quarta-feira, 31 de agosto de 2016

DILMA SAI DO ALVORADA PARA ENTRAR NA REALIDADE PARALELA

Não sou vaidoso, prefiro o barbeiro a 50 metros da minha casa do que qualquer cabeleireiro masculino chique, que me faria perder tempo no trajeto e cobraria os olhos da cara.

E foi ele, o Adriano, quem me garantiu: "O olhar da Dilma é de quem tem problemas mentais". Desfiou uma série de episódios noticiados que comprovariam sua tese.

Já o Rui Martins, velho guerreiro do jornalismo, a vê como uma pessoa que paira numa realidade paralela e ignora olimpicamente tudo que contrarie suas convicções. Teve o azar de qualificar tal estado de autismo, tal qual outros comentaristas políticos já haviam feito, mas sobre ele desabou uma tempestade de e-mails indignados, como consequência da ação concertada de um desses grupos de pressão que pululam na internet. 

O paralelo foi mesmo infeliz, mas o coitado do Rui não merecia ser tratado com tamanha fúria, como se uma palavrinha mal colocada anulasse toda sua história de vida de defensor dos direitos humanos!

Como isto não está na esfera dos meus conhecimentos, não darei palpite nenhum sobre o que levou a Dilma se tornar tão ensimesmada e incapaz de levar em consideração o que lhe contraponham. Só direi que tal comportamento me causa espanto.

Um exemplo: a Advocacia Geral da União move uma encarniçada perseguição jurídica contra mim, evitando pagar-me o que milhares de anistiados já receberam. Já perdeu três julgamentos no STJ por unanimidade (8x0, 7x0 e 8x0) e continua recorrendo a um verdadeiro arsenal de medidas protelatórias para retardar indefinidamente o único desfecho possível do caso. Comete, portanto, um aberrante abuso de poder.
Amigos mandaram mensagem à Dilma e, para não desmerecer suas iniciativas, mandei também, embora cético. A resposta foi sempre a mesma: como presidente da República, ela não poderia interferir num assunto de competência do Judiciário.

Evidentemente, esclarecemos que na esfera do Judiciário a questão ficara decidida quando do julgamento do mérito da questão em fevereiro de 2011, só continuando pendente graças à guerrilha jurídica da AGU, que é vinculada ao Executivo e não ao Judiciário. E o que recebemos da Dilma foi a repetição, com outras palavras, da mensagem anterior; ou seja, ela simplesmente ignorou nossa contestação!

O pior é que a Dilma age assim também em assuntos amplamente noticiados, não apenas no que diz respeito aos direitos de antigos companheiros de ideais, violentados na surdina. 

Acaba de afirmar, p. ex., que o processo de impeachment não foi aberto em função da voz das ruas. Ora, se ela estava com um índice de aprovação reduzido a irrisórios 10% e os defensores do impedimento ganhavam de goleada todas as batalhas nas ruas (promoviam as maiores manifestações, realizavam protestos num número superior de municípios e mobilizavam mais pessoas no cômputo geral), qual seria, afinal, a voz das ruas?

Mas, Dilma continua sustentando até hoje que o processo só foi aberto porque o grande vilão Eduardo Cunha quis chantagear o governo, não sendo atendido. Ora, quem acompanhou passo a passo os acontecimentos, atentamente e sem antolhos ideológicos, percebeu que Cunha, pelo contrário, retardou a abertura do processo, enquanto barganhava com os dois lados. 

Havia dezenas de pedidos, evidentemente a situação brasileira era tão grave que justificava tal questionamento da forma como Dilma governava o país. O papel do presidente da Câmara Federal, portanto, era o de submeter a questão, consecutivamente, à assessoria jurídica, a uma comissão especial e ao plenário, ao invés de se comportar como um novo arquivador geral da Nação. Quando enfim o fez, todas estas barreiras foram facilmente transpostas.

É simplesmente patético que, só conseguindo o apoio de 137 deputados, contra 367 favoráveis ao impedimento (eram necessários 342), Dilma e os dilmistas continuem até agora inculpando Eduardo Cunha! 

Dois terços dos deputados e outro tanto de senadores estão mandando Dilma para casa, depois de quase nove meses de trâmites parlamentares e recursos ao Supremo Tribunal Federal, com o último julgamento sendo conduzido pelo presidente do STF, num país em que ninguém foi preso, ninguém foi torturado, ninguém foi assassinado, nenhum texto jornalístico foi censurado, nenhum parlamentar foi cassado e o mais amplo direito de defesa foi assegurado. Lá isto se parece com um golpe?

Certamente não com os do século passado, quase sempre com tanques na rua e marcados por banhos de sangue. E nem mesmo com o episódio que os dilmistas alegaram ser semelhante, a destituição do presidente paraguaio Fernando Lugo, que começou e terminou em apenas dois dias!

E o que dizer dos elogios em boca própria ao Projeto de Transposição do Rio São Francisco, aquela maracutaia orçada em R$ 4,6 bilhões, que já consumiu R$ 12,2 bilhões e vai exigir, pelo menos, outros R$ 10 bilhões, sem resultados para apresentar após 10 anos e que já recebeu o apelido de bolsa-empresário?! Alguém esqueceu de avisar a Dilma que a transposição é o maior elefante branco dos governos petistas?

Por último: de tudo que Dilma e os dilmistas vêm falando desde 2 de dezembro de 2015, quando o impeachment começou, faltou, simplesmente... o fundamental!

Pois o motivo real do impeachment, todos sabemos, é a terrível recessão a que Dilma conduziu o país e o fato de que passara 16 meses do seu segundo mandato sem conseguir governar e sem saber o que fazer, numa paralisia governamental inacreditável, enquanto o povo sofria e o abismo se aprofundava. 
O que ela precisaria fazer para alterar o ânimo nacional favorável ao impedimento? Convencer a opinião pública de que já tinha uma saída para a crise e seria capaz de dar a volta por cima.

Foi o que ela não fez em nenhum momento, talvez porque não vislumbrasse mesmo saída nenhuma.

Então, por que fazia tanta questão de continuar no poder? Para prolongar nossa agonia? Porque seu ego se ressentia?

Não lamento sua desdita, pois ela em nenhum momento teve a humildade de admitir seus erros e colocar o drama dos coitadezas acima de seus melindres pessoais. Choro é pelos desempregados e suas famílias, que não têm onde cair mortos e, desesperados, nem sequer receberam um alento da esquerda palaciana, pois sua própria existência equivalia a uma muda acusação à Dilma e atrapalhava os esforços para lhe salvarem o pescoço.

Foi para defender a causa dos explorados e proteger os indefesos que aderi à esquerda no longínquo ano de 1967, aos 16 anos. Eu não mudei. Lamento que tantos outros tenham mudado. A revolução é uma grande devoradora de caracteres.

NA BATALHA DO IMPEACHMENT, OS DOIS LADOS MOSTRARAM IDÊNTICO RESPEITO PELO CAPITALISMO E SUAS INSTITUIÇÕES.

"A vida é uma história contada 
por um idiota, cheia de som e 
fúria, significando nada" 
(Shakespeare, em MacBeth)
Nos exaustivos e repetitivos debates entre defensores e adversários do impeachment da presidente Dilma Rousseff, nenhuma das partes ousou abordar a natureza da crise do capitalismo. Fiquei atento a esta questão nas poucas vezes que tive paciência de assistir à ópera bufa encenada no Senado, mesmo sabendo que os parlamentares dos dois lados dela fogem como o Drácula dos raios solares na ficção do irlandês Bram Stoker.

A hipocrisia, a superficialidade e as meias verdades campeiam neste processo de impeachment, no qual todos brigam e ninguém tem razão. 

Muitos membros da oposição parlamentar pró-impeachment afirmam que a crise brasileira tem origem no desgoverno de Dilma, relativizando a crise capitalista mundial; os parlamentares a favor da afastada, por sua vez, afirmam que a crise internacional terminou por se abater sobre o Brasil, causando os estragos que todos conhecemos e que foram repetidamente elencados ao longo dos fastidiosos discursos (como se a grande mídia já não tivesse abordado ad nauseam e o povo sentido na carne os seus reflexos!). 

Os dois lados que se digladiam nas tempestades de som e fúria significando nada do parlamento brasileiro tudo fazem para parecerem diferentes, mas são idênticos na essência. Daí ter-se tornado consensual a análise de que a culpa não é da crise estrutural do capitalismo, mas sim de fatores circunstanciais (seja o mau gerenciamento, seja um excesso momentâneo de manipulação e ganância). 

Assim, para os impichadores, a crise advém do mau gerenciamento do governo Dilma (que existe); e para os impichados, da manipulação insensata do capital internacional, nacional e dos seus políticos (que existe). No segundo caso, propõem, como solução, o controle estatal (daí frases do tipo “mais estado e menos mercado”, do líder do PT na Câmara Federal). 

O viés estatizante é encontrado também em destacados membros da esquerda, que ao invés de aprofundarem a análise sobre as causas profundas da crise mundial do capitalismo (que explodiu a partir da crise de liquidez do sistema financeiro mundial em 2008/9, e que somente pôde sobrevier à custa do dinheiro sem valor emitido pelos Bancos Centrais dos países integrantes do G7), prefere circunscrever as suas críticas ao gerenciamento político da crise, como se fosse esta a sua causa.  

A turbulência no sistema financeiro e o descontrole do endividamento público e da inflação foram contornadas por meio da emissão de moeda sem lastro e de títulos públicos insolváveis, ou seja, por medidas evidentemente paliativas, procrastinatórias da crise. Pois esta não foi e nem pode ser resolvida na sua origem, vez que reside na paralisia inerente à chamada economia real, que a todos e a tudo financia (Estado e sistema financeiro), provocada pelo desenvolvimento tecnológico das forças produtivas (meios de produção via trabalho morto, das máquinas). 

A crise econômica mundial resulta do fato de que, pela primeira vez na história do capitalismo, não existe compensação entre o desemprego em setores tecnologicamente desenvolvidos da produção e novos empregos que possam produzir e compensar a extração de mais-valia suprimida. 
O barateamento das mercadorias reduz a massa global de mais-valia e de valor produzido, e ainda que crie a possibilidade de um maior poder de aquisição para quem está incluído no sistema produtivo, não tem mais o condão de equilibrar tal déficit e proporcionar o indispensável aumento contínuo desta mesma massa global de valor, agora reduzida. 

Estabelece-se, atualmente, o absurdo confronto entre incluídos no sistema produtivo (mas em vias de serem desempregados) e os não incluídos; uma guerra fratricida, estimulada pelo Estado, que, juntamente com o mercado, trata estes últimos como párias sociais improdutivos de valor.    

O desequilíbrio desta conta vem ocorrendo desde a revolução industrial tecnológica (cibernética, microeletrônica, sistema de comunicação via satélite e, agora, com o auxílio da nanotecnologia), sem que disso se deem conta os privilegiados defensores do capital, sejam eles explícitos (a direita) ou implícitos (a esquerda). Desconhecem ou querem desconhecer que, no longo prazo, o capitalismo é uma irresolúvel equação matemática aplicada às relações sociais.

Vários parlamentares estabeleceram um paralelo do Brasil com o caos da Venezuela, cuja população mais pobre tenta se refugiar nos países limítrofes de suas fronteiras (Colômbia e Brasil), por absoluta falta de oferta de bens indispensáveis à vida, como alimentos e produtos de higiene pessoal; veem em tais ocorrências um exemplo das virtudes do capitalismo. 

Esquecem-se tais analistas facciosos que a Venezuela é um arremedo de capitalismo de Estado que se manteve sustentado pelo petróleo, num comércio internacional no qual seu maior comprador eram justamente os Estados Unidos. Ora, relações de comércio internacionais são mecanismos capitalistas, e bastou a queda do preço internacional do petróleo e os boicotes do capitalismo liberal burguês para que se inviabilizasse a tal revolução bolivariana. A falta de profundidade das análises de uns e de outros é de estarrecer. 

Os parlamentares não negam o capitalismo; uns o elogiam, outros querem humaniza-lo, estando ambos equivocados. 

Outra questão que me chamou a atenção foi o elogio uníssono ao parlamento burguês, como se este fosse ganho intocável da civilização ocidental e altar da democracia. Já disse no meu primeiro artigo neste blogue que a democracia é antidemocrática, no sentido de que se trata de um artifício que se incorporou semanticamente como sinonímia enganosa do justo e do bom. Agora digo que o parlamento é mais uma expressão explícita do engodo chamado democracia.    

Obviamente, um parlamentar que jura obediência à Constituição ao tomar posse, torna-se, implicitamente, submetido aos cânones da casa parlamentar, que foi criada e concebida pelo regime republicano burguês. Aliás, o elogio à República é referência sacrossanta, assim entendida por todos os parlamentares que se pronunciaram no processo de impeachment. 

É por isto que afirmo que alguém que se considere anticapitalista não deve pertencer e participar do parlamento, pois não pode negá-lo, sob pena de falta de decoro parlamentar. Desculpem-me se o trocadilho é infame, mas a atividade parlamentar dá para lamentar...
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A mim me parece que as intermináveis discussões havidas no teatro jurídico-institucional do Congresso Nacional sobre o impeachment equivalem, numa analogia metafórica, a uma enorme junta médica que discute hipocritamente, sob os auspícios midiáticos, como curar a infecção de uma unha encravada num paciente que está tomado por uma metástase cancerígena. (por Dalton Rosado)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A COMÉDIA DE ERROS CHEGA AO FIM... ATÉ QUE ENFIM!!!

Pompa, circunstância e imperfeições constitucionais.
O que tornou imperativo o impeachment de Dilma Rousseff foi haver conduzido o país a uma terrível recessão econômica e estar, quando do seu afastamento, havia 16 meses sem conseguir governar. Ou seja, como sua permanência no poder faria apenas agravar-se uma situação que já era insustentável, ou ela caía, ou cairia o Brasil (no caos e, possivelmente, numa nova ditadura). Simples assim.

Como nossa imperfeita Constituição não contém dispositivo para o descarte de um(a) presidente incompetente ao extremo, mesmo quando sua extrema incompetência está detonando a economia e esfarelando a nação, o processo de impeachment teve de se restringir formalmente a motivos até irrisórios no quadro geral da devastação, se não causada, certamente maximizada pela gestão destrambelhada de Dilma Rousseff.

P. ex., as manobras contábeis ilícitas não foram casos isolados, mas parte do pior estelionato eleitoral cometido no Brasil em todos os tempos. Ocorre que, espantosamente, estelionato eleitoral não está entre as justificativas legais para o impedimento presidencial. 
Pompa, circunstância e lengalenga.

Alguém pode, como Dilma em sua campanha para a reeleição, impingir ao eleitorado as piores mentiras e até satanizar os adversários atribuindo-lhes intenções sinistras das quais só escaparia elegendo-o (a), para, em seguida, fazer exatamente aquilo que dissera que os malvados fariam. Tudo bem, pois a Constituição não proíbe que vigaristas políticos tratem os eleitores do país inteiro como otários. Goebbels adoraria o Brasil. 

Quanto às manobras contábeis em questão, foram também parte do estelionato: a maquilagem ilícita serviu para ocultar do eleitorado o profundo descontrole das contas públicas, que certamente serviria de combustível para uma crise econômica que já provocava muita inquietação. Será que uma vitória por margem tão exígua teria sobrevivido à revelação dos maus feitos administrativos da gerentona e das consequências que deles decorreriam para os brasileiros?

Dilma, no melodrama que encenou para os senadores, o mesmo que martela incessantemente há meses para a opinião pública sem convencer quase ninguém, fugiu destes questionamentos mais gerais (e importantes), reduzindo tudo a uma discussão técnica sobre haver ou não cometido crimes de responsabilidade –embora nem assim saísse totalmente bem na foto, pois os entendidos garantem que os cometeu (só que de um tipo usualmente não punido em nosso país). 

A vitimização de Dilma se sustenta nas imperfeições constitucionais. Se estivesse sendo impichada pelas razões corretas e completas, nossa paciência não enfrentaria a dura prova de aguentar tal lengalenga durante meses a fio...
Petistas passaram batidos. Azar nosso.
Quanto à tantas vezes alegada honestidade pessoal, na verdade se restringe apenas a não haver embolsado grana proveniente de maracutaias. Mas, Deus e o mundo sabem que o preço de o beijo do Lula a haver transformado de rã em princesa foi olhar para o outro lado enquanto tais maracutaias grassavam soltas (começando pela inacreditável aquisição da usina de Pasadena por um valor superestimadíssimo). Já fazia vistas grossas quando chefiava a Casa Civil e o conselho administrativo da Petrobrás; continuou fazendo como presidente.

Agora, a Operação Lava-Jato revela que a grana das maracutaias irrigou suas campanhas eleitorais. Quem acreditar que ela ignorava isto também compra até terreno na Lua.

Por que me dou ao trabalho de desconstruir o jus sperniandi da Dilma, quando a confirmação do impeachment é uma certeza e até mesmo os senadores direitistas parecem cumprir seu papel com certo enfado?

Porque à direita basta mandar Dilma para casa; e isto já está assegurado.

Já para a esquerda reconstruir-se após a praga de gafanhotos que a assolou, é preciso ficar bem claro que o período de hegemonia petista não terminou por causa de conspirações mirabolantes, mas sim pelo esgotamento da opção reformista, que substituiu a luta de classes pela conciliação de classes e se limitou a apenas garantir para os explorados algumas migalhas a mais do banquete dos exploradores.

Pior: gerenciar o capitalismo para os capitalistas foi catastrófico para a moral da esquerda, que teve muitos expoentes se beneficiando das boquinhas e se envolvendo em roubalheiras, o que foi explorado ad nauseam pela imprensa burguesa; e provocou incoerências altamente desmoralizantes, como a de Dilma, em desespero de causa, ter tentado utilizar um economista neoliberal como boia, na contramão de todas as críticas que a esquerda fazia ao neoliberalismo desde a década de 1960.

A fábula do golpe não evitou o impeachment, mas poderá evitar que os erros cometidos nos últimos 13 anos sejam questionados pela esquerda com a contundência que se impõe, tamanho foi o descrédito que acarretaram para nossos ideais.
A volta aos trilhos revolucionários ou  a irrelevância
O PCB era a força hegemônica da esquerda até a rendição sem luta de 1964; o processo de crítica e autocrítica subsequente reduziu em muito sua influência e importância.

É o que precisa ocorrer agora com o PT, caso contrário a derrota sofrida, além de acachapante, terá sido inútil.

Ou a esquerda desperta de sua hibernação reformista e volta aos trilhos revolucionários, ou marchará para a irrelevância.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

FIM DE UMA IMPOSTURA. AGORA, DESFEITAS AS ILUSÕES REFORMISTAS, É HORA DE VOLTARMOS A PRIORIZAR A REVOLUÇÃO!

Em 1967, aos 16 anos, fiz minha opção definitiva pelos ideais de esquerda, que eu inicialmente identificava apenas com o marxismo.

A única mudança importante nas minhas convicções ideológicas, desde então, foi ter saído dos cárceres da ditadura convencido de que nada, absolutamente nada, justificava o esmagamento do indivíduo pelo Estado, que eu e meus companheiros sofrêramos na pele. 

Passei a colocar em plano de absoluta igualdade os objetivos revolucionários e o respeito aos direitos humanos. Ou seja, encaro ditaduras, permanentes ou transitórias, como incompatíveis com a dignidade do ser humano e também com a própria integridade da revolução, pois a desvirtuam irremediavelmente, favorecendo a imposição da vontade de nomenklaturas sobre os trabalhadores.

A revolução deve transferir o poder ao povo, não entronizar novos privilegiados.

Coerentemente, deixei de me considerar apenas marxista. No que tange à ditadura do proletariado, os anarquistas é que sempre estiveram certos. Se fossem ouvidos, a revolução soviética não frustraria as enormes esperanças que despertou, a ponto de tornar-se o exemplo negativo que o capitalismo utilizou para dissuadir os trabalhadores de outros países de também lutarem por sua emancipação.

Hoje enxergo pontos válidos no marxismo, no anarquismo, no trotskismo e em muitas bandeiras específicas da geração 68. Se a humanidade vier a ser libertada (há, infelizmente, a possibilidade de o capitalismo nos conduzir ao extermínio antes disto), será pelo que de melhor tais vertentes produziram. É essencial que estejam unidas nos momentos decisivos.

A revolução também não se confunde com capitalismo de estado, nem é necessariamente alavancada pela estatização da economia. Por tal caminho se chega mais facilmente ao fascismo do que ao reino da liberdade, para além da necessidade.

Fui dos primeiros a entrevistar o Lula na campanha eleitoral de 1989. Perguntei-lhe como faria para evitar que as estatais continuassem a serviço da politicalha. Ele disse que as colocaria sob a tutela de conselhos de trabalhadores.
Quando finalmente chegou à Presidência da República, não moveu uma palha neste sentido. Nem isto lhe foi cobrado por quase ninguém, infelizmente. De 1989 a 2002, a esquerda não avançou, retrocedeu. E continua até hoje andando para trás, como os caranguejos.

Eu não mudei um milímetro; considero, p. ex., que teria sido muito melhor se a gestão da Petrobrás coubesse aos trabalhadores organizados. Talvez estes a tivessem mantido nos trilhos, evitando que fosse saqueada e quase destruída pelos políticos profissionais (ou em benefício dos ditos cujos). 

É patética a compulsão pelo poder sob o capitalismo que contagiou a maior parte da esquerda brasileira. Da Presidência da República à vereança, os cargos eletivos na democracia burguesa sempre foram encarados pelos revolucionários como meios para impulsionar a revolução, meras ferramentas da ação revolucionária, e não como fins em si. 

Acabamos de assistir, pelo contrário, à utilização de um imenso arsenal de ilicitudes, falácias e casuísmos para tentar salvar uma presidente que nem sequer estava conseguindo governar, tendo chegado ao cúmulo de entregar a condução da política econômica a um neoliberal, ou seja, a um inimigo de classe

Martelavam que cabia aos esquerdistas apoiarem incondicionalmente Dilma Rousseff, mesmo que isto lhes acarretasse enorme desprestígio e apesar de ela pisar o tempo todo nos ideais e bandeiras da esquerda que um dia honrou. Mas, como a ex-guerrilheira seria vista hoje por qualquer pessoa isenta e dotada de espírito crítico? Apenas como uma tecnoburocrata que aposta todas as suas fichas no Estado e não no povo, com um indisfarçável viés autoritário. 

A revolução é infinitamente mais importante do que quaisquer governos que se limitem a gerenciar o capitalismo para os capitalistas. Pois só ela é solução solução definitiva para os dramas que nos afligem na sociedade de classes. Inexistindo o poder popular, as conquistas de uma fase podem ser todas anuladas na fase seguinte, como está acontecendo agora.

Desmoralizar a revolução aos olhos dos trabalhadores, fazendo-os identificarem-na com tudo que há de antipopular e antiético, equivaleu a destruir sua esperança num futuro de realização plena dos seres humanos, em troca de um poder muito mais ilusório do que real. Quando o verdadeiro poder --o econômico-- decidiu dar um fim ao ciclo petista, o fez com um simples piparote, sem nem mesmo ter de recorrer aos serviçais fardados.

Governos vêm, vão e nada muda sob a democracia burguesa e o capitalismo. Cabe-nos, então, priorizar sempre os ideais de esquerda, pois são eles a bússola que nos aponta o caminho para uma sociedade igualitária e livre.

E os erros cometidos nos últimos governos nos devem servir de lições: teremos de fazer tudo bem diferente da próxima vez, para que os frutos dos nossos árduos e abnegados esforços não nos escapem novamente dentre os dedos.

DOIS PERDIDOS NA NOITE SUJA DO CAPITALISMO: FERREIRA GULLAR E O PT.

Por Dalton Rosado
No campo dos que condenam o capitalismo por todos os desastres históricos e segregações sociais havidas no seu itinerário de sangue, há mais divergências do que no campo dos que entendem que o capitalismo é um ganho civilizacional. 

Estes, no máximo, veem o capitalismo como um mal menor dentre os sistemas sociais. É compreensível que seja assim, porque há sempre consenso em quem admite a segregação social com satisfação, tolerância ou indiferença, e não quer mesmo aprofundar discussões sobre a natureza do sistema que a promove. 

No mais recôndito interior de suas consciências, contudo, os defensores do capitalismo sabem que corroboram a injustiça, a menos que tenham um nível de ignorância tal que coloquem a culpa pelo infortúnio social nas costas das próprias vitimas.      

Entre os contestadores do capitalismo, as teses em circulação são as mais variadas e devem ser discutidas sem sectarismos. Ferreira Gullar, a quem respeito tanto por sua brilhante verve poética quanto pela sua contribuição histórica nos embates com a ditadura de 1964/85 (quando emprestou seu prestígio pessoal, juntamente com outros intelectuais, ao combate contra o arbítrio militar a serviço do capital internacional), não deve, obviamente, permanecer imune às nossas críticas no sentido de promovermos a superação dos dramas sociais vividos pelos 80% de perdedores sociais, aos quais se somam agora parte dos 15% do segmento intermediário entre ricos e pobres, a chamada classe média

Vivermos submetidos ao capitalismo é um fato que está posto. Mas, isto não significa que o devamos aceitar. Ao contrário, temos mais é de combatê-lo com todas as nossas forças, e para tanto se faz necessário pensar o impensável e fazer o impossível. 

Foi assim que Karl Marx ousou contrariar as teses então em voga no capitalismo ascendente da primeira revolução industrial da metade do século XIX, quando os burgueses emergentes confrontavam as forças retrógradas dos monarquistas constitucionais ou absolutistas do feudalismo. 

Marx foi mais além das discussões em curso e, em bases científicas (a partir de sua crítica da economia política), rejeitou as duas opções que estavam postas, condenando tanto o escravismo feudal escancarado quanto o escravismo capitalista disfarçado de liberdade de escolha da pessoa do seu novo senhor (o capital).

Karl Marx nunca foi tão atual e se Ferreira Gullar, em sua crônica jornalística, quis dizer que há uma imperiosa realidade de fim do comunismo (ele confunde o Marx exotérico, que ele conhece, com o Marx esotérico, que parece desconhecer) que se opõe à realidade posta na mente da jovem universitária, quando o primeiro defende os grandes condutores revolucionários marxistas da história, quero aqui me posicionar. 

O Marx da maturidade conjeturou com admirável acerto que a transformação dos meios de produção com o uso da alta tecnologia faria os custos de produção a partir do trabalho abstrato se reduzirem a uma base miserável, e que tal fato, consequentemente, jogaria pelos ares todos os fundamentos da vida social capitalista. 
Gullar: conformismo.

Tal dedução, cuja realidade agora foi atingida, demonstra para todos nós que os postulados do marxismo tradicional teriam de ter sido revistos no curso do processo revolucionário, independentemente da boa intenção dos seus dirigentes e dos êxitos pontuais que evitaram o esmagamento de nações inteiras. 

O papel que a URSS desempenhou na resistência ao nazi-fascismo na 2ª guerra mundial, bem como o da China em defesa de países asiáticos invadidos pelos EUA, deve ser louvado, mas não podemos esquecer que ambas se fecharam nas suas fronteiras e, à concorrência de mercado do capitalismo liberal mundial, apenas contrapuseram um capitalismo de estado autoritário

Obtiveram bons resultados imediatos, mas teriam depois de fazer uma revolução dentro da revolução e ficaram devendo, pois o uso do cachimbo faz a boca torta

O Estado marxista-leninista ou maoísta, ao invés de encaminhar a eliminação do capitalismo de estado, do próprio estado e do partido do proletariado, como já queria o Marx da juventude, seguiu o curso da expansão do capitalismo de estado, acabando por abrir as suas fronteiras para o capitalismo liberal. A queda do muro de Berlim, antes de significar o fim do pensamento de Karl Marx, significou a correção de seus ensinamentos e o limite da fronteira da expansão capitalista. 

Ferreira Gullar não faz uma análise aprofundada, encampando a racionália simplista e demagógica dos devotos do capitalismo, num conformismo que nega os postulados revolucionários. O alerta de Celso Lungaretti a ele neste blogue é procedente.

O PROJETO REFORMISTA E ASSISTENCIAL DO PT NÃO LEVAVA EM CONTA A CRISE AGUDA DO CAPITALISMO

Com o PT ocorre algo pior. Na verdade, a bandeira vermelha e estrelada do Partido dos Trabalhadores terminou por se configurar como um engodo e um arremedo de combate ao capitalismo, pois conciliou com este de forma oportunista (e está se dando mal!).

A direção petista desde cedo tratou de expurgar os marxistas do partido e cooptar com vantagens e cargos aqueles que aderissem ao seu projeto reformista e assistencial, derivado de um sindicalismo de resultados que é igualmente nocivo e prejudicial à emancipação dos trabalhadores. Daí para a conivência e a prática da corrupção e a aceitação das injustiças partidárias como norma de conduta para tentar manter o poder político foi um passo. 

A burguesia, dona do poder econômico (o verdadeiro poder sob o capitalismo), ainda que constrangida por ter sido apeada do poder político que sempre deteve, agradeceu a conciliação de classes dos governos petistas e aguardou o momento oportuno para mostrar o veneno contido na sua cauda de escorpião. É o que agora se processa no Congresso Nacional.
"fragilizados pedintes de mais empregos"

Dizia Marx que as transformações das forças produtivas transformam a própria essência da relação social capitalista. 

Na esteira destes ensinamentos, Robert Kurz assim analisou o estágio atual do capitalismo: 
"A nossa nova teoria da crise esboçou a tese de que a dessubstancialização do capital levada a cabo pela terceira revolução industrial da microelectrônica representa um limite interno absoluto do processo de acumulação. 
Pela primeira vez na história capitalista, realiza-se uma racionalização que torna dispensável a força de trabalho de modo mais rápido (e em volume maior) do que a ampliação dos mercados possibilitada pelo barateamento dos produtos. 
Assim se esvai o mecanismo de compensação das crises vigente até então. O capital foge da acumulação real para o capital fictício (Marx) em bolhas financeiras que, em última instância, têm de estourar, não apenas conjunturalmente, mas estruturalmente. 
Na medida em que se demonstra, nesta crise qualitativamente nova, o limite histórico da acumulação do “modo de produção baseado no valor” (Marx), torna-se obsoleto o sistema produtor de mercadorias, o trabalho abstrato, e, com ele, a ontologia marxista do trabalho".
O atual estágio do limite interno de expansão capitalista, previsto por Marx, contraria a ideia de uma revolução cujo sujeito histórico seria o proletariado nas fábricas, vez que o desemprego estrutural transformou os trabalhadores e sindicatos em fragilizados pedintes de mais empregos; a realidade atual, portanto, está a requerer novos conceitos revolucionários. 

A equivocada luta por mais empregos representa, implicitamente, o hoje irrealizável desejo de retomada do desenvolvimento econômico (mais capitalismo), estando incluídos na defesa desta tese todos os partidos políticos. A revolução, contudo, tem hoje outros parâmetros e formas, devendo ser, mais do que nunca, guiada por fundamentos marxianos adaptados aos tempos presentes (afinal, já se passaram 133 anos desde que o velho barbudo morreu...).

De pé sobre os ombros de Marx, haveremos de promover a emancipação humana!

MOTIVO REAL DO IMPEACHMENT: A RUÍNA ECONÔMICA.

"Entre 2013 e 2016, a economia brasileira encolheu 6,8%. O desemprego saltou de 6,4% para 11,2%. Foram ao olho da rua algo como 12 milhões de patrícios. A Lava Jato demonstrou que o único empreendimento que prosperava no Brasil era a corrupção. A força-tarefa de Curitiba já produziu 106 sentenças condenatórias. Juntas, somam 1.148 anos, 11 meses e 11 dias de cadeia. Em Brasília, encontram-se sob investigação no Supremo Tribunal Federal 364 pessoas e empresas.

Diante desse cenário, com a ruína a pino, as causas invocadas para cassar Dilma —o uso de recursos de bancos públicos para pedalar despesas que eram de responsabilidade do Tesouro e a abertura de créditos orçamentários sem a autorização do Congresso— são pretextos para condenar uma administradora precária pelo conjunto de sua obra." (Josias de Souza, jornalista)

domingo, 28 de agosto de 2016

FERREIRA GULLAR VIAJA NA MAIONESE. PRECISA TOMAR CUIDADO, OU VIRARÁ UM REINALDO AZEVEDO QUALQUER!

Gente desiludida é um bicho mais complicado ainda...
O poeta Ferreira Gullar, às vezes, é um observador sagaz da cena política. Mas, quando deita falação sobre assuntos sobre que ultrapassam em muito seus vãos conhecimentos, viaja (com fardão e tudo!) na maionese....

Um exemplo é esta conversa que ele diz ter mantido "com uma jovem universitária a propósito de um jornal que seu grupo editava na faculdade" e relembrou (mais uma vez!) em sua coluna dominical:
– O que esse jornal afirma –disse-lhe eu– dá a entender que o comunismo não acabou.
– E não acabou mesmo –respondeu ela. O que acabou não era o comunismo verdadeiro.
Ou seja, como ela necessitava acreditar no sonho marxista, tudo o que ocorreu, desde a revolução soviética de 1917 até hoje, era falso comunismo. Nem Lênin, nem Stalin, nem Mao Tsé-tung, nem Fidel Castro: nenhum deles era comunista de verdade. Só ela e seu pequeno grupo de universitários.
Por isso, digo que gente é bicho complicado. Claro que nem todo mundo chega ao exagero dessa jovem carioca, mas cada qual à sua maneira inventa uma realidade que só existe em sua mente.
Livros para principiantes há aos montes
Para encurtar o assunto:
  • Gullar ignora que, de acordo com Marx, comunismo seria a etapa final da edificação revolucionária, quando já não existiriam classes nem nações e os homens colaborariam fraternalmente para a felicidade geral, priorizando o bem comum. Então, comunistas de verdade só viriam a existir na sociedade comunista do futuro, não agora. Alguém que conhecesse o bê-a-bá do marxismo saberia que nem Lênin, nem Stalin, nem Mao, nem Fidel, nem o pequeno grupo de universitários a que pertencia a jovem carioca, nenhum deles seria considerado comunista de verdade pelo velho barbudo;
  • Gullar ignora que, de acordo com Marx, o socialismo (não o distante comunismo) chegaria com a superação do capitalismo, começando pelas nações economicamente mais desenvolvidas, que arrastariam as restantes na sua esteira, pois são as pujantes que determinam a direção para a qual se encaminham as demais. Então, longe de ser uma realidade que só existe na sua (da jovem carioca) cabeça, faz todo sentido falarmos que a URSS de Stalin, a China de Mao e a Cuba de Fidel não eram socialistas de verdade, pois nelas a revolução precisou cumprir uma etapa anterior (eram tão atrasadas que os revolucionários precisaram, antes, criar, ou tentar criar, a infra-estrutura básica de uma economia moderna), e tendo de fazê-lo sob ataques militares, bloqueios, embargos e ameaças terríveis dos gigantes capitalistas, acabaram por resvalar inexoravelmente para o totalitarismo.
Fiquemos por aqui, para não esticar demais o post (aos interessados num aprofundamento da questão, sugiro este texto). 

O certo é que o capitalismo teve a oportunidade de instalar-se plenamente e construir uma sociedade à sua imagem e semelhança: o inferno pamonha que está aí, na definição ferina do Paulo Francis.
Não se iguale aos anticomunistas profissionais, Gullar!

Até agora as tentativas de construção do socialismo se deram nos países que Marx considerava os mais inadequados para tanto, havendo um abismo entre o sonho marxista do advento do reino da liberdade, para além da necessidade e as toscas ditaduras que invocaram o nome do velho profeta em vão.

Recomendo ao Gullar que passe a opinar apenas sobre aquilo de que realmente entende. Se não, acabará se igualando a qualquer Reinaldo Azevedo da vida. 

[Aquele que já papagaiou centenas de vezes que os resistentes armados não queriam libertar o Brasil da ditadura, mas apenas instalar outra ditadura, como se tais intenções remotas tivessem qualquer importância no contexto das lutas contra o despotismo e o terrorismo de estado, nas quais a regra de ouro, segundo o entendimento civilizado, é que os cidadãos têm o direito e até o dever de pegarem em armas contra uma tirania, pouco importando qual o desenho de sociedade ideal que trazem nas mentes.]

PEDRO CARDOSO RECLAMA: MÍDIA FAZ POUCO CASO DO CIDADÃO COMUM.

Todo jornal e revista brasileiros deveriam criar espaço ou uma seção destinada exclusivamente para a opinião do denominado cidadão comum.

Alguns já possuem colunas, mas as matérias nelas veiculadas são restritas a pessoas renomadas, seja pelo destaque na sua área de atuação profissional, seja por terem seus rostos conhecidos na televisão.

Isso não diminui a importância dos seus posicionamentos, mas alimenta uma cadeia um tanto viciada: fica parecendo que só têm posições, opiniões e ideias relevantes as pessoas detentoras de notoriedade pública e que representam um segmento social já prevalecente sobre as demais camadas da sociedade. 

Essa falta de acesso também escancara o preconceito sobre pessoas pobres, por nunca se levar em conta suas capacidades interiores nem seus raciocínios, muito menos suas visões diversas sobre a humanidade. Enfim, tal camada da população fica impossibilitada de externar seus sentimentos e suas análises para que seus posicionamentos nas várias questões que envolvam o homem no mundo fiquem visíveis para todos.

Este pouco caso está presente na maioria dos meios de comunicação. Está presente no rádio, na televisão, nos blogs, nos sites e em qualquer espaço destinado às manifestações do cidadão.

Os espaços dos leitores só publicam comentários relativos às matérias publicadas nos veículos, forçando uma limitação de ideias e de espaço. Os maiores não passam de cinco metades de linhas, pois tais espaços têm como característica ficarem em cantos de páginas.

Claro que não se pode exigir que publiquem qualquer coisa, sem consistência, sem detalhamento, sem nexo ou sem uma análise do conteúdo por parte dos editores. Não é isso. Mas, após esta avaliação, muitos textos de pessoas simples darão uma contribuição muito grande. Ao menos as narrativas trariam análises mais realísticas, devido ao convívio diário, sobre como vivem, o que fazem e pensam milhões de pessoas.

Nesses tempos em que as pessoas passaram a jogar o jogo abertamente, em recente artigo numa revista, a excelente atriz Joana Fomm escancarou seu pedido de emprego. Devemos seguir-lhe o exemplo, reivindicando espaço em todos os meios de comunicação, reservado exclusivamente aos cidadãos comuns.
Os espaços destinados ao público externo não visam à divulgação de ideias inovadoras; apenas disfarçam uma pseudo abertura, pois só acolhem renomados ou famosos, servindo apenas para atrair público e aumentar o faturamento.
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