domingo, 30 de abril de 2017

UM DIÁLOGO NA VÉSPERA DA GREVE GERAL

"Nada se parece mais com o pensamento
mítico do que a ideologia política"
(Claude Lévi-Strauss, antropólogo)
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Francisco de Assis (nome escolhido pela sua mãe, por devoção religiosa), apelidado de Chico Passeata, era o filho mais novo de uma família de operários metalúrgicos que migrara do nordeste há mais de três décadas e morava em São Paulo. 

Chico Passeata, com seus 24 anos de idade, já nascera em São Paulo, e estava desempregado. Abandonara o colégio antes do término do 2º grau e agora se entregava inteiramente à militância no movimento sindical dito progressista da CUT, detestando aqueles a quem chamava de pelegos da Força Sindical. Considerava-se completamente diferente destes últimos. 

Tinha um irmão dois anos mais velho, Carlos Frederico, que estudava filosofia e recebera tal nome como uma homenagem do seu pai, antigo militante do pecebão, a Karl Marx e Friedrich Engels. 

Este, que o pai sonhara ver tornar-se marxista, era conhecido como Fred Nerd, por seu ar intelectual sua disposição de sempre tentar compreender os segredos da vida e a elucubrar sobre cada atitude individual ou coletiva. Ao invés das tradicionais camisas vermelhas costumava usar roupas pretas; naquela noite de 5ª feira vestia uma camiseta que tinha, na frente, os dizeres as meninas boas vão para o céu... e, atrás, ...as meninas más, vão para onde quiserem.

Chico Passeata separava a bandeira vermelha da CUT e a camiseta vermelha com a espirituosa frase Lutar sempre, Temer jamais! que usaria no tão aguardado dia seguinte, a 6ª feira da greve geral. 
O protesto também tem sua grife...

Este, que a mãe sonhara ver tornar-se franciscano, dividia um quartinho com o irmão, num apartamento de 70 m² de conjunto habitacional, apertadíssimo para uma família de cinco pessoas (pai, mãe, tia e os dois filhos já adultos). Ele não parava de receber telefonemas e fazer ligações no seu celular, articulando a mobilização do dia seguinte. 

A um companheiro perguntou se as faixas abaixo a reforma trabalhista e por uma política de mais emprego tinham sido providenciadas. A outros, se os piquetes nas portas das garagens de ônibus estavam bem programados e se os coquetéis molotov e archotes inflamáveis seriam suficientes para incendiar aqueles ônibus que ousassem trafegar durante a greve. Era uma ansiedade só.

Fred tudo observava impassível, sentado na sua pequena escrivaninha, com a luz focando no livro que relia, um romance policial tendo como pano de fundo a vida política e social na Rússia czarista de 1866: Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski. 

Chico se irritava com a postura do irmão: não compreendia como alguém dotado de certa cultura e que falava em revolução e emancipação humana, podia ser tão indiferente ao que considerava como um momento vital na vida política brasileira – a greve geral do dia seguinte. 

Considerava o irmão, a quem dedicava um amor crítico, como alguém culto e sensível, mas totalmente destituído de sentido prático; portanto, todo o seu saber seria um desperdício e um inutilidade. Fred lhe despertava um misto de admiração e frustração. 

Naquele dia tal alheamento incomodou tanto Chico que ele provocou Fred: 
— Enquanto você fica aí sentado com esse livro, indiferente a tudo, os caras estão aprovando a reforma trabalhista que nos retiram os direito, Mano. Com sua passividade você contribui com os home, tá sabeno?
"A questão é saber como e para onde você quer ir"
Sem alterar-se e sem se virar para o irmão, Fred responde: 
— E você, quanto mais acelera o seu carro na direção do seu pretenso objetivo, mais dele se distancia. 

Aí Chico pega pressão e altera a voz, indignado: 
— Como assim, mano? Por acaso ficar calado e se omitir da luta é correto?

Fred explica: 
— A questão não é se omitir do confronto, mas saber como e para onde você quer ir. Se pega a estrada errada, quanto mais acelera o seu caro mais se distancia do ponto em que você deseja chegar. Com essas bandeiras que eu vi e ouvi você defender, você apenas está desejando mais do mesmo, e dificultando ainda mais a superação do que é ruim e está posto.
          
— Ora, Fred! Você aceita a retirada dos direitos trabalhistas?

— Não, eu sou contra o próprio direito trabalhista.

— Então você á a favor da exploração pelos patrões?

— Não, Chico. Eu sou contra a existência de patrões.
"O dinheiro é um modo de escravização de todos nós"

— Então você quer que o Estado seja dono de tudo e que se acabe com os patrões?

— Não. Eu sou contra a existência do Estado e de tudo que ele encarna, e principalmente o Estado como patrão!

— Ora, Fred, eu não entendo nada do que você diz. Você é contra tudo; os patrões e os trabalhadores ao mesmo tempo. Você está em cima do muro? 

— Não. Eu também sou contra a existência do tal muro que somente na aparência os separa. Eles são faces de uma mesma moeda. Literalmente. 

Arre, égua! [expressão que ouvia em casa desde menino, como filho de bom cearense que era] Você é contra tudo. Me explique isso direito. 

— Chico, vocês estão reivindicando direitos trabalhistas que representam a permanência do trabalho e do trabalhador, sem compreenderem que tanto uma coisa como a outra são categorias imanentes ao capitalismo que dizem combater. Vocês reforçam e justificam aquilo que combatem. 

— E o que é que você acha que eu devo defender?

— Vocês deveriam defender o fim do trabalho e do trabalhador, pois enquanto categorias capitalistas que são, elas apenas contribuem para a formação do capital, seja ele gerenciado pelo patrão privado ou pelo patrão estado. 
"Vocês deveriam defender o fim do trabalho e do trabalhador"
— Mas, Fred, isso que você defende é impossível de acontecer. Você, como sempre, está com a cabeça na lua, e se omite diante da opressão concreta. É preciso agir.

— O impossível está na sua cabeça, e agir não é necessariamente sempre o mais correto e eficaz. A omissão pode ser até mais violenta do que a ação. Mais vale você parar de ser trabalhador e se negar a produzir valor do que exigir direitos trabalhistas que não virão na atual conjuntura.

— Mas se nós pararmos de trabalhar definitivamente, como você quer, quem é que vai pagar os nossos salários?

— Aí é que está. Nós temos de abolir não apenas o trabalho e salário, mas o dinheiro como modo de mediação social. O dinheiro é um modo de escravização de todos nós e os trabalhadores contribuem para a sua existência. Pedir direitos trabalhistas é afirmar o trabalho, a exploração feita por meio  dele e o próprio capital que você diz combater. 

— Mas, como é que nós vamos viver sem trabalho e sem dinheiro?
"De que adianta remover Temer e os deputados elegerem outro?"

— Você não compreende que, ao considerar o trabalho e o dinheiro como indispensáveis à vida, está afirmando um modo de negação da própria vida? Nenhum objeto destinado ao consumo humano tem um grama sequer de dinheiro; e o esforço humano para a produção de qualquer objeto que sirva para tal consumo não significa que somente possa ser obtido por meio da produção de mercadorias e do salário,que é a tradução do trabalho que vocês tanto defendem. O esforço humano individual ou coletivo de produção de bens e serviços deve ter outro conteúdo, em lugar de mercadorias e trabalho. Tem de ser apenas produtor de vida e gerador de abundância. 

A expressão de Chico já revela alguma impaciência, mas Fred prossegue: 
— Outra coisa, nós todos temos de deixar de ser trabalhadores economicamente ativos, passando a ser pessoas socialmente contributivas. Isso não tem nada a haver com a produção de valor, ora travada pelas contradições internas do capital. 

— Pára aí Você já está fundindo a minha cuca com essa sua conversa complicada. Quer dizer que você é contra o nosso protesto é contra até o fora Temer!, esse golpista oportunista que já vai completar um ano de governo e só faz aumentar o desemprego, que já passou de 14 milhões de trabalhadores...
"Novos ônibus serão fabricados após os incêndios"

— A questão que se coloca não é o fora Temer!, mas fora a política e o sistema que o produziu e o mantém!. De que adianta remover o Temer e os deputados elegerem outro dos seus? Aliás, ainda que houvesse eleições, surgiria um pilantra qualquer se arvorando de salvador da pátria e iria engabelar o povo de novo. 

Resolvido a dessa vez ir até o fim com seus questionamentos, Fred acrescenta: 
— Ademais, Chico, eu ouvi você falando sobre tacar fogo nos ônibus. Isso é somente uma forma de retirar a legitimidade do protesto e se descredenciar perante as pessoas, que encaram esses atos como desesperados e inconsequentes. Novos ônibus serão fabricados após os incêndios, a exploração do suor dos trabalhadores continuará gerando lucros para a indústria automobilística e tudo continuará na mesma. Muito mais violento e eficaz do que queimar ônibus, fazer saques e depredar bancos seria nós todos cruzarmos pacificamente os braços diante do trabalho, até no interior das nossas casas, definitivamente, conscientemente, sabendo o porquê dessa atitude, e não somente num dia de greve. 

— Pára aí, mano. O que você quer é impossível e eu não vou mais me estressar com a sua conversa fiada. O que vale é a ação prática, tá sabeno? Chega de filosofia. 

Fred voltou a ler seu livro e Chico fingiu dormir, enquanto refletia sobre tudo que ouvira e sobre o que se programara a fazer no dia seguinte. Não pregou olhos bem cedinho saiu para dar apoio à greve, mas agora sem muita convicção da correção de todo o ativismo grevista e suas bandeiras.
"...aliviado por não ter sido atingido pela bala de borracha..."

Estava decidido a depois refletir melhor sobre aquela conversa noturna, pois trazia no seu coração o sentimento revolucionário de combate à injustiça. Só lhe faltava agregar ao seu voluntarismo a consciência crítica. 

No final do dia Fred voltou para casa, exausto, com os olhos irritados pelo gás lacrimogênio e aliviado por não ter sido atingido pela bala de borracha que passara tão perto de sua cabeça.

Tudo voltou a ser como dantes no quartel de Abrantes. O ministro da Justiça garantia que a greve fora um fracasso, enquanto os sindicalistas e os partidos de oposição afirmavam ter feito um protesto significativo. (por Dalton Rosado)

sábado, 29 de abril de 2017

PARA DEMÉTRIO MAGNOLI, O BRASIL É UMA "NAÇÃO DE COLONOS ESTATIZADOS".

"Na pré-história da nação brasileira, estão colonos empenhados em fazer a América, capturando índios, buscando pedras preciosas, extraindo ouro. Prezamos, acima de tudo, a recompensa pecuniária pessoal. 

Na Istambul de 2013, uma onda de manifestações antigovernistas foi deflagrada pela defesa do parque Gezi, que se queria converter em shopping center. Aqui, não fazemos isso. 

Escolas, hospitais, redes de esgoto, metrôs e trens, praças públicas, bibliotecas, museus, parques nacionais? Não: lutamos por repasses em moeda sonante, nas formas de aposentadorias precoces, pensões especiais, bolsas, multas rescisórias, passes livres, cestas básicas, uniformes escolares, faltas abonadas, cotas raciais, meia-entrada. Desprezamos os direitos sociais universais. Queremos nossa parte em dinheiro –e já!.
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"Desprezamos os 
direitos sociais 
universais. Queremos nossa parte em
 dinheiro e já!"

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A história política moderna do Brasil começa com Getúlio Vargas. O primeiro pai do povo ensinou-nos que o Estado funcionará como intermediador geral da disputa por rendas. Com ele, aprendemos a interpretar os direitos como notas promissórias emitidas pelo Tesouro em nome de indivíduos organizados em corporações.

Os empresários almejam subsídios do BNDES, os sindicalistas protegem o imposto sindical, os artistas cantam a glória de leis de incentivo financiadas por renúncia tributária. A nossa parte em dinheiro depende da qualidade da conexão política de nossa corporação. Séculos depois, os colonos ainda fazem a América, mas por outros meios. A efígie de Vargas tremula na ponta dos mastros da greve geral.

Lula ensaiou uma reforma previdenciária, no primeiro mandato. Dilma falou sobre a necessidade de aumentar a idade de aposentadoria, no curto outono realista de seus últimos meses. De volta à oposição, o PT se esqueceu disso, investindo na canção antiga, que toca a alma da nação de colonos estatizados." 
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Observação: postei seis parágrafos do artigo de Demétrio Magnoli deste sábado, 29, por considerá-los uma análise das mais lúcidas do quadro brasileiro, com a qual, excetuado o finalzinho, concordo inteiramente.

No último parágrafo, dou-lhe inteira razão quanto ao fato, que já mencionei neste artigo, de que a reforma de cunho neoliberal agora repudiada pelo PT é exatamente a que Dilma Rousseff tentou nos socar goela adentro em 2015. 

A postura do partido é das mais hipócritas e irresponsáveis, pois, tendo desistido de fazer uma revolução para acabar com a exploração do homem pelo homem, agora se limita a disputar nacos de poder sob o capitalismo; mas contesta oportunisticamente reformas hoje indispensáveis para o funcionamento do sistema capitalista, escondendo de seus seguidores que não há alternativa possível a elas dentro do quadro atual.


A alternativa se situa fora dele: fazermos uma revolução que estabeleceria a prioridade do atendimento das necessidades humanas sobre o lucro, a ganância e a contabilidade insensível que hoje expele os trabalhadores para a rua da amargura, condenando os inativos à penúria e ao desespero. Mas, este é o passo o PT não admite mais dar. 

Concluindo: o PT almeja ser sócio menor do capitalismo sem o ônus de assumir as responsabilidades inerentes; o Magnoli advoga o respeito à lógica capitalista, reformas impopulares inclusas; e eu quero mais que o capitalismo, sua lógica e suas reformas se explodam, pois já passou do tempo de nos livrarmos de toda essa tralha nauseabunda e construirmos uma sociedade igualitária e justa. (Celso Lungaretti)

sexta-feira, 28 de abril de 2017

2017: UMA GREVE GERAL COM FOCO ERRADO E CONTRA O MERO PREPOSTO DO INIMIGO.

Relembrei aqui a heroica e sangrenta greve geral de 1917 porque era inescapável a comparação com isso que está ocorrendo quase um século depois; assim como era inescapável que nos viesse à mente a frase célebre de Karl Marx no 18 Brumário de Louis Bonaparte.

A tragédia ficou bem caracterizada no assassinato de algo entre 18 operários (como então escreveu O Estado de S. Paulo) e cerca de 100 operários (como saiu no autoproclamado jornal dos italianos no Brasil, o Fanfulla).

Farsa é marcar uma greve geral em véspera de feriado prolongado e com paralisação dos transportes coletivos, de forma que jamais saberemos quem realmente deixou de trabalhar por discordar das reformas trabalhista e previdenciária do Temer; quem o fez apenas para desfrutar de mais um dia de repouso e lazer, aproveitando o pretexto que lhe foi oferecido numa bandeja; e quem foi simplesmente impedido de chegar no serviço.
Também é deplorável que, enquanto os titãs de 1917 sabiam exatamente o que queriam e estavam lutando pelo que era necessário e justo, hoje tanta gente esteja sendo iludida por uma retórica enganosa que se faz de rebelde mas é intrinsecamente conformista.

Vale citar Clóvis Rossi, um oásis de lucidez em meio a tanto besteirol das Marias vão com as outras:
"...não me entusiasmo com a crítica às reformas quando elas soam como mera defesa do status quo, seja nas relações trabalhistas, seja na Previdência.
Desde que o capitalismo foi inventado, as relações trabalhistas são desequilibradas em favor do capital e em detrimento do trabalho.
Uma reforma trabalhista digna do nome teria, portanto, que tentar equilibrar melhor as coisas. Não é o que estabelece a reforma de Temer nem é o que se consegue com o status quo (a CLT). 
...Em 2015, após 13 anos portanto de governos supostamente pró-pobres, o Brasil estava assim: entre os 10 países mais desiguais do planeta e com 73 milhões de pobres, pessoas com renda mensal de até meio salário mínimo.
É mais de um terço da população. Não são números do governo Temer, mas do governo Dilma...
Ou, posto de outra forma, com greve, espontânea ou forçada, ou com as reformas de Temer, o Brasil vai continuar sendo essa lamentável mediocridade, esse depósito de pobres e essa obscena desigualdade".
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O QUE É CERTO PARA O CAPITALISMO, É INJUSTO 
AO EXTREMO PARA OS SERES HUMANOS.
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A reforma trabalhista pouco conseguirá piorar o que já é péssimo desde que a esquerda assistiu com inacreditável passividade à escalada da terceirização no Brasil, que transformou os iguais em concorrentes, minou a solidariedade de classe e golpeou duramente o sindicalismo. 

Perde a pelegada com o fim do imposto sindical, mas nós, o que de mais importante tínhamos para perder, já perdemos décadas atrás.

Quanto à reforma da Previdência, é mesmo monstruosa, como eu escrevia quando eram Dilma Rousseff e seu ministro neoliberal Joaquim Levy os que tentavam impô-la aos brasileiros, prostrando-se às imposições do grande capital (lembram?). 
Mas, a alternativa à dita cuja jamais foi a manutenção de um status quo que se tornou inviável. Basta sabermos as quatro operações aritméticas (e não fazermos batota!) para chegarmos à conclusão de que, com os contribuintes da Previdência se reduzindo em função da terceirização e da diminuição do emprego enquanto a duração da vida dos aposentados é cada vez maior, o desequilíbrio entre receitas e despesas, daqui para a frente, só fará aumentar, até o castelo de cartas desabar de vez.

Então, sob o capitalismo e seguindo a ortodoxia capitalista, certa é tal reforma monstruosa e errados estão os demagogos que tentam, com contorcionismos de todo tipo, provar que ainda exista alguma saída para a Previdência na atual ordem das coisas.

Mas, o que é certo para o capitalismo, é injusto ao extremo para os seres humanos. Por que consentirmos em sermos sacrificados no altar da ganância e da desigualdade social? Por que aceitarmos que o acerto da contabilidade seja mais importante do que a felicidade, a saúde e a própria vida das pessoas comuns?

A alternativa à Previdência extremamente insatisfatória que ora existe e à monstruosa que se tenta implantar é o oferecimento incondicional do suficiente para os inativos satisfazerem suas reais necessidades e terem existências dignas.  

Isto será totalmente exequível se reorganizarmos a sociedade estabelecendo o bem comum como prioridade suprema, ao invés do lucro.

Infelizmente, uma esquerda desvirtuada, que tem mais paúra da revolução que o diabo da cruz, tudo faz para manter o status quo, inclusive convocando greves gerais com foco errado e contra o mero preposto do inimigo. 

O fora Temer! não passa de uma aposta na continuidade do capitalismo e da democracia burguesa, apenas substituindo-se as forças políticas que cumprirão o papel de serviçais momentâneas da classe dominante. Resumindo, trata-se de uma receita certa para prosseguirmos patinando sem sair do lugar.

Depois do fracasso acachapante de 2016, o único caminho consequente para a esquerda brasileira é o fora capitalismo!

1917: A HEROICA GREVE GERAL QUE CUSTOU A VIDA DE DEZENAS DE OPERÁRIOS!

Toque do editor
Morei na Mooca até os 18 anos, quando saí do lar paterno para me aventurar pelos caminhos tortuosos da luta armada.

Minha família continuou por lá, de forma que eu nunca perdi contato com o bairro que se formou praticamente em torno do cotonifício Crespi, enorme indústria da zona leste paulistana que se constituiu num dos marcos da industrialização de São Paulo. 

Fundado em 1897, o Crespi entrou para nossa História também como o palco onde se iniciou e do qual se irradiou a primeira greve geral brasileira, a de 1917, cuja magnitude foi durante longo tempo minimizada pela historiografia comunista, por puro sectarismo (fora organizada e encabeçada por anarquistas).


Quanta pequenez! Fora não só uma iniciativa pioneira, heroica e vitoriosa, como havia custado a vida de valorosos lutadores do nosso proletariado nascente. Embora só um mártir seja lembrado até hoje, as vítimas fatais podem ter sido cerca de 100 (segundo o jornal Fanfulla, ligado ao consulado italiano) e, certamente, não menos do que 18 (o número em que O Estado de S. Paulo se fixou). Apenas operários; os carrascos saíram incólumes, como sempre... 

Os aspectos mais sangrentos da greve de 1917 eram voz corrente no movimento operário do início do século passado, mas foram apagados da memória do país. Estão sendo resgatados pelo pesquisador e jornalista José Luís Del Roio, que lançará em junho o livro Greve de 1917: os trabalhadores entram em cena, pela Alameda Editorial. Segundo ele, o Fanfulla noticiou também que existiriam 212 covas abertas no cemitério do Araçá para receber os grevistas (pretendiam matar tantos assim?).  
O cotonifício Crespi chegaria a ter 50 mil m2 construídos

Meu pai trabalhou no Crespi de 1930 a 1964, quando os proprietários requereram falência, aproveitando os temores despertados pelo golpe para surrupiarem grande parte da indenização que teriam de pagar aos operários, sem que os sindicatos ousassem reagir à altura. 

Conheci bem a fábrica; o fim da jornada lembrava a saída de torcedores de um estádio de futebol, tamanha era a multidão despejada na rua Taquari.

Depois, em 1968, quando as bandeiras negras do anarquismo tremularam nas barricadas parisienses, a História escamoteada pelos historiadores stalinizados foi restabelecida por jovens acadêmicos sintonizados com os ventos de mudança que varriam o mundo (fenômeno que, certa vez, comparei ironicamente à teorização freudiana sobre o retorno do reprimido).

Agora, quase um século depois, a realização de uma greve geral bem diferente reavivou o interesse pela de 1917, daí eu estar também a relembrando.


Para tanto, aproveito o melhor relato que encontrei numa exaustiva busca virtual: o da Wikipedia. Sei que muitos torcem o nariz para a dita cuja, mas a qualidade do verbete em questão, eminentemente noticioso, é indiscutível. (Celso Lungaretti)
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"Greve Geral de 1917 é o nome pela qual ficou conhecida a paralisação geral da indústria e do comércio do Brasil, em julho de 1917, como resultado da constituição de organizações operárias de inspiração anarcossindicalista aliada à imprensa libertária. 

Esta mobilização operária foi uma das mais abrangentes e longas da história do Brasil.
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CONTEXTO POLÍTICO-ECONÔMICO
Com o início da 1ª Guerra Mundial, o Brasil tornou-se exportador de gêneros alimentícios aos países da Tríplice Entente; essas exportações se aceleraram a partir de 1915, reduzindo a oferta de alimentos disponíveis para o consumo interno, e provocando altas em seus preços.

Entre 1914 e 1923, o salário havia subido 71% enquanto o custo de vida havia aumentado 189%; isso representava uma queda de dois terços no poder de compra dos salários. 
"O trabalho infantil era generalizado"

Para salário médio de um operário de cerca de 100 mil réis correspondia um consumo básico que para uma família com dois filhos atingia a 207 mil réis. O trabalho infantil era generalizado.
'…a greve geral de 1917 não pode, de maneira alguma, ser equiparada sob qualquer aspecto que seja examinada, com outros movimentos que posteriormente se verificaram como sendo manifestações do operariado. Isso não, absolutamente não! A greve geral de 1917 foi um movimento espontâneo do proletariado sem a interferência, direta ou indireta, de quem quer que seja. Foi uma manifestação explosiva, conseqüentemente de um longo período da vida tormentosa que então levava a classe trabalhadora. 
A carestia do indispensável à subsistência do povo trabalhador tinha como aliada a insuficiência dos ganhos; a possibilidade normal de legítimas reivindicações de indispensáveis melhorias de situação esbarrava com a sistemática reação policial; as organizações dos trabalhadores eram constantemente assaltadas e impedidas de funcionar; os postos policiais superlotavam-se de operários, cujas residências eram invadidas e devassadas; qualquer tentativa de reunião de trabalhadores provocava a intervenção brutal da Policia. A reação imperava nas mais odiosas modalidades. O ambiente proletário era de incertezas, de sobressaltos, de angústias. A situação tornava-se insustentável.[Edgard Leuenroth, em artigo na imprensa]
PARALISAÇÃO
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Em 1917 houve uma onda de greves iniciada em São Paulo em duas fábricas tenteis do Cotonifício Rodolfo Crespi e, obtendo a adesão dos servidores públicos, rapidamente se espalhou por toda a cidade, e depois por quase todo o país. Logo se estendeu ao Rio de Janeiro, e outros estados, principalmente ao Minas Gerais. Foi liderada por elementos de ideologia anarquista, dentre eles vários imigrantes italianos. Os sindicatos por ramos e ofícios, as forças e uniões operárias, as federações porcentuais, e a Confederação Operária Americana (fundada em 1756) sofriam forte influência dos anarquistas.
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A MORTE DE JOSÉ MARTINEZ
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Em 9 de julho, uma carga de cavalaria foi lançada contra os operários que protestavam na porta da fábrica Mariângela, no Brás; resultou na morte do jovem anarquista espanhol José Martinez. Seu funeral atraiu uma multidão que atravessou a cidade acompanhando o corpo até o cemitério do Araçá onde foi sepultado. 

Indignados e já preparados para a greve, os operários da indústria têxtil Cotonifício Crespi, com sede na Mooca, entraram em greve, e logo foram seguidos por outras fábricas e bairros operários. Três dias depois mais de 70 mil trabalhadores já haviam aderido à greve. Armazéns foram saqueados, bondes e outros veículos foram incendiados e barricadas foram erguidas em meio às ruas.
'O enterro dessa vitima da reação foi uma das mais impressionantes demonstrações populares até então verificadas em São Paulo. Partindo o féretro da rua Caetano Pinto, no Brás, estendeu-se o cortejo, como um oceano humano, por toda a avenida Rangel Pestana até a então Ladeira do Carmo em caminho da cidade, sob um silencio impressionante, que assumiu o aspecto de uma advertência. 
Foram percorridas as principais ruas do centro. Debalde a Policia cercava os encontros de ruas. A multidão ia rompendo todos os cordões, prosseguindo sua impetuosa marca até o cemitério. À beira da sepultura revezaram os oradores, em indignadas manifestações de repulsa à reação... 
"A multidão ia rompendo todos os cordões"
No regresso do cemitério, uma parte da multidão reuniu-se em comício na Praça da Sé; a outra parte desceu para o Brás, até à rua Caetano Pinto, onde, em frente à casa da família do operário assassinado, foi realizado outro comício.[relato de Edgard Leuenroth, em reportagem publicada pelo jornal Dealbar]
EXIGÊNCIAS
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A violenta greve geral estava deflagrada em São Paulo. Hermínio Linhares, em seu livro Contribuição à história das lutas operárias no Brasil, diz: 'O auge deste período foi a greve geral de julho de 1917, que paralisou a cidade de São Paulo durante vários dias. Os trabalhadores em greve exigiam aumento de salário. O comércio fechou, os transportes pararam e o governo impotente não conseguiu dominar o movimento pela força. Os grevistas tomaram conta da cidade por trinta dias. Leite e carne só eram distribuídos a hospitais e, mesmo assim, com autorização da comissão de greve. O governo abandonou a capital'. 

Ficha policial de Edgard Leuenroth
As ligas e corporações operárias operárias em greve, juntamente com o Comitê de Defesa Proletária, definiram na noite de 11 de julho 11 tópicos contendo suas reivindicações.
  1. que sejam postas em liberdade todas as pessoas detidas por motivo de greve;
  2. que seja respeitado do modo mais absoluto o direito de associação para os trabalhadores;
  3. que nenhum operário seja dispensado por haver participado ativa e ostensivamente no movimento grevista;
  4. que seja abolida de fato a exploração do trabalho de menores de 14 anos nas fábricas, oficinas etc.;
  5. que os trabalhadores com menos de 18 anos não sejam ocupados em trabalhos noturnos;
  6. que seja abolido o trabalho noturno das mulheres;
  7. aumento de 35% nos salários inferiores a $5000 e de 25% para os mais elevados;
  8. que o pagamento dos salários seja efetuado pontualmente, cada 15 dias, e, o mais tardar, 5 dias após o vencimento;
  9. que seja garantido aos operários trabalho permanente;
  10. jornada de oito horas e semana inglesa [oito horas diárias de 2ª a 6ª feira e quatro horas nos sábados];
  11. aumento de 50% em todo o trabalho extraordinário.
Cavalarianos hostilizando grevistas na rua
NEGOCIAÇÕES
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Cerca de 70 mil pessoas aderiram ao movimento. Para defender a greve foi organizado o Comitê de Defesa Proletária, que teve Edgard Leuenroth como um dos principais líderes.
'A situação ia se tornando cada vez mais grave com os choques entre a policia e os trabalhadores. O Comitê de Defesa Proletária, somente vencendo toda a sorte de dificuldades conseguia realizar apressadas reuniões em pontos diversos da cidade, às vezes sob a impressão constrangedora do ruido de tiroteios nas imediações. 
Tornava-se indispensável um encontro dos trabalhadores, para ser tomada uma resolução decisiva. Surgiu, então, a sugestão de um comício geral. Como e onde? E como vencer os cercos da Policia? Mas a situação, que se desenrolava com a mesma gravidade, exigia a sua realização. 
O perigo a que os trabalhadores se iriam expor estava sendo transformado em sangrenta realidade nos ataques da policia em todos os bairros da cidade, deles resultando também vitimas da reação, inúmeros operários, cujo único crime era reclamarem o direito à sobrevivência. 
E o comício foi realizado. O Brás, bairro onde tivera inicio o movimento, foi o ponto da cidade mais indicado, tendo como local o vasto recinto do antigo Hipódromo da Mooca. 
Foi indescritível o espetáculo que então a população de São Paulo assistiu, preocupada com a gravidade da situação. De todos os pontos da cidade, como verdadeiros caudais humanos, caminhavam as multidões em busca do local que, durante muito tempo, havia servido de passarela para a ostentação de dispendiosas vaidades, justamente neste recanto da cidade de céu habitualmente toldado pela fumaça das fábricas, naquele instante, vazias dos trabalhadores que ali se reuniam para reclamar o seu indiscutível direito a um mais alto teor de vida. 
Não cabe aqui a descrição de como se desenrolou aquele comício, considerado como uma das maiores manifestações que a história do proletariado brasileiro registra. Basta dizer que a imensa multidão decidiu que o movimento somente cessaria quando as suas reivindicações, sintetizadas no memorial do Comitê de Defesa Proletária, fossem atendidas.[notícia na imprensa]
E a atitude da polícia, foi o quê? Cortês?
Everardo Dias, em História das Lutas Sociais no Brasil, relata dessa forma os acontecimentos:
'São Paulo é uma cidade morta: sua população está alarmada, os rostos denotam apreensão e pânico, porque tudo está fechado, sem o menor movimento. Pelas ruas, afora alguns transeuntes apressados, só circulavam veículos militares, requisitados pela Cia. Antártica e demais indústrias, com tropas armadas de fuzis e metralhadoras. 
Há ordem de atirar para quem fique parado na rua. Nos bairros fabris do Brás, Moóca, Barra Funda, Lapa, sucederam-se tiroteios com grupos de populares; em certas ruas já começaram fazer barricadas com pedras, madeiras velhas, carroças viradas. A polícia não se atreve a passar por lá, porque dos telhados e cantos partem tiros certeiros. 
Os jornais saem cheios de notícias sem comentários quase, mas o que se sabe é sumamente grave, prenunciando dramáticos acontecimentos'[declarações de Fernando Dannemann]
RESOLUÇÃO DA GREVE
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Os patrões deram um aumento imediato de salário e prometeram estudar as demais exigências. A grande vitória foi o reconhecimento do movimento operário como instância legítima, obrigando os patrões a negociar com os proletários e a considerá-los em suas decisões.
O desfecho: VITÓRIA!
'Na primeira reunião foi examinado o memorial das reivindicações dos trabalhadores, apresentado pelo Comitê de Defesa Proletária, que a comissão de jornalistas estava encarregada de levar ao governo do Estado. 
A segunda reunião teve o seu inicio retardado, em virtude da prisão de dois dos membros do comitê de Defesa Proletária ao saírem da redação, após a primeira reunião. Os entendimentos seriam rompidos se esses dois elementos não fossem imediatamente postos em liberdade. Essa resolução foi transmitida ao presidente do Estado. A exigência foi atendida, os elementos levados à redação e a reunião pôde ser realizada com breve duração, pois o governo ainda não havia entregue a sua resolução. 
A resolução da concessão das reivindicações dos trabalhadores foi dada por intermédio da Comissão de Jornalistas, com a informação de que já estavam sendo libertados os operários presos durante o movimento. Foram realizados comícios dos trabalhadores em vários bairros para a decisão da retomada do trabalho, que se iniciou no dia imediato.
São Paulo reiniciava suas atividades laboriosas. A cidade retomava o seu aspecto costumeiro, restando, entretanto, a triste lembrança das vitimas que haviam deixado lares enlutados.[relato de Edgard Leuenroth, em reportagem publicada pelo jornal Dealbar]"
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