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segunda-feira, 30 de outubro de 2023

SE O LULA FICAR O CENTRÃO PEGA, SE O LULA CORRER O CENTRÃO COME

A Eliane Cantanhêde, do Estadão, colocou o dedo na ferida em sua coluna dominical:
"A CEF tem mais poder, dinheiro, ramificação e força eleitoral do que grande parte, talvez até a maioria, dos ministérios. Em 2022, seu patrimônio líquido era de R$ 122 trilhões e seu lucro líquido bateu em R$ 9.2 bilhões. 
No primeiro trimestre deste ano, sua carteira geral de crédito chegou a R$ 1 trilhão. Um canhão, inclusive na guerra político-eleitoral.

Espalhada pelo país inteiro, mesmo em pequenos municípios, a CEF oferece crédito para pessoas físicas e jurídicas, habitações populares, casas e apartamentos da classe média e de alto padrão e chega ao topo, o agronegócio. Ou seja, atinge todos os patamares eleitorais, dos mais pobres aos mais ricos. Só para a carteira do agro – calcanhar de Aquiles de Lula –, foram R$ 47 bilhões no primeiro trimestre, 125,5% a mais do que no mesmo período do ano passado.

Já imaginaram o centrão botando a mão nisso tudo? Além da presidência, quer todas as vice-presidências e diretorias da Caixa, inclusive a de habitação, joia da coroa. É a tal porteira fechada, [ou seja, está entregando] os cargos de cabo a rabo... 
A rainha Eizabeth II, do além, mandou esta
mensagem ao Lula: "Eu sou você amanhã".
...Nunca o Congresso esteve tão empoderado como depois de Bolsonaro dar (...) o governo, as decisões e o orçamento secreto para o centrão. 
O resultado é que nenhum presidente escaparia da armadilha, mas para Lula ela é muito mais perigosa, ameaçadora, depois de mensalão, Lava Jato e prisão. 
Um fator decisivo para essa implosão foi o fatiamento da Petrobras entre partidos aliados e gulosos – inclusive o PP de Lira. Com esse fantasma rondando, qualquer denúncia de corrupção em estatal e banco público ganhará uma dimensão explosiva para Lula, governo e PT".
Resumo da ópera: tendo se resignado a, cada vez que precisa aprovar algo relevante na Câmara,  invariavelmente ceder às chantagens do centrão (ao invés de resistir a ele, como seria obrigatório caso fosse um presidente de esquerda), o Lula garante a governabilidade no curto prazo, mas semeia tempestades terríveis em médio e longo prazos.  

Virou um Ali Babá às avessas, ao consentir que os 40 ladrões estejam roubando tudo que ainda sobra nas cavernas do governo.  

Só não sabemos se, quando completar a limpacentrão permitirá que o Lula continue usando a faixa presidencial, mesmo que reduzido a uma rainha da Inglaterra. Seria mais apropriada a coroa. 

E, claro, não está excluída a hipótese de um novo impeachment de presidente petista e de uma nova temporada na prisão para Lula.

Aguardem os próximos e nada emocionantes capítulos. Afinal, enredo em que um lado só bate e o outro lado só apanha não tem graça, é previsível demais.

Tão previsível que o sempre mordaz Ricardo Kotscho já sugere um slogan para a campanha na qual será escolhido o sucessor de Lula, em 2026: Chega de intermediários, Lira para presidente(por Celso Lungaretti)

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

TAMBÉM NO PT PREVALECE O "UM MANDA, OUTRO OBEDECE"

eliane cantanhêde
HADDAD É MUITÍSSIMO DIFERENTE DE GUEDES,
MAS TAMBÉM PRONTO  A ENGOLIR SAPOS
Cansamos de zoar o Pazuello em 2020. Agora não
podemos agir diferente com os genéricos e similares
E
m discursos, Lula fez o esperado apelo à alma nacional contra fome e desigualdade. 

Assim como a defesa da responsabilidade fiscal não é exclusividade do mercado, a defesa dos miseráveis e da diversidade e dos milhões de famílias na rua da amargura, sem emprego, casa e comida, não é exclusividade de Lula. Mas ninguém com mais autoridade do que ele para verbalizá-la.

O complicado é equilibrar o justo combate à injustiça social e o correto equilíbrio das contas públicas. 

É bem mais fácil falar da miséria com compaixão do que convencer que quem paga o pato de promessas e gastos a rodo são os miseráveis. Um dilema ainda mais velho que Lula e o PT é o conflito nos governos entre o que é popular (político/populista) e o que é preciso (pragmático/técnico).

Ao assumir, Haddad fez um discurso morno, cuidadoso, avisando que não seria um posto Ipiranga e teria vários postos. Veio à mente o seu antecessor, Paulo Guedes, que começou como superministro e perdeu, uma a uma, as grandes guerras com centrão, generais e filhos de Bolsonaro.

Em 2018, Guedes foi conveniente para dar falsos ares de liberalismo e abertura econômica a um capitão insubordinado, corporativista e nacionalista a la anos 1950. Já Haddad pensa igual e joga o mesmo jogo de Lula. 

Em comum nas duas duplas é que Haddad, como Guedes, está pronto para engolir sapos. Aliás, começou já no dia da posse, desautorizado na desoneração dos combustíveis.
Haddad já se habituou à deglutição de batráquios

Haddad nem faz questão de fingir que não veio para fazer tudo que seu mestre mandar. O quê? O que está nos discursos de posse, quando Lula acusou o teto de gastos de estupidez, não falou em nova âncora fiscal, mirou a reforma trabalhista e já atirou nas privatizações. 

Revogaço na política de armas e na segurança, saúde, educação, ambiente, cultura, política externa... é saudável, um alívio. Mas na economia, sem consenso em medidas desde Michel Temer 

Como na canção, foi bonita a festa, pá, mas é preciso navegar, navegar... (por Eliane Cantanhêde, n'O Estado de S. Paulo)
Toque do editor – Aproveito para acrescentar que Lula também conserva uma visão econômica característica do século passado e insustentável nos dias atuais. E, se os liberais o atacam pelo flanco direito, há fortes motivos para eu, o Dalton e o David o fazermos a partir de nossos valores de esquerda.

A discussão é longa demais, então destaco o principal: a estatização da economia é uma postura eminentemente stalinista, que acaba respaldando governos autoritários ou totalitários. 

Concordo totalmente com o Lênin de O Estado e a revolução, livro no qual ele definiu a missão do Estado, no socialismo, como sendo a de preparar a sua própria extinção por obsolescência, até porque, fiéis aos nossos ideais igualitários, somos avessos às nomenklaturas com poderes discricionários sobre os trabalhadores comuns. 
"Nosso" de quem, cara-pálida? 

Lembro, ainda, o modelo iuguslavo de autogestão, opção muito melhor que a dos elefantes brancos estatais, pois estes acabam sendo um convite à corrupção por parte de militantes de direita, centro e esquerda, igualados na caça sôfrega às boquinhas.

De resto, com a visão anacrônica que Lula tem da Petrobrás, comete o absurdo de defender os combustíveis fósseis num mundo em que a espécie humana poderá ser por eles destruída. 

Um divisor de águas entre a esquerda do século passado e a atual é exatamente combustíveis fósseis x energia limpa. (CL)

sexta-feira, 29 de abril de 2022

DE ONDE VEIO, AFINAL, TANTO APOIO A UM CELERADO BRUTAMONTES?

 eliane cantanhêde
ATÉ O CENTRÃO TENTA CONTER GOLPISMO DE BOLSONARO
E MALUQUICES DOS BOLSONARISTAS NO CONGRESSO
O
k, pode-se alegar que o ministro Alexandre de Moraes estica muito a corda, 8 anos e 9 meses por ameaças é um exagero e o Supremo tem enviado sinais desencontrados à sociedade. 

Mas daí o presidente da República consumir duas horas numa homenagem a um sujeito condenado e desqualificado como Daniel Silveira?

Pode-se lembrar que Jair Bolsonaro é fã de Pinochet, Stroessner e Brilhante Ustra e que sua família já condecorou um miliciano depois morto pela polícia, mas desta vez a papagaiada foi no Planalto, que não é de Bolsonaro nem do governo, mas do Estado brasileiro, e teve lances absurdos: o presidente abraçado a Silveira, o condenado divertindo-se com o decreto que o indultou, 22 parlamentares discursando.

É um tapa na cara do Supremo e da Nação, sufocada pela crise econômica e a inflação galopante divulgada no mesmo dia. Os bolsonaristas estão ocupados em endeusar Daniel Silveira, o povo quer comer, morar, estudar, tratar da saúde, se locomover e trabalhar.

E a Câmara? Premiou Daniel Silveira com cinco comissões! Uma delas é nada mais, nada menos, a de Constituição e Justiça (CCJ). Um valentão condenado por dez votos a um pelo Supremo na CCJ, mãe de todas as comissões, que julga exatamente a constitucionalidade das propostas?!

Atenção, porém! Isso é coisa de bolsonaristas, que caíram de paraquedas no Congresso com os ventos da nova política e do messias, mas o centrão, frio, pragmático e mais preocupado com orçamentos secretos, não gostou da brincadeira. Até para o centrão, tudo tem limite.

Uma no cravo, outra na ferradura: os bolsonaristas meteram o condenado na CCJ, mas perderam a presidência da comissão. Saiu Bia Kicis e era para entrar Major Victor Hugo, mas o acordo previa que o novo presidente fosse do PSL e Hugo migrou para o PL de Bolsonaro. Assim, deu Arthur Maia, do União Brasil, fusão de PSL e DEM.

Registre-se que seis bolsonaristas, inclusive Eduardo Bolsonaro, são agora alvo do Conselho de Ética e que os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, postaram nas redes, quase ao mesmo tempo, o apoio ao sistema eleitoral. Logo, contra os ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas e ao TSE.

O caldeirão está fervendo e a grande pergunta é até onde Bolsonaro quer chegar. Só nos faltava contar com o centrão para segurar os ímpetos enlouquecidos de Bolsonaro no Executivo e dos bolsonaristas no Congresso, mas é exatamente isso que está pintando no horizonte. 

Só não dá para contar nem com uns, do centrão, nem com os outros, bolsonaristas, para defender o Supremo. Aí, a questão é bem diferente... (por Eliane Cantanhêde, n'O Estado de S. Paulo)
TOQUE DO EDITOR – Após ter sido várias vezes reduzido à sua insignificância pelo Supremo, o Bozo comemorou o recuo dos togas amarelas no episódio da condenação do Daniel Silveira como uma volta por cima. Só que não foi.

É que os parlamentares desta vez ficaram contra a decisão do STF (este isolamento foi o motivo principal de os togas amarelas terem pagado tal mico) não porque a maioria deles esteja apoiando os extremismos ensandecidos do Bozo, mas sim porque senadores e deputados federais temem a perda dos seus mandatos como o diabo foge da cruz.

Assim foi quando Márcio Moreira Alves fez um discurso só para constar nos autos da Câmara Federal numa sessão às moscas no final de 1968 e a
linha dura militar aproveitou o pretexto para inflamar os quartéis. 

Veio então a exigência de que a Câmara autorizasse a abertura de um processo para cassação do mandato do boquirroto (o ponto alto de sua falação tinha sido a exortação às moçoilas para que não namorassem cadetes das Forças Armadas...) e os deputados a negaram, temerosos que o precedente servisse para guilhotinar muitos outros deles, como a ditadura fizera em situações anteriores. E, hipocritamente, comemoraram sua decisão cantando o Hino Nacional!

O que acaba de acontecer não passou de mais do mesmo. Os dignos representantes do povo brasileiro detestaram os danos e apuros a eles causados pela Operação Lava-Jato, então o sinal que agora emitiram foi: "Supremo, deixe-nos delinquir em paz! Não ameace nossos mandatos!".  

E é isto que o presidente miliciano faz questão de exibir como grande triunfo pessoal! O Brasil está de cabeça para baixo... (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 29 de março de 2022

O BOZO DIZ SER O BEM EM LUTA CONTRA O MAL. MAS, POR QUE FEDE A ENXOFRE?

eliane cantanhêde
MILTON RIBEIRO CAI, MAS
FOI ELE QUEM PÔS OS DOIS PASTORES NO MEC E ENGENDROU O ESQUEMA?
O presidente Jair Bolsonaro definiu as eleições de 2022 como luta entre o bem e o mal, mas foi um tiro pela culatra, porque deixou uma dúvida estimulada pelas próprias imagens do milésimo lançamento de sua candidatura à Presidência ao arrepio da lei eleitoral: o que é o bem e o que é o mal, quem é santo e quem é demônio?

A aliança do ex-presidente Lula com o ex-tucano Geraldo Alckmin é o quê? 

E o palanque de Bolsonaro com o general Augusto Heleno ao lado do ex-presidente Fernando Collor, que sofreu impeachment por corrupção, e do mandachuva do PL, Valdemar Costa Neto, preso no mensalão do PT?

Se o Lollapalooza é do mal e merece multa por campanha antecipada pela estridência do Fora Bolsonaro, estranha o ministro do TSE Raul Araújo achar que outdoors de campanha do presidente são do bem, bacanas. 

E as motos, jet skis, cavalos e palanques de Bolsonaro são o quê? Carnaval eleitoral fora de época pode?

Enquanto Bolsonaro falava no seu Lollapalooza particular sobre o quanto lhe embrulha o estômago ter de cumprir a Constituição, as entranhas do governo se contorciam para jogar a culpa toda do novo escândalo no ministro-pastor Milton Ribeiro. 
Ele perdeu apoio do Executivo, do Legislativo e da Frente Parlamentar Evangélica (ou bancada da Bíblia), terminando por pedir demissão nesta 2ª feira, 28.

Mas, afinal, foi mesmo Ribeiro quem decidiu pôr os pastores Gilmar e Arilton no MEC e na jogada? Engendrou cobranças de R$ 15 mil, R$ 40 mil, um quilo de ouro, mil bíblias ou grana para campanhas políticas para liberar verbas para as prefeituras? E abriu as asas da FAB para eles? Ou ele acatou as ordens de cima e lavou as mãos?

Estava óbvio que Bolsonaro iria demitir, ôps!, acatar o pedido de demissão do ministro, depois de dizer em live que botava a cara no fogo por ele. 

Quando eu anunciei que ele tinha decidido demitir Vélez Rodriguez, o presidente me chamou de mentirosa pelo Twitter. Doze dias depois, o primeiro ministro da Educação caiu.  

Agora é saber se o problema acabou, ou se Ribeiro vai matar no peito; se mais e mais histórias vão surgir e o quanto elas desabam no Planalto e no gabinete presidencial.

Bolsonaro é craque em sair de fininho do gabinete do ódio e das fake news, do gabinete paralelo da cloroquina, do gabinete secreto dos bilhões do Orçamento. Vai sair também desta vez? 

O mal está com o pastor Ribeiro e o bem com o chefe dele? Alias, o mal está com o general Silva e Luna e o bem com Bolsonaro? (por Eliane Cantanhêde, n'O Estado de S. Paulo)

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

CUSTOU, MAS OS ALTOS OFICIAIS CANSARAM DAS PALHAÇADAS DO CAPITÃO ALOPRADO E O ESTÃO BOTANDO NO SEU LUGAR

eliane cantanhêde
APÓS MESES SUBMERSOS, MILITARES VOLTAM À TONA CONTRA O NEGACIONISMO, A FAVOR DA VERDADE
Depois de um mergulho temerário no bolsonarismo, dos solavancos que levaram à demissão de toda a sua cúpula e dos vexames do general Eduardo Pazuello e seus coronéis na Saúde, as Forças Armadas submergiram e saíram do foco e do noticiário por um bom tempo. 

Voltam à tona agora afirmativas e sob aplausos de boa parte da opinião pública que andava ressabiada com os militares.

Não é trivial que na mesma semana um contra-almirante da Marinha reaja a acusações levianas do presidente e o Exército emita diretrizes em perfeita discordância com o que o presidente prega o tempo todo na pandemia. Até os militares estão perdendo a paciência com o capitão insubordinado Jair Bolsonaro.
A comparação é inevitável e leva a uma reflexão: o que se espera dos nossos militares? Agir com a sabujice do general da ativa Pazuello a favor do chefe e contra a saúde, ou com a altivez e responsabilidade do contra-almirante da reserva Antônio Barra Torres a favor da ciência?

Pazuello desmereceu o Exército ao fazer papel de bobo na Saúde, enquanto Bolsonaro e seu gabinete paralelo é que mandavam e coronéis da pasta se metiam em escândalos. “É simples assim: um manda, o outro obedece”, disse o general.

Já Barra Torres, que também é médico, preside a Anvisa e teve um mau momento sem máscara numa aglomeração com Bolsonaro. Sua lealdade, porém, é à ciência e à agência, seus quadros e decisões técnicas. Lá atrás, já advertia contra a cloroquina. Depois, disse a verdade na CPI da Covid. Agora, é firme contra insinuações inaceitáveis.

Bolsonaro não deixou alternativa a ele ao dizer que há interesses (econômicos?) da Anvisa na vacinação das crianças. Já o almirante deu duas alternativas ao acusador: ou se retrata ou prova que teve corrupção, sob risco de prevaricação.

Já o Exército incomodou o presidente com diretrizes de combate à pandemia. Nada demais. Só a atualização da condenação a mentiras (hoje fake news) já prevista no Código Penal Militar e nas regras anticovid adotadas pelo general Paulo Sérgio Oliveira antes mesmo de assumir o Comando da Força.

O presidente queria um desmentido quanto às
fake news e à exigência de vacinas, mas o comandante explicou a ele num café da manhã que apenas alinhou suas medidas com as da Defesa. Está tudo lá. Bolsonaro iria bater de frente com mais um ministro, o general Braga Netto, seu apoiador?

O que continua nebuloso para civis (até do centrão) e militares (até bolsonaristas) é o que Bolsonaro ganha, ou acha que ganha, com seu negacionismo absurdo. (por Eliane Cantanhêde, n'O Estado de S. Paulo)
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