que os homens fazem sua própria história: contudo não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sobre as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram.

Podemos inferir desta frase de Marx que há uma certa irracionalidade no comportamento social humano, ou inconsciência social, mas, apesar disto, os seres humanos buscam saídas por conta do seu grau de racionalidade que lhes permite um certo pragmatismo diante da necessidade. 

Mesmo hoje a França continua tendo um ardor revolucionário, a se deduzir de fatos como este da recente convulsão social por conta da redução de direitos previdenciários, podemos pensar que tanto pode haver uma guinada à direita, com Marine Le Pen, como também pode se criar um novo modo de relação social, no qual a riqueza abstrata concentrada dê lugar à riqueza material partilhada e isto sirva de exemplo para o mundo, como já aconteceu com a revolução republicana francesa do final do século dezoito, hoje obsoleta. 

Acredito que a insatisfação das massas no hemisfério norte, onde se situa a acumulação capitalista da riqueza abstrata, que se desmancha como algo concreto que carbonizado virou fumaça, possa produzir um exemplo de ruptura emancipacionista, podendo se unir às insatisfações crescentes no hemisfério sul empobrecido e de emigrantes desesperados, sendo possível o surgimento de um levante social revolucionário capaz de se apropriar das riquezas materiais coletivas. 

     Não seria então um movimento organizado em partido político da classe operária pronta para instituir um estado proletário, mas, antes, uma convulsão social que formataria uma ordem social de base, horizontalizada, com produção social planejada e distribuída equitativamente conforme a necessidade de cada um e sob a regência popular organizada.

     Neste caso, o sujeito revolucionário seria a própria tomada de consciência social sobre a necessidade pragmática de sobrevivência, mas com os elementos subjetivos libertários de formadores de opinião a orientar tal comportamento.

Mas isto tudo se o capitalismo, na sua pulsão assassina, não nos destruir como retaliação suicida à sua autodestrutibilidade. (por Dalton Rosado




quarta-feira, 25 de agosto de 2021

SEGUNDO DALTON ROSADO, O BOLSONARO JÁ SE TORNOU CARTA FORA DO BARALHO

RACIOCINANDO PELA BARRIGA
N
o início dos anos 70, quando o pau comia contra os adversários do regime, o povo aplaudia o ditador Médici no Maracanã, enquanto ele assistia aos jogos com o ouvido colado num rádio de pilha. 

Era um período em que o capitalismo internacional abria os cofres para o endividamento do governo militar, como forma de demonstrar ao povo as pretensas vantagens de um governo ditatorial. A cobrança da fatura viria depois, de uma forma cruel.

A frase icônica do carnavalesco Joaozinho Trinta subentende que o povo, legitimamente, anseia por uma vida de conforto e livre da miséria a que é submetido, enquanto que os intelectuais se debruçam sobre as razões de tal miséria.

Ambos estão corretos nas suas pretensões e posicionamentos, cada um no seu espaço de vida. 

Mas é o mesmo Joaozinho Trinta quem também disse, acertadamente, que o dinheiro é a desgraça da humanidade, pois escreve os maiores dramas. Ora, o luxo, na sociedade do capital, é comprado com o dinheiro que o povo não tem. Assim, o dinheiro se torna o objeto de desejo inalcançável, juntamente com o desejado luxo. 

Aprendemos, desde criancinhas, a pedir dinheiro para comprar o doce desejado. O dinheiro, portanto, não é um fim em si, mas o meio para que consigamos a realização do desejo inalcançável. 
Fazer demagogia nos estádios de futebol foi outra
lição que Bolsonaro aprendeu com Médici...

Em obediência às ordens do capital, tais quais os vendedores de drogas que viciam os compradores para que se tornem delas dependentes, os governantes viciam o povo no consumismo de todos os tipos de mercadorias, ensinando-o a idolatrar o dinheiro, sem que o povo se dê conta dos malefícios nele embutidos. 

Os pobretões adoram o que não conhecem (o dinheiro) na sua essência destrutiva, sempre em busca do esplendor de uma vida que idealizam e não têm.

O povo, impelido a adorar o que não conhece (o dinheiro) , é também induzido a apoiar qualquer salvador da pátria que o subjugará, mas desde que este promova a acessibilidade pelo menos ao pão e ao circo.

Os militares, após 21 anos, deixaram o poder com inflação alta, estagnação econômica, dívida pública crescente sobre as quais incidem juros pesados, corrupção nas estatais (que brotaram como cogumelos, como acontece também nos governos de esquerda), desemprego estrutural, etc.

FHC, que se elegeu por ter domado a inflação (o verdadeiro autor da proeza foi Pérsio Arida), logo depois naufragou com seu neoliberalismo de ocasião.  

Lula, que surfou nas ondas da alta dos preços das commodities e pôde proporcionar alguma melhora dos empregos, lucros aos bancos e empresários (inclusive de pequeno porte), programas habitacionais e ajudas financeiras aos desvalidos do capitalismo (que não são poucos), minorando assim o absurdo nível de pobreza extrema existente no Brasil, ainda vive dessa memória de tempos menos bicudos e talvez até se reeleja.. 
...mas exagerou ao descer para o gramado e tentar ser
o centro das atenções, com seu exibicionismo desmedido.
Dilma Rousseff, em que pese a sua inabilidade política e alinhamento com o que há de pior na economia e na política brasileira (de Joaquim Levy a Roberto Jefferson), pagou caro o ônus de uma fatura que pousou no seu colo a partir do primeiro mandato e estendeu-se até o início do segundo, quando a direita a defenestrou do poder com um peteleco (ou
pedaladeco). 

Mas o capitalismo ora passa por um estágio de crise econômica e ambiental mundial que atinge até os países ricos, mas se abate com força total nas nações de sua periferia, nelas tornando a vida praticamente insuportável. 

Se Lula ganhar vai administrar a miséria com os critérios capitalistas que ele defende e nos quais acredita; assim agindo, apagará da memória popular a sua boa (e falsa) imagem de outrora.

Fico pasmo de observar que todos querem e falam em democracia, e até mesmo os golpistas proclamam o golpe em seu nome (só aqui se anuncia uma virada de mesa com data marcada, como se fosse uma piada de brasileiro contada em Portugal). 

Quando se fala em democracia, panaceia política usada para enganar o povo que vive sob um regime pretensamente representativo de suas vontades, esquecemos que a economia capitalista é a maior das ditaduras, e que não há regime político soberano sob a égide dos ditames ditatoriais da lógica do capital.

O capital, como tenho dito, dá ordens aos seus súditos políticos. 

Assim, p. ex., desde Mao Tse-Tung e depois sob Deng Xiao Ping e seus seguidores, o fechado e ditatorial regime chinês pauta as suas ações de governo de acordo com a lógica capitalista selvagem por ele praticado e que vai sucumbir juntamente com as regras autofágicas do modo de mediação social que adotou tão logo assumiu o poder. 
Preços nas alturas, Bolsonaro no fundo do poço

O povo, então, é levado a raciocinar com a barriga. Quando a dita cuja está razoavelmente cheia, não se furta a gritar
Salve o rei!; mas quando ela está vazia como agora (e ainda sem ar, sem água, com fogo nas matas e epidemia virótica persistente), clama, uníssono, Abaixo o rei!

Com o perdão do trocadilho fácil, Boçalnaro, o ignaro, é carta fora do baralho! (por Dalton Rosado) 
Toque do editor – Triste constatação, meu caro Dalton: o Bozo está marchando para o fim e tentando jogadas desesperadas  que só vão acelerar a sua queda, porque a degringola econômica se acentuou (vergastando as grandes massas) e ficou evidente que 2021 e 2022 também serão anos perdidos (exasperando os grandes empresários). 

A terrível matança que ele causou com sua sabotagem e negacionismo durante a crise sanitária não fez despencar tanto a popularidade do genocida junto ao povão quanto a escalada da inflação, da miséria e do desemprego.

Fica totalmente comprovada, portanto, a sua afirmação de que os coitadezas raciocinam com a barriga, assim como em 2018 constatamos que o Pelé fora profético ao dizer que os brasileiros não sabem votar. (por Celso Lungaretti)
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