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domingo, 2 de janeiro de 2022

OS QUE NÃO REAGEM AO EXTERMÍNIO DE 200 MIL BRASILEIROS, CHORAM POR CAUSA DA DEPRESSÃO DO INFLUENCIADOR DIGITAL

Felipe Neto, que é um dos mais conhecidos influenciadores digitais (?!) do Brasil, com várias dezenas de milhões de seguidores nas três principais plataformas (Youtube, Instagram e Facebook), entrou em parafuso por causa de uma separação amorosa.

Escancarou seu drama na web, em tuítes que chegaram a ser reproduzidos até pela grande imprensa. Eis um trecho:
"Eu caí. Eu caí legal. E estou lá... no fundo do poço, com 20cm de fezes, que não é suficiente pra me afogar, mas o suficiente pra querer afogar".
E agradece aos que o estão ajudando a atravessar a depressão: famílias, amigos, leitores que lhe mandam mensagens, etc., etc., etc. 

[Ah, meu Deus, o que será de nós se o famoso influenciador digital morrer? O Brasil jamais será o mesmo...]  

Só que, adiante, ele esnoba essa esdrúxula mobilização (nunca tantos se incomodaram tanto com tão pouco) e diz que está sendo salvo mesmo é pelos médicos:
"Nada disso estaria realmente funcionando se eu não estivesse com acompanhamento psiquiátrico psiquiátrico e medicação"
Eu também lamento imensamente... o estado de emburrecimento a que o Brasil chegou, capaz de ter como grande atração televisiva um programa voyeurista que explora a compulsão sórdida de espiar-se a intimidade alheia, com a câmara servindo durante meses e meses como buraco de fechadura; e de dar uma importância tão absurdamente desmesurada a episódios como o que o Felipe Neto está atravessando e pelos quais todos nós também passamos.

Antes o que nos chegavam eram testemunhos de quem conseguia extrair de suas dores verdadeiras obras-primas, e não dos que fizessem dissertações sobre a merda. Nas mãos, p. ex., dos grandes Geraldo Vandré, Jacques Brel, Luiz Vieira, Eric Clapton e Chico Buarque, esses dramas se tornaram canções lancinantes como estas abaixo:  
"Ah, eu vou voltar pra mim, seguir sozinho assim, até me consumir ou
consumir toda essa dor, até sentir de novo o coração capaz de amor"
.
"'Não me abandone, eu não vou mais chorar, eu não vou mais falar. 
Me esconderei aqui, só para te ver dançar e sorrir. 
E para te ouvir cantar e depois rir"
.
 "Tanta coisa lhe disseram, como esse mundo é ruim! Pensaram
tanto em você, mas ninguém desejou ver o que acontecia a mim"
.
"Como um tolo, me apaixonei por você, você virou meu mundo inteiro de
cabeça pra baixo. Layla, você me deixou de joelhos, Layla. Estou implorando
querida, por favor, Layla, querida, você não acalmará minha mente agoniada?"
.
"Trocando em miúdos, pode guardar as sobras de tudo que chamam
lar, as sombras de tudo que fomos nós, as marcas do amor 
nos nossos  lençóis, as nossas melhores lembranças"
.
Juro que tento com todas as forças acreditar que o povo brasileiro ainda despertará de suas seculares resignação e apatia. 

Mas foi exasperante vê-las chegarem ao ápice na pandemia de covid, quando um presidente com gritantes traços de insanidade mental, ao sabotar a imprescindível vacinação, levou à morte cerca de 200 mil pessoas que, inexistindo tal negacionismo infame, teriam sobrevivido... e nem assim houve a reação popular que se impunha face a tão medonho extermínio! 

O que se pode esperar de quem não reage nem para salvar a própria vida e a dos seus entes queridos?

E de quem continua interessado em chororô de famosos quando seu país está entrando no olho de um furacão? (por Celso Lungaretti)
Observações: "Layla" não é exatamente uma canção sobre o sofrimento de uma separação e sim do de um amor não correspondido. Mas, é tão bela e tocante que a resolvi incluir. 
Jacques Brel em 1966
Como nem todos compreenderão o drama de Luiz Vieira, esclareço que no início de carreira, comunista, ele cantava nas feiras nordestinas para conscientizar o povo e tinha de fugir correndo quando chegava a polícia. 
Daí a insistência de todo o círculo familiar e de amigos daquela moça de classe média pela qual ele se apaixonou, os quais não desistiram até conseguirem afastá-la dele. "Pensaram tanto em você, mas ninguém desejou ver o que acontecia a mim."
E, como eu queria evidenciar principalmente as letras, usei uma versão de "Ne me quites pas" bem posterior ao momento em que Jacques Brel estava em cacos. Mas, quem quiser ver sua emoção em 1966, no calor dos acontecimentos (só que com legenda em inglês), clique aqui e assistirá a uma das performances mais dolorosas que eu conheço. (CL)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

NÁUFRAGO DA UTOPIA/5 ANOS: MICHAEL JACKSON NUMA VISÃO ICONOCLASTA

Inaugurado em 08/08/2008, este blogue completará cinco anos com quase 700 seguidores e mais de 770 mil visualizações de páginas, originárias do Brasil (600 mil), EUA (90 mil), Rússia (16,7 mil), Portugal (13 mil) e Alemanha (6,2 mil), principalmente.

Os textos postados estão na casa de 2,1 mil, sendo mais de 300 com o marcador Cesare Battisti; quando da libertação do escritor que a Itália queria silenciar, o total já era de aproximadamente 250. 

Foi a mais prolongada e --considerando-se a extrema desigualdade de forças--, surpreendentemente vitoriosa campanha assumida pelo blogue, que também se colocou ao lado do cineasta Roman Polanski; do ex-etarra Joseba Gotzon; de Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden, que escancararam para o mundo a nudez do rei; da iraniana Sakineh Ashtiani, quase-vítima da intolerância medieval; do movimento estudantil em geral e dos universitários da USP em particular (pois submetidos a controle policial como nos piores tempos da ditadura militar); e do de outros humilhados e ofendidos no dia a dia brasileiro.   

Afora as lutas travadas contra as múltiplas facetas e manifestações do autoritarismo, inclusive no seio da web; e a defesa permanente dos direitos humanos, dos ideais revolucionários e da memória da resistência à ditadura de 1964/85, da qual tenho orgulho de haver participado, ao lado de alguns dos melhores cidadãos que este país já produziu.

Dos textos mais clicados no blogue, o 2º lugar é de 30/06/2009, tinha até agora 3.939 hits e está sendo republicado abaixo, como parte desta pequena retrospectiva que incluirá também os meus três favoritos e um balanço do caminho até aqui percorrido.

É um fruto tardio da minha fase de crítico de rock e editor de revistas musicais, quando cheguei a redigir o texto de uma publicação inteiramente dedicada ao  fenômeno  Michael Jackson. Por ocasião de sua morte, já sem as limitações de outrora, pude escrever o que realmente pensava sobre tal fenômeno, dando vazão ao meu ódio visceral à indústria cultural e à minha comiseração por suas vítimas, inclusive MJ.

MICHAEL JACKSON (1958-2009): 
DO BOI SÓ SE PERDE O BERRO

Do boi só se perde o berro, diziam os antigos. Foi o que me veio à cabeça ao assistir à overdose de Michael Jackson em jornais, revistas, rádios e tevês.

A mesma indústria cultural que deu projeção exageradíssima a quem tinha talento, é verdade, mas nunca foi um revolucionário da música como os Beatles; que tanto glamourizou suas esquisitices de adulto malresolvido, como se fosse desejável que quarentões se comportassem à maneira de impúberes; que foi de uma crueldade ímpar ao expor o que me pareceu ser mais uma atração platônica pelos jovens do que pedofilia propriamente dita (ou seja, ele continuaria estacionado na sexualidade infantil, impotente para chegar às vias de fato); e que o relegou ao ostracismo quando sua imagem se tornou politicamente incorreta - agora transforma sua morte num repulsivo espetáculo de canonização midiática.

Nunca apreciei a música do Jacksons 5, nem a que ele fez depois na sua carreira-solo. Comercial demais para o meu gosto de rockeiro apegado às origens bluesísticas.

Ademais, os malditos videoclips, de quem Jackson foi o rei, marcam a retomada do controle por parte da indústria cultural, depois de ter sido obrigada a submeter-se à explosão roqueira durante alguns anos gloriosos, entre o final dos '60 e o início dos '70.

Nunca esquecerei de Joe Cocker, depois de um animado passeio por São Paulo, entrando diretamente no palco, com a roupa que vestia. Para arrasar, com sua entrega incondicional à música.

Nunca esquecerei da temporada do Cream em que os fulgurantes improvisos de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker faziam com que, noite após noite, os números tivessem duração diferente.

Nunca esquecerei de Jimi Hendrix, com sua beleza selvagem, implodindo o hino estadunidense em Woodstock.

Os clips dos anos 70 significaram a substituição do talento bruto pela produção onerosa, da paixão pelo ensaio, da arte pelo espetáculo. E Michael Jackson acabou simbolizando essa domesticação.

Mas, seu destino como ser humano vitimado por essa engrenagem perversa sempre me inspirou compaixão. É triste vermos como um menino bonito, simpático e espontâneo, após receber o toque de Sadim (Midas às avessas) do sistema, tornou-se um adulto descaracterizado e sofredor.

Até sua cor quis negar, ao invés de orgulhar-se dela como o grande Muhammad Ali. Acabou ficando com imagem idêntica à dos vampiros mutantes de um clássico do terror, A Última Esperança da Terra (d. Boris Sagal, 1971), como se castigado pelos deuses.

Foi sugado, espremido e jogado fora. Aí a comoção causada por sua morte deu chance a um reaproveitamento do bagaço, para faturarem mais um pouquinho.

A indústria cultural é um dos componentes mais doentios e malignos do capitalismo putrefato. Casos como o de Michael Jackson dão uma dimensão total de sua capacidade de destruir seres humanos para saciar a curiosidade mórbida de seus públicos, movida pelo amoralismo do lucro.

terça-feira, 30 de junho de 2009

MICHAEL JACKSON (1958-2009): DO BOI SÓ SE PERDE O BERRO

Do boi só se perde o berro, diziam os antigos. Foi o que me veio à cabeça ao assistir à overdose de Michael Jackson em jornais, revistas, rádios e tevês.

A mesma indústria cultural que deu projeção exageradíssima a quem tinha talento, é verdade, mas nunca foi um revolucionário da música como os Beatles; que tanto glamourizou suas esquisitices de adulto malresolvido, como se fosse desejável que quarentões se comportassem à maneira de impúberes; que foi de uma crueldade ímpar ao expor o que me pareceu ser mais uma atração platônica pelos jovens do que pedofilia propriamente dita (ou seja, ele continuaria estacionado na sexualidade infantil, impotente para chegar às vias de fato); e que o relegou ao ostracismo quando sua imagem se tornou politicamente incorreta - agora transforma sua morte num repulsivo espetáculo de canonização midiática.

Nunca apreciei a música do Jacksons 5, nem a que ele fez depois na sua carreira-solo. Comercial demais para o meu gosto de rockeiro apegado às origens bluesísticas.

Ademais, os malditos videoclips, de quem Jackson foi o rei, marcam a retomada do controle por parte da indústria cultural, depois de ter sido obrigada a submeter-se à explosão roqueira durante alguns anos gloriosos, entre o final dos '60 e o início dos '70.

Nunca esquecerei de Joe Cocker, depois de um animado passeio por São Paulo, entrando diretamente no palco, com a roupa que vestia. Para arrasar, com sua entrega incondicional à música.

Nunca esquecerei da temporada do Cream em que os fulgurantes improvisos de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker faziam com que, noite após noite, os números tivessem duração diferente.

Nunca esquecerei de Jimi Hendrix, com sua beleza selvagem, implodindo o hino estadunidense em Woodstock.

Os clips dos anos 70 significaram a substituição do talento bruto pela produção onerosa, da paixão pelo ensaio, da arte pelo espetáculo. E Michael Jackson acabou simbolizando essa domesticação.

Mas, seu destino como ser humano vitimado por essa engrenagem perversa sempre me inspirou compaixão. É triste vermos como um menino bonito, simpático e espontâneo, após receber o toque de Sadim (Midas às avessas) do sistema, tornou-se um adulto descaracterizado e sofredor.

Até sua cor quis negar, ao invés de orgulhar-se dela como o grande Muhammad Ali. Acabou ficando com imagem idêntica à dos vampiros mutantes de um clássico do terror, A Última Esperança da Terra (d. Boris Sagal, 1971), como se castigado pelos deuses.

Foi sugado, espremido e jogado fora. Aí a comoção causada por sua morte deu chance a um reaproveitamento do bagaço, para faturarem mais um pouquinho.

A indústria cultural é um dos componentes mais doentios e malignos do capitalismo putrefato. Casos como o de Michael Jackson dão uma dimensão total de sua capacidade de destruir seres humanos para saciar a curiosidade mórbida de seus públicos, movida pelo amoralismo do lucro.
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