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domingo, 2 de janeiro de 2022

OS QUE NÃO REAGEM AO EXTERMÍNIO DE 200 MIL BRASILEIROS, CHORAM POR CAUSA DA DEPRESSÃO DO INFLUENCIADOR DIGITAL

Felipe Neto, que é um dos mais conhecidos influenciadores digitais (?!) do Brasil, com várias dezenas de milhões de seguidores nas três principais plataformas (Youtube, Instagram e Facebook), entrou em parafuso por causa de uma separação amorosa.

Escancarou seu drama na web, em tuítes que chegaram a ser reproduzidos até pela grande imprensa. Eis um trecho:
"Eu caí. Eu caí legal. E estou lá... no fundo do poço, com 20cm de fezes, que não é suficiente pra me afogar, mas o suficiente pra querer afogar".
E agradece aos que o estão ajudando a atravessar a depressão: famílias, amigos, leitores que lhe mandam mensagens, etc., etc., etc. 

[Ah, meu Deus, o que será de nós se o famoso influenciador digital morrer? O Brasil jamais será o mesmo...]  

Só que, adiante, ele esnoba essa esdrúxula mobilização (nunca tantos se incomodaram tanto com tão pouco) e diz que está sendo salvo mesmo é pelos médicos:
"Nada disso estaria realmente funcionando se eu não estivesse com acompanhamento psiquiátrico psiquiátrico e medicação"
Eu também lamento imensamente... o estado de emburrecimento a que o Brasil chegou, capaz de ter como grande atração televisiva um programa voyeurista que explora a compulsão sórdida de espiar-se a intimidade alheia, com a câmara servindo durante meses e meses como buraco de fechadura; e de dar uma importância tão absurdamente desmesurada a episódios como o que o Felipe Neto está atravessando e pelos quais todos nós também passamos.

Antes o que nos chegavam eram testemunhos de quem conseguia extrair de suas dores verdadeiras obras-primas, e não dos que fizessem dissertações sobre a merda. Nas mãos, p. ex., dos grandes Geraldo Vandré, Jacques Brel, Luiz Vieira, Eric Clapton e Chico Buarque, esses dramas se tornaram canções lancinantes como estas abaixo:  
"Ah, eu vou voltar pra mim, seguir sozinho assim, até me consumir ou
consumir toda essa dor, até sentir de novo o coração capaz de amor"
.
"'Não me abandone, eu não vou mais chorar, eu não vou mais falar. 
Me esconderei aqui, só para te ver dançar e sorrir. 
E para te ouvir cantar e depois rir"
.
 "Tanta coisa lhe disseram, como esse mundo é ruim! Pensaram
tanto em você, mas ninguém desejou ver o que acontecia a mim"
.
"Como um tolo, me apaixonei por você, você virou meu mundo inteiro de
cabeça pra baixo. Layla, você me deixou de joelhos, Layla. Estou implorando
querida, por favor, Layla, querida, você não acalmará minha mente agoniada?"
.
"Trocando em miúdos, pode guardar as sobras de tudo que chamam
lar, as sombras de tudo que fomos nós, as marcas do amor 
nos nossos  lençóis, as nossas melhores lembranças"
.
Juro que tento com todas as forças acreditar que o povo brasileiro ainda despertará de suas seculares resignação e apatia. 

Mas foi exasperante vê-las chegarem ao ápice na pandemia de covid, quando um presidente com gritantes traços de insanidade mental, ao sabotar a imprescindível vacinação, levou à morte cerca de 200 mil pessoas que, inexistindo tal negacionismo infame, teriam sobrevivido... e nem assim houve a reação popular que se impunha face a tão medonho extermínio! 

O que se pode esperar de quem não reage nem para salvar a própria vida e a dos seus entes queridos?

E de quem continua interessado em chororô de famosos quando seu país está entrando no olho de um furacão? (por Celso Lungaretti)
Observações: "Layla" não é exatamente uma canção sobre o sofrimento de uma separação e sim do de um amor não correspondido. Mas, é tão bela e tocante que a resolvi incluir. 
Jacques Brel em 1966
Como nem todos compreenderão o drama de Luiz Vieira, esclareço que no início de carreira, comunista, ele cantava nas feiras nordestinas para conscientizar o povo e tinha de fugir correndo quando chegava a polícia. 
Daí a insistência de todo o círculo familiar e de amigos daquela moça de classe média pela qual ele se apaixonou, os quais não desistiram até conseguirem afastá-la dele. "Pensaram tanto em você, mas ninguém desejou ver o que acontecia a mim."
E, como eu queria evidenciar principalmente as letras, usei uma versão de "Ne me quites pas" bem posterior ao momento em que Jacques Brel estava em cacos. Mas, quem quiser ver sua emoção em 1966, no calor dos acontecimentos (só que com legenda em inglês), clique aqui e assistirá a uma das performances mais dolorosas que eu conheço. (CL)

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

TEREMOS UM BRASIL DE PESADELO EM 2022, COMO A DISTOPIA DE ORWELL? E DE SONHO EM 2032, COMO A UTOPIA DE MORUS? – 2

(continuação deste post)
UM OUTRO CENÁRIO PARA 2032 – A partir dos consecutivos índices negativos de crescimento do PIB da China, Japão, União Europeia e Estados Unidos, sobreveio uma falência completa do sistema bancário em razão da incapacidade de adimplência da enorme e insolvável dívida pública e privada desses países.

As pessoas se viram obrigadas a procurar novas formas de sobrevivência, recorrendo à riqueza material (como alimentos, terra e serviços), sem a interveniência das moedas, que já deixaram de servir como representação válida do valor. É que, com o congelamento dos depósitos e aplicações financeiras, a mediação social pelo dinheiro se tornou impossível.

Créditos e dívidas financeiras simplesmente deixaram de ser funcionais e o critério de mediação social em meio ao caos passou a ser concreto, físico, tangível: a posse de todo e qualquer meio de sobrevivência que esteja à mão para ser utilizado.

O mundo passou a ser apossado, também, pelos outrora despossuídos; tal evolução, facultada pelos ganhos tecnológicos do saber da humanidade, se mostrou factível e até indispensável.  

O Brasil, cujos potenciais de sobrevivência são imensos por possuir baixa densidade demográfica, abundância de terras férteis, de recursos hídricos na sua superfície e sobsolo, minerais, bem como facilidade para a produção de energia limpa (eólica e fotovoltaica), tornou-se o paraíso da emigração mundial. Assumiu, assim, um grau de importância antes inimaginável. 

É que o critério de aferição de riqueza transitou da abstração da forma-valor para a concretude da riqueza material, e com isto toda a lógica jurídica da propriedade aferida pelo dinheiro enquanto representação da valor deixou de existir. 

Isto aconteceu simplesmente porque a forma-mercadoria já não prevalece, posto que inexiste mercado no qual ditas mercadorias possam ser trocadas por um quantitativo de valor (o qual também já não existe).    

Agora tornado rico, o Brasil criou uma nova relação de funcionamento social com profundos reflexos no campo da superestrutura (política e poderes institucionais do Estado – executivo, legislativo, judiciário e partidos –, direito, filosofia, religião, literatura, arte, comportamento, etc.) e se descobriu que, sob os novos critérios de sociabilidade, a vida pode ser muito mais fácil do que jamais se supôs. 

O mundo passou a ser a casa de todos, sem precisar-se de passaporte ou de gorda conta bancária para ser-se aceito como cidadão nos países ditos ricos; mas, isto inclusive perdeu a relevância de outrora, pois deixaram de existir regiões paralisadas pelo critério de produção de mercadorias, segundo o qual o nível de produtividade é que define quem vai viver ou quem vai morrer.

Percebeu-se generalizadamente que a viabilidade da produção de meios de subsistência nas regiões mais pobres da África ou da Ásia, afastado os critérios de competitividade do mercado, são comodamente factíveis usando-se os ganhos do saber tecnológico em prol da vida e não do lucro. Tal comportamento se afirmou definitivamente. 

A transposição de águas de uma região para outra, tendo-se como base apenas os esforços da população e uso dos recursos materiais à mão, possibilitou a produção de alimentos em regiões áridas ou semiáridas (como o Nordeste brasileiro e a região subsaariana da África) matando a fome de milhões de pessoas. 

A produção de energias limpas como eólica e fotovoltaica pôde ser viabilizada independentemente de critérios comerciais de suas existências e, assim, se pôde abolir o uso de petróleo como combustível fóssil poluente da atmosfera. 

A possibilidade de produção de energia abundante e irrigação à mão de terras coletivas redimiu populações inteiras de suas histórias seculares de fome e miséria.

O Brasil deixou de ser o país do futuro, pois este, após tanto tardar, finalmente chegou! (por Dalton Rosado)
"Quero ver o meu sertão/ Produzir pra nação ver/ Quero ver o lavrador/
Plantar e poder colher/ E o sertanejo menino/ Sorrindo poder crescer/
Fazer conta de somar/ Dividir, multiplicar/ E quando receber carta/
Não ter de pedir pros outros ler" 

domingo, 19 de agosto de 2018

NOSSO NORDESTE DECAI CADA VEZ MAIS SOB O CAPITALISMO, MAS HAVERÁ DE FLORESCER NUMA SOCIEDADE EMANCIPADA!

dalton rosado
NORDESTE BRASILEIRO, A TERRA PROMETIDA?
Na história da libertação dos hebreus do jugo egípcio, Canaã corresponde à terra prometida onde, graças à conjunção de terra, sol e água abundante, corria leite e mel.

O Nordeste brasileiro pode se tornar a nova Canaã destes tempos chamados de modernos. Aliás, trata-se de um conceito que mascara o vergonhoso descompasso atual entre o desenvolvimento tecnológico e do saber, de um lado; e a pobreza da maior parte das populações do mundo, do outro. Uma discrepância que é gritante no nosso Nordeste.   

Nele, a secular (ou milenar) escassez de água da chuva agora se agrava com o aquecimento global, reduzindo drasticamente os seus reservatórios e causando a desertificação de grande parte de terras interioranas, já abandonadas por parcela considerável dos seus antigos habitantes, os pobres agricultores. 
Isto também é Nordeste...
Nem mesmo os antigos coronéis resistiram à autofagia capitalista: eles também desertaram. Isto, contudo, não deve nos causar júbilo, pois se trata de outro aspecto trágico dentro de uma realidade ainda mais trágica, com os resquícios da era pré-capitalista extinguindo-se por força da dinâmica de sua negativa lógica de produção e deixando uma terra devastada no seu lugar.    

A população do Nordeste (53,6 milhões de habitantes, correspondendo a 25,8% da população brasileira) concentra-se nos centros urbanos; mais precisamente, na faixa litorânea. 

A densidade demográfica do interior do Nordeste é bem inferior aos 36,3 habitantes por km² atribuído à região, que já é bem inferior aos 47,5 habitantes por km² da região sul/sudeste do Brasil, vez que sua população se concentra nos centros urbanos.       

É que ninguém consegue produzir no agronegócio sob o regime concorrencial de mercado com as condições de competitividade dadas para o Nordeste brasileiro. 

Fazer reforma agrária no Nordeste é fácil, mas não passa de uma piada; as terras carecem de valor econômico, na medida em que a produção agrícola não consegue concorrer com outras regiões do país.  
...mas o capitalismo o conduz a isto.

Os grandes latifundiários rurais até aceitariam as desapropriações estatais, não fossem as avaliações irrisórias que hoje se fazem daquilo que outrora supunham ser um valioso patrimônio.

Comete grave erro o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra: ao lutar pela propriedade da terra para os agricultores, sem colocar em xeque a própria natureza jurídica e econômica da propriedade rural e seu modo implícito de produção, direciona-se para o fracasso, a menos que atualize a sua bandeira de lutas e passe a defender não só a posse da terra, mas também a produção sob outro modo de relação social. 

Até a agricultura de subsistência deixou de ser viável, tanto que os poucos colonos que se aventuram a produzir num lote de terra desapropriada logo desistem da empreitada. Apenas algumas localidades mais bem aquinhoadas por terem solo fértil e água conseguem produzir alguma coisa, e assim mesmo em pequena escala.     

Salta aos olhos quão perversa é a lógica capitalista para as regiões que não conseguem ter competitividade de mercado para a sua produção de mercadorias; os fenômenos do empobrecimento rural do Nordeste brasileiro e de sua destruição ecológica via desertificação o atestam de forma incontestável. 
"Menino de pé no chão, já não sabe nem chorar. Reza uma reza comprida
 pra ver se o céu saberá. Mas a chuva não vem, não. E esta dor
no coração, ai, quando é que vai se acabar?!"
.
Não se produz alimentos em grande escala no Nordeste porque o solo é pobre; a água, escassa; e a energia, cara. 

Esses três fatores deixariam de existir acaso houvesse um modo de produção de bens agrícolas servíveis ao consumo fora da lógica da mercadoria, ou seja, sem mensuração de valor monetário, mas de valoração da vida. 
"Em 1950 mais de 2 milhões de nordestinos viviam fora dos seus estados
natais. 10% da população do Ceará emigrou. 13% do Piauí!
5% da Bahia!! 17% de Alagoas!"
.
Ao contrário do que se pensa (e o pensar sob o capitalismo é sempre abstrato e oportunista, sem conexão com o concreto e a satisfação das necessidades humanas, ainda que se torne real na vida social), o Nordeste brasileiro poderia se tornar, sob outra lógica, a mais produtiva das terras brasileiras, vez que os seus pretensos entraves à produção podem, sim, ser removidos.  

Como sabem os profissionais das ciências agrícolas, o sol é o mais importante fungicida do planeta Terra; e o Nordeste brasileiro possui sol e vento permanentes o ano inteiro.
"Quero ver o meu sertão produzir pra nação ver. E o sertanejo menino,
sorrindo poder crescer. Fazer conta de somar, dividir, multiplicar.
E quando receber carta, não ter que pedir pros outros ler"
.
Consequentemente, as pragas que dificultam a produtividade agrícola podem ser combatidas com mais facilidade, e o seu clima, mais ou menos estável durante todo o ano, o torna imune aos danos causados pelas geadas e pelas chuvas excessivas.

Deve ser também levada em conta a possibilidade de produção de energias limpas como a fotovoltaica e a eólica. A primeira advinda do sol e a segunda dos ventos, que são particularmente permanentes e estáveis durante todo o ano, com pequenas variações de intensidade. 
"Por falta d'água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão. Até mesmo
a asa branca bateu asas do sertão. Entonce eu disse, adeus
Rosinha, guarda contigo meu coração"
.
O Nordeste tem águas subterrâneas salgadas, salobras, que podem ser dessalinizadas pelo uso de equipamentos movidos à energia fotovoltaica e eólica, abstraindo-se dessa utilização o custo econômico de tal processo, somente possível numa sociedade não mediada pela forma-valor.    

Sob este mesmo prisma, as águas dos rios amazônicos poderiam ser transpostas para a região nordeste do Brasil e manter de forma perene (e até com sobras!) o abastecimento de água para a produção rural e para os centros urbanos, desde que não prevalecesse a famigerada viabilidade econômica da lógica capitalista que prioriza o lucro em detrimento da vida.    
"A vida aqui só é ruim quando não chove no chão. Mas se chove dá de tudo,
fartura tem de porção. Tomara que chova logo, tomara, meu Deus,
tomara! Só deixo o meu Cariri no último pau de arara"
.
Por último vem a questão do enriquecimento do solo, agora que as técnicas agrícolas têm como fazê-lo perfeitamente. Os custos econômicos, contudo, o inviabilizam na atualidade,  mas tal empecilho deixaria de existir sob uma lógica de produção voltada para a satisfação das necessidades de consumo. 

Sob uma mediação social sem a imposição da tirania da ganância sobre a produção agrícola, a satisfação das necessidades de consumo de alimentos poderiam ser facilmente atendidas em cada localidade, evitando-se os elevados custos de transporte, próprios a uma economia mercantilizada (poluição pelo monóxido de carbono que atende aos interesses da indústria petrolífera à parte...).  
"E mesmo quem não tem coragem pra suportar, tem que arranjar também
coragem pra suportar. Ou então vai embora, vai pra longe e deixa
tudo, tudo que é nada, nada pra viver, nada pra dar"
.
Comprova-se assim, teoricamente e na prática, que a produção agrícola no Nordeste hoje se tornou plenamente viável graças à apreensão do saber pela humanidade nos seus vários ramos do conhecimento.

Até algumas décadas passadas, quando a competitividade mundial de mercado ainda não tinha imposto as suas regras ditatoriais a todos os quadrantes do mundo, a mesa de café da casa de um latifundiário rural era farta (já para os trabalhadores rurais sobrava uma alimentação bem mais precária, seguindo a tradição da senzala).
"Pavão misterioso, meu pássaro formoso, no escuro dessa noite me ajuda a
cantar. Derrama essas faíscas. Despeja esse trovão. Desmancha
isso tudo que não é certo, não!"
.
Nessa mesa podiam-se encontrar: café, açúcar mascavo, rapadura, leite, coalhada, cuscuz de milho, milho assado no verão (oito meses) e cozido no inverso (4 meses), canjica, pamonha,  ovos, queijos, carne assada, tapioca, bolos, frutas deliciosas do semi-árido, sucos de frutas de época, etc. 

Um café dez estrelas, e tudo bem natural!      
"Não há, ó gente, ó não, luar como esse do sertão. Oh, que saudade do luar da
minha terra, lá na serra branquejando folhas secas pelo chão! Este luar cá
da cidade, tão escuro, não tem aquela saudade do luar lá do sertão"
.
Com tudo isso o capitalismo acabou. O coronel vendeu sua fazenda, comprou uma casa na cidade e faz compras no supermercado de alimentos industrializados, vindos até do exterior.

Enfim, poderíamos hoje estar vivendo de um modo cômodo e moralmente dignificante, ao contrário da autofagia bárbara que ora nos é imposta, se déssemos fim, já com enorme atraso, à irracional mediação social pela forma-valor (dinheiro e mercadorias)! 
"Aqui tudo corre tão depressa, se você tropeça, não vai levantar. Motocicletas
se movimentando, dedos da moça datilografando, numa engrenagem de
pernas pro ar. Vou danado pra Catende, com vontade de chegar!"
.
A tecnologia, o saber científico e a máquina podem ser atributos redentores da humanidade, mas também podem ser fatores destrutivos e autodestrutivos, quando usados em detrimento da vida.

Nosso Nordeste é uma Canaã em potencial, que se tornará realidade dependendo das escolhas que fizermos e da consciência social que viermos a adquirir. (por Dalton Rosado)
"Debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, forjar
do trigo o milagre do pão e se fartar de pão

Decepar a cana, recolher a garapa da cana, roubar
da cana a doçura do mel e se lambuzar de mel

Afagar a terra, conhecer os desejos da terra, cio
da terra, a propícia estação, e fecundar o chão"

terça-feira, 15 de maio de 2018

O BRASIL QUE O APOLLO NATALI QUER: UM PAÍS SEM FORO PRIVILEGIADO!

Divertido programa de entretenimento da TV concede um punhado de minutos de fama aos que se disponham a imaginar o Brasil que eles querem.  

O trivial: querem o país sem corrupção, com mais educação, segurança, saúde.  Suspiram por bons governantes.

Lindo aparecer na TV. Maquiagem, pose de artista, a bela natureza como pano de fundo. E as palavras a rolar. No caso,  devaneios que o vento leva.

Qualquer revolucionário balança a barriga de tanto rir desse circo mambembe a encenar uma farsa no picadeiro. Sabem eles, revolucionários, que tais benesses jamais se conquistam com excitantes recitações  na telinha. 

Disponham todos, alegremente, da fantasia da fugaz fama.

Desfrute a TV da dinheirama da publicidade.

No entanto, é hora de falar sobre o que realmente o país precisa, neste exato momento, para deter a sua queda rumo ao fundo do abismo. O Brasil que todos queremos.

Não há outro caminho. Sigam-me os bons. Para o país ensaiar os primeiros passos rumo à sua salvação precisa romper em estilhaços o odioso instrumento de impunidade dos poderosos que leva o nome de foro privilegiado. 

Como nos Estados Unidos. Lá, não há um cidadão sequer com esse amaldiçoado jeitinho brasileiro. Nem o mais poderoso homem do mundo, presidente daquele país. Aqui, são 45.300 os felizardos.

Implodir o foro privilegiado vai formar uma pequena bola de neve. A crescer e a crescer. Logo juízes de todo o país, são mais de 20 mil, vão salivar ao julgar cada processo de político ladrão do dinheiro público. Vai virar moda embutir para dentro das grades os assaltantes da pátria. 

Nada nada, estamos falando de um país com mais de 200 milhões de almas, historicamente vampirizadas pela imensa  maioria dos governantes. 

Então, que tal uma revolução saneadora dos deletérios costumes políticos brasileiros?

O Congresso Nacional, corrupto até a medula, logicamente não vai se desfazer desse escudo de impunidade para suas impatrióticas contravenções. A esperança dessa insurreição recai em 11 respeitáveis velhinhos integrantes da corte maior do país. 

Pergunta que não cala: haverá neste país de tamanho continental algum herói que assuma um ato revolucionário desses, de fazer o foro privilegiado virar pó?

Alguém parece já estar amaciando a carne. O ministro José Antonio Dias Toffoli propôs a ampliação da restrição dessa sacanice de roubar e viver livre. Quer que as restrições cheguem a todas as autoridades do Executivo, Legislativo e Judiciário, nas esferas federal, estadual e municipal. Aleluia! 

Que restrições? Crimes cometidos por políticos em meio a mandato são julgados pelo STF. Fora disso, justiça comum. Esperançoso primeiro passo.

Incrível que essa revolucionária postura de mudança venha de Toffoli, tido como um dos que são contra o país e protetor dos bandidos  que vão parar no STF.

Como nasce um herói? Menino franzino passa mal ao fumar um primeiro cigarro, chora diante das ameaças dos grandões, vive debaixo da saia da mãe. Até que um dia  alguém o provoca de verdade.

Então ele vira homem. E faz tudo o que a humanidade já conhece daqueles que se tornam fortes na fraqueza. 

Toffoli? Será?
(por Apollo Natali)

O Brasil que o grande Luiz Vieira quer. De arrepiar!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

MÚSICOS E CANÇÕES QUE ILUMINARAM A MINHA VIDA (parte 3)

(os posts anteriores desta série do Celso Lungaretti estão aqui aqui)
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Jards Macalé chamou a atenção do grande público em 1969, com sua experimental "Gotham City", muito vaiada no decadente 4º FIC da TV Globo (poucos notaram que o refrão "Cuidado! Há um morcego na porta principal!" era uma alusão velada ao terror ditatorial). 

Cantor, compositor, arranjador, violonista e produtor musical, o carioca Macalé crescera num ambiente muito ligado à música (filho de um acordeonista com uma pianista) e fizera vários cursos de aprimoramento. 

Já em 1965 aparecia no lendário Show Opinião, como violonista na temporada paulistana. Depois integrou o movimento tropicalista como músico e produtor, tendo atuado com Caetano Veloso e Gal Costa, principalmente. 

Sua grande fase de deu na década de 1970, quando lançou LPs memoráveis, em especial o de estréia: Jards Macalé (1972), com canções que fundiam na medida exata o samba do morro, a bossa-nova, o blues e o brega (seresta, samba-canção e outras reminiscências dos anos 50). Dele constam as clássicas "Vapor barato", "Movimento dos barcos", "Rua Real Grandeza", "Mal secreto", "Anjo exterminado" e "Let's play that". Um arraso!

Mas, a canção do Macalé que mais mexeu comigo foi "Soluços", de um compacto duplo que ele lançou em 1969 e continuava sendo intensamente curtido nas rodas e comunidades alternativas quando fiz parte de uma, em 1972. 

Era a fase em que, após a derrota da luta armada, tentávamos sobreviver espiritualmente nos nossos refúgios, amparando-nos uns aos outros e buscando nas drogas uma alternativa à realidade devastadora. 

Está tudo em "Soluços": as referências à maconha (os "lenços de papel" que "se desfazem quando molham", os olhos "vermelhos, irritados", os "óculos escuros" para disfarçar) e também o desespero que nos deixava com ganas de gritar e de chorar.
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Jorge Ben Jor despontou no cenário da bossa-nova como um sambista diferente, com muito swing na música e uma cativante ingenuidade nos versos.

Carioca nascido em Madureira e criado no Rio Comprido, ganhou seu primeiro violão aos 18 anos e logo estava se apresentando nos bares e boates do famoso Beco das Garrafas.

Daí para o primeiro grande sucesso foi um pulo: "Mas que nada", por ele definida (na própria letra) como um "samba que é misto de maracatu", o projetou até nos Estados Unidos...

Muito prolífico, conseguia inventar músicas para cada uma de suas incontáveis namoradas, sem tornar-se repetitivo. Vale até lembrar um episódio de 1983, quando minha amiga Rosi Campos, que ainda se dividia entre sua vocação de atriz e o ganha-pão na gravadora Som Livre, encomendou-me o press release de um LP ao vivo do Jorge Ben Jor que não trazia absolutamente nada de novo. 

Quebrei a cabeça até encontrar um gancho: como nele havia canções de todas as suas fases, inventei que seria um disco comemorativo dos 20 anos de carreira e explanei longamente sobre sua trajetória. Colou, jornais do Brasil inteiro entraram na minha onda, publicando textos enormes. Mas, o artista se queixou à Rosi: "Pô, esse cara entregou a minha idade. Agora as namoradas ficaram sabendo que eu não sou tão jovem como dizia..."

E, ao enveredar por assuntos sérios, era capaz de criar um clássico como "Charles Anjo 45", reverenciando um tipo de marginal estimado pela comunidade ("Robin Hood dos morros/ Rei da malandragem/ Um homem de verdade/ Com muita coragem") que foi sumindo a partir do boom das drogas pesadas, mas deixou saudades entre o povão e na música – em 1933 já era imortalizado por Wilson Batista em "Lenço no pescoço".

E em 1971, quando o Mohammed Ali era um símbolo da luta pela afirmação social dos negros, compôs esta notável "Cassius Marcelo Clay", vergastando os racistas com versos insolentes como "Sucessor de Batman, Capitão América e Superman", "Tem a postura da Estátua da Liberdade e a altura do Empire State", bem no espírito do homenageado.
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Luiz Vieira, natural de Caruaru, é outro superlativo compositor pernambucano que mostrou ao Sul Maravilha a realidade sofrida e a riqueza musical do Nordeste, tão importante na época quanto Luiz Gonzaga, embora o rei do baião hoje seja mais lembrado porque os baianos tropicalistas enchiam a sua bola e colocavam o outro em segundo plano.

Foram injustos, talvez porque os grandes sucessos de Luiz Vieira tenham sido canções românticas e/ou singelas, inclusive a que não pode faltar  em nenhuma relação das 10 melhores músicas brasileiras de todos os tempos: "Menino de Braçanã". As outras: "Prelúdio pra ninar gente grande", "Paz do meu amor", "Inteirinha" e "Balada do amor sublime"

Mas, Luiz Vieira compôs grande parte de suas músicas com ritmos nordestinos, só que elas geralmente não aconteceram, inclusive "Catira" (aquela da qual mais gosto) e a politizada "Carcará de botina e chapelão" ("Quero ver o lavrador/ Plantar e poder colher/ E o sertanejo menino/ Sorrindo poder crescer/ Fazer conta de somar/ Dividir, multiplicar/ E quando receber carta/ Não ter que pedir pros outros ler").
Meu companheiro de luta armada José Raimundo da Costa, o Moisés, também de Pernambuco, contou que o Luiz Vieira chegara a ser um agitador de feira do PCB: cantava suas músicas subversivas e fugia correndo pelo meio da multidão quando a polícia getulista chegava.

Mas, como também tive lá minhas separações dolorosas, a canção do Luiz Vieira que mais me marcou foi "Riram tanto", na qual lamenta a intromissão dos que tudo fizeram para arruinar seu romance com uma mulher de condição social superior ("Pensaram tanto em você/ Mas ninguém desejou ver/ O que acontecia a mim"). Tinha tudo a ver com o que sucederam comigo, salvo que os protetores em questão agiram assim por outro tipo de preconceito...
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Maria Bethânia foi um caso de amor à primeira vista: adorei sua interpretação rústica e agressiva de "Carcará", magra como uma flagelada do Nordeste. Foi a primeira canção de protesto pela qual me apaixonei, em 1965, antes mesmo de me tornar marxista (a "Canção nordestina" do Vandré é cronologicamente anterior, mas só vim a conhecê-la lá por 1967). 

Soube depois que a Bethânia participava de espetáculos semi-amadores desde a juventude, ao lado do irmão Caetano e outros futuros expoentes do movimento tropicalista, como o Gilberto Gil e o Tom Zé. 

Chamou a atenção de Nara Leão, que a indicou como substituta quando problemas de saúde a impediram de continuar atuando no Show Opinião. "Carcará" fazia parte do repertório, tanto que a Nara também gravou, mas no estilo balançado da bossa-nova.

Muito marcante também é a inclusão de "É de manhã", cantada por Bethânia, na trilha sonora do filme O Desafio, do Paulo César Saraceni; e a sua versão de "Eu vivo num tempo de guerra", a adaptação que o Teatro de Arena fez da poesia "Aos que virão depois de nós", do Brecht.

Tal fase durou pouco. Talvez para não ficar conhecida como cantora de uma música só, ou porque sua personalidade a predispusesse mais para a doçura do mel do que para a rudeza do Agreste, Bethânia engaiolou o carcará e partiu para outra, resgatando Noel, gravando pontos de umbanda, idealizando o grupo Doces Bárbaros, etc.

Contudo, assim como no caso da Elis Regina, quanto melhor cantora ela se tornava em termos técnicos, mais saudade eu sentia do seu estilo contundente e impactante de outrora. 
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Maria Odette é até hoje lembrada como a cantora de voz forte e interpretação empolgada que defendeu em festivais de MPB duas das melhores composições de Caetano Veloso em todos os tempos: "Boa palavra" e "Um dia".

Paulista de Itapira, já aos sete anos de idade participava de uma programação artistico-musical de sua cidade. Em 1959 a família se mudou para a capital e ela, após vencer uma competição de calouros, foi contratada pela TV Paulista - Canal 5 (emissora depois vendida para a Globo), na qual atuou também como tele-atriz juvenil. Chegou a conquistar um Prêmio Roquete Pinto, em 1961.

Foi exatamente "Boa palavra" que a projetou, em 1966, quando obteve o quinto lugar no Festival da TV Excelsior. Seguiram-se participações nos congêneres da Record e da Globo, vários compactos lançados e a diminuição das atividades artísticas a partir da metade da década de 1970, cujo motivo desconheço.

Mas, tinha bom gosto na escolha da repertório e gravou belas canções daquele período, inclusive algumas pouco conhecidas, como "Canção do cangaceiro que viu a lua cor de sangue", "Dia da vitória", "Espanto", "João e Maria", "Levante", "O canto do homem só", "Quibundo", "Trapiá" e "Ultimatum". Mereceu este espaço.
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O carioca Milton Nascimento morou da infância à mocidade em Minas Gerais, tendo aí recebido as influências determinantes em sua arte.

Filho de uma domestica que foi seduzida e abandonada pelo namorado, logo ficou órfão e a avó, uma pobre viúva, teria muita dificuldade para o criar se não recebesse uma oferta providencial: uma professora de música recém-casada não conseguia engravidar e se ofereceu para adotar Milton, que partiu com o casal para Três Pontas, MG.

A mãe, que estudara com Villa-Lobos, presenteou-o com uma sanfona logo aos quatro anos de idade, estimulando-o a aprender música e explorar sua voz. 

Aos 13 anos já era crooner nos bailes de sua cidade. Estudava contabilidade ao mesmo tempo em que aprendia a tocar piano com a mãe de Wagner Tiso

Aos 20 se mudou para Belo Horizonte, onde prestou vestibular de Economia, passando a trabalhar num escritório de contabilidade e a participar de conjuntos de jazz e samba, como cantor e contrabaixista. Acompanhando um desses grupos, o Sambacana, quando foi gravar o LP de estréia no RJ, Milton se transferiu com armas e bagagens para o Sul Maravilha.

Os grandes festivais de MPB o projetaram. No de 1966 da TV Excelsior, interpretou "Cidade Vazia" (de Baden Powell e Lula Freire), a 4ª colocada. Mas, a consagração viria ao classificar três músicas de sua autoria no FIC de 1967 da Globo, uma das quais belíssima: "Travessia" (dele e do Fernando Brant). Foi 2º lugar, mas quem era do ramo a considerou infinitamente superior à campeã, a carnavalesca "Margarida", de Gutemberg Guarabyra.

Aí sua carreira engrenou de vez: passou a lançar álbuns todos os anos, a ser gravado por intérpretes de primeira linha (Elis Regina em especial) e a magnificar a MPB com clássicos inesquecíveis como "Aqui é o país do futebol", "Caçador de mim", "Canção da América", "Canção do sal", "O cio da terra", "Comunhão", "Em nome do Deus", "Fé cega, faca amolada", "Maria, Maria", "Milagre dos peixes", "Morro velho", "Nada será como antes", "Nos bailes da vida", "Pablo", "Para Lennon e McCartney", "Paula e Bebeto", "Pelo amor de Deus", "San Vicente"... (ufa!)

Por último, um episódio pitoresco: em 1973, quando a censura proibiu quase todas as letras do álbum que viria a ser o Milagre dos peixes, os realizadores decidiram não as alterar e submeter de novo às otoridade, mas sim manter apenas as músicas, os lamentos vocais do Milton e o experimentalismo do Som Imaginário (sons latino-americanos + rock progressivo) e de Naná Vasconcellos (ritmos africanos). Ficou um arraso!

A música em destaque aqui não poderia ser outra além de "Sentinela", o emocionante tributo a Che Guevara, na versão sofisticadíssima de 1980, com a participação de Nana Caymmi.   
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Quando, no finalzinho da música "Eles", Caetano Veloso exclamou "Os Mutantes são demais!", não estava exagerando. O trio formado por jovens do bairro paulistano da Pompéia – Rita Lee Jones, filha de um dentista estadunidense e neta de italianos, mais os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista – caiu como uma luva para o tropicalismo.

Fortemente influenciados pelos Beatles, eles chamaram a atenção de Ronnie Von, que os apresentou no seu programa dominical em outubro de 1966; acabariam sendo atração permanente por alguns meses, preferindo depois ficar livres para aceitar outros convites. 

Foi assim que conheceram o maestro Rogério Duprat, o gênio que produziria os arranjos primorosos dos álbuns e performances da turma tropicalista.

Em setembro de 1967, quando Gilberto Gil e Caetano Veloso se preparavam para lançar espetacularmente o movimento no 3º festival de MPB da TV Record, o primeiro não estava gostando do dos músicos que Duprat escolhera para "Domingo no parque", então o maestro lhe sugeriu os Mutantes como alternativa. 

Eles se saíram tão bem que se tornaram instantaneamente o principal conjunto tropicalista, que acompanharia os astros em álbuns, festivais e outras apresentações ao vivo, além de lançarem ótimos trabalhos como grupo. Eram roqueiros da geração iê-iê-iê, criativos, irreverentes e dados a se exibirem com fantasias bem boladas, bem no estilo Sgt. Peeper.

Foi uma dúvida cruel escolher a música a ser incluída aqui. Adoro a paródia que os Mutantes fizeram de "Chão de estrelas", porque veio ao encontro do que eu sempre achara da canção de Orestes Barbosa (aqueles versos enfeitados e pernósticos não têm absolutamente nada a ver com a crua realidade das favelas!) e porque deixaram o crítico José Ramos Tinhorão, musicalmente conservador até a medula, espumando de raiva. 

Mas, é fortíssima "Meu refrigerador não funciona", com seu impagável non sense: tanto desespero em clave bluesística (e que incrível performance a de Rita Lee!) por um motivo tão banal...
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Capixaba que a família levou para o Rio de Janeiro quando ela tinha apenas um ano de idade, a cantora Nara Leão foi uma espécie de contraponto às interpretações arrebatadas de Elis Regina na chamada era dos festivais.

Discreta, charmosa, com voz sumida e uma ótima escolha de repertório, conseguiu ser uma musa da fase das canções de contestação política e social ("Acender as velas", "Berimbau", "Marcha da 4ª feira de cinzas", "Pede passagem", "Opinião") e uma ilustre coadjuvante do tropicalismo ("Deus vos salve esta casa santa", "Ladainha", "Lindonéia", "Mamãe coragem"), sem que ninguém ousasse chamá-la de traíra, acusando-a de dormir com o inimigo. Os cruzados da MPB sem guitarras elétricas foram mais condescendentes com ela do que com o Jorge Ben Jor...

Em 1957, aos 15 anos já estava enturmada com os artistas que criariam a bossa-nova... porque era no apartamento dos seus pais, em Copacabana, que a turma toda se reunia. Depois do golpe de 1964, como estrela do Show Opinião, sua carreira deslancharia de vez. Foi graças a ela que um sem-número de iniciantes talentosos tiveram suas primeiras composições gravadas, começando a tornar-se conhecidos.

É mais lembrada por sua interpretação de "A banda" no 2º festival da Record, quando a organização esdruxulamente permitiu que a mesma música fosse sempre apresentada duas vezes, uma com ela cantando e a outra na voz de Chico Buarque. Mas, prefiro destacar "A estrada e o violeiro", por ter uma das melhores letras da MPB em todos os tempos.
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Descendente da filantropa Perola Byington. a cantora carioca Olívia Byington, com sua voz poderosa e interpretações agressivas, mereceria constar desta relação de qualquer maneira, mas tenho de reconhecer que chamou a minha atenção, principalmente, o seu LP de estréia, Corra o risco, que gravou no ano de 1978 em parceria com o lendário conjunto  A barca do sol. também do Rio de Janeiro.

Até porque as canções dos barqueiros nele incluídas se casaram às mil maravilhas com seu estilo agressivo, quase gritado. Caso desta superlativa "Fantasma da ópera".
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