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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

A TRAIÇÃO AO PENSAMENTO REVOLUCIONÁRIO DE MARX ABRE AS PORTAS AO FASCISMO - 1



 

O Marx traído e o crescimento do fascismo -1

 Há contradições na obra de Karl Marx? É possível visualizar diferenciações entre o que ele escreveu em 1848 (aos 30 anos), no auge das dores europeias do parto da transição revolucionária do feudalismo para o republicanismo capitalista, e o Marx dos Grundrisse -  rascunhos do que viria a ser o primeiro volume de 1858 de O Capital e dos demais volumes compilados por Friedrich Engels após a morte do autor em 1883.

 Contudo, não há contradição quando se entende que ele fez uma autocrítica de si mesmo ao caminho da maturidade (já aos 40 anos) no que se refere ao sujeito da revolução anticapitalista, como adiante abordaremos.

  Na vasta obra de Lênin, tendo por base o Marx politicista, mais voltada para a tomada do poder numa Rússia agrícola, não se encontra praticamente nada sobre a crítica marxiana do valor; tal observação pode também ser feita sobre a obra bem menos abrangente de Mao Tsé Tung.

  O Marx do Manifesto Comunista, de 1848, escrito em parceria com Engels, exalta a força da classe operária como sujeito da revolução, tanto assim que terminam dizendo: Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos! Não tendes nada a perder, a não ser vossos grilhões.  

  Mas o Marx dos Grundrisse prevê o declínio do poder da classe operária como produtora da substância primeira e primária do capital, o trabalho abstrato produtor de valor, quando o desenvolvimento da tecnologia aplicada à produção de mercadorias  tornasse prescindível seu uso em maior parte por tal categoria capitalista.

 É evidente que a luta armada para a tomada do poder de então, fosse ele predominantemente feudal - como na Rússia de 1917 - ou republicano burguês, pelo proletariado, num estágio tal de desenvolvimento tecnológico da produção social sob a forma valor, por ele pensado (e que hoje se concretiza), perderia força como sujeito revolucionário.

E o que seria, então, o móvel da revolução emancipatória pela superação do capitalismo? Esta é a grande incógnita a ser respondida diante do impasse social sob o qual vivemos e que ameaça a humanidade de extinção sob uma guerra nuclear ou catástrofes ecológicas mais iminentes.

Chegamos ao estágio no qual os nichos de emprego surgidos pelo uso da tecnologia na produção e serviços são substancialmente menores do que a dispensa do trabalho abstrato, e tal fenômeno, previsto por Marx há 165 anos, está a acontecer. 

Disse Marx nos Grundrisse que quando tal fenômeno ocorresse faria voar pelos ares toda a lógica capitalista. A esquerda dita marxista institucional desconhece, ou conhece e ignora, o que é pior, a já referida autocrítica implícita que Marx fez na maturidade, daí traí-lo cotidianamente de modo voluntário ou não ao usar o seu nome, sendo o caso chinês o mais notório. 

Já os social-democratas, antimarxistas, são apenas equivocados crentes na humanização do capitalismo; acreditam que o pé de laranja pode dar manga, caso seja enxertado.

Acresça-se à ilusão social-democrata de humanização do capitalismo o fato de que os parlamentos burgueses são formados na sua grande maioria por parlamentares eleitos pela força do capital dos grotões mais profundos de cada país, onde a liberdade de escolha e discernimento eleitoral é quase nula.

A esquerda, quando muito, compõe 20% das casas parlamentares e apenas legitima, com sua presença, o domínio burguês do processo legislativo. O povo somente assiste passivo à sua representação espúria delegada.

Mas, conforme colocava Marx, o capitalismo cava a sua própria sepultura, pois ele somente pode crescer e se sustentar com o aumento do volume de extração de mais-valia, e esta é uma regra inquestionavelmente comprovada e básica decorrente das análises marxistas.

Ora, se diminui a massa global de extração de mais-valia em face do uso da tecnologia na produção impulsionada pela guerra concorrencial de mercado que obriga os produtores concorrentes à redução de custos de produção como forma de vitória no mercado, é evidente que aí se evidencia a auto-destrutibilidade de uma lógica contraditória que está fadada ao fracasso num determinado momento histórico.

O fracasso do capitalismo one world enquanto forma de relação social sustentável da vida das pessoas e da sua própria funcionalidade gera os seguintes fenômenos:

- o desemprego estrutural

- falência do Estado que a ele serve

- incapacidade de reprodução do capital (leia-se valor) no nível exigido pela própria dinâmica da sua necessidade do crescimento constante sem o qual definha inexoravelmente

- inflação ditada pela emissão de moeda sem valor

- fome e miséria em vastas regiões do planeta e emigração forçada para as regiões nas quais ainda há vida capitalista, mesmo decadente

- decadência e depressão econômica nos países de economias dominantes e hegemônicas (G7, como conhecemos)

- uso predatório e irracional dos recursos naturais com poluição de rios, mares, solo, subsolo, e atmosfera

- aquecimento da temperatura planetária causada pela emissão de gases que promovem o feito estufa e alteram os fenômenos climáticos

- guerras por hegemonia política e econômica

Os fenômenos acima elencados estão presentes mais do que nunca na vida social mundial contemporânea, sendo o discurso dominante de que sua  causa é apenas devido à má governabilidade, e não à falibilidade intrínseca do sistema capitalista.

Diante dos impasses causados pela inviabilidade de um modo de relação social e do desconhecimento científico e social da necessidade de superação de um modo de relação social obsoleto que alcança o seu limite existencial histórico, observam-se posturas políticas consubstanciadas em dois segmentos claramente definidos.

Por um lado, a volta de posturas políticas totalitárias, de cunho militarista, objetivando a contenção dos segmentos sociais organizados reivindicadores e questionadores das misérias sociais e comportamentos retrógrados nos costumes, e com visão do liberalismo clássico na economia, não raro acompanhadas de visões fundamentalistas religiosas.

 Já, por outro lado, a defesa insustentável de uma retomada do desenvolvimento econômico pelos social-democratas e pela esquerda institucional com visão keynesiana em seus vários matizes.

  Ora, ambos os segmentos políticos acima referidos têm como base de suas posições a relação capitalista que se inviabilizou, como se o capitalismo fosse a única forma possível de relação social, e aí se identificam. Consideram que o capitalismo é algo inerente à vida social humana, como se fosse um dado ontológico e inevitável da nossa existência, e não um elemento histórico com nascimento, vida e morte. (por Dalton Rosado - continua neste post)

segunda-feira, 13 de julho de 2020

AS SEMENTES REVOLUCIONÁRIAS JAMAIS SÃO PLANTADAS EM VÃO – 2

(continuação deste post)
Após 1976, a China passou a minar o capitalismo por dentro...
Em sua crítica da economia política, particularmente nos Grundisse, Marx afirmou que a redução gradativa dos salários; a tendência de queda das taxas de lucro do capital investido em máquinas e instalações; e a substituição da força de trabalho humana pelas máquinas compunham um quadro de contradição insuperável do capital que o faria voar pelos ares. 

E eis que a China está agora produzindo um colapso no capitalismo mundial pelos próprios fundamentos capitalistas! 

Sob a influência de Deng Xiaoping a partir de 1978 (Mao Tsé-Tung morrera em setembro de 1976),  a China foi abandonando os conceitos marxistas na prática, embora não o admitisse em sua retórica. E percebeu que poderia crescer economicamente como o faz qualquer burguês capitalista, vencendo a guerra concorrencial de mercado mundial graças à possibilidade de oferta de trabalho abstrato barato e abundante. 

Com isto, a China se transformou nos últimos 40 anos, de nação essencialmente agrícola e rural, em país urbano e industrial, grande fornecedor de mercadorias para o mundo inteiro. 

É que os consumidores de mercadorias querem comprá-las mais barato, pensando mais no seu bolso do que em qualquer ideologia patriótica. Assim, para estes não interessa se o tênis é fabricado em Pequim ou Nova York, pois o que importa é se ele é bom e barato. 
O capitalismo causa destruição e encaminha a autodestruição

Tudo no capitalismo é contraditório e caminha para a destruição social, para a destruição ecológica e para a autodestruição enquanto forma de relação social. 

A China está a provocar o desemprego estrutural mundo afora, bem como a redução do volume de extração de mais-valia, lucro empresarial, e massa global de valor, causando uma anemia orgânica ao capitalismo mundial e prenunciando o seu colapso inevitável. 

Paradoxalmente, ao vencer a guerra concorrencial de mercado sob os critérios acima elencados, a China vem causando também a redução da capacidade de poder aquisitivo mundial e reduzindo a sua própria capacidade de expansão (vide queda acentuada do outrora crescimento vertiginoso do seu PIB). 

E está também causando a própria derrota enquanto modelo produtor de mercadorias e decretando sua falência enquanto modelo capitalista ultraliberal na economia (e fechado na política).

Quem diria que, após fazer a revolução armada e tentar exportá-la para o mundo, a China de Mao Tsé-Tung iria mas é solapar o capitalismo pelos próprios fundamentos capitalistas?! 
O dia já amanhece e os raios de sol fulminarão o vampiro

Hoje, o que está mais atual em Marx é a sua crítica ao trabalho abstrato como fonte primária do capital, não levada em consideração de modo consequente pelos marxistas tradicionais, que, assim, converteram-se numa espécie particular simbiótica de capitalismo selvagem na economia e stalinismo na política.

As próprias descobertas de Karl Marx sobre o mecanismo da extração de mais valia como formação do capital e de toda a sua estrutura de dominação e segregação social, assim como o detalhamento de suas contradições intrínsecas, expostos em O Capital, põem por terra a defesa que ele anteriormente fazia da força operária ativa, enquanto tal, como sujeito indispensável da revolução.

É o substancial e crescente contingente de desempregados, sem que o capital tenha forma de sustentá-los, que está atualmente a escancarar a necessidade de uma novo modo de produção social e apropriação das riquezas materiais em favor da população (coronavírus à parte, pois ele não passa de um gatilho na dialética do movimento).

O processo dialético histórico é irreversível na jornada da humanidade para a superação dos impasses que o modelo escravista milenar nos impôs, e está a nos encaminhar para a necessária emancipação humana, a menos que uma hecatombe nuclear ou agressão climática (quiçá meteórica) extermine os seres humanos da face da Terra. 
Neste sentido, tanto o golpe militar brasileiro de 1964 como a vitória de Boçalnaro, o ignaro em 2018, num intervalo de 54 anos,são apenas pequenos retrocessos pontuais que em nada alteram o processo dialético irreversível da roda da História. 

Estamos mais próximos hoje, e bem mais do que ontem, da emancipação humana. 

E Karl Marx, ainda que com seus compreensíveis equívocos políticos históricos, que devem ser devidamente contextualizados, terá dado uma grande contribuição para tal emancipação. (por Dalton Rosado) 

domingo, 15 de setembro de 2019

O ESPORRO DO MOISÉS CAIU EM OUVIDOS MOUCOS: A ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO JAMAIS PAROU DE AUMENTAR

dalton rosado
A DESFETICHIZAÇÃO
"Com o desenvolvimento das forças produtivas do trabalho (...), as condições objetivas do trabalho assumem uma autonomia cada vez mais colossal, que se apresenta por sua própria extensão em relação ao trabalho vivo, e de tal forma,
que a riqueza social se defronta com o trabalho
como um poder estranho e dominador
em proporções cada vez mais
poderosas." (Karl Marx,
nos Grundrisse) 
Não tenho dúvidas de que o passo mais importante da humanidade nesta primeira metade do século 21 seja o de romper com o fetichismo da mercadoria. 

Mas, ao mesmo tempo que encaro tal empreitada como a mais imperativa de todas as ações revolucionárias, não desconheço que se trata, ao mesmo tempo, da mais difícil, ainda que a realidade esteja nos empurrando para tal tomada de consciência social.

Não é pouca coisa nos desprendermos daquilo que culturalmente nos foi sedimentado como algo natural (embora seja absolutamente antinatural): acordar para ganhar a mercadoria dinheiro e, assim, poder comprar as mercadorias necessárias ao consumo (água, energia, alimentos, vestimentas, morada, transporte, etc.). 

Já me perguntei inúmeras vezes o porquê de todos os marxistas tradicionais (grupo ao qual pertenci durante muitos anos) nunca terem atentado para o significado fundamental de Karl Marx ter iniciado sua obra maior, O Capital, dissecando a forma-mercadoria e sua negatividade social. 
O Capital, que se constitui como uma síntese de todos os seus pensamentos anotados e elaborados a partir dos Grundrisse (os rascunhos e anotações do seu livre-pensar genial, que são de indispensável leitura, ainda que volumosos e de trabalhosa compreensão), é a crítica da economia política por excelência e na sua maior profundidade.

Ora, se forma-mercadoria, expressão materializada do valor, é uma abstração que se torna real, sensível, palpável, tangível, fenômeno dissecado por Marx como a negatividade social capaz de submeter toda a humanidade à impessoalidade de sua lógica destrutiva e ao final autodestrutiva (como agora ocorre), por que as revoluções feitas em seu nome não deram ênfase a este aspecto, ao invés de conservarem todas as categorias capitalistas intactas, concentrando esforços na gestão social política?

Por que não compreenderam que jamais poderiam submeter ao controle da subjetividade revolucionária a dinâmica existencial e reprodutiva do dinheiro (expressão e mercadoria especial, signo da forma-valor)?

Por que em toda a volumosa obra de Lenin não há referência preponderante sobre a questão do fetichismo da mercadoria e a imperiosa necessidade de o combatermos?

Quando me perguntam sobre os descaminhos revolucionários da Rússia e da China, digo aos interlocutores que os desvios comportamentais dos dirigentes dos partidos comunistas e cúpulas governamentais (todos terminaram por sucumbir ao totalitarismo político no qual o trabalho e os trabalhadores não passaram de simbologia caricata da predominância operária, daí a ojeriza que a expressão ditadura do proletariado sempre me causou) foram forjados a partir de uma relação social que desde o início teve na forma-mercadoria a sua base constitutiva inquestionável ou perigosamente omitida.

A busca da prosperidade econômica tendo como base a produção de mercadorias sempre implicou a coexistência nefasta (mesmo quando admitida como mal necessário) com uma entourage de outros componentes que nada mais são do que a admissão de bom grado das categorias capitalistas a lhe dar suporte (Estado, controle monetário, política, mercado, trabalho abstrato, etc.)  

Esta questão da submissão ao fetichismo da mercadoria foi comparada por Marx à adoração desmedida dos aborígenes pelos totens de pedra que eles próprios haviam erigido, a ponto de, com o passar do tempo, passarem a sacrificar vidas em seu louvor e preces. 

É tão forte que temos muita dificuldade em admitir uma produção de bens sem o concurso do dinheiro, ainda que em cada objeto e serviço servível e sensível ao consumo não exista um grama sequer dessa matéria abstrata.

Afinal, o dinheiro, a mercadoria das mercadorias, expressão abstrata da abstração valor, é a única que não tem valor de uso. Não é um componente químico, somente se imiscuindo na produção de forma oportunista e segregacionista.

Mas o dinheiro, agora acumulado sob a forma de capital, entrou em processo de disfunção social. 

Há um volume absurdo de moeda sem lastro (que chamo de oficial falsa) em circulação mundo afora, e esses capitais não encontram possibilidade de reprodução saudável na produção de mercadorias e serviços. 

Esta é a razão da redução dos juros mundiais, ainda que no Brasil, como de resto ocorre nos países da periferia do capitalismo, se pratiquem juros extorsivos (as taxas chegam a ser estratosféricas no cartão de crédito e no cheque especial, p. ex.). As desigualdades no capitalismo são gritantes.

Há bem pouco tempo se afirmava que somente se pode produzir algo tendo dinheiro; agora, é o próprio dinheiro que está travando a produção em razão das dificuldades cada vez maiores de sua reprodução.

Alguém que tenha ganhado muita grana na loteria, se se dispuser a viver nababescamente, poderá fazê-lo facilmente gastando seu capital; mas, caso se disponha a aumentá-lo aplicando numa atividade empresarial qualquer, estará correndo sérios riscos de ter prejuízos e até perder tudo. 

Diante de tal impasse que desemprega o capital e os trabalhadores economicamente ativos, gerando uma fissura no tecido social e institucional (o Estado que depende da economia está endividado e os governantes perplexos em terem de administrar a escassez), a população e os movimentos sociais, desacostumados à vida fora do mercado e da produção de mercadorias, não sabem para onde ir. 

A direita com seus postulados cada vez mais voltados para a negação de tudo que seja ganho civilizatório da humanidade, propõe o retrocesso institucional, tentando impedir pela força o rompimento do dique que pode tudo inundar.

A esquerda, apegada à intervenção estatal como forma (impossível) de suprimento das demandas sociais e aos cânones constitucionais burgueses, não pode e não quer abandonar as antigas formulas e nem redimensionar os conceitos de produção e organização sociais. Mantém um discurso pretensamente oposicionista e vai se contentando com a fatia de poder que a democracia burguesa lhe concede.

Diante disso a população, atônita e impotente, experimenta uma realidade de deterioração da vida econômico-institucional, com graves reflexos na vida social. 
Para piorar o que já era péssimo, seu penar é agora acrescido dos problemas ecológicos que se avolumam (incêndios florestais, furacão nas Bahamas, enchentes na Espanha, calor insuportável na França) como consequência da produção predatória à qual o grande capital não pode renunciar por dependência irrenunciável à lógica mercantil (caso da emissão de gás carbônico pelos EUA e China).  

Quanto mais demorarmos a discutir o desapego à vida mercantil, ou seja, quanto mais permanecermos presos ao fetichismo da mercadoria, sem procurarmos novas formas de produção que estejam livres da lógica do valor e da mercantilização da vida, mais estaremos rumando celeremente para o abismo. 

Entendo, portanto, que o mais importante agora não é se discutir que outro mau governante deve substituir o ruim de plantão, pois todos terão de governar dentro das balizas previamente determinadas pela lógica da produção mercantil e submetidos às amarras constitucionais, mas construirmos um plano emergencial de sobrevivência social que antecipe e previna os efeitos catastróficos que se anunciam. (por Dalton Rosado)
Sérgio Ricardo, na canção Bezerro de Ouro: "Os bancos de caixa forte /
Que eram rochas se quebraram / E um rio de dinheiro correu /
Os habitantes da Terra / Tão descuidados pescadores / Se
afogaram no dinheiro / Sem se aperceber"

domingo, 20 de janeiro de 2019

PORQUE NÃO DEVEMOS GOVERNAR, NEM ALMEJAR O PODER (2ª parte)

(continuação deste post)
O desemprego estrutural atinge principalmente os jovens que chegam ao mercado de trabalho e já não conseguem exercer as profissões para as quais foram qualificados. Aos desqualificados restam poucas alternativas razoáveis.

Tudo se deve à ilogia de um modo de produção que se exauriu por seus próprios fundamentos, e não por qualquer ação externa. 

Para usar uma expressão da época da ditadura militar, o capital é o próprio agente subversivo da realidade social. E, por tratar-se de uma lógica abstrata, não dá para qualificar de comunista comedor de criancinhas  esse fenômeno social que está a esgarçar todo o tecido social; nem se pode dar porrada ou trancafiá-lo para sempre, como fizeram com o Cesare Battisti.

A teoria marxiana da crítica do valor exposta há 160 anos (tão pouco estudada e mal compreendida!) se aproximou da realidade atual. Como justiça a esse grande pensador, bem como como forma de comprovação do que ele afirmou, não é demais reproduzirmos algumas conclusões do pensamento de Karl Marx, extraídas dos Grundrisse:
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"... Para além de certo ponto, o desenvolvimento das forças produtivas devém um obstáculo para o capital; ou seja, a relação de capital devém um obstáculo para o desenvolvimento das forças produtivas do trabalho. 

Ao atingir esse ponto, o capital, o trabalho assalariado entra na mesma relação com o desenvolvimento da riqueza social e das forças produtivas que o sistema das corporações, a servidão, a escravidão. E, como grilhão, é necessariamente removido.

A última figura servil que assume a atividade humana (de um lado, a do trabalho assalariado; e, do outro, a do capital) é com isso esfolada, sendo tal esfoladura o resultado do modo de produção correspondente ao capital ...

... A destruição violenta de capital, não por circunstâncias externas a ele, mas como condição de sua autoconservação, é a forma mais contundente em que o capital é aconselhado a se retirar e ceder espaço a um estado superior de produção social ...

... Como consequência, o máximo desenvolvimento da força produtiva e a máxima expansão da riqueza existente coincidirão com a depreciação do capital, e degradação do trabalhador e o mais restrito esgotamento de suas capacidades vitais. 

Estas contradições levam a explosões, cataclismos, crises, nas quais, pela suspensão momentânea do trabalho e a destruição de grande parte do capital, este último é violentamente reduzido até o ponto em que pode seguir empregando plenamente suas capacidades produtivas sem cometer suicídio. 

Contudo, essas catástrofes regularmente recorrentes levam à sua repetição numa escala mais elevada e, finalmente, à destruição violenta do capital".

O desemprego estrutural, resultante irreversível e insuperável da obsolescência do trabalho abstrato em maior parte, é o coveiro do capitalismo. As mãos paradas, por consciência própria ou mesmo por indução da decrepitude da lógica do capital, são mais violentas do que as mãos armadas. 
"emissão de moeda sem lastro mercantil"
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a) o endividamento público (a falência do Estado) e privado insolváveis – o endividamento público crescente possui a mesma causa de base do endividamento privado insolvável, ainda que tenham formas de arrecadações e destinações diferenciadas.

O Estado tem três funções estabelecidas: 
1) a manutenção da ordem capitalista pelas instituições dos poderes Executivo (ai incluída a força militar), Legislativo e Judiciário; 
2) a promoção do desenvolvimento econômico pelo investimento em infraestrutura; e 
3) o amortecimento das pressões populares pela satisfação de demandas sociais básicas e serviços públicos.

Quem financia a sua existência, obviamente, são os impostos cobrados aos consumidores de mercadorias e serviços (em maior parte) e sobre o lucro da atividade empresarial (em menor parte). Todos os valores dos impostos são pagos ou criados pela extração de mais-valia dos trabalhadores assalariados.

Ocorre, entretanto, que como a massa global de valor diminui numa proporção inversamente proporcional ao crescimento das funções estatais, a manutenção das finanças públicas somente pode ser providas a partir do endividamento público.

Um expediente muito usado pelos Estados, que detêm o controle monetário é a emissão de moeda sem lastro mercantil, mesmo que isto provoque a inflação (perda do poder aquisitivo da moeda) que arruína toda a economia e, principalmente, o bolso dos assalariados (sempre chamados a pagarem a conta).
Quanto maior o Estado, maior é o volume do endividamento público com relação ao seu Produto Interno, o que o enfraquece. Daí os liberais ansiarem tanto pelo chamado estado mínimo, financeiramente saudável, apenas com funções auxiliares do capital; já a esquerda prefere sempre um estado forte, sem compreender a insustentabilidade disso.

A emissão de moedas sem lastro, quando aceita internacionalmente (como é o caso do dólar estadunidense e do euro da União Europeia), não provoca inflação interna. Isto porque elas servem como moeda de exportação por todos aceita, o que, contudo, somente funciona até que percam credibilidade diante da constatação inexorável de suas inconsistências, que virá mais cedo ou mais tarde.

O aumento do endividamento privado empresarial mundial, por sua vez, decorre da necessidade crescente de aplicação em capital fixo (máquinas, instalações e conhecimento tecnológico) e infraestrutura para fazer face à concorrência de mercado e dispensa do trabalho abstrato.

Essa espiral de endividamento não encontra correspondência na geração de lucro capaz de remunerar o capital do crédito bancário, tal qual o endividamento público. Tende a atingir o ponto da insolvabilidade que representará, juntamente com a insolvência da dívida pública, o grande colapso do sistema de crédito mundial, com as graves consequências para a lógica capitalista que disto advirão.

Note-se que, como disse Karl Marx, além da queda tendencial da taxa de lucro, o capital tende, também, a uma diminuição da massa global de valor que, num determinado momento, não terá capacidade de remunerar o capital creditício, que já é fictício por apostar em extração de mais-valia futura e de lucro que não ocorrerão. 

O aumento constante na necessidade de investimento em capital fixo e em equipamentos tecnológicos destinados à produção de mercadorias (impulsionado pela guerra concorrencial de mercado), que funcionam como uma varinha de condão que fabrica todas as mercadorias com valores cada vez menores, corresponde a um processo de colapso autodestrutivo do próprio capital, que tornar-se-á explícito num ponto futuro graças ao grau de incapacidade reprodutiva do valor no montante necessário.    

Se se fizer, portanto, uma análise da dívida pública e privada dos países que são grandes produtores de mercadorias, como os Estados Unidos e os países mais economicamente desenvolvidos da União Europeia; bem como da China e do Japão, com suas dívidas colossais e crescentes, dependentes de uma produção e venda de mercadorias que tende a um limite ocasionado por diversos fatores, não é difícil concluir-se que caminhamos para um impasse de proporções gigantescas.  

Basta que se consulte a relação entre o PIB desses países e suas dívidas para se constatar a dependência recíproca que se estabeleceu numa economia globalizada e endividada, e da insolvabilidade do sistema de crédito mundial como credor de dívidas púbicas e privadas que não poderão ser pagas.

Para se ter uma ideia do tamanho da encrenca, só os EUA têm uma dívida pública (que é permanentemente crescente) de US$ 20 trilhões para um PIB de igual valor, e uma dívida privada muito além desse montante.
O FMI já alertou para o problema explosivo, com os especialistas dizendo o seguinte:
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"Você e eu estamos sentados numa montanha de dívida pública e privada. A cota para cada habitante do planeta é de 21.866 euros, ou R$ 95.554. Uma bola de neve gigantesca e voraz. A fatura total chega a US$ 164 trilhões (R$ 608 trilhões), quantia equivalente a 225% do PIB mundial. 

Viver a crédito foi a saída natural da crise financeira. Os empréstimos permitiram cobrir os desequilíbrios das contas públicas e reanimar o crescimento. Mas, convém não ultrapassar determinadas linhas vermelhas. 

Um nível de endividamento jamais visto desde a 2ª Guerra Mundial é uma bomba-relógio que pode explodir a qualquer momento. Argentina e Itália são dois exemplos recentes de como ressuscitam facilmente os fantasmas mal enterrados".
                                                                                                                               .
A crise de impossibilidade de reprodução do valor válido no nível exigido pela irrigação da economia é a razão da permanente criação de bolhas de consumo mercantil que cedo se evidenciam como insustentáveis. neste post

Os grandes produtores de mercadorias estão fadados a falirem abraçados e suas economias serem substituídas por um modo de produção socialmente sustentável voltado para a satisfação cômoda das necessidades de consumo humanas, e de modo ecologicamente sustentável. 

Isto, claro, se não ocorrer uma hecatombe mundial, provocada pela intolerância face a uma realidade inexorável. (por Dalton Rosado) 
(continua neste post)

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O IMPASSE DO PROCESSO ELEITORAL DEMOCRÁTICO-BURGUÊS

Claramente se pode observar que vivemos no Brasil (e no mundo) um impasse político-social decorrente da inadequação do conteúdo da produção social e da sua forma social às exigências da vida social atual. 

Falo da falência da chamada economia real, que provoca a crise irremediável do processo eleitoral como instrumento de legitimação, e do próprio aparelho de Estado como instância institucional à qual estamos submetidos.

Somos praticamente obrigados a entrar num Fla-Flu eleitoral; induzidos a escolher entre os ruins para evitar o pior; e tangidos pelo medo a aceitar o que não presta, no afã de escapar de um mal maior. 

Diante de quadro tão desalentador, temos mais é de afirmar que outro pensar é possível.

Não podemos deixar de considerar que podemos sair dessa camisa-de-força que vem guiando o processo de implantação e consolidação do republicanismo burguês há mais de dois séculos, mas que agora encontra o seu limite existencial na questão do conteúdo (mediação e produção sociais) e que implica a evidência da saturação da questão de forma (processo político-eleitoral democrático-burguês).

Há quem sustente que, fora desse processo, qualquer forma de produção social ou organização social é ditadura. Tal visão se assemelha ao conteúdo do que nos está sendo colocado pelo processo político-eleitoral: vote do menos ruim para evitar o pior. 

Como sabemos; o modo de produção social é aquilo que determina o conteúdo da organização social. 

Assim, o anacronismo do nosso atual modo de produção social encontra correspondência no modo de organização social, daí a evidência da saturação do nosso modelo político eleitoral democrático-burguês; e, embora o aceitemos com o dedo no nariz, terminamos por acatá-lo e legitimá-lo.

É que vivemos o impasse provocado pelos moderníssimos saberes tecnológicos. Eles vão desde a área da comunicação até a nanotecnologia da microeletrônica, tendo causado profundas modificações na vida social (quem tem mais de 50 anos e viveu no modo social anterior ao atual, sabe do que estou falando).    

Um novo modo de produção implica a exigência de um novo modo de organização social, e isto é algo completamente diferente da falsa dicotomia entre projetos fascistas ditatoriais modernos como os de Trump e Bolsonaro (legitimados pelo voto do desespero ou do sentimento supremacista xenófobo, racista, misógino, homofóbico dos defensores do apartheid social) e aquilo que aparentemente é o seu oposto (os projetos socialistas burgueses). 

Uma organização social horizontalizada e descentralizada (diferente da divisão republicana por departamentos de poderes obedientes ao comando estatal-burguês) corresponderá e se coadunará com um modo de produção que esteja voltado para a satisfação das necessidades de consumo social e não ao objeto teleológico autotélico e vazio de sentido social do lucro.   
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ENTRE O ABISMO E O VOO LIBERTÁRIO, 
A VERDADEIRA DICOTOMIA

Vivemos, hoje, no Brasil, uma bilateralidade de pensamentos políticos que representa uma falsa dicotomia entre dois projetos idênticos na base, ainda que pareçam profundamente diferentes na superfície e que um ou outro projeto tenha implicações diferenciadas no andamento da nossa vida político-social mais imediata.

Há um projeto explicita e assumidamente fascista, que se sente legitimado pelo apoio recebido (fruto do conservadorismo e/ou desesperança popular irrefletida). Seu representante é candidato Boçalnaro, o ignaro, que quer que o capitalismo decadente seja mantido a qualquer custo, independentemente das evidências de sua insustentabilidade. 

Tal projeto é apoiado pela tradicional elite brasileira informada e detentora de privilégios e riqueza abstrata. temerosa das mudanças que a própria dinâmica do capital e sua decadência vêm apresentando; e, de outro lado, por segmentos marginalizados convencidos de que a barbárie em curso se resolve na porrada, anunciada e defendida pelo discurso militarista. 

Boçalnaro, o ignaro, sabe que as suas bravatas, mesmo inconsistentes, calam fundo nesse último segmento; e que a elite brasileira se identifica com o seu recado repressor aos que se aventurarem aos voos libertários.  

Há outro projeto, da esquerda legalista, institucional, eletiva, que quer que o capitalismo seja bonzinho, sem compreender que já não se pode fazer o bolo crescer para distribuir as tradicionais míseras fatias ao segmento dos formadores de opinião mais esclarecido ou aos coitadezas, por absoluta falta de ingredientes. 

No debate político-eleitoral não vemos nenhum desses dois projetos aludir à incompatibilidade entre o modo de produção social atual e a estrutura política que lhe dá sustentação. Todos creem, ou querem fazer crer, que o problema se restringe à esfera da boa governabilidade e das suas boas ou más intenções. 

Mas há outro projeto que representa uma verdadeira dicotomia à essa mesmice política. Trata-se do projeto de emancipação popular que nega as categorias capitalistas, a partir de uma compreensão teórica que, ou escapou aos revolucionários de antes, ou tais categorias foram por eles entendidas como possíveis de serem paulatinamente superáveis dentro de uma coexistência na qual se saberia que o inimigo fora convidado para o jantar no qual lhe seria servido o veneno capaz de mantê-lo neutralizado e, por fim, superado (caso do programa da Nova Política Econômica de Lenin, p. ex.).

O tiro dado pelos muitos antigos e sinceros revolucionários saiu pela culatra, ainda que se deva prestar as homenagens devidas a quantos deram seu quinhão de esforços (às vezes, a própria vida) para que tal parto ocorresse. Infelizmente, a criação dele decorrente foi, ao final, mal sucedida.  

Nunca antes neste país (que me perdoem o fraseado tão falacioso, repetido desde Color de Mello até hoje) se apresentou a possibilidade de uma postura revolucionária que representasse a verdadeira dicotomia entre projetos até então diferentes nas espécies, mas idênticos no gênero, como as que temos à disposição, ambos capitalistas. 

De um lado os defensores do capitalismo nas suas várias vertentes (de direita e de esquerda); e do outro lado os emancipacionistas e suas estranhas propostas aparentemente utópicas, mas que assim o são apenas até o momento da exigibilidade de suas práticas pelo próprio instinto de sobrevivência social-humana alicerçada por uma reflexão teórica consistente. 

É que, qualquer que seja o vencedor das eleições brasileiras de 2018, evidenciar-se-á a impraticabilidade de um governo a partir dos pressupostos capitalistas de produção social e da obsolescência de sua forma política de organização social. 

Tal impasse, que inevitavelmente apresentar-se-á para o eleito, implicará a necessidade de uma tomada de posição diante da incapacidade político-social de satisfação das necessidades de consumo e das demandas sociais. 

Será a hora na qual os fatos sociais impelirão os indivíduos sociais a uma conclusão que até então não era perceptível, mas que a partir desse momento se tornou óbvia: precisamos de uma nova forma de produção social e de uma organização social que lhe seja correspondente!        

Karl Marx, nos Grundrisse, que mais não eram que anotações reflexivas pessoais para conclusões a serem publicadas, mas que explicitam a profundidade do seu voo teórico, foi profético e mais contundente do que viria a ser sua obra magna, O capital. Disse que:
"O próprio capital é a contradição em processo, pelo fato de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. Por essa razão, ele diminui o tempo de trabalho na forma do trabalho necessário (trabalho remunerado, produtor de valor, esclarecemos) para aumentá-lo na forma de trabalho supérfluo (hoje cada vez mais dispensável, causador do desemprego estrutural, refletimos); por isso, põe em medida crescente, o trabalho supérfluo, como condição – questão de vida e morte – do trabalho necessário.  
Por um lado, portanto, ele traz à vida todas as forças da ciência e da natureza, bem como da combinação social e do intercâmbio social, para tornar a criação da riqueza (relativamente) independentemente do tempo de trabalho nela empregado.  
Por outro lado, ele quer medir essas gigantescas forças sociais, assim criadas, pelo tempo de trabalho e encerrá-las nos limites (requeridos) para conservar o valor já criado como valor.  
As forças produtivas a as relações sociais – ambas aspectos diferentes do desenvolvimento do indivíduo social – aparecem somente como meios para o capital, e para ele são exclusivamente meios para poder produzir a partir de seu fundamento acanhado. De fato, porém, elas constituem as condições materiais para fazê-lo voar pelos ares".    
Este vaticínio marxiano, feito há 160 anos, é mais atual do que nunca. Atingimos o estágio no qual a única fonte produtora de valor (o trabalho abstrato) se tornou supérflua; com isto, toda a lógica da reprodução do valor e de sua acumulação indébita por parte do próprio capital se torna incompatível com a necessidade exigida pelo organismo econômico social.

Vem daí que a própria política, submissa ao capital, evidencia a sua incapacidade de se tornar soberana e minimamente factível no que diz respeito à satisfação mínima das demandas sociais a partir da administração do aparelho de Estado.  

Esta é a razão do desespero dos Boçalnaros ignaros da vida, os quais, por mais belicosos que sejam e por mais dispostos que estejam a conter a chegada da primavera pela força, não podem bater em algo que é puramente abstrato, ou seja, uma lógica abstrata tornada real e que se tornou anacrônica a partir os seus próprios fundamentos. 

Assim, os políticos e a política se tornam tão ridículos quanto os seus próprios prognósticos administrativos, e o processo eleitoral democrático-burguês hoje mais parece uma ópera-bufa encenada por canastrões de quinta categoria. 
(por Dalton Rosado)
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