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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

VENEZUELA, UMA REVOLUÇÃO ESGOTADA – 2

Raúl Castro e Chávez em reunião da Alba. E os países-chaves?
(continuação deste post)
.
Estas, por sua vez, alimentariam e supririam o povo venezuelano, criando um regime virtuoso de transações econômicas. A Alba – Alternativa  Bolivariana para as Américas, criada em 2004, seria uma espécie de União Européia com cores de esquerda.

O projeto foi parcialmente sucedido, mas Chávez nunca conseguiu englobar os países-chaves do processo: Brasil e Argentina. Estes dois, ciosos de sua liderança regional, preferiram trilhar outros caminhos, passando ao largo do movimento bolivariano. Deste modo, a Venezuela continuou isolada, com seus petrodólares respondendo pelo bom desempenho do regime em época de valorização do barril da commodity

Em termos gerais, a revolução bolivariana foi bem-sucedida em melhorar os níveis de vida da vasta maioria da população, mas a base de seu triunfo foi também o motivo de sua ruína. 

Os EUA nunca aceitaram as reformas nacionalistas do regime bolivariano. Além de terem sido a mão que balança o berço no golpe de estado de 2002, sempre agiram para bloquear comercialmente o país. Contudo, por dependerem do petróleo venezuelano e estarem num momento de isolamento político no continente, optaram por agir inicialmente de modo sutil.
A deterioração econômica exacerbou a luta política

Após a queda do regime líbio e o consequente controle do petróleo daquele país, além da estabilização do Iraque, o governo de Washington começou a agir de modo mais audacioso, impondo sanções econômicas mais duras. 

O declínio do preço do petróleo e mudanças políticas na América Latina começaram a piorar a situação de vida da população venezuelana, subitamente confrontada com o aumento do preço dos bens importados. A escassez de alimentos e produtos de necessidade básica tornou-se prática corrente, fazendo disparar a inflação e piorar a situação do povo. 

A deterioração econômica do país levou à exacerbação da luta política e a instabilidade tornou-se norma. Em resposta, Maduro, herdeiro do falecido Chávez, partiu para o reforço de aspectos autoritários do regime, tentando salvar o poder político do movimento bolivarianista. 

Assim chegamos à situação atual, quando inúmeros países, capitaneados pelos EUA, não reconhecem a legitimidade presidencial de Maduro, optando, ao inverso, por apoiarem um obscuro líder da oposição para o comando da nação. Ao mesmo tempo, promove-se escancaradamente uma tentativa de invasão ao país, sob pretexto de ação humanitária.
Maniqueísmo à parte, não existe solução óbvia para a Venezuela

Lembrando o exemplo do Haiti, acima citado, a marcha da história está sempre aberta, sem sabermos ao certo como algo terminará. 

Fato é que a revolução bolivariana começou e transcorreu como um avanço ao povo venezuelano, mas é mais fato ainda que se deu dentro dos marcos sociais extremamente limitados de um país periférico e dependente da venda de petróleo. 

Marx disse que a revolução teria de acontecer dentro de um contexto no qual já estivessem dadas as condições materiais de produção capazes de universalizar a riqueza, pois, do contrário, teríamos apenas a universalização da pobreza e a sociedade retornaria à situação de grave conflito interno. 

Mas também foi o filósofo alemão quem alertou sobre o ser humano não fazer a história nas condições desejadas por ele, mas sim nas condições dadas pela realidade. 

É a dura realidade da história concreta e contraditória. 

Não deveriam os escravos haitianos se rebelarem em 1791, pois sua revolução acabaria por engendrar o país mais pobre das Américas? 
"A Guerra do Iraque gerou o Estado Islâmico, o que geraria uma Guerra da Venezuela?"
Não deveria o povo venezuelano ter apoiado Chávez e sua revolução bolivariana, pois ela acabaria no regime capenga de Maduro?

A história não é feita de modo frio e analítico; por mais que retrospectivamente possamos lamentar o desfecho, as pressões concretas do momento sempre serão o fator determinante para ação coletiva. 

Nem mesmo os seres humanos individuais são obra apenas de suas escolhas individuais. Maduro não é apenas um sujeito alçado ao governo da Venezuela, ele é produto da decomposição do regime bolivariano através da exacerbação de sua razão de estado militarista.

Diante da pressão de uma estrutura social vacilante, de uma oposição fascistoide e do cerco de uma potência imperialista, o caminho do regime de Maduro foi institucionalizar um regime com cores ditatoriais.
"Na prática, então, não há saída imediata"

E qual a saída para a Venezuela? 

Entregar o poder à oposição é trocar uma ditadura por outra e abrir caminho para novas lutas futuras, talvez até com novos Caracaços

Invadir a Venezuela é um ato alucinado que poderá gerar uma nova Síria encravada no coração da América Latina, com consequências terríveis inclusive para o Brasil. A Guerra do Iraque gerou o Estado Islâmico, o que geraria uma Guerra da Venezuela?

Apoiar Maduro é simplesmente fechar os olhos aos limites do movimento bolivariano e, ainda, chancelar ações ilegais e ditatoriais daquele governo. 

Na prática, então, não há saída imediata. Óbvio, a história vai seguir seu curso e uma hora ou outra as contradições explodirão. 

Caso me fosse permitido uma especulação, diria que – caso não haja guerra – a tendência é Maduro institucionalizar seu regime e a Venezuela congelar durante anos, mais ou menos como Cuba congelou. 
A Venezuela congelará como Cuba?
O Haiti também congelou e se tornou uma ilha do século 18 fincada no 21. 

Mas, a cada falha e beco sem saída, nós, revolucionários, aprendemos algo a mais e calibramos nossa ação. 

Que a sina da Venezuela agora nos dê mais uma lição. 
(por David Emanuel
de Souza Coelho)

domingo, 24 de fevereiro de 2019

VENEZUELA, UMA REVOLUÇÃO ESGOTADA – 1

Por David Emanuel Coelho
Em 1791 ocorreu a primeira grande revolução da América Latina. 

Foi a independência e abolição da escravatura no Haiti, uma revolução comandada por negros contra, ao mesmo tempo, a escravidão e o domínio colonial francês. 

O massacre de aristocratas brancos pelos ex-escravos atemorizou as elites do mundo durante décadas, a ponto de a oligarquia brasileira aceitar um acordo com o príncipe dom Pedro e proclamar a independência pelo alto, de preferência a arriscar-se a pôr armas nas mãos da massa escrava, maioria da população. 

Apesar de possuir a maior produção açucareira do continente – o petróleo da época – o Haiti afundou na pobreza ao longo do século XIX e XX. Logo após a revolução negra, o país foi submetido a um duro bloqueio comercial pelas potências europeias e pelos EUA, temerosas justamente do exemplo revolucionário se espalhar. 

Logo o açúcar deixou de ter grande valor comercial e o Haiti, desmonetizado e ilhado no sistema econômico mundial, ficou para trás, preso à monocultura decadente. A revolução resultou no país mais pobre das Américas. 
Massacre de aristocratas brancos: um pesadelo para as elites

A referência ao Haiti tem a intenção de introduzir o debate sobre a situação venezuelana, outro país herdeiro de uma revolução que claramente chegou a um beco sem saída. 

A Venezuela é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e membra fundadora da Opep, o poderoso cartel petrolífero. 

Antes da chegada de Hugo Chávez ao poder, a produção petrolífera do país atendia por inteiro aos ditames dos EUA. A alta burguesia venezuelana se apropriava dos petrodólares e os torrava em luxo e frivolidade, enquanto a maioria absoluta do povo vivia na completa miséria. 

A altíssima liquidez propiciada pela venda de petróleo, aliada ao reduzido mercado consumidor interno – pois restrito a setores de classe alta e média  desestimulava o desenvolvimento industrial e agrícola do país, já que a importação era um caminho muito mais viável. 

A extrema pobreza do povo venezuelano atingiu níveis explosivos na década de 1980, quando às mazelas econômicas históricas somou-se a crise mundial e ações de cunho neoliberal impostas pela oligarquia então no poder. 
O Caracaço de 1989: uma gigantesca rebelião popular
As tensões sociais desaguaram no chamado Caracaço, uma gigantesca rebelião popular ocorrida em Caracas no dia 27 de fevereiro de 1989, na qual morreram cerca de 300 pessoas, na contabilidade mais conservadora. 

Após este evento, o regime político venezuelano de então entrou em decadência, enfrentando golpes de estado e mobilizações populares até a ascensão de Hugo Chávez, dez anos depois. 

O movimento de Chávez, na verdade, fora fundado em 1982, no interior do exército venezuelano e tinha por inspiração a visão nacionalista e difusamente igualitária de Símon Bolívar. 

É importante destacar isto porque nunca, desde o começo, o chavismo foi marxista ou inspirou-se no socialismo clássico. Desde o primeiro momento não passou de um movimento nacionalista, de setores da baixa hierarquia militar, a qual visava uma reforma social dentro dos limites da ordem burguesa. 

O bolivarianismo surgiu de modo semelhante ao tenentismo brasileiro do século passado, com uma visão reformista autoritária e, no primeiro momento, desconectada da população. 
Chávez acumulou forças após o Caracaço e elegeu-se em 1999

Será após o Caracaço e os eventos políticos ao longo da década de 90 que o movimento bolivarianista ganhará inserção popular, radicalizando-se até a vitória eleitoral de Chávez. 

O próprio discurso nacionalista e a verve militarista do falecido presidente enganaram meio mundo, incluindo aí Bolsonaro, o qual saudou o líder na época recém-eleito como uma esperança para a América Latina.

Uma vez no poder, Chávez inicia um profundo processo de nacionalização da economia e ampliação do poder aquisitivo e do acesso a serviços públicos por parte da população mais pobre. 

O grau de popularidade e de inserção popular do chavismo à época pode ser medido pela estrondosa reação popular contra o golpe de 2001, quando milhares de favelados de Caracas desceram às ruas para confrontar os golpistas e exigir a restituição do presidente deposto. O mesmo exigiram militares de média e baixa patentes, isolando os generais traidores. 
Sob Chávez, uma prosperidade baseada só nos petrodólares...

Na verdade, a rigor, a revolução bolivariana começou ali. Chávez aproveitou o golpe para extirpar das forças armadas todos que se opusessem ao movimento bolivariano, criando também forças paramilitares e aprofundando suas reformas nacionalistas. 

No entanto, Chávez não reorientou a base produtiva do país. Fincou seu regime na mesma base econômica do antigo, a produção e exportação de petróleo, baseando-se no imenso volume de petrodólares para conduzir sua política social. 

Não se pode culpa-lo por não tentar instituir a industrialização, mas nem mesmo ele poderia modificar as leis da realidade. Limitado por um programa nacional-burguês, não rompeu com a lógica do capitalismo e continuou refém da alta liquidez interna da economia, a qual tornava praticamente inútil tentar uma dispendiosa industrialização diante da relativamente barata importação de bens de consumo. 
...e que não persistiria após sua morte em 2013

O tenente-coronel não era idiota e vislumbrou corretamente os limites de sua revolução, tanto que partiu para um processo de internacionalização, visando criar um mercado regional na América Latina, onde os petrodólares venezuelanos alimentariam as indústrias brasileiras e argentinas, bem como a produção agrícola dos Andes e do Caribe. 
(continua neste post)

terça-feira, 22 de maio de 2018

MADURO QUER FICAR NO PODER ATÉ 2025. A VENEZUELA NÃO SOBREVIVERÁ ATÉ LÁ.

Por Celso Lungaretti
Ainda existem articulistas de esquerda que preferem encarar corajosamente as verdades desagradáveis do que impingir a seus leitores realidades alternativas, como se estivessem escrevendo novelas de ficção-científica para tranquilizar adultos imaturos. 

Para aqueles que permanecem íntegros e comprometidos com os valores fundamentais do marxismo e do anarquismo, o que aconteceu no último domingo foi tão somente isto: um dos piores ditadores da atualidade deu mais um passo rumo ao abismo para o qual se encaminha e para o qual conduz o sofrido povo venezuelano. 

Meus parabéns a Ricardo Kotscho, um dos maiores jornalistas brasileiros vivos,  que já atuou em quase todos os veículos importantes do País e foi secretário de Imprensa do Governo Lula em 2003/2004.  O artigo abaixo faz jus a quem ele é, ao mesmo tempo envergonhando os que um dia foram parecidos com ele, mas hoje nada mais são.

Por Ricardo Kotscho
DITADURA DE MADURO MONTA FARSA, MAS OS ELEITORES
FOGEM DAS URNAS
Ditaduras no mundo inteiro sempre promoveram eleições para se legitimar, inclusive a nossa.

Salas de votação vazias guardadas por paramilitares fardados são o melhor retrato da farsa que foi a votação de domingo na Venezuela em que Nicolás Maduro foi reeleito por mais quatro anos.

Para quê, se o país está quebrado, dilacerado, sem comida, sem remédios e sem esperança?

Mais da metade dos eleitores não compareceu às urnas, a abstenção chegou a 54% dos inscritos.

Com o absoluto controle do Estado e os principais opositores presos ou impedidos de disputar a eleição, Maduro teve 5,8 milhões de votos (67% dos válidos), contra o principal adversário admitido nas urnas, Henri Falcón, que ficou bem distante, com 1,8 milhão de votos. 

“O que a gente ganha não dá nem para comer. Quem vai se entusiasmar com essa eleição?”, perguntou o pintor de carros Jesus Pereira ao repórter Fabiano Maisonnave, da Folha.

“Todos estão saindo do país como os pássaros. Quem pode vai embora”, desabafou o eleitor, que compareceu à mesma seção em que votava Hugo Chávez, morto em 2013.

Chávez instalou o bolivarianismo em 1999 e desde então seu grupo foi implantando e ampliando uma ditadura, à medida em que perdia apoio popular e a economia venezuelana se esfacelava.

Maduro foi nomeado herdeiro político do chavismo e, desde que assumiu pela primeira vez, abriu guerra contra as empresas que estariam a serviço dos Estados Unidos.

A indústria nacional foi destruída, vários países importantes cortaram relações e começou a grande debandada de venezuelanos em busca de sobrevivência. Só no Brasil já são mais de 50 mil que entraram no país nos últimos anos.

Mesmo assim, Maduro encontrou motivos para comemorar a vitória em seu discurso no Palácio Miraflores:

“Obrigado por me fazer presidente da República Bolivariana da Venezuela para o período 2019 a 2025. Quanto me subestimaram, e aqui estou.”

Será que o país sobreviverá até lá? O pior é que não tem nada para colocar no lugar dos bolivarianos.

É importante lembrar que o grande drama venezuelano não é provocado só pelo governo, na desatinada luta pela sobrevivência no poder, mas pelas elites locais, a começar pela mídia, a serviço dos interesses americanos.

Com a oposição dividida por interesses diversos e as instituições totalmente desacreditadas, a população não tem a quem recorrer.

Nós brasileiros deveríamos prestar mais atenção no que acontece por lá, para que a mesma tragédia não se repita aqui com as viúvas da ditadura dos generais, encantadas com a patética figura de Jair Bolsonaro, um ex-capitão, militar como foi Hugo Chávez, só que com os sinais trocados.
A diferença é que Chávez resolveu afrontar os Estados Unidos, enquanto Bolsonaro está pronto para prestar absoluta vassalagem ao grande irmão do norte.

Lá como cá, como sabemos, por trás de tudo está a disputa pelas reservas de petróleo.

Não podemos esquecer que brasileiros também já estão emigrando em massa, não só para Miami e Lisboa, mas também para o Paraguai.

Corremos o risco de virar não uma Grécia amanhã, mas uma Venezuela, se não tivermos juízo.

Vida que segue.
Já que estamos falando num pequeno ditador infame
e ridículo, por que não relembrarmos um grande ditador?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

UMA ANÁLISE INSUSPEITA (E ASSUSTADORA) DA CRISE ECONÔMICA VENEZUELANA: É PIOR QUE A DOS EUA NA GRANDE DEPRESSÃO!

Toque do editor
Há esquerdistas que involuíram para homens unidimensionais e hoje querem apenas absorver propagandaiada rasteira para depois a trombetearem aos quatro ventos; estes atribuem toda e qualquer crítica ao governo de Nicolas Maduro às insídias demoníacas do imperialismo. 

Existem também (e tenho encontrado suas manifestações nas redes sociais) companheiros que preferem e buscam conhecer a realidade sem distorções intencionais; estes, porque continuam marxistas, trotskistas, anarquistas, etc., ainda esforçam-se, em suas reflexões, para levar em conta as contradições do nosso tempo, ao invés de regredirem ao maniqueísmo característico das religiões, para as quais existem apenas o Bem, o Mal e um abismo no meio. 

Para os segundos, deverá ser muito proveitosa a leitura do excelente artigo abaixo, que o Correio da Cidadania publicou e estou reproduzindo. Seu autor é dos mais insuspeitos: Michael Roberts, redator do jornal holandês The Socialist, que vem dissecando a agonia do capitalismo em livros marcantes como The great recession: profit cycles, economic crisis (a marxist view) e The long depression: marxism and the global crisis of capitalism, respectivamente de 2009 e 2016. (CL)

Por Michael Roberts
A TRAGÉDIA DA VENEZUELA
À medida que o regime de Maduro tenta impor a sua nova Assembleia Constituinte como um rival ou substituto do atual Congresso venezuelano e prende os líderes da oposição pró-capitalista, a terrível situação econômica e social no país continua a piorar.

De acordo com o FMI, o PIB da Venezuela em 2017 é 35% abaixo dos níveis de 2013, ou 40% em termos per capita. Essa é uma contração significativamente mais acentuada do que durante a Grande Depressão de 1929-1933 nos EUA, quando se estima que o PIB dos EUA tenha caído 28%. 

É um pouco maior do que o declínio na Rússia (1990-1994), Cuba (1989-1993) e Albânia (1989-1993), mas menor do que o experimentado por outros ex-Estados soviéticos no momento da transição, como a Geórgia, Tajiquistão, Azerbaijão, Armênia e Ucrânia, ou países devastados pela guerra, como Libéria (1993), Líbia (2011), Ruanda (1994), Irã (1981) e, mais recentemente, Sudão do Sul.

Portanto, nesta medida, de acordo com Ricardo Haussman, ex-economista chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento, a catástrofe econômica da Venezuela anula qualquer outra na história dos EUA, da Europa Ocidental ou do resto da América Latina.
Fila para comprar papel higiênico e fraldas em Caracas

Em 2013, avisei que as conquistas da revolução bolivariana sob Chávez estavam seriamente ameaçadas. Chávez melhorou as condições dos mais pobres com aumento dos salários, serviços sociais e redução da desigualdade. Mas essas melhorias só foram possíveis dentro dos limites da economia capitalista, usando as receitas das exportações de petróleo em um momento de preços de petróleo global muito altos. Mas estes preços começaram a marcar passo e praticamente diminuíram à metade nos últimos dois anos.

As exportações de petróleo caíram US $ 2.200 per capita de 2012 a 2016, dos quais $ 1.500 foram devidos ao declínio dos preços do petróleo. O governo Maduro começou a acumular enormes dívidas externas para tentar sustentar os padrões de vida. A Venezuela é agora o país mais endividado do mundo. Nenhum país tem uma dívida externa pública maior como parte do PIB ou das exportações, ou enfrenta um maior serviço da dívida frente às receitas de exportação.

O governo recorreu à desvalorização da moeda para aumentar a receita em dólares, mas isso apenas estimulou uma inflação ultrajante e cortes nos salários reais. Ao mesmo tempo, o governo decidiu honrar todos os pagamentos da dívida externa e reduzir as importações. Como consequência, as importações de bens e serviços per capita diminuíram 75% nos termos reais (ajustados pela inflação) entre 2012 e 2016, com um novo declínio em 2017. 
Caminhão de supermercado sendo saqueado 

Tal colapso é comparável apenas ao da Mongólia (1988-1992) e à Nigéria (1982-1986) e maior do que todos os outros colapsos de importação num período de quatro anos em todo o mundo desde 1960. Isto levou a um colapso na agricultura e indústria ainda maior que o do PIB global, reduzindo quase US $ 1.000 per capita em bens de consumo produzidos localmente.

O salário mínimo – que na Venezuela também é o rendimento do trabalhador médio, devido à grande parcela de assalariados – diminuiu 75% (em preços constantes) de maio de 2012 a maio de 2017. Medido em calorias disponíveis mais baratas, o salário mínimo diminuiu de 52,854 calorias por dia para apenas 7,005 durante o mesmo período, um declínio de 86,7% e insuficiente para alimentar uma família de cinco pessoas, assumindo-se que toda a renda seja gasta para comprar a menor quantidade de calorias. Com seu salário mínimo, os venezuelanos podem comprar menos de um quinto da comida que tradicionalmente os colombianos mais pobres podem comprar com o salário mínimo deles.

O nível de pobreza aumentou de 48% em 2014 para 82% em 2016, de acordo com uma pesquisa realizada pelas três universidades mais prestigiadas da Venezuela. O mesmo estudo descobriu que 74% dos venezuelanos perderam involuntariamente uma média de peso de 8,6 quilos (19 libras). O Observatório Venezuelano da Saúde relata um aumento de dez vezes na mortalidade hospitalar e um aumento de 100 vezes na morte de recém-nascidos em hospitais em 2016.
Enquanto o povo come o pão que o diabo amassou e por isto confronta as tropas do governo...
De acordo com um estudo realizado entre outubro e dezembro de 2016 pela Cáritas Venezuela, em colaboração com a Cáritas France, a Comissão Europeia e a Confederação Suíça, há indícios claros de desnutrição crônica entre crianças na Venezuela. Em algumas áreas, atinge níveis próximos do que, de acordo com os padrões internacionais, é uma crise. O relatório diz: 
"Estratégias de sobrevivência inseguras e irreversíveis estão sendo registradas do ponto de vista econômico, social e biológico, e o consumo de alimentos nas ruas é especialmente preocupante. (...) De acordo com uma pesquisa realizada em junho de 2016 no estado de Miranda, 86% das crianças temiam ficar sem comida. Cinquenta por cento disseram que foram para a cama com fome por falta de comida em suas casas".
Erika Guevara, diretora do Escritório Regional da Anistia Internacional para as Américas escreveu, em junho de 2016: 
...os militares são tratados a pão de ló por Maduro.
"J.M. Hospital Infantil, em Caracas, já foi uma fonte de orgulho como modelo de cuidados pediátricos na Venezuela, hoje é um símbolo trágico da crise que está varrendo este país sul-americano. 
Metade do edifício gigantesco está em colapso, as paredes trincadas, os pisos são inundados e os quartos estão tão deteriorados que não são mais usados. Pelos corredores, centenas de crianças estão sendo tratadas. Mas tanto os remédios quanto os suprimentos médicos básicos são escassos, e as mães das crianças já não conseguem obtê-los...".
The Voices of Hunger (Vozes da Fome), um relatório feito por Telemundo e liderado pelo jornalista venezuelano Fernando Girón, mostra como crianças venezuelanas lutam com aves de rapina por ossos descartados por açougueiros (El Nacional, 28/02/17).

Antes de Chávez, a maioria dos venezuelanos era desesperadamente pobre depois de uma série de governos capitalistas de direita. Mas agora, mais uma vez, sob Maduro, esta é a situação para os pobres e a maioria da classe trabalhadora venezuelana. 
Menina e pai revirando lixo

Não é de admirar que o apoio ao governo Maduro tenha diminuído enquanto as forças da reação ficam mais fortes. Enquanto a maioria luta pela sobrevivência, muitos do alto escalão do governo Maduro estão tão confortáveis quanto os capitalistas venezuelanos e seus apoiantes que tentam derrubar o governo.

O governo de Maduro agora depende cada vez menos do apoio da classe trabalhadora, mas das forças armadas. E o governo cuida bem delas. Os militares podem comprar em mercados exclusivos (p. ex., em bases militares), ter acesso privilegiado a empréstimos e compras de carros e receberam aumentos de salários substanciais. Eles também ganharam contratos lucrativos, explorando controles de câmbio e subsídios, p. ex., vendendo a barata gasolina venezuelana em países vizinhos com grandes lucros.

Como Rolando Astarita apontou em uma série de postagens: o exército tem forte poder econômico direto, já que o Fanb dirige e controla toda uma série de empresas: o banco Banfanb; Agrofanb, para agricultura; Emiltra, transporte; Emcofanb, sistemas de comunicação da empresa do Fanb; TV Fanb, um canal de TV digital aberto; Tecnomar, uma empresa mista de projetos de tecnologia militar; FIMNP, um fundo de investimento; Construfanb, construtor; Cancorfanb, empresa mista bolivariana; Água Tiuna, planta de engarrafamento de água; E, em seguida, há Caminpeg, a empresa anônima de militares para mineração e petróleo e gás.
Ao povo, a desnutrição; às elites, o bem-bom de sempre.

Muitas das elites do governo de Maduro usaram a crise econômica para seu próprio benefício pessoal. Eles compraram a dívida do governo por retornos altos, ao mesmo tempo em que asseguram que não haja calote, tudo à custa da queda dos padrões de vida para as pessoas que devem pagar essa dívida por meio de impostos e prejuízos fiscais. 

O intercâmbio de divisas destinado ao pagamento da dívida externa foi compensado pela redução das importações de alimentos, medicamentos ou insumos industriais essenciais.

Assim, enquanto os manifestantes antigoverno lutam contra a polícia e o exército nas ruas e o governo de Maduro se aproxima cada vez mais de um domínio autoritário absoluto, a classe trabalhadora fica ao relento. 

O programa econômico e social da oposição é o tradicional dos capitalistas nacionais apoiados pelo imperialismo: a reforma das leis trabalhistas (ou seja, mais exploração e demissões), privatização ou reprivatização das empresas estatais, desregulamentação dos controles sobre o investimento (isto é, garantindo uma elevada taxa de exploração do trabalho) e, claro, o levantamento dos controles de preços e a reunificação cambial. A implementação deste programa impõe ainda mais perdas à maioria. Como as sanções planejadas pelo imperialismo dos EUA e seus acólitos na região.
Foi outra revolução inacabada...

O que deu errado com os louváveis objetivos do Chavismo? Esta tragédia poderia ser evitada? Bem, sim, se a revolução chavista não tivesse parado a meio caminho, deixando a economia ainda predominantemente no controle do capital. 

Em vez disto, os governos Chávez e Maduro confiaram nos altos preços do petróleo e enormes reservas de petróleo para reduzir a pobreza, ao mesmo tempo em que não conseguiram transformar a economia por meio de investimentos produtivos, propriedade estatal e planejamento. 

Entre 1999 e 2012, o Estado teve uma receita de US$ 383 bilhões de petróleo, devido não só à elevação dos preços, mas também ao aumento dos royalties pagos pelas transnacionais. 

No entanto, esta renda não foi utilizada para transformar os setores produtivos da economia. Sim, alguns foram utilizados para melhorar os padrões de vida das massas mais empobrecidas. Mas não havia plano de investimento e crescimento. O capital venezuelano podia continuar com isso – ou não, conforme o caso. De fato, a participação da indústria no PIB caiu de 18% em 1998 para 14% em 2012.

Agora, os comerciantes livres de direita nos dizem que isso mostra que o socialismo não funciona e não há escapatória aos rigores do mercado. Mas a história dos últimos dez anos não é o fracasso do socialismo ou do planejamento, é o fracasso em acabar com o controle do capital em um país capitalista fraco (cada vez mais isolado) com um único recurso, o petróleo.
...e está correndo grande risco de acabar num banho de sangue. 

Não houve investimento nas pessoas, suas habilidades, nenhum desenvolvimento de novas indústrias e o aumento da tecnologia – que foi deixado para o setor capitalista. Contraste isso com o socialismo com características chinesas, na agora maior economia do mundo.

Há pouco mais de um ano, discuti num post que, para salvar os objetivos do chavismo, "provavelmente é muito tarde, já que as forças de reação ganham terreno todos os dias no país. Parece que aguardamos apenas a decisão do exército de mudar de lado e expulsar os chavistas".

terça-feira, 27 de junho de 2017

VENEZUELA: SOB AMEAÇA DE GUERRA CIVIL E PRENHE DE UMA REVOLUÇÃO DE NOVO TIPO.

"Claro que estou disposto a entregar o poder em cinco anos. Já disse que
até mesmo antes" (Hugo Chávez,
 às vésperas de eleger-se presidente)
.
Quando estivemos no Fórum Social Mundial de 2006, que teve lugar na capital venezuelana, pudemos observar a presença militar ostensiva contra os que se colocavam à esquerda da chamada Revolução Bolivariana Indigena, denunciando as práticas capitalistas tanto do governo de George W. Bush como de Hugo Chávez. 

Denunciávamos que tal revolução, ao mesmo tempo em que vituperava o imperialismo estadunidense, era dependente de suas importações de petróleo (que, naquela altura, ainda tinha altos preços no mercado internacional). Criticávamos o capitalismo de estado que se instalara na Venezuela.

Quando hasteamos as nossas faixas contra Bush, mas também contra Chávez e outros ditadores sul-americanos e internacionais, fomos fortemente hostilizados, sob a indiferença da esquerda tradicional. Parecíamos uns ET's em meio a uma esquerda cujas bandeiras ultrapassadas se limitavam a defender o capitalismo de estado como contraponto ao capitalismo liberal burguês. 

Era como se existissem apenas dois campos: o imperialista e o socialista; o mal e o bem; os burgueses e os trabalhadores. Como se uns e outros fossem diferentes na essência de suas formas de produção social. Afinal, para haver luta de classes é preciso existirem classes; consequentemente, a proposição de abolição radical das classes sociais, revolucionária pela raiz, é herética para os militantes tradicionais.  
Bem-vindos... desde que repetissem os slogans mais batidos.

Posicionarmo-nos contra a mediação social feita pelas categorias capitalistas presentes da Venezuela soava, para muitos, como se estivéssemos contrariando a lei da gravidade. Apenas alguns grupos indígenas, que sempre desconfiaram da relação social mediada pelo dinheiro e pelo trabalho abstrato que lhes foi imposto desde que aqui chegaram os colonizadores europeus, é que nos ouviram com um pouco de atenção (e, de certa forma, convergiram com o que explanávamos.

Pois bem, o tempo passou e o preço do petróleo despencou; o grande capital que não gosta de conviver com intervenção estatal, fugiu com seu capital como o diabo foge da luz; e a revolução bolivariana viu frustrada a tentativa de domesticação do capital, sem superá-lo. 

Diante da miséria, o povo, na sua grande maioria sem compreender as razões profundas de suas agruras (a manutenção do sistema produtor de mercadorias sob uma economia estatizada, portanto capitalista na essência), foi ficando cada vez mais insatisfeito à medida que a escassez de tantos gêneros e o colapso de tantos serviços se acentuava. E como a fome é má conselheira, a Venezuela é hoje um barril de pólvora, numa falsa dicotomia de disputa de modelos políticos. 

A oposição venezuelana de direita, com suas bandeiras capitalistas tradicionais e com o eterno discurso democratizante da liberdade (a raposa e as galinhas podendo interagir livremente no mesmo galinheiro), não representa saída sustentável, mesmo porque não passa de ilusão sua promessa de volta aos bons tempos do petróleo venezuelano em alta. 
O ruim deste expediente para governo impopular manter-se no poder...
A saída também não está na continuidade do governo bolivariano, que está Maduro para cair e só consegue sustentar-se atualmente graças à repressão militar ostensiva. 

Assim, o que está maduro mesmo é a necessidade de transcendência dos dois modelos em disputa e a adoção de práticas de produção que visem à satisfação das necessidades de consumo sem a mediação do Estado cobrador de impostos nem a produção de mercadorias destinadas ao mercado, mas sim de bens e serviços que possam satisfazer as demandas sociais do bravo povo venezuelano. 

O grande capital internacional e sua mídia denunciam com satisfação o enfraquecimento e a baixa popularidade de uma ditadura estatizante de esquerda; a esquerda marxista-tradicional procura argumentos que justifique a repressão violenta e a escassez de bens e serviços, sem encontrá-los; e o povo, atônito, vê-se entre a alternativa de escolher entre o ruim e o péssimo, sem identificar quem é o ruim e quem é o péssimo, vez que ambas as formas políticas em disputa são idênticas na essência de seus propósitos finais – o lucro. 
...é que ele não funciona para sempre.
Outros emigram, aumentando a leva de refugiados que a cada dia cresce mundo afora, como consequência de uma mesma causa original – a espoliação capitalista patrocinada pelo sistema produtor de mercadorias.
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A SAÍDA NÃO É A INSISTÊNCIA NO CAPITALISMO
DE ESTADO NEM A VOLTA AO CAPITALISMO LIBERAL
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O que agoniza não é apenas o regime de Maduro, mas o capitalismo, com reflexos mais sensíveis nos países que dependem da conjuntura econômica mundial, como é o caso da Venezuela, que apoiou a sua sustentabilidade econômica num único produto: o petróleo. 

Com as dificuldades econômicas de um país que se anuncia anti-imperialista, mas que se rege por normas capitalistas com rígida intervenção estatal, a Venezuela vive uma contradição implícita oriunda de uma dubiedade de escolha política: não é capitalista liberal, mas é capitalista estatal com pretensões de ser anticapitalista. Tal dubiedade leva a uma situação de pré-anomia social, que se caracteriza pela desintegração das normas que regem a conduta dos indivíduos e asseguram a ordem social. 
Economia venezuelana dependia demais do petróleo
Na Venezuela as regras sociais se decompõem a olhos vistos e as instituições jurídico-constitucionais funcionam ao sabor da pressão política de um lado e de outro. A lei está na cabeça de cada um e no compromisso de cada magistrado superior com o que lhe convém. 

A permanecer neste rumo, a tendência é de a situação agravar-se até a eclosão de uma guerra civil, cujos sintomas já se fazem sentir. 

Tal quadro clama por uma superação transcendente, mediante a adoção um modelo societário completamente diferente de todos os que já foram experimentados: a produção de bens e serviços que não se constituam como mercadorias e o estabelecimento de uma forma de organização social horizontalizada e contributiva. A nova era tecnológica de produção é incompatível com o capitalismo, seja de que matiz for. 

A Venezuela está inserida na lógica destrutiva da vida mercantil globalizada, inclusive para vender o seu petróleo, que antes da desvalorização no mercado mundial era responsável por 66% do PIB, razão pela qual caiu na armadilha da negatividade da disputa capitalista pelo dinheiro, sua pedra de toque

Os indicadores negativos da economia venezuelana sob o atual governo tendem a propiciar uma volta ao capitalismo liberal burguês como alívio para a situação atual. Entretanto, a volta ao passado, num momento de depressão econômica mundial, terá somente o efeito de um antitérmico que, antes de debelar a infecção, apenas anestesiará a febre atual sem atacar sua causa (os problemas sociais). 
Presidente que se diz visitado por passarinho fantasma... pode?!

Assim, a saída não pode ser uma fuga pra frente, capitalista na essência, mas sim a criação de uma sociedade na qual os seres humanos não sejam comandados por uma lógica social mercantil fetichista, reificada, que lhes dá ordens desumanas; eles têm, isto sim, de se tornarem senhores conscientes do seu destino, lutando para a superação de toda e qualquer opressão de classe. 

Tal tarefa compete aos verdadeiros revolucionários emancipacionistas e ao povo venezuelano, que deverão promover a abolição da forma-valor e de todos os seus construtos imanentes, o que implica, obviamente, a abolição do Estado arrecadador de impostos e opressor (isto nem os capitalistas tradicionais, nem os pretensos revolucionários bolivarianos aceitam, pois significa abdicarem do poder tão amado por eles);

— que não deverá temer a liberdade de imprensa, já que a informação é libertária;
— que não deverá aceitar a repressão militar em nome da liberdade;
— que não deverá aceitar a cantilena capitalista de direita e de esquerda;
— que deverá introduzir um modo de produção voltado para a satisfação das necessidades de consumo e não para a realização do lucro privado ou estatal;
— que deverá abolir o trabalho abstrato, o as mercadorias e o dinheiro;
— que deverá introduzirá normas jurídicas consentâneas com o melhor ideal de realização da justiça;
— que tornará o ser humano, por fim, solidário com seus irmãos, universalistas (ao contrário do nacionalismo xenófobo), e na construção de um mundo melhor, ao invés de tornar a todos adversários uns dos outros como ocorre na autofagia da competitividade da vida mercantil.
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VIVA O POVO VENEZUELANO! 
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(por Dalton Rosado)
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