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domingo, 11 de dezembro de 2022

BRASIL DEVERIA TERMINAR A COPA NO 3º LUGAR E FICOU EM 7º. ISTO IMPORTA?

M
al Marquinhos mandou na trave a quarta cobrança brasileira na loteria dos pênaltis contra a Croácia, os brasileiros, eternamente imaturos, saíram atrás de culpados para o novo fracasso nas tentativas de conquista do hexa. 

O desabafo era vital para eles, já que não conseguem suportar derrotas nem manter um pingo de equilíbrio nos maus momentos.

Se fizessem uma comparação imparcial com a partida seguinte, na qual a Argentina também estava com a vitória nas mãos, também vacilou no finalzinho e também se defrontou com a possibilidade de perder a vaga para um selecionado nitidamente inferior, teriam chegado à conclusão de que:
— pela qualidade das seleções que permaneciam na disputa, se as melhores prevalecessem, o escrete canarinho teria passado por Croácia, mas não, de jeito nenhum, pela Argentina;
— então, alcançaria provavelmente  a terceira posição, ao invés de terminar na sétima, como acabou acontecendo. Isto realmente importa, se a nossa mentalidade, conforme bem definiu Nelson Piquet, sempre foi a de que o vice-campeão não passa do primeiro dentre os últimos?

Os argentinos, mesmo recebendo um banho de água fria no tempo normal, seguraram a onda no 1º tempo da prorrogação, terminaram o 2º criando sucessivas chances de gol e, finalmente, arrancaram a vaga nos pênaltis. Foram guerreiros. Fomos frouxos.
Era Menino Ney no início (2009) e continua sendo em 2022

Qual a maior diferença entre os dois escretes? Aquela que separa a liderança negativa de Neymar da liderança positiva de um Messi que, na sua última tentativa de vencer o Mundial Fifa de seleções, acrescentou aos seus predicados de melhor futebolista do século 21 uma combatividade digna do saudoso Maradona.

Culpa-se Tite, que realmente pecou em muitos detalhes, mas fato é que ele incorporou à seleção uma fornada de novos talentos que, bem lapidados, poderão render muito mais em 2026.

No entanto, esses jovens cresceram idolatrando o craque Neymar e até hoje o admiram incondicionalmente. Que sucesso teria Tite se os frustrasse afastando o ídolo de pés de barro ou, pelo menos, tentando diminuir sua ascendência sobre os fãs que viraram companheiros de seleção?

Não tenho como saber se Tite tanto fez para ter Neymar nesta Copa por mero erro de avaliação ou por haver concluído que se tratava de um mal menor. O certo é que, sem o adulto que se recusa a crescer (lembrando Peter Pan e Michael Jackson), o Brasil ficaria nitidamente inferiorizado numa decisão contra a França de Mbappé ou a Argentina de Messi.

Foi pior a emenda do que o soneto? Se o Tite dispusesse de uma bola de cristal, talvez fizesse outra escolha e se saísse melhor. Pois um escrete sem Neymar teria maior chance de disputar bem o 3º lugar ao invés de fracassar mal nas quartas-de-final. Mas, horóscopos quem fazia era o Olavo de Carvalho, aquele charlatão que serviu de Rasputin para o clã Bolsonaro...

Um aspecto óbvio da nocividade da liderança infanto-juvenil do Neymar foi ter-se reservado para cobrar o quinto pênalti, aquele que potencialmente lhe garantiria maior glória pessoal. 

Mas, deixar a primeira cobrança para Rodrygo foi atirar responsabilidade demais nos seus ombros jovens. Previsivelmente, ele falhou e isto acabou de desestabilizar o grupo em termos emocionais.

E a cobrança daquele que acabou sendo o último por parte de um beque foi uma reprise quase exata do ocorrido nas quartas-de-final de 1986, quando o Brasil empatou por 1x1 com a França e, nos pênaltis, o goleiro francês Bats defendeu nossa primeira cobrança e o zagueiro Júlio César disparou o derradeiro na trave, selando a desclassificação do nosso escrete.

Anos depois, quando o Zico fazia parte da seleção de veteranos do Luciano do Valle, entrevistei-o no hotel Transamérica (SP) sobre as lições que aquela Copa haviam deixado para a nova que estava prestes a começar. 

Perguntei-lhe o motivo de um defensor haver ficado com um pênalti tão importante. Ele respondeu:
"No tempo normal cobrei um [cavado por ele mesmo, vale acrescentar] e o Bats defendeu. Mas não fugi da responsabilidade  de cobrar o meu na decisão por pênaltis. Fui lá e converti. Já outros atacantes se omitiram e deu no que deu"
Dá para escrete sem cabeça tornar-se campeão mundial?
Por último, os cronistas esportivos da grande imprensa passaram batido por mais esta comprovação da falta que nos fazem grandes organizadores e cérebros dos times como Luka Modric (malgrado lhe tenha cabido a inglória tarefa de amiúde esfriar o jogo
, frustrando e irritando os apreciadores da arte futebolística no mundo inteiro)

Não tenho dúvidas de que com um Giorgian De Arrascaeta do nosso lado (ou, pelo menos, um Renato Augusto sem as limitações físicas atuais), poderíamos, sim, enfrentar os bichos papões desta Copa. Mas, não os formamos mais.

Por quê? Porque hoje nos resignamos a ser fornecedores de pé-de-obra para o exterior. E o que os europeus (os melhores fregueses) esperam de nós são malabarismos com a bola, dribles e gols de placa, não as funções pensantes, pois eles continuam intrinsecamente nos vendo como inferiores nesse quesito.

Enquanto formarmos jogadores priorizando seu valor de venda para o mercado internacional, continuaremos carentes em algumas posições. Mas, claro, você dificilmente lerá isto nos colunistas da grande imprensa aos quais não é permitido colocar o dedo nesta ferida fundamental: as distorções que o capitalismo ora nos impõe, inclusive no esporte. (por Celso Lungaretti)  

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

FALTOU-NOS O CRAQUE, UM LÍDER NO GRAMADO, ESPÍRITO VENCEDOR E SORTE

Nelson Rodrigues dixit
O Brasil se despede melancolicamente de um Mundial em que deveria pelo menos ter chegado às semifinais. Tão cedo não pegará outra baba dessas...

Embora o técnico Tite haja mesmo cometido erros, considero injusto atirar nas costas dele toda a culpa pela desclassificação na loteria dos pênaltis. 

Até porque a dita cuja quase sempre premia times e seleções que abdicam de jogar para ganhar e amontoam seus onze jogadores  atrás, esperando sair-se bem por meio de um discutível critério de desempate (preferível ao cara ou coroa mas pior do que os dados de desempenho no restante da competição).

[A Croácia, p. ex., tinha três empates e uma mísera vitória, enquanto o Brasil estava com três vitórias e uma derrota. É uma aberração os croatas agora disputarem semifinal de Copa do Mundo após empatarem quatro vezes com a de hoje, só derrotando os incipientes canadenses! Ainda bem que suas chances contra a Argentina serão nenhuma...]

O certo é que nosso selecionado fez o suficiente para derrotar os croatas, teve o controle da partida, criou chances para marcar pelo menos dois gols, mas deu sopa demais pro azar. 

Cometeu a infantilidade de lançar-se ao ataque a quatro minutos do encerramento da maratona de 120', quando não tinha necessidade nenhuma de fazer um segundo tento, precisando unicamente evitar o empate.

E foi uma maldade dos deuses dos estádios propiciarem aos croatas um gol casual, que jamais teria ocorrido sem o desvio do arremate no joelho do Marquinhos!

Mas, embora tenha revelado ultimamente muitos jogadores promissores, o Brasil se ressentiu flagrantemente da falta de bons laterais. O único que possuía nos dois lados do campo se contundiu gravemente às vésperas do Mundial: Guilherme Arana

Faltou-nos também o craque decisivo, que mais uma vez não foi o Neymar. Hoje ele fazia outra má partida e tirava a velocidade do ataque, retendo a bola muito além do aceitável no futebol atual. 

E há outro aspecto relevante: numa seleção brasileira com predominância de jovens, a principal influência em campo foi exercida por um adulto tipo Michael Jackson, cuja idade mental é a de um adolescente. 

Na hora do apuro, faltou quem lhes inspirasse a confiança de que poderiam vencer a inesperada dificuldade encontrada diante de um adversário interior na bola mas superior em personalidade.

Pitorescamente, a colega feminista Milly Lacombe escreveu, meio na contramão de suas posturas mais gerais, que não basta ser craque, é preciso ser homem. Concordo.

O golaço que Neymar marcou talvez lhe salvasse a reputação, mas o apagão coletivo quando mais necessária era a manutenção do foco colocou as coisas no lugar.  

Quem viu o Messi carregando nas costas uma Argentina sem Di Maria (este, baleado, só entrou no 2º tempo da prorrogação), percebeu a enorme diferença. 

Os aspectos de liderança no gramado e espírito vencedor têm, portanto, tudo a ver com o fato de, embora ambos fôssemos favoritos, os hermanos haverem seguido adiante e nós (com uma choradeira em público que fez lembrar a de outro marmanjão infantilizado, o Bozo), estarmos voltando para casa, trazendo na bagagem novo fracasso em quartas-de-final. 

Está se tornando um hábito... (por Celso Lungaretti)
O meu selecionado também não funcionou...

terça-feira, 4 de junho de 2019

ALELUIA! O BLOG FINALMENTE ENCONTROU UMA ANÁLISE EQUILIBRADA DO CASO "ESTUPRO OU EXTORSÃO?"

luíza sahd
GUARDE A TOCHA: QUEM TORCE POR JUSTIÇA NO CASO NEYMAR DEVERIA FICAR QUIETO
O final de semana foi marcado por uma discussão pública intensa sobre a acusação de estupro que veio à tona na última 6ª feira (31), contra Neymar. No sábado (1º), o jogador publicou um vídeo em seu Instagram expondo as conversas íntimas que teria mantido com a denunciante, via WhatsApp, antes e depois de encontrá-la num quarto de hotel em Paris. 

Além da conversa, o vídeo — que foi excluído ontem por violar os termos e condições do Instagram — mostrava imagens da denunciante nua. O rosto dela foi preservado pela edição, mas o nome foi divulgado abertamente no programa Brasil Urgente, apresentado por José Luiz Datena (que, coincidência ou não, responde processo por assédio sexual). Ou seja: a vida da moça está sendo devassada pela opinião pública.

Você pode estar se perguntando se Neymar está acima da lei por não ter sido punido na divulgação de conteúdo sexual envolvendo a denunciante. Para a promotora de justiça Silvia Chakian, que coordena o Grupo Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Ministério Público do Estado de São Paulo, até essa conclusão pode ter desfechos variados quando a hipótese de estupro for comprovada ou refutada. 

"É precipitado dizer que Neymar praticou o crime previsto no artigo 218-C do Código Penal ao divulgar as conversas de WhatsApp porque ele tem direito ao exercício da defesa dele, assim como ela — e essa troca de mensagens precisa ser analisada pela justiça. É impossível enquadrá-lo em algum crime enquanto as evidências ainda são objeto de investigação", explica. 

Há quem diga que Neymar está sendo muito mais exposto do que a denunciante por ser uma figura pública e há quem lembre que a modelo exposta na internet não tem as mesmas oportunidades que Neymar de defender a própria honra após ter nudes vazados. 

Sobre isso, Chakian também pondera: "Por um lado, Neymar está sofrendo uma acusação de crime hediondo, com muito estigma. Por outro, é inaceitável que uma mulher seja rotulada publicamente com base em seu comportamento sexual. Um crime gravíssimo foi noticiado e ele merece uma investigação exemplar, porque duas vidas e duas reputações estão em jogo", completa. 

Durante nossa conversa, a promotora ressaltou que outras responsabilidades sobre a divulgação de imagem e identidade da vítima também estão sendo investigadas pelos órgãos competentes. O veredicto sobre o crime de estupro pode mudar a forma como a justiça vai encarar a iniciativa do jogador ao divulgar uma troca de mensagens desse tipo. 
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TÁ, MAS O QUE A GENTE TEM COM ISSO? — Tudo e nada. Ao mesmo tempo em que a repercussão do caso gera diálogos fundamentais para o avanço do debate sobre violência de gênero, é impossível negar que o tribunal da internet pesou na decisão do jogador quando ele optou por expor a intimidade da denunciante. 

Além da própria reputação, é sabido que Neymar tem contratos publicitários milionários a perder caso seja condenado por alguma das acusações — e isso deixa o caso ainda mais tétrico para quem se irrita com o poder que o dinheiro tem de conduzir as pessoas a decisões equivocadas ou criminosas. 

Expor a intimidade de alguém que te acusa de abuso sexual não é uma boa ideia em nenhum caso, mas principalmente quando se é inocente. Fica parecendo que não é. O gesto de Neymar ao publicar o vídeo foi revoltante mesmo, e é natural que as pessoas queiram respostas legais sobre isso. 

Por outro lado, o debate leviano sobre casos sérios também foi o que nos fez testemunhar essa conduta lamentável do jogador. É difícil confiar na justiça brasileira e esse talvez seja um dos motivos pelos quais nos sentimos imbuídos da missão de fazê-la com nossos próprios teclados. 

Esse raciocínio, aliás, é bem sintomático durante um governo que pretende legalizar armas para que o cidadão não precise de segurança pública para se sentir seguro. 

Quanto à culpa ou inocência de Neymar, tanto as pessoas que acreditam que o jogador cometeu um estupro quanto as que acham que ele foi vítima de uma acusação falsa estão, agora, no mesmo barco. 

A quem acompanha o caso esperando por um desfecho justo, resta torcer para que a tal da investigação exemplar aconteça mesmo — e que novos debates públicos, mais lúcidos, possam se desenrolar nas redes. (por Luíza Sahd, jornalista, escritora e especialista em mídias digitais)
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TOQUE DO EDITOR — Eu não queria deixar um assunto do momento ausente do blog, mas tive receio de que minha antipatia pelo personagem contaminasse o texto. Então, optei por garimpar algo muito raro nos artigos sobre o novo imbroglio do Neymar: uma análise equilibrada. E encontrei esta acima, perfeita, da Luíza Sahd. 

Isto posto, considero-me liberado para dar meus pitacos de velho jornalista sobre o caso:
1. Neymar nada mais é do que um menino mimado de 27 anos, que desperdiça seu talento futebolístico por não ter cabeça para aproveitá-lo nem adulto que lhe imponha limites (faz-me lembrar muito o Michael Jackson, exceto nas preferências sexuais, claro!);
2foi vítima de uma óbvia arapuca, mas é culpado de agressão e de crime virtual;
3dá para imaginarmos que frustrar-lhe as expectativas, atentando contra seu narcisismo encruado e exacerbado, fizesse parte do script, pois era óbvio que a reação decorrente não poderia ser outra (o paralelo, aqui, é com outra cilada, aquela na qual caiu o pugilista Mick Tyson);
4é revelador que a primeira intenção fosse a de arrancar-lhe grana num processo civil e a denúncia criminal só tenha sido decidida depois que o Neymar pai se recusou a abrir a carteira, asnaticamente (o montante do prejuízo que o filho sofrerá é infinitamente superior ao que despenderia no acordo);
5ninguém é inocente nessa história. (por Celso Lungaretti)

domingo, 18 de novembro de 2018

SOU QUASE DESCONHECIDO. QUE DELÍCIA!

dalton rosado
AS DESVENTURAS DO EGO EXACERBADO E DA FAMA
Quincy Jones, o músico e produtor estadunidense festejado pelos mais proeminentes astros da música pop (ele foi produtor de ninguém menos do que Ray Charles, Frank Sinatra e Michael Jackson, entre outros), do alto do seu prestígio, convidou os mais destacados intérpretes para juntos cantarem trechos da música We are the world, com cunho beneficente. 

Todos aceitaram a tarefa humanitária, mas Quincy, conhecendo as vaidades humanas e em especial dos semideusas da música pop, colocou na porta a frase ao entrar, deixe o seu ego na porta. Como todos estivessem em pé de igualdade como superstars, entravam, desciam do Olimpo e se reumanizavam. 

Assim, tudo terminou como um grande sucesso (vide vídeo abaixo).

Houve um momento da minha vida, entre as décadas de 1970 e 1980, em que era relativamente conhecido em Fortaleza, por força da minha constante presença na mídia.
Reunião da prefeita Maria Luíza com seu secretariado

Isto se deveu inicialmente à minha atuação na defesa dos direitos humanos (fui advogado fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos humanos da Arquidiocese de Fortaleza, sob o arcebispado de D. Aluísio Lorcheider); depois, por ter sido secretário de Finanças e, em seguida, candidato apoiado por Maria Luíza Fontenele para sucedê-la à frente da prefeitura de Fortaleza. 

Ainda não tinha a compreensão da inocuidade do exercício de tais funções governamentais, que me viria quando aprofundei-me na crítica da economia política, mas posso afirmar que a relativa fama que experimentei não foi boa. 

Quando saía para qualquer evento público ou mesmo para um simples jantar, era sempre reconhecido (mesmo numa cidade que hoje conta com mais de 3 milhões de habitantes na grande Fortaleza) e eram dois os tipos de abordagens:
 a) agressões daqueles que por qualquer motivo não gostavam do que eu fazia ou deixava de fazer; 
b) a bajulação daqueles que me admiravam exageradamente ou queriam fazer o papel de papagaio de pirata e parecer amigo.
Elvis Presley, decadente e obeso, 3 meses antes da morte
Ambos os procedimentos, claro, me desagradavam. Assim, quando podia, o que mais gostava era de ficar em casa lendo, escrevendo, ou assistindo a um bom filme, como qualquer mortal.

O tempo passou, fui mudando os meus conceitos, distanciando-me dos holofotes da mídia e, passadas exatas três décadas (a minha candidatura, que acabou causando a expulsão do PT, era contra o Ciro Gomes em 1988), sou quase desconhecido. Que delícia! 

Fico a imaginar o preço que muitos astros e celebridades internacionais pagam pela fama, que já destruiu vidas e mais vidas.  

Elvis Presley, o rei do rock’n’roll, morreu aos 42 anos abandonado por sua belíssima mulher Priscila Presley, quando tantas outras suspiravam ao vê-lo nos palcos. Um abandono que mexeu com seu ego de símbolo sexual (acreditando no próprio mito, ele supunha ser alguém muito especial nesse campo...).

Elvis experimentou uma vida reclusa em hotéis e em Graceland (a sua mansão), cercado por bajuladores (a chamada máfia de Memphis), entediado por ver tudo que tocava virar ouro.
"Menino rebelde e encrenqueiro"? Disfarçava bem...

Tal qual o rei Midas da fábula, acabou sendo destruído pela fama e pelo dinheiro abundante, que não compensam estar-se privado do mais simples, natural e prazeroso deleite da vida humana: o convívio anônimo com bons amigos e a possibilidade e de fazer aquilo de que mais se gosta sem ser foco permanente de atenção.

Os primeiros momentos da fama são deslumbrantes para quem buscou-a com afinco, talento e desejo de ser reconhecido, ainda mais quando se trata de alguém antes tratado como pária social (caso de John Lennon, o menino rebelde e encrenqueiro criado pela tia e cuja relação com a mãe que amava era das mais tempestuosas).

Mas, tão logo esse desejo de reconhecimento é alcançado (os artistas buscam abnegadamente a fama, ignorando as suas armadilhas),aparece o outro lado da moeda. Logo vêm:
a) a reclusão em hotéis e residências, cercados por pessoas geralmente fúteis e interesseiras que apenas querem ser vistas ao lado do grande astro (quase sempre levando para descaminhos não recomendáveis); 
"A fama excessiva é destrutiva"
b) a busca pelo prazer sofisticado e falsamente superdimensionado, que muitas vezes deriva para o uso de drogas ou para práticas de consumo espetaculares, inacessíveis aos simples e pobres mortais, que terminam por demonstrar o vazio de tais experiências.
A verdade é que a felicidade, sempre buscada mas geralmente fugaz, está nas coisas mais simples que um ser humano possa fazer e sentir, tal como um beijo espontâneo e agradecido de um filho(a) que sente em você um pilar de apoio e carinho, ou um gesto de amizade sincero numa hora difícil.

O ego exacerbado e a fama excessiva são destrutivas, principalmente para quem acredita no próprio mito. (por Dalton Rosado)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

NÁUFRAGO DA UTOPIA/5 ANOS: MICHAEL JACKSON NUMA VISÃO ICONOCLASTA

Inaugurado em 08/08/2008, este blogue completará cinco anos com quase 700 seguidores e mais de 770 mil visualizações de páginas, originárias do Brasil (600 mil), EUA (90 mil), Rússia (16,7 mil), Portugal (13 mil) e Alemanha (6,2 mil), principalmente.

Os textos postados estão na casa de 2,1 mil, sendo mais de 300 com o marcador Cesare Battisti; quando da libertação do escritor que a Itália queria silenciar, o total já era de aproximadamente 250. 

Foi a mais prolongada e --considerando-se a extrema desigualdade de forças--, surpreendentemente vitoriosa campanha assumida pelo blogue, que também se colocou ao lado do cineasta Roman Polanski; do ex-etarra Joseba Gotzon; de Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden, que escancararam para o mundo a nudez do rei; da iraniana Sakineh Ashtiani, quase-vítima da intolerância medieval; do movimento estudantil em geral e dos universitários da USP em particular (pois submetidos a controle policial como nos piores tempos da ditadura militar); e do de outros humilhados e ofendidos no dia a dia brasileiro.   

Afora as lutas travadas contra as múltiplas facetas e manifestações do autoritarismo, inclusive no seio da web; e a defesa permanente dos direitos humanos, dos ideais revolucionários e da memória da resistência à ditadura de 1964/85, da qual tenho orgulho de haver participado, ao lado de alguns dos melhores cidadãos que este país já produziu.

Dos textos mais clicados no blogue, o 2º lugar é de 30/06/2009, tinha até agora 3.939 hits e está sendo republicado abaixo, como parte desta pequena retrospectiva que incluirá também os meus três favoritos e um balanço do caminho até aqui percorrido.

É um fruto tardio da minha fase de crítico de rock e editor de revistas musicais, quando cheguei a redigir o texto de uma publicação inteiramente dedicada ao  fenômeno  Michael Jackson. Por ocasião de sua morte, já sem as limitações de outrora, pude escrever o que realmente pensava sobre tal fenômeno, dando vazão ao meu ódio visceral à indústria cultural e à minha comiseração por suas vítimas, inclusive MJ.

MICHAEL JACKSON (1958-2009): 
DO BOI SÓ SE PERDE O BERRO

Do boi só se perde o berro, diziam os antigos. Foi o que me veio à cabeça ao assistir à overdose de Michael Jackson em jornais, revistas, rádios e tevês.

A mesma indústria cultural que deu projeção exageradíssima a quem tinha talento, é verdade, mas nunca foi um revolucionário da música como os Beatles; que tanto glamourizou suas esquisitices de adulto malresolvido, como se fosse desejável que quarentões se comportassem à maneira de impúberes; que foi de uma crueldade ímpar ao expor o que me pareceu ser mais uma atração platônica pelos jovens do que pedofilia propriamente dita (ou seja, ele continuaria estacionado na sexualidade infantil, impotente para chegar às vias de fato); e que o relegou ao ostracismo quando sua imagem se tornou politicamente incorreta - agora transforma sua morte num repulsivo espetáculo de canonização midiática.

Nunca apreciei a música do Jacksons 5, nem a que ele fez depois na sua carreira-solo. Comercial demais para o meu gosto de rockeiro apegado às origens bluesísticas.

Ademais, os malditos videoclips, de quem Jackson foi o rei, marcam a retomada do controle por parte da indústria cultural, depois de ter sido obrigada a submeter-se à explosão roqueira durante alguns anos gloriosos, entre o final dos '60 e o início dos '70.

Nunca esquecerei de Joe Cocker, depois de um animado passeio por São Paulo, entrando diretamente no palco, com a roupa que vestia. Para arrasar, com sua entrega incondicional à música.

Nunca esquecerei da temporada do Cream em que os fulgurantes improvisos de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker faziam com que, noite após noite, os números tivessem duração diferente.

Nunca esquecerei de Jimi Hendrix, com sua beleza selvagem, implodindo o hino estadunidense em Woodstock.

Os clips dos anos 70 significaram a substituição do talento bruto pela produção onerosa, da paixão pelo ensaio, da arte pelo espetáculo. E Michael Jackson acabou simbolizando essa domesticação.

Mas, seu destino como ser humano vitimado por essa engrenagem perversa sempre me inspirou compaixão. É triste vermos como um menino bonito, simpático e espontâneo, após receber o toque de Sadim (Midas às avessas) do sistema, tornou-se um adulto descaracterizado e sofredor.

Até sua cor quis negar, ao invés de orgulhar-se dela como o grande Muhammad Ali. Acabou ficando com imagem idêntica à dos vampiros mutantes de um clássico do terror, A Última Esperança da Terra (d. Boris Sagal, 1971), como se castigado pelos deuses.

Foi sugado, espremido e jogado fora. Aí a comoção causada por sua morte deu chance a um reaproveitamento do bagaço, para faturarem mais um pouquinho.

A indústria cultural é um dos componentes mais doentios e malignos do capitalismo putrefato. Casos como o de Michael Jackson dão uma dimensão total de sua capacidade de destruir seres humanos para saciar a curiosidade mórbida de seus públicos, movida pelo amoralismo do lucro.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

OUTROS TEMPOS, OUTROS MUNDOS

É o título de uma coletânea de contos  sci-fi  de Robert Silverberg, lançada em 1970.

Menos valorizado que Asimov, Bradbury e K. Dick, ele é autor de uma indiscutível obra-prima, Mundos fechados (1973).

Mas, não é propriamente de Silverberg que eu quero falar, mas sim da sensação que tive ao ler a coluna desta 5ª feira (10) de Carlos Heitor Cony, O abuso das algemas, sobre Conrad Murray, o médico que querem jogar numa prisão porque Michael Jackson morreu:
"Ele foi condenado em primeira instância porque estava ausente do quarto onde o cantor, já devidamente dopado, tomou uma overdose do remédio que o matou. Que houve culpa do médico é evidente: sabendo da situação, ele deveria estar junto ao leito do artista ou ter retirado o remédio de seu alcance.

Daí a acusação de homicídio culposo. Tudo bem, a justiça foi feita, pelo menos em sua primeira etapa. O que não compreendi foi o ritual dos guardas logo após a leitura da sentença: algemaram o médico.

Em nenhum momento ele ameaçou fugir, agredir quem quer que fosse, não tinha antecedentes criminais e estava sendo julgado por homicídio não qualificado, com direito a apelação.

Compreende-se a condenação, mas não a violência das algemas. Se mais tarde for absolvido, ele terá sido vítima de um ritual judiciário-policial, completamente desnecessário no caso dele".
Cony é, como eu, de outro tempo e de outro mundo.

Do tempo em que ainda havia brasileiros cordiais e do mundo no qual ninguém considerava justificável virar uma universidade pelo avesso porque três jovens fumavam maconha sem prejudicarem a ninguém exceto, talvez, a eles mesmos.

Hoje, há um clamor popular por repressão e truculência, repulsivamente insuflado e maximizado pela indústria cultural. Não se quer justiça, quer-se linchamento (moral ou real) em público.

Cada telespectador, convenientemente adestrado pelos Big Brothers do pós-1984, sente-se aliviado ao desempenhar, ainda que imaginariamente, o papel de juiz e carrasco. A catarse lhe é provida pela indústria cultural, para que continue funcionando a contento numa sociedade desumanizada.

Então, bem-vindas as vozes que ainda alertam contra a escalada do autoritarismo!

Mesmo que o façam timidamente, pois não é só o uso de algemas que está errado no caso em questão, mas sim o caso inteiro: o médico não pretendeu cometer crime nenhum, foi apenas incompetente. Merece ser privado do direito de exercer a profissão, mas não da liberdade.

Tanto quanto a enfermeira que injetou leite na veia de um recém-nascido e lhe causou a morte. O que mais havia a fazer-se, além de a demitir? Por maior que seja nossa dor, não podemos clamar por vingança quando inexistiu intenção dolosa. 

É outra que jamais vai exercer de novo tal ofício e, espero, sofrerá com a lembrança de como provocou o próprio infortúnio e o de coitadezas obrigados a recorrerem à saúde dos pobres na rica São Paulo.

A devastação que sofremos é outra, mas caem como uma luva as palavras do dirigente esportivo chileno Carlos Dittborn quando, às vésperas do Mundial de 1962, a infra-estrutura com que seu país contava para sediar a Copa do Mundo de 1962 foi seriamente comprometida por forte terremoto: "Porque nada tenemos, lo haremos todo!"

Nosso mundo foi reduzido a nada, neste tempo em que a selvageria do capitalismo está sendo introjetada nos espíritos e devolvida na forma de hostilidade, preconceitos, grosserias, agressões -- várias facetas da barbárie que, paradoxalmente, recrudesce quando estamos no auge de nosso desenvolvimento científico e tecnológico.

O que nos obriga a reconstrui-lo por inteiro, tendo a igualdade, a harmonia e a felicidade dos homens como referenciais e valores supremos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

MICHAEL JACKSON: ESPREMIDO, JOGADO FORA, REAPROVEITADO

Hoje é dia de se derramar lágrimas por Michael Jackson. As da indústria cultural, claro, são lágrimas de crocodilo. As dos fãs, sinceras.

Mas, daí a sentir-me obrigado a acompanhá-los na superestimação dos talentos do seu ídolo vai uma grande distância.

Então, também vou embarcar na onda nostálgica. Só que minha evocação é outra: do período em que exerci a crítica roqueira, tentando ir além da superficialidade dominante e evitando fazer média com o sucesso comercial.

Foi imbuído do mesmo espírito que, 25 anos depois, escrevi o artigo abaixo, tão execrado pelos fãs do artista -- que não entenderam patavina...


MICHAEL JACKSON (1958 - 2009)
Do boi só se perde o berro, diziam os antigos. Foi o que me veio à cabeça ao assistir à overdose de Michael Jackson em jornais, revistas, rádios e tevês.

A mesma indústria cultural que deu projeção exageradíssima a quem tinha talento, é verdade, mas nunca foi um revolucionário da música como os Beatles; que tanto glamourizou suas esquisitices de adulto malresolvido, como se fosse desejável que quarentões se comportassem à maneira de impúberes; que foi de uma crueldade ímpar ao expor o que me pareceu ser mais uma atração platônica pelos jovens do que pedofilia propriamente dita (ou seja, ele continuaria estacionado na sexualidade infantil, impotente para chegar às vias de fato); e que o relegou ao ostracismo quando sua imagem se tornou politicamente incorreta - agora transforma sua morte num repulsivo espetáculo de canonização midiática.

Nunca apreciei a música do Jacksons 5, nem a que ele fez depois na sua carreira-solo. Comercial demais para o meu gosto de rockeiro apegado às origens bluesísticas.

Ademais, os malditos videoclips, de quem Jackson foi o rei, marcam a retomada do controle por parte da indústria cultural, depois de ter sido obrigada a submeter-se à explosão roqueira durante alguns anos gloriosos, entre o final dos '60 e o início dos '70.

Nunca esquecerei de Joe Cocker, depois de um animado passeio por São Paulo, entrando diretamente no palco, com a roupa que vestia. Para arrasar, com sua entrega incondicional à música.

Nunca esquecerei da temporada do Cream em que os fulgurantes improvisos de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker faziam com que, noite após noite, os números tivessem duração diferente.

Nunca esquecerei de Jimi Hendrix, com sua beleza selvagem, implodindo o hino estadunidense em Woodstock.

Os clips dos anos 70 significaram a substituição do talento bruto pela produção onerosa, da paixão pelo ensaio, da arte pelo espetáculo. E Michael Jackson acabou simbolizando essa domesticação.

Mas, seu destino como ser humano vitimado por essa engrenagem perversa sempre me inspirou compaixão. É triste vermos como um menino bonito, simpático e espontâneo, após receber o toque de Sadim (Midas às avessas) do sistema, tornou-se um adulto descaracterizado e sofredor.

Até sua cor quis negar, ao invés de orgulhar-se dela como o grande Muhammad Ali. Acabou ficando com imagem idêntica à dos vampiros mutantes de um clássico do terror,
A Última Esperança da Terra (d. Boris Sagal, 1971), como se castigado pelos deuses.

Foi sugado, espremido e jogado fora. Aí a comoção causada por sua morte deu chance a um reaproveitamento do bagaço, para faturarem mais um pouquinho.

A indústria cultural é um dos componentes mais doentios e malignos do capitalismo putrefato. Casos como o de Michael Jackson dão uma dimensão total de sua capacidade de destruir seres humanos para saciar a curiosidade mórbida de seus públicos, movida pelo amoralismo do lucro.


A música que o sistema não conseguia domesticar: Joe Cocker em Woodstock.

terça-feira, 30 de junho de 2009

MICHAEL JACKSON (1958-2009): DO BOI SÓ SE PERDE O BERRO

Do boi só se perde o berro, diziam os antigos. Foi o que me veio à cabeça ao assistir à overdose de Michael Jackson em jornais, revistas, rádios e tevês.

A mesma indústria cultural que deu projeção exageradíssima a quem tinha talento, é verdade, mas nunca foi um revolucionário da música como os Beatles; que tanto glamourizou suas esquisitices de adulto malresolvido, como se fosse desejável que quarentões se comportassem à maneira de impúberes; que foi de uma crueldade ímpar ao expor o que me pareceu ser mais uma atração platônica pelos jovens do que pedofilia propriamente dita (ou seja, ele continuaria estacionado na sexualidade infantil, impotente para chegar às vias de fato); e que o relegou ao ostracismo quando sua imagem se tornou politicamente incorreta - agora transforma sua morte num repulsivo espetáculo de canonização midiática.

Nunca apreciei a música do Jacksons 5, nem a que ele fez depois na sua carreira-solo. Comercial demais para o meu gosto de rockeiro apegado às origens bluesísticas.

Ademais, os malditos videoclips, de quem Jackson foi o rei, marcam a retomada do controle por parte da indústria cultural, depois de ter sido obrigada a submeter-se à explosão roqueira durante alguns anos gloriosos, entre o final dos '60 e o início dos '70.

Nunca esquecerei de Joe Cocker, depois de um animado passeio por São Paulo, entrando diretamente no palco, com a roupa que vestia. Para arrasar, com sua entrega incondicional à música.

Nunca esquecerei da temporada do Cream em que os fulgurantes improvisos de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker faziam com que, noite após noite, os números tivessem duração diferente.

Nunca esquecerei de Jimi Hendrix, com sua beleza selvagem, implodindo o hino estadunidense em Woodstock.

Os clips dos anos 70 significaram a substituição do talento bruto pela produção onerosa, da paixão pelo ensaio, da arte pelo espetáculo. E Michael Jackson acabou simbolizando essa domesticação.

Mas, seu destino como ser humano vitimado por essa engrenagem perversa sempre me inspirou compaixão. É triste vermos como um menino bonito, simpático e espontâneo, após receber o toque de Sadim (Midas às avessas) do sistema, tornou-se um adulto descaracterizado e sofredor.

Até sua cor quis negar, ao invés de orgulhar-se dela como o grande Muhammad Ali. Acabou ficando com imagem idêntica à dos vampiros mutantes de um clássico do terror, A Última Esperança da Terra (d. Boris Sagal, 1971), como se castigado pelos deuses.

Foi sugado, espremido e jogado fora. Aí a comoção causada por sua morte deu chance a um reaproveitamento do bagaço, para faturarem mais um pouquinho.

A indústria cultural é um dos componentes mais doentios e malignos do capitalismo putrefato. Casos como o de Michael Jackson dão uma dimensão total de sua capacidade de destruir seres humanos para saciar a curiosidade mórbida de seus públicos, movida pelo amoralismo do lucro.
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