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sábado, 3 de julho de 2021

O CHEIRO DE COLLOR NO AR É TÃO FORTE QUE IMAGINAMOS VER CARAS-PINTADAS NOS PROTESTOS DE HOJE

álvaro costa e silva
BOLSONARISTAS COMEÇAM A REZAR
 PARA EVITAR O IMPEACHMENT
H
á um cheiro de Collor no ar. Tão forte que é possível imaginar, nos protestos deste sábado (3), a presença de caras-pintadas. Ou de manifestantes vestidos de preto, como no histórico Domingo Negro em agosto de 1992. 

Para completar o déjà vu é capaz de a TV Globo reprisar em horário nobre a série Anos Rebeldes. E de a canção “Alegria, Alegria”, do Caetano Veloso, figurar entre as mais baixadas.

Era preferível que o movimento de hoje não fosse uma espécie de vale a pena protestar de novo. Tivesse uma estética diferente; sobretudo fortificasse alianças e indicasse soluções para o país. 

Mas o objetivo –agora e no passado– é o mesmo: mudar uma estrutura de poder disfuncional. Para isto, é preciso afastar Bolsonaro e seus asseclas.

O superpedido de impeachment, protocolado pela oposição e pelos movimentos sociais, tem um caminho complicado até conseguir o apoio da maioria na Câmara dos Deputados. 

Mas é uma novidade e tanto, inimaginável três meses atrás, reunindo num único palco políticos tão díspares como Gleise Hoffmann e Kim Kataguiri. O problema é o que pode sair desse saco de gatos.

Com as seguidas denúncias de corrupção em contratos de vacinas envolvendo o Ministério da Saúde, o Planalto se esforça para manter o presidente longe da lama dos escândalos. Tarefa impossível. Nem a horda bolsonarista aguenta mais engolir narrativas

Depois de dizer que Bolsonaro não rouba nem deixa roubar, a deputada Carla Zambelli mudou o discurso no dia seguinte: "Na época do mensalão, centenas de deputados recebiam. A proporção agora é completamente diferente". Eis um belo conceito, o da corrupção proporcional.

Zambelli perdeu a pose de ruiva malévola e surgiu chorosa num vídeo pedindo orações para salvar o governo. 

O conselho é começar pela Oração de Adeus (João 17:1-26), proferida após a última ceia

Leva a vantagem de ser a mais longa do Evangelho. (por Álvaro Costa e Silva)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

...E SE A CONTRAMESTRE AFUNDAR COM O NAVIO, ISTO BASTARÁ PARA ESQUECERMOS QUE O PRINCIPAL CULPADO FOI O CAPITÃO?

thaís oyama
O PT OFERECE A CABEÇA DE GLEISI DE
 OLHO NA DE LULA, MAS PODE SER TARDE
L
ula nunca tinha ouvido nada assim. 

Menos de 48 horas depois de as urnas revelarem a fragorosa derrota do PT para siglas de direita, centro-direita, centro-esquerda e esquerda também, expoentes do partido vieram a público dizer em alto e bom som o que há tempos já sussurravam nas coxias. 

"O Lula já deu muito para o partido. É hora de abrir espaço", disse Alberto Cantalice, do diretório nacional do PT. 

O senador Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, foi mais claro: "A gente não pode ficar refém. Eu sou amigo irmão do Lula, mas vou ficar refém dele a vida inteira? Não faz sentido". 

Há 40 anos, o PT não dá um passo sem a bênção de seu caudilho. Nenhuma aliança vinga sem a aprovação do ex-presidente. Toda estratégia emana da sua voz. 

Nas eleições municipais, partiu de Lula o comando para a sigla lançar o maior número de candidatos no país, em vez de apoiar outras legendas em cidades estratégicas onde as chances da esquerda eram boas. 

A presidente do PT, para quem Lula é destituído da característica da falibilidade, apenas executou o plano – que nada tinha de novo. 

Entre vencer o adversário do campo oponente (mas no papel de coadjuvante) e correr o risco de perder (mas no figurino de líder da oposição), o PT sempre preferiu o segundo caminho. 

Age, assim, à imagem e semelhança de seu presidente eterno. 

Entre abrir espaço para o crescimento de novos nomes e fortalecer o partido e a esquerda, ou manter o seu como única opção, mesmo com prejuízo do partido e da esquerda, Lula sempre escolheu ficar ao lado dele mesmo. 

Foi assim quando queimou Eduardo Suplicy em 2002, depois que o então senador ousou disputar prévias internas com ele. 

Foi assim quando aplicou mais de uma rasteira em Ciro Gomes, o ex-aliado do PDT a quem prometera dar as mãos. 

Foi assim com Jaques Wagner, por ele preterido para as eleições de 2018, e foi assim com Fernando Haddad, cuja oficialização da candidatura naquele ano Lula só liberou a 20 dias das eleições –muito tempo depois de até as paredes da cela que o abrigavam na Polícia Federal estarem conformadas com a impossibilidade legal de ele disputar o pleito.

Agora, diante da pior surra eleitoral da sua história, o PT planeja oferecer a cabeça de sua presidente num ritual de sacrifício destinado a preservar, ao menos simbolicamente, a do artífice da derrota. 

Correntes minoritárias do partido já se articulam para abreviar o mandato de Gleisi Hoffman, que vai até 2023. Lideram o movimento a Articulação de Esquerda e a Novos Rumos. A corrente majoritária no PT é a Construindo um Novo Brasil

A cabeça de Gleisi não vale uma missa. Mas talvez seja tarde demais para cortar a de Lula. 

Há 40 anos, o PT é refém do ex-presidente. Agora, como disse Wagner, quer se libertar dessa prisão. A questão é o que sobrará do partido se conseguir. (por Thaís Oyama)

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

LULA CONCENTRA FOGO EM MORO PORQUE LHE IMPORTA MAIS TER OS SEUS PROCESSOS ANULADOS DO QUE VER O BOZO IMPICHADO

bruno boghossian
DE OLHO EM MORO
E NA ECONOMIA,
 LULA FAZ OPOSIÇÃO
A BOLSONARO
 PELA METADE
No dia 21 de maio, a presidente do PT assinou um pedido de impeachment de Jair Bolsonaro, formulado por advogados e organizações de esquerda. A peça citava a postura antidemocrática do presidente, a conduta desastrosa do governo na pandemia e as tentativas de interferência na Polícia Federal.

Para embasar a acusação, o último tópico listava declarações do ex-ministro Sergio Moro no dia de sua demissão. O partido acreditava que o comportamento de Bolsonaro naquele episódio era grave o suficiente para tirá-lo do poder. Faltou combinar com o restante da sigla.

Concentrado no embate com o ex-juiz, Lula disse na 3ª feira (15) que o caso era “uma pirotecnia” de Moro. “O presidente da República tem o direito de indicar o diretor da Polícia Federal, sim. Eu indiquei duas vezes e nunca pedi, nunca orientei, porque eles têm autonomia”, afirmou ao Diário do Centro do Mundo.
O petista pode ter falado uma obviedade, mas quis contar só metade da história. Bolsonaro tem mesmo o poder de escolher o comando da PF. Moro, aliás, acobertou boa parte das investidas do chefe nesse sentido. 

Mas o Supremo também viu movimentos nítidos do presidente para aparelhar a cúpula do órgão e proteger seus aliados de investigações.

Lula preferiu esquecer essa parte. Nada sugere que o petista tenha interesse em poupar Bolsonaro, mas suas declarações refletem um oportunismo político exagerado.

Embora trate Bolsonaro como adversário, Moro é o inimigo que Lula tenta desqualificar em primeiro lugar. Esse seria o caminho para reforçar as acusações de suspeição contra o ex-juiz, anular suas condenações e voltar à cena eleitoral.

Além disso, Lula dá mais um sinal de que não pretende encarar Bolsonaro no campo do autoritarismo, da corrupção e do comportamento antidemocrático. O petista já mostrou que prefere disputar na arena econômica, principalmente no momento em que o governo avança sobre territórios da sigla. 

O cálculo faz sentido, mas não era preciso fingir cegueira.​ (por Bruno Boghossian)
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