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sexta-feira, 25 de outubro de 2024

GARGALHADA NO INFINITO (um conto distopico de Celso Lungaretti)

 Contar-lhes ou não a verdade?

Andrônicus vê sua face no espelho, os fios grisalhos se espalhando pela barba, as rugas na testa, o olhar cansado. 

Lá fora as vozes excitadas, os votos de boa sorte para quem fica e quem vai, o início das despedidas.

Uma hora para a partida. Ou sessenta minutos. Ou três mil e seiscentos segundos. Três mil e seiscentas ocasiões para dizer a primeira palavra, à qual iria seguir-se outra, e outra, e outra, até que ele desembuchasse tudo. 

E a festa acabaria nesse exato instante, substituída pelo desespero, talvez pancadaria, provável prostração.

De que lhes serviria a verdade? Por que destruir os planos elaborados com tanta argúcia e infinitos cuidados pelos Doze?

Andrônicus olha atentamente o auto-refletor, verificando se estão impressas em seu rosto as marcas do cinismo. 

Lembra de uma história que foi estudada em sua classe de Antiguidade Cultural, sobre alguém que fez um pacto com uma força maligna para permanecer eternamente jovem, enquanto uma imagem bidimensional sua é que envelhecia e se transformava.

Cada vez que aquele tal... Florian?... cometia um ato vil, hipócrita ou criminoso, a imagem ficava mais feia e repulsiva. "E eu, quão repulsivo deveria parecer?" – atormenta-se Andrônicus. Mas, malgrado seu estado de espírito, o que vê são as feições de um homem digno, apesar dos traços de fadiga e desânimo.

Quando Druso lhe expôs o plano, entretanto, tudo pareceu lógico e justificável.

O solo do Território se exauria de mês a mês, de semana a semana. 

A produção de cereais era cada vez menor. 

Verduras e frutas, então, haviam se tornado raríssimas. E as severas medidas anticoncepcionais foram tomadas demasiadamente tarde.

A Colônia estava com 1.248 habitantes. Em um ano, todos estariam se alimentando mal. Em dois, haveria fome e os mais fracos começariam a sucumbir. Em três, a subnutrição, doenças e matanças coletivas acabariam reduzindo a população a menos de cem pessoas. E, mesmo para estas, a perspectiva de vida seria pouco animadora – no máximo, cinco anos.

"Por que não administrarmos esse processo, evitando o sofrimento inútil?" – propôs Druso. 

"Podemos fazer uma seleção científica dos indivíduos que mais merecem sobreviver e eliminar os outros de maneira rápida e indolor. Reduzindo-se imediatamente o consumo de alimentos, o horizonte de vida dos remanescentes se ampliará para uns vinte anos. Talvez dê tempo para surgir alguma salvação..."

Foi assim que Druso lhe explicou a coisa toda, quando pediu sua adesão ao plano. E Andrônicus, único arquiteto de astronaves que sobrevivera às grandes catástrofes, não parou para avaliar implicações morais; começou logo a pensar nos detalhes práticos do projeto.

Talvez tenha pesado mesmo a possibilidade de voltar a exercer sua velha profissão – que, no caso, estava em estrita sintonia com a vocação.
Projetar e dirigir a construção de astronaves era o que melhor fazia, o momento em que sentia graça e desenvoltura no seu corpo habitualmente canhestro.

E tão absorto esteve, construindo a astronave para 1.150 pessoas, que nem tomou conhecimento do processo de seleção. "Ou eu estava deliberadamente me alheando?"

O certo é que sua atitude começou a mudar quando Ilana foi compartilhar de seu leito. Desde que a grande peste levara sua mulher e filhos, Andrônicus se esquivava de relacionamento afetivos.

Tudo marchava para o fim e amar uma pessoa era estar sujeito a vê-la morrer antes de si, impotente para mudar o destino. Preferia partir sozinho, não deixando nada e ninguém para trás.

O desfecho, aliás, lhe parecia próximo. Na batalha pelos alimentos, cada vez mais escassos, os fortes alijariam os fracos e a juventude se imporia à velhice. 

Seus 45 anos não lhe inspiravam grandes ilusões; ademais, achava que já vivera o suficiente. Plantador medíocre, tinha suficiente autocrítica para saber que era um dos membros menos úteis da Colônia.Trabalhar na construção da astronave lhe devolveu a auto-estima e injetou novo ânimo.

Afinal, fazia algo que nenhum outro poderia ou saberia fazer. E, a cada cálculo que realizava ou a cada solução prática encontrada para substituir componentes que já não existiam, mais sentia-se forte e revigorado. 
Sem o perceber, fazia as pazes consigo mesmo e com a vida, após longos meses de indiferença.

Gostaria de acreditar que foi esta mudança íntima que trouxe a jovem Ilana para o seu leito. Mas, quando conseguia raciocinar friamente, sem a embriaguez do prazer, era obrigado a admitir que ela provavelmente fora atraído por seu novo status. 

Pai da AstronaveArquiteto da Salvação – assim o chamavam. Tudo muito impressionante para uma moça que crescera no tempo das privações, sem ídolos para cultuar ou heróis para admirar.

Na primeira noite, ele a procurou quatro vezes, surpreendido com a própria virilidade, que parecia retornar com exigências multiplicadas. E por mais que tentasse conservar o equilíbrio, uma parte mais poderosa do seu eu o impelia a se atirar mais e mais sobre aquele corpo macio e tão desejável.
 

Ao amanhecer, com Ilana em sono profundo, Andrônicus surpreendeu-se a chorar baixinho, sem saber direito por quê. Foi naquele dia que passou a prestar mais atenção no que acontecia ao seu redor.

Agora, fica imensamente pesaroso ao perceber que uma bonita morena, parecida com Ilana, comemora sua inclusão na viagem. Capta o absurdo da situação: os que partem, acreditam que encontrarão a fartura e a possibilidade de começar nova vida em Alpha Centauri, então estão exultantes; os que ficam, recebem isto como uma condenação.

Quais haviam sido mesmo os critérios da seleção? Ah, sim, lembra Andrônicus: iriam se salvar ele próprio, os Doze, os melhores cientistas e técnicos, alguns plantadores vigorosos e três moças férteis para assegurarem a sobrevivência da espécie, caso fosse encontrada uma alternativa para alimentar os pósteros (esperança remota...). 

Druso dissera que estaria aí a matéria-prima para uma nova civilização, ou, ao menos, para elaborar um registro fiel daquela que se extinguia.

Andrônicus, desde o início, não conseguia evitar o pensamento de que ele só entrara no rol dos sobreviventes pelo fato de ser o único arquiteto de astronaves disponível – caso contrário, ninguém lamentaria que ele explodisse no espaço.

Seu redescoberto interesse pela vida, contudo, despertou-lhe o interesse pelos que morreriam. Vasculha suas lembranças, tentando compor um perfil de cada conhecido designado para a viagem sem volta.
Percebe que, mesmo não tendo um verdadeiro amigo em toda a Colônia, era cada vez mais difícil para ele aceitar a morte de pessoas com quem convivera distraidamente nos últimos anos. Até começa a perceber virtudes e méritos em quem antes absolutamente não o atraía.

Faltando 54 minutos para a partida, procura Druso e lhe impõe uma condição: só cumprirá seu papel até o fim se Ilana for excluída da relação de passageiros. O ancião, com um olhar irônico, aceita.

Difícil mesmo é consolar a jovem, que via como uma destinação natural contribuir para a colonização de Alpha Centauri, com seu vigor e fertilidade. Andrônicus fica tentado a contar-lhe a verdade, mas se contém. A muito custo, ainda conserva o autocontrole.

Trinta e oito minutos para a decolagem. Agora, os segundos se escoam rapidamente, a partida cada vez mais próxima e, com ela, a morte física de tantas pessoas e a morte moral de Andrônicus. Ele mal consegue tirar os olhos dos digitais, sentindo duas poderosas forças lutarem dentro de si, anulando-se e paralisando-o nessa espera ansiosa.

Sabe que, quaisquer que sejam as justificativas racionais para a eliminação daquela gente, ele e os Doze serão amaldiçoados pelos deuses. Organizaram tudo com calculismo e má fé, misturando argumentos lógicos e interesses particulares. 
"Não merecemos sobreviver", constata Andrônicus.

A alegria de viver, reencontrada com Ilana, volta-se contra ele, na forma de uma acusação: seu ninho amoroso se assentará sobre cadáveres.
E se falar? Aí, estará tirando a última esperança de toda a comunidade. Morrerão todos, do mesmo jeito, e sem nenhuma ilusão. Será um preço justo a pagar para que o cidadão Andrônicus conserve sua integridade moral?

Repassa os prós e contras, enquanto o tempo marcha inexoravelmente. A 28 minutos da decolagem, Ilana vem até ele, chorosa, após ter se despedido da família. 
"Pelo menos nós continuaremos juntos, é meu único consolo" – diz. Isto faz Andrônicus sair do impasse.

Compreende que o voo da morte piedosa não é errado em si, mas as pessoas que tomaram uma decisão tão terrível não devem lucrar com ela. Quem é capaz de sacrificar tantos e tantos companheiros em nome de uma lógica abstrata tem algo de desumano dentro de si, não serve como semente de uma nova civilização nem como oficiante do enterro da velha. Há outros mais dignos para esses papéis.

Ademais, a perspectiva de ter Ilana como recompensa de sua ignomínia é demais para Andrônicus. Só existe um caminho para livrá-lo da abjeção absoluta. E ele resolve ir em frente.

Os Doze estão reunidos na Sala do Poder. Compungidos, até chorosos, mas com a inabalável determinação de sobreviverem. Mesmo sabendo que têm poucos anos pela frente; cinicamente, dizem que, para cada um que morrer, mais alimentos sobrarão para os sobreviventes.

Andrônicus não vacila nem se deixa intimidar. Diz aos anciães que, ou anunciam sua decisão de seguirem também na astronave, ou toda a trama vai ser revelada e os Doze acabarão sendo trucidados pelo povo em fúria. O ultimato acaba sendo aceito.

Treze que se preparavam para viajar, são então forçados a desistir. Adrônicus faz questão de indicá-los pessoalmente: filósofos, poetas e músicos, que deles uma nova civilização não pode prescindir.

Na hora do embarque seu último olhar é para Ilana. "Céus, quanto tempo desperdicei!" – reflete, exatamente quando tempo é o que já não tem.

A bordo, é quem com mais veemência fala sobre as delícias que encontrarão em Alpha Centauri. Quase se convence de que seja realmente fértil e habitável, ao invés de mais um entre todos os planetas áridos e desolados que cercam o agonizante Território.

Nos momentos que antecedem a explosão, seus pensamentos são mesmo para o corpo de Ilana. E tão bem o recorda que, a poucos segundos da hora final, tem uma ereção.

Dando-se conta do absurdo da situação, não consegue reprimir um acesso de riso, que vai contagiando um a um os companheiros de viagem, até desembocar numa ruidosa e triunfal gargalhada.
O
bservações 
–  Já nem lembrava mais de haver escrito este conto nos anos 70, quando eu era devorador compulsivo das obras dos mestres do gênero sci-fi, como Philip K. Dick, Robert Heinlein, Kurt Vonnegut Jr., Richard Matheson, Robert Silverberg, Ray Bradbury, Joseph Heller e Ken Kesey, dentre outros.

Foi filho único. Fiz o melhor que pude, mas, trabalho pronto, percebi que ficara muito aquém dos autores a quem admirava. Resolvi que não era este o meu caminho na literatura.

Então, estou republicando-o agora apenas como uma curiosidade, já que o companheiro Dalton acaba de fazer também sua incursão pela ficção científica.

Olhando para trás, costumo refletir sobre o que seria da minha vida se tomasse decisões que cogitei e acabei descartando. 

Como a de ir reconstruir a minha vida no exterior tão logo me livrasse dos quatro processos a que respondia na Justiça Militar por minha militância revolucionária. Tendo isto demorado vários anos para acontecer, veio-me a esperança de que logo o Brasil se redemocratizaria e resolvi esperar para participar das obras de reconstrução.

E se houvesse aceitado a proposta do cineasta Roberto Santos, que me convidou para ser seu assistente de direção, teria me dado bem como roteirista e provavelmente diretor  de filmes? 

Sei lá, mas, como bem disse o Abel Silva, nada do que posso me alucina tanto quanto o que não fiz... (CL)

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

DE UM MANUSCRITO SEM TÍTULO QUE REENCONTREI EM MEIO AOS RASCUNHOS DOS MUITOS CAMINHOS QUE NÃO TRILHEI

seria preciso reinventar o sol, a chuva, a floresta, o amor, a vida, o delírio... sentir de novo o sangue ferver, o corpo inteiro latejar, em fúria, em beleza, num mergulho tão profundo que apagasse tudo, as derrotas, a violência dos porões e o tédio das pequenas traições diárias repetidas e esse caminhar sem objetivo nas terras do marasmo colorido

ser de novo homem e mulher, uma perfeição que se esgota em suspiros e êxtases, o céu azul, o verde da natureza e o espelho dos mares, ah!, esse absurdo penar quando tudo seria tão simples, eu e você, num abraço, num só laço, um só corpo, que se completa, consome, fragmenta e recompõe, para além do horror e da morte, no tempo eterno do sonho, do sexo, da loucura ou da divindade
neste invólucro/quarto fechado amamos escondidos, sucumbidos, angustiados, sabendo que lá fora nos espera mais um dia de trabalhos inúteis, esperas e desencontros, catálogos e etiquetas, blocos que desabam sobre nossas cabeças com o peso das verdades petrificadas, 
pronunciamentos oficiais e tabelas de preços, nessa confusão ofegante, luzes e clarins, sonhos macabros e mortíferos, civilização da miragem e da agonia, que nos esvazia em cada secretária-zumbi de cada executivo que não nos quer receber, nem ver, nem ser, quanto medo atrás de tanto óculos

no teu corpo me contemplo e me vejo belo, e te vejo bela, e te sinto minha, em meio ao caos e ao medo eu te tomo, te abraço e penetro, e me sinto, e te sinto, perdido, encontrado, dilacerado e ainda assim invicto – lutador e quixote de um mundo em derradeiras convulsões – procuro a chama que me evoque o começo dos tempos e o elo pedido da felicidade e prazer, amo logo existo, trepo logo vivo, sonho logo sobreviverei, sou livre logo me matarão
.

tocaram a campainha. os dois permaneceram se amando. um, dois, vários toques. golpes na porta. seus corpos suados de amor, na plenitude e no abandono, entre a morte e a vida, os sentidos fragmentados, eles unidos, no êxtase aguardado, sonhado, total, final 

a porta cedeu. engatilharam-se as armas. mas nem os disparos conseguiram separá-los. depois de mortos, desfiguraram-lhes os rostos, pois não conseguiram suportar a expressão de triunfo que neles ainda perdurava

Precisando consultar um documento oficial para uma formalidade burocrática, tive de revirar a caixa das velharias e encontrei o texto acima, 
em meia face de um papel 
amarelado pelo tempo, quase ilegível.

Utilizando o verso de uma folha de press release, ainda por cima! Eu provavelmente estava numa fase de vacas magras, para evitar gastos tão ínfimos. Enfim, pelo menos serviu 
para eu descobrir o ano do manuscrito: 1975. 

E afinal me recordei de que, após passá-lo a limpo, eu o inscrevi num concurso de contos eróticos da revista Status, apesar de o fim do mundo ser uma possibilidade mais plausível naquele momento do que eu obter a vitória com algo tão discrepante do que
os promotores queriam receber. 

E hoje, de que serve publicá-lo? Sei lá. Talvez para ser fiel ao jovem revoltado e sonhador que
eu era quando escrevia assim de estalo, sem parar para pensar, buscando a
 autenticidade acima de tudo e ainda longe do formato profissional
que  meus textos adquiririam com o tempo.   

Mesmo depois dos horrores de minha temporada no inferno, ainda era um bocado ingênuo. O 
que não me impede de
agora sentir saudades daquele período de tantas 
indefinições e de sentimentos à 
flor da pele. (CL)

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

DOIS CENÁRIOS FUTURISTAS DO DALTON ROSADO

PRODUÇÃO DA RIQUEZA ABSTRATA 
vs. PRODUÇÃO DA RIQUEZA MATERIAL 
.
1) A barbárie
.
Era 2049, justamente cento e vinte anos após a Grande Depressão de 1929. O país (e o mundo) passava por um período de redefinição social, após as guerras generalizadas que dissolveram a ordem constitucional em cada nação. 

Vivia-se uma anomia social e as pessoas, fugindo da guerra civil, buscavam um novo modo de produção para escaparem da fome e da violência que se instalara. 

Havia também preocupação com a escalada de fenômenos climáticos adversos que assolavam o Planeta. Mais terremotos, tufões, furacões, tornados, tsunamis, incêndios florestais, secas e inundações. Tudo isso causado pelo aquecimento global que, face à insistência na vida social mercantil, não fora evitado.

Neste cenário vivia, com sua família, um grande industrial falido. Moravam todos numa fazenda que um dia lhe pertencera, como uma de suas muitas propriedades e, depois, como a única propriedade restara após a decretação judicial de indisponibilidade dos seus bens. 

Agora, contudo, era parte da massa falida, administrada por um síndico que desaparecera. O processo fora suspenso pela completa paralisia do poder judiciário (até os juízes haviam abandonado as cidades onde exerciam seu ofício!).  

Sobrou para a família o refúgio nessa fazenda que outrora lhe pertencera exclusivamente, mas que agora ela era compartilhada com centenas de famílias que ali se instalaram à força, algumas em acampamentos improvisados e outras em toscas construções inacabadas.

A posse nominal (que deixara de ter qualquer importância, pois o direito de propriedade não fazia mais sentido) ainda estava em nome do filho do referido industrial: ao nascer ele a recebera como presente,  tendo a doação sido registrada em cartório.  
A tal fazenda, apesar de o terreno ser fértil e de haver um rio a margeando (garantia de água abundante para as plantações), tinha valor inexpressivo, em contraste com o vulto do patrimônio industrial à época em que ocorreu a despretensiosa doação. Agora ela possuía grande valor material; era a alternativa à fome.
  
Já não havia um padrão monetário a mensurar qualquer bem, pois a moeda simplesmente havia perdido poder de compra e desaparecera. O Estado, falido, se desintegrara e as forças militares, sem salários, desertaram e se juntaram aos civis na luta pela sobrevivência. 

A falta de dinheiro era completa, provocada pela falência do Estado e do padrão monetário oficial, bem como pelo confisco dos depósitos bancários, decretado tanto pelo governo como pela Justiça.

Aliás, após anos de disputa judicial pela propriedade dos mesmos, descobriu-se que os valores respectivos haviam simplesmente evaporado: os bancos já não possuíam em seus cofres papel-moeda para devolver aos depositantes. E, mesmo que ainda existisse, já não teria nenhuma serventia, pois o processo inflacionário havia reduzido seu valor de compra a zero. 

Nas cidades reinava a escassez de alimentos e os supermercados, temendo os saques, haviam fechado as suas portas há tempos, quando ainda havia moeda circulando. 

A maioria das casas estava desocupada, pois seus moradores tinham migrado para o interior, principalmente para fazendas, granjas e sítios nos quais ainda podiam plantar e criar, obtendo alguns alimentos. Era a forma de vida ainda viável.

As poucas vendas ainda efetuadas nas cidades se davam pelo sistema de pagamentos antecipados, feitos num tipo de moeda criada pelo câmbio negro e convencionalmente ainda aceita, intermediadas por escritórios, sem que se soubesse o esconderijo das mercadorias, com entregas protegidas por milícias armadas. 

Tais moedas eram obtidas pelo sistema de venda de alimentos produzidos no interior e transportados clandestinamente, ou de objetos que tivessem um valor de uso qualquer (alimento excedente, relógio, um sapato feito artesanalmente, roupas, utensílios domésticos, etc.).                      

Inexistia governo reconhecido e a vida na cidade se tornara quase inviável. Pouquíssimas famílias e renitentes salteadores eram os únicos que nelas permaneciam.  

As terras haviam voltado e ter importância vital na medida em que a produção industrial urbana estrara em colapso pela inexistência de um padrão monetário oficial e o redivivo escambo não viabilizava operações mercantis de maior monta. 

Quase todas as fábricas haviam fechado. As poucas ainda funcionando eram tocadas por seus antigos trabalhadores, que se propuseram a produzir bens para suprir necessidades urgentes de todos (principalmente para as fazendas). Os insumos a serem processados industrialmente eram adquiridos clandestinamente e, não raro, tais núcleos produtivos eram saqueados por turbas desesperadas e agressivas. Somente nas fazendas é que se podiam respirar ares de vida razoavelmente civilizada.

Mas já se pensava na retomada da produção sem a interveniência da forma-valor, pois a necessidade aos poucos ia arejando as consciências. Para um número cada vez maior de pessoas caía a ficha de que em nenhum produto existe um grama sequer de dinheiro. A vida começava a florescer sob outras bases.
  
2) Náufragos sobreviventes da utopia
.
Corria o ano de 2099. A vida transcorria sob outro paradigma após a implosão completa do sistema financeiro internacional que ocorrera em 2049, abolindo a forma-valor e a riqueza abstrata (consequentemente, haviam sido varridos os conceitos de trabalho abstrato, mercadoria e dinheiro). Já tinham sido parcialmente superadas as cicatrizes das catástrofes bélico-ecológicas que culminaram em 2059 em uma escassez de água que provocou a morte de 30% da população mundial. 

As gerações mais jovens haviam nascido depois de extinta a mediação social sob a forma-valor, só conhecendo por relatos do passado o sistema produtor de mercadorias, no qual todos precisavam dar a alguém chamado patrão, de modo privado e pessoal, parte daquilo que haviam produzido e que era mensurado por uma coisa chamada dinheiro

Estranhavam que tal sistema proporcionasse um padrão de vida majestático para uns poucos, em detrimento da esmagadora maioria; e que as pessoas aceitassem passivamente a irracionalidade e as injustiças. Aí alguém lhes explicava que tudo lhes era imposto mediante coerção sistêmica psicológica, institucional, legal e física (manu militari). 

Na nova realidade, os bens necessários ao consumo humano abundavam de tal forma que todos os itens (produzidos de forma ecologicamente correta) eram disponibilizados para todas as pessoas. Poucos produtos ficavam excedentes ou apodreciam antes de consumidos, graças a um planejamento que funcionava quase à perfeição.

Os centros de abastecimento ficavam à disposição dos consumidores, que se abasteciam com aquilo de que realmente necessitavam naquele momento, pois preferiam consumir alimentos frescos e sabiam que nada daquilo faltaria nas prateleiras nos dias subsequentes. Não mais havia o sentido de acumulação privada, que deixara de ter sentido prático. 

Assim se vivia porque a tecnologia e o saber, bem como todos os recursos naturais, agora beneficiavam toda a humanidade, racional e indistintamente. Ninguém precisava roubar itens de consumo, já que não havia o conceito de riqueza abstrata privada ou estatal a ser acumulada (nem mesmo o conceito jurídico de propriedade), mas apenas o direito de posse dos bens de uso pessoal necessários para os seres humanos. O Direito, agora, correspondia ao melhor sentido de Justiça. 

Os locais de moradia eram projetados de forma ecologicamente correta para enfrentar os problemas ainda decorrentes da hecatombe bélica e ecológica (terremotos, resíduos de radiatividade e aquecimento da temperatura) que se abatera sobre o Planeta, fruto da irracionalidade das práticas adotadas em décadas anteriores.

A vida social era tranquila e os crimes contra a vida, muito raros (quase sempre de natureza passional ou emocional, jamais patrimonial). Não havia polícia, mas poucas pessoas com funções judiciárias penais. 

A produção de bens e serviços exigia do cidadão apenas duas horas diárias, geralmente despendidas no controle de equipamentos tecnológicos, sendo rara a atividade que demandava esforço físico mais intenso. Assim, as pessoas tinham bastante tempo para o chamado ócio produtivo (lazer, esportes, artes, literatura, convívio social, etc.). A locomoção em transportes coletivos movidos a energia limpa era cômoda e rápida.

Surgiram problemas inesperados como o aumento espantoso da resistência dos microrganismos bacteriológicos aos antibióticos, daí a necessidade de esforços concentrados na batalha contra as epidemias; e chuvas de meteoros que começaram a ameaçar o Planeta.

Mas, como já não havia beligerância fratricida entre os homens, tais problemas foram sendo por eles resolvidos mais facilmente.

Ou não? (por Dalton Rosado)

"Os bancos de caixas fortes/ que eram rochas, 
se quebraram/ e um rio de dinheiro correu"
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