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domingo, 24 de fevereiro de 2019

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO... E DA CANÇÃO JAMAIS ESQUECIDA!

O saudoso cine Patriarca virou oficina mecânica
Muita água passou debaixo da ponte desde aquele domingo em que, como quase sempre fazia, acompanhei meu pai ao seu bico  de fim de semana.

Além do trabalho exaustivo numa fiação, ele sacrificava seu repouso para botar mais dinheiro em casa: recolhia apostas nas corridas de cavalo, em troca de uma comissão de 10%. Repassava-as por telefone a um tio-avô que vivia disto.

Este parente, que lembrava muito o personagem  Amigo da Onça (grande Péricles!), descarregava os jogos pesados em outras bancas, segurando só os que teria como pagar.

Então, na ampla casa do meu avô, os apostadores iam fazer sua fezinha e alguns passavam a tarde lá, assistindo ao futebol, torcendo ruidosamente na hora dos páreos televisionados (Vai! Vai! Vai! VVVVVVAAAAAIIII!!!), jogando dominó de cartas.

Eu tinha uns cinco anos e brincava com um ou outro amigo da turminha da rua que não tivesse coisa melhor para fazer em pleno domingão.

Certa vez, o único que estava por lá me convidou a ir até o cine Patriarca olhar os cartazes, a cinco quarteirões de distância. Fomos.
Para minha surpresa, ele levou um papo de coitadeza e convenceu um bom velhinho a nos pagar um ingresso. Parece que fazia sempre isto, pois o porteiro, sem discutir, permitiu que eu também entrasse, dois pelo preço de um.

O filme era sobre Ali Babá. Adorei a canção tipo chiclete (gruda no ouvido...) que acompanhou os letreiros iniciais, mas... passados uns 10 minutos eu resolvi ir embora, pois não avisara o meu pai e sabia que ele se preocuparia se não me encontrasse por lá. 

O senso de responsabilidade falou mais alto; no entanto, fiquei tão frustrado que a tal musiquinha jamais me saiu da cabeça... 


Sessenta anos depois, deparei-me num blogue de downloads com o filme
 Ali Babá and the forty thieves, de 1944, dirigido por Arthur Lubin. Fiquei curioso: seria este?

Fui atrás do vídeo no Youtube e constatei que não. Mas, na busca apareceu também o menos conhecido The adventures of Hajji Baba, de 1954 (d. Don Weis). Bingo!

Aquele tema que me deslumbrara tinha assinatura ilustre: Dimitri Tiomkin, de quem simplesmente adoro as composições para Sem Lei e Sem Alma. E o cantor era ninguém menos do que o Nat King Cole. Ouçam:
O filme já estava no Youtube, mas falado em inglês e sem legendas. Deixei pra lá.

Agora, contudo, apareceu legendado em vários blogs de cinema e até no Youtube. Por mero saudosismo, finalmente o vi inteiro... e me decepcionei, claro. Uma besteirinha sem nada a ver com as fascinantes fantasias das mil e uma noites.

Pelo menos a canção não me decepcionou, como costuma acontecer com as lembranças que o tempo e a imaginação colorem na nossa mente. A letra é bobinha, mas a gente ouve e fica com a música na cabeça, até se surpreende cantarolando

Caso dos gols guardados com tanto carinho na memória, mas que hoje, revistos nos vídeos que sobraram do saudoso Canal 100, mostram-se até banais, não resistindo à comparação com os de um Messi, p. ex.  

No fundo, talvez gostemos mesmo é de evocar o que éramos... e nunca mais seremos.

Vem-me à mente outro filme, este bem mais recente e muito melhor: Exótica, d. Atom Egoyan, 1994.

A certa altura, ele traduziu cruelmente em palavras a sensação que quase todos temos ao olharmos para trás, já na no último terço ou último quarto da jornada:
"Por que uma colegial nos parece tão atraente? É que ela tem a vida toda pela frente, e nós já desperdiçamos a nossa"

sábado, 17 de fevereiro de 2018

...E SE NOSSOS INTELECTUAIS DE ESQUERDA, ANTES QUE A VENEZUELA ARDA EM CHAMAS, AJUDASSEM A ENCONTRAR UMA SAÍDA?

Estou careca de saber que a exortação do Demétrio Magnoli, no artigo O manifesto ausente (17/02), cujos trechos principais estão reproduzidos abaixo, será desqualificada por muita gente na esquerda como uma maneira de ajudar o inimigo.

Mas, passou a hora dos clichês e das saídas pela tangente. Salta aos olhos e clama aos céus que a tragédia humanitária venezuelana não pode continuar, caso contrário se marchará inexoravelmente para um banho de sangue e para a derrubada violenta do governo de Nicolas Maduro. Se o convencermos a mudar imediatamente de rumo, talvez o pior ainda possa ser evitado.

Então, está certíssimo Magnoli em propor uma pressão que contribua para viabilizar a solução negociada do impasse atual. Qualquer alternativa à continuidade ou agravamento da penúria e do sofrimento do povo venezuelano é bem-vinda!

Por Demétrio Magnoli
"Há 120 anos, em 15 de janeiro de 1898, o jornal Le Temps publicou uma petição por um novo julgamento do major Ferdinand Esterhazy, o verdadeiro culpado pelo ato de traição atribuído a Alfred Dreyfus. Além de Émile Zola, autor do Eu acuso, assinavam-na Anatole France, Émile Durkheim, Marcel Proust, Claude Monet e várias outras figuras da vida cultural francesa. Naquele dia, nascia a tradição moderna dos manifestos políticos de intelectuais. 

A catástrofe humanitária na Venezuela pede, urgentemente, um manifesto de nossos intelectuais de esquerda. Duvido, porém, que eles tenham a clareza moral necessária para escrevê-lo.

A petição de 1898 cumpriu relevante função pública, ao contrário da maioria dos manifestos que vieram depois, quase sempre consagrados a fins tolos, frívolos ou francamente abjetos. (...) Hoje, porém, devo pedir justamente a eles que façam, uma vez na vida, o que fizeram Zola e cia: escrever para proteger valores preciosos.

Não conhecemos com precisão a dimensão da tragédia, pois o regime de Maduro proibiu o acesso à Venezuela da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da OEA. Mas o relatório parcial que ela produziu descreve um cenário de desnutrição infantil e carência generalizada de medicamentos básicos. 

Reportagem do Washington Post revela que famílias desesperadas já abandonam seus filhos pequenos em orfanatos. "As pessoas já não conseguem mais comida. Entregam seus filhos exatamente porque os amam", explicou Magdelis Salazar, assistente social em orfanato de Caracas. 
Junto com o fluxo de refugiados rumo à Colômbia e ao Brasil, configura-se a paisagem típica de um país em guerra –com a diferença de que não há guerra. Chico, Marilena, Comparato, Dallari, Alencastro, Maria Victoria, Fornazieri, Singer – onde estão vocês?

...No início de 2012, durante os dois meses de sua agonia em Cuba, Chávez organizou com os Castro a transição do poder para Maduro. O pacto desigual conferiu ao regime castrista o controle sobre os aparatos de segurança do Estado venezuelano, que é exercido por agentes dos órgãos de inteligência cubanos. 

A goma dos assessores cubanos imobiliza o chavismo crepuscular, prevenindo dissidências e impedindo uma saída negociada. O manifesto ausente faz falta pois Havana guarda a chave de uma solução pacífica para a Venezuela.

Nessas circunstâncias especiais, a palavra dos intelectuais de esquerda pode exercer uma efetiva influência indireta. O persistente silêncio deles serve como cobertura do apoio dos partidos brasileiros simpatizantes do castrismo à ditadura de Maduro.
Muitos venezuelanos estão vivendo nas ruas de Manaus

A ruptura do silêncio cúmplice (...) alteraria os termos da equação. O regime castrista precisa da legitimidade oferecida pela esquerda latino-americana. Sob pressão do PT, do PSOL e do PC do B, Havana possivelmente se moveria, reproduzindo o que fez no caso das Farc colombianas.

Nossos intelectuais de esquerda especializaram-se em manifestos partidários ou destinados a causas mesquinhas, como pedir o escalpo de algum articulista inconveniente. Que tal variar, em defesa dos direitos humanos dos venezuelanos comuns? Dessa vez, companheiros, vocês não são irrelevantes."
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