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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

DISPUTA DO MUNDIAL 2022 NO CATAR SERÁ UM CHUTE NOS DIREITOS HUMANOS

País conservador e intolerante, o Catar mantém práticas inaceitáveis no mundo moderno...
D
entro de um mês, começará Mundial da Fifa, pela primeira vez num país árabe sem tradição futebolística e onde nem todos os direitos humanos reconhecidos pela ONU são respeitados.

A organização Human Rights Watch fala mesmo em Copa do Mundo da Vergonha, citando principalmente a perseguição aos homossexuais no Catar. Mas, nem todos os brasileiros veem esta e outras intolerâncias como um problema.

Faz um ano, numa entrevista ao Le Monde, o ex-presidente suíço da Fifa dizia ter sido um erro tal escolha, mas esta já era sua opinião ao abrir o envelope em favor do Catar, em 2010. Segundo Joseph Blatter, o plano era outro, bem mais prestigioso: depois do Mundial na Rússia seria a vez dos Estados Unidos.

Quem mudou tudo, contou Blatter, foi o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, exercendo pressão sobre o compatriota Michel Platini (ex-jogador que presidia a Uefa), num jantar com o príncipe herdeiro catari. A influência de Platini foi decisiva.
...como o apedrejamento de adúlteros.

Terá sido mesmo um erro? As acusações se avolumam, relacionadas com o clima, com a situação dos homossexuais e mulheres no Catar, com a corrupção e com o desrespeito aos direitos humanos e direitos trabalhistas durante a construção dos estádios. 

Tanto que diversas cidades francesas decidiram não instalar telões para o grande público poder acompanhar ao vivo, em praças públicas, o desenrolar dos jogos. Da mesma forma, muitos restaurantes e bares europeus desta vez não disponibilizarão as transmissões de TV dentro de seus estabelecimentos.

Chegou-se a conjeturar um boicote da Copa do Catar. Embora esta medida extrema não tenha sido aprovada, algumas associações ainda não chegaram a uma decisão final. 

As críticas graves referem-se aos direitos e ao tratamento dos trabalhadores na construção dos estádios, denunciando-se a ocorrência de 6.500 óbitos nos canteiros de obras, uma grande parte como consequência do calor, mas considerados pelas empresas construtoras como mortes causadas por problemas cardíacos, maneira de negarem indenizações às famílias.

Outra questão é ligada aos direitos das pessoas LGBTQIA+, pois no Catar a homossexualidade é proibida e mesmo punida com sete anos de prisão. E será enorme o impacto ambiental causado pelos estádios climatizados e pelo excessivo número de voos previstos durante a competição (incluindo, cerca de 160 voos extras diários).

Então, o boicote do Mundial do Catar seria uma boa opção? A Anistia Internacional discorda, considerando mais útil negociar com a Fifa e com as grandes empresas patrocinadoras para que:
— seja paga uma indenização a todos os trabalhadores vítimas de acidentes de trabalho;
— idem às famílias dos trabalhadores mortos nos canteiros de obras; e
— sejam efetuados os pagamentos pendentes a outros trabalhadores, muitos dos quais recebem menos do que o salário-mínimo fixado pela OIT.
Jogadores da seleção alemã repudiam Copa no Catar
Felizmente, algumas empresas já aceitaram participar desse fundo de indenizações. Mas é bom ficar claro: isto não soluciona a questão dos abusos cometidos nestes anos de construção dos estádios. 

Muito menos os episódios de situações próximas da escravidão em que viviam os trabalhadores, a maioria imigrantes, praticamente impedidos de se demitirem de seus trabalhos e retornaram aos seus países.

Quatro grandes empresas são favoráveis às indenizações, porém nada foi ainda definido, seja quanto ao total de capital necessário, à participação de cada uma delas e às modalidades dessas indenizações. O risco é tudo ficar no âmbito das boas intenções, tão logo terminem as competições em meados de dezembro.

Para a porta-voz da Anistia Internacional na Suíça, Nadia Boehlen, a questão das infrações do Catar aos direitos humanos deveriam fazer parte importante na cobertura desse Mundial pelos jornalistas, comentaristas e dirigentes das federações e associações de futebol, dando tempo e espaço para todo tipo de denúncias, além de não fazerem vista grossa ao constatarem eles próprios abusos nas condições de trabalho nos hotéis onde forem hospedados, nos restaurantes e nas localidades em que estiverem.

Embora o Catar possa alegar ter havido algumas melhoras nos sistemas empregatícios e na Kafala, que regula os contratos com empregadas e empregados estrangeiros, a Anistia Internacional as considera insuficientes: 
Ativistas LGBTQIA+ também fizeram atos de protesto
"Não existem garantias e cometem-se muitos abusos. Os empregadores se aproveitam de um clima geral de impunidade, não havendo contra eles qualquer punição em caso de violações"
A Fifa não exerceu a vigilância esperada pela Anistia, embora, segundo os princípios dos direitos humanos da ONU, seja dela a responsabilidade de controlar as federações de futebol parceiras na realização de um Mundial, incluindo o respeito aos direitos trabalhistas de todos os envolvidos na realização do Mundial e a aplicação das indenizações no caso de não cumprimento ou violação desses direitos.

Será importante a Fifa fazer exigências básicas aos países interessados em sediar as próximas Copas do Mundo, principalmente àqueles mais autoritários e/ou que mantêm crenças religiosas retrógradas. 

De maneira geral, essa é a expectativa da imprensa europeia, como ressaltou o jornal Le Monde em recente editorial, exortando no sentido de que a expectativa do lucro e o gigantismo dos eventos não se sobreponham à inteireza do esporte, sacrificando princípios básicos dos direitos humanos. (por Rui Martins)

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A REALIDADE DESNUDA E A FALSA DICOTOMIA ENTRE DIREITA E ESQUERDA

"A terceira revolução industrial é considerada, e não sem razão,
a causa de longe mais profunda da nova crise mundial. Pela
primeira vez na história do capitalismo, os potenciais de
racionalização ultrapassam as possibilidades de
expansão dos mercados.(Robert Kurz)
.
O PÊNDULO DA INEFICÁCIA
Se é verdade que o pensamento socialista sempre teve uma dose elogiável de humanismo, expressa na conquista de avanços sociais e defesa de direitos civis, é igualmente verdade que se constituiu apenas numa forma política de capitalismo. Daí a sua insustentabilidade. 

É por assim ser que terminou sempre por se quedar à imperiosa lógica autotélica e segregacionista do capital, que se opõe ao melhor sentimento humanista. Daí decorre que o socialismo não passa de um conjunto de ideias bem intencionadas, constituindo-se, no final das contas, em algoz do interesse popular e no contrário do que anuncia ser (mesmo quando suas intenções são honestas e não um mero oportunismo eleitoral para a conquista do poder).   

O capital é uma forma de relação social subtrativa do esforço coletivo de modo a criar riqueza abstrata concentrada num processo de acumulação que tende ao infinito, segregando a maior parte dos seus súditos como forma de satisfação de seu sentido tautológico, vazio de sentido virtuoso. E isto só até o momento de alcançar o limite interno absoluto de expansão, quando definha e morre, não sem antes arrastar toda a humanidade para o abismo, caso não seja contida a sua derrocada final.

As vitórias eleitorais do socialismo de esquerda (1) sempre se deram por conta da ingovernabilidade do aparelho de Estado pela direita e seus métodos segregacionistas de promoção dos privilégios do capital e dos capitalistas.  

Ora, é de se perguntar: por que todos os governos de direita, com todos os mecanismos de controle institucionais, monetários e midiáticos a seu favor, fracassam e ensejam a simpatia popular eleitoral ao pensamento socialista? 

Esta indagação pode ser complementada por outra: por que todos os governos socialistas de esquerda fracassam e ensejam a antipatia popular como se fossem traidores dos seus próprios postulados e bandeiras, acabando por ensejarem a volta da direita, numa eterna e infrutífera alternância de poder  e sem questioná-la como tal?

A resposta é óbvia: isto se dá porque todos os governos apenas obedecem e aplicam os ditames de uma lógica de relação social (o sistema produtor de mercadorias) que, por sua natureza específica, impõe sacrifícios ao povo e transforma o Estado em sua força de coerção militar, além de instrumento de regulamentação legal e de controle monetário. 

Os governantes não governam, mas são governados.   

Os governantes, quando sentam na cadeira dos poderes do Estado, não têm vontade soberana, a não ser em questões periféricas e de escolha de prioridades dentro da escassez de recursos do Estado para atendimento das demandas sociais globais.

QUANDO A REALIDADE BATE À PORTA

Assim, quando é atingido o estágio do limite interno absoluto de expansão e a realidade de sua essência ontológica bate à porta sem subterfúgios sob a forma de miséria e desespero social inesperado, como agora ocorre, isto provoca a explicitação de alguns pontos, a saber: 
a) a identidade na aplicação do receituário da administração financeira da crise por qualquer partido que esteja no poder, independentemente de sua inclinação ideológica, capitalista ortodoxa ou socialista (2). 
b) a verdadeira função e caráter do Estado. Este, antes de ser um provedor das demandas sociais, é um coletor de impostos que mascara o pesado ônus que impõe aos exauridos ombros dos trabalhadores (duplamente extorquidos, pelo capital e pelos tributos estatais) com serviços públicos cada vez mais ineficientes; e que exige do contribuinte a pagamento da conta da infraestrutura da produção mercantil e do funcionamento dos poderes institucionais que sustentam a opressora lógica mercantil. O trabalho e o trabalhador são categorias capitalistas que sustentam o Estado, a máquina de coerção sistêmica. 
c) o desejo de grande parte da população da volta à situação anterior, quando da ascensão capitalista. Então os trabalhadores conseguiam sobreviver, embora miseravelmente, e tinham esperança de subirem na vida, enquanto a minoritária classe média, formadora de opinião, vivia razoavelmente bem – isto com diferenciações de país para país, dependendo do grau de capacidade de produção de mercadorias de cada nação (a classe média dos Estados Unidos sempre teve benefícios estatais e confortos maiores que a classe média do Haiti, obviamente); 
d) a consciência, para uma pequena minoria formada pelos mais argutos, de que a crise não é uma questão de mau gerenciamento do Estado, decorrendo, isto sim, da falência dos próprios fundamentos de uma relação social que se tornou anacrônica e não consegue promover a mediação social de modo minimamente aceitável. 
A tal da classe média, consciente de que seus privilégios ora definham, prefere, por comodidade e medo do novo, embarcar na cantilena midiática de que toda a crise decorre da corrupção com o dinheiro público, como se o combate a tal cancro institucional (que não passa de um subproduto endêmico de uma corrupção sistêmica) fosse uma varinha de condão, capaz de promover a restauração do status quo antigo. E, assim, influencia toda a população.

A escolha dos Sérgio Moro e Joaquim Barbosa da vida como salvadores da pátria desfoca o cerne do problema e, ainda que aprovemos as suas atuações, não podemos ser ingênuos a ponto de crer que a corrupção se constitua na causa maior das nossas agruras. Ademais, o desvirtuamento do foco da crise estrutural para o combate a corrupção é do interesse do sistema, pois serve como desculpa para o seu fracasso e para o aumento da miséria enquanto perdurar a agonia do capitalismo.

Quando se compreende o significado do processo eleitoral e da função dos partidos e dos políticos como um mecanismo de legitimação jurídico-institucional de uma forma de relação social segregacionista, não há que querermos melhorar o seu desempenho com a eleição de cidadãos honestos e partidos bem intencionados, na esperança de que mudem os padrões éticos de comportamento, quaisquer que sejam os seus matizes ideológicos. 

Isso não passa de sonho de uma noite de verão, pois tal desejo é irrealizável sob uma base de relações sociais de natureza capitalista, mercantil, que tem na subtração do valor produzido pelos trabalhadores (leia-se corrupção original) a sua razão de ser. Sob o capital, toda a institucionalidade funciona em falso, e dessa falsidade não pode nascer nada de bom do ponto de vista coletivo. 

Temos de denunciá-la e combate-la, ao invés de a fortalecer. Temos de buscar a produção fora do mercado, paulatinamente, exaustivamente, como modo de afirmação da vida.

Agora, quando a realidade bate à nossa porta e torna explícita a falsa dicotomia entre direita e esquerda sob o capitalismo, só nos resta negar o próprio capitalismo e suas categorias fundantes (valor, trabalho abstrato, mais-valia, dinheiro, mercadoria, mercado, Estado, política, políticos, democracia, socialismo, nacionalismo, capital, etc.). 

Temos de enfrentar tal gigante de pés de barro com todas as nossas forças; o preço a se pagar por isso não é pequeno, mas a vitória é possível. (por Dalton Rosado)
  1. existe também socialismo de direita, como foram os casos do Partido Nazista de Hitler, que se definia como nacional socialista; e do fascismo italiano de Mussolini, que defendia lemas ditos socialistas e nacionalistas, tendo sua legislação trabalhista sido copiada pelo ditador brasileiro Getúlio Vargas.
  2. até ontem governando a França, Nicolas Sarkozy, de direita, foi defenestrado do poder pelo socialista François Hollande, o qual, por sua vez, hoje não consegue sequer ser candidato à reeleição, com os novos Sarkozys se apresentado como competentes governantes capazes de superar a crise do capital instalada na União Europeia 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

NADA É MAIS PARECIDO COM A POLÍTICA ECONÔMICA DA DIREITA QUE A DA ESQUERDA NO PODER

Por Dalton Rosado
A FALSA DICOTOMIA
.
"A cisão estrutural do sistema produtor de mercadorias nas 
esferas funcionais da economia e da política tornou-se uma 
das fontes principais das lutas e antagonismos ideológicos 
na modernidade." (Robert Kurz, em O fim da política)
.
Foi aprovado na madrugada de Brasília, na Câmara dos Deputados, um projeto de lei que regulamenta o acesso às funções de direção das empresas estatais. Como sempre acontece, estabeleceu-se uma discussão entre parlamentares defensores do capitalismo liberal (tidos como de direita) e defensores do capitalismo de estado, keynesianos ou marxistas tradicionais (tidos como de esquerda). 

Os argumentos dos primeiros se fundamentam na defesa de uma melhor qualificação profissional-técnica e consequente pretensa menor ingerência política na administração empresarial; como obedientes servos dos interesses capitalistas privados, o que defendem mesmo é que as estatais passem à iniciativa privada, pois acreditam (equivocadamente) que isso possibilitaria a retomada duradoura do crescimento econômico. 

Os argumentos dos segundos consistem na conveniência de um maior controle político-estatal dessas empresas, com flexibilidade para nomeações de modo a que se amplie o leque de possibilidades de pessoas mais identificadas com seus projetos políticos e que possam comandar as estatais, pensando (equivocadamente) que possa haver capitalismo estatal do bem

Pode parecer a muitos que a questão se restrinja apenas a estas duas correntes de pensamento político: uma neoliberal e a outra keynesiana (ou marxista tradicional). Há, entretanto, outros pensares que se situam fora desta camisa de força na qual a política nos quer enquadrar.       

Pergunta-se: o trabalhador assalariado, que se submete à extração de mais-valia (seja ela privada ou estatal), deixa de ser explorado? Não. A direção da empresa (seja ela privada ou estatal), deixa de ser patronal? Não. O impositivo regime de concorrência de mercado para a produção de mercadorias produzidas nas empresas privadas ou estatais deixa de existir? Não. 

Busca-se nas empresas privadas e estatais o maior nível de produtividade per capita (aumento da mais valia relativa), sem o qual elas não sobrevivem, condição de eliminação do nível geral de empregos, e gerador de uma redução da massa global de valor, que aponta para a falência sistêmica capitalista? Sim. Estão essas empresas enquadradas na lógica capitalista do sistema produtor de mercadorias e, portanto, submissas a uma autofagia socialmente destrutiva, porque excludente, e autodestrutiva da própria forma-valor, caminhando, portanto, para o colapso? Sim. Sendo privadas ou estatais, as empresas são patrimônio dos trabalhadores ou do povo? Não. 

A identidade das empresas privadas e estatais reside no caráter mercantil de suas atividades; e a diferença reside apenas na forma política de suas administrações. Ocorre, entretanto, que é o caráter mercantil aquilo que define a natureza social de suas existências; e, por terem essa mesma identidade, são iguais na sua essência constitutiva, socialmente segregacionista. 

Ambas exploram o trabalhador assalariado. Ambas obedecem à mesma lógica funcional negativa do capital. Ambas são capitalistas. Ambas caminham para um mesmo destino final: as suas destruições como forma social e como meios capitalistas de produção dos bens indispensáveis à satisfação das necessidades de consumo. E ambas o fazem pelas mesmas razões de natureza substantiva: a contradição dos seus fundamentos (Marx).      

Nas eleições presidenciais francesas de 2012, as pesquisas de opinião pública apontavam dois favoritos. Terminou por ganhar o candidato Françoise Hollande, tido como de esquerda, na disputa com o presidente Nicolas Sarkosy, tido como de direita. A exemplo do que vem ocorrendo em todos os países, assistimos, hoje, à interminável alternância no poder de partidos ditos de direita e de esquerda, sem que nenhum consiga debelar os problemas econômicos e sociais existentes. 

O presidente Sarkosy, como argumento de campanha eleitoral, trombeteava que a esquerda no poder repetiria o colapso da Grécia, numa alusão ao fato de que o governo grego de esquerda (afastado) fora o responsável pela crise que se abateu sobre aquele país. 

Por sua vez, Hollande afirmava que a direita no poder seria a continuidade do que já ocorria na França, envolta em sérios problemas de desaceleração econômica e dívida pública crescente. 

O tempo passou e, hoje, vemos o governo francês de Hollande às voltas com greves e recessão econômica, daí as pesquisas prenunciarem a volta de Sarkosy ou similar. 

Quanto à Grécia o que se sabe é que Aléxis Tsípras, anteriormente de ultraesquerda, aceitou as imposições econômicas do sistema financeiro internacional e capitulou, como forma de sobrevivência dentro de lógica do capital. Todos tinham razão nas acusações mútuas e nenhum tem razão no que defende.

Nada mais parecido na administração da economia do que governos de direita e de esquerda quando entronizados no poder. É que as regras da economia são ditatoriais, e como se diz popularmente, uma vez investido no poder o governante ou dá ou desce.

Entretanto, eles jamais esclarecem que os seus partidos e seus governos são espécies de um mesmo gênero, pois ambos estão circunscritos ao universo político da imanência capitalista, que tem no sistema produtor de mercadorias (e, portanto, de valor) o modo de ser de sua relação social e arcabouço jurídico institucional de governabilidade. 

Hoje podemos compreender claramente que os conceitos políticos de direita e de esquerda se assemelham no seu conteúdo substantivo, para se diferenciar apenas na forma de gerenciamento político daquilo que está previamente posto, do qual fazem parte e contra o qual não podem se insurgir na sua essência constitutiva. 

Assim, tanto os governos neoliberais de apoio ao livre mercado (de direita e de centro) como os de pensamentos keynesianos estatizantes (marxistas tradicionais, socialistas, nacionalistas, etc., considerados de esquerda), todos monetaristas, admitem a extração de mais-valia dos trabalhadores sem o menor pejo, embora tais extrações se tornem cada dia mais precárias. 

Consequentemente, não se atinge o cerne do problema, que é a crise de conteúdo (a crise na forma político-administrativa é efeito e não causa), causada pelo colapso interno irreversível do sistema produtor de mercadorias. 

Todos cuidam de aspectos periféricos da crise, e disputam o poder numa falsa dicotomia ideológica, não podendo trazer a discussão para o patamar necessário e inadiável que é a superação de um sistema agonizante.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

DALTON ROSADO: "UMA ANÁLISE DO CAOS NA VENEZUELA"

"Marx, nos Grundrisse, chega a vislumbrar 
momento em que o avanço dos métodos 
capitalistas de produção tornariam 
tempo de trabalho uma base miserável 
para a valorização da imensa massa de 
valor que deverá funcionar como capital."
(Luiz Gonzaga Belluzzo, na introdução do livro 
de Isaac Rubin, A teoria marxista do valor, 1987)
O povo venezuelano vive uma situação de caos político e de miséria material; e não poderia ser diferente. 

Não porque o capitalismo seja a solução dos problemas (na verdade ele é a sua causa primária), mas porque o chamado socialismo bolivariano nada mais é do que uma forma híbrida e indefinida de capitalismo de estado com capitalismo liberal. 

Ambas as formas atingiram um estágio limite e essa forma híbrida venezuelana é a pior delas, pois sua dupla personalidade faz com que uma tendência anule a outra e o caos se estabeleça, de modo que nem a força militar poderá conter a insatisfação popular. 

A solução não está na hegemonia de nenhuma das duas formas de relação social político-econômica em disputa na Venezuela, pois qualquer uma que prevaleça não conseguirá emancipar verdadeiramente o seu povo. 

A Venezuela teve na venda de petróleo pela estatal PDVSA – Petróleo de Venezuela S/A, a sua base de sustentação econômica. Tal fato, por si só, já denuncia a dependência à ordem econômica internacional e, portanto, capitalista na sua essência constitutiva (e pior, tendo como seu principal comprador de petróleo o proclamado inimigo, os Estados Unidos). 

Agora, que o preço do barril de petróleo está em queda no mercado mundial (e, se a humanidade tiver juízo, superará o seu consumo que provoca a emissão de gás carbônico na atmosfera, substituindo-o por fontes de energias limpas como a hidráulica, eólica, solar, etc.), sua principal fonte de recursos reduziu-se drasticamente, e o país está mergulhado no caos do abastecimento, desemprego, falência estatal, endividamento público, a mais alta inflação do mundo, etc. 

As suas dificuldades são econômicas, como está demonstrado, porque são aferidas pela lógica e funcionamento da economia e suas consequências, e somente a superação da própria economia, coisa que não se discute e nem se defende na Venezuela (e em quase todo o mundo), poderá reverter essa situação convenientemente.

O quadro internacional é de depressão econômica que impõe sacrifícios à classe trabalhadora (principalmente nos países periféricos do capitalismo, nos quais a devastação é total e onde se observa famílias inteiras obrigadas ao risco de morte numa emigração indesejada). 

A França, país membro da reduzidíssima cúpula dos ricos da econômica mundial, está hoje com seus trabalhadores do setor petrolífero e nuclear em greve por não aceitarem as reduções de direitos trabalhistas propostas pelo governo socialista do premiê François Hollande; seria a mesma coisa se quem estivesse no governo fosse seu antecessor, o conservador Nicolas Sarkozy. 

A Grécia acabou de ser beneficiada com um empréstimo de 10 bilhões de euros para pagar dívidas vencidas (ou seja, nada mais é do que uma rolagem contábil de dívida) como prêmio por medidas de arrochos fiscais patrocinadas pelo seu primeiro ministro, o até ontem radical esquerdista Alexis Tsípras.

É que o receituário econômico é sempre o mesmo (vide as últimas medidas do governo do presidente Temerário no Brasil, que seriam as mesmas se a presidenta Dilma estivesse no comando político brasileiro.
Aliás, as medidas propostas pelo ministro Meirelles estão muito próximas daquelas propostas por Nelson Barbosa, seu antecessor), pois obedece à lógica fetichista do sistema produtor de mercadorias este, sim, aquilo que deve ser superado como forma de se extirpar o atual cenário de retrocesso civilizatório mundial.    

Defender o presidente que está caindo de Maduro na Venezuela, como assim se se estivesse sendo anticapitalista, é desconhecer a natureza da relação social patrocinada pelo sistema produtor de mercadorias; é um atestado de ignorância sobre a natureza daquilo que se diz combater; é desconhecer a teoria marxiana da crítica à forma-valor; é querer humanizar o capitalismo. 

Posicionar-se a favor de um regime democrático liberal burguês na Venezuela é caminhar na contramão da história, por ignorância ou por um vil e mesquinho interesse capitalista. 

O que deve estar na pauta dos movimentos emancipacionistas, no mundo como um todo e na Venezuela em particular, é:
a) a superação da própria economia e não o seu aperfeiçoamento por meio de medidas periféricas e inócuas como o combate à corrupção estatal, a liberdade e melhoria da qualidade do voto, o ajuste da receita fiscal às despesas estatais, a promoção do empreendedorismo privado de pequenos empresários (como está a ocorrer em Cuba), etc.;  
b) a discussão de como chegarmos a um modo de produção mundialmente integrado, visando à satisfação das necessidades coletivas e destravando o restritivo mecanismo da viabilidade econômica do fazer (que está fazendo é aumentar a fome no mundo...), o que implicaria transcendermos o conceito de nação criado pela lógica capitalista; 
c) a plena incorporação do saber tecnológico adquirido pela humanidade ao processo produtivo, para, a partir disso, podermos promover uma distribuição planejada de bens indispensáveis à vida, de modo racional e ecologicamente sustentável, observando-se as vocações regionais e tendo-se em vista o interesse transnacional.
O povo venezuelano, como de resto os povos dos demais países periféricos do capitalismo, padecem as agruras do próprio capitalismo, e não o seu contrário. O socialismo bolivariano se baseia em categorias capitalistas para o pretenso combate ao capitalismo, algo assim como querer apagar o incêndio com gasolina; e tudo isso acontece por ignorância da natureza constitutiva do capital, ou por manipulação política inadmissível, o que seria um desvio de intenção abominável.

A primeira hipótese de ação política seria temerária e inócua, apenas fortalecendo politicamente os capitalistas liberais no longo prazo, quando a débâcle capitalista bater à porta; a segunda seria desonesta. 
Prefiro acreditar que o governo imaturo do socialismo bolivariano se situe na primeira hipótese, por acreditar na equivocada intenção dos que pensam afrontar o capitalismo, ainda que com armas inadequadas.  (por Dalton Rosado) 

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

SOBRE SEXO E POLÍTICA

César Benjamin merece respeito por sua militância na resistência à ditadura de 1964/85.

Não estou suficientemente informado sobre a trajetória posterior, sua atuação no PT e no PSOL, parecendo-me, à distância, um quadro político capaz de abrir mão de situações vantajosas em nome de suas convicções, o que é raro.

No entanto, derrapou melancolicamente ao escrever o que deveria ser uma análise do filme Lula, o filho do Brasil para a Folha de S. Paulo (Os Filhos do Brasil).

Acusa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de lhe haver revelado que tentou currar um preso jovem, durante o mês que passou preso no Dops em 1980.

Primeiramente, Benjamin já deveria saber que algo tão grave não pode ser trombeteado com respaldo tão frágil.

Não procurou a suposta vítima, nem sequer trouxe o endosso dos três brasileiros que, segundo ele, teriam escutado a conversa (afora um estadunidense que não entendia nosso idioma). Ficou na base do "ele disse, eu ouvi".

Sendo, como é, adversário político do Lula, estava obrigado a apresentar testemunhos para coonestar seu relato. Unicamente com os elementos contidos no texto, qualquer tribunal o condenaria como caluniador.

Também não vi pertinência. Por que exumar algo tão longínquo, se não presenciou o episódio, não conta com o aval da (repito) suposta vítima, nem tem certeza de que realmente ocorreu e de que se passou dessa maneira?

Sempre fui avesso à promiscuidade com o poder. Procuro manter, em relação aos poderosos, o que outrora chamávamos de distanciamento crítico.

No entanto, Lula não é nenhum Berlusconi. Pode ser criticado como qualquer ator político, mas sem golpes baixos.

O fato é que essa afirmação sem comprovação será difundida exaustivamente na internet e na imprensa, produzindo um estrago na imagem de Lula que poderá ser injusto.

Ou seja, mesmo que nada se prove e ninguém corrobore, ainda assim muitos cidadãos concluirão que a verdade estará sendo acobertada.

Quem já sofreu tantas acusações levianas da extrema-direita, como Benjamin, deveria ser o primeiro a não incidir na mesma prática.

POLANSKI FORA DAS GRADES

A Justiça suíça concedeu ao cineasta franco-polonês Roman Polanski o direito de aguardar em prisão domiciliar os trâmites do processo de extradição que os Estados Unidos lhe movem por um episódio obscuro de 32 anos atrás.

Polanski foi acusado de, numa festa de notáveis de Hollywood, haver mantido relações sexuais com uma modelo de 13 anos.

O termo estupro andou sendo utilizado levianamente pela imprensa brasileira, já que, em nosso País, subentende coação. Os estadunidenses, com seu moralismo de jecas, o aplicam até a sexo consentido, desde que praticado por adulto com menor. Faltou explicar esta diferença

Polanski admitiu ter transado com a modelo, mas afirmou que a relação foi consentida e que ela não era virgem.

Em meus artigos, concedi o benefício da dúvida a Polanski, por vários motivos:
  • o caso pareceu-me semelhante à arapuca que uma vigarista armou para extorquir dinheiro de Mike Tyson, inacreditavelmente apoiada pela Justiça dos EUA;
  • Polanski estava na mira dos segmentos mais conservadores e fanatizados da sociedade estadunidense desde 1968, quando dirigiu O Bebê de Rosemary, então pode ter havido parcialidade na condução do seu caso;
  • a suposta vítima acabou retirando, quando adulta, a queixa que seus país apresentaram contra Polanski;
  • como jornalista, conheço muito bem a compulsão por holofotes de alguns burocratas que exercem atividades tediosas e medíocres, então tenho absoluta certeza de que, fosse Polanski um cidadão comum, não estaria sendo perseguido de forma tão encarniçada tanto tempo depois; e
  • sempre considerei a prescrição de crimes um componente fundamental da civilização, então avalio como uma desumanidade os dois meses de detenção a que foi submetido Polanski, aos 76 anos de idade, quando sua periculosidade para a sociedade é nenhuma e sua contribuição, das mais relevantes.
O relaxamento da prisão de Polanski foi um passo na direção certa. Parabéns ao presidente francês Nicolas Sarkozy, por suas gestões providenciais!

Como fez no caso de Marina Petrella, ultimamente Sarkozy vem colocando os sentimentos humanitários à frente das razões de estado, o que contribui para tornar o ar de nosso planeta mais respirável. Houvesse só Berlusconis e o fedor seria insuportável.

HERDEIROS DA KU KLUX KLAN

Um bom companheiro de Orkut me advertiu, indignado, de que há um tópico homofóbico impunemente no ar: Pastores gays casam no Rio de Janeiro.

A comunidade se chama Sou de Direita, e daí?.

Isto comprova, mais uma vez, que a atuação do Ministério Público Federal no combate aos crimes virtuais deixa muito a desejar.

Praticamente se restringe ao estelionato e pedofilia, nada fazendo, p. ex., para defender a imagem dos resistentes que lutamos bravamente contra a ditadura militar e hoje somos, dia após dia, alvos de injúrias, difamações e calúnias nos sites e redes de e-mails fascistas.

De resto, a baixaria da comunidade direitista comprova que os reacionários brasileiros estão aí para limitar liberdades, disseminando o ódio e a irracionalidade. São herdeiros da Ku Klux Klan.
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