Vejam como descrevi uma grande defesa de Gilmar dos Santos Neves, na partida mais difícil que o Brasil travou para conquistar o Mundial da Fifa de 1962, contra a Espanha:
"...bola levantada na área brasileira, o goleiraço Gilmar saiu para esmurrá-la na marca do pênalti, evitando a cabeçada de um atacante adversário. Só que, com ele trombando, foi para o solo e parecia fora de ação.
O talentoso ponta-esquerda Gento apanhou o rebote na meia-lua, deu um chute certeiro por cobertura e se preparava para comemorar o gol quando Gilmar, tomando impulso com a mão e o pé esquerdos, conseguiu alçar-se na perpendicular, saltando como um golfinho, para espalmar a bola com a mão direita.
Assisti ao teipe no dia seguinte, pois ainda não havia transmissão direta pela TV. E foi a defesa mais incrível e inverossímil que vi na vida...."
Bacana, não? Só que, infelizmente para mim, não foi assim que o lance aconteceu. Vocês podem vê-lo no quarto minuto do vídeo abaixo. Uma defesa de puro reflexo do goleiraço brasileiro, dificílima e fundamental para a sorte da nossa seleção naquela Copa, mas sem pulo de golfinho nenhum.
Eu só a assistira daquela vez em que o teipe passou na TV. Meio século depois, a recordação que me ficou era exagerada, como são muitas da nossa meninice (eu estava com 11 anos).
Só agora encontrei no Youtube um vídeo com o registro desta jogada; nem no filme oficial da Fifa entrou. Então, percebi ter sido vítima, mais uma vez, da memória traiçoeira.
Paciência. Não tenho compromisso com a infalibilidade. E o lance que se formara na minha mente, maquilado pela nostalgia de tempos felizes, era ainda mais belo do que o real.
Sem querer, obedeci ao conselho que um experiente editor dá no filme O homem que matou o facínora, de John Ford, lançado, por coincidência, no mesmo ano de 1962: "Quando a lenda é maior do que o fato, publique-se a lenda".
Não tenho, contudo, tanta cara de pau. Quando constato que viajei na maionese, coloco tudo em pratos limpos, como estou fazendo agora.
Eu só a assistira daquela vez em que o teipe passou na TV. Meio século depois, a recordação que me ficou era exagerada, como são muitas da nossa meninice (eu estava com 11 anos).
Só agora encontrei no Youtube um vídeo com o registro desta jogada; nem no filme oficial da Fifa entrou. Então, percebi ter sido vítima, mais uma vez, da memória traiçoeira.
Paciência. Não tenho compromisso com a infalibilidade. E o lance que se formara na minha mente, maquilado pela nostalgia de tempos felizes, era ainda mais belo do que o real.
Sem querer, obedeci ao conselho que um experiente editor dá no filme O homem que matou o facínora, de John Ford, lançado, por coincidência, no mesmo ano de 1962: "Quando a lenda é maior do que o fato, publique-se a lenda".
Não tenho, contudo, tanta cara de pau. Quando constato que viajei na maionese, coloco tudo em pratos limpos, como estou fazendo agora.
