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sábado, 20 de janeiro de 2024

CRESCE O IMPASSE CAPITALISTA

 


Os exemplos dos acontecimentos nos Estados Unidos com Donald Trump, o destrumpelhado, e com Boçalnaro, o ignaro, devem servir de análise do que está a acontecer no mundo político nesta fase de ocaso do sistema capitalista. 

Mas o governo de Joe Biden, Emanuel Macron, Alberto Fernandes e Lula podem também servir de referências de análises, pois são estilos de governos diferentes nas concepções da condução do poder político diante da crise do capital: ambos ineficazes. 

Houve uma inquietante similaridade entre o que ocorreu nos Estados Unidos de Trump e no Brasil de Bolsonaro e que pode nos servir de exemplo. 

Lá, um governante fanfarrão que aparecia na mídia como um lutador e valentão de briga de rua; aqui, um tenente promovido a capitão por afastamento das fileiras do exército, devido ao planejamento de atos terroristas, que teve como símbolo de campanha as armas ostensivamente empunhadas em comícios, algo copiado por Milei com sua motosserra, tendo sido igualmente eleito. 

Lá, o presidente em exercício denunciou possível fraude eleitoral de  votos que seriam dados pelo correio na disputa presidencial, já antevendo a possibilidade de derrota e premeditando um golpe; aqui, o presidente em exercício denunciou as urnas eletrônicas que o elegeram antes (2018) e depois os governadores dos principais estados brasileiros  - Minas, Rio de Janeiro e São Paulo em 2022 - e a maior bancada conservadora da história do Congresso Nacional como passíveis de manipulação, tendo a mesma intenção: dar um golpe de estado. 

Lá, o Presidente derrotado nas urnas orquestrou a invasão do Capitólio, sede do Congresso Nacional dos Estados Unidos, com pessoas fantasias com bandeiras dos Estados Unidos e outros modelitos mais estilizados, usando a violência que sempre marca a vida estadunidense num putsch no qual morreram 6 pessoas; aqui, desde a derrota, os seus fanáticos defensores se postaram diante dos Quarteis do Exército em várias capitais e no Distrito Federal a pedir intervenção militar contra a posse do então presidente eleito. Não tendo conseguido evitar a posse, perpetraram um violento putsch contra as sedes vazias dos três poderes da República num dia de domingo, 08.01.2024, esperando que houvesse uma adesão militar a partir da decretação da GLO – Garantia da Lei e da Ordem; 

Lá, foi eleito um socialdemocrata da ala mais conservadora do partido; aqui um socialdemocrata mais à esquerda da socialdemocracia, mas que faz alianças e concessões até com o diabo, se ele garantir a sua elegibilidade, e governa como qualquer socialdemocrata à direita governaria.  

Acho até que tem muitos bravos militantes remanescentes do PT de outrora  - que abrigava incômodas correntes marxistas que foram expulsas pelo anticomunismo e  centralismo lulopetista -, e que ainda estão por lá, devem sentir incômodos de terem que engolir tantos sapos ideológicos em nome de uma governabilidade que apenas faz mudanças cosméticas, mas mantêm a essência do corpo inalterada. 

Mas o que podemos inferir de um extrato analítico mais profundo destes dois acontecimentos políticos?  

A primeira constatação é a de que há uma insatisfação popular contra os governos que se expressa no pêndulo eleitoral entre posições políticas administrativas de direita e de esquerda como busca de solução para os problemas que se agravam socialmente, sem a compreensão que tais governantes e governos são espécies políticas de um mesmo gênero: a relação social capitalista.  

A segunda constatação é que os governantes têm um problema a resolver: a ingovernabilidade do Estado falido e a depressão capitalista que os impedem de promover a tão sonhada retomada do desenvolvimento econômico, que faria os governantes posarem como defensores liberais ou keynesianos das causas populares e dos trabalhadores, desde que estes continuem dependendo das esmolas do estado - cada vez mais precarizadas - e precisando de advogados na defesa ante o escravismo indireto do trabalho abstrato.    

Nos países da periferia capitalista, a governabilidade é ainda mais difícil porque o poder político está submetido à chantagem do capitalismo internacional hegemônico e ao poder econômico das elites burguesas poderosas que esperam resolver tudo pela força militar, quando a pressão for insurgente. 

A África com seus déspotas militares corruptos e sanguinários serve de exemplo irretocável do que estamos falando.  

No Brasil, o mesmo Supremo Tribunal Federal que condenou os corruptos do mensalão, deixando ileso o presidente Lula, encontrou uma série de desvios processuais patrocinados pela direita raivosa e ambicionando a volta ao poder político de seus membros serviçais - um juiz federal parcial de primeira instância guindado a Superman e Ministro da Justiça com aspirações presidenciais e que hoje é Senador. 

 Diante do temor da vitória eleitoral de um fascista tupiniquim genocida, pretendente a ditador supremo nos seus desvarios de plutocrata, que prometia o fechamento das instituições e substituição dos seus membros por gente da direita terrivelmente obediente, trouxeram Lula de volta, o único candidato capaz de vencer toda a máquina governamental dispendiosa colocada à serviço do candidato presidente.  

Tanto Boçalnaro, o ignaro, se deu mal, quanto seus filhos zero à esquerda, asseclas milicianos e colaboradores facciosos que vão desde alguns membros do Ministério Público até alguns membros energúmenos do judiciário.  

Já disseram que o Brasil não é para principiantes, e eles não aprenderam essa lição passada desde Jânio Quadros e Collor de Mello: a elite brasileira tem suficiente discernimento político para saber a quem deve temer à direita e à esquerda e na hora adequada. 

O quadro é de crescimento irrefreável da crise do capital. Até mesmo organismos internacionais criados pelos países que detêm hegemonia econômica, como a OCDE e a ONU divulgam dados insuspeitos. 

 Afirma a ONU que cerca de 3,3 bilhões de pessoas – mais de 41% da população mundial – vivem em países que hoje gastam anualmente mais com o pagamento de suas dívidas do que investem em educação ou saúde. Essa é a principal conclusão do estudo "Um Mundo de Dívidas", recentemente divulgado. 

Segundo esse estudo, a dívida pública de todos os países do globo quintuplicou em 20 anos: saiu de 17 trilhões de dólares em 2002 e atingiu US$ 92 trilhões no ano passado – cerca de R$ 450 trilhões hoje, e não há lucros e extração de mais valia que possam quitar sequer os juros dessa dívida. As rolagens da dívida já apresentam sinais de insolvência incontornável. 

Há um prenúncio claro de insolvência num ponto futuro cada vez mais próximo e que significará a bancarrota do sistema bancário mundial e suas graves consequências para o mundo capitalista e para a governabilidade do Estado.  

A administração política da debacle capitalista está cada vez mais difícil e, também, em países como o Brasil, apesar de toda a sua potencialidade em riquezas materiais que não se transformam em riquezas abstratas da economia mundial - valor monetário -, senão vejamos: 

- aumentar impostos, como fez Fernando Haddad, que serão repassados a uma população já exaurida economicamente, pode aliviar a escassez financeira do Estado, mas sacrifica na outra ponta ao sacrificar aqueles que já estão exauridos pela constante redução dos salários e da oferta de empregos mal remunerados ou não. 

- pagar os pesados juros da dívida pública significa extrair do povo e da economia uma soma de valores absurdamente penosa - juros de 10% ao ano sobre um dívida que gira em torno de 84% de um pibinho inexpressivo, e que se anuncia que será ainda menor em 2024; 

- definir como meta o déficit zero nas contas públicas, como quer o mercado e como já anunciou o Ministro da Fazenda, significa submeter o orçamento da União e seus gastos exorbitantes com a máquina pública - os salários de parlamentares e membros do judiciário são um escárnio diante do salário mínimo -, a um critério no qual as demandas  sociais ficam sempre postergadas para um futuro inatingível; 

- estabelecer como vitória a fixação de um salário mínimo - R$ 1.412,00 - acima da inflação, mas que não dá para comprar duas cestas básicas, incapaz de alimentar uma família de 5 pessoas, é garantia de aceitação do menos ruim por medo do pior;      

- com um Estado que tem a conta do chá para manter o déficit zero, é impossível ter recursos para controlar os imensos gastos de combate ao tráfico de madeira, minérios, animais exóticos, biodiversidade vegetal, e de entorpecentes numa Amazônia onde a cobiça capitalista atua com olhos de exploração criminosa, e que corresponde a 41% de todo o território da Europa - Boçalnaro, o ignaro, havia dito que era maior do que toda a Europa, num arroubo de quem não tem a necessária precisão do que firma;  

- alocar recursos do orçamento para a infraestrutura capitalista - estradas e manutenção destas, energia, água, portos, aeroportos, combate à predação ecológica, etc. -, numa pretensão de retomada do desenvolvimento econômico - leia-se: mais exploração capitalista para fazer face à fratricida concorrência mundial de mercado -, é algo assim como querer que o meu botafogo volte no tempo e retome o nível de vitórias do primeiro turno do campeonato brasileiro de 2023; 

- e por aí vai... 

Somente a subserviência ideológica ao sistema;  

- o amor vaidoso pelo poder político e suas solenidades e reverências institucionais;  

- a comodidade do uso dos recursos da máquina pública em favor próprio ou de grupos e partidos;  

- ou uma ingênua ilusão de que a partir do aparelho de estado se pode mudar substancialmente a realidade;  

 - ou ainda o interesse dos representantes políticos dos grandes interesses econômicos que os financiam, justificam alguém querer se sentar na cadeira governamental falida.

- ou todos os aspectos elencados juntos. 

Há pessoas, poucas, que entram para a política institucional com propósitos bem-intencionados em servir à coletividade; essas, se não forem laçadas pela gravata e não se tornarem dependentes economicamente da máquina estatal, somente permanecem nela até quando descobrem a ingenuidade de tais propósitos. 

Revolucionários verdadeiros são avessos ao poder vertical. 

A Administração da crise do capital e da sua cidadela protetora e opressora do povo, o Estado, pela esquerda, é um contrassenso e uma contradição à essência dos seus postulados anticapitalistas, em suma, uma capitulação que a história há de condenar.  (por Dalton Rosado) 

sábado, 11 de fevereiro de 2023

CHOQUE ECONÔMICO ENTRE CHINA E EUA É SINAL DO DECLÍNIO CAPITALISTA -2


OS DOIS GIGANTES TÊM OS PÉS DE BARRO- 2

(continuação deste post)

O Financial Times divulgou a informação que somente os três maiores devedores de Pequim – Paquistão, Sri Lanka e Argentina – receberam pacotes de resgate no valor de US$ 32,8 bilhões desde 2017. A lista de países que tiveram que ser estabilizados por Pequim através de empréstimos de crise inclui Quênia, Venezuela, Angola, Nigéria, Laos, Belarus, Egito, Turquia e Ucrânia, com redução forçada das taxas de juros.  

 Mas os problemas chineses não param por aí, pois a China tem uma séria crise no setor imobiliário, representando de modo direto e indireto cerca de 29% do PIB chinês. 

A crise imobiliária chinesa se evidenciou com os problemas de inadimplência da gigante Evergreen, cuja dívida é de US$ 300 bilhões e esteve à beira da falência no verão de 2021 sendo socorrida pelo Estado Chinês via o que chamaram de programa de restruturação, nada mais sendo que injeção de dinheiro impresso nas gráficas do Banco Central sem nenhuma correspondência com chamado valor válido - dinheiro respaldado pela produção de mercadorias que criam valor.

 Cerca de 1,5 milhões de compradores chineses ficaram à espera de receber casas que haviam sido pagas e estavam com obras semiparalisadas nos canteiros de construção.

 Este mesmo procedimento ocorreu com a crise imobiliária do subprime dos Estados Unidos de 2008/2009, que, diante da iminência de um crash do setor financeiro daquele país com consequências mundiais, foi socorrida pelo Federal Reserve, o qual injetou cerca de USS 14 trilhões - cerca de 26% da dívida chinesa -, com a emissão de dólares sem valor válido, providência que tem sido, em boa parte, a causa da alta inflação estadunidense: 9,1% de junho de 2021 a junho de 2022, uma das mais altas dos últimos 41 anos.  

 Um estudo feito pelo economista estadunidense Kennet Rogoff informa haver incompatibilidade de preços entre as unidades habitacionais populares chinesas e o padrão salarial chinês. 


 São necessários três anos e quatro meses para um trabalhador chinês conseguir juntar o valor de uma casa. Ora, se se considerar os gastos pessoais e familiares dele, fica impossível, em tal período, fazer a aquisição da casa própria. Se se ele gastar 10% do seu salário com moradia, levará 33 anos para pagar a hipoteca. Quando se acresce a isso os juros de mercado da dívida - que é o que se pratica por lá -, fica fácil de se deduzir a paralisia e crise do mercado imobiliário inflacionado pela bolha imobiliária chinesa.

 No Brasil, um trabalhador de renda mensal de R$ 2.000,00 levaria quatro anos e dois meses para a mesma operação, ou seja, se considerarmos as despesas pessoais e os altos juros praticados por aqui, há uma equivalência de impossibilidade aquisitiva e miséria tanto aqui como no país do segundo maior PIB mundial.  

 Não é por menos existirem hoje verdadeiras cidades fantasmas de conjuntos habitacionais na China à espera de quem compre e pague os custos e valores das unidades habitacionais vazias.

 Recentemente houve confrontos entre a polícia e correntistas de banco na província de Henan, na China Central, em razão do congelamento de contas bancárias. Da mesma forma o Partido Comunista da China teve que enfrentar uma greve de suspensão do pagamento de hipotecas imobiliárias em face da não entrega de unidades habitacionais. 

 O vertiginoso crescimento do PIB chinês, baseado em alta taxa de endividamento externo e salários baixos, encontrou o seu ponto de limite de expansão na saturação do mercado exterior comprador que não cresce ad infinitum, mas dentro da capacidade de consumo humano, como dissemos.

 O capital tem necessidade de crescimento constante, ad aeternum, como força motora sem a qual perde credibilidade e se invalida como forma de relação social minimamente viável. Os limites antes referidos referem-se ao ponto de perda dessa força motora do capital.  

  Mas a crise chinesa se soma a outros componentes conjunturais como:

-  a crise mundial do desemprego estrutural mundial citado - no momento escrevemos este artigo o Reino Unido, outrora a império onde o sol nunca se põe, está enfrentando a mais grave onda de greve desde a segunda guerra mundial, e o carro chefe é a previdência social deficitária;

- protecionismo estatal de muitos países contra a importação de produtos chineses que roubam os empregos nacionais;

- o aquecimento global que torna improdutivas imensas extensões territoriais e causa desastres climáticos genocidas e destrutivos graves - o terremoto da Turquia e Síria, de 7,8 pontos da escala Ritcher, terá sido intensificado por isto?; as chuvas torrenciais de São Paulo e Rio de Janeiro de ainda hoje serão naturais e tradicionais?

 A resultante disso é que caem as reservas cambiais chinesas que segundo o Financial Times decresceram de US$ 4 trilhões para US$ 3 trilhões nos últimos anos.   

 Assim, a soma de tantos problemas internos e externos torna o capitalismo chinês projetado por Deng Xiao Ping em 1976, responsável por tornar a china dita comunista no país praticante do mais selvagem e predador capitalismo mundial, já se fazem sentir em manifestações populares de grandes dimensões por lá.

 A pretendida hegemonia do Globo Sul pela China e sua nova rota da seda esbarra na impossibilidade de criação de um novo, mas num conceito antigo, bloco sob seu comando e influência vez que os seus problemas internos se comunicam com problemas externos insolúveis sob a lógica do capital.

 São os próprios Estados Unidos, líder mundial do ocidente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e detentor de moeda universal, quem também vê faltar terra sob seus próprios pés com seus desequilíbrios constantes na balança comercial, e como credor maior da China, sabe que o resfriado por lá pode causar pneumonia grave por cá. 

 O capitalismo global implodirá a partir do crash concomitante das duas maiores potências econômicas mundiais e demais componentes do G7, e a nós caberá contarmos com nós mesmos e demais países pobres do mundo integrados a uma nova ordem mundial de solidariedade sob um novo modo de produção social e ordem jurídico-constitucional para superar o impasse e continuar a vida humana.  

 Se der tempo... (por Dalton Rosado) 


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

CHOQUE ECONÔMICO ENTRE CHINA E EUA É SINAL DO DECLÍNIO CAPITALISTA -1

 


OS DOIS GIGANTES TÊM OS PÉS DE BARRO-1

Os dois maiores Produtos Internos Brutos mundiais, dos Estados Unidos e da China,  assentam-se sobre bases inconsistentes. Ambos têm dívidas públicas e privadas incompatíveis com suas respectivas economias, atualmente encontrando-se em franca desaceleração de crescimento em face de dois fatores básicos: a perda da capacidade aquisitiva da população mundial e o limite humano da capacidade de consumo.

A perda da capacidade aquisitiva da população mundial é provocada pela queda global de renda graças à redução do volume de valor da extração de mais-valia mundial, e ocorre em razão de um fenômeno causado pela terceira revolução industrial da microeletrônica, responsável por racionalizar  procedimentos e substituir o trabalho abstrato produtor de valor em maior proporção na produção de mercadorias e serviços do que os novos nichos de trabalho abstrato por ela mesma criados. 

O desemprego estrutural na terceira revolução industrial da microeletrônica provoca a perda total de salário, e sem o dito cujo, por mais que as mercadorias percam valor e preço - que são coisas diferentes, vez que valor é salário médio coagulado no custo de produção de mercadorias, e preço é circunstância de mercado - o desempregado nada pode comprar.   

O limite se refere ao fato de que o ser humano, mesmo quando tem maior capacidade aquisitiva de compra - e é cada vez menor o número per capita dos que estão nesta situação - não almoça mais de uma vez por dia, e nem usa mais de um sapato por vez.

Na terceira revolução industrial da microeletrônica atingimos o ponto previsto por Karl Marx  nos Grundrisse há 165 anos, tendo ele predito a possível existência de uma situação onde houvesse substancial substituição do trabalho abstrato produtor de valor (capital variável) pelas máquinas (capital fixo), o custo de produção das mercadorias seria reduzido, reduzindo, contudo, pari passu, a massa de mais-valia produzida por tal lógica, levando toda a engrenagem capitalista e sua forma de relação social à implosão.

Trata-se do fenômeno da auto destrutibilidade da relação social capitalista quando atinge o ponto de contradição irreversível entre forma e conteúdo. O processo é historicamente lento, mas irreversível, sendo determinada pela revolução do modo de produção industrial. 

A microeletrônica viabilizou e introduziu todo o sistema de robotização computadoriza, comunicação instantânea via satélite e programação por algoritmos - definidos como procedimentos matemáticos altamente precisos e eficientes, não ambíguos, e padronizados - na produção de mercadorias. 

       Tal fenômeno alterou profundamente a lógica de produção mercantil, criando um impasse entre: 

- a forma-mercadoria, modo de produção desenvolvido substancialmente a partir da mercadoria trabalho abstrato remunerado pela mercadoria dinheiro, ambos produtores de valor abstrato, riqueza abstrata, valor econômico das mercadorias;

- e o conteúdo da mediação social na qual tudo se mede ou somente se faz a partir de tal critério, a vida social se circunscrevendo ao ato de ganhar dinheiro para provê-la gastando dinheiro e da restringente viabilidade econômica mercantil.  

    Ganha a guerra concorrencial de mercado quem produz melhor e a custos mais baixos neste confronto épico entre coisas inanimadas que ganham vida, as mercadorias, obtendo-se os lucros daí advindos mediante a concentração de riqueza abstrata, mas reduzindo a massa global de valor.  

    O desenvolvimento tecnológico aplicado à produção de mercadorias nos setores primário, secundário e terciário da economia corresponde ao apogeu e declínio da relação social capitalista e decreta o seu fim irremediável.  

A contradição da lógica capitalista, que é fenômeno histórico, com data de nascimento, vida e morte, diferentemente da crença dos desavisados de uma suposta essencialidade desta forma em nossa existência, tal como a água o é, explicita-se de várias formas demonstrando a sua finitude.

      Outra delas, exógena, citado en passant, é o aquecimento global provocado pela emissão de gases na atmosfera, que os países capitalistas teimam em preservar em obediência às ordens ditatoriais do capital, num ecocídio planetário.

       O capital, além de ditatorial, é autodestrutivo, socialmente destrutivo e tem uma pulsão de morte o transformando em genocida.                                                                                 

                 

Assim, Estados Unidos e China disputam hoje a hegemonia econômica como pretensos herdeiros de um espólio cuja falência é inexorável. Vão morrer abraçados e ainda colocam em risco a vida de toda a humanidade. 

A China vem desenvolvendo um programa de financiamento a diversos países e em vários continentes parecido com aquele realizado pelo Fundo Monetário Internacional chamado de Nova Rota da Seda, sem, entretanto, exigir os  tradicionais ajustes fiscais feitos por aquele organismo.   

A amplitude dos financiamentos externos chineses é ambiciosa e se situa em torno de US$ 838 bilhões, colocando o país asiático como o maior credor bilateral do mundo em programas de promoção de desenvolvimento aos países emergentes ou em desenvolvimento. A estratégia chinesa tem como objeto a consolidação de influência econômica no Sul do Globo, particularmente na Ásia, África e América Latina.   

A competição pela hegemonia com os Estados Unidos é flagrante e visa obter rendimentos de juros e comércio, tal qual fez e faz seu competidor da América do Norte, o qual impôs seu domínio como potência financeira ao financiar com o plano Marshall a reconstrução da Europa devastada pela guerra, tendo gasto injetado à época algo hoje correspondente a US$ 100 bilhões, bem menor, portanto, que os empréstimos da rota da seda.

Ao leitor desavisado pode parecer viver a China uma situação de comodidade a ponto de poder financiar a infraestrutura dos países tomadores dos seus empréstimos, bem como abrir espaços comerciais para os seus produtos. Lucros financeiros e influência comercial estão na base desse comportamento de país governado por um partido dito comunista. É mole?!

Mas a aparência das coisas costuma enganar, diz o sábio ditado. Na realidade, a China tem uma dívida pública e privada da ordem de USS 51,7 trilhões - cerca de 300% do seu PIB - para com o sistema financeiro internacional, e os financiamentos que oferece aos países do Sul Global não passam de repasses diminutos de sua própria dívida. 

     A China toma emprestado para emprestar com juros diferenciados e assim obter lucro e influência, mas o emprestado pela China é apenas 1,5% do que ela deve. Porém, a suposta solução tem se tornado problema, pois a  crise econômica que se abateu sobre o mundo, agravada pela pandemia da covid19, tornou muitos países inadimplentes dos empréstimos chineses, forçando seu socorro através de mais empréstimos, sob pena de se tornarem insolventes. (por Dalton Rosado, continua neste post) 


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

LULA NA ENCRUZILHADA: QUE PAPEL RESTA PARA UM NEGOCIADOR QUANDO A CRISE NÃO TEM FIM E AS RUAS COMEÇAM A ARDER?

Lula fez toda sua carreira sindical e política negociando com o outro lado, de forma a obter pequenas vantagens para os explorados sem confrontar os exploradores nem tentar dar um fim à exploração do homem pelo homem.

Sua sucessão de derrotas na presente década foi sintomática: o cenário histórico no qual ele se projetou foi sumindo, sumindo, sumiu.

O capitalismo, após escapar por pouco da eclosão da pior de suas depressões em 2008, nunca se recuperou totalmente. Já não é capaz de assegurar abastança para um número significativo de países, a não ser provocando a penúria numa quantidade muito maior de nações.

Adia o Juízo Final multiplicando rigores, imprimindo dinheiro sem lastro, elasticizando cada vez mais os critérios para a concessão de empréstimos (impagáveis!), empurrando com a barriga, enfim. Já não tem soluções a oferecer, só paliativos.

E, no salve-se quem puder dos estertores do capitalismo, quem se salva pertence ao bloco dos privilegiados de sempre (mas nem todos dentre eles escapam) e quem despenca são os sofredores de sempre (quase todos).

Em suma, como nada indica que a adoção extemporânea do receituário neoliberal (se as reformas do Guedes houvessem sido feitas na mesma época que as chilenas, poderiam ter gerado os mesmos resultados, deslumbrantes nas frias estatísticas mas tão detestados pelo povo que hoje as ruas de lá ardem em chamas) tire a economia brasileira do sufoco, Lula não poderá mais permanecer em cima do muro, acendendo uma vela ao povo explorado e outra aos insaciáveis exploradores. 

E é só como intermediário entre os dois universos que ele sabe atuar. Trata-se de um negociador, não de um comandante das batalhas da luta de classes que agora voltarão ao primeiro plano. Seu tempo passou, e não por força da idade, mas porque a realidade que convinha ao seu tipo de atuação deixou de existir.

Seria bom se lhe caísse a ficha e o Lula decidisse apenas transmitir suas experiências às novas gerações, ajudando a prepará-las para tocarem adiante as lutas dos explorados. Mas, todas as vezes em que ele teve oportunidade de passar o bastão, pelo contrário fincou os dedos nele com toda a força que tinha. O Ciro Gomes que o diga.

Poderia também, como uma última missão nos moldes antigos, livrar-nos do Bolsonaro, já que seus erros crassos tiveram importância capital para a entrega do poder aos neofascistas. Está, portanto, em dívida com todos que amargamos estes dez meses terríveis (e isto por enquanto, sabe-se lá quanto ainda durará o pesadelo...). 

Quiçá encurtasse a nossa agonia caso se dispusesse a formar uma frente com todas as forças políticas dispostas a reconstruir civilizadamente este país, antes que a barbárie nos trague a todos. 

Mas, terá tal desprendimento? Ou continuará priorizando objetivos petistas em detrimento do restante da esquerda, do centro, dos moderados, de todos que ainda não embarcaram no trem fantasma do bolsonarismo? 

Ele já foi colocado diante desta alternativa na campanha eleitoral de 2018 e reagiu da pior maneira possível, pois suas decisões desastrosas, obedecidas cegamente pelos dirigentes (?) petistas em liberdade, inviabilizaram a união das forças do nosso campo contra a ameaça neofascista e não ofereceram aos moderados de centro e direita um horizonte para somarem forças com a esquerda para evitar a invasão bárbara.

Enfim, parafraseando o Chico Buarque, foi bonita a festa da libertação e eu fiquei contente em ver desabar o castelo de ilegalidades contra ele cometidas. Depois das revelações do Intercept Brasil, se não o soltassem, seria melhor devolver o país para os portugueses. Passaríamos menos vergonha.

Mas, vou ter pesadelos todas as noites enquanto continuar existindo a possibilidade de que o populismo de esquerda venha a alimentar o populismo de direita, fornecendo-lhe uma razão para existir (e vice-versa). 

Pois, se o pior destino para o povo brasileiro seria a concretização dos planos golpistas dos olavos e respectivos papalvos (Bolsonaros inclusos), o segundo pior é que não haja virada de mesa mas os dois populismos continuem monopolizando as opções políticas, o que manteria o país indefinidamente patinando sem sair do lugar. 

Temos de destravar o futuro enquanto ainda há um futuro para salvarmos. (por Celso Lungaretti)

domingo, 6 de outubro de 2019

AOS 69 ANOS, SEM ESMORECIMENTO

Agradeço a todos os companheiros e amigos que estão postando/enviando palavras amáveis. Essas manifestações de respeito e carinho me sensibilizam, sim. E muito!

Nunca almejei ser um homem de ferro, imagem que alguns revolucionários buscam projetar  (equivocadamente, no meu entender). 

Olhando para trás, um grande mérito que vejo na geração que pegou em armas contra a ditadura militar foi o esforço que todos fizemos para colocarmo-nos à altura de um desafio para o qual bem poucos estávamos preparados e que quase sempre excedia nossas forças.

Se fôssemos super-homens nietzschianos, que méritos teríamos? Mas, não éramos; longe disto. Ainda assim, tentamos desempenhar nosso papel da melhor forma possível, assumindo todos os riscos e dispondo-nos a todos os sacrifícios. 

Havia grandeza na nossa fragilidade humana e em como fazíamos das tripas, coração para evitar que ela prejudicasse a causa que considerávamos maior e mais importante do que nós.

Este aniversário está mexendo com meus sentimentos como há muito não ocorria. 

No mês em que completei 68 anos, uma tempestade perfeita me fez temer que os fantasmas do passado nos assombrassem de novo, impondo às novas gerações de brasileiros os mesmos horrores contra os quais a minha lutou.

Chego aos 69 aliviado. Não havia fascistas perfeitos para aproveitarem a oportunidade que lhes caiu no colo e, embora o destrambelhado Governo Bolsonaro ainda vá durar algum tempo (minha previsão é de que será atirado à lixeira da História durante 2020), já está desmascarado e desmoralizado o suficiente para o impedir de alçar voos mais altos. 

Enquanto perdurar, tende a causar estragos e retrocessos em nossa vida social, e a acarretar grandes transtornos para aqueles a quem persegue com seus desmandos, mas não conseguirá mergulhar o país noutros 21 anos de arbítrio e atrocidades.

Dentre as situações particulares acima referidas encontra-se a minha, pois a última mudança de governo e sua hostilidade burocrática para com os antigos resistentes acabou sendo o estopim de uma crise financeira e familiar que há muito se esboçava.

Também neste sentido o que hoje sinto é alívio.  Passei por situações dramáticas no último semestre e consegui sair incólume, inclusive por não ter-me faltado o apoio de companheiros solidários em alguns momentos críticos.

Estava em dúvida sobre se conseguiria reconstruir mais uma vez minha vida e agora tenho certeza de que a perda de vários confortos e mesmo a falta de uma convivência familiar (exceto nos fins de semana alternados que minhas filhas passam comigo) não me derrubarão. 

Meio século depois ainda me viro bem sozinho, embora não seja a forma como prefiro levar minha vida. Mas, tanto então como agora, não havia alternativa. E sobrevivência foi uma das lições que o destino me ensinou.

Tenho, ademais, fortes motivos para sobreviver: zelar por minhas filhas até que encontrem seu caminho na vida e dar minha contribuição para que não seja em vão tudo que os brasileiros idealistas vimos sofrendo desde 2016.

A maré de ultradireita era (parafraseando Shakespeare) uma tempestade de som e fúria significando nada: já podemos vislumbrar no horizonte o momento em que vai morrer na praia.

Mas, nossa tarefa não acabará aí; pelo contrário, é onde realmente vai começar. 

Ou conseguimos superar o círculo vicioso da alternância entre autoritarismo e populismo, ou continuaremos joguetes da História, que é como a burguesia nos quer ver.

Já temos todos os elementos necessários para uma conclusão definitiva: nem os Bolsonaros nem os Lulas oferecem solução para o impasse brasileiro.

Motivo? É que a crise do sistema chegou a um ponto em que não há mais governo sob o capitalismo capaz de proporcionar abastança para países periféricos como o nosso. As nações poderosas estão tentando é salvar a si próprias.

Então, a retomada do crescimento econômico se tornou uma meta que, no nosso caso, transcende o capitalismo. Até porque marchamos para uma depressão global que se desenha como muito pior que a da década de 1930.

Chega a ser até risível a pretensão de que, com alguma reformas neoliberais, o Brasil iria sair da penúria enquanto os gigantes capitalistas nela estivessem entrando. Paulo Guedes nunca passou de um mercador de ilusões.

Se trocarmos um governo selvagem na esfera do capitalismo por um governo bonzinho na esfera do capitalismo, nada realmente se resolverá. Continuaremos desperdiçando um tempo que cada vez mais nos é escasso.

Depende de nós erguermos, sobre os escombros dessa esquerda que tem perdido todas as batalhas importantes ao longo da década atual, uma esquerda realmente revolucionária, que coloque como prioridade estratégica nº 1 a superação do capitalismo. 

[E não uma enésima tentativa de conviver harmoniosamente com ele, desde já fadada ao mesmo insucesso de todas as anteriores, pois deveríamos estar carecas de saber que, em algum ponto do caminho, qualquer governo popular nos moldes dos de Lula e Dilma receberá sempre um inglório pé na bunda.]

Contribuir para a gestação de uma nova esquerda, com líderes bem diferentes desses que pavimentaram o caminho para a vitória de Bolsonaro, é o último serviço que me proponho a prestar para a sociedade brasileira.

E é o que manterá minha determinação não só aos 69 anos, mas enquanto tiver forças e lucidez para continuar perseguindo meus objetivos maiores. Como diziam Gil e Caetano outrora, "é preciso estar atento e forte / não temos tempo de temer a morte".

Estarei tentando, até o fim, legar aos pósteros o Brasil com que sonhava em 1967, quando tracei o rumo que queria dar à minha existência. 

Ele me conduziu às estrelas e também aos abismos, mas não o trocaria por nenhum outro. Como Neruda, confesso que vivi. (Celso Lungaretti)
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