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domingo, 14 de fevereiro de 2021

A INCOMPETÊNCIA DO GOVERNO GENOCIDA MAXIMIZA O MORTICÍNIO DECORRENTE DE SUAS CONVICÇÕES BOÇAIS E DELIRANTES

drauzio varella
A VACINAÇÃO CONTRA O CORONAVÍRUS
 VIROU UMA BAGUNÇA NO BRASIL 
Olha a bagunça que virou a vacinação contra o coronavírus!

Reconhecido como um dos maiores programas do mundo, ao Programa Nacional de Imunizações caberia coordenar a distribuição das vacinas e estabelecer regras rígidas para definir as localidades e os grupos que deveriam receber as primeiras doses disponíveis.

Não faltaria conhecimento a um programa com mais de 45 anos de idade, que foi capaz de eliminar a varíola e a poliomielite do país; de vacinar 18 milhões de crianças contra a poliomielite num só dia e 100 milhões de pessoas contra a H1N1 em três meses, em 2010: e 80 milhões contra a influenza, em 2020.

Agora, sem autonomia para coordenar a estratégia de vacinação, o programa houve por bem pulverizar pelo país as poucas vacinas existentes, como se a epidemia ameaçasse todos os municípios com igual virulência. Ao lado desse equívoco, facultou a estados e municípios a adoção dos critérios para estabelecer prioridades, de acordo com as realidades locais.

A falta de uma coordenação centralizada com regras válidas para o país inteiro gerou essa confusão de grupos e de pessoas que subvertem a ordem prioritária e confundem a população, incapaz de entender porque em cada cidade a vacinação chega para uns e não para outros.

Profissionais formados em psicologia, biologia, veterinária, educação física, além de trabalhadores da área da saúde que nem sequer chegam perto dos doentes com Covid, são vacinados antes das mulheres e homens com mais de 80 anos. 

Enquanto nos entretemos com as imagens dos telejornais que mostram senhoras e senhores de 90 anos, infantilizados pelo repórter que lhes pergunta se estão felizes com a vacina, passa a boiada dos mais jovens que furam a fila.

Tem cabimento vacinar veterinários, terapeutas, personal trainers, escriturários de hospitais, antes dos mais velhos, que representam mais de 70% dos mortos? É justo proteger essa gente antes dos professores, dos policiais e de outras categorias mais expostas ao vírus?

A distribuição pulverizada das vacinas sem levar em conta a prevalência do coronavírus, as condições do sistema de saúde da localidade e as vagas disponíveis nos hospitais é demonstração inequívoca de incompetência.

Veja os exemplos do Amazonas e de Roraima, caríssima leitora: hospitais lotados, filas de doentes sentados à espera de um leito, UTIs sem vagas, pacientes transferidos para cidades a milhares de quilômetros, uma linhagem mutante do vírus bem mais contagiosa que se espalha pelo país.
O professor Van Helsing não estava disponível?

Em Manaus, se somarmos aos manauaras com mais de 60 anos aqueles com comorbidades, teremos cerca de 200 mil pessoas. No estado do Amazonas haveria 400 mil. 

Não seria mais lógico, neste momento, enviarmos para lá 800 mil doses de vacina, na tentativa de pôr ordem no caos e de conter a disseminação da linhagem mais perigosa? É preciso pós-doutoramento em Oxford para ter uma ideia dessas?

A imunização contra o coronavírus impõe pelo menos três grandes desafios. 

O primeiro é que nunca iniciamos uma campanha sem ter doses suficientes, situação a que chegamos pelas dificuldades de produção de vacinas disputadas pelo mundo inteiro e pela desídia de um governo negacionista que não se interessou em adquiri-las quando ainda havia disponibilidade.

O segundo é a necessidade de administrar duas doses da mesma vacina, com intervalo de algumas semanas: recebeu a primeira dose da Fiocruz/AstraZeneca, a segunda não pode ser a do Butantan/Sinovac, e vice-versa. Com a presente escassez, não será fácil organizar a distribuição de preparações fabricadas por empresas diferentes, para chegar de forma ordeira nas 38 mil salas de vacinação espalhadas pelo país.

O terceiro, talvez o mais grave, foi a substituição de especialistas competentes como a doutora Carla Domingues, que dirigiu o programa nacional de 2011 a 2019, por gente nomeada por afinidades corporativas e ideológicas. 
O atual ministro da saúde e as chefias de coordenação que retiraram das mãos do PNI o poder de decisão têm algo em comum com você e eu, prezado leitor: a falta absoluta de experiência com imunizações em massa.

Que azar. Quando o Brasil mais precisava de técnicos treinados para executar a difícil tarefa de vacinar seus habitantes, única forma de reduzir a mortalidade e dar alento à economia, caímos nas mãos de um Ministério da Saúde fragilizado, dirigido por amadores. (por Drauzio Varella)

sábado, 13 de fevereiro de 2021

NO LUGAR DE IMUNIZAR, FAZEMOS AQUILO QUE REALMENTE QUEREMOS: LINCHAR PESSOAS MALVADAS (imperdível!!!)

demétrio magnoli
A VACINAÇÃO COMO ESPETÁCULO
No Brasil, em média, vacinamos menos de 300 mil por dia. Sem escassez de imunizantes, seríamos capazes de vacinar perto de 2 milhões. Mas, mesmo agora, poderíamos vacinar facilmente 600 mil. A lentidão, que amplifica as mortes, não escandaliza quase ninguém. 

A indignação concentra-se na já lendária figura do fura-fila. É que, de fato, mais que vacinar, queremos colocar todo mundo no seu lugar numa hierarquia de prioridades. Na sociedade do espetáculo, passar julgamento moral vale mais que salvar vidas.

A cidade do Rio reservou um dia inteiro para cada grupo etário de um ano, dos 99 aos 80. Vacinas e enfermeiros despendem horas ociosas, diariamente, à espera do idoso certo. Legal, isso: garante que o idoso de 89 anos não passe na frente do camarada mais velho, de 93, participante de um grupo de maior risco.

São Paulo foi na mesma linha, economizando só um pouco do ridículo: reservou uma semana completa para a faixa dos 90 anos ou mais. Nas unidades de saúde, manhãs inteiras passaram na janela sem a presença de um único vacinável. Bem planejado: assim, evitamos aglomerações.

A fila perfeita é, claro, imperfeita. Profissionais de saúde, nossos heróis, vêm primeiro. Daí que imunizamos psicoterapeutas de 60 anos que trabalham on line antes de gente comum com mais de 80 anos. 

A parcimônia cumpre função não divulgada: vacinando bem devagar, escapamos do vexame de interromper a campanha por esgotamento das doses —e, portanto, o governo federal oculta seu atraso na aquisição de imunizantes. Por essa via, na sociedade do espetáculo, o negacionismo de direita estabelece uma aliança tácita com o humanismo de esquerda.

"Somos um país só!", gritou o Ministério da Saúde na deflagração da campanha da vacina, dizendo nas óbvias entrelinhas que o comando pertence ao governo federal (Bolsonaro), não ao governo paulista (Doria). 

Mas, em um país só, a estratégia de imunização em cenário de escassez priorizaria as regiões mais afetadas, que são também os berços de cepas mutantes do vírus. 

O Amazonas tem cerca de 510 mil habitantes com mais de 50 anos. Já poderíamos ter injetado a primeira dose em todos eles, sem deixar de vacinar os agentes de saúde da linha de frente e parcela dos idosos do país inteiro, se o slogan de Pazuello fosse mais que uma peça de propaganda política.

O governador de Nova York, Andrew Cuomo, não desconhece o efeito narcótico da fotografia da fila perfeita. Lá no começo, determinou a imunização exclusiva dos profissionais de saúde —e decretou multa de US$ 1 milhão para quem vacinasse algum fura-fila. Resultado: uma campanha em ritmo de tartaruga manca, em cenário de abundância de doses.

Cuomo só mudou de ideia quando emergiram imagens de ampolas descartadas por vencimento de prazo, saltando do zero ao infinito para autorizar a vacinação de todos os idosos com mais de 65 anos. Na sociedade do espetáculo, é a foto errada, não a razão, que provoca correções de rumo.

Quantos artigos destinados a envergonhar fura-filas já foram publicados na imprensa? Compare o espaço preenchido por eles com aquele destinado a questionar a eficácia prática de nossos critérios de vacinação. O cotejo oferece uma janela para a paisagem banhada de sol da hipocrisia nacional.

O julgamento moral, fundamento da cultura do cancelamento, está na moda. Apontar o dedo acusador para o fura-fila legal (a psicoterapeuta on line) ou ilegal (o estudante de medicina que nunca entrou num hospital) confere prestígio social, uma almejada recompensa psicológica.

A eficácia da vacinação depende de sua abrangência demográfica, pois todos estaremos imunes se a ampla maioria for imunizada. Mas preferimos esquecer isso para tratar a vacinação como questão individual. 

Por meio desse truque, no lugar de vacinar, fazemos o que realmente queremos: linchar pessoas malvadas. (por Demétrio Magnoli)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A OMISSÃO NOS TEMPOS DO CÓLERA – 1

ricardo kotscho
ESTÃO TODOS SÓ FAZENDO CONTAS
 PARA 2022. E COMO CHEGAREMOS ATÉ LÁ?
Na realidade paralela em que o país vive, parece até que 2021 já acabou. 

As instituições estão funcionando normalmente, o ambiente é favorável, o Carnaval vem aí, ziriguidum, depois virá o Natal, e logo chegarão as eleições presidenciais de 2022. 

Ao terminar de ler o noticiário do dia, fico-me perguntando em que mundo vivem nossos lideres políticos de todas as latitudes. 

Estão todos só fazendo contas de chegar para dar a largada na campanha eleitoral, como se não tivéssemos mais nenhum outro assunto a nos preocupar, em meio a uma pandemia devastadora, com a vacinação ainda engatinhando e sem sinais de recuperação econômica para criar empregos. 

Troca-troca de partidos, alianças para cá e para lá, acusações de traição e trança pés, uma esbórnia generalizada, em que só não se fala no que fazer para tirar o país do buraco. 

Com o comando político do país entregue pelo capitão e seus generais às tropas do Centrão, a nação assiste bestificada a essa macabra dança de cadeiras, com vaca estranhando bezerro e a plateia batendo palmas para ver louco dançar. 

Candidatos são lançados a granel e, logo em seguida, queimados, pelo fogo amigo

A única certeza, até o momento, é que Bolsonaro está em plena campanha pela reeleição, e não pensa em outra coisa. O resto pode esperar. 

A eleição no Congresso não só representou uma vitória acachapante do presidente, mas serviu também para rachar seus adversários da fracassada frente de oposição de Rodrigo Maia, que não tinha fundos. 

Tentaram misturar Jesus com Genésio e, no fim, boa parte do DEM, PSDB e MDB votou no candidato do governo, Arthur Lira, assim como dissidentes dos partidos de esquerda abandonaram Baleia Rossi. 

Como na dispersão de uma escola de samba derrotada, no meio da confusão ficaram órfãos pré-candidatos docentro lançados pela mídia, o nome de fantasia da velha direita. 

Moro, Mandetta, Huck, Doria, quem mais?, ficaram todos pelo caminho, procurando apoio em algum camarote amigo para não acabar fora do jogo, mas ficou difícil. 

ACM Neto, seguindo as pegadas do avô, logo levou o DEM para os braços do governo e colocou um aliado no Ministério da Cidadania, agora entregue ao Republicanos, o braço político da Igreja Universal, que vai cuidar do Bolsa Família (benza Deus!). 

Doria correu para juntar os cacos do PSDB e o MDB ficou onde sempre esteve: meio lá, meio cá. 

Lula botou na roda de novo o nome de Fernando Haddad, sem comover nem o PT, mas outras lideranças da esquerda chiaram, pedindo um projeto antes de discutir candidatos. 

No final da noite, enquanto os bolsonaristas comemoravam na balada sertaneja de Arthur Lira, vendo a avenida do poder se abrir à sua frente, a oposição não se entendia nem sobre o melhor caminho para voltar para casa. 

Ciro Gomes ficou só olhando o desfile, sem saber se voltava para o Ceará ou para Paris, em busca de um discurso para se apresentar novamente ao eleitorado. Vai pedir música no Fantástico, junto com Marina Silva. 

É o que temos para o momento, a caminho dos 10 milhões de contaminados pela covid-19, que já deixaram 233 mil mortos pelo caminho. 

Não corremos o risco de nada melhorar até 2022, dizem os otimistas, mas sempre pode piorar. Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)
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