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terça-feira, 23 de julho de 2024

A CRISE DO CAPITALISMO E O PARTO DE UM NOVO MUNDO

 

Na medicina, a crise representa o momento crítico entre a cura e a morte. Quando dizemos algo como o parto do novo, buscamos fazer uso de uma uma metáfora usando elementos da medicina  para dizer que algo novo está para nascer sob o quadro de crise terminal do modelo da relação social forma-valor, que vem mostrando amplamente a sua inconsistência e obsolescência.  

A crise atual pode vir a ser condição de cura ou de morte.  

A cura pode ser representada por um novo modo de relação social que use todo o saber adquirido pela humanidade em prol de uma produção e de uma organização sociais que demonstre um novo grau de racionalidade humana.  

A morte pode ser representada por uma hecatombe nuclear que vem sendo anunciada e/ou pelo aquecimento global provocado pelo próprio  ser humano preso à autofagia de uma relação social segregacionista e subtrativa da produção social coletiva pelo comando abstrato, irracional, predatório e ditatorial da forma-valor. 

Alguém que tem esperança vê as luzes das estrelas que estão distantes em meio à mais intensa escuridão da noite; alguém que se desespera reage de formas aparentemente distintas, mas igualmente inconsistentes, que  se configuram no apego ao insuportável ou numa volta ao outrora suportado, mas irrealizável no presente.  

São três posições distintas: (i) a dos querem avançar sob novos conceitos; (ii) a dos que querem consertar o inconsertável; e (iii) os que querem o retrocesso.  

Vivemos um momento ímpar no itinerário da nossa história porque junta-se a crise econômica com a crise de seu modelo político-institucional serviçal - numa relação de causa e efeito -, fato que causa perplexidade justamente porque precisamos superar esses dois negativos conteúdos sociais concomitantemente.  

Não dá para se superar um sem se superar o outro, bem como não há como reformá-los convenientemente sob um mesmo critério de base de relação social. Ou se superam os dois ou corremos o risco de sucumbirmos como espécie.  

Se quisermos classificar as correntes de pensamento na atualidade elas seriam: os conservadores, os social-democratas e os emancipacionistas. 

Os conservadores de direita acreditam, equivocadamente, que todos os problemas sociais se resolvem com uma disciplina férrea e trabalho duro, combinado, evidentemente, com uma agenda de costumes retrógrada que consideram como padrão moral contributivo.   

Para estes, a forma-valor é algo tão natural como comer e beber e por ignorância científica ou interesse de manutenção de relações humanas subalternas e escravistas - este último aspecto na maioria das vezes predominante - diante do avanço de proposições humanistas que calam fundo na evolução das consciências humanas, não hesitam no apego ao estado jurídico-político-ditatorial capaz de impor suas teses retrógradas. 

Esses hoje se veem fortalecidos pelo fato que o referido avanço da evolução das consciências humanas  não acompanhar no mesmo compasso evolutivo as contradições causadas pelo limite interno e externo do capitalismo que se torna inadministrável  pelos bem-intencionados progressistas, termo que até pouco tempo se atribuía à esquerda.  

O avanço da direita conservadora decorre da incapacidade dos seus adversários em dar, pelo Estado e pela política, sentido humano à relação social capitalista no seu estágio de ocaso irreversível, como se os primeiros fossem - e não são! - capazes de administrá-lo corretamente e com pulso.     

O discurso da direita se trata de uma cantilena de fôlego curto que a força militarizada estatal em obediência a governantes ditatoriais tende a se desacreditar diante da insatisfação popular crescente, mas que produz efeito momentâneo diante da desesperança, principalmente nos países economicamente desenvolvidos ou em desenvolvimento que ora veem lhes faltar chão.  

A direita pode até estar presente tanto na democracia burguesa, com um bilionário capitalista igual Donald Trump, ou em propostas supostamente revolucionárias como na Coreia do Norte, com sua dinastia familiar hoje representada por Kim Jong-Un, para ficarmos apenas num exemplo de deturpação dos ideais revolucionários.   

Exemplo claro do movimento pendular de desgaste se pode observar nos repetidos ciclos de alternância política entre conservadores e social democratas graças à insatisfação popular a cada período por conta da queda paulatina de poder aquisitivo e perda de direitos sociais - principalmente previdenciários, comuns no mundo inteiro -, conforme se pode inferir dos dados abaixo: 

Na Inglaterra, após o período dos conservadores Margaret Thatcher e John Major, de 1979 a 1997, 18 anos, veio o período dos trabalhistas Tony Blair e Gordon Brown de 1997 a 2010, 13 anos; após o período dos conservadores David Cameron, Theresa May, Boris Johnson e Rishi Sunak de 2010 a 2024,14 anos;  e agora com o início de novo período trabalhista em 2024 com Keir Starmer. 

Na França, a direita avançou no primeiro turno das últimas eleições parlamentares e foi necessário uma unificação para que os partidos do campo da esquerda evitassem a hegemonia da extrema direita. Mesmo assim, o campo da esquerda conseguiu apenas 182 duas cadeiras em meio às 577 existentes, ou 31,5%. O centrão de lá, com Emmanuel Macron, continua dando as cartas.  

Nos Estados Unidos, Lyndon Johnson, democrata, foi sucedido por Richard Nixon, republicando, que renunciou ao cargo e foi sucedido por Gerald Ford, também republicano; na sequência vêm Jimmy Carter, democrata; Ronald Reagan, republicano; George H. W. Bush, republicano; Bill Clinton, democrata; George W. Bush,  filho, republicano; Barack Obama, democrata; Donald Trump, republicano; Joe Biden, democrata, e por aí vai.   

Por sua vez, a socialdemocracia e suas variantes mais progressistas ou não, tal como os conservadores, não podem responder aos anseios dos eleitores diante de fenômenos como a falência do Estado que decorre da depressão econômica mundial, e todos pugnam em seus discursos pela retomada do desenvolvimento econômico, impossível de ser retomada por conta das contradições internas dos fundamentos capitalistas que agora atingem seu ápice irreversível.    

As estruturas institucionais políticas de poder, serviçais de uma relação social negativa de onde tiram os seus sustentos, estão presas em camisas de forças que as impedem de pensar fora da caixa, ou seja, simplesmente pensar: entender e admitir que pode haver uma forma de relação social não atrelada ao sistema produtor de mercadorias, e mais, que é urgente tal alternativa porque é a humanidade que está em risco como espécie. 

O torpor cultural introjetado nas mentes humanas precisa ser rompido, porque se a ditadura burguesa não tem respostas, a democracia burguesa também não as tem, senão vejamos: 

- de que democracia estamos falando quando vivemos sob a égide de uma relação social antidemocrática por natureza, ou seja, em que é justificada e legal a apropriação forçada da produção social de capital pelo e para o capital com sua extração de mais-valia?!; 

- permanentemente fazemos a transferência de responsabilidade para prepostos políticos que recebem procurações para governar e legislar a cada ciclo eleitoral no qual tudo se repete e os outorgantes são relativamente alheios aos atos do outorgado; 

- permanentemente nos curvamos aos ditames ditatoriais de uma lógica abstrata, tautológica, que comanda o concreto da vida real, e que nos obriga ao cumprimento de regras absolutistas de atendimento a uma funcionalidade social comportamental vazia de sentido humano e de solidariedade, em que, por exemplo, se queimam produtos alimentícios para não prejudicar preços no mercado, cujo único objetivo é a valorização de si mesmo, do valor, que os eleitores não sabem o que é, pra que é, e nem como é.  

A democracia burguesa é antidemocrática - se quisermos emprestar ao termo um sinônimo de soberania da vontade popular - e não é o antônimo da ditadura, mas apenas uma variante pretensamente humana do desumano, e é por isso mesmo que se desgasta ensejando ciclicamente a aceitação perniciosa das pretensões do autoritarismo e conservadorismo oportunista.  

Ao povo deve caber o ônus e o bônus de suas decisões ao assumir de forma não representativa a solução dos seus próprios problemas sociais tendo como norte seu próprio interesse e sob bases equânimes de produção social e distribuição.  

Simples assim! (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 15 de maio de 2023

SOMENTE O EMANCIPACIONISMO PODE SUPERAR RADICALMENTE O CAPITALISMO

 Há uma profunda diferença entre as concepções políticas que têm como base de sustentação a forma valor e aquela que prega a superação radical da dita cuja. 

Podemos considerar que se trata de formas e conteúdos dicotômicos por representarem oposição de forma e conteúdo são inconciliáveis no que diz respeito ao convívio político num mesmo campo de atuação.  

São dois campos distintos, sendo um com vários matizes ideológicos, e o outro unificado numa concepção de relação social sem a mediação social pela forma valor. 

No campo da relação social mediada pela forma valor estão os seguintes projetos políticos, com variações pontuais que não alteram a substância de seus conteúdos nos resultados finais. São eles:  

01: O fascismo, que cresceu e se plasmou como poder por meio da política estatal de afirmação e regulação capitalista pela via do incenso ao trabalho abstrato e visão nacional socialista - uma contradição semântica do próprio objeto e enunciado.  

Não é por menos que a ascensão de Adolf Hitler ao poder político foi o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães que se firmou pelo voto depois de ver fracassado putsch de 1923, com alguns mortos e outros presos, incluindo-se o próprio líder nazista, tendo posteriormente saído da prisão com aura de salvador da pátria.   

  Benito Mussolini, fundador do fascismo italiano, inicialmente se filiou ao Partido Socialista Italiano (1901 a 1914), para durante a primeira guerra se apresentar como Fascio d’azone Revoluzionaria (1914 a 1919), e depois Faces de Combate Italianas (1919 a 1943) e Partido Republicano Fascista (1943 a 1945).  

Como se vê, a simbologia do trabalho abstrato produtor de valor, do socialismo e republicanismo estão presentes nos dísticos partidários das doutrinas que levaram o mundo à segunda guerra mundial e seus cerca de 50 milhões de mortos, além de danos materiais incalculáveis.  

02: O marxismo-leninismo, ao endeusar o trabalho abstrato ao invés de condená-lo, como queria Marx, e com ele a extração de mais-valia estatal dos trabalhadores russos, igualzinho ao que fez Mao Tse Tung na China, e sua cartilha stalinista, pode se inserir no campo do capitalismo de estado, inicialmente estatizante, até se render à economia de mercado mundial. 

03: A socialdemocracia, que se afirma como a antítese ao nazifascismo conservador, também se insere entre as formas políticas que atuam sobre uma base de relações mediadas pela forma valor e a partir de um processo eleitoral de alternância cíclica no poder político que proporciona um eterno pêndulo  entre posturas mais avessas aos ganhos civilizatórios dos conservadores e as que querem humanizar o capitalismo com condescendências de preocupações sociais mais civilizadas, e que assim, voltam sempre para o mesmo ponto de partida.  

04: O anarquismo, que jamais se consolidou como relação social vigente, até porque a sua contestação ao Estado e às religiões, sem atacar a mediação social pela forma valor, caiu num vazio de aglutinação de forças e apenas figura como um viés interessante da história da luta contra a opressão sistêmica.  

A identidade de todas essas formas políticas é o sistema produtor de mercadorias e tudo que a ele se incorpora, e por seu conteúdo intrínseco termina sempre por as igualar de modo pragmático, vez que a política não tem soberania de vontade sobre a economia capitalista, de onde retira seus sustentos.    

O capitalismo é o suserano de todas as formas políticas que se desenvolveram sob os seus fundamentos e nenhum vassalo pode dar ordens a este senhor ditatorial, abstrato e impessoal, a forma valor, que é de onde tiram o seu sustento pela via da taxação fiscal. 

A política e os políticos beijam a mão do Estado e seus impostos que são cobrados a uma população já exaurida pela extração de mais-valia, sob o argumento falacioso da imprescindibilidade da sua institucionalidade para o atendimento das demandas sociais de sua incumbência constitucional, jamais cumprida. 

Ressalte-se que com a falência do Estado em face da depressão capitalista, causada pela contradição dos seus próprios fundamentos, implica num atendimento das demandas sociais cada vez mais precário, quando não inexistente. 

 Até a própria extração de mais-valia que sustenta o capital agora escasseia irremediavelmente e nem mais isso os escravos do trabalho abstrato conseguem obter por conta do desemprego estrutural que nega o trabalho que os escraviza, fenômeno que se alastra mundo afora prenunciando a morte do capitalismo após seu ciclo de nascimento e milenar desenvolvimento.  

As formas políticas sob o capital exploram o trabalho abstrato e o vendedor da mercadoria força de trabalho - única mercadoria que o trabalhador possui para venda -, e ainda lhe cobra impostos, ou seja, o trabalhador explorado financia a sua própria opressão, e é por isto que este conjunto de fatores tem que ser superado, e não reformado por medidas protetivas legais impossíveis de serem consistentes. 

 Destarte, a única doutrina a pregar a libertação da camisa de força da política serviçal do capital e da sua ditatorial servidão social é aquela situada fora do campo de mediação social pela forma valor e suas categorias complementares - trabalho abstrato, trabalhador, dinheiro, mercadoria, mercado, política, socialismo, democracia burguesa, Estado, direito burguês, etc. 

A negação da política e da forma valor são concepções tão simultaneamente imbricadas a ponto de não poderem ser dissociadas, razão pela qual não se pode conceber a esquerda anticapitalista possa negar a forma valor sustentadora do Estado ao mesmo tempo em que se imiscui nas esferas políticas dele e assim se torna dependente de cargos e dotações orçamentárias em dinheiro.

Algo assim tão contraditório como alguém que sem capital e querendo ficar rico prescinda da exploração do trabalho abstrato extrator de mais-valia que promove a acumulação do capital. Uma coisa não vive sem a outra, do mesmo modo que a política não vive sem o capital que segrega a maior parte da população e, portanto, não pode haver político e política institucional emancipacionista.  

Capitalismo e política institucional são faces de uma mesma moeda

O emancipacionista é visceralmente avesso ao capital e à política que lhe dá sustentação, daí se situar num campo de atividade social que foge dos parâmetros tradicionais e fazer uma abordagem diferenciada dos conceitos tradicionais, tais como:  

- ao invés de mendigar empregos e salários, como faz Lula, seu partido e sua administração pública, e os sindicalistas, os emancipacionistas negam esta necessidade e pregam a quebra das correntes dizendo que não se trabalhe jamais - favor não confundir a categoria trabalho, dado histórico, com atividade produtiva social de sustento das necessidades humanas, dado ontológico;  

- ao invés de concorrer às vagas ao parlamento burguês e ser sempre minoria a legitimar aquela instituição burguesa, pregam: NÃO VOTE E NÃO SE CANDIDATE AOS CARGOS ELETIVOS DO ESTADO

- ao invés de querer a adoção de um novo padrão monetário fiduciário de concorrência ao dólar, pregam a superação de todos as moedas, seja do dinheiro como representação do valor ou moeda falsa oficial por não ter correspondência com lastro na produção de mercadorias que lhe empreste um mínimo de credibilidade;  

- ao invés de tentar um arcabouço fiscal que permita o atendimento de demandas sociais de modo mais abrangente, como querem todos os governos que buscam agradar os explorados do capital, pregam o banimento dos impostos; 

- ao invés de defender a criação de um banco como o do BRICS, pregam o fim da agiotagem, seja aquela escorchante, que tira a o escalpo de devedor, ou seja aquela que mantém o devedor apenas vivo para continuar na servidão;  

- ao invés de pugnar pela retomada do desenvolvimento capitalista, ora depressivo, pregam o fim do dito cujo e a adoção de um modo de produção voltado para a satisfação das necessidades coletivas e que dita produção seja capaz de promover o bem-estar mundial a partir do uso das tecnologias avançadas; 

- ao invés de pugnar pela volta ao trabalho vivo a partir dos nervos e músculos humanos na produção de valor em substituição ao trabalho morto, das máquinas, que está levando ao colapso capitalista e se constituindo como a maior das suas contradições existenciais, defendem o uso de toda tecnologia a serviço do ser humano e sem produção de valor, com os evidentes benefícios daí advindos, e a possibilidade de gozo de um ócio produtivo nos vários campos da atividade artística, educacional, esportiva, afetiva, etc.;  

  - ao invés da estrutura de poder do Estado e todas as suas instituições, inclusive com os enormes gastos militares com pessoal e equipamentos de guerra, pugnam pela extinção das forças militares e de todos os artefatos de guerra, inclusive atômicos; 

- ao invés de defender as adaptações atuariais dos gastos com a previdência social que remetem as aposentadorias dos contribuintes para uma idade proibitiva, pugnam pela assistência aos idosos, inválidos e crianças a partir de uma produção social coletiva a ser levada a cabo pelos que estão aptos à produção social compartilhada; 


- ao invés de levantar muros nas fronteiras e elaborar leis contra a imigração, defendem que sejam abolidas as fronteiras nacionais e o próprio nacionalismo, e o fazem em nome da fraternidade humana entre os povos de várias etnias;  

- ao invés do estabelecimento de pactos internacionais para a diminuição da emissão do gás carbônico pelas grandes potências econômicas, e que nunca são cumpridos, defendem a superação da produção e das exportações e importações de mercadorias por estes países, como forma de superação de tais emissões suicidas; 

- ao invés de aceitar a positivação das categorias capitalistas na grade curricular de ensino básico, defendem a crítica categorial a ser lecionada pelos professores de modo a que seja construída no consciente coletivo a negação do que é socialmente negativo, como por exemplo a exploração salarial que promove a desigualdade econômica, e a lógica autotélica do capital que causa o caos ecológico nos rios, mares, solo, subsolo e atmosfera causadora do aquecimento global ecocida

- ao invés das negociações políticas que implicam sempre em engolir sapos para que o exercício do poder político institucional do Estado se viabilize por quem o exerça, e que existe para dar sustentação à relação social capitalista e seus tenebrosos negócios, preferem dizer NÃO! e rejeitar a inevitável indigestão; 

 etc., etc. etc.  

Certamente que os defensores da pretensa boa política dirão serem as aspirações emancipacionistas utópicas e distantes da realidade concreta e possível, mas a realidade e a necessidade, mãe de todas as providências pragmáticas, aliada à teoria revolucionária, está a conspirar contra a incredulidade e a impossibilidade.  

Mas a esses incrédulos afirmamos que Jesus Cristo também parecia um lunático aos olhos do poderoso Império Romano e, por conta dos seus ensinamentos, então revolucionários, é que estamos hoje, 1990 anos após sua morte por crucificação, ainda falando em seu nome como fundador de uma das maiores doutrinas religiosas existentes no mundo, enquanto o referido império simplesmente desapareceu desde há muito. 

Estamos em campos mais férteis do que os que estão naqueles que são arados pela força destrutiva e autodestrutiva do capital.   

Sem a menor pretensão de sermos salvadores de um reino de outro mundo, e muito menos das pátrias como pátrias, modestamente afirmamos se encontrarem os emancipacionistas num campo de atuação diferente do que vem se plasmando há milênios, desde que surgiram as primeiras trocas quantificadas de mercadorias e que deram expressão à forma valor substituindo a partilha.  

Não somos melhores que ninguém, mas nos reservamos o direito de sermos diferentes do que está posto na contenda ideológica de uma conjuntura caótica mundial, seja do ponto de vista político, social ou ecológico. 

Pensar o impensável, fazer o impossível! é o lema da crítica categorial à forma valor e à dissociação de gênero. (por Dalton Rosado) 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

A TRAIÇÃO AO PENSAMENTO REVOLUCIONÁRIO DE MARX ABRE AS PORTAS AO FASCISMO - 1



 

O Marx traído e o crescimento do fascismo -1

 Há contradições na obra de Karl Marx? É possível visualizar diferenciações entre o que ele escreveu em 1848 (aos 30 anos), no auge das dores europeias do parto da transição revolucionária do feudalismo para o republicanismo capitalista, e o Marx dos Grundrisse -  rascunhos do que viria a ser o primeiro volume de 1858 de O Capital e dos demais volumes compilados por Friedrich Engels após a morte do autor em 1883.

 Contudo, não há contradição quando se entende que ele fez uma autocrítica de si mesmo ao caminho da maturidade (já aos 40 anos) no que se refere ao sujeito da revolução anticapitalista, como adiante abordaremos.

  Na vasta obra de Lênin, tendo por base o Marx politicista, mais voltada para a tomada do poder numa Rússia agrícola, não se encontra praticamente nada sobre a crítica marxiana do valor; tal observação pode também ser feita sobre a obra bem menos abrangente de Mao Tsé Tung.

  O Marx do Manifesto Comunista, de 1848, escrito em parceria com Engels, exalta a força da classe operária como sujeito da revolução, tanto assim que terminam dizendo: Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos! Não tendes nada a perder, a não ser vossos grilhões.  

  Mas o Marx dos Grundrisse prevê o declínio do poder da classe operária como produtora da substância primeira e primária do capital, o trabalho abstrato produtor de valor, quando o desenvolvimento da tecnologia aplicada à produção de mercadorias  tornasse prescindível seu uso em maior parte por tal categoria capitalista.

 É evidente que a luta armada para a tomada do poder de então, fosse ele predominantemente feudal - como na Rússia de 1917 - ou republicano burguês, pelo proletariado, num estágio tal de desenvolvimento tecnológico da produção social sob a forma valor, por ele pensado (e que hoje se concretiza), perderia força como sujeito revolucionário.

E o que seria, então, o móvel da revolução emancipatória pela superação do capitalismo? Esta é a grande incógnita a ser respondida diante do impasse social sob o qual vivemos e que ameaça a humanidade de extinção sob uma guerra nuclear ou catástrofes ecológicas mais iminentes.

Chegamos ao estágio no qual os nichos de emprego surgidos pelo uso da tecnologia na produção e serviços são substancialmente menores do que a dispensa do trabalho abstrato, e tal fenômeno, previsto por Marx há 165 anos, está a acontecer. 

Disse Marx nos Grundrisse que quando tal fenômeno ocorresse faria voar pelos ares toda a lógica capitalista. A esquerda dita marxista institucional desconhece, ou conhece e ignora, o que é pior, a já referida autocrítica implícita que Marx fez na maturidade, daí traí-lo cotidianamente de modo voluntário ou não ao usar o seu nome, sendo o caso chinês o mais notório. 

Já os social-democratas, antimarxistas, são apenas equivocados crentes na humanização do capitalismo; acreditam que o pé de laranja pode dar manga, caso seja enxertado.

Acresça-se à ilusão social-democrata de humanização do capitalismo o fato de que os parlamentos burgueses são formados na sua grande maioria por parlamentares eleitos pela força do capital dos grotões mais profundos de cada país, onde a liberdade de escolha e discernimento eleitoral é quase nula.

A esquerda, quando muito, compõe 20% das casas parlamentares e apenas legitima, com sua presença, o domínio burguês do processo legislativo. O povo somente assiste passivo à sua representação espúria delegada.

Mas, conforme colocava Marx, o capitalismo cava a sua própria sepultura, pois ele somente pode crescer e se sustentar com o aumento do volume de extração de mais-valia, e esta é uma regra inquestionavelmente comprovada e básica decorrente das análises marxistas.

Ora, se diminui a massa global de extração de mais-valia em face do uso da tecnologia na produção impulsionada pela guerra concorrencial de mercado que obriga os produtores concorrentes à redução de custos de produção como forma de vitória no mercado, é evidente que aí se evidencia a auto-destrutibilidade de uma lógica contraditória que está fadada ao fracasso num determinado momento histórico.

O fracasso do capitalismo one world enquanto forma de relação social sustentável da vida das pessoas e da sua própria funcionalidade gera os seguintes fenômenos:

- o desemprego estrutural

- falência do Estado que a ele serve

- incapacidade de reprodução do capital (leia-se valor) no nível exigido pela própria dinâmica da sua necessidade do crescimento constante sem o qual definha inexoravelmente

- inflação ditada pela emissão de moeda sem valor

- fome e miséria em vastas regiões do planeta e emigração forçada para as regiões nas quais ainda há vida capitalista, mesmo decadente

- decadência e depressão econômica nos países de economias dominantes e hegemônicas (G7, como conhecemos)

- uso predatório e irracional dos recursos naturais com poluição de rios, mares, solo, subsolo, e atmosfera

- aquecimento da temperatura planetária causada pela emissão de gases que promovem o feito estufa e alteram os fenômenos climáticos

- guerras por hegemonia política e econômica

Os fenômenos acima elencados estão presentes mais do que nunca na vida social mundial contemporânea, sendo o discurso dominante de que sua  causa é apenas devido à má governabilidade, e não à falibilidade intrínseca do sistema capitalista.

Diante dos impasses causados pela inviabilidade de um modo de relação social e do desconhecimento científico e social da necessidade de superação de um modo de relação social obsoleto que alcança o seu limite existencial histórico, observam-se posturas políticas consubstanciadas em dois segmentos claramente definidos.

Por um lado, a volta de posturas políticas totalitárias, de cunho militarista, objetivando a contenção dos segmentos sociais organizados reivindicadores e questionadores das misérias sociais e comportamentos retrógrados nos costumes, e com visão do liberalismo clássico na economia, não raro acompanhadas de visões fundamentalistas religiosas.

 Já, por outro lado, a defesa insustentável de uma retomada do desenvolvimento econômico pelos social-democratas e pela esquerda institucional com visão keynesiana em seus vários matizes.

  Ora, ambos os segmentos políticos acima referidos têm como base de suas posições a relação capitalista que se inviabilizou, como se o capitalismo fosse a única forma possível de relação social, e aí se identificam. Consideram que o capitalismo é algo inerente à vida social humana, como se fosse um dado ontológico e inevitável da nossa existência, e não um elemento histórico com nascimento, vida e morte. (por Dalton Rosado - continua neste post)

quarta-feira, 1 de julho de 2020

COMO UM FANTASMA, MARX SEMPRE VOLTA PARA ASSOMBRAR TEÓRICOS EMPENHADOS NA POSITIVAÇÃO DO CAPITALISMO – 1

dalton rosado
KARL MARX OU
 JOSEPH SCHUMPETER?
O homem que previu o fim do capitalismo e que ajuda a entender a economia de hoje é o título bombástico de um quilométrico artigo da BBC (tecle aqui para acessá-lo), cuja tradução foi muito reproduzida por jornais, portais e sites brasileiros na semana passada. 

Mas, será que o economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) tem mesmo essa importância toda? Aprofundemos a questão. 

A crise do capitalismo atual é diferente das outras por ele enfrentadas. Isto se deve a uma conjunção de fatores que antes não existiam. São eles: 
— desemprego estrutural crescente;
 dívidas pública e privada impagáveis;
 aquecimento global e poluição de rios, mares e subsolo;
 epidemias viróticas;
 atingimento do limite interno absoluto de expansão; 
 redução drástica da produção de valor e de mais-valia; e
 fracasso das ideologias. 
Adam Smith, Marx, Schumpeter,  Keynes e a debacle capitalista

Face à iminência de uma catástrofe econômica mundial, surgem os muitos pais da criança que, sob as mais variados pretextos, apresentam-se como os profetas do apocalipse capitalista e sugerem fórmulas salvadoras de antemão fadadas ao fracasso, pois circunscritas à racionália de sua lógica perversa. 

Não há como humanizar o demônio; é da sua natureza ser demônio.

O fiasco anunciado do momento atual é Joseph Schumpeter, economista burguês que, como tal, defende a contradição própria ao socialismo burguês e foi recentemente resgatado como respeitável. Keynes também já o fora, sendo hoje exemplo de fracasso estatista, embora todos os sociais-democratas socialistas adotem a sua cartilha.

Mas, apesar de tanto empenho em sepultarem preconceituosamente o velho barbudo, Marx sempre volta à tona como um fantasma, para assombrar todos os teóricos que insistem na positivação do capitalismo, seja sob que forma for. 

A verdade é que o capitalismo predominou nestes dois últimos séculos como forma de mediação social, aperfeiçoando os seus mecanismos de controle e promoção estatal de sua lógica, mas nem isso foi capaz de lhe garantir maior sobrevida. É difícil prevermos quanto ainda durará sua agonia, mas já se percebe claramente que ele marcha para o fim.
Ditadura do proletariado é um nome impróprio para este conceito 

A obra de Marx, que denunciou a sua insustentabilidade, é permeada pela influência e crítica às teses idealistas hegelianas no campo filosófico, e por profunda análise da mecânica funcional da gênese e das relações econômicas. Daí a solidez de sua crítica categorial e a confirmação na atualidade de seus vaticínios de meados do século 19. 

Mas Marx não era um ser divinal infalível; as circunstâncias sociais sob as quais viveu na sua fase adulta (de 1940 até a sua morte em 1883) evidentemente pautaram a sua atuação como teórico revolucionário. 

Uma dessas circunstância era a efervescência política na Europa do período da grande revolução industrial inglesa. 

Havia então:
— por um lado, uma disputa entre as monarquias constitucionalistas com um pé no feudalismo escravista direto e as repúblicas burguesas que tentavam se consolidar como poder econômico (o verdadeiro poder original) e político (derivado), descentralizado e diluído em esferas autônomas (executivo, legislativo e judiciário); e
 por outro lado, como força emergente, o pensamento socialista em suas mais diversas variantes (que se digladiavam entre si).
A revolução de Lênin e Trotsky, ao optar pela produção estatal, propiciaria o autoritarismo de Stalin...
Marx e Friedrich Engels, seu parceiro de toda a vida, defendiam a tese de um poder proletário a que denominaram ditadura do proletariado, nome que entendo como impróprio para uma ordem social regida pela maioria da população, fosse proletária, artesã ou campesina, num século no qual a urbanização industrial era ainda incipiente. Melhor seria chamá-lo de democracia proletária.

Pregavam a instituição do Estado Proletário sob o comando de um partido político proletário, com o mesmo programa básico para todos os países (o internacionalismo proletário). 

Tal estado seria proprietário dos meios de produção, mas deveria ir criando, aos poucos, as condições para a sua autodestruição, bem para a futura dissolução do próprio partido e para a eliminação do trabalho assalariado, de forma a que deixassem de existir  classes sociais distintas.

Esse projeto político foi levado à frente, no século seguinte por Lênin e Trotsky, como comandantes de revolução bolchevique de 1917 na Rússia.
...fenômeno que se repetiria na China de Mao.

Demonstrou-se, entretanto, irrealizável sob bases capitalistas de produção estatal e segundo o roteiro de transição preconizado por Marx.

A história se encarregou de demonstrar o fracasso dos modelos políticos do marxismo tradicional que seguiram tal itinerário (caso da China, principalmente).

Confirmaram-se adágios como os de que o poder corrompe e o uso do cachimbo faz a boca torta... (por Dalton Rosado)
(continua neste post)
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