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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

VENEZUELA, UMA REVOLUÇÃO ESGOTADA – 2

Raúl Castro e Chávez em reunião da Alba. E os países-chaves?
(continuação deste post)
.
Estas, por sua vez, alimentariam e supririam o povo venezuelano, criando um regime virtuoso de transações econômicas. A Alba – Alternativa  Bolivariana para as Américas, criada em 2004, seria uma espécie de União Européia com cores de esquerda.

O projeto foi parcialmente sucedido, mas Chávez nunca conseguiu englobar os países-chaves do processo: Brasil e Argentina. Estes dois, ciosos de sua liderança regional, preferiram trilhar outros caminhos, passando ao largo do movimento bolivariano. Deste modo, a Venezuela continuou isolada, com seus petrodólares respondendo pelo bom desempenho do regime em época de valorização do barril da commodity

Em termos gerais, a revolução bolivariana foi bem-sucedida em melhorar os níveis de vida da vasta maioria da população, mas a base de seu triunfo foi também o motivo de sua ruína. 

Os EUA nunca aceitaram as reformas nacionalistas do regime bolivariano. Além de terem sido a mão que balança o berço no golpe de estado de 2002, sempre agiram para bloquear comercialmente o país. Contudo, por dependerem do petróleo venezuelano e estarem num momento de isolamento político no continente, optaram por agir inicialmente de modo sutil.
A deterioração econômica exacerbou a luta política

Após a queda do regime líbio e o consequente controle do petróleo daquele país, além da estabilização do Iraque, o governo de Washington começou a agir de modo mais audacioso, impondo sanções econômicas mais duras. 

O declínio do preço do petróleo e mudanças políticas na América Latina começaram a piorar a situação de vida da população venezuelana, subitamente confrontada com o aumento do preço dos bens importados. A escassez de alimentos e produtos de necessidade básica tornou-se prática corrente, fazendo disparar a inflação e piorar a situação do povo. 

A deterioração econômica do país levou à exacerbação da luta política e a instabilidade tornou-se norma. Em resposta, Maduro, herdeiro do falecido Chávez, partiu para o reforço de aspectos autoritários do regime, tentando salvar o poder político do movimento bolivarianista. 

Assim chegamos à situação atual, quando inúmeros países, capitaneados pelos EUA, não reconhecem a legitimidade presidencial de Maduro, optando, ao inverso, por apoiarem um obscuro líder da oposição para o comando da nação. Ao mesmo tempo, promove-se escancaradamente uma tentativa de invasão ao país, sob pretexto de ação humanitária.
Maniqueísmo à parte, não existe solução óbvia para a Venezuela

Lembrando o exemplo do Haiti, acima citado, a marcha da história está sempre aberta, sem sabermos ao certo como algo terminará. 

Fato é que a revolução bolivariana começou e transcorreu como um avanço ao povo venezuelano, mas é mais fato ainda que se deu dentro dos marcos sociais extremamente limitados de um país periférico e dependente da venda de petróleo. 

Marx disse que a revolução teria de acontecer dentro de um contexto no qual já estivessem dadas as condições materiais de produção capazes de universalizar a riqueza, pois, do contrário, teríamos apenas a universalização da pobreza e a sociedade retornaria à situação de grave conflito interno. 

Mas também foi o filósofo alemão quem alertou sobre o ser humano não fazer a história nas condições desejadas por ele, mas sim nas condições dadas pela realidade. 

É a dura realidade da história concreta e contraditória. 

Não deveriam os escravos haitianos se rebelarem em 1791, pois sua revolução acabaria por engendrar o país mais pobre das Américas? 
"A Guerra do Iraque gerou o Estado Islâmico, o que geraria uma Guerra da Venezuela?"
Não deveria o povo venezuelano ter apoiado Chávez e sua revolução bolivariana, pois ela acabaria no regime capenga de Maduro?

A história não é feita de modo frio e analítico; por mais que retrospectivamente possamos lamentar o desfecho, as pressões concretas do momento sempre serão o fator determinante para ação coletiva. 

Nem mesmo os seres humanos individuais são obra apenas de suas escolhas individuais. Maduro não é apenas um sujeito alçado ao governo da Venezuela, ele é produto da decomposição do regime bolivariano através da exacerbação de sua razão de estado militarista.

Diante da pressão de uma estrutura social vacilante, de uma oposição fascistoide e do cerco de uma potência imperialista, o caminho do regime de Maduro foi institucionalizar um regime com cores ditatoriais.
"Na prática, então, não há saída imediata"

E qual a saída para a Venezuela? 

Entregar o poder à oposição é trocar uma ditadura por outra e abrir caminho para novas lutas futuras, talvez até com novos Caracaços

Invadir a Venezuela é um ato alucinado que poderá gerar uma nova Síria encravada no coração da América Latina, com consequências terríveis inclusive para o Brasil. A Guerra do Iraque gerou o Estado Islâmico, o que geraria uma Guerra da Venezuela?

Apoiar Maduro é simplesmente fechar os olhos aos limites do movimento bolivariano e, ainda, chancelar ações ilegais e ditatoriais daquele governo. 

Na prática, então, não há saída imediata. Óbvio, a história vai seguir seu curso e uma hora ou outra as contradições explodirão. 

Caso me fosse permitido uma especulação, diria que – caso não haja guerra – a tendência é Maduro institucionalizar seu regime e a Venezuela congelar durante anos, mais ou menos como Cuba congelou. 
A Venezuela congelará como Cuba?
O Haiti também congelou e se tornou uma ilha do século 18 fincada no 21. 

Mas, a cada falha e beco sem saída, nós, revolucionários, aprendemos algo a mais e calibramos nossa ação. 

Que a sina da Venezuela agora nos dê mais uma lição. 
(por David Emanuel
de Souza Coelho)

domingo, 24 de fevereiro de 2019

VENEZUELA, UMA REVOLUÇÃO ESGOTADA – 1

Por David Emanuel Coelho
Em 1791 ocorreu a primeira grande revolução da América Latina. 

Foi a independência e abolição da escravatura no Haiti, uma revolução comandada por negros contra, ao mesmo tempo, a escravidão e o domínio colonial francês. 

O massacre de aristocratas brancos pelos ex-escravos atemorizou as elites do mundo durante décadas, a ponto de a oligarquia brasileira aceitar um acordo com o príncipe dom Pedro e proclamar a independência pelo alto, de preferência a arriscar-se a pôr armas nas mãos da massa escrava, maioria da população. 

Apesar de possuir a maior produção açucareira do continente – o petróleo da época – o Haiti afundou na pobreza ao longo do século XIX e XX. Logo após a revolução negra, o país foi submetido a um duro bloqueio comercial pelas potências europeias e pelos EUA, temerosas justamente do exemplo revolucionário se espalhar. 

Logo o açúcar deixou de ter grande valor comercial e o Haiti, desmonetizado e ilhado no sistema econômico mundial, ficou para trás, preso à monocultura decadente. A revolução resultou no país mais pobre das Américas. 
Massacre de aristocratas brancos: um pesadelo para as elites

A referência ao Haiti tem a intenção de introduzir o debate sobre a situação venezuelana, outro país herdeiro de uma revolução que claramente chegou a um beco sem saída. 

A Venezuela é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e membra fundadora da Opep, o poderoso cartel petrolífero. 

Antes da chegada de Hugo Chávez ao poder, a produção petrolífera do país atendia por inteiro aos ditames dos EUA. A alta burguesia venezuelana se apropriava dos petrodólares e os torrava em luxo e frivolidade, enquanto a maioria absoluta do povo vivia na completa miséria. 

A altíssima liquidez propiciada pela venda de petróleo, aliada ao reduzido mercado consumidor interno – pois restrito a setores de classe alta e média  desestimulava o desenvolvimento industrial e agrícola do país, já que a importação era um caminho muito mais viável. 

A extrema pobreza do povo venezuelano atingiu níveis explosivos na década de 1980, quando às mazelas econômicas históricas somou-se a crise mundial e ações de cunho neoliberal impostas pela oligarquia então no poder. 
O Caracaço de 1989: uma gigantesca rebelião popular
As tensões sociais desaguaram no chamado Caracaço, uma gigantesca rebelião popular ocorrida em Caracas no dia 27 de fevereiro de 1989, na qual morreram cerca de 300 pessoas, na contabilidade mais conservadora. 

Após este evento, o regime político venezuelano de então entrou em decadência, enfrentando golpes de estado e mobilizações populares até a ascensão de Hugo Chávez, dez anos depois. 

O movimento de Chávez, na verdade, fora fundado em 1982, no interior do exército venezuelano e tinha por inspiração a visão nacionalista e difusamente igualitária de Símon Bolívar. 

É importante destacar isto porque nunca, desde o começo, o chavismo foi marxista ou inspirou-se no socialismo clássico. Desde o primeiro momento não passou de um movimento nacionalista, de setores da baixa hierarquia militar, a qual visava uma reforma social dentro dos limites da ordem burguesa. 

O bolivarianismo surgiu de modo semelhante ao tenentismo brasileiro do século passado, com uma visão reformista autoritária e, no primeiro momento, desconectada da população. 
Chávez acumulou forças após o Caracaço e elegeu-se em 1999

Será após o Caracaço e os eventos políticos ao longo da década de 90 que o movimento bolivarianista ganhará inserção popular, radicalizando-se até a vitória eleitoral de Chávez. 

O próprio discurso nacionalista e a verve militarista do falecido presidente enganaram meio mundo, incluindo aí Bolsonaro, o qual saudou o líder na época recém-eleito como uma esperança para a América Latina.

Uma vez no poder, Chávez inicia um profundo processo de nacionalização da economia e ampliação do poder aquisitivo e do acesso a serviços públicos por parte da população mais pobre. 

O grau de popularidade e de inserção popular do chavismo à época pode ser medido pela estrondosa reação popular contra o golpe de 2001, quando milhares de favelados de Caracas desceram às ruas para confrontar os golpistas e exigir a restituição do presidente deposto. O mesmo exigiram militares de média e baixa patentes, isolando os generais traidores. 
Sob Chávez, uma prosperidade baseada só nos petrodólares...

Na verdade, a rigor, a revolução bolivariana começou ali. Chávez aproveitou o golpe para extirpar das forças armadas todos que se opusessem ao movimento bolivariano, criando também forças paramilitares e aprofundando suas reformas nacionalistas. 

No entanto, Chávez não reorientou a base produtiva do país. Fincou seu regime na mesma base econômica do antigo, a produção e exportação de petróleo, baseando-se no imenso volume de petrodólares para conduzir sua política social. 

Não se pode culpa-lo por não tentar instituir a industrialização, mas nem mesmo ele poderia modificar as leis da realidade. Limitado por um programa nacional-burguês, não rompeu com a lógica do capitalismo e continuou refém da alta liquidez interna da economia, a qual tornava praticamente inútil tentar uma dispendiosa industrialização diante da relativamente barata importação de bens de consumo. 
...e que não persistiria após sua morte em 2013

O tenente-coronel não era idiota e vislumbrou corretamente os limites de sua revolução, tanto que partiu para um processo de internacionalização, visando criar um mercado regional na América Latina, onde os petrodólares venezuelanos alimentariam as indústrias brasileiras e argentinas, bem como a produção agrícola dos Andes e do Caribe. 
(continua neste post)
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