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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

SOBRE RESSENTIDOS E LOBOS

juca kfouri
BOLA PLANA
Bate uma certa tristeza quando, p. ex., chorar a morte de Kobe Bryant é criticado porque em Belo Horizonte morreram mais pessoas.

Ou quando se comover com as homenagens feitas nos EUA a um dos maiores ídolos do esporte mundial rende comentários sobre as mortes que o governo norte-americano promove mundo afora.

Será que cabe mesmo comparar?
Do mesmo modo, embora sem a mesma insensibilidade, apenas com a mesma ignorância, é triste ver que, quando se diz ser desumano fazer atletas jogar futebol sob o sol do meio-dia, alguém diz que desumano é morar embaixo do viaduto ou que jogos de tênis sob sol levam quatro horas. 

Outra vez, compara-se laranja com avestruz.

Por que há pessoas que fazem questão de se revelar tão cruas? Não poderiam, ao menos, guardar para si? 
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Toque do editor — este desabafo do Juca Kfouri, decerto magoado com comentários recebidos no seu blog, eu também poderia ter escrito, só alterando os exemplos.

Uma das minhas maiores decepções no presente século foi ter sonhado com o papel grandioso que a internet poderia cumprir, levando conhecimento a um povo dele tão carente e dando aos que não são proprietários de veículos de comunicação a oportunidade de tornar menos desiguais as batalhas pela formação das consciências, como aconteceu no Caso Battisti.

Vê-la transformada numa rinha de desqualificadores atrozes e numa feira das vaidades de quem quer trombetear seus primarismos sem se dar à dura labuta do aprimoramento pessoal (apreender a civilização e aprender a pensar criticamente), me deixa inconsolável. 
(por Celso Lungaretti) 

segunda-feira, 29 de julho de 2019

ANTI-INTELECTUALISMO, A DOENÇA SENIL DO CAPITALISMO AGÔNICO

Num interessante artigo do último domingo (28/07), o filósofo e jornalista Helio Schwartsman atribuiu o atual "anti-intelectualismo cada vez mais exacerbado e do qual as pessoas têm cada vez menos vergonha" ao fato de que muitos cidadãos recebem agora uma "profusão de narrativas sobre tudo", sem que estejam aptos a decidir sobre boa parte desses temas.

Daí a hipótese formulada por Schwartsman, de que, nestas condições, "as pessoas estejam simplesmente desistindo da ideia (...) de que suas crenças —ou pelo menos parte delas— devam estar amparadas por fatos verificáveis e raciocínios lógicos e estejam optando por adotar a opinião que mais lhes dá prazer", mesmo que seja a de que a Terra é plana, a de que os estadunidenses não pisaram na Lua ou de que Adão e Eva realmente existiram. 

Tentarei lançar mais algumas luzes sobre os motivos do gritante retrocesso civilizatório atual, igualmente sem a pretensão de esgotar o assunto.

A transição do sociedade patriarcal para a de massas correspondeu à evolução do capitalismo industrial para o pós-industrial, em que as máquinas trabalham e os seres humanos se ocupam predominantemente de atividades financeiras, burocráticas e de serviços. 
Uma das consequências de o capitalismo haver concluído sua etapa ascendente, entrando em crise cada vez mais acentuada e vergando sob o peso de suas contradições, foi terem se tornado desnecessários ou bem menos necessários os titãs do passado, que lideravam conquistas e avanços. Diluiu-se, portanto, a autoridade dos expoentes nos quais a sociedade patriarcal se mirava. 

Líderes empresariais e associativos, governantes, cientistas, pensadores, professores, engenheiros, médicos, juízes, etc., deixaram de ser vistos como exemplos a serem imitados e como pessoas cuja opinião devesse merecer especial respeito. A integridade, o saber ou a competência passaram a pesar muito menos que a riqueza e a fama.

A ênfase da sociedade de consumo é toda no cliente: ela se organiza para proporcionar a cada consumidor em potencial tudo aquilo que ele tiver grana para bancar. Endinheirados serão sempre tratados como príncipes, mesmo que não passem de repulsivos sapos.
E, existindo mercado, surgirá inevitavelmente quem ultrapasse quaisquer limites para explorá-lo, nem que seja proporcionando drogas pesadas, pedofilia, snuff ou mesmo pessoas para serem pessoalmente torturadas pelo tarado (a Operação Bandeirantes foi uma das pioneiras neste nicho), partes do corpo para transplante extraídas de gente viva, etc. O freguês tem sempre razão.

Completaram esse tão admirável quanto detestável mundo novo:
1. uma desrepressão sexual quase ilimitada (mas acompanhada de uma desvinculação do amor, a ponto de muitas pessoas praticarem o Kama Sutra inteiro com parceiros catados ao léu, mas rejeitarem peremptoriamente envolvimento sentimental e, como as prostitutas de outrora, não beijarem...); e, claro,
2. as redes insociáveis nas quais qualquer boçal ignaro emite opiniões sobre assuntos dos quais não entende bulhufas, sempre encontrando boçais ignaros que o aplaudem. Antes, para difundir suas opiniões, os indivíduos precisavam ter como colocá-las em livros, jornais, revistas, obras de arte, microfones, palanques, etc. Agora basta tuitar.

Como cantaram Carlos Gardel e Caetano Veloso, 
"¡Todo es igual! / ¡Nada es mejor! / Lo mismo un burro / que un gran profesor. / No hay aplazaos ni escalafón, / los ignorantes nos han igualao..."  

Então, não deve nos espantar que a idiotia religiosa, da qual a humanidade vinha aos poucos se libertando desde o iluminismo, tenha voltado com tudo exatamente a partir da segunda metade do século passado.

E que agora, à medida que a crise capitalista se agudiza e as pessoas se tornam cada vez mais miseráveis e desesperadas, recrudesça um populismo de extrema-direita tão grosseiro e turbulento que chega a nos lembrar os nefandos tempos do nazifascismo. 

Tal pesadelo, no Brasil, já conduziu à Presidência da República um sujeito que é quase um analfabeto funcional, mas consegue tuitar seus zurros e encontrar os que com ele se identificam, para juntos tentarem destruir uma civilização que, mesmo com tantos defeitos e mazelas, eles jamais teriam sido capazes de construir. (por Celso Lungaretti) 

domingo, 28 de julho de 2019

POR QUE REGREDIMOS TANTO?

hélio schwartsman
A MÁQUINA DO PRAZER
Num dos mais memoráveis experimentos mentais da filosofia, Robert Nozick propôs que imaginássemos uma máquina de gerar estímulos prazerosos tão perfeita que, se nos ligássemos a ela, viveríamos uma vida de júbilos sem fim, que não teríamos como distinguir da realidade. 

Se lhe fosse dada a escolha, você, leitor, optaria por acoplar-se à engenhoca até o fim de seus dias ou preferiria seguir no mundo real?

Nozick, que criou esse experimento para refutar o hedonismo ético, mais especificamente os utilitaristas, que erigem a promoção do prazer (e a supressão da dor) em fundamento universal da ética, obviamente imagina que a maioria de nós rejeitaria ligar-se à máquina e articula razões para a recusa.

Não pretendo discutir aqui se o hedonismo é ou não a base da moralidade, mas apenas constatar, consternado, que os tempos estranhos em que vivemos podem ter realizado a façanha de criar uma versão virtual da máquina do prazer de Nozick e introjetá-la nas mentes das pessoas.

O achado é empírico. Pesquisa Datafolha mostrou que 7% dos brasileiros acreditam que a Terra é plana e que 26% não creem que os americanos tenham pousado na Lua. 
Os disparates anticientíficos não se limitam à astrofísica. Sondagem de 2010 revelara que 25% dos nossos conterrâneos acreditavam em Adão e Eva.

Minha hipótese é que, diante da profusão de narrativas sobre tudo e da indecidibilidade de alguns temas, as pessoas estejam simplesmente desistindo da ideia, tão fundamental para a modernidade, de que suas crenças (ou pelo menos parte delas) devem estar amparadas por fatos verificáveis e raciocínios lógicos e estejam optando por adotar a opinião que mais lhes dá prazer, como se rodassem uma máquina de Nozick dentro de suas cabeças.

O resultado desse processo se mede num anti-intelectualismo cada vez mais exacerbado e do qual as pessoas têm cada vez menos vergonha. O tempora, o mores. (por Hélio Schwartsman)

terça-feira, 4 de junho de 2019

ALELUIA! O BLOG FINALMENTE ENCONTROU UMA ANÁLISE EQUILIBRADA DO CASO "ESTUPRO OU EXTORSÃO?"

luíza sahd
GUARDE A TOCHA: QUEM TORCE POR JUSTIÇA NO CASO NEYMAR DEVERIA FICAR QUIETO
O final de semana foi marcado por uma discussão pública intensa sobre a acusação de estupro que veio à tona na última 6ª feira (31), contra Neymar. No sábado (1º), o jogador publicou um vídeo em seu Instagram expondo as conversas íntimas que teria mantido com a denunciante, via WhatsApp, antes e depois de encontrá-la num quarto de hotel em Paris. 

Além da conversa, o vídeo — que foi excluído ontem por violar os termos e condições do Instagram — mostrava imagens da denunciante nua. O rosto dela foi preservado pela edição, mas o nome foi divulgado abertamente no programa Brasil Urgente, apresentado por José Luiz Datena (que, coincidência ou não, responde processo por assédio sexual). Ou seja: a vida da moça está sendo devassada pela opinião pública.

Você pode estar se perguntando se Neymar está acima da lei por não ter sido punido na divulgação de conteúdo sexual envolvendo a denunciante. Para a promotora de justiça Silvia Chakian, que coordena o Grupo Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Ministério Público do Estado de São Paulo, até essa conclusão pode ter desfechos variados quando a hipótese de estupro for comprovada ou refutada. 

"É precipitado dizer que Neymar praticou o crime previsto no artigo 218-C do Código Penal ao divulgar as conversas de WhatsApp porque ele tem direito ao exercício da defesa dele, assim como ela — e essa troca de mensagens precisa ser analisada pela justiça. É impossível enquadrá-lo em algum crime enquanto as evidências ainda são objeto de investigação", explica. 

Há quem diga que Neymar está sendo muito mais exposto do que a denunciante por ser uma figura pública e há quem lembre que a modelo exposta na internet não tem as mesmas oportunidades que Neymar de defender a própria honra após ter nudes vazados. 

Sobre isso, Chakian também pondera: "Por um lado, Neymar está sofrendo uma acusação de crime hediondo, com muito estigma. Por outro, é inaceitável que uma mulher seja rotulada publicamente com base em seu comportamento sexual. Um crime gravíssimo foi noticiado e ele merece uma investigação exemplar, porque duas vidas e duas reputações estão em jogo", completa. 

Durante nossa conversa, a promotora ressaltou que outras responsabilidades sobre a divulgação de imagem e identidade da vítima também estão sendo investigadas pelos órgãos competentes. O veredicto sobre o crime de estupro pode mudar a forma como a justiça vai encarar a iniciativa do jogador ao divulgar uma troca de mensagens desse tipo. 
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TÁ, MAS O QUE A GENTE TEM COM ISSO? — Tudo e nada. Ao mesmo tempo em que a repercussão do caso gera diálogos fundamentais para o avanço do debate sobre violência de gênero, é impossível negar que o tribunal da internet pesou na decisão do jogador quando ele optou por expor a intimidade da denunciante. 

Além da própria reputação, é sabido que Neymar tem contratos publicitários milionários a perder caso seja condenado por alguma das acusações — e isso deixa o caso ainda mais tétrico para quem se irrita com o poder que o dinheiro tem de conduzir as pessoas a decisões equivocadas ou criminosas. 

Expor a intimidade de alguém que te acusa de abuso sexual não é uma boa ideia em nenhum caso, mas principalmente quando se é inocente. Fica parecendo que não é. O gesto de Neymar ao publicar o vídeo foi revoltante mesmo, e é natural que as pessoas queiram respostas legais sobre isso. 

Por outro lado, o debate leviano sobre casos sérios também foi o que nos fez testemunhar essa conduta lamentável do jogador. É difícil confiar na justiça brasileira e esse talvez seja um dos motivos pelos quais nos sentimos imbuídos da missão de fazê-la com nossos próprios teclados. 

Esse raciocínio, aliás, é bem sintomático durante um governo que pretende legalizar armas para que o cidadão não precise de segurança pública para se sentir seguro. 

Quanto à culpa ou inocência de Neymar, tanto as pessoas que acreditam que o jogador cometeu um estupro quanto as que acham que ele foi vítima de uma acusação falsa estão, agora, no mesmo barco. 

A quem acompanha o caso esperando por um desfecho justo, resta torcer para que a tal da investigação exemplar aconteça mesmo — e que novos debates públicos, mais lúcidos, possam se desenrolar nas redes. (por Luíza Sahd, jornalista, escritora e especialista em mídias digitais)
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TOQUE DO EDITOR — Eu não queria deixar um assunto do momento ausente do blog, mas tive receio de que minha antipatia pelo personagem contaminasse o texto. Então, optei por garimpar algo muito raro nos artigos sobre o novo imbroglio do Neymar: uma análise equilibrada. E encontrei esta acima, perfeita, da Luíza Sahd. 

Isto posto, considero-me liberado para dar meus pitacos de velho jornalista sobre o caso:
1. Neymar nada mais é do que um menino mimado de 27 anos, que desperdiça seu talento futebolístico por não ter cabeça para aproveitá-lo nem adulto que lhe imponha limites (faz-me lembrar muito o Michael Jackson, exceto nas preferências sexuais, claro!);
2foi vítima de uma óbvia arapuca, mas é culpado de agressão e de crime virtual;
3dá para imaginarmos que frustrar-lhe as expectativas, atentando contra seu narcisismo encruado e exacerbado, fizesse parte do script, pois era óbvio que a reação decorrente não poderia ser outra (o paralelo, aqui, é com outra cilada, aquela na qual caiu o pugilista Mick Tyson);
4é revelador que a primeira intenção fosse a de arrancar-lhe grana num processo civil e a denúncia criminal só tenha sido decidida depois que o Neymar pai se recusou a abrir a carteira, asnaticamente (o montante do prejuízo que o filho sofrerá é infinitamente superior ao que despenderia no acordo);
5ninguém é inocente nessa história. (por Celso Lungaretti)
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