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sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

PARA CELEBRAR O ANIVERSÁRIO DE FELLINI, VEJA UM DE SEUS MAIORES CLÁSSICOS


 Na data de hoje, 20 de janeiro, celebram-se os 103 anos de Federico Fellini, um dos grandes mestres do cinema mundial. 

Por isso, para celebrar a efeméride, o blog indica um dos primeiros grandes clássicos do diretor: Os Boas Vidas (I vitelloni), de 1953, que pode ser assistido na janela ao final do post. 

Filme inserido no chamado neorealismo italiano, a película acompanha um grupo de cinco amigos - Fausto, Alberto, Leopoldo, Ricardo e Moraldo - em uma cidadezinha do interior da Itália do pós Segunda Guerra Mundial. 

Filhos da classe média baixa local, vivem na ociosidade, sem se ocupar com empregos, estudos ou negócios. Não buscam assumir qualquer compromisso e, mesmo quando forçados a isso, buscam ao máximo a evasão, se recusando a arcar com os preços de seus objetivos e ações. 

Assim, Fausto, obrigado a se casar com a irmã de Moraldo após engravida-la, recusa sua condição de pai de família, e persiste na vida de boêmia e flertes. Alberto deseja comandar a irmã, mas vive do salário dela. Ricardo troça de trabalhadores braçais, mas foge quando por eles confrontado. Leopoldo deseja fazer sucesso no teatro, mas se abomina com a sugestão sexual de um diretor renomado. Já Moraldo surpreende-se com o fato de alguém acordar às três da manhã para trabalhar. 

Na realidade, o grupo expressa em sua superficialidade e descompromisso a própria condição dos jovens da classe média italiana -e mesmo europeia - após anos de terror fascista e de guerra destrutiva. Embalados na era dourada de crescimento acelerado capitalista, graças à reconstrução do que fora devastado na guerra, acalentados pela paz perpétua e pelo recém instituído Estado de Bem-Estar Social, não havia muito no que se engajar ou pelo qual lutar. 

Da mesma época, o filme Juventude Transviada (Rebel Without a Cause), de 1955, do diretor Nicholas Ray,  aborda nos EUA o mesmo fenômeno desta juventude desenraizada e cuja essência é ser pura potencialidade irrealizável. Os valores tradicionais foram liquidados pelo turbilhão da Guerra, o mundo está definitivamente dividido em socialismo e capitalismo, não há mais revoluções a lutar ou inimigos a combater, mas também não existem perspectivas para quem deseja ser mais que uma simples peça do quebra-cabeças da nova ordem social. 

Por óbvio, este suposto estado de bem aventurança era mera ilusão, aparência sem substância logo posto abaixo a partir da década de 1960, quando o crescimento capitalista bateu no teto e a virada neoliberal rompeu a cena apontando o caos a ser vivido nas décadas seguintes, continuado até hoje. No percurso houve a Guerra do Vietnã, as ditaduras, guerras de independência, as guerrilhas e brigadas. 

Esta ilusão, inclusive, é mostrada por Fellini de modo magistral no próprio sentimento de inadequação atravessando o grupo de amigos, uns sentido mais, outros menos. Será Moraldo quem sentirá este sentimento com mais intensidade, motivo do seu desfecho e de sua recusa a seguir aquela vida com os amigos. 

Curiosamente, este final remete também às últimas cenas de La Dolce Vita (1960), outro clássico do diretor e cujo tema é idêntico ao de Os Boas Vidas, apenas mudando o foco para a juventude intelectualizada e artística de Roma. Enquanto Moraldo parte em busca da realidade, é ela própria quem chega a Marcello Rubini em uma praia após mais uma noite de boêmia. Ou seja, caso não se busque romper o muro da ilusão, a própria feiura do mundo encontra um jeito de invadir a cidadela.

Para os dias de hoje, Os Boas Vidas é um filme necessário a todos que ainda se negam a encarar o mundo de frente, persistindo na eterna adolescência do descompromisso, seja na vida pessoal ou no âmbito político.

(por David Emanuel Coelho) 





sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

OU SUPERAMOS O CAPITALISMO OU CONTINUAREMOS INDEFINIDAMENTE PATINANDO SEM SAIRMOS DO LUGAR

W
illiam Waack, que continua sendo um dos expoentes mais lúcidos do jornalismo político brasileiro, acaba de fazer (vide
aqui) a melhor análise sobre a volta ao ponto de partida na qual se constitui a reentronização ostensiva do 
Centrão como a força de sustentação do atual desgoverno, repetindo o que já acontecera com os vários governos que se têm sucedido desde a redemocratização de 1985:
"O que é o governo Bolsonaro dominado pelo Centrão? É a política brasileira como sempre foi nas últimas décadas... 

...(o)  último grande divisor de águas na política brasileira (foi) o processo de redemocratização do período entre 1985 e 1989... 

...(foi quando se iniciou) uma tentativa fracassada de estabelecer no Brasil um estado de bem-estar social aos moldes do sul da Europa, sem que cuidássemos de que nossa economia de baixa produtividade e competitividade conseguisse financiar gastos públicos que subiram sempre acima da inflação, não importa qual fosse o governo...

...desde aquele período grupos diversos foram capturando a máquina de Estado – ou ampliaram o domínio já existente...

...A política foi se reduzindo à negociação entre grupos esparsos, com cada vez menos direção central, para acomodar às custas dos cofres públicos interesses setoriais e regionais dos mais variados".
É tão deprimente esse nosso eterno patinar sem sairmos do lugar que apenas acrescentarei o óbvio ululante:
— enquanto participarmos desse joguinho de cartas marcadas da democracia burguesa, estaremos apenas iludindo os explorados, por impingir-lhes falsas esperanças;
— a ruptura tem de vir de fora da institucionalidade por meio da qual o capitalismo  se perpetua, mantendo uma sobrevida que ameaça a própria sobrevivência da espécie humana e tendo se tornado extremamente desigual, disfuncional, destrutivo e autodestrutivo;
— daí eu e o companheiro Dalton Rosado estarmos há décadas pregando, até agora no deserto, que a esquerda só cumprirá seu papel se erguer novamente a bandeira revolucionária, assumindo corajosamente que existe para superar o capitalismo e não para tentar domesticar tal ogro.

A volta dos que nunca foram embora, evidentemente, estabelece um equilíbrio precaríssimo no esquema do poder, dadas as contradições, entre si, dos participantes desse amontoado de forças imantadas pelo fisiologismo, e também das pressões decorrentes da nova postura dos EUA e da Europa, de revigorar o capitalismo a partir de investimentos ambientais.

Nossa posição deve ser inflexível quanto ao genocídio praticado/ensejado por Jair Bolsonaro: tal crime contra a humanidade não pode ficar impune em nenhuma hipótese! 

O afastamento imediato do pior presidente do Brasil em todos os tempos, seguido de sua responsabilização criminal pelas mortes inúteis que fez brotar como cogumelos, tem de ser nossa principal bandeira imediata e, em nome dela, precisamos levar o povo às ruas.

Mesmo que exerçamos papel complementar e o golpe de misericórdia venha a ser dado pelo poder econômico (hipótese bem provável), com a condução de Hamilton Mourão à presidência, é de suma importância marcarmos nossa presença, como ponto de partida para a retomada da combatividade que deixamos esvair-se nos últimos anos.

Tendo, contudo, muita clareza quanto ao fato de que um novo governo articulado pelo poder econômico e seus serviçais não será nosso governo e que, em tal eventualidade,  não deveremos dele participar, mas sim mantermo-nos firmemente na oposição e irmos acumulando forças para o atingimento de nossos objetivos estratégicos, bem diferentes dos deles! (por Celso Lungaretti 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

APÓS TANTO MUDAR DESDE 2016, A POLÍTICA BRASILEIRA VOLTA À CONDIÇÃO INICIAL: É OUTRA VEZ MAIS REFÉM DO CENTRÃO

william waack
O QUE SEMPRE FOMOS
O que é o governo Bolsonaro dominado pelo CentrãoÉ a política brasileira como sempre foi nas últimas décadas, a ponto de se duvidar se realmente tivemos uma alternância de poder de esquerda para direita. 

Talvez a periodização à qual historiadores costumam recorrer indique como último grande divisor de águas na política brasileira o processo de redemocratização do período entre 1985 e 1989 (sim, quatro anos decisivos).

Visto com uma distância de três décadas, o que se iniciou ali foi uma tentativa fracassada de estabelecer no Brasil um estado de bem-estar social aos moldes do sul da Europa, sem que cuidássemos que nossa economia de baixa produtividade e competitividade conseguisse financiar gastos públicos que subiram sempre acima da inflação, não importa qual fosse o governo. O encontro com a verdade chama-se crise fiscal.

Com maior nitidez desde aquele período grupos diversos foram capturando a máquina de Estado – ou ampliaram o domínio já existente (como ocorre com a elite do funcionalismo público, espalhada por autarquias, estatais e Judiciário). 

A política foi se reduzindo à negociação entre grupos esparsos, com cada vez menos direção central, para acomodar às custas dos cofres públicos interesses setoriais e regionais dos mais variados. Dentro de um ambiente de ideias que o sociólogo Bolívar Lamounier chama de maçaroca ideológica.

desenho do nosso sistema de governo, que opõe o vitorioso num plebiscito direto (o presidente da República) a um Legislativo fracionado e de baixa representatividade (mas cheio de prerrogativas), com partidos dominados por caciques, funcionou nesses moldes até a quebra dos cofres públicos. 
A atuação desses donos do poder foi muito facilitada pelo fato de os setores privados da economia brasileira não terem sido capazes de desenvolver um projeto nacional, uma visão de conjunto que fosse muito além do que sempre foi o norte para gerações de empresários e banqueiros: garantir a amizade e a proximidade do rei.

A reforma de Estado ensaiada por FHC foi tímida, assim como as privatizações. O projeto petista do nacional-desenvolvimentismo (para dar um rótulo aos 13 anos) era uma obra conjunta com o Centrão, entendido como esse conjunto de forças políticas setoriais, regionais, unidas apenas no intuito de se apoderar de pedaços da máquina pública. 

Como se constata nos índices, a tal preocupação pelo social tão propalada naquele período não alterou fundamentalmente o País em termos de sua desigualdade e misérias relativas.

Ironicamente, a política brasileira parece ter mudado tanto nos últimos quatro anos (desde o impeachment de Dilma) para desaguar no mesmo lugar: o papel essencial dessas forças do Centrão, agora carregando consigo um presidente de escassa capacidade de liderança e que não entendeu onde reside seu poder: na possibilidade de ditar a agenda política, e não na tinta da caneta em suas mãos (que, aliás, encolheu bastante nos últimos dois anos).

Ao celebrar o entendimento político com os dois novos homens do Centrão no comando do Legislativo, Bolsonaro voltou a escancarar o fato de não ter estratégia nem saber o que quer, além de se reeleger. 

Trinta e cinco prioridades entregues ao Congresso é o mesmo que dizer que não tem nenhuma. 

Nessa shopping list, em parte a pedidos de seu ministro da Economia, estão matérias prometidas desde sempre (como reformas administrativa e tributária, além de privatização de estatais) que não progrediram basicamente pela incapacidade ou falta de interesse político por parte do chefe do Executivo.

É possível que o dia 1.º de fevereiro de 2021, data da oficialização do comando do Centrão nas principais esferas da política, talvez sirva aos historiadores no futuro para marcar o fim de um intenso período nessa linha do tempo, o da onda disruptiva de 2018. 

É também a data da dissolução da força-tarefa da Lava Jato, sem a qual essa onda é impossível de ser entendida. Talvez os historiadores no futuro considerem que não foi mera coincidência. (por William Waack)
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